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01/08/2003 - Edição número 34

 

Que SUSto!

 

Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Para quem gosta de fofoca ou babaleia
Mauro Belo Schneider

A impontualidade do amor (Se você está sozinho ou não)
Retratação, por Rafael Luiz Reinehr

Tempo e Devir
Adriano Oliveira

Escrever por Escrever XXVIII (excertos)
Rafael Luiz Reinehr

Dia Não
Alessandro Garcia

Kritik und Kommentar

 

Editorial

Dia desses estava conversando com um amigo sobre o SUS. Isso, o "Sistema Único de Saúde" brasileiro. Desde os idos da década de 80 que essa utopia tenta se estabelecer. Sem sucesso. Aparentemente, cada vez mais aumenta a tecnologia necessária para o bem tratar do paciente, pois nossos incansáveis cientistas descobrem mais e mais formas de descobrir antes, ver melhor e também tratar mais adequadamente as doenças. Não é preciso dizer que toda essa melhoria que cresce vertiginosamente tem um custo. Que também cresce vertiginosamente! Fora dos parâmetros possíveis de serem abarcados por um sistema de saúde que busca ser universal (para todo e qualquer cidadão brasileiro), integral (da mais simples consulta médica e do pedido de hemograma até o mais elaborado PET scan ou angioressonância disponíveis) e gratuito.

Se a tecnologia não pára de se desenvolver, a qualidade da saúde possível de ser oferecida também não, e, ora, os custos acompanham este acréscimo de qualidade, nada mais justo do que pagar por todo esse novo conhecimento! É utópico, atualmente, conceber um sistema público de saúde que seja responsável por todo e qualquer gasto de toda a população de um país do tamanho do Brasil!

A proliferação da busca por planos privados de saúde é somente um dos sinais dessa insuficiência. Mas como então podemos resolver o problema desta saúde que anda tão capenga?

Em primeiro lugar, toda e qualquer consulta deveria ter um valor, um custo para o paciente, mesmo que simbólico. Isso evitaria, entre outras coisas, o que ocorre todos os dias em nosso sistema de saúde: consultas por frivolidades, ocupando a vez de quem realmente necessita; marcações desenfreadas para todo e qualquer tipo de especialista sem a devida avaliação ( o paciente só buscaria auxílio se realmente estivesse necessitando (sabemos que hoje não é assim) e assim por diante. O mesmo valeria para exames. Hoje, como os exames não são pagos, boa parte das pessoas nem se interessa por saber qual exame está sendo realizado. Vai consultar no clínico no Posto de Saúde em fevereiro e este lhe pede um hemograma, glicose, colesterol e triglicerídeos. Como estava com dor no peito, pede encaminhamento ao cardiologista, no Hospital A, que lhe pede uma glicose, colesterol e triglicerídeos, além de um eletrocardiograma. O paciente leva os exames ao clínico que diagnostica diabete e encaminha o paciente ao Endocrinologista. Chegando ao Endócrino no Hospital B, este solicita uma glicose, colesterol, triglicerídeos, já que o paciente não lembrou de trazer os exames nem sabe direito por que está consultando com aquele médico. Isso acontece TODOS os dias, acreditem! TODOS os dias!!!

Claro que um sistema informatizado integrado poderia resolver este último problema, mas mesmo assim, não há dinheiro público suficiente para açambarcar toda saúde da nação. Aí você vai dizer: e se o Zé Ninguém, pobre de marré de si, que mora na Rua do Sobe e Desce, número que não aparece, que não tem onde cair morto acaba caindo na Emergência do Hospital, vomitando sangue pelas orelhas depois de ter tomado todas e mais algumas, o que fazer? Cobrar como dessa figura? Tiramos-lhe as calças cagadas? De forma alguma! Este paciente precisa ser realmente ajudado! Seu problema é principalente social. A este, se o Estado não ajudar, a morte vai logo logo pegar. Este pode ser supervisionado por uma equipe de médicos comunitários, auxiliado por uma assistente social e, inclusive, pensar em pagar seu atendimento com algum serviço voluntário. Pôxa, mas ele não tem dinheiro nem pra cachaça quanto mais pra pensar em fazer serviço voluntário! Aí é que você se engana! Para quem não ganha migalha, um serviço "voluntário" que ofereça residência temporária, alimentação e vestimenta é uma "baita mão na roda". Mas o que você está dizendo: o mendigo bebum vai trabalhar pro governo? É isso aí que estou dizendo!!! O cara morava na rua, bebia até vomitar o fígado. Agora ele vai pra uma casa comunitária mantida pelo governo, vai ter uma assistente social lhe ajudando, orientação e supervisão de uma equipe composta por, no mínimo alguns médicos comunitários, psicólogos e voluntários e vai ser, ele mesmo, um voluntário. Pode ajudar a limpar os parques da cidade, pode ajudar na cozinha da casa comunitária, pode ajudar- depois da barba feita e de uma orientação - a cuidar de crianças em uma creche comunitária. Utopia? Menor do que a de um sistema público universal integral e gratuito de saúde pública!

A idéia é essa. Todos temos que colaborar com o Sistema Único de Saúde para que ele realmente possa beneficiar a todos, integralmente e de forma verdadeiramente efetiva. Não devemos ter vergonha em aceitar que não estamos ainda prontos para realizar nosso sonho. A idéia do SUS continua sendo, em essência, fenomenal e única. O momento, infelizmente, ainda não chegou. Hora de retroceder para ganhar fôlego. Só assim sairemos deste buraco que estamos nos enfiando e nos aproximaremos do conceito de saúde pregado pela Organização Mundial da Saúde: “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade”. . Até lá!

Rafael Luiz Reinehr

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Para quem gosta de fofoca ou babaleia
Mauro Belo Schneider

Bem... Bom... Ããhh... Ou seja... Sabe quando a gente não sabe o que falar?! Pois é... desse jeito é que eu estou me sentindo! Parece que as idéias sumiram, escaparam da minha cabeça... E, quando eu me sinto assim, prefiro ficar quieto... Mas, tem gente que não cala a boca em nenhum segundo... nem mesmo quando não tem nada para dizer! Portanto, como eu não tenho idéias, sentindo-me um verdadeiro abacate sem caroço, e como sou educado, não vou declarar nada... Só vou contar uma fofoca!

Antes de começar, vou relembrar que não estou "enchendo tripa". Sim, pois tem pessoas que quando não tem o que dividir com os outros, sempre inventam uma maneira de enrolar... Porém, eu não sou assim!

Tá, agora vou dar início a minha narração. Contudo, falando em narração, primeiramente quero abrir um parêntese para dizer que o Cid Moreira força muuuiitooo nas suas narrações para o fantástico.

Então, como estava dizendo, tenho uma fofoca fortíssima para contar. Ah! Fofoca me faz lembrar do Leão, do programa Melhor da Tarde... Que homem, ou melhor, bicha, chata!!! Ele fala da vida de todo mundo. É daquele tipo de pessoas que eu descrevia no início do texto, que tem a língua solta. Esses dias ele falou, falou, falou... do Faustão. Ok, eu sei que, dele, todo mundo fala. Afinal, na hora de entrevistar os convidados, ele não deixa ninguém responder as perguntas. Isso me deixa furioso... Viu, estou parecendo um linguarudo. Desculpa! Mas é que o tal do Leão falou uns 15 minutos no Faustão.

Enfim, voltando ao nosso assunto principal... Descobri algo incrível sobre uma pessoa muito famosa. Pessoa famosa?! Hm, quem não gostaria de ser... Dar autógrafos, ser reconhecido em todos os cantos, posar para fotos... Só não gostaria de ficar famoso contando um segredo no programa da Márcia Goldschmidt, Hora da Verdade, como muita gente faz... Aquele tipo de gente sim... Merece ser vaiada e apontada na rua.

É por tudo isso que eu me considero tão feliz. Não sou fofoqueiro, não sou mal educado, fico quieto no momento certo e nunca escrevo bobagem! Ah... tinha dito que iria contar uma fofoca, não é?! Mudei de idéia... Não sou esse tipo de gente!

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A impontualidade do amor (Se você está sozinho ou não)
Retratação, por Rafael Luiz Reinehr

Neste espaço, originalmente estava publicado um texto enviado por uma colaboradora que, por infelicidade, acabou comentendo um erro cada vez mais comum em nossos dias, que acabou sendo reproduzido, de forma involuntária, pela edição do site.

A digníssima colaboradora enviou um texto, provavelmente recebido pela Internet na forma de corrente e, tendo se afeiçoado ao mesmo, decidiu enviá-lo para publicação no Simplicíssimo. Atribuia-se a autoria do texto à Mário Quintana, nosso estimado poeta (que nunca deve ter comido Doritos!)

Mesmo achando o texto familiar e crendo ser tão somente o título do mesmo emprestado do poeta, decidiu-se pela publicação. Qual não foi nossa surpresa quando, do mesmo dia da publicação, passamos a receber numerosos e-mails de leitores denunciando o erro, atribuindo por sua vez a autoria do texto à Luís Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor e finalmente à Martha Medeiros.

Iniciamos uma malha fina e descobrimos que o texto foi originalmente escrito por Martha Medeiros em 12 de maio de 1998, e pode ser encontrado na íntegra em http://almas.terra.com.br/almas/martha/martha_12_05.htm .

Pedimos desculpas pelo erro a quem o mesmo possa ter causado qualquer inconveniência, à autora original, Martha Medeiros, ao poeta Mário Quintana que teve seu nome utilizado de forma indevida e, principalmente aos leitores, que buscam nestas páginas uma leitura desvinculada, que respeita a originalidade de seus textos e também comprometida com a ética autoral.

Também, como lição, passaremos a não aceitar mais textos de outros autores mas sim tão somente textos originais. Inseridos nestes textos, obviamente poderemos encontrar citações, desde que devidamente referendadas. O editorial da próxima edição tratará dos aspectos éticos referentes a publicações originais e citações de passagens de outros autores.

Será também criada um página fixa no site para orientar qualquer autor sobre como usar textos de outrem para referendar suas próprias idéias.

Esperamos que o acontecido seja desculpado pelo querido leitor, que é nosso bem maior. Sem mais considerações, seguimos em frente, sempre procurando melhorar o sítio que, insistimos, queremos que fique cada vez mais parecido com nosso leitor.

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Tempo e Devir
Adriano Oliveira*

A brevidade dos dias,das emoções...o fim das estações, tudo denota o passar do tempo. Junto com ele emoções novas surgem, amores se desfazem, e as tormentas dão lugar a calmaria no íntimo do homem - é o devir. Tempo e devir, juntos, constituem aspectos únicos da experiência humana. Com eles nascemos, crescemos e nos tornamos pessoas, mas poucas vezes pensamos sobre as suas profundas significações.

Em virtude das intensas transformações dos dois últimos séculos, principalmente com o surgimento da era industrial, homem e tempo entram em conflito. O primeiro tenta doma-lo enquanto o segundo permanece o mesmo, inalterável.Antes das máquinas, antes da robotização, da internet, do comércio 24 horas, o homem sabia apreciar o tempo.Éramos capazes de observar mudanças nas pessoas, feições que se modificavam, deter nossos olhos no horizonte e perceber o coração triste de um ancião.A sabedoria podia ser vista naqueles que a alcançavam, sem palavreados,mas com simplicidade única. Enfim, as transformações íntimas eram valorizadas. Como agora perceber o hiato que há entre a pessoa nova que somos e a antiga? De que forma entrever sutilezas ainda arraigadas e que nos causam danos se mal temos tempo para fazer uma refeição sem nos apressarmos?

O homem contemporâneo,apesar dos extraordinários avanços da ciência, continua a ignorar a si mesmo. Não valorizar o tempo e observar o que mudou em nós consiste em desconhecimento profundo de nossa evolução ao longo da vida. Como diz a letra , "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia....tudo passa,tudo sempre passará", não somos mais os mesmos de ontem. E por analogia, todos ao nosso redor também não o são. Se não operaram mudanças por si mesmos, o tempo se encarregou de faze-las.Não é assim que o esquecimento dá lugar à saudade e o ódio ao amor? O devir constante em nós não nos permite mais olhar o passado com sentimentos de culpa ou remorso por nossos erros, pois aquela figura que imaginamos ser não leva mais o nosso nome...é o homem velho, de que falava Paulo ,o apóstolo,em suas pregações. O homem despido do que não lhe servia mais - o homem novo - ,é o homem transformado,o homem do presente.

Assim é a criatura humana....um ser em constante vir-a-ser junto ao tempo, buscando seu progresso,equilíbrio e a felicidade, seu destino. Perceber as nuances de tal processo consiste em tarefa inadiável para cada um de nós,apesar das corriqueiras exigências da vida moderna.Isso permitirá um gradual retorno à sabedoria de nossos avós, os quais sabiam observar o tempo e, mais do que isso, sabiam observar a sim mesmos.

* Acadêmico de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria.

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Escrever por Escrever XXVIII (excertos)
Rafael Luiz Reinehr {15/07/2001 - Domingo - 06:23}

Cheguei em casa há pouco. Que dia! Acordei à uma hora, almocei e fui (((...))). Nunca rasguei tanta fita durex com os dentes na vida! Deu um trabalhão, fomos eu e a mãe até às 6:00, mas consegui fazer tudo ficar mais ou menos legal. Acho que agora não quero contar o que fiz... Depois fui na colação de grau do Fabiano e na sua recepção, na Galeteria Veneto. Aí parti para São Leopoldo para entregar o presente da Quéli. Cheguei na Ginástica, subi as escadas... Entreguei. Foi um auê: muitas pessoas queriam saber o que estava dentro da caixa. Foi divertido. E só. (((...))) Voltei para PoA, para o baile de formatura da Medicina da UFRGS. Black Dog tocou agora na MTV, assim como Black Night havia tocado pouco antes. Baile bom. Agora quero dormir... {15/07/2001 - Domingo - 06:28}

{17/07/2001 - Terça-feira - 00:53}

Acabei de chegar do ensaio da The Brains. Fazia quase um ano que o trio João, Fabiano e Rafael não tocavam juntos na The Brains. Rememoramos algumas músicas, alguns hits, como "She Wants To Be On My Side" e "Searkoonsflay", além de muitas outras. Foi bem bom. Vamos ver se dessa vez engrena! (((...))) Como terminará (terminará?) o mundo? {17/07/2001 - Terça-feira - 01:01}

{18/07/2001 - Quarta-feira - 00:33}

"Distâncias, às vezes, não deveriam existir. Falo da distância entre os meus lábios e os teus. Uma mesa distantes, que em um instante poderia deixar de existir, distância.

"Deus não existe pois não poderia ser tão cruel" (frase de Rafael após saber que não poderia ficar com a mulher da mesa da frente) "A hora de parar é quando o xixi fica transparente" (frase de Rafael ao concluir sobre o momento de parar de beber)

"O pulsar das minhas artérias que sinto na ponta de meus dedos, que junto com minha mão, apóiam minha cabeça enquanto a outra mão escreve me lembram que vivo uma vida que é minha e que, em parte, escolhi viver. Em parte porque escolhi amar uma pessoa que não escolheu me amar. Ou melhor, escolheu e desistiu. Emburreceu. Se deprimiu. E se fudeu. Ou vai. Que merda! Pensamentos intrusivos dos quais tenho que me libertar. Tenho que, novamente, viver uma vida toda minha, no caminho que eu escolhi. E só assim, vivendo, que a viverei. Vivendo a vida que vivo, vivendo."

Esses foram excertos da noite pigmeica lá na Lancheria do Parque. Dormirei com os anjos agora, já que hoje estou de plantão no Conceição... {18/07/2001 - Quarta-feira - 00:43}

{19/07/2001 - Quinta-feira - 22:06}

Degustando sorvete de brigadeiro da Yopa, vejo que vida boa eu tenho, se comparar com quem quer que seja. Deitado na minha cama, depois de um dia inteiro de trabalho (um bom dia inteiro de trabalho!), que me deixou satisfeito, estimulado com o exemplo do Dr. Mauro Czepielewski, preceptor e professor de Endocrinologia da UFRGS e do Hospital de Clínicas, onde estou estagiando este mês. Aula de canto bem boa. A professora é superestimulante e levanta minha moral. Ela consegue me fazer soltar a voz! Vou ficar bom! Ontem plantão no Conceição. Bem bom. Tranqüilo, sem estresses, dormimos cedo. Agora já estou de banho tomado e vou ir com a Cris Traiber lá no Cabaret Voltaire. Tem uma festa temática dos anos 80, uma tal de Killing Moon. Vai ser bom. Quero voltar cedo. Acho que vou levar meu quadro para deixar lá... "Tudo pode ser reaproveitado"

pwefpwefijpqfikjwpfoikjwprgikjwpkefjwpfoiwfpwprwrpoikjwpewprokg... Livre teclar... "Oh! Céus, Oh! Vida, Oh! Azar!" Honduras versus Uruguai pela Copa América na TV. Mãe pronta para deitar. Vou me arrumar para sair. {19/07/2001 - Quinta-feira - 22:16}

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Dia Não
Alessandro Garcia

Ramirez acordou mais cedo do que de costume e sentiu que a região na volta do seu pênis se encontrava molhada e pegajosa. Achando tratar-se de uma polução noturna, Ramirez levantou o lençol e gritou assustado quando viu seu púbis encharcado de sangue. No entanto, Ramirez não sentia dor nenhuma, e, sem que Nicole chegasse a se acordar, Ramirez levantou-se, levando consigo o lençol ensangüentando para dentro do banheiro. Em frente à pia, Ramirez tentou lavar sua região pubiana, mas o sangue já se encontrava em parte ressequido e puxava seus pentelhos cada vez que Ramirez fazia uma fricção mais acentuada. Ramirez limpou o quanto pode, o bastante para perceber que ele não tinha qualquer lesão que pudesse ter ocasionado tal derramamento de sangue. Só então, Ramirez se deu conta de ver se Nicole também se encontrava ensangüentada. Ramirez estranhou, já que tinha certeza de que não tinham transado na noite passada e não via motivos para aquela quantidade de sangue presa no seu pau. Ramirez virou Nicole, que dormia pelada e viu, horrorizado, que toda a parte da frente do seu corpo estava repleta de sangue, também, mas em quantidade absurdamente maior do que a dele. Nicole tinha sangue, como se tivesse sido pintado em grossas pinceladas, espalhado pelas suas pernas e coxas, bem como toda a extensão de seus braços. Sacudiu Nicole, apavorado, sem noção nenhuma do que aquilo significava. Conseguiu se acalmar um pouco quando Nicole se acordou e ficou olhando muito séria para Ramirez. Ramirez gritava o seu nome e Nicole, no entanto, permanecia muda, com a boca selada como se costurada estivesse. Os olhos muito arregalados, encaravam Ramirez como que num pedido de socorro silencioso. Ramirez perdeu a noção do que fazer. Continuava a olhar fixamente para o rosto de Nicole enquanto examinava o chão do quarto. Nicole parecia fazer força para abrir a boca e seu resultado era nulo. Ramirez achou poças secas de sangue pelo chão, espalhadas sistematicamente com intervalos dispostos em alguma espécie de ritmo que não conseguia identificar. Nicole não se levantava da cama e tudo o que conseguia fazer era encará-lo com aquele desespero mudo.

Ramirez correu até a mesa de cabeceira e viu que o telefone tinha sido arrancado da tomada. Foi até a sala, e notou que a fechadura se encontrava perfeitamente trancada, embora também envolta por uma camada de sangue que, agora seca, pingara intermitentemente no assoalho, formando uma espécie de hieróglifo. Ramirez bateu desesperado na porta, sem coragem de tocar na fechadura, mas ninguém se manifestou do outro lado. Quando voltava para o quarto, viu que os ponteiros do relógio da parede haviam sido arrancados. Na mesa ao lado de Nicole, o relógio digital teve seu display de vidro retirado. A televisão, que ele não deixara ligada, mostrava somente a tela disparando flashes em amarelo. Nicole começava a rastejar ao seu encontro. Ramirez abriu a janela e tudo o que viu foi centenas de crianças e cabras andando pela rua. As cabras tinham a barbicha ensangüentada e deixavam um rastro vermelho pelo caminho enquanto se deixavam levar pelas crianças, amarradas pelo pescoço e puxadas pelos dedinhos rechonchudos daqueles pequenos que entoavam um estranho cântico, em uníssono. Ramirez sentiu a mão de Nicole puxando sua perna. Se abaixou até conseguir abraçá-la e foi sentado, abraçado à Nicole, que ele escutou batidas na porta, seguidas por uma voz fina que falava que era a vez deles.

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Kritik und Kommentar

A propósito dos encontros internéticos

Tendo em mente que o devaneio não deixa de ser real, físico e mesmo a realidade é surreal, e pode não passar de um grande devaneio, então não é novidade nem absurdez um encontro virtual, na medida em que não é muito mais fantasioso e nem muito mais verdadeiro do que um de carne e osso. Creio que as pessoas são os itens de procura mais retornáveis e rentáveis da internete: você pode conhecer músicas, mas, melhor, pode conhecer músicos, pode baixar programas, mas pode conhecer programadores. A informação não existe sem o informante, e toda a informação da rede é um diálogo de duas pessoas ausentes (distantes). Certa vez eu havia pensado: "...afinal, cada um está na sua casa, no seu computador, solitários. Pessoas que se desconhecem mas estão virtualmente na mesma sala, ou seja, que não estão na mesma sala, não pode ser chamado de grupo." Analisei a realidade do encontro: na verdade era um desencontro. Troca-se palavras, claro que não deixamos de sentir emoções, é de nossa essência. Sei falar de encontros que tive: o papo era bom, mas eu sentia estranheza em relação a. As gurias que conheci desse modo, conversei bastante com elas até o encontro "real", e elas tomaram precaução de escolher lugares bastante movimentados, assim, seguros. Até ali você sabia o que a pessoa disse, um pouco de como pensa e até mesmo o que gosta, mas tudo isso era incorporal, sem rosto, etéreo. Um advento interessante creio que são as câmeras. Dá pra ver gestos e trejeitos, dá uma idéia bem razoável. É algo de se testar. Enfim, é meio isso: não tem nada de muito anormal, é um veículo. Não é salvação, é uma alternativa, prós e contras. A beleza e a mágica do momento são insuperáveis. É como você querer ver por uma foto o que sentiu ao visitar a chapada diamantina. Ou sem visitar, o que é pior. Mas é válido, é válido.

Guilherme Franco

(OBS: comentário referente ao texto Encontros Virtuais - Ilusão ou Realidade, publicado na edição número 33 do Simplicíssimo)

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