19/02/2004
- Edição número
63
Incertezas são penugens caindo
ao léo...
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Editorial
Este é a
edição da incerteza.
Incerteza quântica,
incerteza do jogo, incerteza da ação
humana, incerteza plena de preconceitos, incerteza
dúbia, incerteza futura, incerteza.
Momentos na vida
existem em que não somos donos dos próximos
passos. Momentos tais, sempre grandes angústias
geram, grandes pesares são em potencial.
Tal drama não
é injustificado. Falo aqui da vida do Simplicíssimo,
de seu fôlego e de sua continuidade.
Em virtude de algumas
condutas que incluem mudança temporária
de residência, a Edição do
Simplicíssimo ficará certamente
prejudicada e podem ocorrer atrasos imprevisíveis
e até a suspensão temporária
das publicações nas próximas
semanas.
Mas, ei! Não
façam como eu: não se desesperem!
Já estou fazendo isso por todo mundo! Depois
de um período de adaptação,
certamente tudo voltará ao normal e seguiremos
com o barco a todo vapor! Não há
santo por mais forte que seja que derruba o Simplicíssimo!
Então ficamos
assim combinados: vocês amigos Simplileitores
não ficam assustados com a irregularidade
na atualização do Simplicíssimo
e nós aqui tentamos regularizar a situação
o quanto antes!
Enquanto
isso, mantenham contato! Gritem que lhes ouvimos!
Existem várias formas de comunicação,
que podem ser exploradas no menu da esquerda no
site. Desbravem, leiam edições antigas,
vão até a página de seu autor
favorito e vasculhem os textos dele. Inspirem-se,
escrevam e encham nossa caixa de entrada de textos
para que fiquemos loucos e tenhamos que seguir
pedindo desculpas pela demora nas publicações...
Como já escrevi
em outro editorial, citando Gilles Deleuze: “Não
sofremos de falta de comunicação,
mas ao contrário, sofremos com todas as
forças que nos obrigam a nos exprimir quando
não temos grande coisa a dizer”.
Valeu
Deleuzinho! Este é o Simplicíssimo
um laboratório onde se misturam em uma
panela de expressão tanto o resultado das
forças sociais e culturais que nos estimulam
a pensar, agir e escrever o que pensamos, agimos
e escrevemos quanto os subversivos que vivem de
explosões de espírito ou já
souberam se desvencilhar em parte destas “forças
poderosas” que nos “obrigam”
exprimir algo que não mereceria ser dito.
Aqui, abraçamos todos. E fodam-se os pseudo-intelectuais
de plantão...
Até
breve (se tudo correr bem).
Rafael
Luiz Reinehr
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A
casa e o rio
Nora
Borges
Vivi
quase toda a minha vida no Poço da Panela.Ao
lado do grande rio, o Capibaribe.
Nossa casa havia sido o resultado de muitos anos
de sonho de minha mãe.
E começou a existir de verdade num dia
em que meu pai chegou com um papel grande e amarelado
e começou a desenhá-la...
Era um bom e jovem arquiteto e havia comprado
um terreno, num beco sem nome e sem saída,
no bairro de Casa Forte.Mais especificamente,
próximo à um sitio de vegetação
cerrada e árvores centenárias, de
onde se podia ouvir os sinos de uma igreja pequena
e branca, ou os ruídos de um barco de madeira
que fazia a travessia dos pobres para a outra
margem.
Ao longo da velha Estrada Real do Poço
perfilavam-se alguns casarões antigos,
de herdeiros da época em que tudo aquilo
era um engenho de cana-de-açúcar.
No meio, imponente, o antigo casarão sede
do engenho. Mal assombrado e tenebroso a qualquer
hora do dia ou da noite... São tantas as
histórias dentro das histórias!
Do nosso lado, mato... muito mato e os braços
largos do Rio.
Como se desenha um sonho? Não foi fácil.Do
papel para as primeiras pedras dois anos se passaram.
Um sonho não tem preço, mas as pedras
têm. E eram muito caras para a realidade
financeira da família, na época.Hoje
sei que a vida com um sonho é sempre mais
próspera...
Minha mãe economizava até em palitos
de fósforo, o que deixou uma marca em seu
comportamento pelo resto de sua vida.Nunca jogava
nada fora...
Acendia um palito já usado na boca acesa
do fogão e o guardava outra vez, até
que não era mais possível segurá-lo
entre os dedos. Lavava, passava, varria, cozinhava,
usava um vestido até que se rasgasse...
Mas, finalmente um dia, fomos ver "a construção"
Minha mãe e suas mudas de jasmins e roseiras.
Meu pai e suas folhas de papel amarelado.Foi um
domingo de festa para nós. Três crianças,
quatro pedreiros e o grande sorriso de meus pais.Que
mais era necessário? Ah, sim... uma panela
grande de barro e todos os ingredientes de uma
feijoada.
Trabalhamos todos naquele dia, carregando areia,
levantando muros, plantando, pulando de monte
em monte de areia e barro...
Escolhemos o lugar onde seriam plantadas as árvores,
que depois seriam minhas amigas por toda a vida.Abacateiros,
coqueiros, jambeiros, goiabeiras... Foi esse o
nosso programa por muitos domingos mais, tantos
que perdi a conta.
Quase quatro anos depois, "a construção"
ainda era construção...
Suas paredes já se revestiam de lambris
de madeira escura, o piso de parquet negro e marfim,
as flores já eram uma realidade...
E faltavam só 5 meses para a grande inauguração...
Passaríamos o Natal na casa.
Meu pai comprou um piano.Chegou um final de tarde
quase sem pisar no chão...
Não era um piano negro e de cauda como
o da casa de meu avô. Era pequeno e clarinho,
mas era um PIANO!
Comecei a estudar com uma professora que tocava
na igreja da praça. Meu pai tocava todas
as noites e eu bailava no terraço de cerâmica
encerado, de meias soquetes, para deslizar melhor,
para o desespero de minha mãe quando pensava
em como ficariam depois do baile. Três dias
, no mínimo, de água sanitária.
Sem falar dos furos nos calcanhares das pobres
meias.
Nunca tive muito jeito de bailarina e caía
cada vez que inventava rodar como elas, mas era
uma possível-futura-pianista...
Um noite ele veio. O rio .
Foi sua primeira incursão pelas ruas de
Casa Forte. Invadiu quase todas as casas, manchou,
molhou, enlameou tudo, até a altura de
meio metro.
Mas na nossa ele foi mais cruel. Fez saltar todo
o parquet do piso, entortou os lambris de madeira
do escritório... e levou o piano. Porque
o fez bailar sobre a água, descolou cada
tecla de marfim, arrepiou a madeira,acabou com
meu sonho de artista, de famosa pianista E eu
nunca seria uma bailarina...
Meu pai chorou...e nunca mais falou do assunto.
Queria esquecer tamanha tragédia ou talvez,
seu silêncio dissesse que nunca a esqueceria...
Ao final do ano nos mudamos para a casa, que nunca,
jamais deixou de ser uma obra em construção.
Pois é, por mais que meu pai fizesse planos
e projetos de decoração e mobiliário,
e fosse, aos poucos comprando luminárias
e estofados novos, a briga entre ele e o rio foi
ficando cada vez mais acirrada...
Por dez anos o Capibaribe, que lambia nosso muro
nas épocas de verão, e nos dava
um toque de Tarzan às aventuras de criança,
nas épocas de inverno ameaçava subir,
inundava o jardim... E por quatro ou cinco vezes
elevou-se, cada vez mais alto, até que
um dia cobriu a casa até deixar apenas
o reservatório de água de fora.
Como um bote abandonado e fantasmagórico,
boiando há mais de três metros acima
do jardim, imerso na lama...
A cada subida, meu pai o desafiava com novas estratégias
de esconder seus tesouros : os livros e os discos.
Subia-os às prateleiras mais altas da estante,
e até mesmo nos ocos do telhado do gabinete.
Eram muitos os livros de meu pai.Uma biblioteca
de teto ao chão , repleta de novelas, romances,dicionários
e enciclopédias. Lembro das obras completas
de Shakespeare, Pessoa, Neruda, Bandeira, Eça
de Queirós .O melhores de Rubens Braga,
Fernando Sabino, João Cabral, Guimarães
Rosa, Machado de Assis, Edgar Alan Poe, Monteiro
Lobato, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo,
Jorge Amado, Garcia Marquez, entre tantos que
nem recordo os nomes...
De coleções completas sobre arte
em pintura, arquitetura, mitologia à séries
de ficção científica e suspense
policial. Os livros e a música eram suas
paixões e ele costumava freqüentar
livrarias e sebos semanalmente.
Mas... na pressa de salvar a família de
morrer afogada, eles perdiam em prioridade. Ficavam
na casa, escondidos em alguma altura, onde meu
pai, com esperança ainda não vencida,
pensava que não seriam alcançados.
Ledo engano.
O rio gostava de ler... e sempre subia um pouco
mais, até encontrá-los.
E escutava todos os discos, derretia as capas,
cobria os sulcos de lama escorregadia...
Dos livros só levava as letras, as frases...
Deixava o papel grudado e inchado como um cadáver.
Como de pirraça, para a gente saber o que
tinha perdido. Para a gente saber que ele era
maior...
Ele vinha e se demorava lendo...
Nossa casa era a primeira atingida pelas suas
ganas culturais e a última a que nos permitia
voltar. Assim, quase não salvávamos
nada do que ele deixava...
A lama negra e gosmenta era grossa e fedorenta
como petróleo e havia ficado por tempo
demais, entranhada nas paredes e nos móveis.
Impossível salvar algo...
Então, via meu pai chorar... Apanhando,
de pá e carro-de-mão, a papa de
livros e discos que o rio, sem dó, espalhava
pela casa inteira...
Muito poucos era possível salvar...
Lavávamos os discos com água e sabão
Nús de suas capas coloridas...
Coleções inteiras de Bach e Beethoven...
As óperas prediletas de meu pai... Os jazz
e os blues...As grandes orquestras...
Um raiva impotente... Uma tristeza profunda se
instalava na casa e em nossos corações
por meses seguidos.
Alguns discos era possível comprar outra
vez , mas a maioria estava perdida para sempre.Selos
esgotados, fora de catálogo...
Ainda guardo uns livros sujos de lama seca, que
ele não levou as frases...
As poesias de Neruda, a solidão de Garcia
Marquez, a pedra do reino de Suassuna... Talvez
já os tivesse lido das outras vezes, e
só lambeu as capas, não os abriu.
Com um pouco de sol, deu para salvar...
Na última batalha entre ele e meu pai,
tivemos que viver por seis meses em um apartamento
emprestado, pois foi nela que ele descobriu o
esconderijo do telhado...
Derrubou o teto... e leu tudo.
Só voltamos para casa no ano seguinte.
E meu pai estava vencido. Não quis mais
brigar... E também parou de sonhar...
Morreu dois anos depois. Tinha 50 anos.
Tentamos por o seu nome no beco sem saída...
Mas ele não era suficientemente importante
para lutar com outro morto, o pároco da
pequena igreja branca. Alguns anos depois, construíram
barreiras no rio e nosso antigo campo de batalha
valorizou-se. Venderam lotes e lotes para novos
habitantes do romântico bairro do Poço
da Panela, que foi se transformando num rincão
da nova elite da cidade. Mansões modernas
se espalharam por toda parte, e até edifícios,
contrariando leis de proteção ao
meio ambiente. O casarão mal assombrado
é agora um museu. As ruas estão
calçadas e diante de nosso antigo jardim
há uma pequena praça triste e mal
cuidada, árida e sem razão de ser.Três
bancos de concreto, dois ou três arbustos
que tentam sobreviver ao abandono...
Não há mais cipós nem as
árvores frondosas onde nos pendurávamos
em nossas fantasias de Reino das Selvas. A umidade
diminuiu muito com as novas construções...
E a nossa casa morreu...
Não caiu, nem foi reformada. Está
lá ainda, mas é só uma sombra
esmaecida do que foi antes...
Nem jasmins, nem roseiras,nem cheiro de mato verde.
Metade do seu antigo jardim é cimentado...
Nem cocos, nem goiabas, nem jambos, nem araçás...
Nem uma música no ar, nem o barulho dos
sapos e grilos da beira do rio...
Ele também não está mais
lá...
Mudaram o seu curso. E muitas casas estão
construídas onde antes eram seus braços...
Também ele não tinha mais nada a
perder. Seu parceiro de briga não lhe comprava
mais os livros, nem lhe tocava La Boheme ou Bolero
de Ravel às alturas, nas madrugadas enevoadas
e úmidas do Poço...
No beco, ainda sem saída, há agora
um nome, o do padre da paróquia. E, paradoxalmente,
meu pai mudou-se, depois de morto, para a pequenina
igreja...E lá, o rio ainda lambe as paredes
de seus muros...
Estão juntos de novo. E posso sentir, mais
que ouvir, entre as badaladas dos velhos sinos
de ferro forjado, suas queixas mútuas de
amigos rabugentos... antigos e eternos companheiros
de lutas e sonhos...
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Carta
para Marcel, não nos falaremos mais*
Daniela Castilho
Marcel, Marcel! Que
crise existencial se apoderou de você? Não
compreendo, e como dizia Albert, é preciso
compreender. São tantos anos de amizade...
ou não são? Marcel, agora você
conseguiu - novamente. Eu fiquei perturbada, os
alicerces do meu mundinho particular foram abalados..
não somos amigos, muito amigos? Eu considero
que sim, e agora você plantou uma daquelas
sementes de dúvida que crescem sozinhas,
nem é preciso aguar... às vezes
eu acredito que você faz isso por esporte,
apenas para verificar a minha reação...
mas Marcel, para que fazer isso, afinal? É
tão inútil, é exercício
de vaidade. Você mencionou que mandou uma
mensagem semelhante à Camile - com a diferença
de que foi mais curta? Como pode ter sido mais
curta? Você copiou seu próprio texto
para si mesmo? Você leu e releu, como normalmente
faz, para verificar erros? Vou copiá-lo
para você, é tão curto que
nem irá cansar a minha mão:
Cara amiga, não
vou escrever mais, não fale mais comigo.
Se você me
escrever, vou devolver sua carta ao carteiro marcando
como endereço
desconhecido, falecido ou não existente.
Não nos falaremos mais.
Marcel, de todas
as piadas do seu humor estranho, essa foi a mais
absurda! Você está se correspondendo
com Franz? Sinto um cheiro de
idéias do Franz nessa sua mensagem, aquele
patife! Ele e aquela mania de pregar peças
nas pessoas, como a história da barata
- ah, não quero nem relembrar, o susto
que a mãe dele levou! E ao final, Franz
perdeu o
emprego... mas não quero falar mais sobre
essa história.
A pobre Camile, quando
ler sua mensagem, ficará de coração
partido,
outra vez. Você não deveria fazer
essas piadas, Marcel, são de mau
gosto. Quantas cartas vocês dois já
trocaram? Eu nem consigo calcular,
são tantos anos de correspondência...
Camile merece mais, ela leva todas as suas cartas
a sério. Você deveria levar ela mais
a sério. A última vez que você
fez algo assim, aquela carta com texto suicida,
fez com que Camile telefonasse - telefonasse,
veja bem! - para todos que constavam no caderninho
dela, e você sabe muito bem que para ela,
telefonar e ficar pedindo para quem atende do
outro lado para falar com fulano ou sicrano é
muito difícil, ela gagueja, fica vermelha
de vergonha e depois telefona aqui para mim, em
lágrimas.
Marcel, isso é
crueldade. Você deveria enviar um telegrama
para ela
imediatamente pedindo desculpas, prometendo que
não vai fazer isso nunca mais, porque eu
te conheço bem, e sei que daqui a uma ou
duas semanas, esse seu envelope azul tão
típico vai chegar outra vez, com uma carta
de vinte páginas, no mínimo, com
um texto no tom de "nada aconteceu"
e todas aquelas reflexões que você
adora escrever - e que, devo confessar, exigem
paciência de leitura e nem sempre fazem
muito sentido - e no momento que chegar uma carta
sua para mim, Camile provavelmente receberá
uma também, porque você é
metódico e escreve aos litros, envelopa
toda a sua correspondência e envia de uma
vez - você detesta ter que ir ao correio,
apesar de gostar dos selos, falar com a atendente
deixa você enjoado, eu sei. Sem mudar muito
de assunto, aquela moça ainda tem aquela
paixão secreta por você? É
surpreendente, sabia? Não sei o que ela
viu em você, mas você não escreve
para ela, e vai ver é isso, porque no momento
que a atendente do correio começasse a
receber essas suas cartas com essa sua letrinha
miúda de carrapato, esses textos do apocalipse
que você envia em intervalos regulares,
eu tenho certeza absoluta que ela se desencantaria
totalmente, porque de poeta, você só
tem mesmo o ar enfastiado. E nem pense em me dizer
que é porque a moça do correio é
uma pessoa muito plana, porque eu já te
disse milhares de vezes que uma coisa é
uma coisa, e a outra coisa é outra coisa
- você precisa parar de julgar as pessoas
rapidamente baseado no nada... e aproveite e pare
de escrever filosofia.
Marcel,
mande o telegrama para Camile. Pare de assustar
as pessoas dessa maneira. Um dia, Marcel, você
ainda vai conseguir fazer com que eu acredite
nessas mensagens deprimentes e eu vou mesmo parar
de escrever para você.
sua amiga, um pouco
zangada
Inspirado
nesse fragmento de texto, de Walnice Nogueira
Galvão:
”Marcel Proust escreveu 21 volumes de cartas.
Você as lê e percebe que ele as escrevia
para manter as pessoas à distância.
Ele não queria se aproximar.”
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Nua
& Crua
Cristiane Martins
Anjo Negro
Ninguém
saberia da história daquela menina se não
fosse eu na minha fria covardia a observá-la
pela janela. Todas as manhãs ela arrastava-se
rua acima, olhos fundos e tristes, como se carregasse
um fardo pesado demais para ela...
Tantas
vezes vi lágrimas em seus olhos redondos
naqueles poucos instantes que ela levava para
atravessar minha janela e eu estava lá,
eu sabia de tudo... eu era covarde demais...
Seus
cabelos pretos e lisos que balançavam em
uma melodia melancólica sobre seus ombros,
seus olhos tristes e solitários, seus passos
lentos e sem vontade expressavam toda a sua solidão...
Eram
trinta, talvez quarenta segundos por dia que eu
tinha para ajudá-la mas nunca o fiz ...
eu sabia onde ela trabalhava, mas nunca a procurei,
eu estava sempre ocupado demais com minhas coisas,
sempre envolvido demais em meus projetos inacabados
que nunca me trouxeram nenhuma felicidade... e
hoje me questiono se minha felicidade não
estaria nos olhos daquela menina...
Menina índia,
anjo dos céus, lá vinha minha pérola
negra avançando sem
vontade em direção a lugar algum,
eu poderia ter gritado, mas talvez me
faltasse a voz, eu poderia ter pulado se não
morasse no quarto andar ...
Não... São tudo desculpas para justificar
a minha covardia, o meu medo de interceptá-la...
Houve um dia em que
ela olhou em direção a minha janela,
seu olhos
visivelmente marejados de lágrimas, fitou-me
por alguns instantes enquanto que meu coração
batia como ensaio de escola de samba! Ela era
especial, eu sabia... eu sabia ... E, no entanto,
não a toquei ...
Em
dias chuvosos a sombrinha velha lhe cobria a cabeça,
escondendo seus belos traços, mas mesmo
a chuva não conseguia apagar seu brilho,
o brilho daqueles olhos negros de índia,
a fragilidade daquele coração solitário
e perturbado!!
Mas
houve um dia em que ela não passou. A rua
vazia. O ar estava quente. Esperei por alguns
minutos a mais, ansioso na minha janela, mas não...
Ela não apareceu... Onde estão meus
olhos negros? E passaram dois, três, muitos
dias e não mais vi meu anjo negro... minha
vida estava tão triste sem ela ...
Foi
então que o jornaleiro alheio a todo meu
sofrimento me trouxe a notícia, ele sabia
onde ela se encontrava! Não o jornaleiro,
mas o jornal, estampava uma grande reportagem
de uma menina linda que sucumbira ao seu medo
e no auge de seu desespero jogara-se do oitavo
andar do edifício onde morava solitária
e triste! Mordi meus lábios de raiva! Estava
com raiva de mim! Eu, esse ser covarde que não
se permitiu ousar! A morte fora seu destino, e
eu nem sequer tentei ajudar!
Hoje
subo essa rua aos passos lentos, faço o
mesmo trajeto que ela, paro e olho para a minha
janela onde por vezes parece que vejo ela linda
e alva, com seus longos cabelos negros refletida
no vidro da minha janela...
Meu
anjo negro agora não mais me pertence e
nem nunca pertenceu, voou sem ter asas, cruzou
a linha da morte... a única coisa que me
faz menos triste é o sentimento de que
lá porém ela não está
só. E se eu fecho os olhos, eu vejo ela,
com seus cabelos negros e olhos de diamante cercada
de milhares de outros anjos orando por nós
almas covardes que permaneceram na terra!
Mais
Cristiane Martins:
www.ansiosaeprematura.weblogger.terra.com.br
www..teoriadocaos.weblogger.com.br
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia
Das
últimas coisas que eu ainda me lembrava
quando voltei à casa, faziam parte a caneca
metálica - corroída pela ferrugem
e sempre depositada em cima do velho filtro d'água,
dos antigos, feitos em barro -, e o gato, velho
e gordo, com uma idade que eu não me atreveria
em momento algum a especular. Sobre ele, as lembranças
eram ainda mais vívidas do que sobre a
caneca, uma mera caneca. (O que há para
se lembrar dela, afinal? Me servia para beber
a água com gosto de terra, e só.)
O gato, lento, mas particularmente traiçoeiro,
me espreitava do seu canto, perto da porta por
onde entrava um filete de sol mesmo nos dias mais
frios, e parecia se arrastar com um sofrimento
infinito até perto de nós quando
eu ousava me aproximar de dona Ataíde.
Ela ria, dizendo que ele tinha ciúmes dela
e não permitia que ninguém chegasse
perto. Pegava o bichano no colo, depois de esperar
pacientemente que ele conseguisse romper a distância
ínfima, mas olímpica para sua quase
total falta de mobilidade, e o postava sobre seu
colo, cobrindo sua cabeça e suas orelhas
carcomidas com tantos afagos que o bicho ronronava
e fechava os olhos, entregue ao prazer. Ao fim
de tudo, eu nunca conseguia conversar pacientemente
com dona Ataíde, por que aquele bicho me
punha nervoso. Entre olhar a velha e cuidar os
olhos do gato que, quando abertos, me fitavam
profundamente, eu recitava uma meia dúzia
de frases e dizia que era hora e tratava de sair
logo dali. Ela sempre com seu fica mais um pouco,
tu nem tomou o café, mas eu nunca consegui
me acostumar com a presença daquele felino
balofo.
Dois verões
depois e outras visitas ainda mais esparsas que
eu sempre lhe reservava, dona Ataíde, já
completamente cega pela catarata ainda lamentava
e sempre acabava em choro ao lembrar o seu desespero
quando o vizinho encontrou o gato coberto por
uma pesada pedra.
Eu nunca lamentei.
[ Trecho do romance inexistente “As
pernas flácidas de dona Ataíde”,
a nunca ser lançado.]
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Escrever
por Escrever LIII (excertos)
Rafael Luiz Reinehr
{24/09/2002 –
Terça-feira – 21:49}
Mais de 2 meses sem
escrever, mas... ... o que é o tempo?
Escutando “Isotope” do Allan Holdsworth
e depois de tendo voltado de uma apresentação
gratuita no Salão de Atos da UFRGS que
comemorava os 21 anos do Projeto Unicultura e
que contou com a presença de nada mais
nada menos que Turíbio Santos, Guinga,
Ulisses Rocha, Borgettinho, Daniel Sá e
Yamandu Costa, tenho que dizer: humildade é
bom e eu gosto! Como são boas essas demonstrações
de “virtuosismo, sentimento e elegância”
para colocarmo-nos em nossos devidos lugares!
Uma idéia: Criar uma ONG chamada “Pobre
é bão!”, que ajuda pessoas
de muito baixa renda a se virar com pouco, dando
dicas sobre alimentação saudável,
orientando acesso à serviços de
saúde (ou quem sabe até centralizando
e coordenando encaminhamentos), ensinando-lhes
“encrusivi” como aproveitar-se dos
eventos culturais diários que Porto Alegre
apresenta, como por exemplo exposições,
filmes, mostra de curtas, lançamento de
livros, teatro e outros eventos que ocasionalmente
oferecem até um pequeno “coquetel”
para os participantes! Quem sabe vários
pontos espalhados pela cidade podem divulgar a
“Agenda” desses eventos maravilhosos
que só a classe média desfruta.
Tenho que estudar música! Agora escutando
Sérgio Reis – “Chuva fina no
meu pára-brisa”, a dor da solidão
aperta. Inscrevi a Carol no vestibular da UFRGS.
Ela está começando amanhã
o quarto semestre de Psicologia lá na Universidade
Federal de Santa Maria. São 5 anos. Nos
últimos meses estamos nos vendo direto,
quase todos os fins-de-semana (os últimos
5 todos) e está muito legal. Estamos nos
acertando (((...))) cada vez mais. Tem também
a possibilidade de ”transferência
voluntária” no ano que vem e também
uma transferência para a PUC onde ela poderia
fazer um estágio remunerado para ajudar
a pagar (Adriana Calcanhoto – “Palpite”).
Dia 30 ela está de aniversário e
eu não sei se vou poder ir para Agudo porque
tenho que ver pacientes no Hospital. Estava pensando
em pedir para a Andréia ver os pacientes
no Domingo para que eu possa ir para lá
no sábado à tarde. Ia ser bom, ainda
mais se não precisasse voltar no domingo
à noite.
Esses dias fizemos o Primeiro Sarau do Pigmeu
Moral no apartamento do Maurício, o Sumo
Pigmeu. Estava muito legal! Escutamos um som e
recitamos textos em prosa e poesia. Bem divertido.
(((...)))
(Chico Buarque - Geni e o Zepelim / Chuck Mangione
– Soft)
(((...)))
(Tião Carneiro e Pardinho – Couro
de Boi / The Platters – Crying in The Chapel)
(((...)))
(Scorpions – Rock You Like a Hurricane 2000)
(((...)))
(Presidents of the USA – We´re Not
Going to Make It / Gun´s N´Roses –
Sweet Child O´Mine / Falando com a Carol
/ Django Reinhardt – Gabriel´s Swing”
/ Baixando Ravi Shankar no Kazaa / Teixeirinha
– Gaúcho de Passo Fundo / Lós
Angeles Azules – Perdón)
Tenho várias
coisas para baixar na Internet. Uma delas é
Frank Zappa! (José Augusto - Agüenta
Coração)
“Eu te falei que eu não tinha medo,
amar não é nenhum brinquedo...”
(Pretenders – Don´t Get Me Wrong)
(((...)))
...o cronômetro da vida não pára...
(Já dizia Cazuza: " o tempo não
pára, não, não pára...)
{A propósito: esse pára é
ou não acentuado? Fiquei em dúvida
agora!!!!)
Muitas coisas aconteceram e continuam a acontecer...
Como uma vez, um estudante brasileiro visitando
Londres filosofou:
-"Things happen, and things change..."
As coisas acontecem... E mudam... Isso é
inevitável, inexorável, esdrúxulo,
insólito, estapafúrdio (esqueça
as quatro últimas palavras....)
Uma vez me apaixonei por uma garota pela sua boca,
ou melhor, por suas
palavras. Mais de uma vez isso me aconteceu...
Aí descobri que as palavras,
por mais sentido que tenham quando lidas e entendidas
em sua seqüência não
significam nada quando não estão
acompanhadas pela respectiva ação.
O amor
no papel é uma nuvem no céu: bonita
para admirar, mas só olhando e admirando
não conseguimos entender a nuvem em sua
completude. A nuvem, lá em cima,
mesmo que nunca a alcancemos, também pode
trazer a sombra, ao ocultar o Sol
e a chuva, para nos trazer a água e prover
nossas plantações do mais rico
alimento que elas podem precisar. Aí eu
vi que precisava ver a vida completa
e não em pedaços.
Agora estou bem mais forte. Não sei se
quero mais "confusões" e incertezas.
"Tempestades hormonais" que vêm
e vão, trazem felicidade e em seguida solidão.
Chorei bastante, como nuvem sobre a Amazônia.
Não tenho mais motivos.
(((...)))
É... São
coisas da vida..., Bem... Comecei e termino com
ele: Allan Holdsworth – Whiteline. Breve
falo do meu Consultório e planos para um
futuro breve! {24/09/2002 – Terça-feira
– 22:56}
...
(...e em 25 de outubro de 2002 surge o Simplicíssimo,
um novo espaço onde eu poderia expressar
minha vontade de escrever por escrever e ainda
dividir com pessoas afins esta mesma vontade.
Assim, acabou
o Escrever Por Escrever na sua versão “memórias
e apontamentos”, que depois começou
a ser publicada no SIMPLICÍSSIMO. É
engraçado que muitas pessoas não
observavam a data, e quando vinham falar comigo
me diziam: “Puxa! Eu coisa com o teu carro!”,
sendo que os eventos descritos são de 2000,
2001 e 2002! Nada era presente.
O presente
está assim: este Escrever Por Escrever
acabou e, do seu término, em 25/10/2002
surgia o Simplicíssimo. Atualmente, mantenho
um blógue chamado Escrever Por Escrever
que pode ser encontrado neste Escrever Por Escrever
ou neste Escrever Por Escrever.
Saúdo
a todos leitores que me acompanharam nesta verdadeira
odisséia e vos deixo a sós com seus
pensamentos, dividindo comigo esta viagem, nesta
enorme embarcação, rumo à
eternidade...
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Diálogos
da noite de PoA
Pedro Schestatsky
Marcinha volta às 10h da manhã para
a casa. O pai pergunta:
- E aí? Como é que tava a festa?
- Um porre! - responde comendo um pão com
manteiga.
_____________________________________________________
Pipo
está nervoso. É seu primeiro carnaval.
Até então só pensava em futebol
e surfe. Achava que estava na hora de botar uma
mulher em seu corpo, porém não sabia
muito de que jeito. Vira alguns filmes, é
verdade, mas queria ser original. Quando finalmente
avistou Dedéia. Já estava há
muito tempo de olho naquela gatinha, de seus 13
anos de idade (Pipo tinha 15). Aproximou-se e,
como quem não quer nada, puxou um assunto,
assim, de repente:
- E aí? - começou a suar
- Tudo bom - respondeu meio seca.
- Legal, que dizê...Só toca música
de carnaval...ãã
- Ah, não tô te ouvindo direito...
Fala mais alto !
- Nada, esquece... Escuta... - esforça-se
para pensar em alguma coisa - Tu não sabes
prá que time o Sabará foi vendido?
Silêncio... "Mas o que foi que eu fiz?",
pensou ele. Tarde demais.
Nunca mais falou com ela. De vez em quando cruzam-se
no centrinho de
Atlântida, mas ela desvia. Talvez constrangida
por não saber o paradeiro do craque.
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I-Racional
Pedro
Volkmann
Hora vejam, tem gente
que não enxerga,
não põe a mão na massa
e vai embora na hora das uvas amassar as.
Não vai na chuva para não se molhar,
não vai no solpara não se queimar.
Queima os outros por qualquer besteira e o xixi
rola solto.
Assim é o mundo, dois pesos e duas medidas.
Um carinho no meu filho, uma carranca para o flanelinha.
Uma dedicatória para uma gostosa, uma porrada
na feinha.
Dedico esta coluna a uma amiga, pois ela bonitinha.
Estou de cara
Um amigo meu que não bebe, não fuma
morreu com a cara
Num caminhão
O motorista estava bebão...
E está ai feliz da vida...
E assim vamos! Viva o livre arbítrio que
me permite
Dar seqüência ao texto de qualquer
forma. Não importa
Quem se importa, importa que eu me importe, exporte.
No caso, anexe.
Em todo o caso, o mundo assim segue, cego:
Para quem eu gosto, o mundo.
Para meus desafetos
Coco, imundo!
Quem
me conhece sabe que procuro não viver assim,
mas é preciso
muita força de vontade e percepção
de realidades, além de uma
consciência super privilegiada para agir
diferente. Tanto tento que
às vezes alguns amigos ficam de cara. Acham
que meus dois pesos
e duas medidas foram em prol do inimigo.
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Dupliartigo:
A Sociologia de Durkheim*
Valesca da Costa Abranches
No século
XVIII, Giambatista Vico dizia em sua obra “A
Nova Ciência” que a sociedade se subordina
a leis definidas que podem ser perfeitamente estudadas.
Ele estava trazendo para a sociedade européia,
dita civilizada, uma metodologia de estudo que
os evolucionistas já usavam para estudar
outros povos desde o incremento da colonização
de outros continentes.
A idéia de
se dedicar ao estudo da sociedade européia
não era nova, mas tão pouco era
uma ciência estabelecida. Vários
filósofos e economistas inclinavam-se cada
vez mais ao estudo dos fenômenos socias
como determinantes em suas pesquisas. Entretanto
foi somente no século XIX que esta tendência
se tornou reconhecida como uma condição
para o Conhecimento. Auguste Comte criou o termo
Sociologia para denominar o estudo da sociedade
que dava ênfase aos fenômenos socias,
suas instituições e suas regras.
Contudo, sua obra não era Sociologia, era
mais uma ciência sociológica, feita
de muita inspiração e pouco rigor
metodológico.
Foi somente no segunda
metada do século XIX, com Émile
Durkheim que a Sociologia realmente passou a existir,
com objeto, método e objetivos claros e
definidos. Mesmo que de lá para cá
estes tenham mudado bastante. Podemos dizer que
se Durkheim não foi o “pai”
da idéia, com certeza ele foi o “pai”
da ciência.
A partir do final
do séc. XVII e início do séc.
XVIII é grande o número de pessoas,
principalmente entre os mais pobres, que são
forçados a deixar seus lares no campo e
rumam para as cidades a fim de encontrar novas
formas de sobrevivência. Durante estes dois
séculos o números de indústrias,
localizadas dentro e na periferia das cidades,
aumenta assustadoramente modificando a paisagem
urbana, bem como seu estilo de vida.
A cidade ganhou uma
nova feição caracterizada pelo modo
de produção capitalista e pelo trabalho
assalariado, refletindo as suas contradições.
A arrancada industrial não beneficiou os
assalariados, pois enquanto o custo de vida nas
cidades subiu em torno de 62% durante o séc.
XVIII, o salário médio cresceu apenas
em torno dos 26% no mesmo período , o que
implica no aumento da miséria e de todos
os males que ela traz.
O crescimento rápido
e desordenado das cidades e a introdução
das máquinas pioraram as condições
de trabalho e de vida dos operários, gerando
a chamada "questão social". Ou
seja, o problema de ter de se lidar com uma camada
da população que é um enorme
contingente de trabalhadores mal pagos ou desempregados
que se encontram em situação de
extrema desvantagem no sistema capitalista.
O séc. XIX
é ao mesmo tempo o apogeu e a crise da
sociedade burguesa, o proletariado avança
ameaçando a ordem do sistema que tem de
se proteger, ao mesmo tempo que tenta se legitimar.
Contudo, vale a pena atentar para a questão
de que nascia um novo estilo de vida, baseado
na vida urbana e na sociedade de consumo, que
tornava a sobrevivência de cada um totalmente
dependente da produção dos outros,
obrigando progressivamente ao consumo para esta
sobrevivência, mesmo assim, deixava este
consumo fora do alcance da maioria da população
trabalhadora.
Não é
de se estranhar que no meio deste contexto aparecessem
homens dispostos a discutir sobre o que estava
acontecendo, dispostos a tentar entender as mudanças
sociais e individuais, de tentar estabelecer ordem
e regras a um mundo que se modificava rapidamente
e outros que quisessem acelerar ainda mais estas
mudanças. Homens que não podiam
mais se contentar com dogmas, com explicações
religiosas. Todos eles herdeiros do pensamento
Iluminista, críticos racionais e laicos,
muitos levados pelo pensamento positivista, fiéis
depositários de suas esperanças
na possibilidade ilimitada da ciência. Entre
eles Émile Durkheim.
Émile Durkheim
(1858 – 1917), era francês de boa
família, formado em Direito e Economia,
porém sua obra inteira é dedicada
a Sociologia. Seu trabalho pricipia na reflexão
e no reconhecimento da existência de uma
“Consciência Coletiva”. Ele
parte do princípio que o homem seria apenas
um animal selvagem que só se tornou Humano
porque se tornou sociável, ou seja, foi
capaz de aprender hábitos e costumes característicos
de seu grupo social para poder conviver no meio
deste.
A este processo de
aprendizagem, Durkheim chamou de “Socialização”,
a consciência coletiva seria então
formada durante a nossa socialização
e seria composta por tudo aquilo que habita nossas
mentes e que serve para nos orientar como devemos
ser, sentir e nos comportar. E esse “tudo”
ele chamou de “Fatos Sociais”, e disse
que esses eram os verdadeiros objetos de estudo
da Sociologia.
Nem tudo que uma
pessoa faz é um fato social, para ser um
fato social tem de atender a 3 características:
generalidade, exterioridade e coercitividade.
Isto é, o que as pessoas sentem, pensam
ou fazem independente de suas vontades individuais,
é um comportamento estabelecido pela sociedade.
Não é algo que seja imposto especificamente
a alguém, é algo que já estava
lá antes e que continua depois e que não
dá margem à escolhas.
O mérito de
Durkheim aumenta ainda mais quando publica seu
livro “As regras do método sociológico”,
onde ele define uma metodologia de estudo, que
embora sendo em boa parte extraída das
ciências naturais, dá seriedade a
nova ciência. Era necessário revelar
as leis que regem o comportamento social, ou seja,
o que comanda os fatos sociais.
Em seus estudos,
ele concluiu que os fatos sociais atingem toda
a sociedade, o que só é possível
se admitirmos que a sociedade é um todo
integrado. Se tudo na sociedade está interligado,
qualquer alteração afeta toda a
sociedade, o que quer dizer que se algo não
vai bem em algum setor da sociedade, toda ela
sentirá o efeito. Partindo deste raciocínio
ele desenvolve dois dos seus principais conceitos:
Instituição Social e Anomia.
A instituição
social é um mecanismo de proteção
da sociedade, é o conjunto de regras e
procedimentos padronizados socialmente, reconhecidos,
aceitos e sancionados pela sociedade, cuja importância
estratégica é manter a organização
do grupo e satisfazer as necessidades dos indivíduos
que dele participam. As instituições
são portanto conservadoras por essência,
quer seja família, escola, governo, polícia
ou qualquer outra, elas agem fazendo força
contra as mudanças, pela manutenção
da ordem.
Durkheim deixa bem
claro em sua obra o quanto acredita que essas
instituições são valorosas
e parte em sua defesa, o que o deixou com uma
certa reputação de conservador,
que durante muitos anos causou antipatia a sua
obra. Mas Durkheim não pode ser meramente
tachado de conservador, sua defesa das instituições
se baseia num ponto fundamental, o ser humano
necessita se sentir seguro, protegido e respaldado.
Uma sociedade sem regras claras, sem valores,
sem limites leva o ser humano ao desespero. Preocupado
com esse desespero, Durkheim se dedicou ao estudo
da criminalidade , do suicídio e da religião.
O homem que inovou construindo uma nova ciência,
inovava novamente se preocupando com fatores psicológicos,
antes da existência da Psicologia. Seus
estudos foram fundamentais para o desenvolvimento
da obra de outro grande homem: Freud.
Basta uma rápida
observação do contexto histórico
do século XIX, para se perceber que as
instituições sociais se encontravam
enfraquecidas, havia muito questionamento, valores
tradicionais eram rompidos e novos surgiam, muita
gente vivendo em condições miseráveis,
desempregados, doentes e marginalizados. Ora,
numa sociedade integrada essa gente não
podia ser ignorada, de uma forma ou de outra,
toda a sociedade estava ou iria sofrer as consequências.
Aos problemas que ele observou, ele considerou
como patologia social, e chamou aquela sociedade
doente de “Anomana”. A anomia era
a grande inimiga da sociedade, algo que devia
ser vencido, e a sociologia era o meio para isso.
O papel do sociólogo seria portanto estudar,
entender e ajudar a sociedade.
Na tentativa de “curar”
a sociedade da anomia, Durkheim escreve “A
divisão do trabalho social”, onde
ele descreve a necessidade de se estabelecer uma
solidariedade orgânica entre os membros
da sociedade. A solução estaria
em, seguindo o exemplo de um organismo biológico,
onde cada órgão tem uma função
e depende dos outros para sobreviver, se cada
membro da sociedade exercer uma função
na divisão do trabalho, ele será
obrigado através de um sistema de direitos
e deveres, e também sentirá a necessidade
de se manter coeso e solidário aos outros.
O importante para ele é que o indivíduo
realmente se sinta parte de um todo, que realmente
precise da sociedade de forma orgânica,
interiorizada e não meramente mecânica.
Refletindo
sobre a importância da dependência
entre os membros da sociedade, inúmeros
estudiosos que se seguiram a Durkheim desenvolveram
o q ficou conhecido como “Funcionalismo”.
Creio que não é possível
chegar a esse ponto sem lembrar de Marx conclamando
a “união” dos trabalhadores.
Uma união consciente dos indivíduos
ou uma união dependente, de um jeito ou
de outro, ambos se opõe ao individualismo
possessivo, o que nos remete a dificuldade de
convivência entre os homens. Mais de 1 século
depois o conflito ainda não está
resolvido, Durkheim se visse nossa sociedade ficaria
chocado com seu grau de “anomia” e
talvez ficasse decepcionado ao saber que os sociólogos
já não querem mais “salvar
o mundo”. Contudo, a História está
cheia “durkheims” e continuará
estando.
*
publicado originalmente no site Duplipensar em
06/02/2004

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Ombudsman
Maurício Silveira dos
Santos
A Inveja é uma Merda!
Olá caros leitores, senti saudades do Simplicíssimo
(louvado seja!) enquanto caminhava pelas areias
de uma praia qualquer de Santa Catarina. Digo
praia qualquer porque as praias de Santa Catarina
são óbvias. Obviamente belas com
seus morros, trilhas, localidades pouco acessíveis
ou escondidas e suas águas mornas e transparentes.
Só a presença das pessoas tende
a poluir a paisagem, me incluo no rol de detritos,
é claro, mas tive o bom senso de ficar
por lá pouco tempo porque o ócio
é uma droga pesada e a dependência,
pelo menos para mim, chega rápido e haveria
o risco de não voltar nunca mais às
misérias do cotidiano de trabalhador, pagador
de impostos e flanelinhas e eterno angustiado
que aguarda os fins-de-semana para se convencer
de que a vida vale à pena. Não se
preocupem leitores, o seu ombudsman não
está deprimido, só está afiando
o texto e se armando de alguns queixumes para
parecer simpático.
Tenho de voltar à edição
60 do nosso amado Simplicíssimo para admitir
a tremenda, a insuportável inveja que me
possuiu quando vi o número elevado de comentários
à coluna da minha colega ombudsman. Fiquei
estupefato! Nunca tive sequer a metade dos comentários
e esta ombudsman, uma novata, de uma só
vez chamou tanta atenção... Quem
ela pensa que é? Só porque falou
mal da Marta Medeiros? É isso que eu preciso
fazer? E também porque ela ousou criticar
mais os autores do que os seus textos? É
isso? Pois bem, então hoje movido por inveja,
rancor, ressentimento e complexo de inferioridade
não comentarei sobre o belo e divertido
porém instável texto sobre vampiros
do Diego Altieri e nem sobre os dementadores do
LittleBrain, o eterno apaixonado por Harry Potter
e sua turma mágica. Também não
me interessa a redenção espiritual
que o bigode do Eduardo Sabbi provocou em sua
vida e nem a dificuldade que ele provou em seu
texto terem as pessoas para serem menos repetitivas
ou mudarem de perspectiva de vez em quando. Também
não quero saber das aventuras “magalísticas”
do Escrever por Escrever com muitos dados financeiros
e bancários (poderia ter sido publicado
no Financial Times) após a tragédia
automobilística do nosso protagonista que,
felizmente, só “matou” seu
carro. Eu poderia dizer muito sobre os “Diálogos
da Noite de POA”, mas só vou comentar
que poderiam se tornar mais grosseiros, machistas
e pornográficos, será que o autor
está nos poupando de algo ou tem medo de
ofender alguém? (sempre é um momento
agradável entrar no universo escrotinho
dos “diálogos” do Pedro S).
Parece que não consigo me controlar, quase
fiz uma coluna tradicional ... chega de falar
dos textos. Paro por aqui. Estou enfurecido como
Nietzsche com uma certa cultura cristã
do séc-19 e louco de inveja da colega que
me fez sentir sem talento nenhum! Será
que um dia os leitores vão me criticar
com dezenas de comentários? E se eu disser
que a Marta Medeiros escreve mal e seus textos
são óbvios? E que a Ivete Sangalo
canta mal? Que o Paulo Coelho é o meu guru?
Que amo o nosso presidente G. W. Bush? Que Porto
Alegre é uma lamentável ilhota de
civilização? Que o Simplicíssimo
é uma m... isso eu nunca escreveria. Louvado
seja !!
abraços e até mais.
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Desafio
Simplex
Quem ganhou
o Desafio Simplex desta semana foi Rafael
Tourinho Raymundo, de Taquara-RS, que
respondeu nossa pergunta da seguinte
forma:
Acaso Deus
criasse uma pedra tão grande
que nem mesmo Ele pudesse carregar.
a. Se Deus
criasse esta pedra, não teria
a capacidade de erguê-la, logo
não seria onipotente.
b. Se Deus
não levantasse a tal pedra, não
seria onipotente, pois não teria
criado uma pedra que não pudesse
carregar.
Este é
um paradoxo que conheço há
tempos, e por ele comprovamos que, se
Deus existe, não é um
ser onipotente.
O DESAFIO:
Apresentar um argumento lógico
que confronte ou desminta esta idéia.
O
próximo desafio já está
aí!
...
continuem participando e divulgando
o Desafio Simplex!
O
próximo desafio já
está aí ...
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Selo comemorativo
alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente
criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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