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01/11/2002 - Edição número 1

 

Híndisçi

Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Quando dá aquela vontade
Rafael Luiz Reinehr

Balde de Tinta
Evelise Birck Rodrigues

O Estudo da Música com o Metrônomo
Fabiano F.C.

A Era de Aquarius está aí, acreditemos ou não!
Rafael Luiz Reinehr

PS:
Rafael Luiz Reinehr

 

 

Editorial

Estamos aqui, na virada do milênio (pelo menos para quem usa o calendário gregoriano!) para introduzir um novo "fanzine" em meio a tantos já existentes em todos cantos desse nosso amado planeta. Não sei se fanzine é o melhor rótulo a ser dado a este "jornalzinho", a esta "gazeta", a este "informativo", ou como quer que o chamemos. O que importa mesmo é que o Simplicíssimo veio trazer muita cultura para aquelas cabeças atingidas pelo seu estímulo. Começando hoje, e a cada 2 semanas, o jornal vai trazer artigos sobre música, filosofia, política, cinema, economia, ética, medicina, física, literatura, religião, culinária, esportes e sobre tudo aquilo que nossos colunistas quiserem. Aí chegamos em um aspecto interessante deste zine: a participação do leitor é bem-vinda a qualquer momento, não só para criticar e dar sugestões mas também para fazer o jornal. Artigos originais escritos por qualquer um podem vir a ser publicados, basta enviá-los por e-mail para superjazz7@terra.com.br Como todo meio de comunicação que se preza, o Simplicíssimo não toma partido em nenhum assunto, estando sempre em cima do muro, respeitando assim a liberdade individual de cada um de seus colaboradores, que têm a inteira responsabilidade pelos artigos aqui publicados. Nessa primeira (e histórica) edição temos alguns artigos redigidos originalmente com o intuito de serem publicados em um fanzine virtual chamado "Joe Volume", que não deslanchou, sendo então gentilmente cedidos para o Simplicíssimo. O primeiro artigo, "Quando dá aquela vontade..." , fala sobre o desejo que alguns de nós às vezes têm de registrar as coisas, e a ajuda que a criatividade dá para enfeitarmos nossos escritos. Já em "Balde de Tinta" temos um estímulo à reflexão: nem sempre coisas desagradáveis que nos acontecem são propositais; façamos o melhor possível. No terceiro artigo, "O Estudo da música com o metrônomo", é feita uma viagem psicodélica sobre metrônomos, mutantes, Nélson Gonçalves, Lobão, Herbert Vianna e o empréstimo modal. Só lendo pra crer! Acabamos nossa primeira jornada com uma rápida reflexão sobre o significado do momento em que vivemos e algumas perspectivas para as próximas edições do Simplicíssimo. Espero sinceramente que algumas pessoas se interessem por esta humilde publicação, e passem de leitores a colaboradores ativos, fazendo deste fanzine um retrato daquilo que pensam e sentem. Um grande abraço a todos e muita felicidade neste novo milênio!

Rafael Luiz Reinehr – Editor

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Quando dá aquela vontade...
Rafael Luiz Reinehr

Só de ler o título, podemos imaginar uma porção de coisas: quando dá aquela vontade de beijar alguém, quando dá aquela vontade de encher alguém de porrada, quando dá aquela vontade de ir ao banheiro, quando dá aquela vontade de tirar toda a roupa daquela pessoa, quando dá aquela vontade de não fazer nada, enfim, quando dá aquela vontade de fazer (ou não) alguma coisa qualquer. Mas não foi por causa de nenhuma dessas vontades que eu resolvi escrever. Simplesmente resolvi escrever por que me deu aquela vontade... Bem, aqui estou eu... A esta altura você, que continua lendo, já deve estar esbravejando e se perguntando onde é que essa conversa toda vai levar. Olha, eu ainda não sei, mas de repente ainda sai algo de bom. Continue lendo! Na verdade, agora são 23:54 de um sábado chuvoso e eu estou sozinho aqui em casa e, ao invés de olhar um filme na TV, estudar ou mesmo dormir, resolvi escrever. Há alguns dias, essa vontade tem crescido enormemente. Em vários momentos me pego pensando em algumas coisas, algumas úteis, outras nem tanto, algumas criativas e que merecem ser registradas (a minoria delas) e outras simples reflexões pessoais para uso particular mas que, por algum motivo, quero deixar gravadas em algum lugar. Não foi o que aconteceu dessa vez. Agora há pouco, o que se sucedeu é que uma vontade de escrever surgiu do nada, sem haver um assunto sobre o qual falar ou um motivo identificável para tanto. No mesmo instante realizei (do inglês "to realize") que poderia escrever justamente sobre isso: a vontade de escrever sem mesmo saber o porquê! Nossa! E não é que funciona? Eu estou escrevendo praticamente sem parar. Cada vez que eu termino uma sentença, já vem outra em minha cabeça. Será que a falta de assunto é um estímulo à nossa inteligência? Nããã... Essa coisa de escrever é ao menos interessante. Quem já teve uma espécie de diário, sabe como é bom reler coisas escritas há meses ou anos atrás. Claro que às vezes isso nos faz lembrar de coisas que não gostamos, mas sempre aprendemos com isso. Mas a maior parte das coisas geralmente são acontecimentos e lembranças boas, que conseguimos reviver em parte ao lermos aquelas memórias. Têm aqueles que têm mania de levar junto consigo um bloquinho ou um caderninho de anotações para anotarem idéias que lhes vêm à telha nos mais variados momentos. Assim não deixam escapar momentos raros de genialidade, passando tudo para o papel, desenvolvendo mais tarde suas idéias. Eu mesmo já pensei em fazer isso. Quem sabe eu comece em breve... Bem, acho que a criatividade acabou... Vou pegar uma água para ver se ela volta... Caso você tenha continuado a leitura e chegado até aqui, parabéns! Caso não... ...bem, não interessa, posso dizer os palavrões que quiser que você não os terá lido mesmo, he-he-he! Gostaria que me respondessem algo: será que escrever o que se pensa nos ajuda a resolver nossos problemas? Será que a solução se torna mais clara depois de avistarmos em um papel aquilo que nos aflige? E será que além de escrevermos as perguntas, devemos escrever também as respostas antes de pô-las em prática? Faça essa experiência: escreva suas dúvidas e as possíveis respostas e veja se isso lhe ajuda de alguma forma. Depois me conte. É. É isso aí! Chega um momento, finalmente, em que chega aquela vontade de parar de escrever. Dá aquela vontade de ir dormir... Isso me aconteceu agora. Estou indo. Mas a gente se vê por aí. Ou não. Fiquem bem, e se cuidem. Tudo de bom. Tchau.

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Balde de tinta
Evelise Birck Rodrigues

E de todas as coisas que se faz, a mais importante de todas é a que se está fazendo no momento. Nada é tão importante como comer, quando se está com fome; nada é tão essencial quanto dormir, quando se está cansado. É preciso fazer o presente momento com tanta perfeição que, quando olharmos para trás, termos a certeza de ser ter feito o melhor possível. Muitas vezes nos dedicamos à uma obra, se gasta tempo, esmero e talento, e quando tudo parece encerrado, e tudo está como queríamos, acontece algum imprevisto e, como uma tempestade, desmoronam todos os nossos castelos num piscar de olhos. Não é culpa de ninguém, simplesmente acontece. E não é uma, nem duas vezes que isso acontece... tantas e tantas. Agora mesmo acabei de gastar a minha manhã de segunda feira pintando um cartaz de 3,5 x 1,2m, que havia ficado uma beleza. Do além, surgiu um colega que, entrando estabanado na sala, chutou, sem querer, um pote de tinta aberto que estava perto da faixa. Não preciso explicar o que aconteceu, vocês imaginam. No momento senti uma angústia imensa de pular no pescoço do rapaz e para enchê-lo de tapas, mas seu semblante apavorado não permitia. Sentiu-se tão mal e desculpou-se tantas vezes o quanto pôde. A culpa não era dele, apenas estava distraído e de maneira alguma imaginaria tal pote de tinta no seu caminho. Poderia ter-lhe dito para que olhasse por onde andava, mas quem de nós olha. Preferi ficar calada. Observando o novo tom de arte moderna da minha obra-prima. Olhei tanto que chegou a doer, mas a culpa era minha. Enquanto os rapazes faziam um remendo no borrão para consertar, eu catatônica sentada no chão. Não havia feito o meu melhor e estava me sentindo mal por isso. Era meu dever ter fechado aquele maldito pote e mantê-lo afastado do cartaz, mas... que raiva eu senti naquele momento, raiva própria. Comecei meu auto-aprendizado. Alguns que leiam este texto, (se é que alguém vai ler) podem achar um assunto banal escrever sobre um singelo borrão de tinta. Não tiro a razão de ninguém. Sofremos do mal de esperar a gota d'água para entornar o copo. Para mim, serviu como esta gota. Espero que este texto seja a gota para alguém. Façamos o nosso melhor possível.

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O Estudo da Música com o Metrônomo
Fabiano F. C.

O uso do metrônomo é importante para aqueles que desejam obter um estudo que confira qualidade à sua música. Certamente, com esse uso, é preciso muita disciplina, pois é difícil ter paciência para se submeter a ficar minutos ou horas tocando o seu instrumento exatamente na cadência determinada por aquele pequeno relógio. Os Mutantes foram a primeira banda de Rock psicodélico do Brasil. Entre as suas músicas está a patética "Chão de Estrelas", à qual eles fazem uma sátira àqueles cantores da Velha Guarda estilo Nélson Gonçalves ou Sílvio Caldas. Nélson Gonçalves foi um cantor que passou por uma barra pois teve um tempo que era viciado em cocaína. Nos anos 90, tocou com Lobão Lobão também foi outro cantor viciado em cocaína. No tempo em que passou na prisão, ele distribuía barbitúricos entre os presos para tentar tirá-los do vício. Na década de 80, Lobão era tido como subversivo, um "líder da resistência contra a ordem estabelecida". O próprio Lobão conta que na época se fez muito alarde em torno de seu nome, e que a sua pessoa não tinha tanto poder assim. Enfim, o que importa é saber que Lobão hoje em dia não emplaca mais sucessos do calibre de pérolas da MPB como Vida Bandida, Girassóis da Noite, Chorando no Campo, Me Chama, Por Tudo o que For, entre outras. Por falar em Chorando no Campo, é interessante observar que a harmonia de sua música é semelhante à harmonia de "Vida de Cachorro", dos Mutantes, tocada com violão de corda de aço. A música Ska de Herbert Vianna sem dúvida é uma bela música; é mais uma das quais Vianna usa e abusa dos pedais de efeito tipo "chorus" de sua guitarra... O efeito "chorus" é um bonito efeito para guitarra. Seu princípio baseia-se na duplicação de uma nota com outra nota igual à primeira mas com a freqüência levemente alterada, dando uma textura "espacial" ao som. A harmonia de Ska é a seguinte: Am - Dm - B - E . Na hora do refrão, é que vem a "surpresa": a harmonia muda para C#m7/4 - C7+/4 - Bm - E, mudando o tom da música de lá menor para lá maior, o que inclusive se chama na música de "empréstimo modal". O empréstimo modal é quando tu pegas um tom da música que é maior e muda para o mesmo tom só que menor, ou vice-versa. Por exemplo, se o tom da música está em Si menor, ele passará a ser Si maior. No empréstimo modal, há alteração de 3 notas da escala: a terça, a sexta e a sétima, que sobem meio tom na passagem de menor para maior e descem meio tom na passagem de maior para menor. E lembre-se: dia 4 de julho é o Dia do Cooperativismo.

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A Era de Aquarius está aí, acreditemos ou não!
Rafael Luiz Reinehr

Não sei de onde ouvi, há mais de 10 anos atrás que na passagem para o terceiro milênio iniciaria a "Era de Aquarius", e que nesse período histórico/místico ocorreria uma grande revolução universal e que em nosso planeta sobreviria um tempo de compreensão, solidariedade, entendimento felicidade e amor, caracterizando a "Era do Humanismo". Quer acreditemos ou não nessa "previsão", temos que concordar que, da forma que as coisas estão hoje em dia, na dá pra agüentar por muito mais tempo. Vivemos em um Mundo extremamente individualista, onde a busca pelo poder, quer seja no nível familiar ou mesmo no nível global tomou conta da grande massa. O consumismo nunca esteve tão em voga. A Ganância atingiu seu ápice. 2500 anos após a Aurora da Civilização Ocidental na Grécia Clássica, essa mesma civilização ocidental que havia mostrado gradualmente caminhos para o desenvolvimento e o progresso da sociedade humana, passou, principalmente nos últimos duzentos anos e, de forma acelerada neste século, a mostrar também caminhos assustadores, que podem levar inclusive à extinção da raça humana neste planeta. A bomba atômica, a camada de ozônio, o superaquecimento global, a poluição derivada do petróleo e a perigosíssima poluição nuclear são todos frutos do desenvolvimento irracional e irresponsável da nossa civilização, colocando em risco vidas sobre as quais não temos direito de interferir, vidas que estão sobre esse planeta muito antes de existirmos. Como disse uma vez o paleontólogo Stephen Jay Gould, em relação à vida neste planeta: "As bactérias estão sobre a face da terra há pelo menos 3.500.000 anos; porque se preocupariam com uma espécie insignificante que nem completou 200.000 anos de existência?". Isso faz pensar... Desde que passamos a existir, vivemos com a sensação que somos os verdadeiros, legítimos e únicos donos desse planeta, e realmente agimos assim, passando por cima da natureza como se ela estivesse totalmente a nosso dispor. No início, enquanto dela tirávamos apenas nossa subsistência, o relacionamento era bom. Quando passamos a querer subjugá-la, sem entender seus mecanismos básicos de funcionamento e o seu motivo de ser, ela começou a demonstrar sinais de irritação, que todos estamos sentindo nos dias de hoje. Além dos problemas de relacionamento com a Natureza, temos outro problema talvez tão grave quanto esse para resolver: nosso relacionamento com nossos semelhantes. Mesmo que essa coisa de Aquarius seja bobagem, não deixemos que a idéia que ela traz seja esquecida. Parafraseando o título de um livro, ainda a ser publicado, que diz respeito a essa mania de livros de auto-ajuda: "Pare de se auto-ajudar - E ajude aos outros". Deixemos bastante de nosso individualismo de lado. Tenho a plena certeza de que todas as coisas boas que fazemos acabam refletindo e voltando para nós (assim como as coisas ruins). A física quântica explica isso: interdependência, manja? Bem, muito mais pode (e vai!) ser dito sobre esse assunto. Finda uma fase da nossa existência na Terra, vamos encarar de frente os desafios que nos esperam. Espero, com mais inteligência e prudência, sem pressa, pois, se o tempo realmente é infinito, temos tempo de sobra...

"Todos têm um propósito de vida... Um dom singular ou um talento único para dar aos outros. E quando misturamos esse talento singular com benefícios aos outros experimentamos o êxtase da exultação de nosso próprio espírito, entre todos, o supremo objetivo..."

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PS: A Feira do Livro começou hoje. Compareçam e devorem cultura. Jóias raras como "Ulisses" de James Joyce, traduzido pelo Houaiss; "A Estrutura das Revoluções Científicas" de Thomas Kuhn; "A Crise do Nosso Tempo", de Pitirim Sorokin; "História das Idéias e Movimentos Anarquistas" - volumes 1 e 2, de George Woodcock e "Textos Anarquistas" de Michel Alexandrovich Bakunin; "O Discurso Filosófico da Modernidade", de Jürgen Habermas; "Análise do Caráter" e "Escute, Zé-Ninguém!", de Wilhelm Reich; "Três Filhas da Mãe", de Pierre Louÿs; "O Método" - volumes 1 a 5, de Edgar Morin, assim como "A Cabeça Bem-Feita" e outros livros do autor; "Além do Bem e do Mal - Prelúdio a uma Filosofia do Futuro", "Genealogia da Moral - Uma Polêmica" e "Ecce Homo - Como Alguém se Torna o que é", de Friederich Nietzsche; "Microfísica do Poder" e "A Arqueologia do Saber", de Michel Foulcault, além de outros tantos que vi mas não comprei, pois ao contrário do olho, o dinheiro é limitado. Descontos de 10 a 20% estão sendo praticados. Aproveitem o fim de tarde para um passeiozinho relaxante e quem sabe um lanchinho ali nas redondezas. Coisa boa essa época em Porto Alegre!!!

((((( Bem, estou saindo de férias por 15 dias, então não sei se terei acesso à Internet, por isso creio que a próxima edição só na terceira semana de novembro. )))))

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