06/03/2004
- Edição número
65
Eca!
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Editorial
Vivemos
no Brasil um momento-chave para a educação
no nível terciário, que compreende
as Universidades.
Ao
mesmo tempo em que são feitos projetos
que visam utilizar vagas ociosas de Universidades
particulares através da isenção
de impostos – altamente elogiáveis
– existe um outro projeto de cunho absurdamente
racista: determinação de cotas (reserva
de vagas) para negros.
Tenta-se
justificar tal atitude pelas dificuldades históricas
impetradas aos negros neste país, desde
a época da escravização até
seqüelas que permanecem até hoje como
a menor valorização do trabalho
quando comparado ao trabalho de "brancos",
por exemplo. Essa menor valorização
associada talvez a uma maior dificuldade de conseguir
trabalho (devido a uma discriminação
velada) levam a uma menor condição
socio-econômica média, que resulta
em maior dificuldade de acesso e manutenção
da educação tanto em escolas públicas
quanto privadas – estas últimas consideradas
melhores e mais aptas à preparação
para o concurso vestibular.
O
acesso a uma educação menos privilegiada
nas etapas anteriores, levam então a um
menor acesso às Universidades federais
gratuitas, onerando justamente as famílias
que teoricamente teriam menos condições
para manter um filho em uma instituição
particular.
Concorda-se
com toda esta problemática, mas não
com a solução oferecida.
Não
deveriam ser os negros a receber tal benefício,
pois trata-se de racismo puro. Por que então
índios não tem o mesmo benefício
assegurado? E por quê os "amarelos"
não têm a mesma vantagem? Vagas para
italianos? Alemães? Judeus? Russos? Nem
pensar...
Se
vagas devem ser reservadas nas Universidades públicas,
que sejam então para quem tem menos condições
socio-econômicas. Esses sim, brancos ou
negros, com barreiras enormes para uma educação
adequada a nível terciário.
O
que impede o acesso à Universidade pública
é o menor conhecimento no momento da realização
do concurso vestibular. Teria um negro de família
abastada, que estudou em colégio particular,
mais direito à vaga que um branco que teve
de trabalhar desde os 12 anos para ajudar sua
família e estudou, mal e porcamente sem
alimentação ou acesso a livros,
em colégio público?
E
como definir um negro? Pela cor da pele? Existirão
métodos colorimétricos confiáveis
para tanto? Pelo sobrenome? Pela origem de seus
antepassados? E com que grau de parentesco podemos
dizer que alguém é negro? Se a mãe
do avô materno for a única pessoa
negra na genealogia da família, podemos
considerar esta pessoa negra? E o que dizer da
moça de pele alva, olhos azuis e portadora
de anemia falciforme, exclusividade de pessoas
de ancestralidade negra?
Os
problemas não se encerram por aqui. Tudo
que se propõe é uma melhor análise
da legalidade e das conseqüências do
sistema de cotas, impostos desta maneira absolutamente
discriminatória no mau sentido da palavra.
Abordagens
alternativas do problema, valorizando o nível
socio-econômico em detrimento da questão
racial são louváveis e devem ser
detalhadamente verificadas. Até lá,
vamos deixar esta idéia de molho mais um
pouco, para amaciá-la e deixá-la
no ponto para exercer seus efeitos na direção
certa (bom se soubéssemos qual é
esta direção...).
Precisamos
saber o que você, leitor do Simplicíssimo,
acha sobre o sistema de cotas. Utilize o espaço
dos comentários se quiser dar sua opinião.
Até a próxima semana.
Rafael
Luiz Reinehr
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Suicídio
Hamilton Lima
A manchete do jornal anunciava : "Ladrão
suicida-se". Na dúvida o aluno do
segundo grau comentou com o professor. Segundo
o homem, o correto seria se suicida. Tanto faz.
Expressão feia. Alguém lembrou que
o suicídio é individual. Questionou
a expressão "se". Queria uma
manchete ou relato de delegado que apontasse que
um indivíduo suicidasse o próximo.
As galhofas tomaram conta do debate. Outro professor
apontou que a melhor expressão seria cometeu
suicídio.
Mas e se alguém induzisse o próximo
a cometer tal ato? Não haveria possibilidade
de Zé Farofa cometer suicídio em
João Negócio?
Para
ilustrar melhor. Zé Farofa descobriu que
João Negócio era funcionário
público e facilitou as coisas para determinado
político desviar umas verbas que tinham
sido enviadas por Brasília. Zé Farofa
pressionou João Negócio. João
não sabia mais o que fazer, já que
sua cota no processo de corrupção
era pequena, e começou a beber feito louco,
deixando de lado sua linda esposa Ritinha. Ritinha,
que passava metade do tempo nas academias cuidando
da forma física, tropeçou em Zé
na saída do exercício matinal. Zé
Farofa , gordinho e despreocupado, fez um elogio
ao desempenho de Ritinha nas máquinas da
academia.
Disse, com todo o respeito, que percebia os efeitos
de um trabalho árduo. Elogiou os seios
e o bumbum empinado, o cabelo preso numa fita
e as unhas da respeitável esposa. Ritinha,
cuja vida era facilitada pelas constantes passagens
pela corrupção de seu dedicado marido,
gostou das palavras educadas e bem encaixadas
de Farofa. Zé, além de bem informado,
tinha fama de galanteador. Era casado, mas isso
não impedia que estivesse constantemente
envolvido com outras mulheres. Ritinha encontrou
o homem mais umas duas vezes antes de começar
o affair. Vento que sopra poeira sopra notícia.
Foi o que aconteceu com João Negócio.
Ouviu a má nova pela boca de vizinhos.
Depois foi chamado para depor. Achou que tinha
roubado para ser feliz. Tinha grilos e galhos
na cabeça. Encontrou no revólver
a solução.
Foi suicidado pelo Zé.
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No
caminho do que há
Gabriel Silveira
O pé enchinelado pela sujeira deslizou
seco na pedra barro da frente do barraco. Reinaldo,
oito anos, cara e corpo de moleque, coração
e alma de homem, deixou a escuridão fedorenta
do pequeno cômodo de madeira e papelão,
mais deste do que do outro, em que morava com
sua mãe e seus seis irmãos, todos
mais jovens que ele, e não olhou para trás.
Suas mãos negras, já ranhuradas
pela vida de desapego forçado, ergueram-se
até os olhos, secaram-lhe as lágrimas
que lhe brotavam. Parou por alguns segundos até
\"engolir o choro\", como sua mãe
dizia. A tristeza era consequência da pobreza
e da fome mas não a dele. Reinaldo sofria
era de ver seus irmãos menores aos berros
com suas barrigas inchadas pelos vermes, suas
mãozinhas secas de desconforto, seus olhos
marcados pelo ódio que a dor traz, sempre.
\"Esta pobreza é uma prisão
disfarçada\", ele ouvira seu pai dizer
um dia antes de morrer. O \"velho\"
morreu com 29 anos. Fazia entregas de drogas,
\"o melhor vendedor que esta favela já
viu\", diziam Roger e Seu Odonis, os coordenadores
do \"serviço\". Já sua
mãe dizia que ele \"vendia a alma,
fazendo o que fazia\". Reinaldo acreditava.
O tun-dum-tun-dum anunciava agitação
na casa da velha Maria Doce. Ele esqueceu suas
dores e correu no ritmo dos apitos, cuícas
e reco-recos que cantavam alto. Na escada curta
e curvada ao lado do barraco de Dona Ionice, quase
caiu. Seguiu firme em velocidade e, à medida
que o vento cortava-lhe o rosto, secando-lhe as
lágrimas sem limpá-las, ele abria
um sorriso, lhe confortava saber que a natureza
não o abandonara. No samba da velha Maria
Doce encontrou meia-dúzia de amigos que
lhe entreteram até a noite com brincadeiras
e aventuras supra-reais. Mais tarde, quando o
meio crepúsculo jogava sua bênção
sobre os cortes distintos e quebrados dos barracos,
ele decidiu voltar para casa. Não gostava
do pensamento de ter que suportar aquela visão
novamente, seus irmãos urrando de dor,
com seus pequenos estômagos sendo engolidos
pelo tempo que caminha sem olhar para trás,
mas foi. \"Amanhã te encontro no asfalto,
três horas\", gritou Jeninho, seu amigo
desde a infância. Reinaldo não respondeu,
só virou para o lado do casebre de sua
mãe e seguiu caminhando. Seus passos ficavam
mais lentos a cada metro que se aproximava da
madeira fúnebre, do palácio fatal.
Era como se ouvisse, só de olhar para a
arquitetura da pobreza, as palavras soltas \"dinheiro\",
\"fome\", \"dor\", \"morte\".
Uma voz cantante que não fazia parte de
seu transe lhe atingiu \"deixe-me ir, preciso
andar, vou por aí à procurar, vou
rir prá não chorar\". As palavras
semearam a emoção no carranco sério
que lhe dominava a expressão. \"Vou
rir prá não chorar, se alguém
por mim perguntar, diga que eu só vou voltar,
depois que me encontrar\", continuou. Notou
que a voz que lhe cantava era de seu Odonis, o
homem que introduzira seu pai no \"serviço\"
de luxo da favela. Tinha mais de 45 anos, uma
verdadeira raridade em tal contexto. Foi até
ele e deu-lhe um abraço de filho. \"O
que foi? Por que esta cara?\", perguntou-lhe
o velho ancião. Ele não respondeu.
\"Tome aqui, já passei por isto\",
falou dando-lhe uma nota de dez reais. \"Não
há mais com o que se preocupar\",
continuou. Reinaldo sorriu e correu para casa.
Antes de entrar no ambiente escuro que mais parecia
um túmulo, de onde nunca mais poderia sair
depois de entrar, ainda ouviu o velho cantar \"A
alvorada lá no morro, que beleza, ninguém
chora, não há tristeza...\".
Reinaldo sorriu e decidiu, \"amanhã
começo a trabalhar com o velho Odonis\".
Entrou e perdeu-se no escuro.
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Simples
Goyuchos
Milton Ribeiro
Gosto
Literário se Discute
(Pensei muito sobre como iniciar minha participação
quinzenal no Simplicíssimo. Depois de alguns
ensaios, optei por uma reapresentação
do que mais gosto naquilo que mais gosto de escrever:
literatura. Fui auxiliado nesta tarefa por um
amigo. Acompanhem a seguir.)
Um
amigo me mandou este questionário através
de e-mail. Ele retirou-o de um site que esqueci
de anotar, sem imaginar que sou um compulsivo
respondedor de questionários. Se vejo em
alguma revista um daqueles testes do tipo "Como
está seu coração" ou
"Você será trairia sua mulher?"
ou qualquer outra coisa do gênero, saio
respondendo na hora. É claro que não
resistiria a tal proposta. Estes dias vi-me respondendo
um teste sobre TPM numa revista Cláudia
de um consultório...
Então vamos lá. As perguntas estão
grifadas.
-
Qual o livro que você mais relê?
"A
Metamorfose", de Franz Kafka.
-
E que livro relido ficou melhor?
"O
Idiota", de Dostoievski.
-
Dê exemplo de livros injustiçados
que, apesar de muito bons, nunca foram devidamente
louvados.
São
tantos! "Memorial de Aires", de Machado
de Assis; "Laços de Família"
de Clarice Lispector, "Luzia-Homem",
de Domingos Olímpio; "Quatro-Olhos",
de Renato Pompeu; "Dona Guidinha do Poço",
de Manuel de Oliveira Paiva; toda a obra de Sergio
Faraco e mais uns 100.
-
Cite um livro decepcionante, que frustrou suas
melhores expectativas?
"Alta
Fidelidade" de Nick Hornby, o filme era melhor.
-
E um livro surpreendente, isto é, bom e
pelo qual você não dava nada?
"A
Flor, a Carne, os Figos (sobre as mulheres)",
de Heloísa Pedroso de Moraes Feltes.
-
Há cenas marcantes na boa literatura. Cite
duas de sua antologia pessoal.
Vou
arrasar nessa: a cena em que Ivan Fiodoróvitch
Karamazov conta a Parábola do Grande Inquisidor
em "Os Irmãos Karamázov",
de Dostoievski; e o diálogo entre Adrian
Leverkühn e o diabo (Cap. 25) em "Doutor
Fausto" de Thomas Mann.
-
Há personagens tão fortes na literatura
que ganham vida própria. Cite os que tiveram
esta força na sua imaginação
de leitor?
Floriano
Cambará, em "O Tempo e o Vento"
(Parte III, "O Arquipélago"),
de Erico Verissimo; Tristram Shandy, de "A
Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram
Shandy", de Laurence Sterne; Rodion Raskolnikov,
em "Crime e Castigo" de Dostoiévski;
o Josef K. de "O Processo", de Franz
Kafka; o narrador de "Opiniones de um Payaso",
de Heinrich Böll; o Conselheiro Aires, do
"Memorial de Aires", de Machado de Assis;
a Anna de "O Carnê Dourado", de
Doris Lessing; Lucien de Rubempré, de "Ilusões
Perdidas", de Balzac; Clarissa Dalloway,
de “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf;
etc.
-
Qual o livro bom que lhe fez mal, de tão
perturbador?
"Berlim
Alexanderplatz", de Alfred Döblin.
-
E qual o que lhe deu mais prazer e alegria?
Foram
tantos... Como foi pedido só um, vai lá:
"Sete Novelas Fantásticas" de
Isak Dinesen.
-
E o que mais lhe fez pensar?
Um
só? "Extinção"
de Thomas Bernhardt.
-
Cite...
a)
um livro meio chato, mas bom
"V."
de Thomas Pynchon.
b)
um livro que você acha que deve ser muito
bom mas que jamais leu
Apenas
"Ulisses", de James Joyce.
c)
um livro que não é um grande livro,
apenas simpático
"Ensaio
Sobre a Cegueira" de José Saramago.
d)
um livro difícil, mas indispensável
"Os
Mímicos" de V.S. Naipaul.
e)
um livro que começa muito bem e se perde
"Maus
presságios" de Günther Grass.
f)
um livro que começa mal e se encontra
"Brincando
nos Campos do Senhor", de Peter Mathiessen.
g)
um livro que valha apenas por uma cena ou por
um personagem, ainda que secundário
O
olhar entre Sarah Woodruff e Charles Smithson
em "A Mulher do Tenente Francês"
de John Fowles.
-
Qual o início de livro mais arrebatador
para você?
"A
Metamorfose" de Franz Kafka.
-
De que livro você mudaria o final? Como?
"Crime
e Castigo". Eu deixaria Raskolnikov sem salvação.
-
Que livros ficariam muitos melhores se um pedaço
fosse suprimido?
"Guerra
e Paz" não precisa daquela tese ridícula
no final (mais ou menos 50 páginas).
-
Que livros que não têm nada a ver
com você, até contrariam algumas
de suas convicções e que ainda assim
você considera bons ou recomendáveis?
Eu
odeio dizer que adoro os livros do fascista Céline:
"Morte a Crédito", "Viagem
ao Fundo da Noite", etc.
-
A literatura contemporânea é muito
criticada. Cite livro (s), escrito (s) nos últimos
dez anos, aqui ou no mundo, que mereça
(m) a honraria de clássico (s) ou obra-prima
(s).
"O
Avesso da Vida" de Philip Roth; "Aspades,
ETs, etc." de Fernando Monteiro; "Afirma
Pereira" de Antonio Tabucchi; "O Evangelho
Segundo Jesus Cristo" de José Saramago;
"As Horas" de Michael Cunningham.
-
Por falar em clássicos. Para que clássico
brasileiro de qualquer época você
escreveria um prefácio daqueles que incitam
a leitura?
"Memorial
de Aires", de Machado de Assis.
-
Cite um vício literário que considere
abominável.
As
explicações nos rodapés por
parte dos autores.
-
E qual a virtude que mais preza na boa literatura?
A
sinceridade.
-
De que livro você mais tirou lições
para seu ofício?
A
obra mais “pedagógica" que conheço
são os Contos de Machado de Assis.
-
Qual a palavra mais bela - e a mais feia - da
língua portuguesa? E que a frase ou verso
que escolheria como epígrafe desta entrevista?
Palavras?
Vou deixar esta em branco, tá?
A
epígrafe para esta "entrevista"?
Ora, só pode ser....
Não,
meu coração não é
maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente na livrarias:
Preciso de todos.
Mundo
Grande (Fragmento) - Carlos Drummond de Andrade
Milton Ribeiro mantém o blog www.miltonribeiro.blogger.com.br
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Nua
& Crua
Cristiane Martins
A
Fatídica Reunião de Terça-Feira
Escrito em 03/Setembro/2002
Se
alguém pedisse para defini-lo em uma palavra,
medíocre seria bondade!
Sabe aquele cara
que adorava tripudiar seus subordinados com a
maior naturalidade?
Pois é, eleve
a potência 3 e você terá uma
idéia de como ele era!
Barba
por fazer e óculos que teimavam em cair-lhe
sobre a ponta do nariz, daqueles redondinhos,
bem estilo John Lenon contemporâneo! Falava
alto e ria alto!
Naquele
dia ele havia se superado! Estava a rigor, mas
para uma festa a fantasia! Vestia um terno mostarda,
mas daquela cor de mostarda de final de pote,
aquele amarelo meio esverdeado que não
chega a ser laranja, bem, o fato é que
o terno era muito brega, além de estar
amassado e sem falar que o paletó era exageradamente
grande!
Para completar, a
gravata! Roxa, claro! Que combinação!
Era
daqueles executivos que ninguém sabe direito
a função na empresa, mas que por
bem menos que uma piadinha pode te colocar no
olho da rua! E naquele dia ela estava sentindo
que o cara a estava olhando com ares de vilão!
Era
terça-feira, dia das entediosas reuniões
operacionais!
“Reunir-se
para debater a semana e trazer assuntos novos
para o grande grupo é o segredo do sucesso
de uma grande empresa” sempre disse seu
chefe enfiado no seu costumeiro terno preto com
gravata de listas vermelhas!!! E lá estavam
todos, reunidos naquela sala cheia de janelas
e cortinas e quadros! Cadeiras nunca tinha suficiente
para todos, por isso os que chegavam primeiro
sentavam-se, os atrasados e simpatizantes do cafezinho
matinal que se aglomeravam as 08 hrs da manhã
naquela máquina de café expresso
tinham de ficar de pé mesmo! Segurando
a parede da “sala de reuniões”!
Ela,
naquela fatídica manhã havia chegado
cedo e conseguiu um lugar para sentar!
As 8 hrs em ponto
o monstro do pote de mostarda entra na sala com
um punhado de papéis entre a mãos
e com um sarcástico sorriso que mal dava
pra notar o cinismo entre os tocos da barba de
mais ou menos uns três ou quatro dias!
Bom
dia disse ele, leia-se nas entrelinhas “morram
todos”... como que estivessem ainda no jardim
de infância responderam em coro: BOM DIA
(só faltou o “querido professor”).
Depois do doce bom
dia o lobo mau começou seu monólogo:
“trabalhamos com informações”
disse ele, “esse é o nosso produto,
nosso cliente quer estar bem informado sempre”
Seu ouvido ensurdeceu no momento em que seus olhos
conseguiram ver que entre as mãos do terno
de mostarda estava nada mais nada menos que um
processo dela, de um de seus clientes! Ah, ela
sabia! Tantos erros acontecem, mas não,
era justo o dela que ele tomaria como exemplo!
E o verme ainda teve a capacidade de dizer : “eu
peguei o teu processo, mas não que eu esteja
te malhando, é somente para dar um exemplo”
...
Daquele
momento em diante ela mudou de mundo, via tudo
em câmera lenta, as bocas mexiam e os braços
gesticulavam sem parar, era como que o tubo de
mostarda velha estivesse dançando na sua
frente... sentiu seus olhos marejados! Merda!
Que droga de profissional sou eu? Um maricas???
Segure-se, vamos ... você consegue!
Daí o momento
crucial em que o abominável homem de gravata
roxa jogou o processo rispidamente sobre a mesa
de vidro que naquela altura do campeonato já
estava cheia de impressões digitais!
Sentiu que sua lágrima
a traiu e não conseguiu segurar mais ...
só ouviu a última frase que o homem
expeliu: “isso não é serviço
que se apresente”
Levantou-se, bateu
portas, soluçando e chorando... o que faria
?
Humilhada diante
de metade da empresa, tratada como que fosse um
João ninguém...
“Vou embora!
Vou pedir demissão! Quem que esse merda
pensa que é?
Não
sou paga pra ouvir isso! Tenho meu valor! Todos
aqui conhecem a qualidade do meu trabalho oras
e se eu sair daqui, consigo emprego no primeiro
concorrente que eu bater na porta! Demitir-se???
É isso aí!!!” Mas
daí um pensamento lhe corroeu a alma ...
e quem pagaria o aluguel? O condomínio?
A luz? O supermercado? Já havia estourado
cheque especial, e todos os tipos de empréstimos,
já estava sócia do credi matone
...
Seu senso de obrigação
falou mais alto e transpôs seu orgulho ...
e já na porta do departamento pessoal travou
e deu dois passos de volta foi quando deu de cara
com quem? Não, com a máquina de
café expresso!!! Toda convidativa lhe sorria
e lhe dizia: café fraco, café forte,
café com leite, capuccino, mocaccino, chocolate
... seus olhos se encheram de luz e sua veia pulsava
pela cafeína, assim como drogado em crise
de abstinência deseja a droga, ela desejava
aquele cafezinho ... era isso ... era disso que
precisava para sobreviver o resto do dia!
Notou
porém que tinha alguém na máquina,
passou as mãos sobre os olhos borrando
sua maquilagem (deveria ter seguido seu sexto
sentido e ter colocado o rímel a prova
dágua que lhe sorria no estojo de maquilagem)...
quem era? Algum colega que fugira do massacre?
Não! Era a “tia da limpeza”
! Frenéticamente ela passava um paninho
do tipo perfex sobre a tampa da frente da máquina
entreaberta ... o que estaria aquele ser fazendo
naquele exato momento, naquele exato aparelho
? Como que escutasse seus pensamentos ela virou-se
e fitou-a por alguns segundos por debaixo dos
óculos empoeirados e sentenciou: NEM ADIANTA
TENTAR! ACABOU O CAFÉ! SOMENTE A TARDE!
Que
injúria! Como assim acabou? Como assim?
Como assim?
Saiu correndo porta
afora e seus gritos foram ecoando pelos corredores
frios daquela empresa: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO
!!!
Ouviram-se
mais tarde boatos de que a pobre moça havia
tentado suicídio ainda naquela manhã,
mas parece que esqueceram de avisá-la que
mostarda não mata! A menos não as
que vendem em supermercados e são completamente
inofensivas!
Boato
ou verdade, o fato é que , exceto pelos
olhares que trocaram os ouvintes da reunião
quando ouviram o grito, nada mudou a rotina daquela
gente!
A
reunião acabou e o “povo” voltou
calmamente para suas mesas e prisões imaginárias!
Somente
uma cadeira ficou vazia, mas ninguém questionou
nada exceto pelo Estagiário de cabelo espetado
que atravessou o chiclete na boca e notando a
cadeira vazia largou:: “ Tipo assim, será
que posso trocar minha cadeira por essa? O encosto
da minha está quebrado e esse aí
tá novinho!”
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia
Repartição
Tomou
o gole do café ali, encostado no balcão
da padaria, e sentiu que o líquido lhe
desceu pesado como um sapo gordo que não
consegue se sustentar em cima de uma daquelas
folhas que bóiam e que eu nunca sei o nome.
Pagou o velho da padaria amaldiçoando-lhe
como se este fosse o responsável por uma
úlcera que sentia crescer, mas que continuava
a alimentar com cafés pretos junto a padarias
sujas. Tentou caminhar até a escadinha
que levava à rua, mas sentiu sua pança
inchada e uma vontade louca de cagar. Segurou-se
até chegar ao escritório, cedo demais
para encontrar a Márcia, que não
gostava que ele usasse o banheiro das secretárias.
Forçou uma evacuação, mas
não conseguiu nada mais do que sonoras
e fedidas flatulências que o constrangeram
mesmo estando sozinho na repartição.
Quando ouviu o barulho de uma porta bater, olhou
para o relógio e viu que era tarde demais:
as secretárias já estavam chegando,
e não havia como sair do banheiro sem passar
por elas e receber um olhar reprovador pela sua
atitude de confrontamento com o que elas haviam
estipulado. Sentiu vontade de mandá-las
à merda, mas uma fisgada no ânus
o fez se concentrar novamente no bolo de fezes
que não conseguia libertar. A pança
se revolvia como se tivesse vida própria,
e os arrotos que agora lhe chegavam, não
tinham outro odor senão o de café
requentado. Alguém bateu na porta do banheiro
e ele fez silêncio, esperando para ver se
desistiam. (os tec, tec do sapato de solados de
madeira denunciaram Marta, a insuportável
responsável pelo setor, que caminhou de
volta para a sua mesa e ficou batendo as unhas
pontiagudas no tampo de eucatex enquanto a janela
do explorer permanecia congelada na sua tela.)
Quando sentiu que se afastavam, forçou
mais uma vez para ver se conseguia se livrar da
bosta ressequida na saída do ânus.
Sentiu uma ardência e teve certeza de que
foi sangue o que pingou na água do vaso
sanitário. Suava em demasia e sua camisa
de trabalho não se encontrava mais em condições
apresentáveis devido às rodelas
de suor embaixo do braço. Maldita hora
em que entrei neste banheiro, pensou. Sem conseguir
defecar, enrolou uma tira de papel higiênico
nas mãos e passou no rabo, sentindo o papel
muito áspero machucar-lhe as carnes e voltar
sujo de sangue. Atirou o papel na privada, que
agora continha pequeninos pedaços de merda
que sairam junto com os filetes de sangue. O banheiro
fedia terrivelmente e o spray de bom ar não
funcionava. Apertou a válvula da descarga
que não respondeu senão por pequeninas
ondulações na água em volta
dos pedacinhos de merda e do papel amarfanhado
que lá jogara. Alguém batia na porta
novamente. Fez silêncio e ouviu gritarem
seu nome. Ainda não tinha levantado as
calças, quando se olhou no espelho e se
desesperou com as pequenas brotoejas em suas nádegas,
como bolhas de desidrose estouradas que umedeciam
seu traseiro. O tec tec se aproximava novamente.
Perdeu o equilibro quase ao mesmo tempo em que
a vista escurecia, batendo com a cabeça
forte contra a parede de cerâmica; no entanto,
ainda sentiu quando o maxilar se quebrou contra
a louça da privada.
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|
en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi
Futebol meio a zero
Placar
de alguns eventos do mundo da bola: basquete:
88x73, vôlei: 3x2 (com 25/20, 22/25, 21/25,
27/25, 27/25), futsal: 6x4, tênis: 2x1 (com
6/3, 7/6, 6/4, 6/4, sem falar no 15, 30, 40, ...),
handebol: 10x7, tênis de mesa: 3x2 (com
11/9, 10/8, 7/10, 9/11, 10/8), futebol: um a zero.
Um a zero! Pois é, futebol é assim
mesmo: por pouco mais de 90 minutos de espetáculo,
a platéia fica sempre à espera do
momento mágico desse esporte. Por vezes,
mesmo quando ele não ocorre, a galera pode
vir a ter suas razões para comemorar. Mas
que é dureza ficar duas horas num estádio
(ou mesmo na onda televisiva) sem ter a chance
de explodir de alegria, ah isso é. O esporte
mais popular do Brasil e, por conseqüência,
o que mais enterte as classes menos privilegiadas,
é tão pobre em gols quanto esta
é em sua balança financeira. Em
números relativos, poucos são os
jogos com placares mais dilatados. Sei que o futebol
tem se tornado mais competitivo, que a zaga está
ali para isso, mas você não vai me
convencer que a mais bela das defesas tire mais
aplausos do torcedor do que a bola sendo guardada
na rede do time adversário.
Pergunto-me, ao mesmo
tempo, se não seria justamente essa singularidade
do futebol o seu maior charme. Se não estaria
na tensão do jogo, na espera do gol, nos
lances polêmicos, no xingamento ao juiz
e toda sua família, que estaria o “tchan”
do espetáculo (para desespero dos cardíacos).
Mesmo assim, fico imaginando como seria se um
placar mais dilatado fosse a regra, se a regra
pudesse ser modificada de forma a resultar em
placares mais dilatados ou se tivéssemos
pelo menos jogos mais dinâmicos. Desde o
estabelecimento das regras, algumas poucas e tímidas
medidas foram tomadas nesse sentido, como a proibição
do recuo de bola com os pés para o goleiro
e vitórias valendo o triplo de um empate.
Pois reuni então algumas idéias
que circulam pelo mundo futebolístico a
respeito de tema e passo a dividi-las com vocês:
Impedimento
– Quantos gols anulados, jogadas interrompidas,
polêmicos erros e acertos. Além de
ser uma regra que gera muita polêmica, é
a base, penso eu, da necessidade de dois juízes
auxiliares. Assim, abolir o impedimento poderia
ser sinônimo de acabar com os bandeirinhas
(trocando por mais um juiz em campo - ver adiante).
A idéia é dar mais campo e liberdade
para os avantes. Há quem defenda também
a permanência do impedimento apenas a partir
de uma linha imaginária que corta o campo
lateralmente na altura da linha da grande área.
Eu seria mais radical, até porque isso
resolveria a eterna dificuldade masculina de explicar
essa regra para o sexo oposto (e se então
as mulheres acabarem com a TPM, estaríamos
todos quites).
Arbitragem
– È injusta a situação
do juiz. Ele é só um e corre na
defesa, meio-campo e ataque, não é
substituído, tem que tomar decisões
sem ter os detalhes “da telinha”,
sem o replay, recebe os piores xingamentos de
todas as torcidas e não raro acabam pagando
o preço pelos erros de seus auxiliares.
Sou a favor de termos 2 árbitros, um correndo
em cada metade do campo, munidos de alguma forma
e telecomunicação mútua.
Ficaria indubitavelmente mais fácil de
estar “em cima do lance”, quem sabe
até mesmo podendo eliminar a necessidade
dos bandeirinhas (ver considerações
sobre o impedimento). Mas também não
adianta mudar um monte de regras se as que existem
não são obedecidas (também
vale para o futebol...). Bons olhos para a idéia
da criação de um curso superior
de formação de árbitros,
cujo diploma seria pré-requisito para o
exercício da profissão.
Tecnologia
– é impressionante como o futebol
ainda lança mão (ou pé, já
que estamos falando de futebol) de pouca tecnologia
dentro do gramado. Só há pouco surgiram
os sprays demarcatórios estilo creme de
barbear, que nada de moderno têm em si e
ainda assim não são usados em todos
os jogos. Detesto a comparação com
os EUA, mas ela se faz necessária nesse
momento. No futebol americano, os lances polêmicos
são passíveis de discussão
in loco. Basta o treinador jogar uma toalha branca
no chão e o juiz está desafiado
a rever o lance com seus auxiliares e ainda assistir
o repeteco num monitor privativo colocado à
beira do campo. Se errar é humano, consertar
pode ser da máquina. E tem também
os telecomunicadores, que facilitariam a vida
dos juízes quando quizessemfalar com seus
auxiliares e mesmo com a torcida. Eles poderiam
bradar num fone estilo Sandy & Júnior,
com transmissão para os alto-falantes do
estádio: “Falta!”, “Pênalty!”,
“Escanteio”, “É a de
vocês!”, etc.
Tempos
de Jogo – 11 jogadores correm 45
mais 45 minutos e ouvimos, quase sem exceções,
suas ofegantes entrevistas aos repórteres
ao final de cada jogo. Com o tempo isso se torna
um “sotaque” de jogador e imagina-se
que o tom seguiria imutável mesmo num calmo
alvorecer dominical. Pois é desta semana
a recusa da FIFA em aumentar de 15 para 20 minutos
o tempo de intervalo de um jogo de futebol. Mas
o tópico bem que poderia merecer outras
mudanças, como aumentar o número
de substituições, que atualmente
restringe-se a 3 (e já foi de apenas 2).
De repente seria necessário um plantel
maior disponível no banco de reservas.
Outra possibilidade seria um sistema de 3 tempos
de 30 minutos ao invés de 2 de 45 (só
para não imitar os tradicionais 4/4 americanos).
Tempo
Técnico - Pense bem, o time está
mal, não se acerta em campo. Bons treinadores
sabem o que fazer, mas têm apenas o intervalo
para passar orientações, restando
ficar deselegantemente aos berros na beira do
campo em sua área técnica enquanto
a bola rola no gramado. De volta aos outros esportes
com bola e veremos que existem pedidos de tempo
ao longo de cada período. Num esporte onde
a coletividade e preparo físico são
fundamentais (o massagista sempre socorre com
aquela aguinha), 45 minutos com apenas 3 substituições
e sem poder “arrumar a casa” ou mesmo
mudar de estratégia, batendo um papo com
seu time é lamentável. E a culpa
é geralmente do coitado do treinador ...
Lateral
– ainda não encontrei lógica
em bater o lateral com as mãos, fazendo
a segunda exceção à regra
de não se usar essa parte do corpo (a primeira
fica a cargo do goleiro). A cobrança com
os pés implicaria num lançamento
com maiores possibilidades ofensivas. Observem
quando a bola é colocada dentro da área
por ocasião de uma cobrança nas
suas proximidades. Além disso, acabariam
com as reversões devido a erros elementares,
como o alçamento da bola com o atleta em
movimento. Se há jogadores que cobram lateral
com as mãos melhor do que o fariam com
os pés, é de se questionar se não
estariam praticando o esporte errado ...). Seria
uma cobrança de falta, um tiro de meta
na lateral, ou seja, um tiro de lateral.
Escanteio
– uma vez que se efetive a mudança
na regra do lateral, é preciso incrementar
o escanteio ou ele fica desvalorizado, tornando-se
apenas um “lateral de fundo” (sem
preconceitos com o lateral). Uma forma de lhe
conceder maior status (leia-se ser um lance com
maiores chances de resultar em gol) é a
mudança do local de cobrança para
o ponto onde se encontram, perpendicularmente,
a linha de fundo com a linha da grande área.
Sei que, atualmente, um escanteio bem cobrado
tem seu valor tático, técnico e
mesmo estético (vejam o gol olímpico,
por exemplo), mas o que mais vemos são
jogadores chutando verdadeiras abóboras,
como se não passassem dias treinando esse
chute. Pensando assim, isso ajudaria também
a conservação das abóboras
...
Limite
de faltas – esportes de contato
direto têm disso. Creio que uma boa forma
de tentar (nada é garantido) reduzir o
número de faltas e criar mais chances ofensivas,
é a criação do limite de
faltas. Assim como no futsal e no basquete, após
um determinado número de faltas o time
infrator é penalizado com um tiro livre
direto na sua intermediária. Jogador que,
individualmente, excede as infrações,
poderia ser punido com um “chá de
banco” por um tempo pré-determinado,
deixando sem time com 1 jogador a menos e criando
uma clara vantagem ofensiva ao adversário.
Menos faltas também poderiam significar
menos lesões dos atacantes, nossos protagonistas
do gol e seria também uma forma de aplicar
a tão moderna medicina preventiva (outra
forma é partir para a prática de
outro esporte ...).
Existem
ainda muitas outras idéias, como reduzir
o número de jogadores em campo, as dimensões
do campo e do gol, etc. Certamente a organização
de um forum sobre o tema, com a presença
de instituições relacionadas, clubes,
dirigentes, comentaristas, jornalistas, repórteres,
torcedores e quem mais quiser participar (enquanto
algumas esposas estariam reunidas na liga contra
o futebol), traria uma gama enorme de soluções.
O problema é que a bola está ficando
no banco, substituída pelos teóricos
burocratas de plantão, com suas leis e
estatutos que nem mais os ingleses querem ver.
E olha que, segundo dizem, foram esses mesmos
gringos que inventaram essa coisa toda.
-
x -
Imperdível:
“o 'futchibol' é o único
jogo onde as regras são perfeitas desde
o início. Ora toma, que vais p'ra Roma!
Eu, por mim, para evitar os empates, resolvia
logo o problema: fazia um jogo só de penaltis.
Cada equipa marcava cem penaltis. Garanto que
nunca haveria empates!” (comentários
do português C.F., em seu artigo no site
Voz
Portucalense
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Diálogos
da noite de PoA
Pedro Schestatsky
Conversaram durante horas sobre cinema, filmes
e faculdade. Ela fazia história na UFRGS.
Interrompo uma de suas divagações
e pergunta ao garçom: “Ei, Vaz! Uma
curiosidade a respeito deste cartaz...”
Onde se lia: CEVA GELADA 2 REAIS “O que
é, xarope?”
“E quanto custa a ceva quente então,
hein Vaz? Me responda, por favor” Risos.
Ele sempre fazia a mesma piada, pra impressionar,
dar uma de espirituoso.
“Tens namorado? - perguntou André
finalmente.
“Não”
“Jura”
“Juro pela minha mãe morta”
“Ah, assim não vale, espertinha.
De que adianta jurar pela sua mãe se ela
já está morta?”
“Imbecil”
“OK. Então já teve?”
- fazia esta pergunta para sondar quanto a hipótese
de levá-la para cama, o que na sua concepção,
dependia do número de relações
estáveis no passado. Nada mais lógico.
“Sim, alguns”
“Teve sexo com todos eles?”
“Ei, ei! Mas que intimidades são
essas?”
Osvaldo pensou um pouco e respondeu em tom supostamente
agressivo:
“Eu é que pergunto: que intimidade
é esta de perguntar “Que initimidades
são estas!”
Silêncio...
Risos...
Ela definitivamente gostara dele
“Sem querer, quer dizer, eu não pude
deixar de perceber os filmes que pegaste agora
no vídeo. São todos para ti?”
“Como assim?”
“Sei lá, pegaste algum filme para
alguém. Alguém te pediu para pegar
um determinado filme?”
“Não, não. Lá em casa
só eu curto vídeo...”
“Ah...”
“Por que tu estás perguntando? Algum
problema na minha escolha?”
“Não, absolutamente... Só,
só estou encucado com o “Twister”.
Pensei que tu não curtias este tipo de
filme...”
“E qual é o problema? É um
ótimo filme de aventura”
“Melhor que Indiana Jones?”
“Olha, meu amigo - um pouco alterada pela
bebida - eu vou te dizer uma coisinha...”
“Pode dizer”
“Isso tudo é uma questão de
gosto. É o que eu sempre digo: FILME, HOMEM
(PARA TI, MULHER), TIME DE FUTEBOL, COMIDA, ROUPA,
VIAGEM, BOATE, CARRO, BOTE, CANETA, LIVRO, PROGRAMA
DE TV, POSIÇÃO PARA DORMIR, SEXO,
BEBIDA, PERFUME, COR, ESTUFA, COMPUTADOR, BOLA,
ATOR, DIRETOR DE TEATRO, MÚSICA, TELEFONE,
CAIXA DE SAPATO, LÂMPADA, ÁRVORE,
APARELHO DE SOM, FITA, EXAMES LABORATORIAIS, LANCHERIA,
BONÉ, PÍLULA ANTICONCEPCIONAL, ESTAÇÃO
DE RÁDIO, FOICE...
“Tudo isso não se discute, certo?”...
É isto que tu queres dizer, não
é? - tendo que interrompê-la
“Talvez. Não me lembro”
“Pirou de vez”, disse ele para si
mesmo. E perguntou para ela:
“O que tu mais gosta de fazer além
de ver filmes?”
“Gosto de fazer sempre coisas diferentes.
Sempre coisas novas. Estes dias, por exemplo,
fiz uma coisa que nunca tinha feito na vida. Acho
que a graça de viver está em fazer
coisas variadas...”
“E o que foi que tu fizeste afinal?”
“Cortei as unhas do pé enquanto fazia
cocô”
“Nossa que legal!”
“Outra coisa que eu gosto é beber.
Sabe, esses dias e e mais dois amigos fomos a
um bar e tomamos todas: 18 CEVAS, 1 GARRAFA DE
UÍSQUE, 2 TEQUILAS... NÃO, DESCULPE.
NA VERDADE FORAM 13 CEVAS, MEIA GARRAFA DE UÍSQUE...
TALVEZ TENHAMOS TOMADO CACHAÇA TAMBÉM,
ESPERE. NÃO, É ISSO AÍ MESMO...
AH, DEPOIS COMPLETAMOS COM LICOR DE CEREJA,
DOIS COPOS PARA CADA UM. MINTO. UM COPO E MEIO...
PODE SER...” “Puxa, mas isto é
muito interessante... E muito chato também.
Pois vou te dar uma dica. Uma dica que eu não
costumo dar para qualquer um” “Puxa,
legal. Estou te ouvindo...”
“Nunca mais faça isso. Nunca mais...”
“O quê?”
“Nunca mais submeta uma pessoa a esta tortura
de ouvir o que você e seus Amigos babacões
beberam. ISTO NÃO INTERESSA A ABSOLUTAMENTE
NINGUÉM. É A COISA MAIS CHATA QUE
EU JÁ OUVI NA VIDA, POR FAVOR PARE, PARE,
PARE”
“Desculpe”
“Com uma condição!”
“Qual?”
“Prometa que nunca mais vai falar também
de seus sonhos e de seus casos amorosos. Essas
são outras torturas, que pelo jeito tu
deves sempre falar”
“Como tu sabe?”
“Eu reconheço uma chata à
km de distância”
“Tens certeza de que não quer ouvir
um dos meus sonhos?
“Prefiro a morte. Seus sonhos só
tem valor para você. Eles deprimem qualquer
um.
“Pois é justamente o que eu ia comentar.
Te acho um pouco deprimido.
“Bem , talvez seja isto que me torne um
pouco mais interessante. “Pode ser. Deprimido
“Quero morrer hoje mesmo. Conte-me seus
sonhos, por favor!!!
Pediu a conta e foi embora. Precisava ir embora
urgentemente. Antes que este conto ficasse mais
insuportável do que já estava.
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|
I-Racional
Pedro
Volkmann
Mais
um agente da CHAOS
(lembram do Agente 86?)
Saiu
no terra, dia 25 de fevereiro de 04 uma notícia
tranqüilizadora para os moradores de uma
determinada região da Ucrânia:
“As autoridades
da Ucrânia informaram hoje que a neve amarela
que caiu nos últimos dias nos montes Cárpatos,
no oeste do país, continha areia procedente
do norte da África e não representa
perigo à população. Em mensagens
divulgadas pela rádio e a televisão
local, representantes do Ministério da
Emergência e do Serviço Meteorológico
explicaram aos camponeses que a neve é
inócua e asseguraram que não é
necessário que evacuem a área.”
Pois
é esta notícia é a prova
mais viva de que não podemos acabar esta
tal da CHAOS. Como o seriado havia se extinguido,
achei que as ações maléficas
desta terrível organização
criminosa tinham acabado. Fui surpreendido mais
uma vez. Recebi uma ligação do Maxwell
Smart, alarmado, pois ele sabia que ultimamente
a pessoa que mais tinha estudado e escrito sobre
a organização era eu. Chegou a me
perguntar se isto não tinha vindo do rei
das Caixinhas Pequenas (simplicíssimo -
edição 27). Apenas o lembrei que
o Reizinho é apenas um personagem que não
influía no mundo real. Ele acreditou (ufa).
Ainda conversamos sobre outras possibilidades,
pois as ações da CHAOS são
tão bem organizadas que é impossível
se dar conta da própria organização,
então levantamos mais algumas hipóteses.
Todas elas envolvendo borboletas selvagens e cachorros
domesticados. A grande questão é
que em todas elas faltava um “que”
de maldade e descaso, ingredientes essenciais
para confirmar a culpa de nossos suspeitos.
Quando desliguei fiquei pensando onde andariam
seus companheiros, a Agente 99 e o chefe e uma
coisa ainda me intrigava: como um sujeito daqueles
poderia ser chamado “Smart”? Sozinho,
refeito de minha experiência rica em nitrato
de prata, fiquei imaginando quais seriam as verdadeiras
razões de um deserto africano derramar
suas inócuas areias amarelas nos países
do centro da Europa. Também fiquei imaginando
que a neve amarela poderia ser proveniente dos
estúdios da Disney, numa tentativa de agradar
os orientais, com a criação da Amarela
de Neve, uma doce e meiga japonesa e seus sete
samuraisinhos, todos eles tratando de mostrar,
através da milenar arte MECHA SUES PADA,
as qualidades de seus pequenos pauzinhos. Desta
vez ela não teria que esperar pelo príncipe
encantado. Existe outra possibilidade, porém
remota: esta areia, na verdade seria proveniente
de Goiás e teria sido levada para a Ucrânia
para testar se o Césio 147 seria radioativo
mesmo para aqueles UCRÂNIOS, pessoas muito
mais evoluídas que nós, brasileiros.
Não sei se o problema será algum
dia solucionado por completo.
Cá entre nós, tenho quase certeza
da verdadeira razão do referido problema,
acredito que as autoridades internacionais (ou
do grêmio) deveriam mandar prender este
tal do organizador da CHAOS.
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Exílio
Grasielle
Regassini
E pra que me serve estar viva?
Essa doce e amarga ferida;
De que nas horas de dor não se estanca
Fica estática, pálida, branca.
Me parece mais um deszelo,
Me parece mais devaneio
Que a cada instante não morre,
Mas a cada segundo se aviva.
É
doce; é amarga a ferida,
É mel que seus lábios derramam
É fel que seus olhos proclamam
E de que me vale ainda estar neste exílio,
Se a cada noite me mato, me alio
Não me falta amor que eu não tenha,
Só me falta amor; que eu queira!
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Ombudsman
Maurício Silveira dos
Santos
O Anti-Ombudsman
Olá,
caros leitores. Vocês também se assustaram
ou fui só eu que pensei que o Simplicíssimo
(vocês sabem...) tivesse sido sabotado?
Tentei acessar a página e, como deve ter
acontecido com muitos, ou seja, sem aviso nenhum,
apareceu aquele aviso soturno. Para um semi-analfabeto
virtual como eu foi como se o e-zine tivesse desencarnado
subitamente devido a uma doença misteriosa
qualquer, um vírus mortal inoculado por
algum grupo fascista anti–escrever-por-escrever.
Foi então que fui informado pelo nosso
saudoso editor dos meandros técnicos (e
nada conspiratórios) do ocorrido. Ás
vezes a realidade é menos grandiosa do
que gostaríamos, né messssmo?
Fiquei observando esta última edição
e pensei sobre como é estranho o padrão
de comentários dos textos publicados. Por
exemplo, o conto do Max Sachetti foi muito comentado
e elogiado (quase um fã-clube!). Imagino
que ninguém discorde dos comentários
porque o texto é instigante mesmo, bem
escrito e interessante. A minha dúvida
é: qual a razão de outros textos
comparavelmente interessantes mesmo que de estilos
ou propostas diferentes ficarem ali, sozinhos,
como que abandonados, sem nenhum comentário
abonador ou ao menos uma crítica fuinha?
O texto “Caro Lula” é o caso
típico. Um artigo intenso, polêmico,
desencantado, enérgico e até mesmo
corajoso. Poderia facilmente ter gerado um debate
forte tendo em vista o contexto político
do momento, a conjuntura tensa em que vivemos.
Apenas um comentário. E o “instruções
para dar corda no relógio” desta
edição, o Alessandro “se puxou”
nos argumentos, foi arrojado, formulou uma interessante
hipótese (sem se perder nas intrincadas
formulações) envolvendo questões
de poder e mídia. Como no caso anterior,
também o texto do Alessandro trata de um
tema que poderia mobilizar os leitores só
por sua atualidade extrema (para não falar
dos outros méritos) ... nenhum comentário.
Este ombudsman poderia continuar falando dos textos
do Eduardo Sabbi, do Pedro Volkman e do “dupliartigo”,
mas vou parar para não exalar mais chatice.
É certo que ter mais ou menos comentários
não torna um texto bom ou mau. Não
é o aplauso que faz o artista e, dependendo
do caso, as vaias podem alegrar muito mais. Mas
tratando-se do Simplicíssimo, admito que
ler mais comentários e presenciar maior
debate de idéias fariam este ombudsman
mais feliz. Aliás, de tanto elogiar os
contos, crônicas, artigos e autores já
estou me sentindo literalmente um anti-ombudsman.
Eca!
Até mais.
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Desafio
Simplex
O
desafio da edição 64 ficou
prejudicado em função
dos problemas com a troca de servidor
e no formulário de participação
(que só foi resolvido hoje).
Desta forma, vamos manter na edição
65 o mesmo desafio.
Pedimos
desculpas pelo transtorno e salientamos
que os leitores que conseguiram enviar
suas respostas antes do problema já
estão concorrendo.
...
continuem participando e divulgando
o Desafio Simplex!
O
próximo desafio já
está aí ...
|
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reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir os
textos do site, mas não esqueça de citar a
fonte e o autor.
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Desafio Simplex!
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do Simplicíssimo
e divulgue em seu
sítio ou blógue!

Línque
para
http://www.simplicissimo.com.br
e depois nos avise!

Selo comemorativo
alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente
criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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