Editorial
Se
existem dois fenômenos hoje em dia são o
menino-bruxo Harry Potter, personagem de J. K. Rowling,
e o culto acentuado e frenético ao corpo que presenciamos
em nossa sociedade ocidental.
O primeiro fenômeno, que vem acontecendo desde o
lançamento do segundo livro da série Harry
Potter, não sei explicar, afinal de contas, apesar
de ter lido "Harry Potter e a Câmara Secreta"
e ter comprado, logo em seguida "Harry Potter e a
Pedra Filosofal" - por ter achado a capa colorida
e bonitinha - nada de excepcional encontrei em suas páginas.
Realmente, pelo que me lembro, a Série Vaga-Lume
teinha livros tão ou mais atraentes, cativantes
e grudentos. Nunca conseguirei esquecer "O Mistério
do Cinco Estrelas", "O Rapto do Garoto de Ouro"
e "O Escaravelho do Diabo", entre tantos outros.
Talvez, ou melhor, com certeza, os tempos são outros.
Naquela minha infância, meus estímulos haviam
sido distintos dos que nossas crianças agora recebem.
Bem, mas creiam que posso gentilmente entender e aceitar
parte do sucesso associado aos livros, pois os mesmos
apresentam um certo "suspense" gostoso, que
faz o leitor querer chegar ao final (e o final não
chega até o próximo livro, em uma seqüência
até agora sem fim...); o que não se entende
é a tão estrondosa balbúrdia que
os meios de comunicação fazem a cada novo
lançamento de um livro de Harry Potter. São
incontáveis minutos mostrando e falando de crianças
que ficam na fila das livrarias, brasileiros que compram
livros importados pois os mesmos chegam antes da versão
traduzida e coisas assim. Bem, fenômenos não
são mesmo feitos para serem entendidos...
Já que não preciso entender os fenômenos,
vou me ater a constatar o fato de que vivemos em uma loucura
crescente e, creiam-me, prejudicial à saúde
mental de nossa sociedade. O culto desenfreado ao corpo
é sim uma doença, de cunho social mas que
invade os mais profundos armários inconscientes
da mente dos pobres incautos que querem, a todo custo
a beleza propagandeada de forma alardeante aos quatro
ventos. O caminho do espírito há muito foi
deixado de lado prás bandas de cá. Existem
poucos resistentes espalhados por aqui ou por ali, mas
a esmagadora maioria busca através de soluções
meramente estéticas e muitas vezes danosas à
saúde a forma corporal ideal. Somente para ilustrar
esta assertiva, quando olhamos as estatísticas
de acesso do Simplicíssimo, encontramos, nos 5
primeiros lugares de acessos através de palavras
chaves de buscadores (como o google, altavista, etc.)
as seguintes palavras:
1. femproporex (25,14% dos acessos) - um derivado anfetamínico
2. dualid (11,43%) - mais um derivado anfetamínico
3. magridiet (11,43%) - uma porcaria que não resolve
nada
4. inibex (5,14%) - mais um composto com potencial de
abuso e dependência
5. coscarque (2,86%) - outra porcaria
Isso reflete a intensidade de busca de informações
sobre tais medicamentos, utilizados para perda rápida
de peso, muitas vezes em detrimento da saúde. Somente
em sexto lugar encontramos a menção a "fotos
psicodélicas", com 1,71% das preferências
de buscas que chegaram ao Simplicíssimo. Lembramos
que tais medicações foram listadas na enquete
que se encontra no site (que vale a pena dar uma olhada)
onde perguntamos aos leitores quais daquelas medicações
eles já haviam utilizado.
Que culto ao corpo e Harry Potter que nada galera! Vamos
é escrever para o Simplicíssimo! Lembrem-se
que estamos compondo o Hino do Simplicísimo e precisamos
de sua ajuda! Mande a sua original frase para compor esta
obra de arte! O tempo está se esgotando!
Outra observação: em função
do grande número de textos que temos recebido,
os mesmos estão começando a acumular e por
isso, a partir da próxima, teremos 9 textos por
edição, tentando sempre publicar pelo menos
1 ou 2 poesias, que chegaram às dezenas! Então
digníssimos amigos colaboradores, não se
alarmem pois seus textos em breve estarão sendo
publicados!
Até semana que vem, sem atrasos, se tudo der certo!
Rafael
Luiz Reinehr
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A
Cerca de Pedras
Mauro
Rodrigues
-
Embarca - me disse ele.
Saltei imediatamente para cima da carroça. Ele
olhou-me com desdém e bradou:
- Vai pegar tuas coisas e volta logo que temos pressa.
Foi o tempo de um relâmpago para voltar com minhas
roupas enroladas num cobertor, que me ajudaria a resistir
ao frio durante a viagem.
Nosso destino: Uruguai. Muitas estórias ouvia sobre
os castelhanos, mas agora iria viver uma ao lado de meu
pai e alguns amigos, a maioria lindeiros de nossa chácara.
Meu pai é um dos poucos que restam na arte de construir
cercas de pedras e acertou a construção
de uma grande mangueira, com bretes e currais. Rumamos
para lá em meados de novembro para retornar por
volta de fevereiro ou março, dependendo do clima,
das pedras disponíveis e dos peões que nos
conseguissem no país vizinho. Todos contam maravilhas
da República Oriental do Uruguai e me fazem sentir
inveja dos uruguaios, por suas conquistas, por sua liberdade,
por sua soberania.
Foram três dias no passo lento das carroças.
Não podíamos cansar demais os animais e
a paciência passou a ser uma das qualidades necessárias
àqueles dias. Tanto que aprendi a conviver e lidar
com ela. A paisagem da campanha se desdobrava a nossa
frente e por vezes parecia que estávamos no mesmo
lugar por horas. Nesses momentos tinha que fechar os olhos
e agarrar-me a carroça, se caminhando, ou baixar
a cabeça até que só visse o capim
passando por entre as frestas da mesma. Aproveitava, como
passatempo, para conhecer melhor as ferramentas que levávamos.
Entre martelos, marretas, talhadeiras e punções
pude verificar alguns cordões de couro, que mais
tarde saberia que o usariam como uma espécie de
luva para lidar com as pedras. Não tinha tido muito
tempo para me familiarizar com a profissão, mas
começava a conhecê-la melhor.
A recepção na fazenda foi mais fria que
o entardecer primaveril do pampa. A pouca comunicação
que se estabeleceu entre nosso grupo e o capataz serviu
para nos colocar a par das instalações onde
ficaríamos, junto com os outros peões da
estância. Como éramos os últimos a
chegar, depois até dos cortadores de pedra, coube-nos
apenas um cômodo, onde arrumamos nossas cousas pelos
cantos. Foi a maneira que encontramos para que todos tivessem,
pelo menos, onde se esticar à noite. No dia seguinte,
iniciaríamos a empreitada e precisávamos
descansar. Essa atitude era unânime, consenso, e
meu pai tratou de deixar claro para todos logo após
o jantar. Pude perceber algum tom de sarcasmo por parte
do Negro Totonho ao comentar sobre o sono que já
sentia. Os outros três ficaram quietos, como eu.
Comemos o grude, como batizamos a comida dos peões,
e fomos dormir.
Nunca o tinha visto trabalhar com talhadeira, martelo,
marreta e punção. Imaginava que fosse um
trabalho mágico, por suas estórias. Na realidade
cortávamos pedras desde o amanhecer até
o pôr-do-sol. Sua habilidade, mais apurada que a
dos demais, o colocava no privilégio de fazer os
ajustes nas pedras, tornando-as uniformes para sua aplicação
posterior. Eu fazia o transporte das pedras, com mais
4 guris da minha faixa etária, do corte bruto para
o tablado onde haviam montado uma espécie de oficina
para classificá-las e retirar, destas, as pontas
mais evidentes e cortantes. Após o terceiro dia
de serviço começávamos a ganhar velocidade.
Os peões, que faziam a extração no
morro, já tinham a agilidade necessária
para não desperdiçar força. Sabiam
que não adiantava extrair material de lascas menores,
pois pouco adiantariam nosso intento, concentravam-se,
assim, nas lascas maiores visto que as menores ficariam
à disposição para rejuntar as outras
durante a construção.
À
noite, enquanto eu ia direto para a cama, os mais velhos
saíam com as armas para o mato. Era o jeito de
conseguirem um jantar decente, já que a comida
que ganhávamos do fazendeiro mal dava para saciar
a nossa fome, após o trabalho duro na pedreira.
Além do mais, era a única forma de divertimento
disponível. Infelizmente, a caça tinha que
ser repartida entre todos os peões e pouco sobrava
para mim. Por ser o menor, tinha 12 anos apenas, achavam
que eu não precisava de tanto alimento como os
demais. Acordava todas as noites com a barriga roncando.
Era a fome apertando mais a cada noite, como nunca havia
sentido. Reclamar, sabia que de nada adiantaria. Permanecia
quieto, enquanto o estômago reclamava, ansiava por
alimento.
No quarto dia, não agüentei. O Sol foi ficando
tão forte que por volta das onze da manhã
tive que me retirar do trabalho. Vomitei o café
da manhã e amoleceram-se as pernas. Logo ele veio
até mim. Viu que eu estava mal mesmo e fez um sinal
para que me retirasse até uma sombra, junto a uma
figueira centenária. Fiquei por ali, sozinho. O
Negro Totonho me trouxe o almoço.
- Come sem olhar, guri. Tive que colocar mais água
para transformar numa canja. Pena que faltou galinha -
ele riu e eu o acompanhei com um tímido sorriso.
Após comer um pouco, rejeitei o prato. Meu estômago
estava revoltado, parecia que reclamava e, por não
ter o que desejava, negava-se a aceitar o que podíamos
usufruir naquele momento. O Totonho, mandou-me ficar por
ali mesmo. Que nem tentasse voltar ao trabalho durante
a tarde porque ele já tinha visto casos como o
meu e se insistisse em teimosias poderia ficar pior. O
melhor a fazer era ficar deitado em lugar arejado. Ele
não soube me dizer o que era, mas insistiu para
que não desafiasse seus anos de vida, mostrando
as rugas no rosto.
- Pegaste uma aragem, guri. Te senta aí no pé
da figueira e aproveita para descansar. Tenho visto que
andas meio triste, meio fracote. Logo tu, que sempre foste
um guri arteiro, rápido e esperto. Talvez teu pai
tenha se precipitado ao te trazer...
- Não - interrompi, imediatamente - ele sabe o
que faz. Precisava de mais um e já sou bastante
grande para me cuidar e trabalhar junto com os outros.
O amigo retirou-se em seguida. Quieto e sereno como chegara.
Eu acabei adormecendo logo. Quando acordei estava molhado
de suor, mesmo parado e à sombra. Olhei para os
outros e continuavam o trabalho na pedreira. Pensei em
me levantar, mas o sono me arrebatou novamente. Adormeci
lentamente, sem o querer fazê-lo.
A fome voltara a me incomodar e acordei novamente. O suor
já não mais fazia parte, meu corpo já
estava se recuperando. Pela posição solar,
já devia passar das 5 da tarde e ainda teria que
esperar até próximo das oito para comer
alguma coisa. A fraqueza era tanta que nem me mexia para
que não tivesse que voltar ao serviço que
se desenvolvia há uns 500 metros de onde estava.
A ansiedade por comer algo era tamanha que pensei em ir
até a fazenda e roubar uma galinha ou um charque.
Mas como iria preparar a comida? Melhor esquecer isso.
Foi quando percebi, por entre o pasto, um lagarto. Parado
no Sol, esquentando o corpo, o réptil me ignorava
e fixava sua atenção nos arbustos logo a
sua frente. Fiquei acompanhando, por alguns minutos, sua
atitude decidida. Em seguida, cantou uma galinha e saiu
do arbusto disparando seu alto cacarejar. O lagarto esgueirou-se
até o arbusto. Ergui-me, já imaginava o
que o levara até lá, e dirigi-me até
o local. Encontrei-o furando um ovo, na parte mais bicuda.
Já tinha trincado a casca. Corri, com forças
sabe-se lá de onde, para pegar uma pedra e afugentar
o animal. Assim o fiz. Logo estava eu terminando o que
aquele réptil havia começado.
Voltei para minha sombra junto à figueira. Ali
cochilei até o entardecer. Quando os demais passaram
de volta à fazenda, ele veio até mim oferecer
apoio. Levantei-me.
- Acho que já estou melhor. Posso acompanhar normalmente.
Amanhã já estarei pronto para continuar
o serviço.
Ele pareceu duvidar, mas sinalizou para que fosse na frente.
Nos dias que se seguiram, confirmei minha promessa. À
prática que adquirira juntei à energia que
conseguia dos ovos consumidos e fazia meu serviço
render mais do que o dos outros da minha idade. Os comentários
sobre mim cessaram e recuperei, em dois dias, o respeito
que havia perdido durante aquele mal estar temporário.
Mais um entardecer já cedia seu espaço ao
anoitecer, um intervalo tão tênue. Sabia
que esse era o momento certo para visitar o galinheiro,
atrás dos galpões da fazenda. Visitava-o
todos os dias, duas ou três vezes.
Tive que me retirar do grupo para rir quando, ao fim daquela
semana, o capataz veio comentar conosco sobre um lagarto
que rondava a fazenda. Os cachorros não alardeavam
sua presença; nem as galinhas estabanavam-se como
de costume. Mesmo assim, todos os dias a doméstica
da casa grande achava ovos comidos por lagarto no galinheiro.
Comentou, por fim:
- No comprendo, como hace...
Naquela tarde, com um mês de trabalho, já
estávamos prontos para iniciar a erguer as paredes
de pedra. A ansiedade por essa novidade era a motivação
que buscava nos dias de mesmice total. Enquanto a maior
parte dos peões continuaria retirando as pedras,
nós, los brasilenhos como chamavam, começaríamos
a construção propriamente dita. Com o capataz
acompanhando as marcações, meu pai demarcou
a área da primeira parede. O restante de nós
trazia o material para o início da obra. No dia
seguinte teríamos apenas a parede com que nos preocupar,
acabara a sessão de corte e carga de pedras, pelo
menos enquanto os peões conseguissem suprir a obra
da quantidade de matéria prima de que precisássemos.
Pelos comentários de Totonho com meu pai, os dois
mais experientes do grupo, os cortadores estavam aptos
a terminarem o serviço sem a supervisão
deles. Joaquim e Pedro Paulo, filhos do Nezinho que não
pode vir por causa do reumatismo, estavam na terceira
empreitada e já contavam com certa destreza na
construção. De novato mesmo, somente eu.
Como aprendiz, vinha me saindo bem. Não refugara
o serviço pesado do corte e da carga, na pedreira.
Não haveria de fazê-lo agora que seria a
parte mais técnica da atividade. A força
bruta cederia espaço à especialização.
Naquele anoitecer, como de costume, rumei até o
galinheiro. Rondei por alguns instantes a procura de algum
alimento mais fresco, por assim dizer. Encontrei um bem
quentinho e ao terminar o serviço percebi o capataz
parado à porta, com um sorriso nos lábios.
Resmungou algo em castelhano - que não entendi
- e me pegou pelo braço, arrastando-me por entre
penas e merda de galinha. Implorei para que me deixasse
explicar, mas somente balançava a cabeça
e a espingarda que tinha na outra mão. Não
sabia o porquê, mas as lágrimas escorriam
de meus olhos enquanto tentava, em vão, me desvencilhar
do aperto no braço. Não sabia o que pretendia
fazer comigo, então gritei o mais alto que pude.
Ao perceber que paramos, abri os olhos e vi o galpão,
onde dormíamos. Meu pai e os outros saíam
correndo de dentro após ouvir meu grito. Ele tomou
a frente e falou em tom firme e sereno ao capataz:
- Solta o guri. Ele tem fome, fome como todos aqui. Como
ainda não pode caçar animais no mato para
comer, prefere catar os ovos das galinhas.
- Mas então sabias?
- É claro que sabia. Se ele não tivesse
encontrado esse caminho sozinho, eu mesmo o apontaria
como única maneira de conseguir energia para o
trabalho duro. Ou esqueces que também fui guri
trabalhando com meu pai nas construções
cá nestas bandas?
- Sí, claro. Mas vou ter que descontar os ovos
do pagamento de usted.
Temendo o pior, tentei falar algo, mas as palavras não
saíam da minha boca aberta, escancarada. Meus olhos
pareciam querer saltar da órbita. Os peões,
notando a gravidade do acontecimento, aproximaram-se do
meu pai. O capataz sentiu-se sozinho na questão,
mas não titubeou. Largou-me e deu um passo atrás,
me colocando entre ele e o grupo. A arma, calibre 32 com
dois canos, estava embuchada, cheia, carregada, pronta,
enfim, para fazer valer a sua demanda pelo menos duas
vezes. Naquele momento fiquei parado, sem saber o que
fazer. O Negro Totonho interveio, temendo o pior. Ergueu
as mãos, chegou ao ouvido de meu pai e balbuciou
algo para ele. Meu pai fez um sinal de consentimento e
Totonho retirou-se. Imediatamente o capataz perguntou:
- Onde vás homem?
- Vou buscar o dinheiro que te devemos pelos ovos, só
isso - respondeu Totonho, dando as costas ao capataz e
entrando no galpão.
O clima abafado do verão sulista, fazia ferver
ainda mais o ambiente. Ameacei levantar-me, mas meu pai
ordenou que ficasse parado, onde estava. Obedeci. Uma
questão tão fácil, afinal bastava
esperar o Totonho vir com o dinheiro para resolver pacificamente
o acontecimento. E amanhã teríamos mais
um dia duro de trabalho. Meu pai, ainda encarando o capataz,
falou-lhe com a voz firme e forte, que possuía,
com um tom grave, porém, que jamais o tinha visto
utilizar:
-
Baixa essa arma, homem. Estamos todos envoltos em muito
serviço, longe de nossas mulheres e de mulher alguma.
Deve ser por isso que chegamos a esse problema. Deixa
que teu patrão doe uns ovos para nós. Não
vai lhe fazer falta e ajudará no bom trabalho que
faremos nas mangueiras e currais de pedra.
- No. Respondeu secamente o capataz. - Onde está
o negro? Perguntou em seguida. Meu pai não respondeu.
Fez apenas um sinal de que o aguardava.
A escuridão começava a ganhar corpo, tanto
quanto os ânimos. O capataz já deixava demonstração
que sentia a forte pressão exercida pela presença
dele a sua frente, imóvel e impassível.
Era como se meu pai estivesse a frente de uma cobra. Uma
vez, vi minha avó paralisada no pátio de
casa. Quando corri, gritando em sua direção,
ela mandou que ficasse parado onde estava. Não
entendi no momento, mas ao falar comigo ela titubeou o
suficiente para ser atacada pela cobra que estava a sua
frente e eu não notara. Por sorte era uma parilheira,
uma comedora de pintos. A mordida inchou, mas logo o veneno
foi sendo eliminado pelo seu organismo que é bem
mais forte que o de um pinto ou rato - os alimentos preferidos
da parilheira. Minha avó, naquela ocasião,
esperava a intervenção de meu pai, que estava
para chegar, pois estávamos perto do meio-dia.
Com medo de que a cobra me picassse, sacrificou-se. A
situação parecia semelhante. Meu pai aguardava,
pacientemente, a vinda de Totonho. E ele veio.
No tempo que ficou fora, Totonho deu a volta no galpão
e na casa grande. Apesar de sua idade avançada,
o negro era muito ágil mesmo. Meu pai disse-me
uma vez que ele tinha lutado nas guerras, quando ainda
era piá. Mas não precisou retirar-se para
o Uruguai, pois passou por guri quando os maragatos foram
derrotados. Colocado estrategicamente atrás do
capataz, ele soltou os cavalos dos peões, que trazia
consigo, em disparada por cima deste. Eram 4 animais,
os melhores e mais fortes. Ao ver a trovoada de patas,
o capataz pensou em salvar a vida primeiro e virou-se
para os animais. Tinha tempo de desviar-se, mas ao invés
disso mirou entre eles e disparou. Em seguida os cavalos
o atropelaram, derrubando-o por cima de mim, o que evitou
que eu fosse pisoteado também. O corre-corre que
se seguiu, ninguém entendeu. Alguns foram atrás
dos animais, que estavam amarrados pelo pescoço
e, soube mais tarde, foram impulsionados pelo palheiro
do negro na anca do maior deles.
Assim que me desvencilhei do capataz, que parecia desmaiado,
procurei meu pai ao redor. Não o encontrando, fui
ao encontro de Totonho. Vislumbrei meu pai ao seu lado.
Foi o primeiro a chegar até o negro velho que estava
baleado. Vi o sangue escorrendo pelo seu braço
e a camisa com várias pequenas manchas. Pelo pouco
que conhecia de armas de caça, deduzi que o tiro
era com chumbo e que acertara Totonho no lado direito,
entre o braço e as costelas. Por sorte, o alvo
foi mais incisivo no braço. Mesmo assim, os outros
peões me retiraram dali. Ao sentar à soleira,
na porta do galpão, comecei a chorar. Não
conseguia segurar ou saber por que chorava. Ninguém
foi socorrer o capataz. Ao levantar a cabeça, procurando-o
na escuridão que se instalava definitivamente sobre
nós, o vi mexer-se. Erguer-se. Pegar sua espingarda
e dirigir-se ao grupo que cuidava do negro Totonho. O
medo me paralisou, ao vê-lo cambaleando. Devia estar
com uma perna quebrada, pisoteada por um dos cavalos decerto.
- Morre negro!
Foi a última voz humana que ouvi naquele dia. A
espingarda disparou a queima-roupa, e as adagas cruzaram
o ar, fazendo o sangue jorrar do já estropiado
capataz. A selvageria que aconteceu, passou diante de
meus olhos como um sonho. Algo que assistia imóvel,
como se nada pudesse ou não quisesse fazer. No
brilho da lua nas armas de prata, pude ver meu pai cortando
a jugular do moribundo e guiando todos rumo a casa grande.
Instantes depois, ouvi mais tiros, gritos das mulheres
e dos outros dois peões da estância, que
trabalhavam com o gado e moravam na casa grande, durante
a ausência dos patrões. A quebradeira de
louças e pratarias entremeadas pela gritaria dos
moradores da casa povoou os instantes seguintes. Fiquei
absorto. Totalmente inerte a tudo que acontecia.
Não sei quanto tempo se passou. Fiquei com os olhos
abertos, sem chorar ou piscar por horas, talvez. Ainda
ecoava em minha cabeça a gritaria proveniente da
sede da estância misturada às visões
de morte que acompanhara há poucos instantes. Senti
meu pai me pegando pela cintura e erguendo-me sobre o
cavalo já encilhado. Notando minhas condições,
amarrou minhas pernas aos estribos e tomou as rédeas
de meu cavalo a cabresto. Percebi que minha cela estava
mais a frente que de costume e logo em seguida nossas
maletas estavam atrás de mim, na anca do cavalo,
lotadas de materiais pesados e barulhentos. O tilintar
que meu cavalo emitia ao andar, balançando as maletas,
foram me despertando daquele pesadelo e me mostrou que
partíamos rumo Norte, pela posição
da Lua que nos acompanhava à direita da cavalgada.
Pensei em pedir por Totonho, seu nome não saía
de minha cabeça. O transe me dominou, novamente.
Era melhor continuar sonhando.
O Sol castigou meu olhar, ao surgir por entre a serra
que subíamos. O passo apressado dos cavalos me
instigou a perguntar o porquê da pressa. Ignorava,
até o momento, a gravidade da situação.
Felizmente, apenas Joaquim que seguia logo a minha frente
cabresteando meu cavalo ouviu. Ficou ao meu lado e deu-me
as rédeas às mãos. Fez um sinal de
silêncio, com o dedo em riste sobre a boca. Em seguida,
retirou um pão de um saco que levava nas suas costas
e me mandou comer. Meu pai seguia a nossa frente, puxando
um cavalo com maletas e um corpo. Sabia eu que era meu
amigo velho, o Totonho. Atrás deles seguíamos
Pedro Paulo, Joaquim e eu. Nosso destino estava definido,
bastava desamarrar os pés dos estribos para ter
domínio completo sobre minha montaria. Era só
o que podia fazer, no momento, além de cuidar bem
da retaguarda a cada serro que subíamos, verificando
se não existia nenhuma patrulha uruguaia em nosso
encalço.
Fomos primeiro para nossa casa. Fiquei, juntamente com
as maletas que carregava. Meu pai e os outros seguiram
com o corpo, que já emitia um odor forte, para
entregá-lo à esposa e sepultá-lo.
Queria pedir para ir junto, acompanhar o cortejo e prestar
a última homenagem ao amigo. Cheguei a balbuciar,
mas não ouvi o convite ficando intimidado e me
colocando a descarregar o cavalo. As maletas cheias de
pratarias, deram algum trabalho. Minha mãe ficou
vidrada, de olhos arregalados e, praticamente, esqueceu-se
da morte que cavalgou por nosso pátio momentos
antes. Acomodou tudo que pode e deixou o resto num baú
dentro do quarto de casal. Eu fui para o galpão,
onde os cachorros me recepcionaram, na tarde que já
ia se tornando noite. Me deitei no chão batido
do galpão, dormi ali mesmo. Meu pai me acordou,
ao chegar de volta. Já era alta madrugada e fez
questão de mostrar-me todas as marcas que as pulgas
tinham deixado em mim. Nem sentia nada, mas mesmo assim
ele me apontou a sanga que passava ao lado de nossa casa.
Atirei as roupas num canto, peguei um pedaço de
sabão e corri nu pelo campo até mergulhar
nas águas geladas do córrego. O tempo estava
fechado, não haviam estrelas no céu. A possibilidade
de chuva no dia seguinte era iminente, pelo abafamento
do dia anterior e da noite.
Nos dias que se seguiram tivemos chuva torrencial, com
alguns intervalos de sol forte. Eu só queria dormir
e minha mãe já estava preocupada comigo.
Levantava apenas para comer e logo me recolhia à
cama, para dormir. No primeiro dia com tempo bom, fui
para a cidade com meu pai. Pegamos o ônibus e nos
dirigimos até meu tio, onde fiquei, para que ele
tratasse da venda do material que trouxemos do Uruguai.
Trocamos poucas palavras pelo caminho, somente o tempo
ocupou nosso vocabulário pouco expressivo. Quando
voltou me disse para ficar uns dias e tentar esquecer
de tudo. Quando estivesse bem, que mandasse um recado
por algum vizinho que viesse à cidade. Seria fácil,
já que meu tio era dono da única venda da
cidade, qualquer pessoa que precisasse passaria por ali.
Os dias se passaram e meu tio me matriculou no colégio
da cidade. "Preciso de um ajudante para a venda",
dizia ele. Eu me resignei a perguntar o que meu pai e
minha mãe achavam da idéia e ele disse que
concordavam, desde que eu continuasse a estudar. O tempo
correu depressa e a adaptação aos acontecimentos
de cidade foram acontecendo naturalmente. As visitas à
zona rural foram ficando escassas quanto mais estudava
e ganhava escolaridade.
Hoje, ao ter esta alça entre meus dedos, percebo
que, também eu, me tornei mestre na arte que dominavas.
*Fundador do site www.vetado.net, casado, 30 anos, uma
filha, estudante de Engenharia Elétrica, colaborador
da Brasil Telecom e uma mente aberta às novidades.
subir
Nua
& Crua
Cristiane Martins
"Aqui começa a coluna NUA & CRUA,
onde trarei semanalmente a verdade nua e crua travestida
em contos, crônicas, poemas, textos malucos, fictícios,
com uma pitadinha de realidade...
Espero que todos gostem e participem deixando seus comentários,
críticas.
Me xinguem, me matem, me joguem na parede e me chamem
de lagartixa"
Solidão Plus
Solidão é tão imprevisível
quanto chuva de verão ... simplesmente vem, chega,
se precipita e cai sobre nossas cabeças sem dó
nem piedade!
Assim estava eu, sob uma chuva! Mas era uma chuva de meteoros
que caíam sobre minha cabeça! Lá
estava eu sem ânimo, sem vontade, sem lenço
e sem documento como diz a música ... era assim
que me sentia, desfragmentada, desocupada e uma gama de
“des” isso e “des” aquilo que
dava para encher um livro!
Tudo adquirira uma dimensão tão grande em
minha vida que me amedrontava, embora eu me esforçasse
para não transparecer esse medo e tentasse ser
ainda aquela menina risonha e divertida! Mas o fato era
que tudo em minha vida estava tomando um rumo que eu não
escolhera! Tudo parecia tão grande, como se alguém
tivesse acionado o botão PLUS aleatoriamente aumentando
assim toda a solidão que eu sentia!
De súbito olhei para as chaves do carro que jaziam
sobre a escrivaninha e num salto apanhei-as e me dirigi
à garagem do prédio! Precisava sair para
arejar naquela noite estrelada, precisava respirar um
pouco do ar poluído da metrópole, precisava
ouvir o barulho ensurdecedor dos motores dos carros, precisava
respirar um pouco de vida lá fora ...parei em frente
a um bar no centro da cidade, ainda dentro do carro pude
ver claramente que as mesas do bar eram repletas de casais
de enamorados que sentavam-se tão juntos que quase
não era necessário duas cadeiras, outros
se olhavam com aqueles olhares que só quem está
apaixonado tem ... e só Deus sabe como é
bom esse estado de graça ...
Dei um longo suspiro tentando afastar todos aqueles pensamentos
negativos que pairavam em cima da minha cabeça
feito uma nuvemzinha preta de vendaval ... Entrei no bar
e por alguns minutos eu pensei em escrever um artigo no
jornal direcionado aos donos dos bares reivindicando mesas
que tivessem apenas um lugar e não dois, para que
as pessoas solitárias pudessem sentir-se menos
constrangidas! Sentei em uma mesinha (com dois lugares)
em um canto mais retirado para não dar tão
na cara a minha solidão tão aparente! Ascendi
um cigarro e pus-me a tragá-lo ... enfim não
estava só ...meu cigarro me acompanhava! Que deprimente!
Eu parecia estar em uma propaganda de cigarros, só
faltava eu olhar de lado assim para a câmera e dizer:
“Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum!”
Pedi uma vodka, já que estriquinina eles não
vendem assim em bares, ainda não, pelo menos no
Brasil não ... Enquanto eu bebericava meu drinque,
um moço negro dono de uma arcada dentária
de fazer qualquer dentista ter orgulho da profissão
tocava e cantava um som meio ambiental sentado em uma
espécie de “palquinho” improvisado!
Aquela atmosfera toda me fazia sentir ainda mais só,
a fumaça dos cigarros, os zun zuns das conversas
vindas das mesas ao redor, o cantor que cantarolava melodias
melancólicas e o garçom que me olhava de
canto toda vez que passava pela minha mesa! Teve uma hora
que eu jurei que ele fosse chegar e perguntar assim meio
sem jeito se eu queria que ele levasse embora aquela cadeira
delatadora que atestava minha solidão! Mas não!
Ele limitou-se a continuar me olhando de lado e me questionando
sobre o que eu queria comer!
Expliquei-lhe meio sem jeito que não comeria nada
no momento e pedi mais uma vodka!
Risadas um tanto despreocupadas abafam por algum momento
a música do bar! É um grupo de jovens que
adentra triunfante e cheios de vida e nada de solidão
... sinto inveja, uma inveja que não chegava a
ser nociva, talvez o fosse para mim! Alguém lá
na frente acena em minha direção, fico meio
paralisada afinal não o conheço! Mas acabo
percebendo que todo o esforço do moço era
para chamar a atenção de uma loira esguia
e bem torneada que toda delicada bebia com alguns amigos
em uma mesa atrás de mim!
Percebo que perdi a hora ... já é tarde...
e assim que levanto da cadeira percebo que perdi também
a conta de quantas vodkas havia ingerido e quase caio
de volta sentada! O melhor (e mais seguro) seria tomar
um táxi e deixar o carro ali mesmo ... assim o
fiz... entrei no táxi que estava estrategicamente
estacionado onde o motorista cochilava escorando a cabeça
no encosto do banco. Quase tive pena de acordá-lo,
afinal era um senhor de meia idade com cabelos ralos e
meio grisalhos, barba por fazer, e com um irritante bigodinho
bem a estilo Tarso Genro ...
-- Para onde menina? Ele balbulcia entre um bocejo e outro.
-- De volta à solidão - brinquei eu - sabe
onde fica?
-- Isso é um assalto? - ele falou assustado - se
for já te aviso que a féria hoje não
foi boa moça e ...
-- Puxa, não achei que tivesse cara de assaltante
... toca pra Pedro Adams. O senhor é casado?
-- Sim ...
-- Tem filhos?
-- Dois, um menino de 10 anos e uma menina de 7 anos -
falou ele orgulhoso apontando para um daqueles porta retratinhos
antigos de pendurar em carro onde de um lado sorriam dois
japonesinhos abraçados e do outro uma jovem senhora
oriental de longos cabelos negros!
-- Sua esposa é Japonesa?
-- Aham, a japonesa mais linda e fabulosa que já
conheci em toda minha vida ...
-- O senhor é um cara de sorte - falei meio com
inveja da felicidade daquele joão-ninguém
- Aqui, pode parar aqui que moro no prédio logo
em frente!
Paguei o taxista, e me entregando o troco ele me olhou
com um jeito profundamente sábio e disse assim:
“Moça, por que estás tão infeliz?
Por que não olha ao seu redor e perceba e dê
valor a tudo que Deus te proporciona a cada dia que passa?
Por que não pára de procurar tua felicidade
e deixa ela vir ao teu encontro? Dê uma chance a
si mesma! Abra seus olhos e comece a conhecer a ti antes
de querer conhecer alguém... Olhe para eles - ele
apontou mais uma vez para o porta retratos que rodopiava
com o vento que entrava pela janela - eles já se
foram, não faz muito tempo Deus levou eles de mim,
em um acidente de trânsito, mas eles trouxeram tanta
alegria para a minha vida enquanto estavam aqui que ainda
permanecem vivos em mim, em meu sorriso, em minha memória,
em meu coração e me fazem ter forças
para seguir em frente e continuar ...
O homem tinha lágrimas nos olhos e olhava para
aquelas fotos como se fossem um santuário, algo
sagrado, e o eram para ele ... me despedi meio sem jeito
pegando o troco da mão dele e entrei no prédio
pensando o quanto era pequena a minha solidão perto
daquela, e o quanto eu ainda tinha de aprender sobre a
vida ... muito ainda...
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia (severogarcia@msn.com)
Ensaios sobre a Putaria
1º Cena:
Ela me perguntou por que
eu escrevia tanta putaria. Eu disse que eu não
escrevia putaria, escrevia sobre o que as pessoas faziam,
e isto era normal. Ela disse que eu não tinha necessidade
de descrever com tamanha profusão de detalhes todos
os elementos contidos em uma relação sexual,
senão iriam pensar que eu só escrevia coisas
assim porque, na realidade, não tinha qualidade
literária suficiente para escrever alguma coisa
que se assemelhasse a um Julio Cortázar, por exemplo.
Ela disse assim, Julio Cortázar, com a boca bem
cheia daquele bolo de cenoura que ela comia quando resolvia
sentar no sofá de napa e me inquirir, uma vez por
dia, ao menos, por que, afinal de contas, eu escrevia
tanta putaria. Julio Cortázar é Deus!, eu
disse para ela, e no dia que eu escrever uma milionésima
parte do que ele escreve eu vou dar um tiro na cabeça
ou me atirar daqui de cima porque eu estarei louco ou
consumido pela insanidade e pelo dinheiro que terei ganho
como o maior escritor de putaria de revistas baratas do
mundo. Ela falou que não tinha que ser assim, não,
e disse Tu podia escrever com temáticas semelhantes,
aquela coisa de viagem onírica, contos de absurdo
e coisas do gênero. Não existe coisas do
gênero, eu falei para ela, enquanto arremessava
mais um papel amassado para a montanha de bolotas de papel
no cesto junto do sofá. O que tem é isto
aqui o que você está vendo: um punhado de
tentativas de escrever alguma coisa que preste enquanto
você não cala esta boca e não me deixa
terminar de escrever. Ela disse que eu era nervosinho
porque era um escritor amargurado, na realidade. Eu disse
que era amargurado porque tinha que escrever aquele monte
de merda, mas, à bem da verdade, eu me sentia ainda
melhor assim do que naqueles dias em que tinha que trabalhar
naquela porra daquele banco fudido que eu odiava e espremer
alguns poucos instantes de fim de noite para escrever
as preciosidades que eu considerava minhas obras primas.
Ela calou a boca por um breve instante e eu achei que
tinha desistido de me inquirir acerca de meus dotes literários.
Foi quando ela falou baixinho que não tinha coragem
de mostrar para a minha mãe as coisas que eu escrevia.
Eu disse A tua mãe é uma velha carola!,
não me interessa se ela me acha um pornógrafo
por escrever o que eu escrevo, e se eu vou pro inferno
ou pra putaquemepariu, eu só quero que tu me deixe
em paz para que eu possa enviar esta porra pra esta merda
de revista e rezar para que aqueles filhadasputa me enviem
o cheque na semana que vem! Ela baixou a cabeça
e começou a chorar, pateticamente com o bolo de
cenoura quase caindo da mão, de um jeito que demonstrava
claramente que queria que eu me aproximasse. Eu deixei
ela ali chorando, porque sabia que, na verdade, ela estava
mentindo. As fungadinhas compassadas não me tocavam
há tempos e além do mais eu precisava terminar
aquela porra daquela história.
2º Cena:
Coçava as frieiras
do pé com um prazer que me fazia olhar estarrecido
por diversas vezes aquela cena que, ultimamente, andava
se repetindo à grande. Dizia que sentia o mesmo
gozo de quando se masturbava olhando pro fundo dos olhinhos
muito miúdos da gorda filha da vendedora de pilhas
que se encostava no muro do nosso prédio. Um dia
me revelou, embora eu não tenha certeza ser verdade
até hoje, que nunca teve coragem de transar com
ela. Achava que seus olhos tinham ternura em excesso,
e, por mais que ela quisesse que ele fizesse a coisa,
o máximo que ele fazia era deixar que ela ficasse
sentada e quieta, enquanto ele olhava muito fundo nos
olhos dela e via ali algum ponto excitante qualquer que
o combalia a auto-satisfazer-se furiosamente. A gorda
não ficava quieta, queria participar - era uma
mulher, estava ali, e tudo o que ele queria era que ficasse
olhando? Nessas horas ele batia na cara dela com o cinto
que tinha tirado para que o tilintar da calça arriada
ao sacudir não acordasse nosso vô que dormitava
no quartinho ao lado. Tanto era o silêncio que tinham
que fazer, que ele se atirava sobre a cara da gorda quando
ela se punha a chorar por que ele atingira o clímax,
gozando violentamente contra a parede, e ela não
tinha participado daquele momento. Não da maneira
que ela queria. Ele, de calças ainda arriada, passava
seus dedos grossos nos lábios da gorda e dizia
que ela não devia se corromper assim. Havia alguém
muito especial para ela e, por enquanto, aquilo era tudo
o que eles poderiam ter.
Alessandro Garcia (http://suburbana.blogspot.com)
é escritor e publicitário, tem 24 anos, e acha Porto Alegre
a capital do mundo. Apaixonado por Legião Urbana e Pearl
Jam (e contraditoriamente, fã ardoroso de música soul),
é vocalista da banda de funk-rock Zero Kelvin e idolatra
Julio Cortázar. Sabe que, no final das contas, tudo é
uma questão de manter a mente aberta, a espinha ereta
e o coração tranqüilo.
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Escrever
por Escrever XLI (excertos)
Rafael Luiz Reinehr
(20/05/1999)
Durante a manhã,
além das atividades habituais, tratei de preparar
minha apresentação de amanhã. Depois
do “Endocrine Club” com sanduíches,
fui para a minha tarde livre. Fui ao Science Museum: muito
bacana! É um lugar perfeito para se ir com crianças,
e bastante tempo, pois é muito grande, e tem de
tudo. Quebrei o recorde de uma máquina onde você
tem que apertar 4 botões à medida que as
luzes vão acendendo: fiz em 0,08 segundos! Comprei
algumas coisinhas. Fiquei louco para comprar um globo
com raio laser e uma outra luminária com um furacão
de água e bolinhas. Jantei; fui convidado para
um café no quarto da Nowe. Fomos eu, Erik, Shaine,
Zoe e Linda. Tocamos um pouco de violão e falamos
papo-furado (small-talk!); eu tive que ir embora cedo
para terminar de teclar minha apresentação.
Fiquei pronto lá pela 1 da manhã, morto
de cansado. Ah! Hoje comprei um chapéu mágico,
um chapéu de feiticeiro, “a Wizard hat”!
Bem legal!: dá pra fazer um monte de coisas com
ele! Também toquei violão no teto do meu
prédio com o chapéu. Fui aplaudido por garotas
que estavam na janela de um prédio vizinho.
(21/05/1999)
Um dia “normal”, se é que posso dizer
assim: board round, aula teórica Prof. Besser,
imprimir em transparências a apresentação,
almoço, apresentação do caso, compro
bateria para máquina fotográfica, encomendo
Amilorida para Dr. Rogério, leio e-mails, mando
e-mails (para meu amor!) e também 2 e-greetings
para sábado e domingo para a Sheila, ward round,
janta, vou pegar meus CDs da Graforréia com a Phillippa,
compro um baguette, tomo 1 pint no pub perto do hospital
porque me sinto sozinho, uma loira chamada Tracy me encara
(eu tenho namorada...!), volto para “casa”,
olho 2 comédias bem legais, acabo pegando no sono
mas me acordam bem na hora de ligar para a mãe
e para a Sheila, falo com elas, mato um pouquinho da saudade
e, depois, morto de cansado (1 da manhã), vou dormir.
(22/05/1999)
Hoje fiquei deitado até às 10:30. Aí
levantei, fiz algumas tabelas para o meu quadro de apontamentos,
comi um sanduíche e saí. Fui para o Hyde
Park. O lugar é enorme, e bem bonito. Tirei algumas
fotos, toquei violão, aproveitei o sol! Depois
fui ao Natural History Museum: bem legal! Só consegui
ver a parte da “Terra”. Tenho que voltar para
ver a “Vida”. Jantei no Bart’s aí
fui para o meu quarto. Logo depois bateu na porta uma
moça: depois vim a saber é sueca, e não
lembro o nome agora, mas ela é bem legal. Conversamos
um pouco, comemos amendoim com coca e ela me convenceu
a lavar minha roupa na máquina. Lá fui eu:
lavei e sequei minha roupa. Olhei um pouco de TV com a
galera enquanto esperava. Depois falei com a tia e a vó,
que estão bem.
(23/05/1999)
Uh! Estou bem feliz! De
manhã fui ao Camden Market e comprei uma porção
de coisas legais para todo mundo! Comi 2 Double Bacon
Burgers, 2 French Fries e 1 coca! De tarde fui ao Regent’s
Park, joguei futebol com 2 londrinos e 1 escocês,
tirei fotos... Na volta fui na Catedral de St. Paul’s.
O padre ensinou algumas coisas interessantes, que eu escrevi
por aí. Falei com meu amor por telefone.
“Faça pelos
outros aquilo que gostaria que fizessem por você”
J.C.
(24/05/1999)
Hoje fui uma Segunda-feira e tanto: board round, fui a
Whitechappel me registrar na Universidade (peguei 2 BNFs),
levei minhas fotos (360) para revelar, comprei os remédios
do Dr. R. Friedman, fui aos Correios e ao Banco do Brasil
trocar meus últimos traveller-cheques. Almocei.
Não recebi mensagem da Sheila, fiquei chateado.
Mandei mensagem para o Dr. Newton Barros, depois fui para
o Ambulatório. Estava um saco. Enchi o meu (saco)
e fui para a Biblioteca. Nada de mensagem. Mandei uma
para mamãe e outra para a Sheila (...). Tivemos
um daqueles chatos exercícios de incêncio...
Tomei banho, jantei correndo e fomos eu e Theres para
o Regent’s Park assistir a 1a. peça de Shakespeare
ao ar livre do ano: “The Merry Wives of Windsor”.
Estava muito legal!, e eu consegui entender quase tudo!
Começou às 20:00 e foi até 23:15!
Valeu a pena! Em casa, preparei 3 hambúrgueres,
comi, liguei para o papai e agora, antes de dormir, vou
olhar as revistas de guitarra que eu comprei.
São 00:54...
Eu acho que eu tenho que
ser mais sincero comigo mesmo. Também acho que
não devo dar tanta bola para as coisas que a Sheila
faz e me fazem sofrer; ela é só uma mulher...
...mas é tão difícil...
(25/05/1999)
Board round, ver e-mails (neca da Sheila...), outpatient
clinics. À tarde fui ao Camden Market e comprei
minha jaqueta e umas bolinhas chinesas bem legais. Um
par épara dar de presente. Comi no Burger King’s,
comprei CDs na Tower Records. Fui tirar dinheiro, o banco
negou. Me assustei. Fui para casa levar as bugigangas.
No fim das contas consegui tirar £ 30,00 e paguei
as fotos. Fui ao Natural History Museum ver a parte da
“Vida”; bem legal. Fui ao New London Theatre
para ver quanto custa para ver “Cats”. £
15,00 os melhores lugares com ISIC card! Voltei para casa,
fiz e comi hamburgueres, mostrei as fotos para Theres,
que gostou bastante. Nada de e-mail da minha namorada!
Liguei para mamãe. Ela está se sentindo
bem, apesar de andar com umas hemorragias meio estranhas...
Me tranqüilizou quanto a Sheila: disse que não
era para dar bola, que o problema é no computador,
que ela quer fazer ciúme... Vai ver é mesmo;
mas mesmo assim não me sinto bem... Acho que estou
com febre. Bem legal essas bolinhas chinesas. Acho que
vou comprar mais 2 ou 3 pares! Meu casaco novo também
é legal. Já é tarde, mas estou a
fim de tocar violão. Acho que vou ler para ficar
cansado...
“Observe
always that everything is the result of a change, and
get used to thinking that there s nothing Nature loves
so well as to change existing forms and to make new ones
like them” Marcus Aurelius – Roman emperor
“If you are thinking
a year ahead, sow seed.
If you are thinking ten
years ahead, plant a tree.
If you are thinking one
hundred years ahead, educate the people.” Kuan Tzu
– Chinese poet (500 b.C.)
(26/05/1999)
Hoje
não gastei nada! Almocei hambúrgueres que
haviam sobrado. Fiz 5 mas só comi 2 e 1/2. Comi
o resto na janta. Dessa vez fiz no grill, não frito.
Fiquei em função da minha apresentação,
cumpri a rotina do dia no hospital e foi isso. À
noite assisti à final da Copa dos Campeões
da Europa, entre Manchester United e Bayern Munique. O
Bayern estava vencendo até a prorrogação
do 2o. tempo, quando de repente o Manchester fez 2 gols
e se sagrou campeão. Foi emocionante, e aparentemente
injusto. Fiquei com pena dos alemães... Datilografei
parte da minha apresentação e dormi.
(27/05/1999)
Mais um dia. Finalmente recebi um e-mail da Sheila: “Ainda
estou viva!!!”. Ainda bem... A partir do meio da
tarde não tinha nada para fazer aí fui para
o Camden Market. Retirei £ 120,00 com o VISA, comprei
mais 4 pares de bolas chinesas (é um bom presente!),
comprei 4 gravatas (para mim, Eleu, Júlio e seu
Helmuth). Para o pai eu quero comprar um relógio
bem bonito. Comprei também o livro do Kant que
eu estava procurando: “Crítica da Razão
ura” e uma mochila para levar tudo que eu comprei.
Jantei no hospital (ah!, no almoço fiz lingüiças
frankfurt... muito boas!!) Depois da janta fomos eu, Shaine
– o australiano, Nowe, do Zimbabwe, Sherah e Angela
ao Student Union’s Pub. Eu estava precisando desopilar
um pouco. Bebi 4 pints e mais um aftershot. Joguei sinuca
(ganhei). Fiquei bem alegre. Falamos bobagens a noite
toda. Todo mundo estava meio bêbado. Fomos embora
às 23:00, caminhando. Quando cheguei em casa estava
bastante enjoado. Fui dormir.
(28/05/1999)
Hoje acordei bastante enjoado, provavelmente devido a
bebedeira de ontem. Decidi não ir ao hospital pela
manhã. Tomei um banho e voltei para a cama; perdi
o board round e a aula do Prof. Besser, mas terminei minha
apresentação. Dormi até 12:30. Não
almocei. Me saí bem a apresentação.
Já estou craque. Depois tivemos o ward round. Terminamos
antes das 6 horas. Fui jantar. Comi lingüiça
e bacon com milho cozido, no restaurante do hospital:
horrível! Toquei um pouco de violão junto
à fonte e vim para casa, arrumar meu quarto, escutar
música. Às 9:30 (21:30!) desci para a sala
de tevê para ver Southpark. Meio idiota mas bem
divertido. Conheci um espanhol que toca piano superbem.
Vamos tocar juntos outro dia. Voltei para o quarto, arrumei
mais coisas, liguei para a tia e a vó, falei com
elas, liguei também para mãe, deixei mensagem
na secretária. Agora vou estudar um pouco antes
de dormir. São 00:27. Amanhã quero acordar
cedinho para aproveitar o dia.
(continua na próxima semana...)
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Intelectualóide ou Pseudointelectual?
Pedro Schestatsky
Alguns incultos aproveitam sua própria ignorância
para estudar, aprender e se deliciar aos poucos com as
maravilhas do conhecimento humanístico, sem pretensões
maiores. Já um outro grupo de incultos, valem-se
de sua ignorância, tão marcada quanto a dos
primeiros, só que mais “fechada”, para
chamá-los de “intelectualóides”.
É claro que existem os “pseudo-intelectuais”.
Só que estes não têm consciência
de sua ignorância. Ou não a admitem. Portanto
não há nenhum problema de vez em quando
citar um autorzinho aqui, outro ali (QUE OBVIAMENTE TENHA
LIDO), para puxar assunto. Trata-se de um exercício
mental saudável e que não deve ser mal interpretado.
Deve ser sim, admirado e imitado por todos. Melhor que
ficar comentando novela ou casa da porra dos Artistas.
Esta é a minha opinião, babacas. Estou aberto
a críticas. Meu celular é 9981-41-01.
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Ombudsman
Maurício Silveira dos Santos
Simplicíssimos
leitores, este ombudsman, por motivos de força
maior, não poderá brindá-los com
mais uma de suas colunas nesta edição. Peço
escusas. Serei um ombudsman mais feliz se souber que alguns
sentiram saudade e muitos outros alívio. Até
a semana vindoura.
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