Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade altamente incerta por esses dias


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Editorial

Este é a edição da incerteza.

Incerteza quântica, incerteza do jogo, incerteza da ação humana, incerteza plena de preconceitos, incerteza dúbia, incerteza futura, incerteza.

Momentos na vida existem em que não somos donos dos próximos passos. Momentos tais, sempre grandes angústias geram, grandes pesares são em potencial.

Tal drama não é injustificado. Falo aqui da vida do Simplicíssimo, de seu fôlego e de sua continuidade.

Em virtude de algumas condutas que incluem mudança temporária de residência, a Edição do Simplicíssimo ficará certamente prejudicada e podem ocorrer atrasos imprevisíveis e até a suspensão temporária das publicações nas próximas semanas.

Mas, ei! Não façam como eu: não se desesperem! Já estou fazendo isso por todo mundo! Depois de um período de adaptação, certamente tudo voltará ao normal e seguiremos com o barco a todo vapor! Não há santo por mais forte que seja que derruba o Simplicíssimo!

Então ficamos assim combinados: vocês amigos Simplileitores não ficam assustados com a irregularidade na atualização do Simplicíssimo e nós aqui tentamos regularizar a situação o quanto antes!

Enquanto isso, mantenham contato! Gritem que lhes ouvimos! Existem várias formas de comunicação, que podem ser exploradas no menu da esquerda no site. Desbravem, leiam edições antigas, vão até a página de seu autor favorito e vasculhem os textos dele. Inspirem-se, escrevam e encham nossa caixa de entrada de textos para que fiquemos loucos e tenhamos que seguir pedindo desculpas pela demora nas publicações...

Como já escrevi em outro editorial, citando Gilles Deleuze: “Não sofremos de falta de comunicação, mas ao contrário, sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer”.

Valeu Deleuzinho! Este é o Simplicíssimo um laboratório onde se misturam em uma panela de expressão tanto o resultado das forças sociais e culturais que nos estimulam a pensar, agir e escrever o que pensamos, agimos e escrevemos quanto os subversivos que vivem de explosões de espírito ou já souberam se desvencilhar em parte destas “forças poderosas” que nos “obrigam” exprimir algo que não mereceria ser dito. Aqui, abraçamos todos. E fodam-se os pseudo-intelectuais de plantão...

Até breve (se tudo correr bem).

 

Rafael Luiz Reinehr

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A casa e o rio
Nora Borges

Vivi quase toda a minha vida no Poço da Panela.Ao lado do grande rio, o Capibaribe.
Nossa casa havia sido o resultado de muitos anos de sonho de minha mãe.
E começou a existir de verdade num dia em que meu pai chegou com um papel grande e amarelado e começou a desenhá-la...
Era um bom e jovem arquiteto e havia comprado um terreno, num beco sem nome e sem saída, no bairro de Casa Forte.Mais especificamente, próximo à um sitio de vegetação cerrada e árvores centenárias, de onde se podia ouvir os sinos de uma igreja pequena e branca, ou os ruídos de um barco de madeira que fazia a travessia dos pobres para a outra margem.
Ao longo da velha Estrada Real do Poço perfilavam-se alguns casarões antigos, de herdeiros da época em que tudo aquilo era um engenho de cana-de-açúcar. No meio, imponente, o antigo casarão sede do engenho. Mal assombrado e tenebroso a qualquer hora do dia ou da noite... São tantas as histórias dentro das histórias!
Do nosso lado, mato... muito mato e os braços largos do Rio.
Como se desenha um sonho? Não foi fácil.Do papel para as primeiras pedras dois anos se passaram.
Um sonho não tem preço, mas as pedras têm. E eram muito caras para a realidade financeira da família, na época.Hoje sei que a vida com um sonho é sempre mais próspera...
Minha mãe economizava até em palitos de fósforo, o que deixou uma marca em seu comportamento pelo resto de sua vida.Nunca jogava nada fora...
Acendia um palito já usado na boca acesa do fogão e o guardava outra vez, até que não era mais possível segurá-lo entre os dedos. Lavava, passava, varria, cozinhava, usava um vestido até que se rasgasse...
Mas, finalmente um dia, fomos ver "a construção" Minha mãe e suas mudas de jasmins e roseiras. Meu pai e suas folhas de papel amarelado.Foi um domingo de festa para nós. Três crianças, quatro pedreiros e o grande sorriso de meus pais.Que mais era necessário? Ah, sim... uma panela grande de barro e todos os ingredientes de uma feijoada.
Trabalhamos todos naquele dia, carregando areia, levantando muros, plantando, pulando de monte em monte de areia e barro...
Escolhemos o lugar onde seriam plantadas as árvores, que depois seriam minhas amigas por toda a vida.Abacateiros, coqueiros, jambeiros, goiabeiras... Foi esse o nosso programa por muitos domingos mais, tantos que perdi a conta.
Quase quatro anos depois, "a construção" ainda era construção...
Suas paredes já se revestiam de lambris de madeira escura, o piso de parquet negro e marfim, as flores já eram uma realidade...
E faltavam só 5 meses para a grande inauguração... Passaríamos o Natal na casa.
Meu pai comprou um piano.Chegou um final de tarde quase sem pisar no chão...
Não era um piano negro e de cauda como o da casa de meu avô. Era pequeno e clarinho, mas era um PIANO!
Comecei a estudar com uma professora que tocava na igreja da praça. Meu pai tocava todas as noites e eu bailava no terraço de cerâmica encerado, de meias soquetes, para deslizar melhor, para o desespero de minha mãe quando pensava em como ficariam depois do baile. Três dias , no mínimo, de água sanitária. Sem falar dos furos nos calcanhares das pobres meias.
Nunca tive muito jeito de bailarina e caía cada vez que inventava rodar como elas, mas era uma possível-futura-pianista...
Um noite ele veio. O rio .
Foi sua primeira incursão pelas ruas de Casa Forte. Invadiu quase todas as casas, manchou, molhou, enlameou tudo, até a altura de meio metro.
Mas na nossa ele foi mais cruel. Fez saltar todo o parquet do piso, entortou os lambris de madeira do escritório... e levou o piano. Porque o fez bailar sobre a água, descolou cada tecla de marfim, arrepiou a madeira,acabou com meu sonho de artista, de famosa pianista E eu nunca seria uma bailarina...
Meu pai chorou...e nunca mais falou do assunto. Queria esquecer tamanha tragédia ou talvez, seu silêncio dissesse que nunca a esqueceria...
Ao final do ano nos mudamos para a casa, que nunca, jamais deixou de ser uma obra em construção.
Pois é, por mais que meu pai fizesse planos e projetos de decoração e mobiliário, e fosse, aos poucos comprando luminárias e estofados novos, a briga entre ele e o rio foi ficando cada vez mais acirrada...
Por dez anos o Capibaribe, que lambia nosso muro nas épocas de verão, e nos dava um toque de Tarzan às aventuras de criança, nas épocas de inverno ameaçava subir, inundava o jardim... E por quatro ou cinco vezes elevou-se, cada vez mais alto, até que um dia cobriu a casa até deixar apenas o reservatório de água de fora. Como um bote abandonado e fantasmagórico, boiando há mais de três metros acima do jardim, imerso na lama...
A cada subida, meu pai o desafiava com novas estratégias de esconder seus tesouros : os livros e os discos. Subia-os às prateleiras mais altas da estante, e até mesmo nos ocos do telhado do gabinete.
Eram muitos os livros de meu pai.Uma biblioteca de teto ao chão , repleta de novelas, romances,dicionários e enciclopédias. Lembro das obras completas de Shakespeare, Pessoa, Neruda, Bandeira, Eça de Queirós .O melhores de Rubens Braga, Fernando Sabino, João Cabral, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Alan Poe, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Garcia Marquez, entre tantos que nem recordo os nomes...
De coleções completas sobre arte em pintura, arquitetura, mitologia à séries de ficção científica e suspense policial. Os livros e a música eram suas paixões e ele costumava freqüentar livrarias e sebos semanalmente.
Mas... na pressa de salvar a família de morrer afogada, eles perdiam em prioridade. Ficavam na casa, escondidos em alguma altura, onde meu pai, com esperança ainda não vencida, pensava que não seriam alcançados. Ledo engano.
O rio gostava de ler... e sempre subia um pouco mais, até encontrá-los.
E escutava todos os discos, derretia as capas, cobria os sulcos de lama escorregadia...
Dos livros só levava as letras, as frases... Deixava o papel grudado e inchado como um cadáver. Como de pirraça, para a gente saber o que tinha perdido. Para a gente saber que ele era maior...
Ele vinha e se demorava lendo...
Nossa casa era a primeira atingida pelas suas ganas culturais e a última a que nos permitia voltar. Assim, quase não salvávamos nada do que ele deixava...
A lama negra e gosmenta era grossa e fedorenta como petróleo e havia ficado por tempo demais, entranhada nas paredes e nos móveis. Impossível salvar algo...
Então, via meu pai chorar... Apanhando, de pá e carro-de-mão, a papa de livros e discos que o rio, sem dó, espalhava pela casa inteira...
Muito poucos era possível salvar...
Lavávamos os discos com água e sabão Nús de suas capas coloridas...
Coleções inteiras de Bach e Beethoven... As óperas prediletas de meu pai... Os jazz e os blues...As grandes orquestras...
Um raiva impotente... Uma tristeza profunda se instalava na casa e em nossos corações por meses seguidos.
Alguns discos era possível comprar outra vez , mas a maioria estava perdida para sempre.Selos esgotados, fora de catálogo...
Ainda guardo uns livros sujos de lama seca, que ele não levou as frases...
As poesias de Neruda, a solidão de Garcia Marquez, a pedra do reino de Suassuna... Talvez já os tivesse lido das outras vezes, e só lambeu as capas, não os abriu. Com um pouco de sol, deu para salvar...
Na última batalha entre ele e meu pai, tivemos que viver por seis meses em um apartamento emprestado, pois foi nela que ele descobriu o esconderijo do telhado...
Derrubou o teto... e leu tudo.
Só voltamos para casa no ano seguinte. E meu pai estava vencido. Não quis mais brigar... E também parou de sonhar...
Morreu dois anos depois. Tinha 50 anos.
Tentamos por o seu nome no beco sem saída... Mas ele não era suficientemente importante para lutar com outro morto, o pároco da pequena igreja branca. Alguns anos depois, construíram barreiras no rio e nosso antigo campo de batalha valorizou-se. Venderam lotes e lotes para novos habitantes do romântico bairro do Poço da Panela, que foi se transformando num rincão da nova elite da cidade. Mansões modernas se espalharam por toda parte, e até edifícios, contrariando leis de proteção ao meio ambiente. O casarão mal assombrado é agora um museu. As ruas estão calçadas e diante de nosso antigo jardim há uma pequena praça triste e mal cuidada, árida e sem razão de ser.Três bancos de concreto, dois ou três arbustos que tentam sobreviver ao abandono...
Não há mais cipós nem as árvores frondosas onde nos pendurávamos em nossas fantasias de Reino das Selvas. A umidade diminuiu muito com as novas construções...
E a nossa casa morreu...
Não caiu, nem foi reformada. Está lá ainda, mas é só uma sombra esmaecida do que foi antes...
Nem jasmins, nem roseiras,nem cheiro de mato verde.
Metade do seu antigo jardim é cimentado...
Nem cocos, nem goiabas, nem jambos, nem araçás...
Nem uma música no ar, nem o barulho dos sapos e grilos da beira do rio...
Ele também não está mais lá...
Mudaram o seu curso. E muitas casas estão construídas onde antes eram seus braços...
Também ele não tinha mais nada a perder. Seu parceiro de briga não lhe comprava mais os livros, nem lhe tocava La Boheme ou Bolero de Ravel às alturas, nas madrugadas enevoadas e úmidas do Poço...
No beco, ainda sem saída, há agora um nome, o do padre da paróquia. E, paradoxalmente, meu pai mudou-se, depois de morto, para a pequenina igreja...E lá, o rio ainda lambe as paredes de seus muros...
Estão juntos de novo. E posso sentir, mais que ouvir, entre as badaladas dos velhos sinos de ferro forjado, suas queixas mútuas de amigos rabugentos... antigos e eternos companheiros de lutas e sonhos...

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Carta para Marcel, não nos falaremos mais*
Daniela Castilho

Marcel, Marcel! Que crise existencial se apoderou de você? Não
compreendo, e como dizia Albert, é preciso compreender. São tantos anos de amizade... ou não são? Marcel, agora você conseguiu - novamente. Eu fiquei perturbada, os alicerces do meu mundinho particular foram abalados.. não somos amigos, muito amigos? Eu considero que sim, e agora você plantou uma daquelas sementes de dúvida que crescem sozinhas, nem é preciso aguar... às vezes eu acredito que você faz isso por esporte, apenas para verificar a minha reação... mas Marcel, para que fazer isso, afinal? É tão inútil, é exercício de vaidade. Você mencionou que mandou uma mensagem semelhante à Camile - com a diferença de que foi mais curta? Como pode ter sido mais curta? Você copiou seu próprio texto para si mesmo? Você leu e releu, como normalmente faz, para verificar erros? Vou copiá-lo para você, é tão curto que nem irá cansar a minha mão:

Cara amiga, não vou escrever mais, não fale mais comigo. Se você me
escrever, vou devolver sua carta ao carteiro marcando como endereço
desconhecido, falecido ou não existente. Não nos falaremos mais.

Marcel, de todas as piadas do seu humor estranho, essa foi a mais
absurda! Você está se correspondendo com Franz? Sinto um cheiro de
idéias do Franz nessa sua mensagem, aquele patife! Ele e aquela mania de pregar peças nas pessoas, como a história da barata - ah, não quero nem relembrar, o susto que a mãe dele levou! E ao final, Franz perdeu o
emprego... mas não quero falar mais sobre essa história.

A pobre Camile, quando ler sua mensagem, ficará de coração partido,
outra vez. Você não deveria fazer essas piadas, Marcel, são de mau
gosto. Quantas cartas vocês dois já trocaram? Eu nem consigo calcular,
são tantos anos de correspondência... Camile merece mais, ela leva todas as suas cartas a sério. Você deveria levar ela mais a sério. A última vez que você fez algo assim, aquela carta com texto suicida, fez com que Camile telefonasse - telefonasse, veja bem! - para todos que constavam no caderninho dela, e você sabe muito bem que para ela, telefonar e ficar pedindo para quem atende do outro lado para falar com fulano ou sicrano é muito difícil, ela gagueja, fica vermelha de vergonha e depois telefona aqui para mim, em lágrimas.

Marcel, isso é crueldade. Você deveria enviar um telegrama para ela
imediatamente pedindo desculpas, prometendo que não vai fazer isso nunca mais, porque eu te conheço bem, e sei que daqui a uma ou duas semanas, esse seu envelope azul tão típico vai chegar outra vez, com uma carta de vinte páginas, no mínimo, com um texto no tom de "nada aconteceu" e todas aquelas reflexões que você adora escrever - e que, devo confessar, exigem paciência de leitura e nem sempre fazem muito sentido - e no momento que chegar uma carta sua para mim, Camile provavelmente receberá uma também, porque você é metódico e escreve aos litros, envelopa toda a sua correspondência e envia de uma vez - você detesta ter que ir ao correio, apesar de gostar dos selos, falar com a atendente deixa você enjoado, eu sei. Sem mudar muito de assunto, aquela moça ainda tem aquela paixão secreta por você? É surpreendente, sabia? Não sei o que ela viu em você, mas você não escreve para ela, e vai ver é isso, porque no momento que a atendente do correio começasse a receber essas suas cartas com essa sua letrinha miúda de carrapato, esses textos do apocalipse que você envia em intervalos regulares, eu tenho certeza absoluta que ela se desencantaria totalmente, porque de poeta, você só tem mesmo o ar enfastiado. E nem pense em me dizer que é porque a moça do correio é uma pessoa muito plana, porque eu já te disse milhares de vezes que uma coisa é uma coisa, e a outra coisa é outra coisa - você precisa parar de julgar as pessoas rapidamente baseado no nada... e aproveite e pare de escrever filosofia.

Marcel, mande o telegrama para Camile. Pare de assustar as pessoas dessa maneira. Um dia, Marcel, você ainda vai conseguir fazer com que eu acredite nessas mensagens deprimentes e eu vou mesmo parar de escrever para você.

sua amiga, um pouco zangada

Inspirado nesse fragmento de texto, de Walnice Nogueira Galvão:
”Marcel Proust escreveu 21 volumes de cartas. Você as lê e percebe que ele as escrevia para manter as pessoas à distância. Ele não queria se aproximar.”

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Nua & Crua
Cristiane Martins

Anjo Negro

Ninguém saberia da história daquela menina se não fosse eu na minha fria covardia a observá-la pela janela. Todas as manhãs ela arrastava-se rua acima, olhos fundos e tristes, como se carregasse um fardo pesado demais para ela...

Tantas vezes vi lágrimas em seus olhos redondos naqueles poucos instantes que ela levava para atravessar minha janela e eu estava lá, eu sabia de tudo... eu era covarde demais...

Seus cabelos pretos e lisos que balançavam em uma melodia melancólica sobre seus ombros, seus olhos tristes e solitários, seus passos lentos e sem vontade expressavam toda a sua solidão...

Eram trinta, talvez quarenta segundos por dia que eu tinha para ajudá-la mas nunca o fiz ... eu sabia onde ela trabalhava, mas nunca a procurei, eu estava sempre ocupado demais com minhas coisas, sempre envolvido demais em meus projetos inacabados que nunca me trouxeram nenhuma felicidade... e hoje me questiono se minha felicidade não estaria nos olhos daquela menina...

Menina índia, anjo dos céus, lá vinha minha pérola negra avançando sem
vontade em direção a lugar algum, eu poderia ter gritado, mas talvez me
faltasse a voz, eu poderia ter pulado se não morasse no quarto andar ...
Não... São tudo desculpas para justificar a minha covardia, o meu medo de interceptá-la...

Houve um dia em que ela olhou em direção a minha janela, seu olhos
visivelmente marejados de lágrimas, fitou-me por alguns instantes enquanto que meu coração batia como ensaio de escola de samba! Ela era especial, eu sabia... eu sabia ... E, no entanto, não a toquei ...

Em dias chuvosos a sombrinha velha lhe cobria a cabeça, escondendo seus belos traços, mas mesmo a chuva não conseguia apagar seu brilho, o brilho daqueles olhos negros de índia, a fragilidade daquele coração solitário e perturbado!!

Mas houve um dia em que ela não passou. A rua vazia. O ar estava quente. Esperei por alguns minutos a mais, ansioso na minha janela, mas não... Ela não apareceu... Onde estão meus olhos negros? E passaram dois, três, muitos dias e não mais vi meu anjo negro... minha vida estava tão triste sem ela ...

Foi então que o jornaleiro alheio a todo meu sofrimento me trouxe a notícia, ele sabia onde ela se encontrava! Não o jornaleiro, mas o jornal, estampava uma grande reportagem de uma menina linda que sucumbira ao seu medo e no auge de seu desespero jogara-se do oitavo andar do edifício onde morava solitária e triste! Mordi meus lábios de raiva! Estava com raiva de mim! Eu, esse ser covarde que não se permitiu ousar! A morte fora seu destino, e eu nem sequer tentei ajudar!

Hoje subo essa rua aos passos lentos, faço o mesmo trajeto que ela, paro e olho para a minha janela onde por vezes parece que vejo ela linda e alva, com seus longos cabelos negros refletida no vidro da minha janela...

Meu anjo negro agora não mais me pertence e nem nunca pertenceu, voou sem ter asas, cruzou a linha da morte... a única coisa que me faz menos triste é o sentimento de que lá porém ela não está só. E se eu fecho os olhos, eu vejo ela, com seus cabelos negros e olhos de diamante cercada de milhares de outros anjos orando por nós almas covardes que permaneceram na terra!

Mais Cristiane Martins:

www.ansiosaeprematura.weblogger.terra.com.br
www..teoriadocaos.weblogger.com.br

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Das últimas coisas que eu ainda me lembrava quando voltei à casa, faziam parte a caneca metálica - corroída pela ferrugem e sempre depositada em cima do velho filtro d'água, dos antigos, feitos em barro -, e o gato, velho e gordo, com uma idade que eu não me atreveria em momento algum a especular. Sobre ele, as lembranças eram ainda mais vívidas do que sobre a caneca, uma mera caneca. (O que há para se lembrar dela, afinal? Me servia para beber a água com gosto de terra, e só.)

O gato, lento, mas particularmente traiçoeiro, me espreitava do seu canto, perto da porta por onde entrava um filete de sol mesmo nos dias mais frios, e parecia se arrastar com um sofrimento infinito até perto de nós quando eu ousava me aproximar de dona Ataíde. Ela ria, dizendo que ele tinha ciúmes dela e não permitia que ninguém chegasse perto. Pegava o bichano no colo, depois de esperar pacientemente que ele conseguisse romper a distância ínfima, mas olímpica para sua quase total falta de mobilidade, e o postava sobre seu colo, cobrindo sua cabeça e suas orelhas carcomidas com tantos afagos que o bicho ronronava e fechava os olhos, entregue ao prazer. Ao fim de tudo, eu nunca conseguia conversar pacientemente com dona Ataíde, por que aquele bicho me punha nervoso. Entre olhar a velha e cuidar os olhos do gato que, quando abertos, me fitavam profundamente, eu recitava uma meia dúzia de frases e dizia que era hora e tratava de sair logo dali. Ela sempre com seu fica mais um pouco, tu nem tomou o café, mas eu nunca consegui me acostumar com a presença daquele felino balofo.

Dois verões depois e outras visitas ainda mais esparsas que eu sempre lhe reservava, dona Ataíde, já completamente cega pela catarata ainda lamentava e sempre acabava em choro ao lembrar o seu desespero quando o vizinho encontrou o gato coberto por uma pesada pedra.

Eu nunca lamentei.


[ Trecho do romance inexistente “As pernas flácidas de dona Ataíde”, a nunca ser lançado.]

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Escrever por Escrever LIII (excertos)
Rafael Luiz Reinehr

{24/09/2002 – Terça-feira – 21:49}

Mais de 2 meses sem escrever, mas... ... o que é o tempo?
Escutando “Isotope” do Allan Holdsworth e depois de tendo voltado de uma apresentação gratuita no Salão de Atos da UFRGS que comemorava os 21 anos do Projeto Unicultura e que contou com a presença de nada mais nada menos que Turíbio Santos, Guinga, Ulisses Rocha, Borgettinho, Daniel Sá e Yamandu Costa, tenho que dizer: humildade é bom e eu gosto! Como são boas essas demonstrações de “virtuosismo, sentimento e elegância” para colocarmo-nos em nossos devidos lugares!
Uma idéia: Criar uma ONG chamada “Pobre é bão!”, que ajuda pessoas de muito baixa renda a se virar com pouco, dando dicas sobre alimentação saudável, orientando acesso à serviços de saúde (ou quem sabe até centralizando e coordenando encaminhamentos), ensinando-lhes “encrusivi” como aproveitar-se dos eventos culturais diários que Porto Alegre apresenta, como por exemplo exposições, filmes, mostra de curtas, lançamento de livros, teatro e outros eventos que ocasionalmente oferecem até um pequeno “coquetel” para os participantes! Quem sabe vários pontos espalhados pela cidade podem divulgar a “Agenda” desses eventos maravilhosos que só a classe média desfruta.
Tenho que estudar música! Agora escutando Sérgio Reis – “Chuva fina no meu pára-brisa”, a dor da solidão aperta. Inscrevi a Carol no vestibular da UFRGS. Ela está começando amanhã o quarto semestre de Psicologia lá na Universidade Federal de Santa Maria. São 5 anos. Nos últimos meses estamos nos vendo direto, quase todos os fins-de-semana (os últimos 5 todos) e está muito legal. Estamos nos acertando (((...))) cada vez mais. Tem também a possibilidade de ”transferência voluntária” no ano que vem e também uma transferência para a PUC onde ela poderia fazer um estágio remunerado para ajudar a pagar (Adriana Calcanhoto – “Palpite”). Dia 30 ela está de aniversário e eu não sei se vou poder ir para Agudo porque tenho que ver pacientes no Hospital. Estava pensando em pedir para a Andréia ver os pacientes no Domingo para que eu possa ir para lá no sábado à tarde. Ia ser bom, ainda mais se não precisasse voltar no domingo à noite.
Esses dias fizemos o Primeiro Sarau do Pigmeu Moral no apartamento do Maurício, o Sumo Pigmeu. Estava muito legal! Escutamos um som e recitamos textos em prosa e poesia. Bem divertido.
(((...)))
(Chico Buarque - Geni e o Zepelim / Chuck Mangione – Soft)

(((...)))
(Tião Carneiro e Pardinho – Couro de Boi / The Platters – Crying in The Chapel)
(((...)))
(Scorpions – Rock You Like a Hurricane 2000)
(((...)))
(Presidents of the USA – We´re Not Going to Make It / Gun´s N´Roses – Sweet Child O´Mine / Falando com a Carol / Django Reinhardt – Gabriel´s Swing” / Baixando Ravi Shankar no Kazaa / Teixeirinha – Gaúcho de Passo Fundo / Lós Angeles Azules – Perdón)

Tenho várias coisas para baixar na Internet. Uma delas é Frank Zappa! (José Augusto - Agüenta Coração)
“Eu te falei que eu não tinha medo, amar não é nenhum brinquedo...”
(Pretenders – Don´t Get Me Wrong)
(((...)))
...o cronômetro da vida não pára... (Já dizia Cazuza: " o tempo não pára, não, não pára...) {A propósito: esse pára é ou não acentuado? Fiquei em dúvida agora!!!!)
Muitas coisas aconteceram e continuam a acontecer...
Como uma vez, um estudante brasileiro visitando Londres filosofou:
-"Things happen, and things change..."
As coisas acontecem... E mudam... Isso é inevitável, inexorável, esdrúxulo,
insólito, estapafúrdio (esqueça as quatro últimas palavras....)
Uma vez me apaixonei por uma garota pela sua boca, ou melhor, por suas
palavras. Mais de uma vez isso me aconteceu... Aí descobri que as palavras,
por mais sentido que tenham quando lidas e entendidas em sua seqüência não
significam nada quando não estão acompanhadas pela respectiva ação. O amor
no papel é uma nuvem no céu: bonita para admirar, mas só olhando e admirando
não conseguimos entender a nuvem em sua completude. A nuvem, lá em cima,
mesmo que nunca a alcancemos, também pode trazer a sombra, ao ocultar o Sol
e a chuva, para nos trazer a água e prover nossas plantações do mais rico
alimento que elas podem precisar. Aí eu vi que precisava ver a vida completa
e não em pedaços.
Agora estou bem mais forte. Não sei se quero mais "confusões" e incertezas.
"Tempestades hormonais" que vêm e vão, trazem felicidade e em seguida solidão.
Chorei bastante, como nuvem sobre a Amazônia. Não tenho mais motivos.
(((...)))

É... São coisas da vida..., Bem... Comecei e termino com ele: Allan Holdsworth – Whiteline. Breve falo do meu Consultório e planos para um futuro breve! {24/09/2002 – Terça-feira – 22:56}
...



(...e em 25 de outubro de 2002 surge o Simplicíssimo, um novo espaço onde eu poderia expressar minha vontade de escrever por escrever e ainda dividir com pessoas afins esta mesma vontade.

Assim, acabou o Escrever Por Escrever na sua versão “memórias e apontamentos”, que depois começou a ser publicada no SIMPLICÍSSIMO. É engraçado que muitas pessoas não observavam a data, e quando vinham falar comigo me diziam: “Puxa! Eu coisa com o teu carro!”, sendo que os eventos descritos são de 2000, 2001 e 2002! Nada era presente.

O presente está assim: este Escrever Por Escrever acabou e, do seu término, em 25/10/2002 surgia o Simplicíssimo. Atualmente, mantenho um blógue chamado Escrever Por Escrever que pode ser encontrado neste Escrever Por Escrever ou neste Escrever Por Escrever.

Saúdo a todos leitores que me acompanharam nesta verdadeira odisséia e vos deixo a sós com seus pensamentos, dividindo comigo esta viagem, nesta enorme embarcação, rumo à eternidade...

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Diálogos da noite de PoA
Pedro Schestatsky

Marcinha volta às 10h da manhã para a casa. O pai pergunta:
- E aí? Como é que tava a festa?
- Um porre! - responde comendo um pão com manteiga.


_____________________________________________________

Pipo está nervoso. É seu primeiro carnaval. Até então só pensava em futebol e surfe. Achava que estava na hora de botar uma mulher em seu corpo, porém não sabia muito de que jeito. Vira alguns filmes, é verdade, mas queria ser original. Quando finalmente avistou Dedéia. Já estava há muito tempo de olho naquela gatinha, de seus 13 anos de idade (Pipo tinha 15). Aproximou-se e, como quem não quer nada, puxou um assunto, assim, de repente:
- E aí? - começou a suar
- Tudo bom - respondeu meio seca.
- Legal, que dizê...Só toca música de carnaval...ãã
- Ah, não tô te ouvindo direito... Fala mais alto !
- Nada, esquece... Escuta... - esforça-se para pensar em alguma coisa - Tu não sabes prá que time o Sabará foi vendido?
Silêncio... "Mas o que foi que eu fiz?", pensou ele. Tarde demais.
Nunca mais falou com ela. De vez em quando cruzam-se no centrinho de
Atlântida, mas ela desvia. Talvez constrangida por não saber o paradeiro do craque.


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I-Racional
Pedro Volkmann

Hora vejam, tem gente que não enxerga,
não põe a mão na massa
e vai embora na hora das uvas amassar as.
Não vai na chuva para não se molhar,
não vai no solpara não se queimar.
Queima os outros por qualquer besteira e o xixi rola solto.
Assim é o mundo, dois pesos e duas medidas.
Um carinho no meu filho, uma carranca para o flanelinha.
Uma dedicatória para uma gostosa, uma porrada na feinha.
Dedico esta coluna a uma amiga, pois ela bonitinha.
Estou de cara
Um amigo meu que não bebe, não fuma
morreu com a cara
Num caminhão
O motorista estava bebão...
E está ai feliz da vida...
E assim vamos! Viva o livre arbítrio que me permite
Dar seqüência ao texto de qualquer forma. Não importa
Quem se importa, importa que eu me importe, exporte.
No caso, anexe.
Em todo o caso, o mundo assim segue, cego:
Para quem eu gosto, o mundo.
Para meus desafetos
Coco, imundo!

Quem me conhece sabe que procuro não viver assim, mas é preciso
muita força de vontade e percepção de realidades, além de uma
consciência super privilegiada para agir diferente. Tanto tento que
às vezes alguns amigos ficam de cara. Acham que meus dois pesos
e duas medidas foram em prol do inimigo.

 

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Dupliartigo: A Sociologia de Durkheim*
Valesca da Costa Abranches

No século XVIII, Giambatista Vico dizia em sua obra “A Nova Ciência” que a sociedade se subordina a leis definidas que podem ser perfeitamente estudadas. Ele estava trazendo para a sociedade européia, dita civilizada, uma metodologia de estudo que os evolucionistas já usavam para estudar outros povos desde o incremento da colonização de outros continentes.

A idéia de se dedicar ao estudo da sociedade européia não era nova, mas tão pouco era uma ciência estabelecida. Vários filósofos e economistas inclinavam-se cada vez mais ao estudo dos fenômenos socias como determinantes em suas pesquisas. Entretanto foi somente no século XIX que esta tendência se tornou reconhecida como uma condição para o Conhecimento. Auguste Comte criou o termo Sociologia para denominar o estudo da sociedade que dava ênfase aos fenômenos socias, suas instituições e suas regras. Contudo, sua obra não era Sociologia, era mais uma ciência sociológica, feita de muita inspiração e pouco rigor metodológico.

Foi somente no segunda metada do século XIX, com Émile Durkheim que a Sociologia realmente passou a existir, com objeto, método e objetivos claros e definidos. Mesmo que de lá para cá estes tenham mudado bastante. Podemos dizer que se Durkheim não foi o “pai” da idéia, com certeza ele foi o “pai” da ciência.

A partir do final do séc. XVII e início do séc. XVIII é grande o número de pessoas, principalmente entre os mais pobres, que são forçados a deixar seus lares no campo e rumam para as cidades a fim de encontrar novas formas de sobrevivência. Durante estes dois séculos o números de indústrias, localizadas dentro e na periferia das cidades, aumenta assustadoramente modificando a paisagem urbana, bem como seu estilo de vida.

A cidade ganhou uma nova feição caracterizada pelo modo de produção capitalista e pelo trabalho assalariado, refletindo as suas contradições. A arrancada industrial não beneficiou os assalariados, pois enquanto o custo de vida nas cidades subiu em torno de 62% durante o séc. XVIII, o salário médio cresceu apenas em torno dos 26% no mesmo período , o que implica no aumento da miséria e de todos os males que ela traz.

O crescimento rápido e desordenado das cidades e a introdução das máquinas pioraram as condições de trabalho e de vida dos operários, gerando a chamada "questão social". Ou seja, o problema de ter de se lidar com uma camada da população que é um enorme contingente de trabalhadores mal pagos ou desempregados que se encontram em situação de extrema desvantagem no sistema capitalista.

O séc. XIX é ao mesmo tempo o apogeu e a crise da sociedade burguesa, o proletariado avança ameaçando a ordem do sistema que tem de se proteger, ao mesmo tempo que tenta se legitimar. Contudo, vale a pena atentar para a questão de que nascia um novo estilo de vida, baseado na vida urbana e na sociedade de consumo, que tornava a sobrevivência de cada um totalmente dependente da produção dos outros, obrigando progressivamente ao consumo para esta sobrevivência, mesmo assim, deixava este consumo fora do alcance da maioria da população trabalhadora.

Não é de se estranhar que no meio deste contexto aparecessem homens dispostos a discutir sobre o que estava acontecendo, dispostos a tentar entender as mudanças sociais e individuais, de tentar estabelecer ordem e regras a um mundo que se modificava rapidamente e outros que quisessem acelerar ainda mais estas mudanças. Homens que não podiam mais se contentar com dogmas, com explicações religiosas. Todos eles herdeiros do pensamento Iluminista, críticos racionais e laicos, muitos levados pelo pensamento positivista, fiéis depositários de suas esperanças na possibilidade ilimitada da ciência. Entre eles Émile Durkheim.

Émile Durkheim (1858 – 1917), era francês de boa família, formado em Direito e Economia, porém sua obra inteira é dedicada a Sociologia. Seu trabalho pricipia na reflexão e no reconhecimento da existência de uma “Consciência Coletiva”. Ele parte do princípio que o homem seria apenas um animal selvagem que só se tornou Humano porque se tornou sociável, ou seja, foi capaz de aprender hábitos e costumes característicos de seu grupo social para poder conviver no meio deste.

A este processo de aprendizagem, Durkheim chamou de “Socialização”, a consciência coletiva seria então formada durante a nossa socialização e seria composta por tudo aquilo que habita nossas mentes e que serve para nos orientar como devemos ser, sentir e nos comportar. E esse “tudo” ele chamou de “Fatos Sociais”, e disse que esses eram os verdadeiros objetos de estudo da Sociologia.

Nem tudo que uma pessoa faz é um fato social, para ser um fato social tem de atender a 3 características: generalidade, exterioridade e coercitividade. Isto é, o que as pessoas sentem, pensam ou fazem independente de suas vontades individuais, é um comportamento estabelecido pela sociedade. Não é algo que seja imposto especificamente a alguém, é algo que já estava lá antes e que continua depois e que não dá margem à escolhas.

O mérito de Durkheim aumenta ainda mais quando publica seu livro “As regras do método sociológico”, onde ele define uma metodologia de estudo, que embora sendo em boa parte extraída das ciências naturais, dá seriedade a nova ciência. Era necessário revelar as leis que regem o comportamento social, ou seja, o que comanda os fatos sociais.

Em seus estudos, ele concluiu que os fatos sociais atingem toda a sociedade, o que só é possível se admitirmos que a sociedade é um todo integrado. Se tudo na sociedade está interligado, qualquer alteração afeta toda a sociedade, o que quer dizer que se algo não vai bem em algum setor da sociedade, toda ela sentirá o efeito. Partindo deste raciocínio ele desenvolve dois dos seus principais conceitos: Instituição Social e Anomia.

A instituição social é um mecanismo de proteção da sociedade, é o conjunto de regras e procedimentos padronizados socialmente, reconhecidos, aceitos e sancionados pela sociedade, cuja importância estratégica é manter a organização do grupo e satisfazer as necessidades dos indivíduos que dele participam. As instituições são portanto conservadoras por essência, quer seja família, escola, governo, polícia ou qualquer outra, elas agem fazendo força contra as mudanças, pela manutenção da ordem.

Durkheim deixa bem claro em sua obra o quanto acredita que essas instituições são valorosas e parte em sua defesa, o que o deixou com uma certa reputação de conservador, que durante muitos anos causou antipatia a sua obra. Mas Durkheim não pode ser meramente tachado de conservador, sua defesa das instituições se baseia num ponto fundamental, o ser humano necessita se sentir seguro, protegido e respaldado. Uma sociedade sem regras claras, sem valores, sem limites leva o ser humano ao desespero. Preocupado com esse desespero, Durkheim se dedicou ao estudo da criminalidade , do suicídio e da religião. O homem que inovou construindo uma nova ciência, inovava novamente se preocupando com fatores psicológicos, antes da existência da Psicologia. Seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da obra de outro grande homem: Freud.

Basta uma rápida observação do contexto histórico do século XIX, para se perceber que as instituições sociais se encontravam enfraquecidas, havia muito questionamento, valores tradicionais eram rompidos e novos surgiam, muita gente vivendo em condições miseráveis, desempregados, doentes e marginalizados. Ora, numa sociedade integrada essa gente não podia ser ignorada, de uma forma ou de outra, toda a sociedade estava ou iria sofrer as consequências. Aos problemas que ele observou, ele considerou como patologia social, e chamou aquela sociedade doente de “Anomana”. A anomia era a grande inimiga da sociedade, algo que devia ser vencido, e a sociologia era o meio para isso. O papel do sociólogo seria portanto estudar, entender e ajudar a sociedade.

Na tentativa de “curar” a sociedade da anomia, Durkheim escreve “A divisão do trabalho social”, onde ele descreve a necessidade de se estabelecer uma solidariedade orgânica entre os membros da sociedade. A solução estaria em, seguindo o exemplo de um organismo biológico, onde cada órgão tem uma função e depende dos outros para sobreviver, se cada membro da sociedade exercer uma função na divisão do trabalho, ele será obrigado através de um sistema de direitos e deveres, e também sentirá a necessidade de se manter coeso e solidário aos outros. O importante para ele é que o indivíduo realmente se sinta parte de um todo, que realmente precise da sociedade de forma orgânica, interiorizada e não meramente mecânica.

Refletindo sobre a importância da dependência entre os membros da sociedade, inúmeros estudiosos que se seguiram a Durkheim desenvolveram o q ficou conhecido como “Funcionalismo”. Creio que não é possível chegar a esse ponto sem lembrar de Marx conclamando a “união” dos trabalhadores. Uma união consciente dos indivíduos ou uma união dependente, de um jeito ou de outro, ambos se opõe ao individualismo possessivo, o que nos remete a dificuldade de convivência entre os homens. Mais de 1 século depois o conflito ainda não está resolvido, Durkheim se visse nossa sociedade ficaria chocado com seu grau de “anomia” e talvez ficasse decepcionado ao saber que os sociólogos já não querem mais “salvar o mundo”. Contudo, a História está cheia “durkheims” e continuará estando.

* publicado originalmente no site Duplipensar em 06/02/2004

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Ombudsman
Maurício Silveira dos Santos

A Inveja é uma Merda!
Olá caros leitores, senti saudades do Simplicíssimo (louvado seja!) enquanto caminhava pelas areias de uma praia qualquer de Santa Catarina. Digo praia qualquer porque as praias de Santa Catarina são óbvias. Obviamente belas com seus morros, trilhas, localidades pouco acessíveis ou escondidas e suas águas mornas e transparentes. Só a presença das pessoas tende a poluir a paisagem, me incluo no rol de detritos, é claro, mas tive o bom senso de ficar por lá pouco tempo porque o ócio é uma droga pesada e a dependência, pelo menos para mim, chega rápido e haveria o risco de não voltar nunca mais às misérias do cotidiano de trabalhador, pagador de impostos e flanelinhas e eterno angustiado que aguarda os fins-de-semana para se convencer de que a vida vale à pena. Não se preocupem leitores, o seu ombudsman não está deprimido, só está afiando o texto e se armando de alguns queixumes para parecer simpático.
Tenho de voltar à edição 60 do nosso amado Simplicíssimo para admitir a tremenda, a insuportável inveja que me possuiu quando vi o número elevado de comentários à coluna da minha colega ombudsman. Fiquei estupefato! Nunca tive sequer a metade dos comentários e esta ombudsman, uma novata, de uma só vez chamou tanta atenção... Quem ela pensa que é? Só porque falou mal da Marta Medeiros? É isso que eu preciso fazer? E também porque ela ousou criticar mais os autores do que os seus textos? É isso? Pois bem, então hoje movido por inveja, rancor, ressentimento e complexo de inferioridade não comentarei sobre o belo e divertido porém instável texto sobre vampiros do Diego Altieri e nem sobre os dementadores do LittleBrain, o eterno apaixonado por Harry Potter e sua turma mágica. Também não me interessa a redenção espiritual que o bigode do Eduardo Sabbi provocou em sua vida e nem a dificuldade que ele provou em seu texto terem as pessoas para serem menos repetitivas ou mudarem de perspectiva de vez em quando. Também não quero saber das aventuras “magalísticas” do Escrever por Escrever com muitos dados financeiros e bancários (poderia ter sido publicado no Financial Times) após a tragédia automobilística do nosso protagonista que, felizmente, só “matou” seu carro. Eu poderia dizer muito sobre os “Diálogos da Noite de POA”, mas só vou comentar que poderiam se tornar mais grosseiros, machistas e pornográficos, será que o autor está nos poupando de algo ou tem medo de ofender alguém? (sempre é um momento agradável entrar no universo escrotinho dos “diálogos” do Pedro S). Parece que não consigo me controlar, quase fiz uma coluna tradicional ... chega de falar dos textos. Paro por aqui. Estou enfurecido como Nietzsche com uma certa cultura cristã do séc-19 e louco de inveja da colega que me fez sentir sem talento nenhum! Será que um dia os leitores vão me criticar com dezenas de comentários? E se eu disser que a Marta Medeiros escreve mal e seus textos são óbvios? E que a Ivete Sangalo canta mal? Que o Paulo Coelho é o meu guru? Que amo o nosso presidente G. W. Bush? Que Porto Alegre é uma lamentável ilhota de civilização? Que o Simplicíssimo é uma m... isso eu nunca escreveria. Louvado seja !!
abraços e até mais.

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Desafio Simplex

Quem ganhou o Desafio Simplex desta semana foi Rafael Tourinho Raymundo, de Taquara-RS, que respondeu nossa pergunta da seguinte forma:

Acaso Deus criasse uma pedra tão grande que nem mesmo Ele pudesse carregar.

a. Se Deus criasse esta pedra, não teria a capacidade de erguê-la, logo não seria onipotente.

b. Se Deus não levantasse a tal pedra, não seria onipotente, pois não teria criado uma pedra que não pudesse carregar.

Este é um paradoxo que conheço há tempos, e por ele comprovamos que, se Deus existe, não é um ser onipotente.

O DESAFIO: Apresentar um argumento lógico que confronte ou desminta esta idéia.

O próximo desafio já está aí!

... continuem participando e divulgando o Desafio Simplex!
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e depois nos avise!


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

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