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18/11/2002 - Edição número 2

 

Sú-mário

Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Dúvidas
Rafael Luiz Reinehr

Qual o tipo de Escola ideal?
Rafael Luiz Reinehr

Primeiras Linhas
Evelise Birck Rodrigues

PS:
Rafael Luiz Reinehr

 

 

Editorial

Muita coisa já aconteceu por aí, Mundo afora. E na sua vida, no seu mundo? Por aqui tudo em cima. Muito trabalho duro na vida real. Já aqui, no mundo da fantasia do Simplicíssimo tudo correndo às mil maravilhas. Bem, é que, como vocês sabem, este fanzine está começando. E está começando mesmo!!! Então ainda não temos muitos colaboradores, se é que vocês me entendem. Mas isso vai mudar... ...espero! Nessa edição uma breve análise metafísica sobre a dúvida e sobre a origem e o sentido das coisas (e para ser mais interessante, uma análise apenas parcial, superficial e incompleta, que não nos leva a nada nem a lugar algum!). No segundo artigo apresento um trabalho escrito há muito tempo e achei que poderia coloca-lo no Simplicíssimo, mesmo achando-o brutalmente incompleto e muito superficial. Mas nesse mundo de hoje, não é a aparência, a superfície que importa, que chama a atenção das pessoas? Bundas e escândalos: se não for uma dessas, não cola... Também mais um textículo da renomada (nem tanto assim) enfermeira e escritora Evelise B Rodrigues, figurinha carimbada do Simplicíssimo. Esses artigos foram extraídos da edição impressa dos jornais Simplicíssimo números 2 e 3, publicados em 15/01/2001 e 29/01/2001. O Simplicíssimo como jornal impresso teve curta duração: foi até o número 5. Extrairei desses jornais alguns artigos para serem agora reproduzidos nesta edição "virtual". A propósito: estamos esperando colaborações para as edições vindouras do Simplicíssimo. Vale qualquer coisa em se tratando de prosa, poesia, contos, crônicas, divagações, teorias, letras de música, receitas culinárias, reproduções de pedaços da lista telefônica, extratos bancários, excertos de livros que te chamaram atenção, citações, resenhas, resultados de pesquisas científicas, teses de mestrado, doutorado, pós-doutorado ou pós-pós-doutorado, opiniões, sugestões, insultos e ofensas, redações e composições do tempo da infância, etc., ou seja, qualquer forma de expressão cultural na forma escrita que possa ser reproduzida nestas páginas. Ressalta-se que, preferencialmente sejam enviadas em formato .txt (pois ocupa menos espaço). Caso seja enviado em .doc ou .htm, podem haver perdas significativas na formatação. Vamos lá sem mais delongas ao que interessa: Simplicíssimo número 2!

Rafael Luiz Reinehr - Editor

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Dúvidas
Rafael Luiz Reinehr

Quem não teve as suas? Este seria o complemento ideal para o título acima. Mas isso é bobagem. Quer coisa mais intrigante que uma dúvida? Dúvidas são feitas para atazanar nossa vida, para nos deixar indecisos. Mas dúvidas também são feitas para provocar reflexões, revoluções, são o passo intermediário entre o nada, a "coisa estática" e a solução do problema, a evolução. Acreditando nisso, estamos contemporaneamente acreditando que para nos tornarmos pessoas melhores, mais sábias e, quem sabe, mais humanas, temos que ter dúvidas. O maior número possível delas, pois são elas que vão nos levar ao zênite. A iluminação que germina da meditação necessária para que possamos sanar uma dúvida é a arma mais poderosa das culturas orientais. Através dessa "iluminação", os povos do Oriente revelam suas interrelações com o ambiente, com seus semelhantes e consigo mesmo. Nos "koans" taoístas, nos "mantras" hindus e nas citações e provérbios budistas encontramos peças raras de ensinamentos repletos de luz, compaixão, sabedoria, justiça e verdade. Minha dúvida maior neste momento é: quem somos? Nesta virada de milênio, com a chegada da tão propagandeada Era de Aquarius, que virá, segundo dizem alguns, para trazer um período de humanismo sem precedentes. Nessa Era há tanto esperada, os seres humanos farão descobertas morais que se refletirão em um maior auto-conhecimento e em um convívio harmonioso entre seres de diferentes raças, credos e níveis sociais. Inclusive, dizem, essas diferenças passarão a ser meras características ou, mesmo, deixarão de existir. Quem somos. Uma boa questão para se refletir. Se somos mesmo seres humanos, repletos de inteligência - únicos na face da Terra - como acredita a maioria, como podemos nos relacionar com nossos semelhantes da forma que o fazemos nesses dias?

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Qual o tipo de Escola ideal?
Rafael Luiz Reinehr

A Escola é um produto da sociedade e de sua cultura e, como tal, deve, da melhor maneira possível, reproduzir os meio de comunicação utilizados normalmente entre as pessoas, desenvolver conhecimentos indispensáveis à evolução da sociedade e transmitir os valores culturais. A alfabetização deve ser considerada como um modo de preparar o homem para um papel social, cívico e até econômico, ultrapassando o singelo ensino da leitura e escrita. Em uma Escola ideal, o ensinamento de todos esses aspectos culturais e sociais e intelectuais devem levar a pessoa, com liberdade de pensamento, à melhor compreensão do mundo que o rodeia, abrindo assim, um caminho para o conhecimento humano básico, indispensável à vida e à evolução.

A Escola Ideal sob o Prisma da Psicanálise

Qual a Escola Ideal segundo a análise psicanalítica? Aquela que incita o aluno a aprender aquilo que não lhe é ensinado? Aquela que ajuda o aluno a superar ou alcançar o limite de suas aptidões? Aquela que consegue manter uma relação harmoniosa entre aluno e professor? Aquela que faz brotar algo novo a cada geração, gerando e não apenas transmitindo conhecimento? Tenha disciplina para que não se criem delinqüentes mas seja liberal para proporcionar ao estudante a liberdade de decidir por ele próprio o que é certo ou não? Sim, todos esses aspectos fariam parte dessa suposta Escola Ideal; mas, haveria mais um, e, talvez, o mais importante deles: uma Escola que desenvolva um método de controlar os efeitos que a educação produzirá no inconsciente dos alunos. A importância desse método seria o fato de que, na realidade, somos controlados em parte por nosso inconsciente, é ele quem realmente "manda" na pessoa, como sugerem os atos falhos. Neles, realmente demonstramos o que gostaríamos de estar fazendo. Atualmente, o que vemos é uma educação dirigida à consciência, já que é por ela que somos conduzidos a uma determinada direção. Outra mudança proposta dentro da mentalidade da Escola é em relação à repressão imposta aos alunos. Por que a Escola foi sempre tão repressora? Ora, para evitar que a juventude mude por completo um sistema que seus ascendentes imediatamente superiores lutaram tanto para colocar em prática. Na imaginária Escola Ideal, não haveria tal repressão de atitudes ou pensamentos, possibilitando radicais mudanças, o que, de certa forma seria o natural.

O Professor no Contexto da Escola Ideal

O Educador, segundo Freud 1, é aquele que "deve buscar, para seu educando, o justo equilíbrio entre o prazer individual do aluno e as necessidades sociais". São muito importantes as relações professor-aluno, visto que são elas que estabelecem as condições para aprender, não importando os conteúdos. Para uma perfeita harmonia entre o professor na Escola com aquilo que deve ser transmitido ao aluno, encontrarmos uma barreira: o professor deseja impor seu próprio desejo, sobrepondo sua autoridade ao aluno, dessa forma, poderá aprender conteúdos, gravar informações, espelhar fielmente o conhecimento do professor, mas não sairá desta relação como ser pensante. Em uma Escola Ideal, o professor deveria deixar de lado seu próprio desejo inconsciente, tornar-se uma pessoa esvaziada, mas isto parece praticamente impossível, já que é justamente este desejo que o impulsiona para a função de mestre.

A Importância do Ambiente

O ambiente de estudo deve possuir as dimensões adequadas (espaços amplos), materiais de trabalho e classes organizadas, número de pessoas limitado (cerca de 20 a 30 alunos), deve haver segurança, uma temperatura regularmente amena, luminosidade e higiene. Condições lógicas e básicas que deveriam existir em qualquer escola para proporcionar o máximo de aproveitamento por parte dos alunos. Deve haver possibilidade de movimento e até mesmo preocupação com as cores das paredes, que devem ser, de preferência, claras (para manter a atenção do aluno na aula). Seguindo estes princípios elementares, certamente o estudo renderá mais.

Um Porquê para a Necessidade de Crianças Diferentes em uma Classe

Às vezes pensa-se, e até se acha lógico que haveria um maior rendimento por parte dos alunos se todos fossem do mesmo nível social, raça, idade e até mesmo grau de deficiência física. Mas, ao contrário do que se pensa, as diferenças entre alunos da mesma classe são benéficas, já que dessa forma ocorre um contraste de conhecimentos e atitudes, o que permite ao nosso cérebro analisar as diferenças e dessa forma somar um ponto ao desenvolvimento, tanto social quanto intelectual. No momento em que se adere a um projeto em grupo onde os participantes são de diferentes tipos, e cada um participa ativamente de seu desenvolvimento, cada qual dele se beneficia, ou seja, encontra meios para seu próprio desenvolvimento. O que importa é que cada um tenha possibilidade de expressar-se e afirmar sua originalidade. Isto será tanto mais fácil quanto mais diferentes forem as pessoas e quanto mais forem os papéis percebidos como complementares. Um grupo composto de indivíduos diferentes é sempre mais dinâmico e imaginativo do que um grupo com indivíduos mais ou menos semelhantes.

Idéias para um Melhor Aprendizado

Quais atividades deve-se propor à criança para que ela integre determinada noção ou conhecimento? Uma idéia proposta por Judith S. Engel ² demonstra a possibilidade de questionamento dos estudantes pelos seus próprios colegas ao invés do professor, como acontece usualmente. Dessa forma eles poderiam desenvolver a habilidade do pensamento crítico, imaginação, melhorar os conceitos do estudante e trazer boas relações sociais na classe. A teoria se baseia no fato de que estudantes, sendo parte da ação, no momento em que questionam seus colegas e são também questionados, eles tornam-se mais atentos à lição. Os estudantes são encorajados a escutar e aprender com seus melhores amigos. Essa é com certeza uma maneira criativa e muito útil, já que, assim, todos estudantes estarão aprendendo ao mesmo tempo e compartilhando seu conhecimento com seus colegas. Outra idéia do mesmo livro ², desta vez proposta por Robert J. Lacklen, propõe que os questionamentos devem ser a base do processo educacional, ao invés do estudo dos fatos - base atual do ensino. Pesquisas têm demonstrado que inquisições por parte dos alunos resultam em um aprendizado real muito maior do que oferece o atual sistema. Desenvolve-se assim o potencial íntimo, inerente de cada um. Além disso, deve ser dada mais ênfase na aquisição de habilidades necessárias em ocupações como leitura, escrita e matemática, que ajudam no desenvolvimento primário e, no caso da matemática, estimula o raciocínio lógico. Como motivar a criança para que se interesse pela atividade, para que mantenha sua atenção? Bem, na Escola Ideal, alternar-se-iam os tipos de ensino. Por exemplo: aulas teóricas e discussões sobre o assunto (no caso de jovens) ou brincadeiras (no caso de crianças) seriam dados na mesma aula, intercalados: - Crianças: 10 minutos de aula teórica, 20 minutos de brincadeira, 10 minutos de aula teórica, 10 minutos de brincadeira - Adolescentes: 15 minutos de aula teórica, 20 minutos de discussão, 15 minutos de aula teórica - "Adultos": 20 minutos de aula teórica, 10 minutos de discussão, 20 minutos de aula teórica Pelo visto, muito diferentemente do que temos hoje: aulas apenas teóricas e aulas especiais para discussões (tendo como exemplo o ensino secundarista). Outra sugestão seria o aperfeiçoamento dos programas, após estudos detalhados por pessoas da área. Em meu modo de ver, as atuais orientações de estudos não estão de acordo com as determinadas idades nem cumprem ao menos parcialmente os objetivos da Escola Ideal. Para afirmar isto, baseio-me no fato de que há muito não é feita uma revisão profunda dos programas escolares (cerca de 45 anos) e que há muito nossa sociedade se modificou e novos anseios devem ser preenchidos. A necessidade da computação nos dias atuais é visível. É importante também o desenvolvimento de dons artísticos, como música, pintura ou escultura (lembrando Howard Gardner e sua Teoria das Inteligências Múltiplas ³). Deve-se perceber a importância dos programas, como maneira de organizar o aprendizado, mas não se deve ser rígido quanto ao seguimento destes, cabendo ao professor e aos alunos decidir qual o melhor caminho a seguir.

Para Finalizar

Assim, fundamentada em uma relação professor aluno em que o professor permita ao aluno expor suas idéias livremente, em um ambiente de estudo saudável, com um método de ensino dirigido também para o inconsciente, formada por alunos de diferentes tipos de características e personalidades, encontraremos um protótipo muito próximo da Escola Ideal. A abertura de oportunidades de relações autênticas, humanizadoras, não depende somente de métodos pedagógicos sofisticados, da denúncia de ideologias embutidas nos conteúdos escolares, da grita por instituições mais livres e menos arcaicas. O que se deseja é sugerir aos pedagogos que não se preocupem tanto com os métodos que muitas vezes constituem tentativas de inculcar a todo custo, um conhecimento supervalorizado pelos professores. O encontro entre o que foi ensinado e a subjetividade de cada um é que torna possível o pensamento renovado, a criação, a geração de novos conhecimentos. Esse mundo desejante, que habita diferentemente cada um de nós, estará sendo preservado cada vez que um professor se dispuser a desocupar o lugar de poder em que o aluno o coloca necessariamente no início de uma relação pedagógica, sabendo que, se for atacado, nem por isso deverá reprimir tais manifestações agressivas. Ao contrário, saberá que estão em jogo forças que ele não conhece em profundidade, mas que são muito importantes para a superação do professor como figura de autoridade e indispensáveis para o surgimento do aluno como ser pensante. Matar o mestre para tornar-se o mestre de si mesmo. Ao professor, guiado por seu desejo, cabe o esforço imenso de organizar, articular, tornar lógico seu campo de conhecimento e transmiti-lo a seus alunos. A cada aluno cabe desarticular, retalhar, ingerir e digerir aqueles elementos transmitidos pelo professor, que se engancham em seu desejo, que fazem sentido para ele e o professor, que encontram eco nas profundezas de sua existência de sujeito do inconsciente.

Referências Bibliográficas

1. Kupfer, MC - Freud e a Educação - O mestre do impossível - Série Pensamento e Ação no Magistério número 14 - Editora Scipione

2. Seventh World Conference on Gifted and Talent Children - 1990 - Expanding Awareness of Creative Potentials Worldwide - Brain Talent-Powers Press

3. Gardner H - Estruturas da Mente - 1994 - Artes Médicas

Esse texto foi escrito em 1994 como trabalho de conclusão de uma cadeira da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul denominada "Desenvolvimento da Criança e do Adolescente", ministrada pelo Departamento de Psiquiatria da referida Faculdade. Apesar de bastante superficial, traz alguns aspectos psicopedagógicos que devem ser discutidos frente aos novos conceitos da área, incluindo a teoria das Inteligências Múltiplas de Howard Gardner, que serão discutidas em uma edição vindoura do Simplicíssimo.

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Primeiras Linhas
Evelise Birck Rodrigues

Pela primeira vez, não exatamente primeira, mas oficialmente é, sento neste computador e tento escrever algo de bom que possa ser lido por alguém e surta efeito (bom ou não). O intuito básico é surtir efeito mesmo, fazer pensar, fazer sorrir ou fazer indignar. Então sobre o que escrever??? Escrever sobre juventude, amor e relacionamentos seria chover no molhado. É dizer o que, por muitos, já foi dito de mil ou mais formas diferentes. Entretanto, como fugir de um assunto que toma 24h/dia do meu pensamento? Prefiro então ser uma reprise, uma edição revisada e ampliada do que já se fez do que escrever sobre o que eu não tenho base. Ao fundo ouço Milton Nascimento cantando para mim "You say goodbye, I say hello" e sua voz de anjo me faz sentir melhor, mais leve, menos vazia. Deveria ser o contrário, mas é assim. Vazio. O vazio que ocupa lugar. Este companheiro de tantas horas é o mais pesado dos fardos e não consigo conhecer alguém que o suporte. Existem aqueles que não o notam e pensam que é felicidade viver para si mesmo, livre, solto. Mas porque ninguém fala deste vazio que sentimos? Sim, eu digo "sentimos" porque é um sentimento gigantesco e geral, que nos espreita o dia inteiro e então, quando voltamos para casa no final do dia, sentamos sozinhos em um cômodo silencioso e soltamos um suspiro, ele surge. Abraça-nos fortemente, ocupa simplesmente todo o corpo e surge um mal-estar tão grande, mas tão grande que um grande palácio torna-se a menor das gaiolas e o menor dos apartamentos transforma-se numa masmorra gigantesca sem saídas. É uma vontade de não-sei-o-quê, uma dispnéia ao menor esforço, uma ânsia de se encher com doces e sanduíches e de correr a casa inteira. Os sintomas seguintes são sempre os mesmos: medo, tristeza e toda agenda telefônica é repassada atrás de alguém que queira dispensar um pouco de atenção. E os ponteiros do relógio se arrastam. Depois de 2 ou 3 telefonemas cheios de reticências e "fala-mais-alguma-coisa", finalmente não há mais como se fugir dele. O vazio simplesmente reside na alma e perguntas vertem, não raramente com lágrimas. Por que a minha vida é desse jeito? Por que eu não consigo fazer nada para mudar isso? Por que não tenho força de vontade para seguir mantendo os meus projetos? Por que Quem eu amo não pode (ou não quer) estar comigo? Por que eu não consigo deixar de amá-lo? Por que eu não tenho direito de escolher de quem eu gosto? Por que eu sinto este vazio? Estas são apenas algumas das perguntas que nos fazemos e nunca, mas nunca mesmo, há alguém para respondê-las. Quando então, estamos exaustos desta sessão de auto-conhecimento-destruição, tentamos dormir, repetindo para si mesmo aquelas frases ridículas de auto-ajuda que aquela amiga nos ensinou. Nos dias seguintes, fazemos as mesmas coisas e, cada vez mais, tentamos encher o nosso dia com atividades e compromissos para passar cada vez menos tempo sozinhos. Pode parecer que me refiro aqui somente a adolescentes ansiosos, mulheres e homens que vivem sozinhos, porém este grupo de solitários é muito maior do que se pensa. São esposas infelizes sem perspectivas, são maridos de saco-cheio da rotina casa-trabalho-bar, entre outros casos. Gostaria de poder ajudar algumas destas pessoas, e olha que eu tento. Passo os dias rolando pela cidade, atrás de papéis e compromissos e ouço falar sempre das mesmas coisas. São preocupações diárias e pertinentes como contas, saúde, trabalho e relacionamentos. Acho tudo isto vital e, sinceramente, penso que é isto que dá sentido à vida: a continuidade da espéciae, a sobrevivência. O que me aborrece profundamente são assuntos como globalização, "chats", namoro virtual, superespecialização, individualização. Socorro! Ora... foda-se tudo isso! Será que alguém consegue enxergar??? Todos nós estamos vivendo uma crise de carência afetiva crônica! Não me refiro a este pequeno vilarejo que é Porto Alegre, falo de todos nós, falo do mundo. Uma visível apatia toma conta dos ânimos. Pessoas cada vez menos se vêem, e quando eu falo ver, estou falando a respeito de encontros mesmo; se abraçam menos, sorriem menos, se beijam menos. Por mais que isto lhe pareça piegas, me entristecem estes fatos. Que fim levaram os encontros diários de amigos com todos aqueles abraços? Onde estão aquelas discussões fervorosas, com direito a tapas na mesa? Até mesmo os trabalhos acadêmicos em grupo... antes animados com lanches e fofocas? Todos estão mais entocados dentro de casa, mais egoístas, mais EU e menos NÓS, trocando mensagens quando estritamente necessário, vivendo nas células vitais de seus aptos. Recuso-me a aceitar este tipo de comportamento tacanha e murrinha. Exijo o retorno dos velhos hábitos. Acredito piamente que as pessoas que vivem melhor são aquelas que mais beijam, mais abraçam e mais discutem também; são aquelas que conhecem sua família, amigos e paixões pelo passo, pelo cheiro, pela maciez das mãos e pela força dos braços (e tudo isso fisicamente falando) e não pelo "nickname", pelo telefone e outras formas mais impessoais. Seja como for, o sentimento de solidão está generalizado e cada um têm muito de culpa por seu próprio enclausuramento. Buscar respostas que nós já sabemos, mas continuamos a negar é estupidez. O apoio de livretos e frases é ilusório e temporário como uma hipnose. É como me disseram uma vez: a vida é um fio de cabelo liso, a gente é que fica fazendo voltas. Tornar-se útil, humano e passional, este é o único caminho que EU conheço. Do resto nada sei.

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PS: As férias estavam ótimas! Me proporcionaram acesso a especiarias como carne de marreco e piava fresquinha assada! O encerramento não podia ser mais ridículo: Festa do Ridículo no Clube Centenário na minha cidade Natal, Agudo. Estava muito bom! Deu pra namorar bastante também! Ah! E tocar muita guitarra! Agora, é pegar no batente novamente. Mão na massa e cabeça nos livros, pois o conhecimento não pára de crescer e a minha sede também não!

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