Simplicíssimo
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Editorial

Se existem dois fenômenos hoje em dia são o menino-bruxo Harry Potter, personagem de J. K. Rowling, e o culto acentuado e frenético ao corpo que presenciamos em nossa sociedade ocidental.
O primeiro fenômeno, que vem acontecendo desde o lançamento do segundo livro da série Harry Potter, não sei explicar, afinal de contas, apesar de ter lido "Harry Potter e a Câmara Secreta" e ter comprado, logo em seguida "Harry Potter e a Pedra Filosofal" - por ter achado a capa colorida e bonitinha - nada de excepcional encontrei em suas páginas. Realmente, pelo que me lembro, a Série Vaga-Lume teinha livros tão ou mais atraentes, cativantes e grudentos. Nunca conseguirei esquecer "O Mistério do Cinco Estrelas", "O Rapto do Garoto de Ouro" e "O Escaravelho do Diabo", entre tantos outros. Talvez, ou melhor, com certeza, os tempos são outros. Naquela minha infância, meus estímulos haviam sido distintos dos que nossas crianças agora recebem. Bem, mas creiam que posso gentilmente entender e aceitar parte do sucesso associado aos livros, pois os mesmos apresentam um certo "suspense" gostoso, que faz o leitor querer chegar ao final (e o final não chega até o próximo livro, em uma seqüência até agora sem fim...); o que não se entende é a tão estrondosa balbúrdia que os meios de comunicação fazem a cada novo lançamento de um livro de Harry Potter. São incontáveis minutos mostrando e falando de crianças que ficam na fila das livrarias, brasileiros que compram livros importados pois os mesmos chegam antes da versão traduzida e coisas assim. Bem, fenômenos não são mesmo feitos para serem entendidos...

Já que não preciso entender os fenômenos, vou me ater a constatar o fato de que vivemos em uma loucura crescente e, creiam-me, prejudicial à saúde mental de nossa sociedade. O culto desenfreado ao corpo é sim uma doença, de cunho social mas que invade os mais profundos armários inconscientes da mente dos pobres incautos que querem, a todo custo a beleza propagandeada de forma alardeante aos quatro ventos. O caminho do espírito há muito foi deixado de lado prás bandas de cá. Existem poucos resistentes espalhados por aqui ou por ali, mas a esmagadora maioria busca através de soluções meramente estéticas e muitas vezes danosas à saúde a forma corporal ideal. Somente para ilustrar esta assertiva, quando olhamos as estatísticas de acesso do Simplicíssimo, encontramos, nos 5 primeiros lugares de acessos através de palavras chaves de buscadores (como o google, altavista, etc.) as seguintes palavras:

1. femproporex (25,14% dos acessos) - um derivado anfetamínico
2. dualid (11,43%) - mais um derivado anfetamínico
3. magridiet (11,43%) - uma porcaria que não resolve nada
4. inibex (5,14%) - mais um composto com potencial de abuso e dependência
5. coscarque (2,86%) - outra porcaria

Isso reflete a intensidade de busca de informações sobre tais medicamentos, utilizados para perda rápida de peso, muitas vezes em detrimento da saúde. Somente em sexto lugar encontramos a menção a "fotos psicodélicas", com 1,71% das preferências de buscas que chegaram ao Simplicíssimo. Lembramos que tais medicações foram listadas na enquete que se encontra no site (que vale a pena dar uma olhada) onde perguntamos aos leitores quais daquelas medicações eles já haviam utilizado.

Que culto ao corpo e Harry Potter que nada galera! Vamos é escrever para o Simplicíssimo! Lembrem-se que estamos compondo o Hino do Simplicísimo e precisamos de sua ajuda! Mande a sua original frase para compor esta obra de arte! O tempo está se esgotando!

Outra observação: em função do grande número de textos que temos recebido, os mesmos estão começando a acumular e por isso, a partir da próxima, teremos 9 textos por edição, tentando sempre publicar pelo menos 1 ou 2 poesias, que chegaram às dezenas! Então digníssimos amigos colaboradores, não se alarmem pois seus textos em breve estarão sendo publicados!

Até semana que vem, sem atrasos, se tudo der certo!

Rafael Luiz Reinehr

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A Cerca de Pedras
Mauro Rodrigues

- Embarca - me disse ele.

Saltei imediatamente para cima da carroça. Ele olhou-me com desdém e bradou:

- Vai pegar tuas coisas e volta logo que temos pressa.

Foi o tempo de um relâmpago para voltar com minhas roupas enroladas num cobertor, que me ajudaria a resistir ao frio durante a viagem.

Nosso destino: Uruguai. Muitas estórias ouvia sobre os castelhanos, mas agora iria viver uma ao lado de meu pai e alguns amigos, a maioria lindeiros de nossa chácara. Meu pai é um dos poucos que restam na arte de construir cercas de pedras e acertou a construção de uma grande mangueira, com bretes e currais. Rumamos para lá em meados de novembro para retornar por volta de fevereiro ou março, dependendo do clima, das pedras disponíveis e dos peões que nos conseguissem no país vizinho. Todos contam maravilhas da República Oriental do Uruguai e me fazem sentir inveja dos uruguaios, por suas conquistas, por sua liberdade, por sua soberania.

Foram três dias no passo lento das carroças. Não podíamos cansar demais os animais e a paciência passou a ser uma das qualidades necessárias àqueles dias. Tanto que aprendi a conviver e lidar com ela. A paisagem da campanha se desdobrava a nossa frente e por vezes parecia que estávamos no mesmo lugar por horas. Nesses momentos tinha que fechar os olhos e agarrar-me a carroça, se caminhando, ou baixar a cabeça até que só visse o capim passando por entre as frestas da mesma. Aproveitava, como passatempo, para conhecer melhor as ferramentas que levávamos. Entre martelos, marretas, talhadeiras e punções pude verificar alguns cordões de couro, que mais tarde saberia que o usariam como uma espécie de luva para lidar com as pedras. Não tinha tido muito tempo para me familiarizar com a profissão, mas começava a conhecê-la melhor.

A recepção na fazenda foi mais fria que o entardecer primaveril do pampa. A pouca comunicação que se estabeleceu entre nosso grupo e o capataz serviu para nos colocar a par das instalações onde ficaríamos, junto com os outros peões da estância. Como éramos os últimos a chegar, depois até dos cortadores de pedra, coube-nos apenas um cômodo, onde arrumamos nossas cousas pelos cantos. Foi a maneira que encontramos para que todos tivessem, pelo menos, onde se esticar à noite. No dia seguinte, iniciaríamos a empreitada e precisávamos descansar. Essa atitude era unânime, consenso, e meu pai tratou de deixar claro para todos logo após o jantar. Pude perceber algum tom de sarcasmo por parte do Negro Totonho ao comentar sobre o sono que já sentia. Os outros três ficaram quietos, como eu. Comemos o grude, como batizamos a comida dos peões, e fomos dormir.

Nunca o tinha visto trabalhar com talhadeira, martelo, marreta e punção. Imaginava que fosse um trabalho mágico, por suas estórias. Na realidade cortávamos pedras desde o amanhecer até o pôr-do-sol. Sua habilidade, mais apurada que a dos demais, o colocava no privilégio de fazer os ajustes nas pedras, tornando-as uniformes para sua aplicação posterior. Eu fazia o transporte das pedras, com mais 4 guris da minha faixa etária, do corte bruto para o tablado onde haviam montado uma espécie de oficina para classificá-las e retirar, destas, as pontas mais evidentes e cortantes. Após o terceiro dia de serviço começávamos a ganhar velocidade. Os peões, que faziam a extração no morro, já tinham a agilidade necessária para não desperdiçar força. Sabiam que não adiantava extrair material de lascas menores, pois pouco adiantariam nosso intento, concentravam-se, assim, nas lascas maiores visto que as menores ficariam à disposição para rejuntar as outras durante a construção.

À noite, enquanto eu ia direto para a cama, os mais velhos saíam com as armas para o mato. Era o jeito de conseguirem um jantar decente, já que a comida que ganhávamos do fazendeiro mal dava para saciar a nossa fome, após o trabalho duro na pedreira. Além do mais, era a única forma de divertimento disponível. Infelizmente, a caça tinha que ser repartida entre todos os peões e pouco sobrava para mim. Por ser o menor, tinha 12 anos apenas, achavam que eu não precisava de tanto alimento como os demais. Acordava todas as noites com a barriga roncando. Era a fome apertando mais a cada noite, como nunca havia sentido. Reclamar, sabia que de nada adiantaria. Permanecia quieto, enquanto o estômago reclamava, ansiava por alimento.

No quarto dia, não agüentei. O Sol foi ficando tão forte que por volta das onze da manhã tive que me retirar do trabalho. Vomitei o café da manhã e amoleceram-se as pernas. Logo ele veio até mim. Viu que eu estava mal mesmo e fez um sinal para que me retirasse até uma sombra, junto a uma figueira centenária. Fiquei por ali, sozinho. O Negro Totonho me trouxe o almoço.

- Come sem olhar, guri. Tive que colocar mais água para transformar numa canja. Pena que faltou galinha - ele riu e eu o acompanhei com um tímido sorriso.

Após comer um pouco, rejeitei o prato. Meu estômago estava revoltado, parecia que reclamava e, por não ter o que desejava, negava-se a aceitar o que podíamos usufruir naquele momento. O Totonho, mandou-me ficar por ali mesmo. Que nem tentasse voltar ao trabalho durante a tarde porque ele já tinha visto casos como o meu e se insistisse em teimosias poderia ficar pior. O melhor a fazer era ficar deitado em lugar arejado. Ele não soube me dizer o que era, mas insistiu para que não desafiasse seus anos de vida, mostrando as rugas no rosto.

- Pegaste uma aragem, guri. Te senta aí no pé da figueira e aproveita para descansar. Tenho visto que andas meio triste, meio fracote. Logo tu, que sempre foste um guri arteiro, rápido e esperto. Talvez teu pai tenha se precipitado ao te trazer...

- Não - interrompi, imediatamente - ele sabe o que faz. Precisava de mais um e já sou bastante grande para me cuidar e trabalhar junto com os outros.

O amigo retirou-se em seguida. Quieto e sereno como chegara. Eu acabei adormecendo logo. Quando acordei estava molhado de suor, mesmo parado e à sombra. Olhei para os outros e continuavam o trabalho na pedreira. Pensei em me levantar, mas o sono me arrebatou novamente. Adormeci lentamente, sem o querer fazê-lo.

A fome voltara a me incomodar e acordei novamente. O suor já não mais fazia parte, meu corpo já estava se recuperando. Pela posição solar, já devia passar das 5 da tarde e ainda teria que esperar até próximo das oito para comer alguma coisa. A fraqueza era tanta que nem me mexia para que não tivesse que voltar ao serviço que se desenvolvia há uns 500 metros de onde estava. A ansiedade por comer algo era tamanha que pensei em ir até a fazenda e roubar uma galinha ou um charque. Mas como iria preparar a comida? Melhor esquecer isso. Foi quando percebi, por entre o pasto, um lagarto. Parado no Sol, esquentando o corpo, o réptil me ignorava e fixava sua atenção nos arbustos logo a sua frente. Fiquei acompanhando, por alguns minutos, sua atitude decidida. Em seguida, cantou uma galinha e saiu do arbusto disparando seu alto cacarejar. O lagarto esgueirou-se até o arbusto. Ergui-me, já imaginava o que o levara até lá, e dirigi-me até o local. Encontrei-o furando um ovo, na parte mais bicuda. Já tinha trincado a casca. Corri, com forças sabe-se lá de onde, para pegar uma pedra e afugentar o animal. Assim o fiz. Logo estava eu terminando o que aquele réptil havia começado.

Voltei para minha sombra junto à figueira. Ali cochilei até o entardecer. Quando os demais passaram de volta à fazenda, ele veio até mim oferecer apoio. Levantei-me.

- Acho que já estou melhor. Posso acompanhar normalmente. Amanhã já estarei pronto para continuar o serviço.

Ele pareceu duvidar, mas sinalizou para que fosse na frente. Nos dias que se seguiram, confirmei minha promessa. À prática que adquirira juntei à energia que conseguia dos ovos consumidos e fazia meu serviço render mais do que o dos outros da minha idade. Os comentários sobre mim cessaram e recuperei, em dois dias, o respeito que havia perdido durante aquele mal estar temporário. Mais um entardecer já cedia seu espaço ao anoitecer, um intervalo tão tênue. Sabia que esse era o momento certo para visitar o galinheiro, atrás dos galpões da fazenda. Visitava-o todos os dias, duas ou três vezes.

Tive que me retirar do grupo para rir quando, ao fim daquela semana, o capataz veio comentar conosco sobre um lagarto que rondava a fazenda. Os cachorros não alardeavam sua presença; nem as galinhas estabanavam-se como de costume. Mesmo assim, todos os dias a doméstica da casa grande achava ovos comidos por lagarto no galinheiro. Comentou, por fim:

- No comprendo, como hace...

Naquela tarde, com um mês de trabalho, já estávamos prontos para iniciar a erguer as paredes de pedra. A ansiedade por essa novidade era a motivação que buscava nos dias de mesmice total. Enquanto a maior parte dos peões continuaria retirando as pedras, nós, los brasilenhos como chamavam, começaríamos a construção propriamente dita. Com o capataz acompanhando as marcações, meu pai demarcou a área da primeira parede. O restante de nós trazia o material para o início da obra. No dia seguinte teríamos apenas a parede com que nos preocupar, acabara a sessão de corte e carga de pedras, pelo menos enquanto os peões conseguissem suprir a obra da quantidade de matéria prima de que precisássemos. Pelos comentários de Totonho com meu pai, os dois mais experientes do grupo, os cortadores estavam aptos a terminarem o serviço sem a supervisão deles. Joaquim e Pedro Paulo, filhos do Nezinho que não pode vir por causa do reumatismo, estavam na terceira empreitada e já contavam com certa destreza na construção. De novato mesmo, somente eu. Como aprendiz, vinha me saindo bem. Não refugara o serviço pesado do corte e da carga, na pedreira. Não haveria de fazê-lo agora que seria a parte mais técnica da atividade. A força bruta cederia espaço à especialização.

Naquele anoitecer, como de costume, rumei até o galinheiro. Rondei por alguns instantes a procura de algum alimento mais fresco, por assim dizer. Encontrei um bem quentinho e ao terminar o serviço percebi o capataz parado à porta, com um sorriso nos lábios. Resmungou algo em castelhano - que não entendi - e me pegou pelo braço, arrastando-me por entre penas e merda de galinha. Implorei para que me deixasse explicar, mas somente balançava a cabeça e a espingarda que tinha na outra mão. Não sabia o porquê, mas as lágrimas escorriam de meus olhos enquanto tentava, em vão, me desvencilhar do aperto no braço. Não sabia o que pretendia fazer comigo, então gritei o mais alto que pude. Ao perceber que paramos, abri os olhos e vi o galpão, onde dormíamos. Meu pai e os outros saíam correndo de dentro após ouvir meu grito. Ele tomou a frente e falou em tom firme e sereno ao capataz:

- Solta o guri. Ele tem fome, fome como todos aqui. Como ainda não pode caçar animais no mato para comer, prefere catar os ovos das galinhas.

- Mas então sabias?

- É claro que sabia. Se ele não tivesse encontrado esse caminho sozinho, eu mesmo o apontaria como única maneira de conseguir energia para o trabalho duro. Ou esqueces que também fui guri trabalhando com meu pai nas construções cá nestas bandas?

- Sí, claro. Mas vou ter que descontar os ovos do pagamento de usted.

Temendo o pior, tentei falar algo, mas as palavras não saíam da minha boca aberta, escancarada. Meus olhos pareciam querer saltar da órbita. Os peões, notando a gravidade do acontecimento, aproximaram-se do meu pai. O capataz sentiu-se sozinho na questão, mas não titubeou. Largou-me e deu um passo atrás, me colocando entre ele e o grupo. A arma, calibre 32 com dois canos, estava embuchada, cheia, carregada, pronta, enfim, para fazer valer a sua demanda pelo menos duas vezes. Naquele momento fiquei parado, sem saber o que fazer. O Negro Totonho interveio, temendo o pior. Ergueu as mãos, chegou ao ouvido de meu pai e balbuciou algo para ele. Meu pai fez um sinal de consentimento e Totonho retirou-se. Imediatamente o capataz perguntou:

- Onde vás homem?

- Vou buscar o dinheiro que te devemos pelos ovos, só isso - respondeu Totonho, dando as costas ao capataz e entrando no galpão.

O clima abafado do verão sulista, fazia ferver ainda mais o ambiente. Ameacei levantar-me, mas meu pai ordenou que ficasse parado, onde estava. Obedeci. Uma questão tão fácil, afinal bastava esperar o Totonho vir com o dinheiro para resolver pacificamente o acontecimento. E amanhã teríamos mais um dia duro de trabalho. Meu pai, ainda encarando o capataz, falou-lhe com a voz firme e forte, que possuía, com um tom grave, porém, que jamais o tinha visto utilizar:

- Baixa essa arma, homem. Estamos todos envoltos em muito serviço, longe de nossas mulheres e de mulher alguma. Deve ser por isso que chegamos a esse problema. Deixa que teu patrão doe uns ovos para nós. Não vai lhe fazer falta e ajudará no bom trabalho que faremos nas mangueiras e currais de pedra.

- No. Respondeu secamente o capataz. - Onde está o negro? Perguntou em seguida. Meu pai não respondeu. Fez apenas um sinal de que o aguardava.

A escuridão começava a ganhar corpo, tanto quanto os ânimos. O capataz já deixava demonstração que sentia a forte pressão exercida pela presença dele a sua frente, imóvel e impassível. Era como se meu pai estivesse a frente de uma cobra. Uma vez, vi minha avó paralisada no pátio de casa. Quando corri, gritando em sua direção, ela mandou que ficasse parado onde estava. Não entendi no momento, mas ao falar comigo ela titubeou o suficiente para ser atacada pela cobra que estava a sua frente e eu não notara. Por sorte era uma parilheira, uma comedora de pintos. A mordida inchou, mas logo o veneno foi sendo eliminado pelo seu organismo que é bem mais forte que o de um pinto ou rato - os alimentos preferidos da parilheira. Minha avó, naquela ocasião, esperava a intervenção de meu pai, que estava para chegar, pois estávamos perto do meio-dia. Com medo de que a cobra me picassse, sacrificou-se. A situação parecia semelhante. Meu pai aguardava, pacientemente, a vinda de Totonho. E ele veio.

No tempo que ficou fora, Totonho deu a volta no galpão e na casa grande. Apesar de sua idade avançada, o negro era muito ágil mesmo. Meu pai disse-me uma vez que ele tinha lutado nas guerras, quando ainda era piá. Mas não precisou retirar-se para o Uruguai, pois passou por guri quando os maragatos foram derrotados. Colocado estrategicamente atrás do capataz, ele soltou os cavalos dos peões, que trazia consigo, em disparada por cima deste. Eram 4 animais, os melhores e mais fortes. Ao ver a trovoada de patas, o capataz pensou em salvar a vida primeiro e virou-se para os animais. Tinha tempo de desviar-se, mas ao invés disso mirou entre eles e disparou. Em seguida os cavalos o atropelaram, derrubando-o por cima de mim, o que evitou que eu fosse pisoteado também. O corre-corre que se seguiu, ninguém entendeu. Alguns foram atrás dos animais, que estavam amarrados pelo pescoço e, soube mais tarde, foram impulsionados pelo palheiro do negro na anca do maior deles.

Assim que me desvencilhei do capataz, que parecia desmaiado, procurei meu pai ao redor. Não o encontrando, fui ao encontro de Totonho. Vislumbrei meu pai ao seu lado. Foi o primeiro a chegar até o negro velho que estava baleado. Vi o sangue escorrendo pelo seu braço e a camisa com várias pequenas manchas. Pelo pouco que conhecia de armas de caça, deduzi que o tiro era com chumbo e que acertara Totonho no lado direito, entre o braço e as costelas. Por sorte, o alvo foi mais incisivo no braço. Mesmo assim, os outros peões me retiraram dali. Ao sentar à soleira, na porta do galpão, comecei a chorar. Não conseguia segurar ou saber por que chorava. Ninguém foi socorrer o capataz. Ao levantar a cabeça, procurando-o na escuridão que se instalava definitivamente sobre nós, o vi mexer-se. Erguer-se. Pegar sua espingarda e dirigir-se ao grupo que cuidava do negro Totonho. O medo me paralisou, ao vê-lo cambaleando. Devia estar com uma perna quebrada, pisoteada por um dos cavalos decerto.

- Morre negro!

Foi a última voz humana que ouvi naquele dia. A espingarda disparou a queima-roupa, e as adagas cruzaram o ar, fazendo o sangue jorrar do já estropiado capataz. A selvageria que aconteceu, passou diante de meus olhos como um sonho. Algo que assistia imóvel, como se nada pudesse ou não quisesse fazer. No brilho da lua nas armas de prata, pude ver meu pai cortando a jugular do moribundo e guiando todos rumo a casa grande. Instantes depois, ouvi mais tiros, gritos das mulheres e dos outros dois peões da estância, que trabalhavam com o gado e moravam na casa grande, durante a ausência dos patrões. A quebradeira de louças e pratarias entremeadas pela gritaria dos moradores da casa povoou os instantes seguintes. Fiquei absorto. Totalmente inerte a tudo que acontecia.

Não sei quanto tempo se passou. Fiquei com os olhos abertos, sem chorar ou piscar por horas, talvez. Ainda ecoava em minha cabeça a gritaria proveniente da sede da estância misturada às visões de morte que acompanhara há poucos instantes. Senti meu pai me pegando pela cintura e erguendo-me sobre o cavalo já encilhado. Notando minhas condições, amarrou minhas pernas aos estribos e tomou as rédeas de meu cavalo a cabresto. Percebi que minha cela estava mais a frente que de costume e logo em seguida nossas maletas estavam atrás de mim, na anca do cavalo, lotadas de materiais pesados e barulhentos. O tilintar que meu cavalo emitia ao andar, balançando as maletas, foram me despertando daquele pesadelo e me mostrou que partíamos rumo Norte, pela posição da Lua que nos acompanhava à direita da cavalgada. Pensei em pedir por Totonho, seu nome não saía de minha cabeça. O transe me dominou, novamente. Era melhor continuar sonhando.

O Sol castigou meu olhar, ao surgir por entre a serra que subíamos. O passo apressado dos cavalos me instigou a perguntar o porquê da pressa. Ignorava, até o momento, a gravidade da situação. Felizmente, apenas Joaquim que seguia logo a minha frente cabresteando meu cavalo ouviu. Ficou ao meu lado e deu-me as rédeas às mãos. Fez um sinal de silêncio, com o dedo em riste sobre a boca. Em seguida, retirou um pão de um saco que levava nas suas costas e me mandou comer. Meu pai seguia a nossa frente, puxando um cavalo com maletas e um corpo. Sabia eu que era meu amigo velho, o Totonho. Atrás deles seguíamos Pedro Paulo, Joaquim e eu. Nosso destino estava definido, bastava desamarrar os pés dos estribos para ter domínio completo sobre minha montaria. Era só o que podia fazer, no momento, além de cuidar bem da retaguarda a cada serro que subíamos, verificando se não existia nenhuma patrulha uruguaia em nosso encalço.

Fomos primeiro para nossa casa. Fiquei, juntamente com as maletas que carregava. Meu pai e os outros seguiram com o corpo, que já emitia um odor forte, para entregá-lo à esposa e sepultá-lo. Queria pedir para ir junto, acompanhar o cortejo e prestar a última homenagem ao amigo. Cheguei a balbuciar, mas não ouvi o convite ficando intimidado e me colocando a descarregar o cavalo. As maletas cheias de pratarias, deram algum trabalho. Minha mãe ficou vidrada, de olhos arregalados e, praticamente, esqueceu-se da morte que cavalgou por nosso pátio momentos antes. Acomodou tudo que pode e deixou o resto num baú dentro do quarto de casal. Eu fui para o galpão, onde os cachorros me recepcionaram, na tarde que já ia se tornando noite. Me deitei no chão batido do galpão, dormi ali mesmo. Meu pai me acordou, ao chegar de volta. Já era alta madrugada e fez questão de mostrar-me todas as marcas que as pulgas tinham deixado em mim. Nem sentia nada, mas mesmo assim ele me apontou a sanga que passava ao lado de nossa casa. Atirei as roupas num canto, peguei um pedaço de sabão e corri nu pelo campo até mergulhar nas águas geladas do córrego. O tempo estava fechado, não haviam estrelas no céu. A possibilidade de chuva no dia seguinte era iminente, pelo abafamento do dia anterior e da noite.

Nos dias que se seguiram tivemos chuva torrencial, com alguns intervalos de sol forte. Eu só queria dormir e minha mãe já estava preocupada comigo. Levantava apenas para comer e logo me recolhia à cama, para dormir. No primeiro dia com tempo bom, fui para a cidade com meu pai. Pegamos o ônibus e nos dirigimos até meu tio, onde fiquei, para que ele tratasse da venda do material que trouxemos do Uruguai. Trocamos poucas palavras pelo caminho, somente o tempo ocupou nosso vocabulário pouco expressivo. Quando voltou me disse para ficar uns dias e tentar esquecer de tudo. Quando estivesse bem, que mandasse um recado por algum vizinho que viesse à cidade. Seria fácil, já que meu tio era dono da única venda da cidade, qualquer pessoa que precisasse passaria por ali. Os dias se passaram e meu tio me matriculou no colégio da cidade. "Preciso de um ajudante para a venda", dizia ele. Eu me resignei a perguntar o que meu pai e minha mãe achavam da idéia e ele disse que concordavam, desde que eu continuasse a estudar. O tempo correu depressa e a adaptação aos acontecimentos de cidade foram acontecendo naturalmente. As visitas à zona rural foram ficando escassas quanto mais estudava e ganhava escolaridade.

Hoje, ao ter esta alça entre meus dedos, percebo que, também eu, me tornei mestre na arte que dominavas.


*Fundador do site www.vetado.net, casado, 30 anos, uma filha, estudante de Engenharia Elétrica, colaborador da Brasil Telecom e uma mente aberta às novidades.

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Nua & Crua
Cristiane Martins

"Aqui começa a coluna NUA & CRUA, onde trarei semanalmente a verdade nua e crua travestida em contos, crônicas, poemas, textos malucos, fictícios, com uma pitadinha de realidade...
Espero que todos gostem e participem deixando seus comentários, críticas.
Me xinguem, me matem, me joguem na parede e me chamem de lagartixa"



Solidão Plus

Solidão é tão imprevisível quanto chuva de verão ... simplesmente vem, chega, se precipita e cai sobre nossas cabeças sem dó nem piedade!

Assim estava eu, sob uma chuva! Mas era uma chuva de meteoros que caíam sobre minha cabeça! Lá estava eu sem ânimo, sem vontade, sem lenço e sem documento como diz a música ... era assim que me sentia, desfragmentada, desocupada e uma gama de “des” isso e “des” aquilo que dava para encher um livro!

Tudo adquirira uma dimensão tão grande em minha vida que me amedrontava, embora eu me esforçasse para não transparecer esse medo e tentasse ser ainda aquela menina risonha e divertida! Mas o fato era que tudo em minha vida estava tomando um rumo que eu não escolhera! Tudo parecia tão grande, como se alguém tivesse acionado o botão PLUS aleatoriamente aumentando assim toda a solidão que eu sentia!

De súbito olhei para as chaves do carro que jaziam sobre a escrivaninha e num salto apanhei-as e me dirigi à garagem do prédio! Precisava sair para arejar naquela noite estrelada, precisava respirar um pouco do ar poluído da metrópole, precisava ouvir o barulho ensurdecedor dos motores dos carros, precisava respirar um pouco de vida lá fora ...parei em frente a um bar no centro da cidade, ainda dentro do carro pude ver claramente que as mesas do bar eram repletas de casais de enamorados que sentavam-se tão juntos que quase não era necessário duas cadeiras, outros se olhavam com aqueles olhares que só quem está apaixonado tem ... e só Deus sabe como é bom esse estado de graça ...

Dei um longo suspiro tentando afastar todos aqueles pensamentos negativos que pairavam em cima da minha cabeça feito uma nuvemzinha preta de vendaval ... Entrei no bar e por alguns minutos eu pensei em escrever um artigo no jornal direcionado aos donos dos bares reivindicando mesas que tivessem apenas um lugar e não dois, para que as pessoas solitárias pudessem sentir-se menos constrangidas! Sentei em uma mesinha (com dois lugares) em um canto mais retirado para não dar tão na cara a minha solidão tão aparente! Ascendi um cigarro e pus-me a tragá-lo ... enfim não estava só ...meu cigarro me acompanhava! Que deprimente! Eu parecia estar em uma propaganda de cigarros, só faltava eu olhar de lado assim para a câmera e dizer: “Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum!”

Pedi uma vodka, já que estriquinina eles não vendem assim em bares, ainda não, pelo menos no Brasil não ... Enquanto eu bebericava meu drinque, um moço negro dono de uma arcada dentária de fazer qualquer dentista ter orgulho da profissão tocava e cantava um som meio ambiental sentado em uma espécie de “palquinho” improvisado! Aquela atmosfera toda me fazia sentir ainda mais só, a fumaça dos cigarros, os zun zuns das conversas vindas das mesas ao redor, o cantor que cantarolava melodias melancólicas e o garçom que me olhava de canto toda vez que passava pela minha mesa! Teve uma hora que eu jurei que ele fosse chegar e perguntar assim meio sem jeito se eu queria que ele levasse embora aquela cadeira delatadora que atestava minha solidão! Mas não! Ele limitou-se a continuar me olhando de lado e me questionando sobre o que eu queria comer!
Expliquei-lhe meio sem jeito que não comeria nada no momento e pedi mais uma vodka!

Risadas um tanto despreocupadas abafam por algum momento a música do bar! É um grupo de jovens que adentra triunfante e cheios de vida e nada de solidão ... sinto inveja, uma inveja que não chegava a ser nociva, talvez o fosse para mim! Alguém lá na frente acena em minha direção, fico meio paralisada afinal não o conheço! Mas acabo percebendo que todo o esforço do moço era para chamar a atenção de uma loira esguia e bem torneada que toda delicada bebia com alguns amigos em uma mesa atrás de mim!

Percebo que perdi a hora ... já é tarde... e assim que levanto da cadeira percebo que perdi também a conta de quantas vodkas havia ingerido e quase caio de volta sentada! O melhor (e mais seguro) seria tomar um táxi e deixar o carro ali mesmo ... assim o fiz... entrei no táxi que estava estrategicamente estacionado onde o motorista cochilava escorando a cabeça no encosto do banco. Quase tive pena de acordá-lo, afinal era um senhor de meia idade com cabelos ralos e meio grisalhos, barba por fazer, e com um irritante bigodinho bem a estilo Tarso Genro ...

-- Para onde menina? Ele balbulcia entre um bocejo e outro.
-- De volta à solidão - brinquei eu - sabe onde fica?
-- Isso é um assalto? - ele falou assustado - se for já te aviso que a féria hoje não foi boa moça e ...
-- Puxa, não achei que tivesse cara de assaltante ... toca pra Pedro Adams. O senhor é casado?
-- Sim ...
-- Tem filhos?
-- Dois, um menino de 10 anos e uma menina de 7 anos - falou ele orgulhoso apontando para um daqueles porta retratinhos antigos de pendurar em carro onde de um lado sorriam dois japonesinhos abraçados e do outro uma jovem senhora oriental de longos cabelos negros!
-- Sua esposa é Japonesa?
-- Aham, a japonesa mais linda e fabulosa que já conheci em toda minha vida ...
-- O senhor é um cara de sorte - falei meio com inveja da felicidade daquele joão-ninguém - Aqui, pode parar aqui que moro no prédio logo em frente!

Paguei o taxista, e me entregando o troco ele me olhou com um jeito profundamente sábio e disse assim:

“Moça, por que estás tão infeliz? Por que não olha ao seu redor e perceba e dê valor a tudo que Deus te proporciona a cada dia que passa? Por que não pára de procurar tua felicidade e deixa ela vir ao teu encontro? Dê uma chance a si mesma! Abra seus olhos e comece a conhecer a ti antes de querer conhecer alguém... Olhe para eles - ele apontou mais uma vez para o porta retratos que rodopiava com o vento que entrava pela janela - eles já se foram, não faz muito tempo Deus levou eles de mim, em um acidente de trânsito, mas eles trouxeram tanta alegria para a minha vida enquanto estavam aqui que ainda permanecem vivos em mim, em meu sorriso, em minha memória, em meu coração e me fazem ter forças para seguir em frente e continuar ...

O homem tinha lágrimas nos olhos e olhava para aquelas fotos como se fossem um santuário, algo sagrado, e o eram para ele ... me despedi meio sem jeito pegando o troco da mão dele e entrei no prédio pensando o quanto era pequena a minha solidão perto daquela, e o quanto eu ainda tinha de aprender sobre a vida ... muito ainda...

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia (severogarcia@msn.com)


Ensaios sobre a Putaria

1º Cena:

Ela me perguntou por que eu escrevia tanta putaria. Eu disse que eu não escrevia putaria, escrevia sobre o que as pessoas faziam, e isto era normal. Ela disse que eu não tinha necessidade de descrever com tamanha profusão de detalhes todos os elementos contidos em uma relação sexual, senão iriam pensar que eu só escrevia coisas assim porque, na realidade, não tinha qualidade literária suficiente para escrever alguma coisa que se assemelhasse a um Julio Cortázar, por exemplo. Ela disse assim, Julio Cortázar, com a boca bem cheia daquele bolo de cenoura que ela comia quando resolvia sentar no sofá de napa e me inquirir, uma vez por dia, ao menos, por que, afinal de contas, eu escrevia tanta putaria. Julio Cortázar é Deus!, eu disse para ela, e no dia que eu escrever uma milionésima parte do que ele escreve eu vou dar um tiro na cabeça ou me atirar daqui de cima porque eu estarei louco ou consumido pela insanidade e pelo dinheiro que terei ganho como o maior escritor de putaria de revistas baratas do mundo. Ela falou que não tinha que ser assim, não, e disse Tu podia escrever com temáticas semelhantes, aquela coisa de viagem onírica, contos de absurdo e coisas do gênero. Não existe coisas do gênero, eu falei para ela, enquanto arremessava mais um papel amassado para a montanha de bolotas de papel no cesto junto do sofá. O que tem é isto aqui o que você está vendo: um punhado de tentativas de escrever alguma coisa que preste enquanto você não cala esta boca e não me deixa terminar de escrever. Ela disse que eu era nervosinho porque era um escritor amargurado, na realidade. Eu disse que era amargurado porque tinha que escrever aquele monte de merda, mas, à bem da verdade, eu me sentia ainda melhor assim do que naqueles dias em que tinha que trabalhar naquela porra daquele banco fudido que eu odiava e espremer alguns poucos instantes de fim de noite para escrever as preciosidades que eu considerava minhas obras primas. Ela calou a boca por um breve instante e eu achei que tinha desistido de me inquirir acerca de meus dotes literários. Foi quando ela falou baixinho que não tinha coragem de mostrar para a minha mãe as coisas que eu escrevia. Eu disse A tua mãe é uma velha carola!, não me interessa se ela me acha um pornógrafo por escrever o que eu escrevo, e se eu vou pro inferno ou pra putaquemepariu, eu só quero que tu me deixe em paz para que eu possa enviar esta porra pra esta merda de revista e rezar para que aqueles filhadasputa me enviem o cheque na semana que vem! Ela baixou a cabeça e começou a chorar, pateticamente com o bolo de cenoura quase caindo da mão, de um jeito que demonstrava claramente que queria que eu me aproximasse. Eu deixei ela ali chorando, porque sabia que, na verdade, ela estava mentindo. As fungadinhas compassadas não me tocavam há tempos e além do mais eu precisava terminar aquela porra daquela história.

2º Cena:

Coçava as frieiras do pé com um prazer que me fazia olhar estarrecido por diversas vezes aquela cena que, ultimamente, andava se repetindo à grande. Dizia que sentia o mesmo gozo de quando se masturbava olhando pro fundo dos olhinhos muito miúdos da gorda filha da vendedora de pilhas que se encostava no muro do nosso prédio. Um dia me revelou, embora eu não tenha certeza ser verdade até hoje, que nunca teve coragem de transar com ela. Achava que seus olhos tinham ternura em excesso, e, por mais que ela quisesse que ele fizesse a coisa, o máximo que ele fazia era deixar que ela ficasse sentada e quieta, enquanto ele olhava muito fundo nos olhos dela e via ali algum ponto excitante qualquer que o combalia a auto-satisfazer-se furiosamente. A gorda não ficava quieta, queria participar - era uma mulher, estava ali, e tudo o que ele queria era que ficasse olhando? Nessas horas ele batia na cara dela com o cinto que tinha tirado para que o tilintar da calça arriada ao sacudir não acordasse nosso vô que dormitava no quartinho ao lado. Tanto era o silêncio que tinham que fazer, que ele se atirava sobre a cara da gorda quando ela se punha a chorar por que ele atingira o clímax, gozando violentamente contra a parede, e ela não tinha participado daquele momento. Não da maneira que ela queria. Ele, de calças ainda arriada, passava seus dedos grossos nos lábios da gorda e dizia que ela não devia se corromper assim. Havia alguém muito especial para ela e, por enquanto, aquilo era tudo o que eles poderiam ter.



Alessandro Garcia (http://suburbana.blogspot.com) é escritor e publicitário, tem 24 anos, e acha Porto Alegre a capital do mundo. Apaixonado por Legião Urbana e Pearl Jam (e contraditoriamente, fã ardoroso de música soul), é vocalista da banda de funk-rock Zero Kelvin e idolatra Julio Cortázar. Sabe que, no final das contas, tudo é uma questão de manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranqüilo.

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Escrever por Escrever XLI (excertos)
Rafael Luiz Reinehr

(20/05/1999)

Durante a manhã, além das atividades habituais, tratei de preparar minha apresentação de amanhã. Depois do “Endocrine Club” com sanduíches, fui para a minha tarde livre. Fui ao Science Museum: muito bacana! É um lugar perfeito para se ir com crianças, e bastante tempo, pois é muito grande, e tem de tudo. Quebrei o recorde de uma máquina onde você tem que apertar 4 botões à medida que as luzes vão acendendo: fiz em 0,08 segundos! Comprei algumas coisinhas. Fiquei louco para comprar um globo com raio laser e uma outra luminária com um furacão de água e bolinhas. Jantei; fui convidado para um café no quarto da Nowe. Fomos eu, Erik, Shaine, Zoe e Linda. Tocamos um pouco de violão e falamos papo-furado (small-talk!); eu tive que ir embora cedo para terminar de teclar minha apresentação. Fiquei pronto lá pela 1 da manhã, morto de cansado. Ah! Hoje comprei um chapéu mágico, um chapéu de feiticeiro, “a Wizard hat”! Bem legal!: dá pra fazer um monte de coisas com ele! Também toquei violão no teto do meu prédio com o chapéu. Fui aplaudido por garotas que estavam na janela de um prédio vizinho.

(21/05/1999)

Um dia “normal”, se é que posso dizer assim: board round, aula teórica Prof. Besser, imprimir em transparências a apresentação, almoço, apresentação do caso, compro bateria para máquina fotográfica, encomendo Amilorida para Dr. Rogério, leio e-mails, mando e-mails (para meu amor!) e também 2 e-greetings para sábado e domingo para a Sheila, ward round, janta, vou pegar meus CDs da Graforréia com a Phillippa, compro um baguette, tomo 1 pint no pub perto do hospital porque me sinto sozinho, uma loira chamada Tracy me encara (eu tenho namorada...!), volto para “casa”, olho 2 comédias bem legais, acabo pegando no sono mas me acordam bem na hora de ligar para a mãe e para a Sheila, falo com elas, mato um pouquinho da saudade e, depois, morto de cansado (1 da manhã), vou dormir.

(22/05/1999)

Hoje fiquei deitado até às 10:30. Aí levantei, fiz algumas tabelas para o meu quadro de apontamentos, comi um sanduíche e saí. Fui para o Hyde Park. O lugar é enorme, e bem bonito. Tirei algumas fotos, toquei violão, aproveitei o sol! Depois fui ao Natural History Museum: bem legal! Só consegui ver a parte da “Terra”. Tenho que voltar para ver a “Vida”. Jantei no Bart’s aí fui para o meu quarto. Logo depois bateu na porta uma moça: depois vim a saber é sueca, e não lembro o nome agora, mas ela é bem legal. Conversamos um pouco, comemos amendoim com coca e ela me convenceu a lavar minha roupa na máquina. Lá fui eu: lavei e sequei minha roupa. Olhei um pouco de TV com a galera enquanto esperava. Depois falei com a tia e a vó, que estão bem.

(23/05/1999)

Uh! Estou bem feliz! De manhã fui ao Camden Market e comprei uma porção de coisas legais para todo mundo! Comi 2 Double Bacon Burgers, 2 French Fries e 1 coca! De tarde fui ao Regent’s Park, joguei futebol com 2 londrinos e 1 escocês, tirei fotos... Na volta fui na Catedral de St. Paul’s. O padre ensinou algumas coisas interessantes, que eu escrevi por aí. Falei com meu amor por telefone.

“Faça pelos outros aquilo que gostaria que fizessem por você” J.C.

(24/05/1999)

Hoje fui uma Segunda-feira e tanto: board round, fui a Whitechappel me registrar na Universidade (peguei 2 BNFs), levei minhas fotos (360) para revelar, comprei os remédios do Dr. R. Friedman, fui aos Correios e ao Banco do Brasil trocar meus últimos traveller-cheques. Almocei. Não recebi mensagem da Sheila, fiquei chateado. Mandei mensagem para o Dr. Newton Barros, depois fui para o Ambulatório. Estava um saco. Enchi o meu (saco) e fui para a Biblioteca. Nada de mensagem. Mandei uma para mamãe e outra para a Sheila (...). Tivemos um daqueles chatos exercícios de incêncio... Tomei banho, jantei correndo e fomos eu e Theres para o Regent’s Park assistir a 1a. peça de Shakespeare ao ar livre do ano: “The Merry Wives of Windsor”. Estava muito legal!, e eu consegui entender quase tudo! Começou às 20:00 e foi até 23:15! Valeu a pena! Em casa, preparei 3 hambúrgueres, comi, liguei para o papai e agora, antes de dormir, vou olhar as revistas de guitarra que eu comprei.
São 00:54...

Eu acho que eu tenho que ser mais sincero comigo mesmo. Também acho que não devo dar tanta bola para as coisas que a Sheila faz e me fazem sofrer; ela é só uma mulher... ...mas é tão difícil...

(25/05/1999)

Board round, ver e-mails (neca da Sheila...), outpatient clinics. À tarde fui ao Camden Market e comprei minha jaqueta e umas bolinhas chinesas bem legais. Um par épara dar de presente. Comi no Burger King’s, comprei CDs na Tower Records. Fui tirar dinheiro, o banco negou. Me assustei. Fui para casa levar as bugigangas. No fim das contas consegui tirar £ 30,00 e paguei as fotos. Fui ao Natural History Museum ver a parte da “Vida”; bem legal. Fui ao New London Theatre para ver quanto custa para ver “Cats”. £ 15,00 os melhores lugares com ISIC card! Voltei para casa, fiz e comi hamburgueres, mostrei as fotos para Theres, que gostou bastante. Nada de e-mail da minha namorada! Liguei para mamãe. Ela está se sentindo bem, apesar de andar com umas hemorragias meio estranhas... Me tranqüilizou quanto a Sheila: disse que não era para dar bola, que o problema é no computador, que ela quer fazer ciúme... Vai ver é mesmo; mas mesmo assim não me sinto bem... Acho que estou com febre. Bem legal essas bolinhas chinesas. Acho que vou comprar mais 2 ou 3 pares! Meu casaco novo também é legal. Já é tarde, mas estou a fim de tocar violão. Acho que vou ler para ficar cansado...

“Observe always that everything is the result of a change, and get used to thinking that there s nothing Nature loves so well as to change existing forms and to make new ones like them” Marcus Aurelius – Roman emperor

“If you are thinking a year ahead, sow seed.

If you are thinking ten years ahead, plant a tree.

If you are thinking one hundred years ahead, educate the people.” Kuan Tzu – Chinese poet (500 b.C.)

(26/05/1999)

Hoje não gastei nada! Almocei hambúrgueres que haviam sobrado. Fiz 5 mas só comi 2 e 1/2. Comi o resto na janta. Dessa vez fiz no grill, não frito. Fiquei em função da minha apresentação, cumpri a rotina do dia no hospital e foi isso. À noite assisti à final da Copa dos Campeões da Europa, entre Manchester United e Bayern Munique. O Bayern estava vencendo até a prorrogação do 2o. tempo, quando de repente o Manchester fez 2 gols e se sagrou campeão. Foi emocionante, e aparentemente injusto. Fiquei com pena dos alemães... Datilografei parte da minha apresentação e dormi.

(27/05/1999)

Mais um dia. Finalmente recebi um e-mail da Sheila: “Ainda estou viva!!!”. Ainda bem... A partir do meio da tarde não tinha nada para fazer aí fui para o Camden Market. Retirei £ 120,00 com o VISA, comprei mais 4 pares de bolas chinesas (é um bom presente!), comprei 4 gravatas (para mim, Eleu, Júlio e seu Helmuth). Para o pai eu quero comprar um relógio bem bonito. Comprei também o livro do Kant que eu estava procurando: “Crítica da Razão ura” e uma mochila para levar tudo que eu comprei. Jantei no hospital (ah!, no almoço fiz lingüiças frankfurt... muito boas!!) Depois da janta fomos eu, Shaine – o australiano, Nowe, do Zimbabwe, Sherah e Angela ao Student Union’s Pub. Eu estava precisando desopilar um pouco. Bebi 4 pints e mais um aftershot. Joguei sinuca (ganhei). Fiquei bem alegre. Falamos bobagens a noite toda. Todo mundo estava meio bêbado. Fomos embora às 23:00, caminhando. Quando cheguei em casa estava bastante enjoado. Fui dormir.

(28/05/1999)

Hoje acordei bastante enjoado, provavelmente devido a bebedeira de ontem. Decidi não ir ao hospital pela manhã. Tomei um banho e voltei para a cama; perdi o board round e a aula do Prof. Besser, mas terminei minha apresentação. Dormi até 12:30. Não almocei. Me saí bem a apresentação. Já estou craque. Depois tivemos o ward round. Terminamos antes das 6 horas. Fui jantar. Comi lingüiça e bacon com milho cozido, no restaurante do hospital: horrível! Toquei um pouco de violão junto à fonte e vim para casa, arrumar meu quarto, escutar música. Às 9:30 (21:30!) desci para a sala de tevê para ver Southpark. Meio idiota mas bem divertido. Conheci um espanhol que toca piano superbem. Vamos tocar juntos outro dia. Voltei para o quarto, arrumei mais coisas, liguei para a tia e a vó, falei com elas, liguei também para mãe, deixei mensagem na secretária. Agora vou estudar um pouco antes de dormir. São 00:27. Amanhã quero acordar cedinho para aproveitar o dia.


(continua na próxima semana...)

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Intelectualóide ou Pseudointelectual?
Pedro Schestatsky


Alguns incultos aproveitam sua própria ignorância para estudar, aprender e se deliciar aos poucos com as maravilhas do conhecimento humanístico, sem pretensões maiores. Já um outro grupo de incultos, valem-se de sua ignorância, tão marcada quanto a dos primeiros, só que mais “fechada”, para chamá-los de “intelectualóides”. É claro que existem os “pseudo-intelectuais”. Só que estes não têm consciência de sua ignorância. Ou não a admitem. Portanto não há nenhum problema de vez em quando citar um autorzinho aqui, outro ali (QUE OBVIAMENTE TENHA LIDO), para puxar assunto. Trata-se de um exercício mental saudável e que não deve ser mal interpretado. Deve ser sim, admirado e imitado por todos. Melhor que ficar comentando novela ou casa da porra dos Artistas.
Esta é a minha opinião, babacas. Estou aberto a críticas. Meu celular é 9981-41-01.

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Ombudsman
Maurício Silveira dos Santos

Simplicíssimos leitores, este ombudsman, por motivos de força maior, não poderá brindá-los com mais uma de suas colunas nesta edição. Peço escusas. Serei um ombudsman mais feliz se souber que alguns sentiram saudade e muitos outros alívio. Até a semana vindoura.

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Desafio Simplex

Quem ganhou o Desafio Simplex da semana passada foi Carla Schneider, de Porto Alegre - RS, com uma esdrúxula, bonita e criativa foto que você pode visualizar aí embaixo!

Explicação da foto: "Essa ali de vermelho e preto sou eu, em agosto de 2000 em plena PRAÇA DOS STRESSADOS que fica no calçadão *beira-mar* de Fortaleza, Ceará.AAAAHHH!! Fala sério, né!!!"

O próximo Desafio Simplex consiste em selecionar um trecho de uma música conhecida, citando seu autor e dizer porque você acha que essa música tem a ver com o Simplicíssimo! O vencedor ganha o CD "From genesis to revelation" do Genesis (importado da Inglaterra e feito na Holanda!!!) Não é pra qualquer um bicho velho.

... continuem participando e divulgando o Desafio Simplex!
O próximo desafio já está aí ...

 

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