Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade a cada “número de sorte” dias


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Editorial

O quê fazer... São Paulo completando 450 anos... Comemorando o seu quadrisesquicentenário aniversário e nós aqui, nos achando grande coisa por estarmos na luta há pouco mais de 1 ano e 2 meses (mas quase três!)...

Feliz mesmo é o porco, que chafurda na lama. Mas sua lama é mais limpinha que a que costumamos nós, seres dotados de “inteligência superior”, de “racionalidade”, chafurdar.

Somos obrigados a respirar gases tóxicos oriundos do Hemisfério Norte.

Temos que aceitar um fichamento discriminatório por não fazermos parte de um seleto grupo de países “sem risco alto de terrorismo”.

Devemos baixar a cabeça quando um f.d.p. de um piloto de m... americano mostra seu dedo médio para a câmera da Polícia Federal.

Enquanto isso, muita coisa boa é feita aqui dentro. Falo política mas também culturalmente. Duas empresas privadas, o Itaú Cultural e o Santander Cultural estão na linha de ponta no patrocínio da cultura em nosso meio. Esses bancos, através de suas empresas vinculadas, trazem artistas de fora e do próprio país, organizam eventos artísticos musicais, de artes cênicas e plásticas eventos literários e patrocinam programs de TV associados à cultura e aspectos de amplo interesse social.

Qual o benefício: visibilidade. Muitos podem achar que realizam tão somente sua obrigação. Bem, então que todos realizem sua obrigação. Não estamos aqui falando só dos bancos e das entidades privadas. Estamos falando de você, você e você que está aí, desocupadamente lendo este texto. E, se chegou até aqui, realmente sugiro que levante sua bunda daí e se inscreva em um programa de voluntariado e crie o seu próprio. Pois, se tem uma única coisa realmente importante – do meu ponto de vista – que ainda somos inferiores aos Estados Unidos é na disposição do povo em ajudar aos menos favorecidos.

Mudando bruscamente de assunto, peço a todos interessados em processos de auto-organização dos sistemas vivos (vale para células e grupos humanos) que se direcionem para a página do Itaú Cultural onde Humberto Maturana define brevemente sua teoria da Autopoiese.

Ao mesmo tempo que vos encaminho para lá, já de pronto me preocupo com o tempo que este línque vai durar na Internet. Sim, porque cada vez que colocamos um línque para uma página fora do Simplicíssimo ficamos à mercê da administração do site ao qual estamos remetendo o leitor. Portanto, se o línque ficar quebrado, e isso é muito provável de acontecer nos próximos 6 meses, não esquenta! Procura algo sobre Maturana no Google (tem muita coisa!) ou escreve pra gente pedindo algumas referências!

Até a próxima semana e tudo de bom!

Rafael Luiz Reinehr

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Entressafra
Marcos Claudino

Voltamos. Na verdade já estávamos por aqui, gatos pingados, minguados e mamados, todos os outros dias. Mas a sensação era de trabalhar em feriado. Ninguém queria resolver nada, fazer nada, nem eu...
E as semanas de dois ou três dias úteis se acabaram. Acostumemo-nos novamente com uma semana completa, com cinco dias a trabalhar, produzir, render, desenvolver. Estamos em compasso marcha lenta. Agora, a espera é pelo carnaval. As escolas de samba já elegeram seus enredos, já até os gravaram. A partir de quarta-feira, qualquer uma delas oferece ensaios, mostra suas bundas e cuícas.
E o final do carnaval significa justamente isso. O início oficial do ano. O ano novo finalmente chega, cobra nossos exageros com a quaresma, com penitência, resignação e arrependimento.
Mas, o que fazer entre o ano novo e o carnaval? Será que eu posso trocar de carro, comprar uma casa, fazer um negócio? Não é pecado?
Será que eu posso jogar umas farpas ao governo PT / PMDB, cada dia mais direita, cada dia mais irritante, cada dia mais decepcionante, não pelos resultados, mais pelas atitudes, declarações e formas de obtenção dos resultados? Será sacrilégio?
Será que eu posso pensar que teremos mais um BBB a irritar e massificar a idiotice popular? Seria desrespeito às tradições?
Enfim, os rostos demonstram ressacas mal curadas. As barrigas apresentam mais pneus que antes, e a farmácia da esquina vende muito sal de fruta aos bravos trabalhadores de janeiro.
A ficha ainda não caiu, e faremos força para que não caia tão cedo...
Lembranças da gatinha que conheceu na praia, lembranças da descontração que, embora numa cidade grande seja muito mais farta, o ar litorâneo ou do campo oferece mais prazer. Porque no fundo, o que é bom não é o lugar, mas o status de turista, nem que seja da Praia Grande... Paulistas sentem-se norte-americanos em Santos, comprando, consumindo, engordando...
Mas, a luta continua, as contas pedem quitação, o salário pede reajuste, e a rotina ronda nosso dia a dia de forma assustadora.
Feliz retorno ao recesso "ano-novo / carnaval", fé e esperança irmãos!!
Mesmo com Rincón!!!!

Marcos Claudino (mc02@uol.com.br), 34 anos, profissional de RH, trabalhou nas duas semanas das festas, participou de uns 150 churrascos, continua vivo, sem Kaiser, e metido a besta...

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Nua & Crua
Cristiane Martins



O chefe

O chefe é aquele cara chato que contratam para te controlar, descobrir teus erros, te chatear com sermões, ou seja, o cara é um pentelho.
Ontem ele estava de verde, o meu chefe.
Repugnante com aquela cara de quem entende de tudo, mas que na verdade nada sabe.
Normalmente ele fica horas na frente do computador com a mão direita sobre o mouse como se estivesse realmente envolvido em algum grande projeto. Por vezes fico morrendo de vontade de despencar da minha mesa até a dele só pra ver se o que o verme olha não são aqueles sites pornôs cheios de pop ups inconvenientes, mas me contenho em olhar de longe, e tentar ler aquela mente sanguinária.
Caminha de lá pra cá com as mãos para trás, olhos atentos nas telas dos computadores dos estagiários, botões da camisa quase estourando, de tão grande a barriga da criatura, coisa medíocre.
Vez que outra ele atende o telefone sem fio ensebado pela pele oleosa da sua cara.
Bem no estilo Oráculo do filme Matrix (para quem não olhou, o que duvido muito, o Oráculo tudo sabe e tudo vê) ele manda e não pede ao telefone :
--- Sim, eu quero pra hoje. Agora. Como tu vai fazer eu não sei, só sei que quero isso no máximo em 10 minutos.
Xiii... ele percebeu que eu o observava. E lá vem o abacate ambulante em minha direção, me achou, me achou, vamos, desmaterialize, transforme-se!
Ainda tentei gritar “morfar” bem perto do meu relógio para ver se eu viraria um super herói japonês, mas não... e lá vem ele.
Decido encará-lo. Afinal, sou uma mulher ou um rato?
Finjo estar digitando qualquer coisa no meu computador e ele pára bem atrás de mim. Sinto sua respiração quente em minhas costas, sinto até o cheiro do alho que o verme comeu na janta de ontem. Então me encho de coragem e olho para ele...
--- Aquele relatório que te pedi ontem? Está pronto?
Relatório? Relatório... tento pensar rápido pois não me lembro de raio de relatório nenhum... relatório, relatório, vamos lá mente, funcione... e nada!
Eu sou um rato, eu sou um rato!
Resolvi encenar:
--- Na verdade está quase, só faltam alguns retoques, mas até o almoço estará pronto.
--- Meio dia então. E nenhum minuto mais...
O olhar dele me cozinhava. Se bem que na verdade eu percebi que ele mais olhava para aquela pilha de papéis que não saem da minha mesa, do que para mim. Minha mesa, meu território. Ninguém se mete em minha bagunça organizada!
Mas que relatório é esse?? Tento afastar alguns papéis, tentando achar uma pista, um vestígio, algo que me leve a lembrar relatório do que o ¿soberano¿ me pediu e ... nada!
Eu desisto, eu desisto... volto a olhar meu e-mails. Às vezes, por alguns minutos eu acho que ele controla minha máquina lá da mesa dele, depois me esqueço disso e me delicio com os e- mails de piadinhas que recebo.
E lá vai ele naquela rotina irritante de supervisionar. Olha daqui, mete o bedelho no trabalho de alguém acolá... e assim ele passa o dia, para receber pelo menos umas quatro ou cinco vezes o valor do meu salário no final do mês.
Meu tempo está urgindo... e nada de relatório. É hoje que me demitem, é hoje.
11:55 e lá vem ele. Será que ele tem um relógio cuco que avisa que está na hora de decapitar alguém?? Mais uns cinco passos e ele chega, quatro, três, já sinto um aperto na garganta quando... ouço um barulho estranho em meu computador e ... puf... lá se vai a energia elétrica!

Ahhh eu amo a AES SUL, eu amo esses consertos em rede elétrica sem aviso prévio. Salva pelo gongo!
Indignado ele me olha como se eu fosse culpada da falta de energia elétrica, da falta de paz no mundo, da falta de papel higiênico no banheiro da casa dele...
E eu alegre e sorridente (por dentro é claro, porque por fora exibo um melancólico olhar de indignação) pego minha bolsa e saio de fininho: hora do almoço... depois eu vejo o que vou fazer, isso se a energia elétrica voltar...
De barriga cheia penso melhor!


Mais Cristiane Martins:

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Os inquietantes dias que se adentram trazem a necessidade do novo. A mesma necessidade que nos faz felizes ao escrever, com capricho, o nome na agenda nova com que fomos presenteados por alguém no Natal. Uma tia, quase sempre. Enfim, os dias posteriores, quase que como em um manifesto de penitência, nos pedem promessas, projetos, planos mirabolantes, resoluções.

A volta, finalmente! Após dias de reclusão, resguardado desta necessidade absurda que tais dias nos sugerem, eis-me aqui, novamente, com meu pulsar cínico a esclarecer aos leitores, de como, afinal, se dá corda no relógio. Sob a graça e a benção de São Julio Cortazar, lógico.

Então, sem mais delongas, que o daqui pra frente seja útil e proveitoso para todos. Que os projetos da Corporação Simplicíssimo e Seus Asseclas se concretizem, que procuremos o novo, sem esquecer os clássicos. Mais leituras para as cabeças e divertimento para os corpos. Vida longa a quem faz pensar.

Pequenas resoluções de ano novo

1.

Quando eu o encontrei na segunda vez em frente ao restaurante, ele tentava se desviar dos pingos da chuva. Assim que me viu, abriu um sorriso que denunciou todos os seus dentes inexistentes e pareceu crer que eu realmente me aconchegaria no seu cobertor imundo e cheio de rastros de ranho. Com todo um misânscene ao mesmo tempo deprimente e tocante, encostou um dos joelhos no chão e, à minha frente, enfiou o naco de pão entre os dentes como quem morde uma rosa com todo o cuidado. Era um misto de figurante de peça de Shakespeare e cachorro pedindo comida.

Ainda que contra os meus princípios convenientes de pequeno burguês, favorável às ideologias apoiadoras de sistemas governamentais que garantam a subsistência dos desvalidos, contrário, portanto, ao ato de dar esmolas à pobres-diabos que cruzam comigo pela rua à toda hora, saquei da carteira e, em uma esmerada inflexão dos joelhos, procurando dar continuidade à representação por ele iniciada, me estiquei o mais que pude para lhe alcançar uma nota de dez reais.

Não me dei por conta de que uso daria à quantia – não me importava o destino final do dinheiro que lhe entregava. Ele pegou da nota, dobrou-a em sete pequenas porções e a enfiou dentro do naco de pão. Reclinou-se com um floreio, socando o pão no bolso e foi remexer a lixeira do bar do outro lado da rua. Ana, ao meu lado, me disse que eu era um imbecil por dar dinheiro ao homem e que ele iria encher a cara de cachaça. Pensei que mesmo sendo ainda o último dia do ano e que minhas resoluções começariam a vigorar somente a partir do próximo, não ficava bem quebrar os dentes de Ana, por que, afinal, ainda tínhamos que chegar à casa de Clóvis para a festa.

2.

Das lembranças da noite anterior que restavam à sua volta quando acordou, se encontravam o cinzeiro repleto de guimbas de cigarro, as dezenas de copos sujos, garrafas vazias e todos os cheiros que continuavam a empestear o ar. Do seu lado, ninguém e, por toda a casa os destroços da maldita festa. Como todo final de festa, o fim das ilusões de estar cercado - reforçadas pelos abraços e desejos de feliz ano novo - e a certeza da solidão, única verdade inconteste.

Não tinha vontade de levantar da cama. À frente, a televisão continuava emitindo um chiado ininterrupto em uma estação inexistente. Em algum ponto do corpo, a dor. Não virou para ver que não acharia o controle remoto que estava em algum lugar muito perdido da casa. Foi o tempo de não olhar e não ver o Sérgio, que dormia no chão de tabuão, ao lado de sua cama. Somente não contrariando mais a verdadeira necessidade que tinha de caminhar até o guarda-roupa, achar alguma toalha limpa e uma calcinha que não fosse bege, é que teria a chance de levantar da cama, tropeçar no corpo de Sérgio – jazia como um cadáver: nu e gelado – e se espantar por que, afinal, não estava sozinha em casa. Como não contrariou a vontade, por que se sentia realmente uma puta, deitada com os cabelos desgrenhados e fedendo à cigarro, com gosto de batom e licor e cerveja e uísque na boca e achando que um banho poderia lhe fazer melhor, foi que resolveu caminhar até o guarda-roupa para achar alguma toalha limpa e uma calcinha que não fosse bege (ia encontrar Mário e se tudo caminhasse da maneira corriqueira de sempre, estariam transando antes do final da tarde e não gostaria de estar usando calcinha bege). Levantou da cama e tropeçou em Sérgio, deitado como um cadáver: sem roupa e com os olhos arroxeados. Como não precisara dar mais que dois passos no exercício de levantar da cama e acertar o ombro direito de Sérgio com o peito de seu pé, foi somente no terceiro passo, quando firmou este mesmo pé no chão frio de tabuão, que sentiu realmente, a dor insuportável (ainda que tivesse suportado, porque, tudo o que fez foi berrar como uma porca abatida com um golpe de faca e cair novamente na cama; de resto, continuou existindo como sempre e sentindo a dor) que começava na parte traseira da coxa e se estendia ainda e de maneira latejante até a polpa da sua bunda, envolvendo todos os músculos de suas nádegas e encontrando seu centro de maior potência em algum ponto infinito do seu cu.

Quando desabou sobre a cama, junto com a dor, ouviu os murmúrios de Sérgio, perturbado pelo seu chute involuntário, mas que continuava no seu estado de semidesmaio a babar o chão de seu quarto. A dor, prolongando-se, através de sua espinha até a nuca conseguiu se manifestar em toda a sua intensidade, não dando atenção para a cabeça já incomodada pelas fartas doses na noite anterior de licor e cerveja e uísque. A dor foi mais do que suficiente para atingir algum ponto do cérebro que lhe recordou os excessos da noite passada. Das lembranças da noite anterior que restavam à sua volta, mais do que um cinzeiro repleto de guimbas de cigarro, as dezenas de copos sujos, garrafas vazias e todos os cheiros que continuavam a empestear o ar, vieram também os insistentes pedidos de Sérgio, suas malemolentes e risonhas recusas; os mais insistentes pedidos de Sérgio e suas esquivas e hesitantes recusas; os ainda mais insistentes pedidos de Sérgio e seus nãos de voz embargada, denunciando, por insistência ou cansaço, um sim ou algo semelhante a isto, entre dentes e álcool, de quem se deixa levar por mãos que acariciam e abrem caminho, vagarosa, porém decididamente. Das lembranças da noite anterior vieram uma língua molhada que entrava no seu ouvido, alguns murmúrios excitados e dentes gelados que mordiam sua orelha, um corpo pesado sobre o seu corpo estirado provavelmente na mesma cama em que acordara e uma calcinha não bege arrancada com força e jogada em um canto do quarto. Das lembranças da noite anterior, algum creme ou gel que se fazia frio entre suas nádegas, amortecendo em parte sua sensibilidade ali e um corpo que entrava vagaroso, mas terminava rompendo com estocadas (parecia) intermináveis e em gritos seus que não se faziam ouvidos.

Das lembranças da noite anterior, seu corpo mole e seus sentidos alterados. Algum corpo que desabava para o chão depois de gemer e seu seguinte estado de inconsciência.

Da sensação desta manhã, a dor, somente a dor.

Da dor a certeza, travestida em resolução de novo ano, de não voltar mais a tomar no cu.

Alessandro Garcia é escritor e publicitário e tem lido John Fante nos primeiros dias do ano.

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Escrever por Escrever XLIX (excertos)
Rafael Luiz Reinehr

“O LEMINGUE ASSASSINO”

Capítulo 1 – “Vamos John, levante-se”

-Vamos John, levante-se!

Foi com essa frase que iniciei aquele dez de setembro, quando tudo começou.

Eram sete horas e eu, já de rosto lavado, dentes escovados e trajando meu paletó novo, estudava pela última vez aquelas palavras com as quais conseguiria o tão esperado emprego de contador particular da família Bedrock.

Às oito em ponto estávamos eu e mais meia dúzia de pretendentes ao cargo em frente ao portão do número 1253 da Acme Street. Pouco após minha chegada, uma pessoa que depois vim a saber ser o mordomo da mansão veio abrir-nos o portão e conduzir-nos ao local das entrevistas. A saleta onde esperávamos era um pequeno cubículo sem janelas, e por sinal muito estranhamente decorada, de onde sobressaíam desde arranjos de flores exóticas e uma pequena planta carnívora até vasos chineses da antiga dinastia Ming.

Já estava esperando mais de duas horas quando o mordomo anunciou:

- Sir John Camelot da Silva, por favor. Levantei-me, enchi o peito e, com toda coragem, dirigi-me ao escritório, onde a senhora Bedrock esperava.

Capítulo 2 – A entrevista

- Silva, John da Silva, certo?

- Eu mesmo. John Camelot da Silva a seu dispor senhora.

- Bom, vamos direto ao assunto: por que você quer o emprego?

- Bem, como acabei de me formar há pouco, estou procurando um emprego para sustentar a mim e à minha mãe, que está doente e não pode trabalhar.

- E quais são suas expectativas aqui?

- Para ser sincero, eu espero um bom salário em troca de um bom trabalho, o qual tenho certeza que posso oferecer.

- Tudo bem. Já chega. Preencha esta ficha de identificação e responda a essas questões técnicas sobre o seu trabalho. Não se preocupe: são apenas algumas perguntas referentes a aspectos básicos de contabilidade. Faça isso na sala ao lado e entregue ao mordomo que lhe dará mais instruções depois de terminado o “teste”.

- Muito obrigado, senhora. Até logo e um bom dia.

- Bom dia.

Capítulo 3 – “Mamãe!”

Cheguei em casa às dez e meia, feliz e confiante, com muita esperança de ter conseguido o emprego. Quando entrei no quarto de mamãe ela estava estatelada no chão, em meio a um ataque de convulsões. Chamei uma ambulância mas quando ela chegou era tarde: dona Genoveva, a quitandeira da rua do Conde, já havia morrido, levando consigo toda uma vida de sofrimentos e desgostos, causados pela horrível morte do marido e pela fuga de seu primogênito, Peter, do qual nunca mais teve notícias. E agora, o que seria de mim sem minha mãe?

Capítulo 4 – O dia seguinte

Na manhã seguinte à do capítulo um, acordei com esperança de que tudo não havia passado de um sonho. Logo dei-me conta de que não havia, pois não fui acordado, pela primeira vez em vinte e seis anos, por alguém que não fosse mamãe, e sim pela campainha da porta. Fui ver quem era e, para minha surpresa, era Theodore Charles, o mordomo da senhora Bedrock. Convidei-o para entrar.

- Bom dia Charles, o que o traz aqui?

- Caro senhor Silva, vim lhe confirmar que o emprego é seu.

- O quê? A senhora Bedrock me escolheu?

- Exatamente, senhor..., mas existem algumas condições.

- Condições? Que condições?

- Bem, o senhor deverá morar na mansão, não poderá ter animais e folga somente às quartas e sábados.

- Não tem problema quanto a isso. E quando começo?

- Amanhã mesmo. Apresente-se à mansão às oito em ponto com todos seus bens dos quais precisará para seu serviço e também suas roupas e demais pertences.

- Tudo bem. Estarei lá. Bom dia e muito obrigado, Charles.

- Bom dia, senhor Silva.

Depois da saída do mordomo fiquei pensando na vida: no dia anterior, um acontecimento tão triste e hoje uma notícia tão boa. Então tratei de arrumar meus pertences e dar um jeito de alugar a casa, já que não precisaria mais dela por um bom tempo...

Capítulo 5 – A mansão dos Bedrock

Às oito em ponto estava eu em frente do número 1253 da Acme Street. Fui recebido por Alfredo, o jardineiro, que abriu o portão para mim.

O jardim era enorme e imaginei o trabalho que dava para cuidá-lo com apenas um jardineiro. Nos fundos da casa havia um grande lago e no lado direito um pequeno bosque de pinheiros que dava para uma pequena aldeia chamada Kingparker, a quinhentos metros dali. No lado esquerdo ficava um bonito pomar e uma pequena horta, muito comum nessas mansões do interior da Inglaterra.

A casa em si era, como já havia dito anteriormente, muito estranhamente decorada, ostentando quadros, tapetes, móveis e vasos que nào tinham nada a ver com o resto da decoração. Charles, o mordomo, mostrou-me meu quarto e o escritório onde trabalharia. Logo depois, foi apresentar-me aos demais empregados da casa: Joana, a cozinheira, Joaquim, o copeiro, Jussara, a arrumadeira e Jebediah, o motorista.

Além da senhora Bedrock, ainda moravam na casa seus dois filhos, Lemus e Ingrid e seu irmão paraplégico Nestor, muito simpático e extrovertido, apesar do seu problema.

Encontrei finalmente a senhora Bedrock, que levou-me até a biblioteca para explicar-me detalhadamente qual seriam os meus afazeres naquela casa. {11/09/2001 – Terça-feira – 15:16}

{16/09/2001 – Domingo – 11:03}

Mais um Domingo. Gelado. Mãos frias, coração quente. Meu computador lá em Porto Alegre está baixando várias músicas em MP3 e um filme em DivX. Grande Pentium 4 de 1.7 GHz e acesso à Internet via banda larga/ADSL. Eu estou em Dois Irmãos, em um Posto de Saúde. Daqui a pouco vou almoçar. Ontem estava de plantão no Posto Central de Novo Hamburgo. Um caos. Hoje à noite estarei no Centro Clínico, em Novo Hamburgo. Nestes três plantões, ganharei R$ 585,00 (mais ou menos US$ 217,00).

Ainda em greve, tanto na UFRGS quanto na residência médica. Amanhã iremos para a Assembléia Legislativa protestar.

Amanhã a The Brains começa a gravar seu CD, lá no Brothers, das 20:00 às 24:00.

Agora vou parar de escrever. Talvez hoje à noite Jorge e eu começaremos a fazer o roteiro do filme “15 Horas”. Tchau. {16/09/2001 – Domingo – 11:22}

{20/09/2001 – Quinta-feira – 01:09}

Hoje é dia do gaúcho! Hoje a Carolina vem me visitar, assim como minha tia Solange! (((...)))

Agora estou aqui no segundo andar, no meu escritório, escutando Frank Jorge, que baixei do AudioGalaxy, no meu novo supercomputador com ADSL e tudo o mais. Uma maravilha, não canso de dizer. É a primeira coisa que escrevo no “ Escrever por Escrever” com ele. Bem, agora que tenho essa opção de escutar música enquanto escrevo, vou colocar ocasionalmente a trilha sonora que me embala. Agora há pouco começou com Frank Jorge tocando “Ta na Boa”; agora está tocando “ Esperando a Saudade”, do mesmo, no meu WinAmp com dezenas de skins alternantes...

Tenho que estudar. Ainda não posso dizer que comecei...

A The Brains começou a gravar na segunda-feira. Bateria e baixo estão prontos. Na terça eu gravo as guitarras e a voz fica para a outra semana. Vamos ver como ficará o resultado final.

Deixe-me parar por aqui hoje. Tantas coisas acontecendo e eu deixando de registrar... Mas não é por nada... Tenho tempo para registrar tudo que ainda vai me acontecer e os estímulos e conclusões que receber e tirar, respectivamente... {20/09/2001 – Quinta-feira – 01:22}

{02/10/2001 – Terça-feira – 19:56}

Já faz um tempão que não escrevo. Muitas coisas, pra variar, aconteceram...

Não teve mais encontro do Pigmeu Moral, gravei as guitarras das músicas da The Brains, iniciamos a gravar a voz, na quinta terminamos vozes e faremos a mixagem. Depois só falta a parte de design gráfico do CD e a “copiação”! Fui para Agudo, no aníver da Carol. Tava bem bom. Ela está, ultimamente, um tesão, digo, com muito tesão, e acaba por me deixar assim também! (((...)))

Ontem peguei meu aparelho de DVD para computador. Acho que mais tarde vou instalá-lo. Quem sabe agora? Fui! {02/10/2001 – Terça-feira – 20:03}

{29/10/2001 – Segunda-feira – 20:58}

Que saudades de escrever por escrever! Estou estressado! Fim de ano, provas de residência chegando. Vou fazer no Clínicas, no Conceição e no Rio de Janeiro (se bem que no Rio acho que nem vou fazer!). Fora isso, a função com a gravação e produção do CD da The Brains me deixa atormentado. O CD está gravado, falta terminar de fazer a capa e levar para a gráfica para imprimir. Estou com meu computador novo funcionando às mil maravilhas, baixando mais de 2,5GB de MP3 e DivX por dia, pirateando de leve algumas coisinhas (que a receita não me ouça e não me leia!)... No mais, vou começar a dar aula de guitarra para uns garotos, filhos de uma médica que conheci em um plantão na ULBRA de Novo Hamburgo. Mais isso: esse mês terei 12 plantões... Bem no mês das provas!!!! Ops! Ligou a Cris! Tenho que desligar... Depois escrevo mais! {29/10/2001 – Segunda-feira – 21:04}

{05/11/2001 – Segunda-feira – 18:23}

Tem algumas coisas que tenho que escrever para não esquecer de fazer depois. A primeira delas é a de organizar a “Sociedade ou Comunidade Anarquista Gaúcha” e passar a divulgar a idéia da Anarquia por aí. Comprei alguns Escritos Anarquistas na Feira do Livro. Tenho que me inteirar mais do assunto, da história da Anarquia neste e planeta e daí por diante...

A segunda coisa que não posso me esquecer é que dia 02 de novembro decidi começar uma coleção de girafas. A Girafa número 1 é uma girafinha de borracha que tenho em cima da minha escrivaninha. Agora vou começar a juntar girafas de plástico, borracha, pelúcia, madeira, metal, pedra e tudo que é tipo que eu encontrar...

Esse fim-de-semana fiz 48 horas de plantões que me renderam R$ 1.078,00 (cerca de US$ 400,00). A Carol está aqui! Bem bom! Hoje vamos na Lancheria do Parque. Também comprei na feira do Livro o livro de poesias do Frank Jorge, 3 livros de poesias do Glauco Mattoso, obras da série “Escritos Anarquistas” e o livro Gauleses irredutíveis, sobre a história do rock gaúcho nos últimos 40 anos... Deu... {05/11/2001 – Segunda-feira – 18:33}

(continua na próxima semana...)

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Diálogos da noite de PoA
Pedro Schestatsky


- Vamos fazer uma revolução? - pergunta a gatinha hiperpolitizada
- Só - responde o Betão, com os olhinhos vermelhos
- Por uma sociedade mais humana e igualitária!
- Normal
- Quando e como vamos começar?
- Agora. Pega no béck, companheiro!

____________________________________________________________

- Solange chega eufórica:
- Mari, nem sabe!
- O quê - super curiosa
- Um cara veio falar comigo, um gato. Superinteligente, falou sobre "a
transição da cultura do jovem ocidental na virada do século", da sua viagem
para o Peru, da sua coleção de discos do "The Doors" e do último filme do
“FelinO”...
- Peraí: Peru, Doors e “FelinO”?
- É, sua boba, o diretor francês. Ele também disse que esteve na França!
Mari franze a testa, intrigada. Solange continua:
-...e o nome dele é...
- José Carlos. Acertei?
- É isso! Mas, mas como?
- Chuta.

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Quem me governa
Eduardo Dutra Fagundes Macedo

Imagine uma constante disputa pelo poder entre conservadores e radicais, ambos extremistas. Golpes de estado, seqüestros, ditaduras. Imagine agora que o país onde isso ocorre não é Cuba, não é a União Soviética e essa cena pertence a esse século. (Mas que país é esse?) Além disso, esse país é muito próximo de você. Aliás, esse país é você. E os políticos são as emoções, os desejos.

Algumas pessoas têm dificuldade de estabelecer parâmetros para a sua atuação na vida e se debatem com esses “políticos” freqüentemente. Transcrevo parte do discurso de posse dos conservadores, que adentraram o meu corpo:

“ Eu prometo que, todos os dias, acordarei às sete e quinze da manhã, farei uma caminhada de uma hora, tomarei meu café, escovarei os dentes após as refeições. Prometo também não realizar gastos supérfluos. Manter-me-ei magro, lerei todos os livros clássicos (mesmo que ache muito chato), casarei na igreja e no papel, formar-me-ei no menor tempo exigido, pagarei os impostos em dia, não comerei carne vermelha...”

Um dia, os radicais deram um golpe de estado. Leia trechos dos panfletos distribuídos na época:

“Repelimos qualquer tentativa de regrar as atitudes do Corpo! Abaixo as vestimentas, caso estiver quente! Abaixo o dinheiro! Dormir, só na hora que houver sono! Trabalho, Dinheiro, Leis são ilusões coletivas que só trazem infelicidade! Poligamia é saudável – os animais não são polígamos? os índios não eram?

“Solte seus animais de estimação na rua! Compre o máximo que puder e não pague! Fique pelado no meio de uma avenida movimentada e proteste contra os veículos automotores poluidores! Discuta a função da residência, da propriedade privada em geral! Não deixe a ditadura tornar a vida monótona!”

Há, após esses governos, conseqüências trágicas: no modo conservador, os ideais sufocam quando não são alcançados, levando a pessoa a ficar decepcionada e a procurar outro modo de governo. Na ânsia de melhorar, acaba ficando uma ilha isolada do mundo (desculpe a comparação, Fidel), com ideais que as outras pessoas ou não entendem ou não estão preparadas para aceitar.

Contudo, existem movimentos que querem amenizar esses conflitos entre conservadores e radicais. É um tipo de Terceira Via emocional. E é imprescindível que se busque auxílio de um cientista político, ou melhor, de um psicólogo.

Infelizmente, não chegaremos a eleger nossos governantes aos dezesseis anos. Ainda teremos que votar no Collor, passarmos por algumas ditaduras militares, até conseguirmos chegar no equilíbrio – se é que ele existe.

 

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...
Juliana Robin

My whishes are lost
In a sea of sadness.
The big shadow of sorrow
Stands before me..
And catch all my fellings
All my hope in live..
My tears so dirty that blind my eyes..
Love..
Hang me dearly..
I was born just to love
I was born a slave of heart.
I was born just to love you
I was born just to be your slave...

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Ombudsman
Maurício Silveira dos Santos

Meu amigo Pé-de-Alface

Caros leitores, admito que senti uma tremenda vontade de deixar de ser ombudsman para poder entrevistar um pé-de-alface. Há tantas possibilidades... entrevistar um pé-de-alface rock-star, entrevistar um pé de alface prestes a ser devorado já apertadinho no sanduíche, entrevistar um pé-de-alface orgânico militante ecológico e devorá-lo depois da entrevista num gorduroso Bauru ao prato. Não é permitido ao ombudsman, contudo, participar do (louvado seja!) Simplicíssimo com textos que não a sua religiosa coluna. Eu nem gostaria de ganhar o CD da Men at Work, sempre considerei esta banda um saco, insípida, inodora e à toa, gostaria mesmo é de entrevistar um pé-de-alface.

Pensando nisso também me veio em mente quem eu não gostaria de entrevistar. Eu não gostaria de entrevistar a menina no espelho. Ela é muito confusa, tristonha, tem um complexo de Clarice Lispector e um sério problema de identidade. Se eu a entrevistasse poderia rapidamente perder minha sanidade, que já anda por um fio, e acabar dando trela para o espelho do banheiro pela manhã para discutir com ele os fundamentos de minha existência miserável. Eu só ganharia com isso, no mínimo, um atraso para o trabalho e algumas palavras pouco carinhosas do meu chefe e, no máximo, um passaporte para o país de Alice de onde não sei se sairia tão cedo até porque lá poderia gostar de fumar aquele cachimbo esssperrto com a lagarta piradona.

“Se olho para o abismo ele olha de volta”. Este é o último verso do poema do Rafael T., uma beleza, quando pensei lá pelo meio da leitura que o Rafael ia se perder no emaranhado de suas próprias palavras e cair numa grudenta e inútil ontologia do desespero ele dá uma de nietzscheano e me sai com essa. O abismo está e sempre estará lá, pronto para olhá-lo nos olhos, mas o Rafael quer se desapegar dele e não ficar celebrando o que não lhe agradou ou não lhe agrada no mundo.

Não poderia deixar de registrar a primeira discordância com minha estimada colega de coluna, a “ombudswoman” (ombudsgirl ?) Letícia. Não acho realmente que o Daniel Rech tenha sido vulgar. Aliás, aconselho o Daniel a ler Glauco Mattoso para continuar trilhando o caminho da “literatura de entranhas” se este for o seu desejo, e também sugiro a mesma leitura a minha “partner” e as meninas possuídas por inclementes TPM’s e acompanhadas por anti-príncipes encantados, bebedores de cerveja arredondados e falcatruas em geral.

Por hoje é isso. Deixo-os agora e em ótima companhia:

SONETO ELITISTA

Poetas têm mania de grandeza.

Se julgam portadores do intelecto.

Quem não lhes puxa o saco é analfabeto.

Zarolhos reis da língua portuguesa!

Parecem patrulheiros da nobreza,

Zelosos de seu vão poder de veto.

Mas eu, malditamente, sou correto

E faço uma limpeza na limpeza.

A sofisticação que vá pros quintos!

Estou farto de tanto salto alto,

E apelo pelos mais baixos instintos!

Que digam que de bom gosto sou falto!

Prefiro lamber botas, pés e pintos,

E nem sequer as unhas lhes esmalto!

Glauco Mattoso

 

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Desafio Simplex

Incrível ! ! ! Inexplicável ! ! ! Interessante ! ! !

Não houve ganhador do Desafio Simplex esta semana!

Pelo jeito, ninguém nunca entrevistou um pé de alface! Por esse motivo, o prêmio ficou acumulado. Na próxima semana, continua valendo o mesmo Desafio: crie uma entrevista fictícia com um pé de alface. A entrevista mais original ganha, além do CD The Works, do Men At Work, o CD Joyride, do Roxette.

A promoção que envolve o CD da banda Los Beselhos, doada pela própria ao Simplicíssimo fica para a próxima semana.

Se você ainda não entrevistou uma alface, corra: você tem até terça-feira dia 27 de janeiro às 18:00!!!

... continuem participando e divulgando o Desafio Simplex!
O próximo desafio já está aí ...


Esse CD pode ser seu!
Desafio Simplex!

Clique aqui para saber mais!!!


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

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