14/02/2003
- Edição número 10
A Ponte
Editorial
Rafael Luiz Reinehr
Resenha do Texto "Antropologia Fílmica - Uma Gênese
Difícil, mas Promissora", de Claudine de France
Rafael Luiz Reinehr
Receita Artística - Pátina Provençal
Carolina Schumacher
A Cartilha do Simplicíssimo (em 26 lições)
Rafael Luiz Reinehr
Escrever por Escrever VI (excertos)
Rafael Luiz Reinehr
Editorial
Volta e meia
questões concernentes à Bioética permeiam nosso
dia-a-dia. E cada vez mais isso vai acontecer. Quem lembra do filme
Gattaca (guanina, adenina, timina, timina, adenina, citosina, adenina)
achou bastante familiar os acontecimentos dos últimos dias.
Me refiro à forma com que a menina Roberta foi testada para
excluir a possibilidade de Vilma, a seqüestradora do Pedrinho,
ser sua mãe. Para quem está por fora ou está
chegando de viagem do exterior hoje, a história é
mais ou menos assim: uma senhora, há mais de vinte anos atrás,
seqüestrou uma, duas ou sabe se lá quantas crianças,
mas não foi descoberta. Há alguns meses, descobriu-se
que um de seus filhos na verdade não o era, e sim de outra
família, pois ela o havia seqüestrado ao nascer, e haviam
dito a verdadeira mãe que seu filho havia morrido. Como se
isso já não bastasse, agora se suspeitava que outra
filha sua na realidade também poderia ter sido seqüestrada.
A moça recusou-se a prestar o exame de DNA mas uma investigadora
do caso sugeriu examinar a saliva que a moça deixou em uma
bituca de cigarro. A saliva foi, sem o conhecimento da moça,
enviada para análise e se descobriu que a mesma não
é filha legítima de Vilma. Tudo bem, e aí?
E aí que as implicações não somente
legais, mas principalmente éticas devem ser levantadas. Uma
discussão acelerada e imediata urge. O próximo passo
vai ser, tão logo sejam associadas ao genoma características
de personalidade ou mesmo propensão à doenças
crônicas ou degenerativas, a escolha pelas características
genéticas de profissionais mais aptos para essa ou aquelas
áreas. Podemos também imaginar alguns extremos: você
chega para se inscrever para o vestibular de Arquitetura, pois é
isso que você sempre sonhou fazer e só com isso você
se imagina trabalhando e envolvendo. Nesse momento é coletado
seu sangue e lhe pedem que retorne no dia seguinte. No dia seguinte,
você é informado de que a análise do seu código
genético não indica facilidade para trabalhos que
exijam noção de perspectiva, desenho e cálculos
relacionados à espaço, impossibilitando sua incrição
para o vestibular de arquitetura. O mesmo teste lhe diz que suas
possíveis opções de inscrição
são para áreas nas quais você nunca se imaginou
trabalhando. Agora é pegar ou largar (e trabalhar como pedreiro).
Indo ainda mais para o extremo, podemos imaginar que, ao fazer seu
"teste genético de aptidão à profissão"
tenha sido detectada uma propensão fortíssima à
violência, associada em 82% dos casos à homicídios
ou estupros. Dessa forma, naquele mesmo momento lhe é dada
voz de prisão, pois probabilidades como a sua que excedem
80% levam o indivíduo compulsoriamente à "prisão
profilática". Difícil imaginar agora algo que
parece tão distante, mas os grandes avanços da ciência
geralmente podem ser acompanhados também por um lado maligno
e com grande poder de destruição da própria
sociedade, como vemos nos exemplos do raio laser (aplicação
médica, em aparelhos sonoros e de comunicação,
mas também como arma de guerra), da energia nuclear (fonte
de energia mas também arma de destruição em
massa) e agora de conhecimento do genoma
e de suas implicações (poderemos saber de antemão
que probabilidade cada indivíduo tem de ter determinada enfermidade
e desta forma tratá-lo preventivamente de forma mais eficaz,
mas também podemos usar isso para discriminá-lo).
As linhas anteriores nos fazem tirar conclusões bem claras:
o conhecimento, por princípio é bom, mau é
o uso que fazemos ou podemos fazer dele. Me assusta termos esse
conhecimento tão profundo de nossa biologia sem que antes
tenhamos aprendido a viver como irmãos e filhos de uma só
Mãe, a Mãe Terra. Espero que, mais uma vez, a Natureza
nos guie pelo melhor caminho e nos faça trilhá-lo
com serenidade e sabedoria, para que possamos ultrapassar as grandes
questões bioéticas que estamos prestes a enfrentar.
Rafael
Luiz Reinehr
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Resenha
do Texto "Antropologia Fílmica - Uma Gênese Difícil,
masPromissora", de Claudine de France
Rafael Luiz Reinehr
Neste texto,
Claudine de France propõe os fundamentos da Antropologia
fílmica, disciplina relativamente nova, e as principais questões
que permeiam sua existência. A primeira constatação
que é feita é a necessidade de planejamento, através
da observação e da escrita, do cinema antropológico.
Claudine chega à conclusão que muitos antropólogos-cineastas,
por fugirem da escrita, limitam a Antropologia fílmica ao
simples ato da realização de filmes etnográficos.
Na apresentação de tais filmes, ocorrem descobertas,
comparações que geram então debates orais que
são os responsáveis por teorizar sobre o utensílio
da investigação audiovisual. Segundo ela, sem o apoio
da escrita, essas discussões jamais atingirão o estágio
de um verdadeiro exame analítico, subsistindo apenas algumas
intuições esparsas. Com suas próprias palavras:
"Cada nova apresentação de filme, tributária
do grau de conhecimento que tem da matéria um público
heterogêneo, aborda apenas questões espontaneamente
levantadas por esse último, e retoma as coisas em seu ponto
de partida. O que resulta disso é a impressão de que,
em nível teórico, sempre se está marcando passo.'
Qual é o objeto dessa nova disciplina? O homem e a imagem
do homem? Poderíamos ser mais precisos? Bem, talvez: seria
o estudo da cultura humana através dos registros em imagem
da mesma, sendo cultura entendida como tudo que o homem acrescenta
ou substitui à Natureza. Assim, a inesgotabilidade e a diversificação
dos seus objetos de estudo estendem ao infinito as fronteiras da
disciplina. Interessantes são os casos em que as câmeras
são voltadas para aspectos de nossa sociedade que por várias
razões jogamos para a periferia de nossas preocipações,
o que conservamos no "abismo do não-dito e do não-visto",
como por exemplo as minorias étnicas ou culturais que ficam
à margem da cultura dominante. Assim, encontramos uma função
por vezes de "redenção social" de um grupo,
através da identificação de problemas de ordem
social em uma determinada cultura. De France também revisa
rapidamente a evolução ta tecnologia no cinema antropológico,
desde as primeiras câmeras mecânicas sem possibilidade
de gravação simultânea de som até a revolução
tecnológica do pós-guerra e principalmente após
1960, com a diminuição do peso das filmadoras e a
possibilidade de gravação de som e imagem simultâneos.
Fala da antropologia participante, onde é dada a palavra
e a câmera para aqueles que antes tiveram apenas papel passivo
na cena: os filmados passam a filmadores - mais uma revolução.
Após a década de 60, ocorreu o "boom" do
cinema antropológico, com seus participantes mais ativos
dividindo-se em estudos sobre as consequências das modificações
sociais, outros retomando a tradição da descrição
etnográfica, outros ainda registrando a trama de fatos e
gestos cotidianos e banais da própria sociedade em que viviam,
e assim por diante. Uma constatação importante salientada
pela autora é o fato de que pouco importa se o tempo de inserção
preparatório em uma cultura seja curto ou longo; o que importa
realmente é que o pesquisador esteja pronto para enfrentar
o tempo de inserção que as pessoas filmadas lhe impõem,
às vezes necessitando longas esperas para que os fatos a
serem registrados apareçam. No final, a antropologia fílmica
pode ser visualizada como uma disciplina com um campo de estudo
amplo, com um controle imperfeito de seu objeto de estudo, encontrando
alguns problemas como uma tendência à rejeição
da escrita e as necessidades de ajuste do status da linguagem e
da imagem (como fazer algo novo usando coisas antigas [como integrar
e repensar a linguagem no contexto da apreensão audiovisual]
e fazer algo antigo usando coisas novas [ como integrar a apreensão
audiovisual no contexto de uma pesquisa clássica estruturada
pela linguagem]). O filme antropológico, não só
como registro de processos e acontecimentos culturais, pode ser
encarado como uma ferramenta muito útil para historiadores,
psicólogos e sociólogos, entre outros, no sentido
de testar hipóteses ou construir novas, servindo de base
comum a essas e mesmo a outras disciplinas. Concluo, usando as palavras
da autora: "Hoje, à medida que continuam a filmar os
seres humanos e a experimentar sus instrumentos, os antropólogos-cineastas
devem afrontar novas tarefas que solicitam, mais uma vez, os serviçsd
sua paciência e de sua imaginação. Eles devem,
de fato, elevar-se à altura de sua maneira de apreender os
seres filmados, sua maneira, ainda balbuciante, de confrontar e
analisar as imagens dos seres filmados. Mas, nisso também,
convém apressar-se lentamente"
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Receita
Artística - Pátina Provençal
Carolina Schumacher
Pois bem, aqui
estou eu novamente a contribuir com este nosso jornal e, sabendo
do caráter pluralista desse, achei que seria válido
apresentar-lhes uma das últimas técnicas de artesanato
aprendida recentemente durante minhas férias em POA. A técnica
chama-se Pátina Provençal, e para quem nunca ouviu
falar ou já ouviu falar mas não tem idéia do
que seja trata-se de uma técnica que produz um efeito envelhecido
ou desgastado na pintura. É bastante utilizado para remodelação,
se é que posso chamar assim, de móveis antigos dos
quais sou fã. E para quem se interessou aí vai:
Pátina
Provençal
Aplicação:
madeira
Material: Móvel
de madeira escura Lixa para madeira nº 100 e 150 Verniz incolor
à base d'água Multisselador aquoso à base d'água
da Renner Cera pastosa incolor Tinta látex na cor branca
Pincel chato macio
Execução:
Lixe bem a peça
com a lixa nº 100 e retire o pó. Aplique o multisselador
por toda a superfície utilizando para isso uma trouxa de
pano. Lixe com a lixa nº 150 no sentido do veio da madeira
e remova o pó. Utilizando uma estopa ou os dedos, aplique
cera pastosa nos locais em que será criado o efeito lascado
(cantos, puxadores, quinas etc.). Passe a tinta látex por
toda a peça utilizando o pincel chato. Aguarde a secagem
por no mínimo 1 hora (dependendo do tamanho da peça
e da espessura de tinta deve-se esperar mais). Lixe com a lixa nº
100 os pontos em que foi aplicada a cera, criando um aspecto desgastado.
Finalize com o verniz incolor.
Essa técnica
pode ser utilizada tanto para móveis como para a pintura
de objetos como porta-jóias, porta-trecos, porta-retrato
e tantos outros "porta-coisas". Para objetos pequenos
não é necessário passar o selador. Caso você
tenha se interessado arrisque umas pinceladas, não custa
nada tentar libertar seu lado artístico, e de quebra ainda
vai lhe ajudar a trabalhar melhor sua ansiedade visto que é
um trabalho de concentração sem ser chato, muito antes
pelo contrário, torna-se muito prazeroso admirarmos nossas
criações depois de prontas. Boa sorte a todos e mão
na massa, digo, na tinta.
Carolina
Schumacher - entre outras coisas, aprendiz de artista plástica
(o que não fazem uns cursos gratuitos de artesanato hein?!).
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A Cartilha
do Simplicíssimo (em 26 lições) - O seu curso
de aperfeiçoamento na Última Flor do Lácio
Rafael Luiz Reinehr
LIção
número 5
sino si Si
Tito é o pai da
Ada.
Vovô é o pai do Tito.
O pai vê o sino.
O sino é da igreja.
O sino soa ao meio-dia.
pai pa Pa
O novêlo é
nôvo.
O novêlo é da Ada.
O pai de Ada levou o novêlo.
Ada viu o novêlo na mala.
novêlo no No
pu pi pe po pa
su si se so sa
nu ni ne no na
O sino da vila soa ao
meio-dia.
O povo da vila ouve o sino.
Davi ouve o sino.
Davi mudou-se da vila.
Êle vive no sítio.
De lá se ouve o sino.
A igreja é do
povo.
É do povo da vila.
O povo vai à igreja.
Tito matou o pato.
Êle levou o pato à Ida.
Ida deu sopa de pato ao Tito.
pai nôvo sino pato
nôvo sopa
vai povo sítio povo novelo soa
ponte pon
O menino vai pela ponte.
Na ponte êle vê o sapo.
Vê o sapo na ponte de pau.
pinto pin
O pinto saiu do ôvo.
O pinto piava: piu... piu... piu...
A pena do pinto é miúda.
pente pen
Êle pediu o pente
do pai.
O pente é nôvo e lindo.
en in on
pen pin pon
O dente do Otávio
doía.
Otávio sentia-se tonto.
- Ai! Ai! O meu dente!
O pai viu o menino e teve pena dêle.
Tio Paulo ia ao monte.
Todo dia êle ia ao monte.
Tio Paulo ia ao monte pela ponte.
O pai de Lina se sentia
doente.
Êle se sentia tonto.
Lina levou leite ao pai.
O doente tomou o leite.
Ainda se sente doente.
en- on- in-
pente ponte pinto
dente monte ainda
sente tonto linda
doente
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Escrever
por Escrever VI (excertos)
Rafael Luiz Reinehr
{21/06/2000
- Quarta-feira - 22:49}
Foi Graham
Bell professor de surdos e mudos? Ou terá ele sido professor
de Ciências? Se você respondeu a primeira, está
certo!
Uma coisa que
aprendi ontem: apesar de, para que possamos agir de acordo com a
ética deontológica (pregada por Kant) devêssemos
agir completamente apoiados pelo uso estrito e incondicional de
nossa razão, sem influência de nossos sentimentos e
emoções, jamais poderemos fazer isso, por um simples
motivo: somos humanos! A luz que podemos vislumbrar então
é agir a maior parte possível do tempo sob a égide
da razão (voltada para a virtude) para que possamos tornar
este um mundo melhor de se viver (e conviver), já que nossos
sentimentos e emoções dificilmente permitem que respeitemos
o espaço e a liberdade de nossos semelhantes. Essa moral
deontológica, baseada no dever e não na finalidade,
como na moral teleológica, torna mais difíceis nossas
decisões no dia-a-dia, já que não são
naturais boa parte das conclusões a que chegamos quando usamos
o imperativo categórico, quando buscamos tornar nossa decisão
uma lei universal que possa ser usada por todas as pessoas em todos
os lugares em situações semelhantes. Outro problema
que vejo ao meu redor, todos os dias ( e até comigo mesmo,
por que não), é o fato de que muitas pessoas não
"alcançam" a razão necessária para
tomar a decisão
correta acerca dos fatos e situações às quais
são confrontadas. Simplesmente não têm capacidade,
juízo crítico, inteligência suficientes para
discernir o certo do errado ou o mais certo dentre os certos. Isso
acontece não somente entre pessoas humildes e sem instrução
mas também com juízes, presidentes, médicos,
músicos, professores, religiosos e com o tipo de pessoa que
você imaginar. As conseqüências dessa constatação
é o caos que hoje se encontra instalado na comunidade humana.
Hoje me veio
a idéia de escrever um texto com o seguinte título:
"Fernando: o sociólogo que esqueceu". O título
por si já é interessante, pois faz o leitor pensar:
esqueceu o que ou de que? Esqueceu das leituras que fez na faculdade,
das coisas que aprendeu e com as quais cresceu. Esqueceu de todos
à sua volta, daqueles que nele confiaram. Esqueceu de si...
Matt Groening,
o criador de "Os Simpsons" é do caralho!...
PS: Uma coisa
boa disso que estou fazendo é que eu mesmo posso fazer comentários
das coisas que eu mesmo escrevi! Loucura!
PS2: Acho que
às vezes deixo algumas pessoas com raiva pelos comentários
que faço (he-he-he!!!)... {21/06/2000 - Quarta-feira - 23:28}
{22/06/2000
- Quinta-feira - 13:55}
Sobre o que
escreverei hoje? Escreverei sobre o plantão no qual estou,
aqui no Conceição? Ou sobre o belo dia de sol que
está fazendo lá fora? Ou sobre o novo videoclipe do
Metallica que está passando na MTV? Ou sobre assuntos sobre
a terra, a água e o ar? Não sei... Acho que vou copiar
alguma coisa que escrevi há algum tempo atrás, mas
que ainda está inacabado. Aí vai:
(neste trecho,
reproduzi um texto de minha autoria entitulado "Mais um",
já publicado na edição número 3 do Simplicíssimo)
"Toquem
o meu coração e façam a Revolução..."
É isso! Controlar as pessoas pela razão é muito
mais difícil, mesmo quando a própria razão
está do nosso lado do que controlar/convencer as pessoas
através das emoções. Para que as coisas mudem,
como seres humanos, devemos mexer justamente com o lado sentimental,
o lado afetuoso, de compaixão e altruísmo que carregamos.
Quanto mais conseguirmos estimular esse lado nas pessoas, mais facilmente
podemos mudar as coisas para melhor (desde que saibamos, é
claro, o que é o melhor!).
Quando tentamos
demonstrar algo a alguém e convencê-lo que estamos
corretos através da razão temos um empecilho básico:
o fato de estarmos tornando (pelo menos às vistas do interlocutor)
esta pessoa menos inteligente por estarmos "oferecendo"
um conhecimento que esta não tem e que relutava até
então aceitar por princípios pessoais dos mais variados
aspectos. Quando usamos a sentimentalidade, isso se torna mais fácil,
pois podemos criar um motivo e dar uma justificativa "humana"
para a realização ou compreensão daquilo que
estamos propondo e determinar uma punição sentimental,
oferecida pela "Consciência" da pessoas caso não
exista entendimento entre a parte demonstradora e a que se está
demonstrando. (Bah! Nem eu entendi direito o que eu escrevi! Acho
que está na hora de parar!)
"Eu ainda
lembro como era fácil viver... (Norwegian Wood)"...
{22/06/2000 - Quinta-feira - 14:29}
{02/07/2000
- Domingo - 16:54}
Depois dessa
pausa de mais de uma semana, estou de volta. Muitas coisas aconteceram,
muitas delas inesquecíveis mas não registráveis
aqui, devido à extrema pessoalidade de seu conteúdo.
Ontem eu estava de aniversário. Vinte e quatro anos. Muita
história pra contar. Muita ainda para fazer.
Imagine um
caçador numa ilha deserta. Sempre viveu sozinho, da caça,
pesca e coleta, sendo a sobrevivência e o domínio do
seu território seus únicos objetivos. Sempre viveu
bem em sua ilha até que um dia descobriu que não estava
sozinho. Encontrou um outro caçador que como ele sempre viveu
na ilha e tinha os mesmos objetivos. Nesse momento, eles começam
a brigar pois para garantir o domínio e a sua sobrevivência
somente pode existir um. Depois de uma longa briga um encontra-se
rendido e o outro está pronto a dar-lhe uma machadada fatal.
Nesse momento, o caçador vencido olha nos olhos do vencedor
e este tem um sentimento e uma decisão a tomar: ao ver a
si mesmo nos olhos do outro caçador, dá ele o golpe
final e cumpre aquilo que sempre foi seu objetivo e continua vivendo
da forma como sempre viveu (acabando com a dialética da narração)
ou muda radicalmente dando uma chance para o vencido? Suponhamos
que ele tenha dado uma chance, mas agora a situação
é diferente. Ele ganhou a briga. A situação
inicial de igualdade entre os dois caçadores já não
existe mais. O vencedor será o senhor e o perdedor seu escravo.
O caçador vitorioso vai descansar e viver do trabalho do
derrotado, que vai sustentar suas necessidades. O tempo passa. O
escravo vai literalmente enchendo o saco, até que um dia
ele realmente se irrita e se dá conta de uma coisa: Espera
aí, eu estava em situação de inferioridade
naquela época. Já trabalhei demais para esse vagabundo
e não recebi nada em troca. Agora sou forte. Enquanto ele
engordou às custas do meu trabalho eu, graças ao mesmo
trabalho sou forte e resistente. Chegando a essa conclusão
ele domina seu antigo senhor, transformando-o em seu escravo, invertendo
a situação até então estabelecida. Através
dessa metáfora, chegamos a um exemplo de como se sucede a
alternância histórica da dominação social
nas diferentes culturas.
Eu me pergunto:
será que os caçadores poderiam, ao invés de
lutar para a sobrevivência de apenas um, juntar forças
para sobreviverem juntos, dividirem as terras que já habitavam
anteriormente e assim viver harmoniosamente sem conflito de qualquer
espécie? (fim da dialética)
Sobre a relação
entre senhor e escravo, eu também me pergunto: No caso de
um carvoeiro, dono de uma mina de carvão, de onde ele tira
todo seu sustento, empregador de vários mineiros, quem é
o senhor e quem é o escravo? É o senhor o carvoeiro
que manda seus empregados em más condições
e arriscando sua saúde e vidas no seu trabalho insalubre
com um mau pagamento (provavelmente) e são eles os escravos
ou são eles, os mineiros os senhores e ele, o carvoeiro,
o escravo, já que este depende totalmente daqueles para sua
sobrevivência? Resposta algum dia desses quando eu chegar
a uma conclusão... Mas já vá tirando a sua...
{02/07/2000 - Domingo - 17:29}
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