Editorial
Em
tempos em que até o nome da novela das 6 engorda,
nada como um antídoto para isto:
-
"É isto aí minha amiga. O que você
está fazendo aí no sofá? Levanta
daí e ligue agora mesmo: 33 78 78 78. Aproveite
já nossa promoção..."
Infelizmente, vivemos onde a charlatanice e a propaganda
enganosa são levadas impunemente. Vendem-se informações
irreais de forma descarada e irresponsável, de
forma tão insistente e acintosa que chega a enjoar.
Não conheço uma pessoa aqui em Porto Alegre
que não esteja incrivelmente incomodado com a voz
irritante da loira do Magridiet. Até o ator global
Caio Blat, que até onde se saiba, adepto dos alimentos
naturais e pregador de um estilo de vida "orgânico"
acabou cedendo à pressão do dinheiro para
vender mais esta farsa.
Para muitos que não são aqui do Sul, cabe
um esclarecimento: o Magridiet é um suposto produto
"natural" composto de fibras capaz de fazer
milagres levando a reduções incríveis
de peso em pouco tempo.
Como médico endocrinologista, tenho o dever de
informar que tal medicação, como é
proposta enganosamente na propaganda, não existe!
Os efeitos prometidos nunca ocorrem. Digo isso de fato
e não por opinião, pois já atendi
numerosas pacientes que utilizaram a referida substância
sem efeito algum no peso. Mas então, como algumas
pessoas efetivamente perdem peso com o tal do Magridiet?
Explico: juntamente com o tal do Magridiet FPH (como chamam)
vem uma dieta hipocalórica, a qual os pacientes
são orientados a seguir em conjunto com o uso da
medicação. E o que se observa? Simples:
aquelas pacientes (digo aquelas pois a imensa maioria
são mulheres) que usam o Magridiet e fazem a dieta
sugerida, perdem peso; aquelas pacientes que só
usam o Magridiet não perdem peso. Qualquer estudante
da segunda série do primeiro grau poderia afirmar
com certeza, a esta altura, que o que funciona, na situação
citada é a dieta e não o Magridiet.
E assim vemos várias outras situações
da vida cotidiana acontecerem na nossa frente sem que
possamos nos pronunciar e nos defender. Onde está
a vigilância sanitária, o Ministério
da Saúde, o PROCOM ou o raio que o parta para fazer
alguma coisa??? O silêncio é assustador!
Compraram os órgãos reguladores? A mídia,
que veicula tais colossos de charlatanismo não
deveria ter sua ética e averiguar a veracidade
das informações veiculadas, mesmo através
de comerciais deste tipo, para evitar um dano ao consumidor-espectador?
Podemos, já que falamos tanto hoje em dia de empresas
com "Responsabilidade Social", falar também
de empresas de televisão com um tipo de "responsabilidade
social" sobre o que é veiculado.
Bom, o que importa mesmo é que nesta edição
temos uma novidade importante: a presença de um
Ombudsman! Isto mesmo! O Simplicísimo agora vai
ter um feroz e sangüinário caçador
de erros em nossos calcanhares, pronto para disparar sua
acidez ao mínimo tropeço. Ou mesmo que os
tropeços não ocorram! Seja bem-vindo Maurício!
Tenho certeza que seus apontamentos serão sempre
criteriosamente analisados pela Edição e,
creia, escreva o que seu espírito lhe ordenar que
tudo será publicado na íntegra.
Nesta edição, depois de uma pausa devido
à série de "edições especiais"
que tomou conta do Simplicísimo, teremos a volta
da seção "Escrever por Escrever",
que é bom que se diga, vale a pena atentar a data,
pois ela foi escrita há anos atrás. Não
confunda carvalhos com baralhos! Até semana que
vem!
Rafael
Luiz Reinehr
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E
com vocês: o pigmeu-moral que queria ser ombudsman;
e o seu avesso.
Maurício
Santos
Por
auto-eleição e acolhimento posterior do
nobre editor do Simplicíssimo, sento, a partir
de hoje, no trono de ressentidos que é o lugar
de um ombudsman. Deve ter sido invenção
do jornalismo americano, sei lá, e, querem saber,
tenho preguiça de investigar/construir uma genealogia
da figura. O ombudsman, dizem os manuais de jornalismo,
deve ser uma espécie de advogado do leitor. Ele
é eleito ou escolhido e tem estabilidade no cargo,
ou seja, não pode ser demitido por um tempo de
mandato pré-determinado (um ou dois anos, por exemplo).
Semanalmente tem seu espaço garantido para escrever
o que bem entender sobre as matérias, editoriais,
escolhas de pauta, posturas do veículo. Normalmente
é “ajudado” por leitores indignados
ou espertos, desocupados ou ufanistas, que crêem
estar colaborando para um jornalismo mais “democrático”.
O ombudsman é, no fim das contas, a fina-flor da
liberal-democracia jornalística. A doença
da grande mídia, contudo, é muito mais pustulosa
do que pode parecer, e querer dar conta de suas profundas
estruturas gangrenosas com um ombudsman é como
acreditar que uma passeata com bandeiras brancas e bons
sentimentos pudessem barrar a insânia do massacre
ao povo do Iraque a ser cometido pelo eixo paranóico-militar-petrolífero-neoconservador
estadudinense. Por isso, a presença do ombudsman
se limita a dar uma aparência de maior legitimidade
e transparência para o veículo que o contrata;
como cantava Lobão, é tudo pose ... Há
algo engraçado com relação a isso:
alguns jornais ,como o gaúcho zerohora por exemplo,
são tão escancaradamente antidemocráticos
e vinculados a setores políticos e econômicos
determinados, que nem mesmo o simulacro de um ombudsman
conseguem criar e suportar, seria muito risco, mesmo com
um cenário cuidadosamente preparado, tal é
o nível da manipulação.
Mas
porque todo esse lero-lero? Só para avisar que
este que vos escreve pretende ser um anti-ombudsman ou,
quem sabe, um ombudsman pigmeu-moral, um ombudsman que
admite o alto grau de narcisismo de seus (não)colegas
de imprensa, que sabe que não querem defender democracia
coisa nenhuma, muito menos leitores ou algo como a lisura
jornalística. Os verdadeiros ombudsmen, se existissem,
nunca seriam contratados, e a verdadeira democracia, se
existisse, prescindiria deles. Além disso, o Simplicíssimo
já é escrito por seus próprios leitores,
ou seja, não é um veículo de comunicação
tradicional. Está mais para uma rede-livre, rede-quente,
um pequeno turbilhão de palavras ansiosas por afetar,
cantar, dançar, beijar. Então este ombudsman-pigmeu
não será mais que o seu chato de plantão,
que se permitirá dizer o que bem entende, como
quem distribui flores para estranhos ou cospe de sua sacada
na cuca dos desavisados ... Tudo pela diversão!
É
claro que na medida em que escrevo pretendo ser lido,
por isso, às favas com o papinho de uma amiga minha:
“me visto assim para mim mesma, porque gosto, para
me sentir bonita e não para os outros”. Pipocas
!! As pessoas se vestem para os outros, para alguns outros,
para serem olhadas, admiradas, desejadas, devoradas (e
isso também vale ao avesso). Eu também;
tenho carência de que me leiam e gostem e queiram
ler novamente, mas também careço de desconforto,
irritação, discordância , quem sabe
ódio! Odeiem-me! Por favor, detestem-me! E depois
me mandem beijocas.
Então,
a partir da próxima edição farei
minhas intervenções sem compromisso. Direi
o que quiser sobre o que bem entender do que foi publicado
no Simplicíssimo (ou não) e aceitarei o
que vier de volta. Viverei o quanto Deus ou o editor ou
os leitores-assinantes-autores deixarem e isso já
terá bastado. E no fim das contas, como diria o
velho Nietzsche, só resta a ALEGRIA porque esta
quer eternidade, quer profunda eternidade.
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Saudosa
Mangueira
Pedro Scestatsky
Chegar no Maracanã foi moleza. Agora meu objetivo
era o Morro da Mangueira. Inspirado pela figura de Cartola
& Carlos Cachaça e motivado por um documentário
de Ivo Dornelles, não pensava em outra coisa nos
últimos dias: visitar um dos berços do samba
no país, um lugar responsável pela identidade
brasileira, um lugar adorado por todos que o visitam,
inclusive Bill Clinton, no ano passado. E queria também
um pouco de emoção nesta minha vida tão
sacal, ultimamente. A minha última grande emoção
tinha sido um jogo do Inter vários meses atrás
em que ganhamos de virada. Na parada de táxi do
maracana:
“boa tarde, carioca, poderia me dar a simples informação
de como chego no Morro da Mangueira”.
Risos.
“Voce quer subir o morro, nao é?”
“Sim, como faço”.
“Entre no carro”.
“Não, não, valeu. Tô afim de
ir de ônibus mesmo, é óbvio, se tu
me
permitires”.
“Ah, então ce pega o 722 meHmo, passa bem
ali ó”.
“Obrigado”
Decidi não perder o meu tempo explicando que eu
não estava interessado em drogas. Lá vinha
o 722. Coração disparando forte. Da mesma
maneira do que o ônibus que ia para Rocinha, brancos
e pretos lotavam o veículo meio-a-meio. Nao sei
bem porque esta observacao, mas por algum motivo achei
digna de nota. Ou talvez porque seja meio racista no fundo,
não sei, ninguém sabe de si. Um dia inventarão
um exame de sangue para detectar racismo. Aí sim,
vai triplicar o número de faculdades de Direito.
Só a ULBRA vai abrir umas 15. Mas não vamos
dispersar. Perguntei então para aquela ilustre
ordinária (no bom sentido) passageira
“Com licença, qual é o seu nome senhora?”
“Meu nome é Dejair”
“Boa tarde, senhora Dejair. O negócio é
o seguinte: estou muito a fim de conhecer o morro de vocês
aí. Em parte pelo samba, em parte pelo Cartola.
Bem acho que dá no mesmo. O problema é que
não conheço muita gente aí estou
com medo de ser assaltado, a sra sabe. Tenho a pele muito
branca,. a sra sabe”
“E o que é que eu tenh a ver com isso, garoto”
Começou a rir, só estava me “cozinhando”.
“Aqui mora a D.Neuma, ao lado a D.Zica patati patatá...”
Mulher de Cartola, pensei. Nossa, tinha que visitá-la,
mas não agora.
“E este é o Osvaldo, um dos organizadores
da escola”
“Bom dia, muito prazer Osvaldo. Poderia caminhar
um pouco com você?”
“Claro, gaúcho”
Me mostrou a favela, as construções, as
crianças e alguma histórias. Confirmou algo
que eu já tinha lido: Carlos Cachaça não
estava presente no dia da fundação da escola.
Tinha conhecido uma moçoila lá da Candelária,
bem ao lado. Já Chico Porrão estava lá,
juntamente com Angenor Ferreira, mais conhecido como Cartola
e mais alguns outros sambistas. Estive no casebre famoso.
Depois fomos para escola. Bill Clinton estivera lá
há um ano atrás, com Pelé. Lá
estava a famosa quadra de samba, com seus camarotes imponentes.
O mais centrão era de Jamelão, intérprete
histórico ejá sem muito fôlego. Visitei
a diretoria e falei com o grande presidente. OK, agora
queria visitar D.Zica. Na verdade só consegui falar
com a Dona Zica após três subidas no morro.
Ela nunca podia me receber. Mas fui insistente. Nosso
primeiro encontro foi muito breve. Estava saindo para
o médico por dores lombares. Me tratou com distinção.
Na segunda vez estava dando uma longa entrevista para
um documentário. No terceiro dia aí sim,
conversamos bem, sobre Cartola principalmente. Fiquei
encantado com aquela velhinha de 87 anos. Me deu seu livro,
seu telefone, e não me convidou para feijoada que
estava fazendo. Seria demais, mas tudo bem, a receita
estava no livro que estava levando. Tirei algumas fotos,
dei-lhe uns beijos e fui embora, louco para revelar as
fotos e escrever alguma coisa sobre o acontecido: entrar
na casa de Cartola e quase ver seu baú de pertences
pessoais, que incluia sua famosa violinha. Isto, D. Zica
não quis me mostar. Quem sabe da próxima
vez.
“Bem, acho que vou indo, D. Zica, sabe como é,
né? Não posso esperar pelo anoitecer aqui
por essas bandas”
“Que é isso, garoto? Vai ficar aí
mais um pouquinho e vai comer minha feijoada."
Já tinha ouvido falar que D. Zica era ex-cozinheira
do Copacabana Palace. Não hesitei.
“Claro. Zica. Por que não?
A experiência de ter comido a feijoada da Dona Zica
foi a maior da minha vida e após finalizado o banquete,
ainda na na mesa (bastante estufado) perguntei:
“Puxa Dona Zica, como é que se faz esta feijoada?
Queria tanto fazer para os meus amigos em Porto Alegre!”
Feijoada
da Dona Zica (é a “estranheza” do conto.
É o que temos...)
“Bem
gaúcho, o primeiro ingrediente é o amor,
pois sem amor não existe um
bom tempero, e nem uma boa cozinha”
“Naturalmente, Zica”
“Então vamos para os condimentos, que são
bem conhecidos: alho, cebola,
folhinha de louro e uma pitadinha de pimenta do reino.
Não esquecer do óleo
e sal. E mais: carne seca, costelinha defumada, paio,
pezinho e orelha de porco, calabresa e toucinho defumado.
Modo de fazer para 10 pessoas: 1 Kg de feijão e
11/2 Kg da carne seca ao toucinho, ou seja, mais ou menos
250 gr de cada ingrediente defumado. Coloque o feijão
para cozinhar e, à parte, as carnes. Depois de
estarem cozidas, escorra a gordura e misture-as no feijão.
Para acompanhar, arroz branco, couve, farinha de mandioca
e laranja. Por fim, sugiro um bom aperitivo, aquela caipirinha.
Assim se delicia essas duas maravilhas tipicamente brasileiras...”
“Ah, mas eu prefiro mesmo e uma cervejinha gelada,
Dona Zica. Pode ser? Ah tá, porque se não
puder eu não tomo. A senhora é quem sabe”
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Tôco
Alessandro Garcia
A anã me olhava dando risadinhas com seus dentinhos
careados parecendo querer demonstrar que este era o seu
método de sedução que melhores resultados
lhe trouxeram até agora. Eu, entre compadecido,
enojado e fascinado, dava um sorrisinho cumplíce
para que a anã não achasse que eu, afinal,
sou alguma espécie de filho da puta mal educado.
Se bem sei, risadinhas continuam a fazer parte da relação
de conveniências que procuram assegurar alguma espécie
de troca empática entre duas pessoas - e a anã
parecia realmente querer conquistar a minha empatia. Com
sua sainha de crochê que deveria ter pertencido
a alguma criança de uns cinco ou sete anos muito
relaxada, ela deixava à mostra somente o cotoco
que formava sua canela grossa. Se ela estivesse sentadinha
a balançar os cotoquinhos alegremente, junto com
aquelas risadinhas de dente careados, creio que seja possível
dizer que ela teria me conquistado com muito mais rapidez
do que conquistou.
*****
Eu
não sei porque continuo vindo aqui - não
sei se a anã tem conseguido ser feliz no seu intento
de me seduzir ou se o encanto bizarro tem se entranhado
no meu ser -, mas a verdade é que, olhando meio
de lado, a anãzinha não é assim tão
desprezível. Tem alguma gracinha naquele seu jeito
de colocar o cabelinho fino para trás da orelha
com o dedinho indicador em riste. Na verdade, não
gosto de vê-la com este olhar preconceituoso, como
se fosse um objeto raro ou alguma anomalia apresentada
em circo tal qual aqueles seres deformes com uma cabeça
extra colada ao pescoço. Na maioria das vezes,
infelizmente, é este tipo de atividade que os anões
em geral costumam exercer, mas esta anãzinha decidiu-se
por uma forma alternativa de ganhar a vida. Só
que eu não sei se é realmente bem sucedida
no que faz, porque sempre que venho aqui, ela continua
ali, no mesmo lugar, com as mesmas risadinhas, no entanto.
Só mudam as sainhas de crochê e os tops,
de vez em quando. A meia eu já notei que é
quase sempre a mesma - e, na verdade, não sei porque
insiste em utilizar meinhas de algodão branco com
sandálias como se parecesse uma menininha arrumada
pelos pais. Vai ver se vale disto para despertar o encanto
em quem a observa, afinal de contas, não creio
existir muitas outras artimanhas disponíveis para
uma anã utilizar: mulher fatal, diva loira ou gostosona
de shortinho parecem não lhe caber. No máximo
um calçãozinho enfiado no reguinho pequeno
pode ficar de alguma maneira excitante, mas acho que,
no final das contas, a puerilidade que exala naquele seu
balançar de perninhas [hoje se pôs sentadinha,
como que adivinhando meus pensamentos de ontem...] e no
jeitinho dócil com que põe o cabelinho fino
para trás das orelhas pontiagudas acaba sendo a
maneira mais satisfatória de encanto que consegue
proporcionar.
*****
A
anãzinha hoje foi mais ousada. Me olhou e, além
de sorrir, balançou os dedinhos curtos em minha
direção com aquela abanadinha típica
de tia gorda do interior em porta de festa de aniversário.
Não retribuí o gesto. Acho que preciso rever
meus conceitos, pois, talvez não seja tão
bem educado assim. A verdade, é que a anãzinha
que tanto me tem encantado, hoje está me irritando
profundamente: tenho vontade de bater na sua cara ou de
levantá-la pelas axilas e balançar o seu
corpinho até que não mais esboce sinal de
vida. Tenho destas coisas de vez em quando: uma ternura
quase sem fim que me faz delirar com pequenas coisinhas
que encontro pelo caminho e que não costumam ser
notadas pela maioria das pessoas, podendo ser flores em
meio a pequenos toletes de merda ou mesmo criancinhas
a bater insistentemente no vidro do meu carro. Em instantes
depois, posso estar com vontade de enforcar a vovó
mais doce e generosa que venha me oferecer um pedaço
de bolo de cenoura com chá de pêssego. Acho
que tem a ver com o excesso de candura que muitas vezes
exala destas coisas e que entope alguma artéria
sentimental minha, não me tornando mais paciente
para suportá-las. Que bom que, ao final, fico apenas
com a vontade se desenhando em minha cabeça e,
ao que me lembre, nunca cheguei a levar a cabo nenhum
destes intentos mais violentos. Acho que a doçura
me toma de novo agora, pois já não creio
que seria algo muito justo de se fazer pegar a anãzinha
pelas axilas e sacudi-la violentamente até que
rompesse em espasmos ou rebentasse alguma veia importante
da cabecinha. Uma vez parece que ouvi falar de alguma
diferente formação craniana que gera uma
fragilidade extrema no cérebro destes serezinhos
de pequeno porte, portanto é bom não abusar
destas coisas da qual tenho pouca informação.
Pegá-la agora pelas axilas e sacudi-la violentamente
para saber se tem pouca resistência a bruscos gestos
de movimentação de seu pequenino corpo não
deve ser a experiência mais indicada para o momento.
*****
Acho
que vou até ela. Está tão triste
que tenho vontade de niná-la no colo. Lógico
que esta candura que em mim se incorpora vem acompanhada
de princípios de dominação - e quem
não gostaria de ter uma anãzinha sob domínio
para satisfazer seus devaneios eróticos? Ela tem
carinha de safada. Não sei se é mais uma
das suas artimanhas, mas hoje se botou casmurra e nem
seus dentinhos careados quis me mostrar. Seus gestos são
mais curtos do que normalmente seriam e, se afasta o cabelo
dos olhinhos é porque eles realmente a atrapalham,
e não por que com isto queira impor algum princípio
de sexy appeal. Acho que desistiu de mim. Na verdade,
acho que nunca a mereci de verdade. Quem compreenderá,
afinal, o que se passa em sua cabecinha?
Alessandro
Garcia (http://suburbana.blogspot.com ) é escritor
e publicitário, tem 24 anos, e acha Porto Alegre
a capital do mundo. Apaixonado por Legião Urbana
e Pearl Jam (e contraditoriamente, fã ardoroso
de música soul), sabe que tudo é uma questão
de manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração
tranqüilo.
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Escrever
por Escrever XXXVII (excertos)
Rafael Luiz Reinehr
{18/08/2001 – Sábado – 18:12}
Começarei a transcrever a “Agenda-Diário
de 1999”. Nela encontraremos minha maior iagem até
agora: “Aventuras Rafaelísticas em Londres”!
(24/04/1999)
Hoje tomei consciência de uma coisa chamada Jornal
de Pesquisa, onde você escreveria tudo de relevante
que acontece a você durante o dia, para posterior
uso em uma futura redação de um trabalho
qualitativo que você planeja realizar. Vou tomar
essa idéia para mim e iniciar a escrever meu Diário
de Apontamentos, onde relatarei acontecimentos que preencheram
meu dia e pensamentos e sentimentos que povoaram minha
mente.
(27/04/1999)
Hoje o dia inteiro foi muito corrido. E tinha muitas coisas
a fazer na faculdade, além de ainda ter que arrumar
minhas trouxas para a viagem. Almocei com a Sheila, lá
no meu apê. Ficamos juntos até por volta
das 16:00, quando ela tinha orientação de
mestrado e eu tinha de ir justificar minha ausência
nos primeiros dias de junho. Voltei para casa e eu e mamãe
terminamos de arrumar as malas e fomos para o aeroporto;
a Sheila veio! Que bom! Mamãe chorou na despedida,
assim como vovó havia chorado lá em Agudo,
no domingo. Quando o avião decolou, em Porto Alegre,
rumo a Londres... ... nossa, foi uma sensação
muito estranha: de que alguma coisa em minha vida iria
mudar, e muito. Sensação que algo novo iria
ser apresentado para mim, um novo mundo, uma nova visão
de vida. Ao mesmo tempo em que isso me fascinou, eu senti
medo. Medo de deixar as coisas antigas de lado. Deixar
minha casa, minha família, minha namorada, minhas
coisas, enfim, para trás, mesmo que fosse por um
tempo determinado e curto. Algo vaiacontecer!
(28/04/1999)
Já passa da meia-noite aqui em Londres. No Brasil
deve ser cerca de 8:32, ou melhor, 20:32. Depois de tanto
viajar, finalmente a recompensa: essa cidade linda, cheia
de muito verde e pessoas bonitas. Fui muito bem recebido
pelo Alessandro e pela Phillippa. Conheci também
o Ed, que mora com eles. A janta estava ótima (massa
a bolonhesa, salada de alface e tomate, pão torrado
e, de sobremesa, morangos!). Depois me levaram a um pub,
onde bebi 2 pints (1 pint=568 ml) de cerveja Lager. Agora
estou no meu alojamento no Wittington Hospital. Acabei
de conhecer o Navil, meu vizinho de quarto; a outra vizinha,
Blue, está dormindo. Já estou apijamado,
pronto para dormir.Devemos
ser espontâneos. Lembrar da não-ação:
a atitude mais certa que temos de tomar é a de
não fazer as coisas, deixar que elas sejam feitas
por si só, naturalmente. Para descobrirmos nossa
verdadeira essência, não devemos procurar
em nenhum local que não seja dentro de nós
mesmos pois senão estaremos cavalgando um boi à
procura de um boi!
(29/04/1999)
Hoje fui até o St. Bartholomew’s. Conheci
Miss Rita Simpson, a “administradora de departamento”
da Endocrinologia, Dr. Michael Besser, Dr. Ashley Grossman
– parecem ser todos bem legais. O hospital é
um espetáculo, com seus prédios antigos,
muitas flores (tulipas!) em toda a parte. Assisti a um
seminário de Hormônio do Crescimento ( naverdade
uma discussão sobre tratamento compartilhado entre
“GPs & Endocrinologists” para insuficiência
hipofisária de GH). “Almocei” sanduíches
e suco de laranja oferecidos por um laboratório.
À
tarde, fomos eu e Phillippa às compras. Fiz minha
carteira de estudante internacional, comprei minha passagem
de trem pelo Eurotunnel para Paris, comprei um guia de
Paris naDyllon’s e fizemos compras no supermercado.
À
noite fomos eu, Navil e Norin (uma colega do Alessandro)
jantar na sua casa. Depois da janta voltei para o alojamento
e arrumei minhas coisas para a viajem de amanhã:
Paris aí vou eu!!! Li um pouco do guia de Paris
para aprender algumas expressões relevantes. Estou
com saudades do pessoal do Brasil, e com um pouco de medo
da minha aventurade amanhã. Tudo vai dar certo!
{18/08/2001 – Sábado – 18:41}
(continua na próxima semana...)
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Pataxós e papais
Hamilton LIma
Alguém ainda se lembra do crime hediondo contra
o índio Pataxó Hã-Hã-Hãe
Galdino Jesus dos Santos? Se esqueceu é só
rememorar um pouco. Foi no dia 20 de abril de 1997, na
cidade de Brasília, capital desta república
da justiça curiosa.
O local do crime, um banco da parada de ônibus na
703 Sul, foi sua última cama. Um grupo de rapazes
de classe média passando no local achou interessante
comprar combustível e queimar o indígena.
Depois fugiram. Galdino teve seu corpo queimado em 95%,
morrendo mais tarde.
Os autores da “brincadeira” foram os jovens
Max Rogério Alves, Antônio Novély
Cardoso de Vilanova, Tomás Oliveira de Almeida
e Eron Chaves Oliveira. Um deles filho de juiz federal,
o que atrapalhou bastante o andamento do processo, pois
para que a lei seja cumprida a paternidade é importante
no Brasil.
Em uma homenagem do povo de Brasília, o lugar onde
Galdino foi assassinado transformou-se em Praça
do Compromisso com a Justiça, a Paz e a Vida. O
local é conhecido como "Praça Galdino",
onde o artista Siron Franco ergueu um monumento. Todos
os guias turísticos passam pela praça para
mostrar o grau de justiça do país.
Os rapazes foram julgados, mas de acordo com o jornal
Correio Braziliense, os assassinos de Galdino nunca estiveram
numa penitenciária comum, como deveriam estar.
Eles permaneceram inicialmente em uma biblioteca desativada,
um privilégio concedido porque serem filhos de
pessoas influentes.
Uma vez condenados, a vida dos jovens continuou boa. Parte-se
do princípio no Brasil que o poder econômico
e político permite todo tipo de violência
contra segmentos carentes da sociedade.
Flagrados pela reportagem do Correio Braziliense em bares
e consumindo cervejas, os jovens provaram que a justiça
brasileira é boa para quem tem influência.
Esta semana os jovens foram ouvidos pelo Tribunal de Justiça
por descumprir os benefícios judiciais, que lhes
permitia trabalhar e estudar.
A sociedade brasileira está apreensiva. Existe
a possibilidade de um juiz amigo do outro juiz mandar
desenterrar o índio e condená-lo por ter
cruzado o caminho dos assassinos desqualificados.
Sarcasmos à parte, os jovens conseguiram até
renovar suas carteiras de habilitação no
Detran de Brasília, um benefício concedido
apenas aos cidadãos que não estejam com
problemas legais. Retratos do Brasil.
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