Simplicíssimo
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Editorial

Vivemos no Brasil um momento-chave para a educação no nível terciário, que compreende as Universidades.

Ao mesmo tempo em que são feitos projetos que visam utilizar vagas ociosas de Universidades particulares através da isenção de impostos – altamente elogiáveis – existe um outro projeto de cunho absurdamente racista: determinação de cotas (reserva de vagas) para negros.

Tenta-se justificar tal atitude pelas dificuldades históricas impetradas aos negros neste país, desde a época da escravização até seqüelas que permanecem até hoje como a menor valorização do trabalho quando comparado ao trabalho de "brancos", por exemplo. Essa menor valorização associada talvez a uma maior dificuldade de conseguir trabalho (devido a uma discriminação velada) levam a uma menor condição socio-econômica média, que resulta em maior dificuldade de acesso e manutenção da educação tanto em escolas públicas quanto privadas – estas últimas consideradas melhores e mais aptas à preparação para o concurso vestibular.

O acesso a uma educação menos privilegiada nas etapas anteriores, levam então a um menor acesso às Universidades federais gratuitas, onerando justamente as famílias que teoricamente teriam menos condições para manter um filho em uma instituição particular.

Concorda-se com toda esta problemática, mas não com a solução oferecida.

Não deveriam ser os negros a receber tal benefício, pois trata-se de racismo puro. Por que então índios não tem o mesmo benefício assegurado? E por quê os "amarelos" não têm a mesma vantagem? Vagas para italianos? Alemães? Judeus? Russos? Nem pensar...

Se vagas devem ser reservadas nas Universidades públicas, que sejam então para quem tem menos condições socio-econômicas. Esses sim, brancos ou negros, com barreiras enormes para uma educação adequada a nível terciário.

O que impede o acesso à Universidade pública é o menor conhecimento no momento da realização do concurso vestibular. Teria um negro de família abastada, que estudou em colégio particular, mais direito à vaga que um branco que teve de trabalhar desde os 12 anos para ajudar sua família e estudou, mal e porcamente sem alimentação ou acesso a livros, em colégio público?

E como definir um negro? Pela cor da pele? Existirão métodos colorimétricos confiáveis para tanto? Pelo sobrenome? Pela origem de seus antepassados? E com que grau de parentesco podemos dizer que alguém é negro? Se a mãe do avô materno for a única pessoa negra na genealogia da família, podemos considerar esta pessoa negra? E o que dizer da moça de pele alva, olhos azuis e portadora de anemia falciforme, exclusividade de pessoas de ancestralidade negra?

Os problemas não se encerram por aqui. Tudo que se propõe é uma melhor análise da legalidade e das conseqüências do sistema de cotas, impostos desta maneira absolutamente discriminatória no mau sentido da palavra.

Abordagens alternativas do problema, valorizando o nível socio-econômico em detrimento da questão racial são louváveis e devem ser detalhadamente verificadas. Até lá, vamos deixar esta idéia de molho mais um pouco, para amaciá-la e deixá-la no ponto para exercer seus efeitos na direção certa (bom se soubéssemos qual é esta direção...).

Precisamos saber o que você, leitor do Simplicíssimo, acha sobre o sistema de cotas. Utilize o espaço dos comentários se quiser dar sua opinião. Até a próxima semana.

Rafael Luiz Reinehr

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Suicídio
Hamilton Lima


A manchete do jornal anunciava : "Ladrão suicida-se". Na dúvida o aluno do segundo grau comentou com o professor. Segundo o homem, o correto seria se suicida. Tanto faz. Expressão feia. Alguém lembrou que o suicídio é individual. Questionou a expressão "se". Queria uma manchete ou relato de delegado que apontasse que um indivíduo suicidasse o próximo. As galhofas tomaram conta do debate. Outro professor apontou que a melhor expressão seria cometeu suicídio.
Mas e se alguém induzisse o próximo a cometer tal ato? Não haveria possibilidade de Zé Farofa cometer suicídio em João Negócio?

Para ilustrar melhor. Zé Farofa descobriu que João Negócio era funcionário público e facilitou as coisas para determinado político desviar umas verbas que tinham sido enviadas por Brasília. Zé Farofa pressionou João Negócio. João não sabia mais o que fazer, já que sua cota no processo de corrupção era pequena, e começou a beber feito louco, deixando de lado sua linda esposa Ritinha. Ritinha, que passava metade do tempo nas academias cuidando da forma física, tropeçou em Zé na saída do exercício matinal. Zé Farofa , gordinho e despreocupado, fez um elogio ao desempenho de Ritinha nas máquinas da academia.
Disse, com todo o respeito, que percebia os efeitos de um trabalho árduo. Elogiou os seios e o bumbum empinado, o cabelo preso numa fita e as unhas da respeitável esposa. Ritinha, cuja vida era facilitada pelas constantes passagens pela corrupção de seu dedicado marido, gostou das palavras educadas e bem encaixadas de Farofa. Zé, além de bem informado, tinha fama de galanteador. Era casado, mas isso não impedia que estivesse constantemente envolvido com outras mulheres. Ritinha encontrou o homem mais umas duas vezes antes de começar o affair. Vento que sopra poeira sopra notícia. Foi o que aconteceu com João Negócio. Ouviu a má nova pela boca de vizinhos. Depois foi chamado para depor. Achou que tinha roubado para ser feliz. Tinha grilos e galhos na cabeça. Encontrou no revólver a solução.
Foi suicidado pelo Zé.

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No caminho do que há
Gabriel Silveira

O pé enchinelado pela sujeira deslizou seco na pedra barro da frente do barraco. Reinaldo, oito anos, cara e corpo de moleque, coração e alma de homem, deixou a escuridão fedorenta do pequeno cômodo de madeira e papelão, mais deste do que do outro, em que morava com sua mãe e seus seis irmãos, todos mais jovens que ele, e não olhou para trás. Suas mãos negras, já ranhuradas pela vida de desapego forçado, ergueram-se até os olhos, secaram-lhe as lágrimas que lhe brotavam. Parou por alguns segundos até \"engolir o choro\", como sua mãe dizia. A tristeza era consequência da pobreza e da fome mas não a dele. Reinaldo sofria era de ver seus irmãos menores aos berros com suas barrigas inchadas pelos vermes, suas mãozinhas secas de desconforto, seus olhos marcados pelo ódio que a dor traz, sempre. \"Esta pobreza é uma prisão disfarçada\", ele ouvira seu pai dizer um dia antes de morrer. O \"velho\" morreu com 29 anos. Fazia entregas de drogas, \"o melhor vendedor que esta favela já viu\", diziam Roger e Seu Odonis, os coordenadores do \"serviço\". Já sua mãe dizia que ele \"vendia a alma, fazendo o que fazia\". Reinaldo acreditava. O tun-dum-tun-dum anunciava agitação na casa da velha Maria Doce. Ele esqueceu suas dores e correu no ritmo dos apitos, cuícas e reco-recos que cantavam alto. Na escada curta e curvada ao lado do barraco de Dona Ionice, quase caiu. Seguiu firme em velocidade e, à medida que o vento cortava-lhe o rosto, secando-lhe as lágrimas sem limpá-las, ele abria um sorriso, lhe confortava saber que a natureza não o abandonara. No samba da velha Maria Doce encontrou meia-dúzia de amigos que lhe entreteram até a noite com brincadeiras e aventuras supra-reais. Mais tarde, quando o meio crepúsculo jogava sua bênção sobre os cortes distintos e quebrados dos barracos, ele decidiu voltar para casa. Não gostava do pensamento de ter que suportar aquela visão novamente, seus irmãos urrando de dor, com seus pequenos estômagos sendo engolidos pelo tempo que caminha sem olhar para trás, mas foi. \"Amanhã te encontro no asfalto, três horas\", gritou Jeninho, seu amigo desde a infância. Reinaldo não respondeu, só virou para o lado do casebre de sua mãe e seguiu caminhando. Seus passos ficavam mais lentos a cada metro que se aproximava da madeira fúnebre, do palácio fatal. Era como se ouvisse, só de olhar para a arquitetura da pobreza, as palavras soltas \"dinheiro\", \"fome\", \"dor\", \"morte\". Uma voz cantante que não fazia parte de seu transe lhe atingiu \"deixe-me ir, preciso andar, vou por aí à procurar, vou rir prá não chorar\". As palavras semearam a emoção no carranco sério que lhe dominava a expressão. \"Vou rir prá não chorar, se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar, depois que me encontrar\", continuou. Notou que a voz que lhe cantava era de seu Odonis, o homem que introduzira seu pai no \"serviço\" de luxo da favela. Tinha mais de 45 anos, uma verdadeira raridade em tal contexto. Foi até ele e deu-lhe um abraço de filho. \"O que foi? Por que esta cara?\", perguntou-lhe o velho ancião. Ele não respondeu. \"Tome aqui, já passei por isto\", falou dando-lhe uma nota de dez reais. \"Não há mais com o que se preocupar\", continuou. Reinaldo sorriu e correu para casa. Antes de entrar no ambiente escuro que mais parecia um túmulo, de onde nunca mais poderia sair depois de entrar, ainda ouviu o velho cantar \"A alvorada lá no morro, que beleza, ninguém chora, não há tristeza...\". Reinaldo sorriu e decidiu, \"amanhã começo a trabalhar com o velho Odonis\". Entrou e perdeu-se no escuro.

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Simples Goyuchos
Milton Ribeiro

Gosto Literário se Discute

(Pensei muito sobre como iniciar minha participação quinzenal no Simplicíssimo. Depois de alguns ensaios, optei por uma reapresentação do que mais gosto naquilo que mais gosto de escrever: literatura. Fui auxiliado nesta tarefa por um amigo. Acompanhem a seguir.)

Um amigo me mandou este questionário através de e-mail. Ele retirou-o de um site que esqueci de anotar, sem imaginar que sou um compulsivo respondedor de questionários. Se vejo em alguma revista um daqueles testes do tipo "Como está seu coração" ou "Você será trairia sua mulher?" ou qualquer outra coisa do gênero, saio respondendo na hora. É claro que não resistiria a tal proposta. Estes dias vi-me respondendo um teste sobre TPM numa revista Cláudia de um consultório...

Então vamos lá. As perguntas estão grifadas.

- Qual o livro que você mais relê?

"A Metamorfose", de Franz Kafka.

- E que livro relido ficou melhor?

"O Idiota", de Dostoievski.

- Dê exemplo de livros injustiçados que, apesar de muito bons, nunca foram devidamente louvados.

São tantos! "Memorial de Aires", de Machado de Assis; "Laços de Família" de Clarice Lispector, "Luzia-Homem", de Domingos Olímpio; "Quatro-Olhos", de Renato Pompeu; "Dona Guidinha do Poço", de Manuel de Oliveira Paiva; toda a obra de Sergio Faraco e mais uns 100.

- Cite um livro decepcionante, que frustrou suas melhores expectativas?

"Alta Fidelidade" de Nick Hornby, o filme era melhor.

- E um livro surpreendente, isto é, bom e pelo qual você não dava nada?

"A Flor, a Carne, os Figos (sobre as mulheres)", de Heloísa Pedroso de Moraes Feltes.

- Há cenas marcantes na boa literatura. Cite duas de sua antologia pessoal.

Vou arrasar nessa: a cena em que Ivan Fiodoróvitch Karamazov conta a Parábola do Grande Inquisidor em "Os Irmãos Karamázov", de Dostoievski; e o diálogo entre Adrian Leverkühn e o diabo (Cap. 25) em "Doutor Fausto" de Thomas Mann.

- Há personagens tão fortes na literatura que ganham vida própria. Cite os que tiveram esta força na sua imaginação de leitor?

Floriano Cambará, em "O Tempo e o Vento" (Parte III, "O Arquipélago"), de Erico Verissimo; Tristram Shandy, de "A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy", de Laurence Sterne; Rodion Raskolnikov, em "Crime e Castigo" de Dostoiévski; o Josef K. de "O Processo", de Franz Kafka; o narrador de "Opiniones de um Payaso", de Heinrich Böll; o Conselheiro Aires, do "Memorial de Aires", de Machado de Assis; a Anna de "O Carnê Dourado", de Doris Lessing; Lucien de Rubempré, de "Ilusões Perdidas", de Balzac; Clarissa Dalloway, de “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf; etc.

- Qual o livro bom que lhe fez mal, de tão perturbador?

"Berlim Alexanderplatz", de Alfred Döblin.

- E qual o que lhe deu mais prazer e alegria?

Foram tantos... Como foi pedido só um, vai lá: "Sete Novelas Fantásticas" de Isak Dinesen.

- E o que mais lhe fez pensar?

Um só? "Extinção" de Thomas Bernhardt.

- Cite...

a) um livro meio chato, mas bom

"V." de Thomas Pynchon.

b) um livro que você acha que deve ser muito bom mas que jamais leu

Apenas "Ulisses", de James Joyce.

c) um livro que não é um grande livro, apenas simpático

"Ensaio Sobre a Cegueira" de José Saramago.

d) um livro difícil, mas indispensável

"Os Mímicos" de V.S. Naipaul.

e) um livro que começa muito bem e se perde

"Maus presságios" de Günther Grass.

f) um livro que começa mal e se encontra

"Brincando nos Campos do Senhor", de Peter Mathiessen.

g) um livro que valha apenas por uma cena ou por um personagem, ainda que secundário

O olhar entre Sarah Woodruff e Charles Smithson em "A Mulher do Tenente Francês" de John Fowles.

- Qual o início de livro mais arrebatador para você?

"A Metamorfose" de Franz Kafka.

- De que livro você mudaria o final? Como?

"Crime e Castigo". Eu deixaria Raskolnikov sem salvação.

- Que livros ficariam muitos melhores se um pedaço fosse suprimido?

"Guerra e Paz" não precisa daquela tese ridícula no final (mais ou menos 50 páginas).

- Que livros que não têm nada a ver com você, até contrariam algumas de suas convicções e que ainda assim você considera bons ou recomendáveis?

Eu odeio dizer que adoro os livros do fascista Céline: "Morte a Crédito", "Viagem ao Fundo da Noite", etc.

- A literatura contemporânea é muito criticada. Cite livro (s), escrito (s) nos últimos dez anos, aqui ou no mundo, que mereça (m) a honraria de clássico (s) ou obra-prima (s).

"O Avesso da Vida" de Philip Roth; "Aspades, ETs, etc." de Fernando Monteiro; "Afirma Pereira" de Antonio Tabucchi; "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" de José Saramago; "As Horas" de Michael Cunningham.

- Por falar em clássicos. Para que clássico brasileiro de qualquer época você escreveria um prefácio daqueles que incitam a leitura?

"Memorial de Aires", de Machado de Assis.

- Cite um vício literário que considere abominável.

As explicações nos rodapés por parte dos autores.

- E qual a virtude que mais preza na boa literatura?

A sinceridade.

- De que livro você mais tirou lições para seu ofício?

A obra mais “pedagógica" que conheço são os Contos de Machado de Assis.

- Qual a palavra mais bela - e a mais feia - da língua portuguesa? E que a frase ou verso que escolheria como epígrafe desta entrevista?

Palavras? Vou deixar esta em branco, tá?

A epígrafe para esta "entrevista"? Ora, só pode ser....

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente na livrarias:
Preciso de todos.

Mundo Grande (Fragmento) - Carlos Drummond de Andrade


Milton Ribeiro mantém o blog www.miltonribeiro.blogger.com.br .

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Nua & Crua
Cristiane Martins

A Fatídica Reunião de Terça-Feira
Escrito em 03/Setembro/2002

Se alguém pedisse para defini-lo em uma palavra, medíocre seria bondade!

Sabe aquele cara que adorava tripudiar seus subordinados com a maior naturalidade?

Pois é, eleve a potência 3 e você terá uma idéia de como ele era!

Barba por fazer e óculos que teimavam em cair-lhe sobre a ponta do nariz, daqueles redondinhos, bem estilo John Lenon contemporâneo! Falava alto e ria alto!

Naquele dia ele havia se superado! Estava a rigor, mas para uma festa a fantasia! Vestia um terno mostarda, mas daquela cor de mostarda de final de pote, aquele amarelo meio esverdeado que não chega a ser laranja, bem, o fato é que o terno era muito brega, além de estar amassado e sem falar que o paletó era exageradamente grande!

Para completar, a gravata! Roxa, claro! Que combinação!

Era daqueles executivos que ninguém sabe direito a função na empresa, mas que por bem menos que uma piadinha pode te colocar no olho da rua! E naquele dia ela estava sentindo que o cara a estava olhando com ares de vilão!

Era terça-feira, dia das entediosas reuniões operacionais!

“Reunir-se para debater a semana e trazer assuntos novos para o grande grupo é o segredo do sucesso de uma grande empresa” sempre disse seu chefe enfiado no seu costumeiro terno preto com gravata de listas vermelhas!!! E lá estavam todos, reunidos naquela sala cheia de janelas e cortinas e quadros! Cadeiras nunca tinha suficiente para todos, por isso os que chegavam primeiro sentavam-se, os atrasados e simpatizantes do cafezinho matinal que se aglomeravam as 08 hrs da manhã naquela máquina de café expresso tinham de ficar de pé mesmo! Segurando a parede da “sala de reuniões”!

Ela, naquela fatídica manhã havia chegado cedo e conseguiu um lugar para sentar!

As 8 hrs em ponto o monstro do pote de mostarda entra na sala com um punhado de papéis entre a mãos e com um sarcástico sorriso que mal dava pra notar o cinismo entre os tocos da barba de mais ou menos uns três ou quatro dias!

Bom dia disse ele, leia-se nas entrelinhas “morram todos”... como que estivessem ainda no jardim de infância responderam em coro: BOM DIA (só faltou o “querido professor”).

Depois do doce bom dia o lobo mau começou seu monólogo: “trabalhamos com informações” disse ele, “esse é o nosso produto, nosso cliente quer estar bem informado sempre” Seu ouvido ensurdeceu no momento em que seus olhos conseguiram ver que entre as mãos do terno de mostarda estava nada mais nada menos que um processo dela, de um de seus clientes! Ah, ela sabia! Tantos erros acontecem, mas não, era justo o dela que ele tomaria como exemplo! E o verme ainda teve a capacidade de dizer : “eu peguei o teu processo, mas não que eu esteja te malhando, é somente para dar um exemplo” ...

Daquele momento em diante ela mudou de mundo, via tudo em câmera lenta, as bocas mexiam e os braços gesticulavam sem parar, era como que o tubo de mostarda velha estivesse dançando na sua frente... sentiu seus olhos marejados! Merda! Que droga de profissional sou eu? Um maricas??? Segure-se, vamos ... você consegue!

Daí o momento crucial em que o abominável homem de gravata roxa jogou o processo rispidamente sobre a mesa de vidro que naquela altura do campeonato já estava cheia de impressões digitais!

Sentiu que sua lágrima a traiu e não conseguiu segurar mais ... só ouviu a última frase que o homem expeliu: “isso não é serviço que se apresente”

Levantou-se, bateu portas, soluçando e chorando... o que faria ?

Humilhada diante de metade da empresa, tratada como que fosse um João ninguém...

“Vou embora! Vou pedir demissão! Quem que esse merda pensa que é?

Não sou paga pra ouvir isso! Tenho meu valor! Todos aqui conhecem a qualidade do meu trabalho oras e se eu sair daqui, consigo emprego no primeiro concorrente que eu bater na porta! Demitir-se??? É isso aí!!!” Mas daí um pensamento lhe corroeu a alma ... e quem pagaria o aluguel? O condomínio? A luz? O supermercado? Já havia estourado cheque especial, e todos os tipos de empréstimos, já estava sócia do credi matone ...

Seu senso de obrigação falou mais alto e transpôs seu orgulho ... e já na porta do departamento pessoal travou e deu dois passos de volta foi quando deu de cara com quem? Não, com a máquina de café expresso!!! Toda convidativa lhe sorria e lhe dizia: café fraco, café forte, café com leite, capuccino, mocaccino, chocolate ... seus olhos se encheram de luz e sua veia pulsava pela cafeína, assim como drogado em crise de abstinência deseja a droga, ela desejava aquele cafezinho ... era isso ... era disso que precisava para sobreviver o resto do dia!

Notou porém que tinha alguém na máquina, passou as mãos sobre os olhos borrando sua maquilagem (deveria ter seguido seu sexto sentido e ter colocado o rímel a prova dágua que lhe sorria no estojo de maquilagem)... quem era? Algum colega que fugira do massacre? Não! Era a “tia da limpeza” ! Frenéticamente ela passava um paninho do tipo perfex sobre a tampa da frente da máquina entreaberta ... o que estaria aquele ser fazendo naquele exato momento, naquele exato aparelho ? Como que escutasse seus pensamentos ela virou-se e fitou-a por alguns segundos por debaixo dos óculos empoeirados e sentenciou: NEM ADIANTA TENTAR! ACABOU O CAFÉ! SOMENTE A TARDE!

Que injúria! Como assim acabou? Como assim? Como assim?

Saiu correndo porta afora e seus gritos foram ecoando pelos corredores frios daquela empresa: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO !!!

Ouviram-se mais tarde boatos de que a pobre moça havia tentado suicídio ainda naquela manhã, mas parece que esqueceram de avisá-la que mostarda não mata! A menos não as que vendem em supermercados e são completamente inofensivas!

Boato ou verdade, o fato é que , exceto pelos olhares que trocaram os ouvintes da reunião quando ouviram o grito, nada mudou a rotina daquela gente!

A reunião acabou e o “povo” voltou calmamente para suas mesas e prisões imaginárias!

Somente uma cadeira ficou vazia, mas ninguém questionou nada exceto pelo Estagiário de cabelo espetado que atravessou o chiclete na boca e notando a cadeira vazia largou:: “ Tipo assim, será que posso trocar minha cadeira por essa? O encosto da minha está quebrado e esse aí tá novinho!”

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Repartição

Tomou o gole do café ali, encostado no balcão da padaria, e sentiu que o líquido lhe desceu pesado como um sapo gordo que não consegue se sustentar em cima de uma daquelas folhas que bóiam e que eu nunca sei o nome. Pagou o velho da padaria amaldiçoando-lhe como se este fosse o responsável por uma úlcera que sentia crescer, mas que continuava a alimentar com cafés pretos junto a padarias sujas. Tentou caminhar até a escadinha que levava à rua, mas sentiu sua pança inchada e uma vontade louca de cagar. Segurou-se até chegar ao escritório, cedo demais para encontrar a Márcia, que não gostava que ele usasse o banheiro das secretárias. Forçou uma evacuação, mas não conseguiu nada mais do que sonoras e fedidas flatulências que o constrangeram mesmo estando sozinho na repartição. Quando ouviu o barulho de uma porta bater, olhou para o relógio e viu que era tarde demais: as secretárias já estavam chegando, e não havia como sair do banheiro sem passar por elas e receber um olhar reprovador pela sua atitude de confrontamento com o que elas haviam estipulado. Sentiu vontade de mandá-las à merda, mas uma fisgada no ânus o fez se concentrar novamente no bolo de fezes que não conseguia libertar. A pança se revolvia como se tivesse vida própria, e os arrotos que agora lhe chegavam, não tinham outro odor senão o de café requentado. Alguém bateu na porta do banheiro e ele fez silêncio, esperando para ver se desistiam. (os tec, tec do sapato de solados de madeira denunciaram Marta, a insuportável responsável pelo setor, que caminhou de volta para a sua mesa e ficou batendo as unhas pontiagudas no tampo de eucatex enquanto a janela do explorer permanecia congelada na sua tela.) Quando sentiu que se afastavam, forçou mais uma vez para ver se conseguia se livrar da bosta ressequida na saída do ânus. Sentiu uma ardência e teve certeza de que foi sangue o que pingou na água do vaso sanitário. Suava em demasia e sua camisa de trabalho não se encontrava mais em condições apresentáveis devido às rodelas de suor embaixo do braço. Maldita hora em que entrei neste banheiro, pensou. Sem conseguir defecar, enrolou uma tira de papel higiênico nas mãos e passou no rabo, sentindo o papel muito áspero machucar-lhe as carnes e voltar sujo de sangue. Atirou o papel na privada, que agora continha pequeninos pedaços de merda que sairam junto com os filetes de sangue. O banheiro fedia terrivelmente e o spray de bom ar não funcionava. Apertou a válvula da descarga que não respondeu senão por pequeninas ondulações na água em volta dos pedacinhos de merda e do papel amarfanhado que lá jogara. Alguém batia na porta novamente. Fez silêncio e ouviu gritarem seu nome. Ainda não tinha levantado as calças, quando se olhou no espelho e se desesperou com as pequenas brotoejas em suas nádegas, como bolhas de desidrose estouradas que umedeciam seu traseiro. O tec tec se aproximava novamente. Perdeu o equilibro quase ao mesmo tempo em que a vista escurecia, batendo com a cabeça forte contra a parede de cerâmica; no entanto, ainda sentiu quando o maxilar se quebrou contra a louça da privada.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Futebol meio a zero

Placar de alguns eventos do mundo da bola: basquete: 88x73, vôlei: 3x2 (com 25/20, 22/25, 21/25, 27/25, 27/25), futsal: 6x4, tênis: 2x1 (com 6/3, 7/6, 6/4, 6/4, sem falar no 15, 30, 40, ...), handebol: 10x7, tênis de mesa: 3x2 (com 11/9, 10/8, 7/10, 9/11, 10/8), futebol: um a zero. Um a zero! Pois é, futebol é assim mesmo: por pouco mais de 90 minutos de espetáculo, a platéia fica sempre à espera do momento mágico desse esporte. Por vezes, mesmo quando ele não ocorre, a galera pode vir a ter suas razões para comemorar. Mas que é dureza ficar duas horas num estádio (ou mesmo na onda televisiva) sem ter a chance de explodir de alegria, ah isso é. O esporte mais popular do Brasil e, por conseqüência, o que mais enterte as classes menos privilegiadas, é tão pobre em gols quanto esta é em sua balança financeira. Em números relativos, poucos são os jogos com placares mais dilatados. Sei que o futebol tem se tornado mais competitivo, que a zaga está ali para isso, mas você não vai me convencer que a mais bela das defesas tire mais aplausos do torcedor do que a bola sendo guardada na rede do time adversário.

Pergunto-me, ao mesmo tempo, se não seria justamente essa singularidade do futebol o seu maior charme. Se não estaria na tensão do jogo, na espera do gol, nos lances polêmicos, no xingamento ao juiz e toda sua família, que estaria o “tchan” do espetáculo (para desespero dos cardíacos). Mesmo assim, fico imaginando como seria se um placar mais dilatado fosse a regra, se a regra pudesse ser modificada de forma a resultar em placares mais dilatados ou se tivéssemos pelo menos jogos mais dinâmicos. Desde o estabelecimento das regras, algumas poucas e tímidas medidas foram tomadas nesse sentido, como a proibição do recuo de bola com os pés para o goleiro e vitórias valendo o triplo de um empate. Pois reuni então algumas idéias que circulam pelo mundo futebolístico a respeito de tema e passo a dividi-las com vocês:

Impedimento – Quantos gols anulados, jogadas interrompidas, polêmicos erros e acertos. Além de ser uma regra que gera muita polêmica, é a base, penso eu, da necessidade de dois juízes auxiliares. Assim, abolir o impedimento poderia ser sinônimo de acabar com os bandeirinhas (trocando por mais um juiz em campo - ver adiante). A idéia é dar mais campo e liberdade para os avantes. Há quem defenda também a permanência do impedimento apenas a partir de uma linha imaginária que corta o campo lateralmente na altura da linha da grande área. Eu seria mais radical, até porque isso resolveria a eterna dificuldade masculina de explicar essa regra para o sexo oposto (e se então as mulheres acabarem com a TPM, estaríamos todos quites).

Arbitragem – È injusta a situação do juiz. Ele é só um e corre na defesa, meio-campo e ataque, não é substituído, tem que tomar decisões sem ter os detalhes “da telinha”, sem o replay, recebe os piores xingamentos de todas as torcidas e não raro acabam pagando o preço pelos erros de seus auxiliares. Sou a favor de termos 2 árbitros, um correndo em cada metade do campo, munidos de alguma forma e telecomunicação mútua. Ficaria indubitavelmente mais fácil de estar “em cima do lance”, quem sabe até mesmo podendo eliminar a necessidade dos bandeirinhas (ver considerações sobre o impedimento). Mas também não adianta mudar um monte de regras se as que existem não são obedecidas (também vale para o futebol...). Bons olhos para a idéia da criação de um curso superior de formação de árbitros, cujo diploma seria pré-requisito para o exercício da profissão.

Tecnologia – é impressionante como o futebol ainda lança mão (ou pé, já que estamos falando de futebol) de pouca tecnologia dentro do gramado. Só há pouco surgiram os sprays demarcatórios estilo creme de barbear, que nada de moderno têm em si e ainda assim não são usados em todos os jogos. Detesto a comparação com os EUA, mas ela se faz necessária nesse momento. No futebol americano, os lances polêmicos são passíveis de discussão in loco. Basta o treinador jogar uma toalha branca no chão e o juiz está desafiado a rever o lance com seus auxiliares e ainda assistir o repeteco num monitor privativo colocado à beira do campo. Se errar é humano, consertar pode ser da máquina. E tem também os telecomunicadores, que facilitariam a vida dos juízes quando quizessemfalar com seus auxiliares e mesmo com a torcida. Eles poderiam bradar num fone estilo Sandy & Júnior, com transmissão para os alto-falantes do estádio: “Falta!”, “Pênalty!”, “Escanteio”, “É a de vocês!”, etc.

Tempos de Jogo – 11 jogadores correm 45 mais 45 minutos e ouvimos, quase sem exceções, suas ofegantes entrevistas aos repórteres ao final de cada jogo. Com o tempo isso se torna um “sotaque” de jogador e imagina-se que o tom seguiria imutável mesmo num calmo alvorecer dominical. Pois é desta semana a recusa da FIFA em aumentar de 15 para 20 minutos o tempo de intervalo de um jogo de futebol. Mas o tópico bem que poderia merecer outras mudanças, como aumentar o número de substituições, que atualmente restringe-se a 3 (e já foi de apenas 2). De repente seria necessário um plantel maior disponível no banco de reservas. Outra possibilidade seria um sistema de 3 tempos de 30 minutos ao invés de 2 de 45 (só para não imitar os tradicionais 4/4 americanos).

Tempo Técnico - Pense bem, o time está mal, não se acerta em campo. Bons treinadores sabem o que fazer, mas têm apenas o intervalo para passar orientações, restando ficar deselegantemente aos berros na beira do campo em sua área técnica enquanto a bola rola no gramado. De volta aos outros esportes com bola e veremos que existem pedidos de tempo ao longo de cada período. Num esporte onde a coletividade e preparo físico são fundamentais (o massagista sempre socorre com aquela aguinha), 45 minutos com apenas 3 substituições e sem poder “arrumar a casa” ou mesmo mudar de estratégia, batendo um papo com seu time é lamentável. E a culpa é geralmente do coitado do treinador ...

Lateral – ainda não encontrei lógica em bater o lateral com as mãos, fazendo a segunda exceção à regra de não se usar essa parte do corpo (a primeira fica a cargo do goleiro). A cobrança com os pés implicaria num lançamento com maiores possibilidades ofensivas. Observem quando a bola é colocada dentro da área por ocasião de uma cobrança nas suas proximidades. Além disso, acabariam com as reversões devido a erros elementares, como o alçamento da bola com o atleta em movimento. Se há jogadores que cobram lateral com as mãos melhor do que o fariam com os pés, é de se questionar se não estariam praticando o esporte errado ...). Seria uma cobrança de falta, um tiro de meta na lateral, ou seja, um tiro de lateral.

Escanteio – uma vez que se efetive a mudança na regra do lateral, é preciso incrementar o escanteio ou ele fica desvalorizado, tornando-se apenas um “lateral de fundo” (sem preconceitos com o lateral). Uma forma de lhe conceder maior status (leia-se ser um lance com maiores chances de resultar em gol) é a mudança do local de cobrança para o ponto onde se encontram, perpendicularmente, a linha de fundo com a linha da grande área. Sei que, atualmente, um escanteio bem cobrado tem seu valor tático, técnico e mesmo estético (vejam o gol olímpico, por exemplo), mas o que mais vemos são jogadores chutando verdadeiras abóboras, como se não passassem dias treinando esse chute. Pensando assim, isso ajudaria também a conservação das abóboras ...

Limite de faltas – esportes de contato direto têm disso. Creio que uma boa forma de tentar (nada é garantido) reduzir o número de faltas e criar mais chances ofensivas, é a criação do limite de faltas. Assim como no futsal e no basquete, após um determinado número de faltas o time infrator é penalizado com um tiro livre direto na sua intermediária. Jogador que, individualmente, excede as infrações, poderia ser punido com um “chá de banco” por um tempo pré-determinado, deixando sem time com 1 jogador a menos e criando uma clara vantagem ofensiva ao adversário. Menos faltas também poderiam significar menos lesões dos atacantes, nossos protagonistas do gol e seria também uma forma de aplicar a tão moderna medicina preventiva (outra forma é partir para a prática de outro esporte ...).

Existem ainda muitas outras idéias, como reduzir o número de jogadores em campo, as dimensões do campo e do gol, etc. Certamente a organização de um forum sobre o tema, com a presença de instituições relacionadas, clubes, dirigentes, comentaristas, jornalistas, repórteres, torcedores e quem mais quiser participar (enquanto algumas esposas estariam reunidas na liga contra o futebol), traria uma gama enorme de soluções. O problema é que a bola está ficando no banco, substituída pelos teóricos burocratas de plantão, com suas leis e estatutos que nem mais os ingleses querem ver. E olha que, segundo dizem, foram esses mesmos gringos que inventaram essa coisa toda.

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Imperdível: “o 'futchibol' é o único jogo onde as regras são perfeitas desde o início. Ora toma, que vais p'ra Roma! Eu, por mim, para evitar os empates, resolvia logo o problema: fazia um jogo só de penaltis. Cada equipa marcava cem penaltis. Garanto que nunca haveria empates!” (comentários do português C.F., em seu artigo no site Voz Portucalense

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Diálogos da noite de PoA
Pedro Schestatsky

Conversaram durante horas sobre cinema, filmes e faculdade. Ela fazia história na UFRGS. Interrompo uma de suas divagações e pergunta ao garçom: “Ei, Vaz! Uma curiosidade a respeito deste cartaz...” Onde se lia: CEVA GELADA 2 REAIS “O que é, xarope?”
“E quanto custa a ceva quente então, hein Vaz? Me responda, por favor” Risos. Ele sempre fazia a mesma piada, pra impressionar, dar uma de espirituoso.
“Tens namorado? - perguntou André finalmente.
“Não”
“Jura”
“Juro pela minha mãe morta”
“Ah, assim não vale, espertinha. De que adianta jurar pela sua mãe se ela já está morta?”
“Imbecil”
“OK. Então já teve?” - fazia esta pergunta para sondar quanto a hipótese de levá-la para cama, o que na sua concepção, dependia do número de relações estáveis no passado. Nada mais lógico. “Sim, alguns”
“Teve sexo com todos eles?”
“Ei, ei! Mas que intimidades são essas?”
Osvaldo pensou um pouco e respondeu em tom supostamente agressivo:
“Eu é que pergunto: que intimidade é esta de perguntar “Que initimidades são estas!”
Silêncio...
Risos...
Ela definitivamente gostara dele
“Sem querer, quer dizer, eu não pude deixar de perceber os filmes que pegaste agora no vídeo. São todos para ti?”
“Como assim?”
“Sei lá, pegaste algum filme para alguém. Alguém te pediu para pegar um determinado filme?”
“Não, não. Lá em casa só eu curto vídeo...”
“Ah...”
“Por que tu estás perguntando? Algum problema na minha escolha?”
“Não, absolutamente... Só, só estou encucado com o “Twister”. Pensei que tu não curtias este tipo de filme...”
“E qual é o problema? É um ótimo filme de aventura”
“Melhor que Indiana Jones?”
“Olha, meu amigo - um pouco alterada pela bebida - eu vou te dizer uma coisinha...” “Pode dizer”
“Isso tudo é uma questão de gosto. É o que eu sempre digo: FILME, HOMEM (PARA TI, MULHER), TIME DE FUTEBOL, COMIDA, ROUPA, VIAGEM, BOATE, CARRO, BOTE, CANETA, LIVRO, PROGRAMA DE TV, POSIÇÃO PARA DORMIR, SEXO, BEBIDA, PERFUME, COR, ESTUFA, COMPUTADOR, BOLA, ATOR, DIRETOR DE TEATRO, MÚSICA, TELEFONE, CAIXA DE SAPATO, LÂMPADA, ÁRVORE, APARELHO DE SOM, FITA, EXAMES LABORATORIAIS, LANCHERIA, BONÉ, PÍLULA ANTICONCEPCIONAL, ESTAÇÃO DE RÁDIO, FOICE...
“Tudo isso não se discute, certo?”... É isto que tu queres dizer, não é? - tendo que interrompê-la
“Talvez. Não me lembro”
“Pirou de vez”, disse ele para si mesmo. E perguntou para ela:
“O que tu mais gosta de fazer além de ver filmes?”
“Gosto de fazer sempre coisas diferentes. Sempre coisas novas. Estes dias, por exemplo, fiz uma coisa que nunca tinha feito na vida. Acho que a graça de viver está em fazer coisas variadas...”
“E o que foi que tu fizeste afinal?”
“Cortei as unhas do pé enquanto fazia cocô”
“Nossa que legal!”
“Outra coisa que eu gosto é beber. Sabe, esses dias e e mais dois amigos fomos a um bar e tomamos todas: 18 CEVAS, 1 GARRAFA DE UÍSQUE, 2 TEQUILAS... NÃO, DESCULPE. NA VERDADE FORAM 13 CEVAS, MEIA GARRAFA DE UÍSQUE... TALVEZ TENHAMOS TOMADO CACHAÇA TAMBÉM, ESPERE. NÃO, É ISSO AÍ MESMO...   AH, DEPOIS COMPLETAMOS COM LICOR DE CEREJA, DOIS COPOS PARA CADA UM. MINTO. UM COPO E MEIO... PODE SER...” “Puxa, mas isto é muito interessante... E muito chato também. Pois vou te dar uma dica. Uma dica que eu não costumo dar para qualquer um” “Puxa, legal. Estou te ouvindo...”
“Nunca mais faça isso. Nunca mais...”
“O quê?”
“Nunca mais submeta uma pessoa a esta tortura de ouvir o que você e seus Amigos babacões beberam. ISTO NÃO INTERESSA A ABSOLUTAMENTE NINGUÉM. É A COISA MAIS CHATA QUE EU JÁ OUVI NA VIDA, POR FAVOR PARE, PARE, PARE”
“Desculpe”
“Com uma condição!”
“Qual?”
“Prometa que nunca mais vai falar também de seus sonhos e de seus casos amorosos. Essas são outras torturas, que pelo jeito tu deves sempre falar”
“Como tu sabe?”
“Eu reconheço uma chata à km de distância”
“Tens certeza de que não quer ouvir um dos meus sonhos?
“Prefiro a morte. Seus sonhos só tem valor para você. Eles deprimem qualquer um.
“Pois é justamente o que eu ia comentar. Te acho um pouco deprimido.
“Bem , talvez seja isto que me torne um pouco mais interessante. “Pode ser. Deprimido “Quero morrer hoje mesmo. Conte-me seus sonhos, por favor!!!

Pediu a conta e foi embora. Precisava ir embora urgentemente. Antes que este conto ficasse mais insuportável do que já estava.

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I-Racional
Pedro Volkmann

Mais um agente da CHAOS
(lembram do Agente 86?)

Saiu no terra, dia 25 de fevereiro de 04 uma notícia tranqüilizadora para os moradores de uma determinada região da Ucrânia:

“As autoridades da Ucrânia informaram hoje que a neve amarela que caiu nos últimos dias nos montes Cárpatos, no oeste do país, continha areia procedente do norte da África e não representa perigo à população. Em mensagens divulgadas pela rádio e a televisão local, representantes do Ministério da Emergência e do Serviço Meteorológico explicaram aos camponeses que a neve é inócua e asseguraram que não é necessário que evacuem a área.”

Pois é esta notícia é a prova mais viva de que não podemos acabar esta tal da CHAOS. Como o seriado havia se extinguido, achei que as ações maléficas desta terrível organização criminosa tinham acabado. Fui surpreendido mais uma vez. Recebi uma ligação do Maxwell Smart, alarmado, pois ele sabia que ultimamente a pessoa que mais tinha estudado e escrito sobre a organização era eu. Chegou a me perguntar se isto não tinha vindo do rei das Caixinhas Pequenas (simplicíssimo - edição 27). Apenas o lembrei que o Reizinho é apenas um personagem que não influía no mundo real. Ele acreditou (ufa). Ainda conversamos sobre outras possibilidades, pois as ações da CHAOS são tão bem organizadas que é impossível se dar conta da própria organização, então levantamos mais algumas hipóteses. Todas elas envolvendo borboletas selvagens e cachorros domesticados. A grande questão é que em todas elas faltava um “que” de maldade e descaso, ingredientes essenciais para confirmar a culpa de nossos suspeitos.

Quando desliguei fiquei pensando onde andariam seus companheiros, a Agente 99 e o chefe e uma coisa ainda me intrigava: como um sujeito daqueles poderia ser chamado “Smart”? Sozinho, refeito de minha experiência rica em nitrato de prata, fiquei imaginando quais seriam as verdadeiras razões de um deserto africano derramar suas inócuas areias amarelas nos países do centro da Europa. Também fiquei imaginando que a neve amarela poderia ser proveniente dos estúdios da Disney, numa tentativa de agradar os orientais, com a criação da Amarela de Neve, uma doce e meiga japonesa e seus sete samuraisinhos, todos eles tratando de mostrar, através da milenar arte MECHA SUES PADA, as qualidades de seus pequenos pauzinhos. Desta vez ela não teria que esperar pelo príncipe encantado. Existe outra possibilidade, porém remota: esta areia, na verdade seria proveniente de Goiás e teria sido levada para a Ucrânia para testar se o Césio 147 seria radioativo mesmo para aqueles UCRÂNIOS, pessoas muito mais evoluídas que nós, brasileiros.

Não sei se o problema será algum dia solucionado por completo.
Cá entre nós, tenho quase certeza da verdadeira razão do referido problema, acredito que as autoridades internacionais (ou do grêmio) deveriam mandar prender este tal do organizador da CHAOS.

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Exílio
Grasielle Regassini

E pra que me serve estar viva?
Essa doce e amarga ferida;
De que nas horas de dor não se estanca
Fica estática, pálida, branca.
Me parece mais um deszelo,
Me parece mais devaneio
Que a cada instante não morre,
Mas a cada segundo se aviva.
É doce; é amarga a ferida,
É mel que seus lábios derramam
É fel que seus olhos proclamam
E de que me vale ainda estar neste exílio,
Se a cada noite me mato, me alio
Não me falta amor que eu não tenha,
Só me falta amor; que eu queira!

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Ombudsman
Maurício Silveira dos Santos

O Anti-Ombudsman

Olá, caros leitores. Vocês também se assustaram ou fui só eu que pensei que o Simplicíssimo (vocês sabem...) tivesse sido sabotado? Tentei acessar a página e, como deve ter acontecido com muitos, ou seja, sem aviso nenhum, apareceu aquele aviso soturno. Para um semi-analfabeto virtual como eu foi como se o e-zine tivesse desencarnado subitamente devido a uma doença misteriosa qualquer, um vírus mortal inoculado por algum grupo fascista anti–escrever-por-escrever. Foi então que fui informado pelo nosso saudoso editor dos meandros técnicos (e nada conspiratórios) do ocorrido. Ás vezes a realidade é menos grandiosa do que gostaríamos, né messssmo?

Fiquei observando esta última edição e pensei sobre como é estranho o padrão de comentários dos textos publicados. Por exemplo, o conto do Max Sachetti foi muito comentado e elogiado (quase um fã-clube!). Imagino que ninguém discorde dos comentários porque o texto é instigante mesmo, bem escrito e interessante. A minha dúvida é: qual a razão de outros textos comparavelmente interessantes mesmo que de estilos ou propostas diferentes ficarem ali, sozinhos, como que abandonados, sem nenhum comentário abonador ou ao menos uma crítica fuinha? O texto “Caro Lula” é o caso típico. Um artigo intenso, polêmico, desencantado, enérgico e até mesmo corajoso. Poderia facilmente ter gerado um debate forte tendo em vista o contexto político do momento, a conjuntura tensa em que vivemos. Apenas um comentário. E o “instruções para dar corda no relógio” desta edição, o Alessandro “se puxou” nos argumentos, foi arrojado, formulou uma interessante hipótese (sem se perder nas intrincadas formulações) envolvendo questões de poder e mídia. Como no caso anterior, também o texto do Alessandro trata de um tema que poderia mobilizar os leitores só por sua atualidade extrema (para não falar dos outros méritos) ... nenhum comentário. Este ombudsman poderia continuar falando dos textos do Eduardo Sabbi, do Pedro Volkman e do “dupliartigo”, mas vou parar para não exalar mais chatice. É certo que ter mais ou menos comentários não torna um texto bom ou mau. Não é o aplauso que faz o artista e, dependendo do caso, as vaias podem alegrar muito mais. Mas tratando-se do Simplicíssimo, admito que ler mais comentários e presenciar maior debate de idéias fariam este ombudsman mais feliz. Aliás, de tanto elogiar os contos, crônicas, artigos e autores já estou me sentindo literalmente um anti-ombudsman. Eca!

Até mais.

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Desafio Simplex

O desafio da edição 64 ficou prejudicado em função dos problemas com a troca de servidor e no formulário de participação (que só foi resolvido hoje). Desta forma, vamos manter na edição 65 o mesmo desafio.

Pedimos desculpas pelo transtorno e salientamos que os leitores que conseguiram enviar suas respostas antes do problema já estão concorrendo.

... continuem participando e divulgando o Desafio Simplex!
O próximo desafio já está aí ...


Esse CD pode ser seu!
Desafio Simplex!

Clique aqui para saber mais!!!

Pegue o banner
do Simplicíssimo
e divulgue em seu
sítio ou blógue!


Línque para
http://www.simplicissimo.com.br
e depois nos avise!


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

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