Simplicíssimo
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Pedimos desculpas pelos problemas técnicos apresentados nos dias 29 de fevereiro, 1º e 02 de março. Em função disso, a publicação da edição 65 será adiada excepcionalmente no dia 05 de março, com as participações sendo aceitas até as 18 horas do dia anterior.

Editorial

Com os olhos bem abertos... É assim que devemos nascer hoje em dia...
Em um mundo repleto de seres que querem nos passar para trás, onde a ganância torna a competição um jogo de vida ou morte, onde essa mesma competição parece ser uma alternativa mais viável que a cooperação...
Com os olhos bem abertos devemos permanecer, já que, mesmo não tendo feito requerimento em duas vias, autenticadas e carimbadas, nascemos. Nascemos e cá estamos, em um mar cheio de tubarões. Olho fechado, mordida na perna. Bateu o sono, nos arrancam os anéis e os dedos...
De que vale se valer de metáforas se nada mais há para ser dito... Tudo já foi dito, não foi? Vivemos então uma eterna repetição de palavras antes cheias agora vazias, somos vidas outrora cheias agora vazias, somos restos, outrora poucos e agora totais...
De que vale se valer de antíteses se somos a semelhança um do outro? Mesmo em nossas diferenças, somos iguais. Queremos as mesmas coisas, caminhamos na mesma direção. Buscamos todos prazer, felicidade. Todos rumamos inexoravelmente para a morte. Morte da célula, morte do corpo. Morte do Ser? Morte da Alma?
Tantas coisas para saber, tantas coisas para conhecer, tantas coisas para experimentar...
Tantas coisas para fazer, tantas coisas para amar, tantas coisas para sentir...
Será que somos mesmo os escolhidos de Deus? Será que Deus existe? E se existe, ainda tem controle sobre sua criação?
Será que somos mesmo os escolhidos de Deus? Ou somente mais uma experiência... Somos o caminho, ou nos atravessamos no caminho? Serão as orquídeas as escolhidas? Haverão escolhidos?
São mais perguntas do que respostas. Haverão respostas para todas perguntas?
São mais perguntas do que respostas. Há vida além da Terra?
Por que nos pré-ocupamos? Já não há tanto a fazer? Preencher a vida de significados, encontrar estes significados, convencê-los a permanecer em nossas vidas...
Por que nos pré-ocultamos? Nos escondemos sem saber do quê ou de quem... O medo é a regra... Cada um em seu canto, atrás das grades e das chaves de suas casas e de seus automóveis...
Poderia seguir escrevendo sem parar, aproveitar estas palavras vindo não sei de onde, mas algo me diz que é hora de parar...
...para seguir ali, um pouco mais adiante...

Rafael Luiz Reinehr

PS (importante!): estou saindo temporariamente da capitania desta embarcação e cedendo lugar ao estimado Eduardo Sabbi. Por motivos alheios à minha vontade, assumirei meu cargo de oficial do Exército Brasileiro em Santa Maria – RS e, por período indeterminado, manterei contato com o Simplicíssimo e com o Escrever Por Escrever de lá. Mas não sem antes dar as boas-vindas ao digníssimo Max Sachetti que publica conosco seu primeiro conto e também ao ilustríssimo Adalberto Queiroz, que nos dará a honra de manter uma coluna quinzenal (Simples Goyuchos) intercalando com o não menos ilustre Milton Ribeiro, despejando aqui sua soberba combinação de letras e palavras. O caldeirão vai ferver! Quem também faz sua estréia, não como colaborador mas como colunista é, ora quem senão ele, o digníssimo Eduardo Sabbi, que manterá uma coluna semanal chamada “em passant”, assim mesmo, com letra minúscula.
Sejam bem-vindos novos tripulantes e até a próxima semana, se os meios de comunicação assim me permitirem...

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Caro Lula
Daniel Rech

Permita-me a intimidade, afinal acompanho sua trajetória há muito tempo e sempre o tive como exemplo a ser seguido.

Era um sábado, presidente, quando peguei minha moto, minha namorada, minha bandeirinha vermelha com uma estrela amarela no centro e fui para o comício da vitória em Porto Alegre, o último antes da eleição. No dia eu tinha apenas 1 capacete, então fui multado, mas tudo bem, valia o esforço para pagar a multa em teu nome, em nome de um partido de 10 anos de lutas e que agora finalmente iria chegar à presidência do Brasil.

Eu acreditava muito na mudança, no fim da corrupção e desigualdade social, em um país melhor, apesar do apoio de Sarney e de muitos outros ícones do regresso brasileiro à sua candidatura. Eu acreditava que eles estavam sendo usados apenas para garantir votos e depois não chegariam perto do governo (como é idiota esse Sarney).

Você ganhou, peguei minha moto e minha namorada mais uma vez (dessa vez com 2 capacetes) e saí pra rua pra comemorar, encontrei um amigo que, com muita felicidade, me falou: - Não é todo dia que se muda um país.

No começo de seu governo, algo me pareceu estranho, não parece com que eu sempre sonhei, alguma coisa estava diferente, mas tudo bem, acho que não fui enganado, de acordo com José Dirceu, o começo deve ser assim para depois virem as reais mudanças sociais e políticas.

Passa um pouco mais de tempo e leio no Correio do Povo, na coluna de Armando Burd que Sarney tem mais poder agora do que na época em que foi presidente e que o PMDB, o mesmo que foi a base do governo FHC, é a principal base do seu governo. Comecei a me preocupar.
Logo depois descobri que você deixou o poder e o dinheiro subirem à cabeça, coisa que eu esperava de qualquer um, menos de um cara que lutou como você, um ex-operário, ex-sindicalista e agora um ex-humilde. Depois de ficar rodando num Ômega australiano, fumando (escondido) cigarrilhas holandesas, tendo licitado roupões de algodão egípcio, você decidiu comprar um avião, R$160 milhões gastos em um avião, que não é da Embraer, que não gerou emprego algum aqui no Brasil. Tem muita gente rica, rica de verdade, que não usa algodão egípcio, Lula, ao invés disso doam muito dinheiro para instituições filantrópicas. Esse dinheiro é nosso, presidente, é meu também e não quero que seja gasto dessa forma.
Agora sim, não há mais dúvida, eu fui enganado, apunhalado pelas costas, tudo foi uma grande farsa, você não é aquele cara de 1989 derrotado pelo Collor e pela Rede Globo, só pode ser um sósia, é a única explicação. Escrevo esta carta pra lhe pedir de volta, já que você está com dinheiro sobrando, o dinheiro que gastei na multa que levei no seu comício (R$120,00), o dinheiro da passagem de Porto Alegre até São Marcos que gastei só pra fazer questão de dizer que votei em você (R$20,00), a “contribuição” para filiação no partido fundado por você (R$4,00), o dinheiro que gastei com um broche do PT pra fazer campanha pra ti (R$2,00) e vou deixar de lado o tempo que gastei, os danos morais e o processo que eu deveria abrir contra você por estelionato eleitoral.
Você deve desculpas a seus eleitores e a muitos companheiros seus, pessoas que lutaram ao teu lado, pessoas com um ideal, pessoas com caráter e ética, o que eles pensam disso tudo? Junto com seu nome, você está jogando no lixo diversos outros, está jogando fora a história de um partido lutador, está jogando fora, principalmente, a única coisa que restava ao povo do Brasil, a esperança.
Se me perguntarem se eu votarei em você na próxima eleição, Lula, a resposta é bastante simples: - Não, vou votar na esquerda.

Daniel Rech
Engenheiro Civil
Av. Osvaldo Aranha 232 – Ap.44
Porto Alegre - RS

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Conto
Max Sachetti

Pulou da cama cedo naquela manhã, não que tivesse dormido muito, passara a noite toda acordado, sonhando de olhos abertos. Sonhando com a oportunidade de emprego que finalmente se abria a sua frente, seria esta a sua chance de sair da situação periclitante que se encontrava, a solução para os problemas mais básicos e urgentes.
Levantou-se e tornou a sentar na cama, gosta de lembrar dos devaneios que fizeram companhia a ele durante a noite. Tudo o que planejara, as coisas que faria com o seu primeiro salário. Com certeza teria mais prazeres, conheceria mais pessoas, quem sabe até arrumasse uma namorada, quem sabe.
Era cinco e meia da manhã, quando olhou para o relógio quase teve uma síncope, já estava se atrasando e nem fora admitido. Ainda tinha que tomar banho, pegar trem, metrô, andar mais um bocado, tinha que chegar a empresa as oito, sua entrevistava seria as oito e meia, queria chegar mais cedo, demonstrar pontualidade, interesse e vontade.
Correu para o banheiro, escovou os dentes, urinou, despiu-se, tomou banho, vestiu sua melhor roupa (um tanto usada já), perfumou-se com a colônia de barba que nunca tinha usado, fora presente de uma ex, achava frescura demasiada, mas no momento era a única coisa que lhe havia sobrado, teria que servir, não tinha escolha. Olhou para o relógio, seis e três, pensou que havia sido uma grande idéia barbear-se antes de dormir, ou melhor, deitar.
Lembrou de conferir a carteira ao sair, tudo em ordem, a grana da passagem e mais um pouco para o café, que teria que ficar deixar para depois da entrevista. Ao passar pelo portão, olhando de soslaio, viu que seu gato estava voltando para casa, riu-se dele e pensou que a vida de gato era boa, dormia o dia todo e a noite saía para caçar as gatas da vizinhança, quando amanhecia voltava para casa dormir enquanto o dia acordava. Vida boa do matuto, que aparecera em casa dia desses e nunca mais se fora, era o seu companheiro nas tristezas de sua enorme solidão. Muito mais do que a mãe, que após a perda do marido não saía mais da igreja, nunca quis saber de outro homem, nem a aliança ela tirara, passado treze anos e a vida dela era a igreja e os pastéis que vendia para completar a renda e ter o mínimo de conforto, se é que se pode dizer assim. Sorte a deles que recebiam a pensão do estado, afinal seu pai havia trabalhado como funcionário público e falecera antes de se aposentar, morrera cedo, aos quarenta e três, tempo suficiente para deixar uma esposa apaixonada e um filho que o conhecera pouco, mas sorte a deles terem a pensão.
Saiu então para a estação que por sorte ficava há seis quadras da sua casa, não precisaria tomar um ônibus, economizando um pouco seus trocados. Andava rápido como sempre, o calor incomodava e como não queria transpirar demais para não deixar sua camisa em sopa resolveu maneirar na caminhada.
No caminho, tirando a padaria do portuga, nada mais estava aberto, ainda não era hora do comércio quês estava fechado, com exceção do buteco “D’ouro”, onde já se via os dois bebuns da região tomando o seu “drink” matinal, pensava, quase em voz alta ao passar em frente ao buteco, que devia ser a única maneira de curar-lhes a tremedeira e que aquilo era uma vida indigna demais, abominava este vício, convivera com o pai que por diversas vezes chegara bêbado em casa, por sorte não era violento, ao contrário, chorava muito depois de ouvir a mãe passar-lhe o sermão, ela sempre dizia as mesmas coisas, que aquilo não era vida e o exemplo que dava ao filho não era bom. Achava até a cena um pouco estranha, sua mãe, uma mulher pequena de cabelos pretos escorridos dando broncas em um homem tão grande, que não dizia nada, apenas coloca suas mãos na face branca e chorava, ficando vermelho e dando um contraste engraçado com seus cabelos loiros. Ele sabia que o aquela mulher lhe dizia era verdade, por isso calava-se e chorava, morreu um pouco depois. Cirrose dissera a mãe, na época ele não entendera, mas hoje sabe bem e fica longe das bebidas, quando muito uma cervejinha, que a falta de dinheiro lhe impedia de tomar com os amigos nos fins de semana nas festas do bairro.
Chegando na quadra da estação percebeu que não era o único com pressa, centenas de pessoas, em todas as suas formas; gordas, magras, altas, baixas, uma variedade grande da espécie humana, espécie essa que se encaminha para sua própria extinção, lembrando do que tinha lido em uma dessas revistas sobre o mundo e as descobertas dos cientistas, ainda bem que previam isso para daqui muito tempo, assim podia continuar a sua vida tranqüilo.
Dentro do trem pensava em sua vida, até agora esperava que algo grande acontecesse, quem sabe não seria este emprego o primeiro passa para começar a construir um futuro bom? Quem sabe, ele sentia que sim, era sua chance. Estava de certa forma desesperado, tinha que conseguir, não havia muitas chances, ele agora tinha uma, precisava mesmo do emprego, para levar sua vida em frente. Para poder sair com os amigos, namorar, um dia quem sabe até casar, se encontrasse alguém e se o sentimento fosse mútuo, quem sabe? Quem sabe?
Já no metrô não prestava mais atenção a nada, só sonhava, sabia que se conseguisse o emprego o mundo mudaria para ele e com certeza ele também mudaria para o mundo, o salário era baixo, mas era inicial, a empresa é grande, ele era inteligente, haveria de se promover, quem sabe um dia ser encarregado, até mesmo chefe de algo, já se via dando ordens e as pessoas reconheceriam seu valor e sua inteligência, iriam obedecê-lo com certeza, nascera para aquilo, só não conseguira ainda por azar, mas agora a sorte lhe sorria, sabia que iria conseguir.
Seguia sonhando, tanto que quase passara do seu ponto de desembarque, saindo da estação vasculhou o bolso em busca do mapa que havia feito no dia anterior com a ajuda de taxista que sempre estava no ponto próximo a sua casa. Não conhecia aquela região, então fora em busca de um guia de ruas. Não sabia como usar o tal guia, fez-se necessária a ajuda do taxista, que simpaticamente o ajudara a traçar o mapa, isso o fazia ter mais certeza da sua sorte, pois, o taxista poderia estar de mal-humor, poderia não telo ajudado, mas ajudou sim e com muita boa vontade. Ficara ainda mais sonhador, a sorte finalmente lhe sorria. Achado e analisado o mapa, encaminhou-se para a empresa que não era nada longe, apenas oito quadras, consultando o relógio viu que ainda estava em tempo, não precisaria correr, ainda era sete e vinte e sete. Oito quadras em trinta e três minutos, seria moleza. Segui andando.
Em frente a estação havia alguns prédios bonitos, uma bela lanchonete com ar de limpeza radiante, carros novos pela rua, gente razoavelmente bem vestida, estranhara aquilo, pois, até mesmo o taxista dissera que aquele era um bairro pobre e feio.
Agora, já há quatro quadras da estação, conseguia perceber a verdadeira realidade daquele bairro, era como aquelas cidades de filmes antigos de faroeste, como se aqueles prédios fossem apenas uma armação de madeira sem recheio, e que cairiam e mostrariam a verdadeira realidade do lugar, tamanha era a discrepância entre a vista frontal e a vista interna do lugar, ruas esburacadas, esgoto a céu aberto, barracos que lembravam a torre de pisa tamanha era a inclinação, como se a próxima brisa mais forte fosse derruba-los, mas nada o abatia, afinal ele tinha uma entrevista, uma chance. Como se fechasse os olhos para toda aquela pobreza continuou andando, se conhecesse Pollyana, diria que fazia o jogo dela, mas não fazia idéia de quem era a tal menina, que mais tarde fora moça, nunca fora muito apegado a livros, achava-os por demais tediosos, lia quando muito uma revista, mas não perdia um só movimento do seu time, dava um jeito de sempre ler a página de esportes na barbearia próxima a sua casa. Mas, não nos prendamos a detalhes tão pequenos, agora ele já havia ganhado o portão principal da empresa, lá obtivera a informação de onde tinha que se encaminhar.
Chegou a sala o sete e cinqüenta e nove, uma mulher muito gorda e loira, de um loiro muito artificial, já que conseguia ver as raízes negras que desavergonhosamente se mostravam para o mundo, a mulher gorda sorriu-lhe e mostrou os dentes grandes e amarelados pelos cigarros que fuma com constância doentia, encerrou o sorriso tão rápido quanto o abrira e perguntou se estava ali para a entrevista. Assentiu com a cabeça, a mulher pediu para que se sentasse e espera-se alguns minutos. Sentou-se em uma cadeira desconfortável e viu a mulher gorda pegar o telefone e discar uns dois ou três números e depois de alguns segundos dizer algo que aos seus ouvidos era ininteligível. Desligando o telefone, ela olhou para ele e disse que estava com sorte, pois, a pessoa responsável chegara mais cedo e iria entrevista-lo agora mesmo. Era só caminhar pelo corredor à direita e bater na primeira porta a esquerda. Levantou satisfeito e disse obrigado sorrindo, mas por dentro vibrava, era sorte mesmo, ele sabia, a sorte sorria-lhe.
Ao entrar na sala, avistou um homem baixo e um tanto calvo, seu nariz destacava-se no rosto fino de olhar esperto, pediu-lhe que se sentasse e fez um longo discurso sobre a empresa, transmitindo-lhe a importância e o tamanho da corporação que já atingiu todos os países vizinhos, há dois anos também fundara sedes em alguns países estrategicamente escolhidos em outros continentes, o homem baixo falava muito e com muito entusiasmo, parecia realmente apaixonado pela empresa e seu tom de voz dava-lhe a impressão de magnitude, como se por acaso ele não trabalhasse naquela empresa a mesma não teria alcançado o mesmo sucesso. Mas isso não fazia com que de desdenhasse dele, pelo contrário, alimentava ainda mais a certeza de que iria ter muito sucesso e que se abria um futuro brilhante bem a sua frente.
O homem baixo começou a falar sobre os encargos da função disponível, o que não era nada complicado, tarefas simples, horário razoável, nada o impedia de trabalhar na empresa. Então, como um passe de mágica tudo aconteceu, o homem baixo propôs-lhe um período de três meses de experiência, garantindo salário, transporte e alimentação que seria feita no refeitório da empresa. Tudo acertado, começaria no outro dia, mas antes ele conheceria toda a empresa e o seu local de trabalho. O homem baixo pediu que esperasse na sala de entrada, um encarregado viria buscá-lo. Saiu da sala radiante, impossível lhe era esconder o contentamento, a sorte estava do seu lado e desta vez viera para ficar, ele sabia, ele sentia. Um novo mundo começava para ele, as portas finalmente se abriam, estava feliz pelo futuro brilhante, que sabia, ele iria ter, merecia isso e estava dando os primeiros passos nessa direção.
O encarregado era um homem alto, muito magro, de cabelos cor de fogo e olhos muito azuis, de um azul que parecia saltar da retina, foi logo lhe dizendo para segui-lo e mandou colocar o capacete extra que trazia em sua mão esquerda. Colocado o capacete, encaminharam ao setor da empresa onde ficavam as máquinas, depois de explicar-lhe duas vezes quais seriam os seus encargos, o encarregado foi mostrar o resto da empresa. Não tinha o mesmo entusiasmo do homem baixo, confidenciou que o importante era cumprir bem as tarefas exigidas, a empresa sabia reconhecer os bons funcionários e por esse aspecto em particular, era um ótimo negócio trabalhar, ouvia isso enquanto conhecia o resto da empresa, o refeitório – pena não ser hora do almoçou, pensou – e o escritório, o qual não entrou, apenas foi-lhe apontado e explicado que entraria ali uma vez por mês, fora isso só para ser despedido ou promovido, dizendo-lhe isso, o encarregado fez menção de que era tudo por hora e que podia ir para casa, e volta-se no dia seguinte para iniciar no trabalho.
Sorte, pensava ele e foi andando pelas quadras a caminho da estação, afinal estava empregado, iria correndo contar a sua mãe, lhe diria, só parar agrada-la que se não fosse por ela rezar tanto por ele jamais teria conseguido, sim senhor, faria isso, estava feliz, iria poder comparecer as festas com os amigos, até arranjaria uma namorada e que esse mundão, enfim sorria para ele.
Chegando em frente à estação resolveu parar na lanchonete que transpirava ares de limpeza, resolveu então que faria uma extravagância, de acordo com o que sua carteira permitia. Abriu a carteira, contou os trocado, pediu um bom lanche e um chope, ainda teria dinheiro para voltar para casa, o necessário para o dia seguinte pediria a mãe, pois, agora teria salário e poderia pagar este empréstimo assim que recebesse. Devorou o lanche com calma, saboreou o chope como se fosse um vinho francês, como vira em um desses filmes da tv. Pagou o lanche e pediu dois chicletes de troco ao homem do caixa.
Ao sair em direção ao metrô lembrou-se que tinha todas as razões do mundo para estar feliz, e que nada por hora o deixaria triste, nada mais o levaria de volta a depressão que sofria sem saber e por achar que nada o abateria foi atravessando a rua sem olhar e não viu o caminhão que acelerava para atravessar o cruzamento antes que o semáforo fechasse, o motorista também não o viu, preocupado que estava em olhar o semáforo, não queria ser multado. Mas ouviu bem o barulho da batida.
Ao cair, não entendia o que estava acontecendo, era como se flutuasse no nada, e nada houvesse a sua volta. Por um instante chegou a pensar que estava meditando, igual fazem os tais orientais de cabelo engraçado que vira em uma revista da barbearia, ficou ali, caído sem saber, estava longe, longe do corpo, flutuando em um espaço que não existia. De repente sentiu uma pancada no peito e tudo fez sentido, viu então homens com olhares suspeitos, um certo tom de preocupação em seus semblantes, suas vozes rápidas e enérgicas. Viu que um deles dirigia a ele as duas mãos na altura do peito, então sentiu outra pancada e o sentido fez ainda mais sentido, agora compreendia tudo. Já tinha visto aquilo em um filme da tv, ele estava morrendo. Mas não podia morrer, e não iria, ele estava com sorte demais para morrer, não ia permitir isso, ele tinha sorte, sabia, o mundo estava se abrindo para ele. Mais uma pancada, agora ele conseguia entender o que as vozes diziam, ele estava voltando, sabia desde o começo que iria viver, a sorte esta lhe sorrindo. Começou a pensar em sua mãe, ela tinha criado um filho forte, que iria escapar dessa para poder lhe dizer sobre o emprego, para faze-la um pouco mais feliz. Foi quando ouviu um dos homens dizer ao que estava do lado, que o rapaz tivera muito azar.
A menção do azar fê-lo refletir sobre tudo que acontecera, sobre como a sorte lhe fora cruel, e se escapasse com vida a empresa poderia não esperar por sua recuperação, perderia o emprego sonhado, então lembrou do seu gato, quem faria companhia a ele? Como se alimentaria naquela casa? A mãe provavelmente não lembraria do gato. Que azar tivera o pobre coitado e que azar o dele próprio, ia perder seu companheiro. E ao admitir pela primeira vez que aquilo era muito azar, tudo se escureceu.
A mãe aceitara, relativamente bem, a perda do filho. Acreditava em Deus e acatava suas decisões, sofrera muito e entendia da sua maneira a solidão que agora mais do que nunca seria sua companheira.
Quem não entendeu foi o gato, ficara de repente, sem o carinho de todas as tardes nos seus horários de sono, tanto que não entendeu, mudou de casa em busca de um novo chamego.

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Simples Goyuchos (1)
Adalberto Queioz


Do Paranaíba ao Guaíba

No início era a pradaria e um tropel de cavalos. A tropa e os tropeiros só
marcharam ao mesmo lado mais tarde. O brasil meridional, marcado pelo fenômeno generoso do pampa gaúcho nasceu assim com a mágica do campo e a figura do campeiro. O gaúcho.
Depois, vieram as guerras e com elas, marcada a ferro e fogo, a presença de brasileiros com direito a um nome: gaúchos.

O Brasil central, no início, era a estepe. E da estepe brotaram o ouro, a
esmeralda e o homem do campo. Com o fim das minas e dos aluviões, vieram os campos e a noção de distância (Goyaz é muito longe...).
A lua e a dolência do que sonha à distância do reino marcaram corações em brasa para brasileiros de um nome que a poeira do tempo quer apagar: goyanos.

Se as duas porções do Brasil fazem parte da sua geografia interior, você
provavelmente será um leitor dessas croniquetas. Há os rios que nos
acompanham em nossos pesares e sonhos. Há os livros, as canções e as
tradições que nos encantam e nos divertem, em nossa busca por marcar a nossa permanência no mundo

Haverá lugar para as preces e as rezas, as ladainhas e as festas, as danças e os folguedos. À promessa ao amigo Reinehr que anima o Simplicíssimo, sob a égide de nossa proximidade no espaço virtual, começo respondendo motivado pela distância geográfica, com esta primeira crônica que ressalta a dimensão mais importante desses dois braseiros (brasis) que batem ao lado esquerdo do meu peito - somos movidos pela distância.

O cronista Alceu de Amoroso Lima saudando um de meus poetas prediletos - o gaúcho Augusto Meyer, lembrava que a correspondência intensa entre os dois escribas, minguara quando Meyer rompeu a ponte Guanabara-Guaíba, estabelecendo-se no Rio. E lamenta que essas cartas "nunca mais se renovaram!"

"A distância, dizia La Rochefoucauld, é como o vento, que apaga as velas e ateia os incêndios. O amargo moralista aplicava a imagem apenas ao amor. Podemos também levá-la aos domínios da amizade."

Os fados, dizia Amoroso: com a proximidade desceram também sobre eles "a cortina do silêncio que a proximidade, por vezes, engrossa mais do que as distâncias...".

A distância nesse caso é o obstáculo geográfico entre os dois brasis, que uns poucos superaram na década de 70, como eu, quando me mudei para Porto Alegre e como muitos que vêm se mudando para a dita "última fronteira agrícola", chegando a Goyaz nos tardios 80 e que continuam fazendo até hoje.

Em Goyaz, grafado assim pela nostalgia, as nações indígenas e os negros dos quilombos plantaram um Brasil Central totalmente diferente do quadrilátero em que se erigiu Brasília.
Os que vieram em busca de um El-Dorado nunca de todo realizado não saíram de mãos vazias nem sua generosidade foi esquecida no canto dos poetas do passado que se somam ao canto dos atuais. Goiás é um pedaço do Brasil que guarda na Cidade de Goiás (antiga Vila Boa) e em Pirenópolis o melhor de nossas tradições.

E se puder aproximar os Simplicíssimos leitores dos dois gentílicos surgidos com o correr do homem no pampa e a sua presença no cerrado, nos grotões do sertão ou na distância dos banhados pampeiros - eu terei logrado criar um novo verbete que já está na boca dos meninos que freqüentam os CTG´s em pleno cerrado e dos moços que se educam nas universidades e nos cursos de extensão de Porto Alegre: repetiriam comigo: somos "goyuchos".

Da goyana terra, transcreverei poemas e canções como esta que fecha a
primeira crônica, sempre procurando cruzar o vau, juntar os dois veios d´água viva que encantam nossa gente, retratar a beleza que escorre nos seres e nos rios generosos de Goyaz - Araguaia afora, e do Rio Grande como o Guaíba. (AQ).

Goyaz (*)

Terra moça e cheirosa
(...)
Nome bonito - Goyaz!
Que prazer experimento
sempre que o leio
nos vagões em movimento,
com aquele Y no meio!

O fordinho e o chevrolet,
rasgando campos, furando matas,
vão, a trancos e barrancos,
rumo às cidades pacatas
que brotaram no sertão.
(...)
Nas pautas musicais
do arame dos mangueiros,
que gênio irá compor
os motivos dos currais,
os desafios brejeiros
e as cantilenas de amor?

Goyaz! recendente jardim,
feito para a volúpia dos sentidos!
Quem vive neste ambiente,
sorvendo o perfume de seiva
que erra no ar;
quem nasceu numa terra assim,
porque não há de cantar?

(*) Fonte: "Ontem", de Leo Lynce (1928), transcrito por G.M.Teles in A Poesia em Goiás, Ed. UFGo, 2.ed., 1983. p.299/300.

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

De Fim de Mundo, Novela e Carnaval.


Não sou dado a tais tipos de elucubração de ordem mais sociológica [mentira, de vez em quando me pego fazendo considerações absurdas sobre todo o mal do mundo, suas conseqüências, origens, ramificações, etc], nem pertenço a nenhum grupo religioso fundamentalista que ainda consiga se escandalizar com – oh, meu Deus! – o mundo nos dias de hoje. Mas a verdade é que, ultimamente, aqui no serviço, andamos em uma brincadeira sobre o fim do mundo. Para falar a verdade, nem era disto que eu ia falar, mas eu já chego lá: tem um matemático que diz que descobriu o código contido na bíblia, que explica todos os grandes eventos dos dias atuais e vindouros e blá, blá, blá, até andou publicando dois livros – best sellers, é claro – chamados “O Código da Bíblia”. Não, não li. Dei aquela pesquisada de curioso na Internet, folheei o exemplar de um amigo e descobri, pelas especulações do autor, que O MUNDO VAI ACABAR EM 2006!! É, em caps lock! Coisa de louco, né? Pois, então, aproveite o que tem para aproveitar, que mais dois aninhos e babau! Aquela coisa: uma grande bola de fogo, ou então uma grande guerra entre TODOS [é, eu disse TODOS], os países do mundo, ou coisa tão grandiosa que o valha, é o que vai acabar dizimando nosso planeta e matando todos estes viventes por aqui até o Passo Fundo e adelante e adelante...

Mas, como eu havia dito, não era sobre isso que queria falar. A conversa, então, é sobre novela. Ah, futilidade, e tal. O lance é que, infelizmente, na atualidade não se pode falar de cultura contemporânea sem falar a respeito das telenovelas. Que estão mais do que profundamente arraigadas no gosto do público é fato notório. Que vez ou outra surgem estudos mais ou menos aprofundados a respeito de sua natureza, suas conseqüências, influência sobre todos os outros tipos de manifestações culturais e sobre a sociedade como um todo, também é fato conhecido. Bem sei, na faculdade de comunicação social o que tenho visto de teses e monografias sobre o assunto. Faz-se análises sobre pontos de vista inacreditáveis, abordagens profundamente originais e cujas proporções dificilmente passariam pela cabeça de um cidadão mediano.

E o que levou a mim a tais considerações? Bem sabemos que longe está o dia em que nas telenovelas alguma coisa de original se produziu. Há tempos, as tramas folhetinescas têm se alternado com os mesmos e repetitivos princípios narrativos inalteráveis. Mudam os nomes [embora, na emissora “grande mãe”, os atores sejam quase sempre os mesmo, com o cuidado de alternar um ou outro recém chegado da malhação...], a sinopse procura enveredar para uma originalíssima história, mas, descontadas as devidas e distantes exceções, tudo continua na mesma: temos, invariavelmente, um casal apaixonado lutando de todas as maneiras para ficar juntos, atrapalhados em seu intento por um terceiro que nutre uma paixão obsessiva por um dos protagonistas, ou então por um pai ou mãe totalmente contrária à realização suprema do amor desta dupla. Quase sempre as classes sociais são grosseiramente divididas entre os ricos, ricos mesmos e os pobres [embora os pobres quase nunca sejam pobres o bastante para não ter instalado telefones em suas casas para qualquer eventualidade dramática], num embate que acaba por ocupar a trama com seus intentos que acabam refletindo sempre o princípio básico do bem [pobres] contra o mal [ricos].

Descontada tal introdução, o que realmente tem ocupado meus pensamentos e das pessoas com quem tenho conversado, é referente a mais atual das novelas, “Celebridade”, do horário “das oito” da Rede Globo. Distante de formarmos um grupo de malditos moralistas, o que se tem mostrado na novela tem sido alvo de algumas discussões pelo tipo de reflexo obtido na vida real. Mais especificamente, centrando-nos na personagem “Darlene”, da atriz Deborah Secco, ainda que não unicamente nela, é visível em demasia, e tem sido utilizada como exemplo, principalmente pelas meninas que acompanham a novela, o comportamento completamente devasso e pernicioso da personagem. Darlene é uma personagem, que, para obtenção de seus objetivos, em uma obsessão que chega às raias do risível, tal é a arbitrariedade de tal vontade, não mede esforços e nem hesita em transar e em se relacionar sordidamente com qualquer homem, para conquistar “a fama”. Esta última, sempre dita com esta subjetividade pela personagem, não é reflexo de algum sucesso que poderá conquistar pela demonstração de algum atributo seu - artístico, bem dito - , além da beleza da própria figura. Darlene é a manicura de um bairro pobre do Rio de Janeiro, sem qualquer propensão artística, nem à cada vez mais permeável carreira da “interpretação”, que almeja desesperadamente, chegar ao sucesso, representado por ter uma capa na revista “Fama”. Como se manterá no sucesso é questão que não considera. No entanto, o que faz para alcançar seus objetivos é alarmante. A facilidade com que troca de parceiros e faz acordos escusos para a conquista de seus intentos vai ao longe de qualquer exemplo que se queira passar para uma filha da mesma idade. Não, ao não pertenço à Tradição, Família e Propriedade, mas quando me dou conta de que suas atitudes – tanto na maneira de se vestir, quanto referente à suas gírias e trejeitos – vêm sendo copiados à grande pelas meninas em idade de identificação, é que me dou conta do disparate disto tudo. A mesma superficialidade que aplica para seus relacionamentos, é sem dúvida, o exemplo seguido pelas garotinhas que, mais do copiar seus saiotes curtos de jeans e suas meias coloridas, têm encontrado identificação na permissividade de seus casos. O reflexo das suas atitudes é visível quando se passeia por um festival como o “Planeta Atlântida”, por exemplo, e são ainda mais nestes tempos de Carnaval. A ordem do “ficar com quantos mais se puder”, é a motivação do momento, e o poder de influência de uma novela com tal audiência é medido nos hábitos da população em geral.

A Rede Globo engendrou um interessante jogo de relatividade nesta novela. Como? Ora, no momento em que a própria novela toma para si a missão de “mostrar” a indústria das celebridades, da busca de sucesso desmedido a qualquer preço, não está fazendo mais do que antecipar-se a um assunto que era objeto de estudo não de uma indústria do entretenimento, mas de pesquisas sociológicas e quetais. Tomar para si mesma a possibilidade de cair em cima de um fato que é notório que é produzida pela própria, que é todo o mundo superficial e de vaidade desmedida que cerca a produção de celebridades, é tornar o assunto esgotado e enfadonho para análises mais aprofundadas. Ou seja, é tornar tal fato desgastante, algo corriqueiro, minimizá-lo para a esfera do cotidiano, para que passe [ainda mais] a não ser visto com a peculiaridade devida, mas como mais uma obra ficcional devidamente produzida e regurgitada pela gigante do entretenimento televisivo no Brasil, e uma das maiores do mundo.

A Rede Globo adapta seu próprio discurso como se produzido por outrem. Ou seja: ela cria um fato [que é a indústria das celebridades, realmente], joga-o na esfera do domínio público, como se por ela não fosse produzido, e o pega novamente, para elaborar uma obra ficcional, como se fosse a análise de um fato produzido por outrem. O que acontece é que ela se insurge de um duplo poder - primeiro ao produzir um fato e depois ao devolvê-lo duas vezes de maneira diferente: de forma não-ficcional, e, agora, de forma ficcional, como se fosse a análise fria de um acontecimento, de um evento, de uma banalidade não gerada por ela própria! Deus, isto é enlouquecedor!

Na realidade, na sua esperteza, a Rede Globo está produzindo um “fato” e lucrando em cima dele de todas as maneiras. Tanto que confunde, de certa maneira, ficção com realidade, ao colocar em circulação – ainda que por tempo limitado – a revista existente no mundo da ficção “Fama”, como um produto táctil, ao alcance do “mundo real”. Neste jogo de dualidades, confunde espectador, e, de maneira sociológica, praticamente iguala as relações, como se o que valesse, comportamentalmente na ficção, também se fizesse valer na realidade. Desta maneira, não se censuram e – melhor para a emissora, com seus licenciamentos – mas sim se copiam, comportamentos e modismos. Tudo vira uma grande festa, um grande bacanal a embalar os cofres da emissora e a tornar ainda mais tênue os limites do aceitável. Quando tudo passa a ser tolerável, não se questiona que os atores confundam-se com seus personagens, de tal maneira que romances protagonizados na novela têm continuidade na vida real. Um belo jogo estratégico, muito bem planejado e até então, bem aceito por aqueles que continuam contribuindo para que este jogo se fortaleça ainda mais para os financeiramente beneficiados.

Ah, já ia me esquecendo... Sobre Carnaval? Bom Carnaval a todos e ziriguidum-tele-teco.


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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Til e CIA


Uma amiga já tinha lhe dado a letra, mas ela não fez daquilo uma aposta. Não era do seu caractere sair por aí enlouquecida pelo que os outros diziam. É certo que quando enlouquecia era difícil conter seu ímpeto, mas isso só acontecia vez que outra, em presença de tinta rara. Costumava criticar o sedutor apelo da G, sempre gabando-se pelo ponto que era só seu, mas também não poupava a Z quando se repetia em sua enfadonha sonolência. Na verdade tinha se tornado uma crítica e tanto, ao que todos apontavam como o principal motivo de sua solidão. Que fosse, melhor assim do que ficar sempre abanando o rabo como a Cê Cedilha, que nunca se acertou nem com ela, nem com o I. Eles não gostavam mesmo de rabo. Dizem que sempre chamavam o U quando a charmosa Q aparecia com seu penduricalho. Mas isso não nos interessa muito agora, já que vou lhes falar da aparição de Til.

Poderia ter sido qualquer um, poderia não ter sido ninguém. Mas o alfabeto não lhe deu escolha. Tudo foi acontecendo sem que se desse conta, sem saber ao certo que acontecia, mas era fato e, inegável com tal, acontecia. Era viva e perspicaz a ponto de saber que algo lhe faltava, que havia perdido sua tônica e há muito não se sentia bem nos encontros casuais tanto com as principais (as da voga) quanto com as consoantes. Mas Til apareceu do nada, como sempre acontece em contos como esse e suponho não precise eu ficar me delongando nessa parte. E apaixonou-se por Til mesmo antes de ver sua bem torneada silhueta. As mesmas que eram o centro da inveja do Circunflexo e muitos Parênteses já tinham aberto. Aliás, a esposa do Parêntese já estava de saco cheio, pois sempre tinha que aparecer para fechá-lo. Mas só ela podia fazê-lo, pois o completava como ninguém. Claro que não eram os únicos. As Aspas que o digam, pois andavam costumeiramente juntas do início ao fim. Ah sim, as curvas de Til. Balançaram-na por completo, encheram-na de motivação. A cada dia, não via a hora de ao menos falar com ele. Sentia-se com mais brilho, tinha outra harmonia. Todos perceberam que ela soava diferente, independente da tinta ou do papel. As paixões fazem isso com todo mundo ou quase todo mundo, acredite. Aliás, não sei se peço para vocês acreditarem na regra ou na exceção. Pois todo mundo nesse mundinho segue ora uma, ora outra.

Til? Til não estava nem aí. Surgia com seu charme, dava o ar da graça, mas logo ia fazer outra cabeça. Páreo duro ele, nem queiram saber. Não que ela não tenha insistido ou feito o possível para mantê-lo sobre si. É que Til insistia em respostas vagas. Nisso ele era bem diferente do Agudo e do preciso Pingo no I. Por vezes sentia-se tão maltratada, como se ele a estivesse pisoteando. E foi assim que aos poucos as aparições de Til foram tomando tom fanhoso, cansativamente fanhoso diga-se de passagem. E como teve até quem zombasse de sua história apaixonada, resolveu guardá-la para si, até que não fosse possível agüentar as pontas. Até que esse dia chegou. Convenceu-se de que Til não lhe servia e lamentavelmente concluiu o que todos o fazem, quando o fazem. Til era igual a toda a sua CIA, igual a todos os outros acentos, fossem eles virados para cá ou para lá, retos ou curvos. E então foi uma pena. Que mais posso contar para vocês? Deu-se assim mesmo, sem final feliz. Não posso fazer nada. Terminou como se nunca tivesse começado, como se não fora real. Ficou ali, perdido num site, como um texto qualquer, assim, com todas as suas letras.

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Diálogos da noite de PoA
Pedro Schestatsky

- MATARAM O PC! DIZEM QUE FOI QUEIMA DE ARQUIVO!
- NOSSA! MAS E AÍ, ELE TAVA AFINAL COM UNS ARQUIVO EM CASA?
- PARECE QUE SIM. QUEIMARAM TUDO!
- PUTZ, VAI TER QUE FAZER TUDO DE NOVO...



_____________________________________________________

- Aí foi o seguinte véio: fiquei com ela direto, sem rateada. Fiz de tudo
com a mina e não deu outra. Levei para a minha casa. Aí só vendo. Precisava
ver a minha performance. Domínio, cara, domínio. Isto é tudo na hora da
transa. Virei ela de tudo quanto é jeito. Demoramo umas três horas, ela era
insaciável. Sussurava no meu ouvido que era o melhor sexo que ela já tinha
tido. E o papai aqui não decepcionava e mandava vê, com maestria e domínio.
Domínio é fun-da-men-tal.
Silêncio... O outro, mais modesto:
- Tô beijando tri bem.

_____________________________________________________

- Dizem que o espirro é 1/12 do orgasmo!
- Duvido
- Ah tu duvidas? Isto é porque tu nunca...
- Nunca o quê? Hein?
- Espirrou!


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I-Racional
Pedro Volkmann

(M.)S.O.R.T.E.


“Os números complexos sempre existiram ou foram criados pela mente do homem moderno?” Jean Piaget – tradução livre


Felicidade é um filme que passa em nossa vida de vez em quando. Mas no filme do cinema, um dos esquetes é sobre dois casais e um caminhão que quase cai na cabeça deles numa ponte. Esta história ilustra o indeterminismo, mas tem um final feliz. O mais estranho é que poderia não ter dado certo e ter causado um acidente que mudaria para sempre as vidas deles. Dois ou mais fenômenos determinados, corretos, correlatos ou não, entrelaçados sincronicamente causam um acidente. Bilhões de Trilhões de fenômenos determinados (etc, etc) e outros tantos indeterminados entrelaçados sincronicamente causam a vida. Seria nossa vida puro acidente? Ou um mero incidente? Nossa vida depende da existência do tempo?
De outro lado, tem um filme que chama Óleo de Lourenço que mostra a situação de um menino com uma doença terminal e que todo mundo tem pena, mas não luta para resolver seu problema. É a história de um casal que luta, luta e salva a vida dos filhos dos outros. E, depois, tem um livro que é nossa própria história que chama “A Roda da Vida”, que fala sobre a frieza no tratamento com necessitados.
Qual é o lado verdadeiro da moeda? Lutar ou morrer? De que lado está a (m)sorte? (Deus está do lado de quem vai vencer...) Está certo que morremos em cada escolha, cada sim e não. Mas não adianta, o que move o mundo é o amor. Porém, não fique me achando romântico demais, porque não é disto que estou falando de amor de verdade, que luta e que bate. É intenso bastante para lutar por comida e sereno o bastante para saber perdoar. Porém a maldita necessidade de se manter posição, o ego ruim de que me fala meu amigo Renato Abuchaim, que faz com que “assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”. Pois é, mas a sorte está ai para determinar as coisas, quem fica e quem vai, quem ganha e quem perde. Quem ama e quem desama. Um dia você não fica com a garota porque está cansado, no outro seu carro quebra e vem um gaiato e se apodera. E você casa com a Gisele Bünchen... Como saber o que está certo e o que está errado, pois em determinados níveis de percepção isto não mais existe? Aliás, como diz o ditado: tudo vai acabar bem, se não está bem é porque não acabou ainda. Benditos finais, malditos começos. Celebre a vida, celebre a morte. Vivemos numa luta inglória, com poucos momentos de equilíbrio, na corda bamba da vida.
Na nossa vida, o acaso não é por acaso, mas não acredito em determinismo, pois somos donos de nosso livre arbítrio. A felicidade está sempre a nossa espreita, logo ali, a uma esquina de distância, em qualquer dimensão ou tempo.
Então viva feliz, afinal de contas, você já parou para pensar quantas vezes você se deparou com ela?


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Dupliartigo: Entre o Carnaval e os carnavais*
Márcio Salgues

No carnaval a vida muda. O país muda. As pessoas mudam. Tantos pudores cotidianos são esquecidos. Os desejos mais íntimos afloram à pele nos carnavais das ruas e dos bailes. Não há Josés, Marias, Franciscos, nem outras pessoas que sejam. Há, sim, foliões lançados ao transe coletivo, à catarse coletiva dos desejos oprimidos no dia-a-dia em nome de uma suposta vida normal. Não há a necessidade de dissimulação para consigo mesmo. Os foliões se entregam aos folguedos e à libertinagem.

O carnaval é a festa que melhor representa a cultura brasileira em todos os seus aspectos. Num misto de tradições populares e antigas tradições pagãs. É a união de inúmeros personagens míticos e folclóricos: Baco, Momo, Pierrôs, Colombinas, Baianas das enormes saias que rodopiam nos desfiles, corpos lânguidos que saracoteiam pelas ruas exalando sensualidade, luxúria e o cheiro do cio que enche a atmosfera libertando os pudores; os carros que fazem suas alegorias à temas diversos, o gigante Galo da Madrugada... O mundo pára. A vida pára.

Durante quatro dias, ninguém mais se preocupa com as oscilações do mercado, com a cotação do dólar, com os baixos salários, com os escândalos de todos os dias, com a corrupção, com a pobreza, a miséria, a fome... Tudo é festa. Festeja-se a própria insensatez. Todos se entregam à ilusão temporária a que chamam alegria, até que chegue a quinta-feira e todos retomem suas velhas e rotineiras vidas.

Carnaval é a festa de todos. Não há distinção de classes. Não há luta de classes. Ainda que as diferenças se façam perceber na magnitude dos bailes nababescos e dos camarotes VIP dos endinheirados, celebridades descartáveis e candidatos à celebridade descartáveis; onde os “colunistas sociais” se esfalfam nos regalos e bajulações. Título curioso, aliás, para uma categoria que não se vê no meio do povão, nas arquibancadas dos desfiles das escolas de samba, nas ruas, onde os corpos suados pululam ao som dos trios-elétricos, dos blocos de rua, das orquestras de frevo, Caboclinhos, Maracatus, Bois-Bumbás e todas as manifestações populares pelo Brasil adentro, onde está o verdadeiro carnaval.

Os carnavais dos versos de Nelson Ferreira, Chiquinha Gonzaga, Braguinha, Edgard Moraes e tantos outros grandes nomes da nossa cultura se perdem aos poucos, salvo iniciativas de grupos isolados... Saudosismo dos blocos líricos e antigos carnavais? Não sei... Não vivi esses tempos. Apenas conheço as canções dos carnavais poéticos...

EVOCAÇÃO Nº 1
(Nelson Ferreira, 1956)

"Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos famosos
Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apôs-Fum
Dos carnavais saudosos

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
E era o sucesso dos tempos ideais
Do velho Raul Moraes
Adeus, adeus minha gente
Que já cantamos bastante
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia..."

... Apenas sinto a estranha sensação de que a nossa cultura aos poucos vai sendo canibalizada. A poesia, o lirismo, as tradições folclóricas vão sumindo. Os carnavais da grande massa popular aos poucos vão se tornando em imensas feiras livres, cujo único objetivo é a venda de pretensas musiquinhas irritantes, abadás e cervejas de todas as marcas. E que, como fonte de lucro abundante, se prolifera nos chamados “carnavais fora de época”, onde se despejam, como que num grande buraco negro, todas as mazelas que açoitam nossa sociedade. Esconde-se o lixo debaixo do tapete.

E assim, embriagados nos delírios desses dias de folia, a vida segue seu rumo. Despercebida e com poucos ideais e ambições. A sociedade vai sendo ludibriada e a cultura histórica se transforma numa cultura descartável, como tudo mais na sociedade moderna. Assim fazemos a distinção entre o carnaval do engodo e da ignorância e o carnaval da cultura e da diversidade histórica que precisa ser massificado.

E esse carnaval verdadeiro, enquanto houver iniciativas por parte daqueles que cultuam as nossas tradições, será sempre a maior manifestação cultural e popular brasileira.

* publicado originalmente no site Duplipensar em 20/02/2004

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Ombudsman
Eduardo Hostyn Sabbi

Bom prezados leitores, aqui estou eu a preencher este espaço de forma interina (e quase inteirinha também) devido às circunstâncias que desconheço (e portanto vocês também vão ficar na curiosidade).

Pois não é que a edição sessenta e três (coisa de ombudsman) começou com um editorial ao mesmo tempo poético e bombástico? Maiores explicações do Sr. Rafael vieram nos comentários e ... puta que pariu, que ódio da Pátria Amada Brasil!

Depois Nora Borges esbanjou seu talento descritivo. “São tantas as histórias dentro das histórias!”, dela própria, resume tudo. Daniela Castilho me fez prender a respiração para saber logo o final da estória que, ao contrário de Marcel, encurtou a distância.

E claro que não seria a Cristiane Martins que me faria inaugurar a sessão porrada desse precário ombudsman. Gosto muito do jeito dela escrever. Bastante realístico e profundo, tal qual o nome de sua coluna.

Seria o gato do Alessandro Garcia o mesmo que fudeu com a dissertação do César Schirmer dos Santos? Vou sugerir uma enquete ou a presença do magnânimo Holmes, que também nos ajudaria a saber porque o romance da dona Ataíde nunca será lançado, pois deveria.

Caramba, o texto do Rafael com seus bem bolados projetos sociais me lembrou que estou em dívida para começar a escrever aquele livro com ele. E o Maurício Pigmeu que nunca mais saiu em companhia da gatíssima da sua irmã? Acho que assustamos ele, ela ou ambos. E em clima mutante como em “Tudo foi feito pelo sol”, o digníssimo Rafael Reinehr encerra a brilhante coluna Escrever por Escrever. Sim caro amigo, é da vida.

Tá Pedro S. (é um sobrenome difícil), lembrar do neguinho sambista e colorado Sabará, tem seus méritos. A moça deve estar envergonhada mesmo, quem, no lugar dela, não ficaria? Já o Pedro V (só por uma questão de justiça), segue cada vez mais I-racional. Falei pra ele que não precisava ficar dando explicações no final de louvável poema. Haja paciência! Bem feito, vai levar um puxão de orelha em público!

Nada contra a Valesca (aliás, vodka é Valesca – que faz o marketing hein?) e seu texto bastante interessante, mas fui lá no site Duplipensar e não vi um artigo do Simplicíssimo. Talvez eu tenha entendido errado a parceria ...

E chegou a hora mais esperada: vou falar (mal) do ombudsman (não eu obviamente e agora vocês entendem porque o “quase inteirinha” lá de cima) – ninguém mandou se referir ao meu artigo com tal desprezo. Só não falo mais em respeito à irmãzinha. Mas ocorreu-me que é um tanto chato ler o chato do Ombudsman com comentários sobre os textos da edição passada ou re-passada ou re-re-re-passada, tendo que estar se lembrando ou voltando ao texto para saber do que se está falando. Acho que a figura do Ombudsman é extremamente salutar ao site, mas eu, pessoalmente, preferiria que ele deixasse seus comentários no espaço reservado para tal após cada texto. Quem sabe até se poderia criar um email ombudsman@simplicissimo.com.br para que ele pudesse se identificar como o legítimo ombudsman do site (outro bom tema para uma enquete).

E, para finalizar, acho que o resultado do Desafio Simplex sempre deveria mostrar as respostas que não venceram, como feito na edição 62. Fica mais transparente e estimula a participação dos leitores, que também poderão discordar, por que não, do resultado. Vive la démocratie!!!

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Desafio Simplex

O vencedor do Desafio Simplex da semana foi Eduardo Dutra Fagundes Macedo, de Porto Alegre-RS, que respondeu o paradoxo sobre a existência de Deus da seguinte forma:

1 - Como ateu, não teria como confrontar essa idéia.
2 - Como ex-católico, sei que há três tipos de Deus: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
Utilizando a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, sabe-se que dependemos de um referencial para formular uma tese. Deus Pai criou uma pedra que Deus não pudesse carregar (provavelmente o Espírito Santo, já que ele é uma pomba... e Deus Filho carregou o mundo inteiro nas costas, portanto deve carregar essa pedra). Portanto, devemos ter em mente que Deus é capaz de carregar essa pedra (adotando o referencial do Deus Pai ou do Deus Filho), ao mesmo tempo que Deus (Espírito Santo) não pudesse carregá-la.
3 - O tio da minha namorada é Divino - como alguns conhecem Deus. Enfim, Deus Pai, onipotente, criou diversas pedras que Divino não pudesse carregar. Como a das pedreiras do morro Santana.

Parabéns Eduardo!!!
Vejam só outras respostas criativas:

“Deus também é onipresente. Uma pedra que Ele não possa carregar teria que ter o tamanho do universo. Como dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço e a pedra ocupa todo o espaço existente, não haveria lugar p/ Deus.
Conclusões:
1-Como Deus não estariam em nenhum lugar ele não poderia carregar a pedra.
2-Deus não é onipotente e nem onipresente”
(Diego Altieri, Sapucaia do Sul – RS)

“Eu fui visitar o meu amigo pé de alface, e aproveitando a falta de assunto com ele, mostrei pra ele a contradição do Simplicíssimo.
Ele (que é cristão) repetiu o que o Padre Aéerico falou:
\"A onipotência é contraditória, desde que não ligada à onisciência. Por isso, em sua sabedoria, Deus nunca procuraria criar uma pedra tão pesada que ele próprio não pudesse levantar, pois, além disso criar um loop lógico, ele não teria nem onde colocar tamanho monólito nesse universo sem prejudicar toda a harmonia tão apreciada pelos nossos astrônomos.\"”
(Henrique Macedo, Porto Alegre – RS)

Um novo Desafio (e mais um CD!) espera por você!

... continuem participando e divulgando o Desafio Simplex!
O próximo desafio já está aí ...


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Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

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