02 /04/2004
- Edição número
69
Primeiro de Abril!
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Editorial
Coisas
do destino: havia escrito uma página inteira
sobre o Primeiro de Abril e a Ditadura Militar.
Quando fui salvar o arquivo, aquela fatídica
mensagem "Salvar como - Não está
respondendo". Nunca havia visto coisa igual...
Não havia salvado nenhuma vez anteriormente.
Fucei todo o computador para ver se encontrava
algum resquício do texto... Neca de Pitibiriba...
Agora
estou aqui, enchendo lingüiça para
ocupar espaço e tomar seu tempo.
Na
edição passada, fomos surpreendidos
por um tal de Comentador Mascarado, que, pelo
que tudo indica, vai dar as caras com mais freqüência
neste site. Em uma mensagem criptografada secreta,
ele nos disse que seu objetivo é esquentar
um pouquinho as janelas de comentários,
ser um incentivador ao questionamento e à
discussão. Tudo o que tenho a dizer: Boa
sorte Comentador Mascarado!
Esta
edição está especialíssima.
Não vou tecer comentários sobre
os textos pois os mesmos estão TODOS igualmente
ótimos! Conselho de amigo: Leia com calma!
Não pule nenhum!
Ademais,
nada a acrescentar. Na próxima semana comemoramos
a Páscoa. Convoca-se os Simplileitores
e Articulistas a escrever alguns textos alusivos
à ocasião. Quem sabe não
teremos uma edição especial de Páscoa?
Forte
e fraterno amplexo,
Rafael
Luiz Reinehr
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O
honrado jurista irrepublicável
Gabriel
Silveira
As estrelas desapareciam, uma a uma, amedrontadas
com os raios do sol que repontava no leste próximo.
Ele não se mexia. Era como se não
mais pertencesse à temporalidade banal
da burrice institucionalizada. Vivia em outro
mundo. Algumas poucas nuvens brincalhonas ainda
tentavam esconder a imponência com que o
sol acordava, para que a gigantesca e orgulhosa
lua fosse pega de surpresa. Bartholomeu observava
tudo com serena paz, contemplando mais seu pensamento
rápido e racional do que as imagens bobas
mas deslumbrantes que o firmamento construía
em seu renascer açucarado. Virara a noite
pensando em como poderia pagar uma dívida,
assustadora para um velho de pouca renda, de 7.800
pesos que o aluguel já acumulara. Para
ele, homem que viveu, em seu esplendor, entre
os mais valorizados aristocratas da sociedade
pré-revolucionária, era uma afronta
à sua moral e à sua honradez plena
ficar em dívida com algo que há
alguns anos seria tão banal. Afinal, talvez
tivesse cometido um erro em mudar-se para esta
grande casa, ele e a criada, coisa que fez ainda
esperançoso pela volta dos dourados tempos
regidos pelo espírito fidalgo. Mesmo marginalizado
naquela sociedade impostamente moderna, Bartholomeu
regeu seu pensamentos durante toda a noite como
uma coruja irredutível em seus apontamentos
noturnos. E foi assim que, quando acendeu pela
última vez naquela manhã seu cachimbo
já mordiscado de preocupações,
estava em tranqüila paz, consciente do que
fazer e como fazer para que a dívida com
sua honra fosse quitada. \"Não mais
Bartholomeu Bornadoli será chamado de devedor\".
Levantou da cadeira de madeira escura e manchada
em que havia passado a noite inteira e pôs
seu cachimbo sobre o vaso de cerâmica envelhecida
que ficava sobre a grande mesa da sala maior que
havia herdado do antigo clero municipal. Pegou
seu sobretudo à saída e a criada
correu em lhe entregar a cartola negra e pomposa
e a bengala com facetas romanas em prata, presente
do velho Conde de Rouen. Ainda recebeu da servente
sua pasta de jurista renomado e, antes de bater
a porta, conferiu se ali estava tudo que precisava
para resolver suas tarefas. Saiu decidido a passos
firmes na calçada engomada pela chuva e
pôs-se de cabeça alta e respeitosa.
Encontrou a população esbaforida
em busca dos melhores horários de empregos
nas indústrias que acabavam de divulgar
as vagas extras abertas na safra para profissionais
sem qualificação. Ele não
contemplou-os. Seguiu confinado em seu pensamento
límpido e consciente de que tinha a resposta
para a solução da esparrela que
o tempo havia lhe armado. Cruzou a Praça
da Nova República espantando os pombos
que lhe pareciam mais acizentados do que nunca
e alguns jovens formados no berço da revolução
lhe gritaram palavras de ordem, \"Viva o
novo\", diziam inconformes. \"Incubadora
do inferno, você verão seus tolos.
A revolução é indeiscente\",
disse e continuou seus passos calculados em torno
das pedras azuladas que formavam as novas ruas
da ordem embutida. Quando chegou na imobiliária
central subiu a escada romanesca em trote contínuo,
degrau por degrau, mas com uma velocidade digna
de um homem que entra em um tribunal ferrenho
com a certeza de conquistar sua absolvição.
Chegou até o balcão e disse à
moça antipática em sua aversão
ao conservadorismo:
-
Desejo acertar minhas contas.
- Seu nome, por favor - respondeu-lhe.
- Bartholomeu Bornadoli.
- B.. b, aqui, sim, ah, sim, passe na terceira
mesa à esquerda, por favor.
- Obrigado, disse Bartholomeu e, virando a cabeça
antes que o corpo pôs-se em sua marcha abstinente
até a mesa indicada, que era a última
e mais isolada de todas.
Sentou-se
à cadeira à pedido do senhor que
ali estava.
-
Senhor Bartholomeu - começou sem apresentar-se
- a sua questão é um bocado incômoda.
Se a nova república seguisse os princípios
draconianos da sua ordem, já seríeis
um homem morto.
- Senhor gerente - cargo que reconhera pela insígnia
que carregava fixado em sua camisa azulada - poupe-me
de suas broncas. Não é a uma criança
que se dirige, além do mais, vim acertar
minhas contas com a república, disse sorrindo.
O
homem hesitou por alguns segundos olhando para
os papéis que solicitara logo que o velho
entrara na Imobiliária e disse-lhe:
-
Bom, somando os juros inevitáveis em tantos
meses de atraso, são 7.800 pesos.
- Que assim seja, então.
Puxou
sua pasta e abriu-a com cuidado. Depois puxou
uma caneta simples e escreveu sobre um papel algumas
palavras entregando-o diretamente ao homem.
-
Sublata causa, tollitur effectus? - leu o gerente
em questionamento.
- Sim, sublata causa, tollitur effectus - respondeu-lhe.
Depois tirou da mesma pasta de jurista uma arma
pesada em sua imoralidade e disparou contra sua
própria cabeça. Morreu homem, honrado
e irrepublicável.
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Simples
Goyuchos
Milton Ribeiro
Uma
Polêmica Suscitada pela Bravo!
Antigamente, a música - mesmo a mais grandiosa
- era utilizada como pano de fundo para jantares
e comemorações. Para nós
é difícil conceber isto, mas a música
de Vivaldi, por exemplo, era ouvida sob o provavelmente
alegre som de comensais italianos alcoolizados...
Excetuando-se os saraus privados, o único
local onde podia-se ouvir música em silêncio
era nas igrejas. O ritual de deslocar-se até
uma sala de concertos a fim de ouvir e ver silenciosamente
a performance de orquestras, cantores e recitalistas
é relativamente recente - começou
há uns 150 anos. Sob uma forma mais barulhenta,
a música popular aderiu a este ritual no
século XX, porém hoje seus concertos
visam mais a celebração do artista
do que a finalidades "expressivas" ou
"interpretativas". Alguns radicais,
como o extraordinário pianista canadense
Glenn Gould (1932-1982) - cujas interpretações
de Bach são até hoje difíceis
de superar - trilharam o caminho inverso chegando
ao extremo de abandonar suas carreiras de concertistas
por não acreditarem mais que o formato
de concertos e shows fosse aceitável, quando
comparado às vantagens oferecidas pelos
estúdios de gravação. Não
obstante o abandono dos holofotes e dos aplausos
- em seu caso sempre entusiásticos -, Gould
seguiu pianista e continuou produzindo discos
cada vez melhores; mesmo sem ter marcado um mísero
concerto em seus 27(!) últimos anos de
vida.
Glenn Gould acreditava
que a tecnologia oferecida pelos estúdios
o colocava mais próximo de seu ideal artístico,
que colocava a técnica pianística
em segundo plano. Apesar de ser um instrumentista
absolutamente preciso e hábil, a impressão
mais forte que temos ao ouvi-lo não é
a do virtuosismo, mas a da expressividade. Com
ele, pode-se ouvir a música. Gould pensava
que existia somente uma interpretação
perfeita de cada obra e que esta só poderia
ser obtida em estúdio com auxílio
da tecnologia.
A verdade é
que as gravações revolucionaram
inteiramente nossa abordagem à música.
Em menos de um século, passamos do sarau
ao CD, fomos do amadorismo afetuoso e comovedor
de nossas residências (que bom se pudéssemos
voltar no tempo, não?) ao sampler. Vejamos
como:
1877: Thomas Edison
constrói e dá nome ao primeiro fonógrafo,
um aparelho que registra e reproduz sons, utilizando
um cilindro de parafina.
1888: O disco envernizado
substitui o cilindro de Edison.
1925: Aparece o primeiro
toca-discos elétrico, que funcionava com
discos de 78 rpm. Um movimento - cheio de chiados
- de uma sonata de Beethoven poderia ocupar vários
discos... Meu pai tinha o Op. 111 do compositor
alemão em 8 discos ou 16 lados de discos
78 rpm!
1940: O acetato e
o verniz começam a ser substituídos
pela fita magnética.
1948: Surge o LP,
que podia receber até 30 minutos de música
(uma sinfonia de Mozart!) de cada lado. Todos
os discos de 78 rotações deveriam
ser jogados fora.(Este é outro assunto...)
1958: O som estereofônico
torna obsoletas as gravações anteriores,
feitas em mono. Chegou a vez de jogar fora tudo
o que não era estéreo.
1965: A fita cassete
ameaça o disco, mas não o vence.
1979: Aparecem as
fitas digitais (DAT) com som semelhante ao do
CD; isto é, muito mais claras do que tudo
o que já havia surgido antes.
1983: Chega o CD,
mais uma vez desvalorizando todas as outras gravações
realizadas em outros meios.
Gould falava em quão
recente era a supostamente eterna tradição
das salas de concerto e ridicularizava vários
de seus aspectos. Por que haveria de ser necessário
atravessar a cidade - talvez com chuva ou sem
a vestimenta adequada -, para ir sentar- com hora
marcada -, em cadeiras normalmente piores do que
as de nossas casas, a fim de ouvir o mesmo velho
e conhecido repertório tocado com acompanhamento
de sussurros e tosses? Segundo ele, a única
coisa que mantinha viva a tradição
dos concertos era a oligarquia do mundo dos negócios
musicais, acrescida do que Gould chamava de "uma
afetuosa, ainda que às vezes frustrante,
característica humana: a relutância
em aceitar as conseqüências de uma
nova tecnologia."
Eu,
modestamente, adoro ir a concertos. Amo aquela
celebração dedicada aos músicos
e à música; mas concordo com Gould
em muitas coisas. É complicado sair de
casa para ver, muitas vezes, concertos constrangedoramente
inferiores àquilo que temos em nossa discoteca.
Outra coisa triste é o conservadorismo
do repertório apresentado: principalmente
no Brasil, considera-se que estejamos eternamente
"educando o público para a música
erudita". Com este argumento, as orquestras
obtém o aval para apresentarem somente
o mainstream do repertório. (Há
as exceções, mas são raras...)
Enquanto isto, o LP e o CD abriram um leque de
opções que mudaram nosso conhecimento
musical. Obras extraordinárias puderam
voltar a fazer parte de nossa cultura, grande
parte da música de câmara (música
escrita para pequenos grupos de instrumentistas)
e da música antiga, inadequadas para as
grandes salas, voltaram através dos discos.
Houve uma importante
alteração na maneira de tocar a
música e, por conseguinte, de ouvi-la e
compreendê-la. Uma vez que, no estúdio,
os músicos não tinham mais de preencher
os grandes espaços das salas de concerto
com som, todo o processo de fazer música
passou a colocar mais ênfase na clareza
e beleza do fraseado. Os microfones que fizessem
o resto! Os antigos instrumentos - de som mais
fraco - retornaram à vida e surgiram as
gravações com interpretações
históricas, utilizando instrumentos de
época, que respeitam a dinâmica e
a forma original das obras.
Peço agora
que vocês, meus prezados 7 leitores, leiam
principalmente a segunda observação
abaixo. Ao final dela, vocês entenderão
o motivo pelo qual este texto acaba (ou não
acaba) tão bruscamente.
Observações:
(1)
A maior parte dos argumentos aqui colocados
livremente estão sistematizados no livro
de Otto Friedrich Glenn Gould: A Life and Variations.
(2)
Em dezembro do ano passado, o Zadig propôs-me
uma discussão acerca da necessidade das
orquestras sinfônicas, tema que a Bravo!
havia abordado muito superficialmente. Seria um
post a quatro mãos, escrito em várias
partes na forma de sucessivas réplicas.
Só que nunca consegui sincronizar minha
agenda gaúcha com a análoga goiana
do meu querido amigo. Neste post, penso ter utilizado
uma vicinal bastante polêmica e informativa,
mas minha expectativa real é a de que a
tal vicinal seja suficientemente provocativa para
que acabemos na ampla avenida proposta pelo Zadig.
Milton Ribeiro mantém
o blog www.miltonribeiro.blogger.com.br
.
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Nua
& Crua
( o retorno)
Cristiane Martins
Depois de longas
férias forçadas, onde a escrava
aqui estava no tronco recebendo chicotadas do
seu senhorio com o fundo musical básico
"lerê lerê lerê lerê
lerê" a romântica e feminista
incurável retorna a ativa! Para alegria
de uns e desespero geral da nação!
Segue o baile!!
Lenda
Escrito em 29/03/2004
Enfim pensara que
o mundo não fora tão injusto consigo...
Tudo acontecera de uma forma tão normal,
nada que fosse prematuro, mas ainda assim por
mais que tentasse aceitar os fatos, tudo parecia
tão cruel, tudo tão sem sentido.
Passou a mão sobre a cabeça, ainda
uns poucos fios brancos espalhavam-se aqui e ali,
fios brancos que de longe lembravam a cabeleira
espessa que ostentava quando jovem.
Muitos anos se passaram, anos doces, inesquecíveis,
mas difíceis também, todos temos
fases difíceis para tornarmos mais fortes.
Riscou um palito de fósforo e ascendeu
a vela de cebo que encontrava-se no altar iluminando
os olhos profundos da virgem santa vestida impecavelmente
em seu manto azul.
Não que ele não possuísse
energia elétrica, sim, sempre desfrutara
de muitos confortos, muito mais que uma simples
lâmpada sobre a cabeça, mas o fato
é que agora tudo parecia tão fútil,
tudo tão desnecessário.
Nada traria sua alegria novamente.
Nem roupas caras, nem carros novos e possantes,
nem todo o dinheiro do mundo.
À ele restaram somente lembranças
de uma vida compartilhada, de um mundo que pintara
de todas as cores, de um mundo que vivera no amor
e na felicidade.
Um suspiro quase apagou a companheira de cebo,
e por um momento pareceu que a virgem imaculada
sussurrasse alguma palavras.
Talvez pudesse ter sido fruto se sua idade avançada,
esclerose, loucura, insanidade.
Mas e quem se importava?
Quem se importaria agora com um velho louco habitando
um vasto casarão construído com
tantas esperanças, com tanto zelo e amor...
Nem sua amada estava presente para compartilhar.
Talvez estivesse...
Talvez bem mais que em seu pensamento e em seu
coração já tão velho
e sofrido.
Com dificuldade caminhou pelos cômodos da
casa, um a um...
Apreciou por algum momento a mobília coberta
pelo pó, e fechando os olhos pôde
até mesmo ouvir os gritos das crianças
correndo pela casa, escorregando no corrimão
da escada central provocando surtos de loucura
nas mães zelosas, suas filhas ingratas!
Subindo a escada do velho sótão
com certa dificuldade amparado pela bengala de
cedro, alcançou uma pequena portinhola
que dava em um quarto onde fazia muitos anos que
não entrava.
Entrou, tentando não ser vítima
das teias de aranha que formavam cortinas nos
cantos do velho e nostálgico cômodo.
Lá encontravam-se apenas restos, vestígios
de tudo que aquela velha casa representara um
dia: um antigo berço, ainda coberto pelo
tênue mosquiteiro quase que o levou às
lágrimas, e foi nesse momento que ele avistou
uma luz adentrando pela janela.
Primeiramente ele pensou que fosse a luz da lua
cheia enchendo todo o pequeno quarto de sua imensidão,
mas logo por entre as chamas brancas ele percebeu
que sua doce amada flutuava tão levemente
quanto um anjo. Alva e formosa, mesmo sabendo
ser um pecado para um católico tão
fervoroso, ele imaginou que naquele momento sua
amada estava mais linda do que a Virgem Maria!
Ele arrastou-se até a janela, mas a cada
passo que ele dava, ela ficava mais distante dele,
perdendo-se na copa da grande figueira que erguia-se
garbosa em seu quintal monumental!
Na esperança de alcançá-la
ele abriu o vidro da janela que encobria uma noite
estrelada de lua, a noite mais maravilhosa que
ele presenciara em toda a sua vida.
E ela permanecia lá, flutuando na sua leveza
natural, chamando-o a conhecer um mundo que ele
jamais sonhara, dizendo baixinho: venha amor,
venha comigo, tenho muitas coisas para te mostrar,
coisas que jamais pôde imaginar tua vã
consciência.
Por desespero e por medo que mais uma vez a vida
lhe tirasse sua doce amada, ele joga-se janela
abaixo num surto impensado de paixão, de
solidão, de loucura talvez!
Nesse momento, toda a noite iluminou-se, a lua
brilhou o quanto pôde e as estrelas multiplicaram-se
cravejando o céu de diamantes...
O dia amanheceu em paz!
Nunca soube-se ao certo o que acontecera com o
velho louco do casarão da esquina vinte
e três. Nenhum corpo jamais fora encontrado,
embora toda a polícia da cidade empenhara-se
em buscas, jamais ninguém soube da verdade.
Tudo o que tinham de vestígios era uma
vela de cebo queimada no altar onde Nossa Senhora
permanecia imaculada, uma janela de um velho sótão
aberta, por onde entram hoje em dia passarinhos
a procura de um lugar seguro para construir um
ninho.
O resto da história ninguém jamais
pôde contar...
O resto permanece apenas como lenda, contada vez
que outra, distorcida na boca de românticos
e amantes apaixonados !
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia
Das
nuances da literatura e suas maldições
Edgar Allan Poe estabelece
que a gênese do bom conto deve partir de
um efeito único a ser atingido e assim
ir acomodando os acontecimentos de forma a satisfazê-lo,
insistindo na regularidade e eficiência
que deverão manter a atenção
do leitor e de um único eixo dramático,
não permitindo intervenções,
comentários e descrições
quando desnecessários. Ele visa a um objetivo
único, ímutável, caminha
em direção a uma luz sem propósitos
de alterações que possam vir a confundir
o leitor a respeito da proposta inicial do autor.
Poe estabelece uma situação inicial
e a partir dela trabalha de forma concentrada
situações capazes de criar o suspense
no leitor conduzindo-o até o clímax.
Para Poe, isto é o necessário para
o escritor do conto atingir seus objetivos.
Já Julio Cortázar,
no ensaio Alguns aspectos do conto [publicado
no livro "Valise de Cronópio"
da editora Perspectiva], nos diz que os contos
de Tchekov visam apresentar algo que está
além do conto em si, tanto antes como depois.
Muito além do fato narrado, escondem-se
outros fatores que devem ser destrinchados pelo
leitor. Utilizando como exemplo o conto "O
bilhete de loteria", onde a tensão
está concentrada em Ivan Dmitritchi e sua
esposa que imaginam terem ganho o prêmio
da loteria. Durante o conto a ação
é praticamente nula, apenas com os dois
se observando e imaginando o que fazer com o dinheiro,
porém quando certificam-se de que não
ganharam nada, voltam-se para a realidade. Não
há nada além disso se pensarmos
de acordo com a teoria de Poe, mas de acordo com
o pensamento de Cortázar sobre a obra de
Tchekov as coisas se passariam de modo diferente.
O que seria, então, esta outra intenção?
Existem subterfúgios
diversos, possibilidades mil de se esconder as
diversas nuances existentes em um conto. Ou de
contá-las da maneira mais fascinante possível,
deixando ao leitor o intrincado jogo de revelação
sobre o que de fato ele representa. Em uma palestra
para escritores cubanos da Revolução,
Cortázar discorreu sobre sua maneira de
olhar para o conto. Para ele, a função
de um conto é quebrar seus próprios
limites para ir muito além da pequena história
que narra. E neste quesito, a escolha do tema
se torna imprescindível como ato de criação.
Cortázar defende que o tema deve ser uma
condição primordial para o contista
esmiuçar sua história de maneira
aglutinante e mais vasta que um mero argumento.
E para isto, é necessário uma total
dedicação e motivação
com o assunto a ser retratado, caso contrário,
o conto já nasce completamente comprometido.
Dedicação, conhecimento - o esmiuçar
do tema escolhido, procurando retirar do conto,
desde a sua proposta de escrita, todos os diferentes
ângulos de análise possível
ou apresentar um, deixando para o leitor as possibilidades
interpretativas de todos os outros existentes.
E isto vai além
de toda a verborragia que perpassa uma produção
literária que hoje tem insistido mais nas
digressões e no vomitar vazio de palavras,
do que no esmiuçar destas diversas possibilidades
que Cortázar nos apresenta. A atual safra
de contos que tem se apresentado, principalmente
através das revistas eletrônicas
tão vastas na net, têm apresentado,
quase sem novas ousadias, o apego as características
dos escritores “malditos”. Não
à toa, as suas referência esbarram
quase que inevitavelmente em John Fante, Charles
Bukowski, Jack Kerouac, Alan Ginsberg, entre outros.
Sobre o primeiro, acho peculiar que também
sempre esteja inserido no rol da “maldição”.
Sua obra prima, Pergunte ao Pó, tão
aclamada por Charles Bukowski, apesar de contar
com fluxos de memória freqüentes,
narração em primeira pessoa e com
uma temática comum nestas obras -- a busca
de sentido pelo personagem título que vaga
insone, com pouco dinheiro e intercalando diversas
aventuras mundanas pelas noites de alguma grande
cidade -- a meu ver não pode ser simplesmente
comparada com obras como a de seu próprio
“discípulo” Bukowski e suas
insanas e toscas aventuras repletas de gratuita
imersão na quase pornografia e constante
embriaguez de seus personagens alter-egos.
Alguns jornalistas
e críticos, interessados em fazer um mapa
atualizado sobre quem são os escritores
da dita nova geração que têm
se prestado a perpetuar tal espécime de
“categoria literária”, se assim
se pode chamar, têm, no entanto, ensacado
todos os escritores estreantes como cópias
mal disfarçadas uns dos outros.
É notória,
no entanto, a constatação de um
tipo de literatura atual que, se não totalmente
fundamentada nos alicerces da geração
dos malditos, têm apresentado elementos
que os equiparem em algum ponto a esta literatura
evidentemente provocativa de então. Lógico
que a literatura como provocação
é uma atitude louvável quando não
calcada em experimentações já
desgastadas e em formas fáceis. O apelo
para o estranhamento, como se buscou outrora,
deve buscar ao menos o novo para se fazer original
e não caricatura de um estilo que, mais
do que discriminado como foi na sua primeira geração,
hoje tem se convertido em status, grife identificadora.
Desta maneira, quem não quer ser maldito?
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|
en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi
Grenal
| Hoje
não recebi
|
Mas
vou esperar |
Nenhuma
mensagem tua |
Ao
menos um pouco mais |
|
Deve ser pois o fim do mundo |
Agora
só
que me resta paciência |
Fim
da Microsoft, da energia elétrica |
Quem
sabe então você faça
contato |
|
Alguma rima e pouca estética |
Para
acabar com isso de fato |
Fim
daquela vontade tua |
Será
o fim dessa angústia |
Que
era falar comigo |
Prá
ficarmos de novo |
O
fim de nós |
juntos
a sós |
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|
I-Racional
Pedro
Volkmann
Andarilhos
e suas ferraris
É duro acordar
em K-Pax, principalmente quando a rotação
dos dois sóis faz com que a noite tenha
apenas duas horas. Porém tenho que confessar
que é melhor assim do que naqueles dias
onde temos noites intermináveis, com dias
minúsculos. Prejudica minha visão.
Gosto de explicar as coisas, julgá-las.
Examino-as a luz do sol. Com espelhos, muitos
espelhos que me fazem ver a realidade de muitos
ângulos, coisa de pesquisador. (Será
possível enxergar a uma pessoa enxergar
a realidade de duas ou mais maneiras?) Na nossa
galáxia tem um planeta que está
descrito em uma enciclopédia que vocês
acham das boas. Eles não gostam de espelhos,
porque eles não gostam de vocês.
É verdade! Eles não gostam de espelhos
e cópulas porque ambos multiplicam homens.
Vocês bem sabem que não é
verdade, pois muitas cópulas não
resultam em homens. Porém, faz sentido
o pensamento deles? Claro que não! Cópulas
podem resultar em homens (eu também odeio
homens), mas também em mulheres (adoro
elas!!!!). Porém, a frase não reporta
homens no sentido amplo? Quanto aos homens criados
por espelhos, estes são fajutos, cópias
baratas, efêmeras que não duram um
segundo além da vaidade de cada ser humano.
Incríveis estes humanos, vivem de aparência
porque são feios por dentro (mas são
felizes). Adoro minha vida de xereta estelar.
Fico xeretando e conhecendo seus hábitos,
tão rudimentares, porém queria a
felicidade deles (dos terráqueos).
Seres ignóbeis, consciências errantes,
conhecem a morte e provocam as guerras. Cientistas
de araque desconhecem a cura de doenças
simples como o câncer, a aids e o mal de
amor, todas elas erradicadas. Busco nos confins
do universo a cura dos males mais profundos da
nossa existência - as unhas encravadas,
pães amanhecidos e a serventia de espelho
de cortesia no pára-sol do carro. E eles
apaixonados pela Sandy, pela Sandy!!! Que coisa,
se ainda fosse a Fernanda Lima eu até entenderia.
Olha lá tem um lendo uma Mary Claire, uma
revista famosa no PPGA e o outro escutando o disco
do Daniel – Endomarketing, super comercial
(mas vende) ao invés daquele clássico
do Wagner, Viçosa terra amada. Que mundo
escroto.
A ciência é um primor, ao contrário
de nossos arqui-inimigos, os habitantes de Tlön,
os humanos tem uma geometria interessante, científica,
desde o que eles chamavam de Grécia Antiga,
com aqueles filósofos que admitiam escravos.
Está certo, estavam muito atrasados em
relacionamentos humanos. Tinha um maluco naquela
época que procurava um ser humano! Com
uma lanterna!!! Devia procurar dentro de si e
aproveitar o tempo antes daquela igreja metida
acabar por mil anos com a ciência. Vamos
fazer uma ressalva, ele não poderia imaginar
que alguém ia propor uma igreja universal.
Descobriram princípios muito importantes
naquela época. São seres intrigantes
estes humanos. Viajam para Cabo Verde, a convite
de seus amigos (quando patrocinados por estes),
escrevem comédias, Ilídios Sapienses.
Um Imperador ateia fogo na própria cidade.
Matam um cara que dizia que o amor era legal.
São loucos estes romanos, para parafrasear
um escritor de história em quadrinhos Belga
que trabalhava na França e se dizia o cara.
Eu faço melhor. Principalmente agora que
não existo. Quero dizer existo, mas o Calvino
diria que não, pelo menos na ótica
de um certo personagem dele. Será que alguém
pode achar que faria algo melhor se não
existisse? Fazer e existir podem ser isolados
em um contexto? Meu texto é assim meio
estranho, acho meu trabalho uma merda! Tenho que
vasculhar o universo atrás de descobertas
importantes para K-Pax.
Demorou muito para alguém descobrir a Física
Quântica, os coitados não imaginam
o quanto é fácil viajar muito acima
da velocidade da luz. Tenho pena, mas esperança.
Eles têm muito mais acertos do que erros.
Não extinguiram toda a diversidade de seus
povos, índios, Peri e Ceci. Estão
sempre alerta, caminham a passos de formiga, mas
caminham e não temem a pesquisa. Alexandras
enfrentam ciclones, ficam atordoadas, mas vão
em frente. Vou dar uma chance a eles, vou pulverizar
o próximo objeto de Tlön que aparecer
lá, assim a ciência deles tem mais
tempo de entender o nosso universo.
Bombardearam o Saddam, mal sabe o Bush que o cara
que vai assumir o Iraque também é
líder religioso, as coisas funcionam mais
ou menos assim no Oriente Médio. Mataram
o descobridor da máquina de contar anéis
de minhocas, não prestam atenção
no que fazem. Acabaram de quebrar uma imagem de
um santo, numa briga de faca dentro de uma igreja.
Quem vai consertar o Rafael. Quebrou a perna e
a cabeça, nem cola Bonder ajeita. Estes
serezinhos me tiram do sério. Vou colocar
no meu relatório. Aliás, meu relatório,
para variar está atrasado. Meu chefe, o
Pedro, está Armando uma para cima de mim.
Está só esperando eu me tele-transportar
para a sede, está com sede de mijada.
Já sei, vou usar a força do meu
pensamento e misturar o meu relatório com
o do colega ao lado, que é bem Caxias,
já deve estar com o dele pronto. Como os
relatórios devem terminar com uma palavra
chave – FIM – vai incitar dúvidas,
pois vamos ter dois trabalhos com um único
fim, o que vai causar espanto naqueles terráqueos
nojentos, que são puro ego. Grande plano.
Vou fazer o que me disse o único terráqueo
que eu acho legal, o Nilton, vou agitar um pouco
este negócio aqui, para gerar calor, estou
sentindo um friozinho interior (deve ser por causa
do esperado sermão).
Pronto.
----Tele-transporte – ATIVAR
Chefe: Prezados observadores:
quero parabenizá-los pelo excelente texto
elaborado em conjunto. Jamais alguém conseguiu
fazer um texto tão convincente e verossímil
quanto o de vocês. Os seres da terra são
atormentados e planejados ao mesmo tempo. Um escritor
da Terra tinha que fazer um texto e escreveu isto,
dando várias variáveis quando um
escritor tenta escrever um texto definitivo. Desde
copiar um já existente, passando por possibilidades
de juntar dois escritores e um único fim,
coisa impossível na Terra, por razões
já citadas acima. Como vocês chegaram
a esta brilhante descrição do planeta?
Terráqueos são simples andarilhos
em busca de seus sonhos, suas convicções.
Pensam em Ferraris, para ter na garagem e sabem
que suas próprias pegadas são a
única coisa capaz de faze-los trilhar o
caminho da esperança de um mundo melhor.
Quem foi o mentor deste texto? Quem escreveu?
É possível uma pesquisa sem o viés
do(s) pesquisador(es)? Quais são as maiores
dificuldades que vocês enfrentaram? Dados
duvidosos encontrados em Enciclopédias
de Quarenta Volumes? O perigo da Terra em acabar
com a ciência, pois à medida que
objetos de Tlön são lá achados
ela vai ficando igual ao nosso odiado inimigo?
Como podemos fazer para que a ciência mantenha
seu curso e sua dignidade? Espero que nossos amigos
de K-Pax possam responder as questões de
seu chefe Pedro Armando. Pelo bem da ciência.
Pela humanidade.
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A ARTE DE
FISGAR
Carla Schneider
Convido
você a chegar com os olhos mais perto daquelas
três imagens que estão logo ali,
mais para baixo, no meio desse texto. Vai lá,
espia e volta aqui para continuarmos a conversa.
Viu? Pois bem, filhas
de Floriano Martins, estas imagens revelam o gosto
deste artista por ´brincar´, ter o
espírito livre para explorar, ser e fazer
por puro prazer. Este é certamente o processo
básico que envolve qualquer fazer artístico.
Como ele costuma dizer ´recorta, colar,
montar, festejar, discutir, propor uma mudança
de sentidos, jogar, manter as coisas de pé´.
E assim rapidamente descobrimos o estilo de Floriano
Martins. Segue a intuição, entrega-se
ao acaso, cria a partir do material que tem à
mão, como cartolina e imagens impressas
que foram recortadas e coladas, agora em novo
contexto. Acredito que a genialidade se encontra
no ato de criar muito, com pouco. Necessitamos
apenas da essência.
O fazer artístico
que envolve deslocar imagens de seu contexto original
para um novo, mudando seu significado, chama-se
collage. E não vá pensando
que é simplesmente colocar a cola e pronto.
O termo collage refere-se a este quebra-cabeça
de imagens ora justapostas, sobrepostas, isoladas,
resultando numa atração de tal força
que elas acabam se grudando mesmo que não
haja cola. A trama de significados, neste caso,
funciona como cola. Este jogo de analogia entre
imagens provém de longa data, de várias
manifestações artísticas
e caseiras, mas é no Cubismo, no Dadaísmo
e principalmente no Surrealismo, que se encontra
em maior extensão. Produzir collage
muito se assemelha a produzir sonhos. Ambos trabalham
com fragmentos, interrupções, cortes,
deslocamentos, elementos desconexos, alegóricos,
simbólicos. Justamente por deter estas
características, a arte surrealista acabou
por ampliar o termo collage. Desconfio,
que há um grande parentesco entre fazer
collage e fazer poesia.
Floriano Martins
se diverte, leva a sério esta brincadeira
de fazer collage a ponto de nos chamar
para um passeio por suas trilhas. Tudo começa
no primeiro encontro, que pode ser a primeira
vista, ou não, mas acredito que o encontro
acontece quando você pára, olha,
observa, vê e conclui que estas collages
deixam seus olhos irrequietos, intrigados, não
se dando por satisfeitos. Tem alguma coisa de
estranho por aqui, poderiam eles dizer. Deixe-me
ver. E assim, o olhar vai se aprofundando, mergulhando
na collage e, pronto, fomos fisgados!
Repare que estas imagens elaboradas por Floriano
Martins precisam ser completadas por nossos olhos,
e para isso, nos exigem mais do que o olhar. Necessitamos
ver, ver além do óbvio. Deste convite
instigante, desafiador, resulta um fascinante
quebra-cabeça que através da junção
de fragmentos, desencadeia um novo simbolismo:
decifra-me ou te devoro.
Gostaria de lhe oferecer
minha visão frentre a estas collages
da série Rasuramorei. Que fique
bem claro que esta é a minha visão,
a trilha pela qual meus olhos seguiram. Entretanto,
considerando-se seu caráter enigmático,
estas collages requerem que juntemos
todas as pistas. Espero que você veja além
do que vi, pois este é o fascínio
que se dá quando conseguimos nos comunicar
com uma obra de arte, quando ela é rica
a ponto de nos permitir as mais variadas interpretações.
Houve um tempo em
que acompanhei bem de perto as produções
artísticas de Floriano Martins, quer seja
na poesia, nos ensaios ou, mais profundamente,
nas collages. Posso dizer que a grande
maioria delas trazem imagens de livros, escrituras.
Nada mais coerente e sincero, se consideramos
a veia poética deste artista, e o fato
dele confirmar que a quase totalidade de seus
trabalhos com a collage se dá
em função de sua poesia, do diálogo
com ela, mesmo que se trate de capa de livro de
ensaios ou de outros poetas.
Nesta série
em especial, Rasuramore, vejo que os
livros incorporam uma aura que, por sua vez, cria
um ambiente sacro. Percebo seres centrais que
evocam presença religiosa, humana e mitológica.
O todo emana: escritos sagrados.

Rasuramore I
Em Rasuramore I encontra-se uma figura
central que nos conduz à religiosidade,
devido ao seu manto, à postura corporal,
ajoelhada e à dinâmica do papel que
voa evidenciando uma atmosfera suave. Acredito
que para Floriano o ato de escrever seja mesmo
uma religião, assim como o encontro no
poema-livro Sábias areias, que tem todo
um ritmo de leitura semelhante às rezas.

Rasuramore II
Rasuramore
II nos traz um homem posicionado de tal maneira
que mais parece o próprio habitante do
livro ao qual está sobreposto, o que por
si já faz uma analogia direta às
mãos que, a meu ver, também são
partes sacras do corpo humano. Olhando mais profundamente
para a figura "homem-livro-mãos",
vejo que entre estes elementos há uma dinâmica
redundante, quase que circular, resultando num
todo sem fim. Sendo assim, o olho dirige-se primeiramente
para a cabeça do homem, que segura uma
haste, que se junta à mão esquerda,
que segura o livro, que segura o homem, que carrega
a haste, que se junta à mão esquerda
etc. Ao fundo, mais no canto superior direito,
há uma representação que
se assemelha a uma montanha, fazendo com que a
figura "homem-livro-mãos" transporte-se
para o primeiro plano da collage, em uma situação
espacial que parece flutuar. Esta montanha ao
fundo pode significar pilha, montanha de livros
que nos dá margem para saltarmos à
escada de livros em Rasuramore III. Esta
escada, por sua vez, funciona como caminho certo,
guiando-nos a caminho da terceira collage.

Rasuramore III
Aqui, o elemento
central é um livro totalmente aberto, exposto,
sendo segurado por uma mitológica figura
feminina, posicionada sobre os livros que lhe
servem de pedestal. Como é interessante
perceber o olho passeando por esta collage! Vejo
primeiramente a escada de livros que convida para
o passeio. Mais adiante encontro as vestes da
Vênus, logo após seu corpo, seu rosto
a contemplar o livro que segura. Sim, cheguei
ao livro, elemento central, aberto de tal maneira
que nos invade de curiosidade, convidando-nos
à leitura. Aqui podemos ficar o tempo que
quisermos, deleitando-nos com as mais variadas
histórias. Caso não nos percamos
dentro do livro conseguiremos prosseguir o passeio
seguindo pelo manto da Vênus, que se esparrama
pela escada de livros, e parece nos dizer: "a
saída é por aqui".
Partindo da observação
de como Floriano Martins dispôs as figuras
centrais na série Rasuramore,
sendo elas respectivamente religiosa, humana e
mitológica, é possível concluir
que há evidências de que os livros
sejam a morada delas. É como se, caso eu
quisesse conhecer melhor uma destas figuras, com
certeza as encontraria nos livros.
Acredito que Floriano
Martins tem suas collages como iscas,
que acabam por nos fisgar, levando-nos para o
prato principal deste artista, ou seja, sua poesia,
seus poemas. A idéia que tenho é
que acabamos por ser jogados numa viagem insólita,
onírica, artimanha típica de quem
é poeta de vertente surrealista.
Texto
originalmente publicado em: Martins, Floriano.
Almas em Chamas. Ceará: Letra
e Música Comunicação Ltda,
1998, pp.283-287
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Ombudsman
Maurício Silveira dos
Santos
Como
podíamos viver sem eles?
Está quase
tudo muito bom, quase tudo divertido. Sonhos compartilhados,
psicodelia, publicitárias ítalo-germânicas,
dilemas existenciais e o ótimo texto do
Alessandro. Quanto ao nosso editor, me compadeço
das suas investidas para tentar colocar ordem
na casa, mesmo admirando a desordem criativa.
Boa sorte editor, às vezes é preciso
ser durão, e pode contar comigo se for
para detonar algum autor relapso.
É claro que
todos perceberam, esta última edição
nos brindou com uma grande surpresa: o Comentador
Mascarado(C.M.) e seu cavalo Golder (será
golder um cavalo?). Antes havia duas pessoas que
liam obrigatoriamente o Simplicíssimo do
início ao fim, cada título, cada
matéria, cada comentário: o nosso
estimado editor e este ombudsman. Houve mais de
uma oportunidade em que pensei, no meio de um
ou outro texto modorrento, que eu devia ser a
única pessoa a enfrentar tal missão
ingrata, mas que era o meu dever de ombudsman.
Agora amigos, pasmem, o Comentador Mascarado,
logo após a publicação do
último número, tascou comentários
sobre todos os textos. Poesia, crônica,
conto, política, editorial ou seja lá
o que for o Comentador Mascarado não faz
cerimônia, lê e manda ver nas suas
exegeses. Já estou me atacando de inveja,
este mal que me acompanha; e já que na
última semana a Letícia não
publicou a sua coluna como ombudswoman vou transferir
minha inveja para o C.M. e seu parceiro Golder.
Mas não quero mal para eles, pelo contrário,
espero que a disposição de ambos
se mantenha e proponho que o C.M., além
dos seus comentículos a cada texto tenha
uma coluna fixa que pode ter Golder como colaborador
e repórter para externas.
Pocotó, pocotó,
pocotó e até mais muchachos.
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Desafio
Simplex
O
vencedor do Desafio Simplex desta semana
foi Adalberto Queiroz, que sugeriu,
para aumentar a divulgação
do Simplicíssimo as seguintes
alternativas:
"Permita-me
sugerir:
1 Campanha de email marketing para divulgar
o nosso site.
2 Retirada de tantas funções
(setinhas, mouses etc.) que atrapalham
a navegabilidade do site.
3 Que os participantes sejam divulgadores,
pelo menos, de suas próprias
colunas por email
4 Que volte o email marketing da própria
edição de forma resumida,
não tão pesada como era
antes, para chamar a atenção
e um LEIA MAIS que remeta o simples
leitor ao site."
...
continuem participando e divulgando
o Desafio Simplex!
O
próximo desafio já
está aí ...
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Selo comemorativo
alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente
criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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