Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade jurubinilereépaminamente falando


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Editorial

Olha quem está aqui!
Inaugurando o editorial de autor!
Bom, como diria o Jack Estripador, vamos por partes!
Eu queria falar nesse editorial de mudanças!
É... como cantou e canta Ozzy: I´m going through changes...
Grandes mudanças...
Grandes mudanças no mundo... ao nosso redor e em nossas vidas.
Aqui mesmo no site: muitas mudanças estão acontecendo, grandes tentativas, alguns deslizes, mas acho que isso tudo é muito normal no começo, porque não há mudanças e crescimento sem sofrimento, mesmo que seja mínimo.
Eu estava puxando pela memória como eu cheguei ao Simplicíssimo!
Não lembro realmente, mas posso dizer que por aqui aprendi muito e venho aprendendo a cada dia e acho que ensinando um pouco porque nossa vida é um aprendizado mútuo.
Minha vida agora está repleta de mudanças!
Estou mudando de emprego, indo trabalhar em Porto Alegre, sendo que moro em Novo Hamburgo, vai ser um desafio! Um desafio nem um pouco "simplex"!
Mas é a vida! Cheia de altos e baixos!
E agora estarei trabalhando mais perto da galera do Simplicíssimo de uma certa forma!
Quem sabe eu não possa experimentar a gostosa oportunidade de encontrar algum autor dia desses, editor, colunista, menos ombudsman, esse dispenso (risos).
Fica aí a idéia de um happy hour com o pessoal que "integra" essa trupe!
Brincadeiras a parte, eu gostaria de indicar para quem ainda não viu, se é que alguém além de mim ainda não viu/leu/ouviu, uma poesia de uma autora americana que foi transformada em música e recitada lindamente por nosso Big Boss Pedro Bial.
O nome da música é EVERYBODY’S FREE (TO WEAR SUNSCREEN) e a tradução ficou "Filtro Solar".
A letra traduzida ficou liiiinda, simples e ao mesmo tempo profunda, fala de coisas do nosso cotidiano de uma maneira tão singela, mas com um ponto de vista muito amplo.
Bom, para quem não teve a oportunidade ainda, vale a pena ler, ouvir, e ver o clipe cheio de mensagens visuais recheado pela linda poesia que nos passa pequenas lições de vida.
Era isso, fico por aqui.
Aproveitem a "nossa" edição fresquinha, cheirando a pão recém assado em forno de lenha... hummmm
Leiam, comentem, não deixem de participar...
Até a próxima (se houver uma).

Cristiane Martins

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Vestibular da Vida
Mauro Belo Schneider*


Ser médico ou engenheiro? Comprar a calça amarela ou a laranja? Colocar o nome do bebê de Ana Carolina ou de Ana Karina? Casar ou viver como eternos amantes? Continuar colocando exemplos ou, simplesmente, parar por aqui? Enfim, fazemos escolhas em todos os momentos. Mas como saber se elas são corretas?

Bem, pelo que se sabe ainda não existe um gabarito para a prova da vida. Contudo, chega um momento em que é facilmente visível os erros ou acertos cometidos durante a jornada da sobrevivência. Pena que em algumas vezes fechamos os olhos e não damos muita importância para certas escolhas que, no final, terão o mesmo "peso" das outras. Aliás, a prova da vida não é do tipo em que os acertos compensam os erros.

E, falo de coisas simples como, por exemplo, escolher entre ser amigo dos mais populares da turma, mas que ao mesmo tempo não estão nem aí para ti, ou ser amigo do pessoal que não faz tanto "sucesso", mas que no futuro estarão ao teu lado para comemorar as vitórias ou chorar pelas derrotas. Ou, quem sabe, escolher entre namorar a guria "mais gostosa do mundo", mas que não te entende, ou a guria que não é tão bonita assim, mas que amanhã entenderá o que você quer pelo olhar.

Afinal, o que quero dizer, com essa comparação a uma prova de vestibular, é que não se deve misturar interesses às escolhas da vida. Deve-se seguir unicamente o coração... Tal qual uma prova de vestibular, toda questão tem apenas uma escolha correta. E, nem sempre é a mais bonita, a que está na "boca da galera" ou a que todos marcam. Quase sempre ela é a mais discreta, aquela que você teria a obrigação de conhecer. Mas, se não conhece, tudo bem, tente, chute. O máximo que vai acontecer é um dia você ver que estava errado e sofrer. A diferença entre a vida e a prova é que estando vivo, você sempre terá tempo de voltar atrás e tentar reparar os erros! Então, para saber se as escolhas estão certas, basta viver, sem deixar os momentos passarem em branco.

* Estudande de Jornalismo da PUC-RS

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Simples Goyuchos
Adalberto Queiroz

A música e a memória

Talvez tenha esgotado a memória. Este drama seria o pesadelo ou este pesadelo seria o drama do cronista. O drama do poeta que cavalga o vazio de nuvens, quando o céu está carregado e o sol ainda é claro. Quando é dia, não há sombras, senão na alma.
O cronista chegado a este limiar da vida sonha e qualquer mais mínimo pesadelo o põe em alvoroço. Dizem que assim se mudam os empreendimentos humanos. Lembra do que escrevera ou pensara. Era mais ou menos assim.

A música é uma espécie de salvação. Talvez por essa razão, o poeta francês Paul Verlaine tenha dito:

"De la musique avant toute chose
Et pour cela préfère l´Impair."


Um personagem do escritor norte-americano Paul Auster, Nashe do romance “A Música do Acaso” traz um exemplo da relação visceral com a música. Auster, o mais francês dos escritores americanos, nos mostra claramente que Nashe é salvo pela música porque a ama incondicionalmente: "por sorte ele tinha suas partituras" em meio ao castigo dramático que lhe é imposto ao longo do romance.E assim, não lhe faltaria o que tocar.

Como Nashe, temos o que ouvir Bach, Couperin, Mozart, Monteverdi, Beethoven, Schubert, Bartók, Satie e Villa-Lobos. As Barricadas Misteriosas de Couperin fazem sonhar e sorrir garante o autor - não poderia, com o rigor da letra, ser testemunha por não ser músico:

"ele levava apenas dois minutos para executá-la e não lhe exigia, em nenhum momento de sua progressão lenta e majestosa, com todas as pausas, suspensões e repetições, tocar mais de uma nota por vez. A música começava e parava, recomeçava e parava de novo e, no entanto, continuava a avançar, a seguir para uma conclusão que nunca chegava. Seriam essas as barricadas misteriosas? Nashe se lembrava de ter lido em algum lugar que ninguém sabia ao certo o que Couperin quisera dizer com esse título. Alguns estudiosos o interpretavam como uma referência cômica à roupa de baixo feminina - à impenetrabilidade dos espartilhos - enquanto outros aí viam uma alusão às armonias não resolvidas da obra. Nashe não tinha resposta para isso..."

Os amantes da música, mesmo que não a executem, haverão de apreciar o trecho abaixo. É melhor lê-lo, pensando no desafio Miltoniano, será a música (dita erudita) e a literatura coisa de especialista (“Tornar-se-á a música erudita uma área exclusiva para especialistas e para os perdidamente apaixonados por música?”).

Eu fico com a sabedoria popular, saída da boca de um amigo restaurateur italiano: “não é preciso que você seja um fabricante de vinhos para apreciá-los e dar seus palpites sobre seu gosto a respeito deles”:

"Sabia que seria necessário se desvenchilhar do piano, mas deixou essa providência para o final, querendo mantê-lo até o último momento. Não tinha ilusões quanto a ser pianista, mas costumava dedicar ao instrumento algumas horas por semana, tocando velhas peças que aprendera quando criança. Isso sempre o acalmara, como se a música o ajudasse a ver mais claramente o mundo, a compreender seu lugar na ordem invisível das coisas. Assim, como a casa estava vazia, adiou por um dia a partida e deu um longo recital de despedida para as paredes nuas. Uma a uma, ele tocou as suas peças preferidas, dezenas delas, começando com as Barricadas Misteriosas, de Couperin, e terminando com Jitterburg Waltz, de Fats Waller. Bateu no teclado até os dedos ficarem amortecidos e ter de parar”.

O Autor nos faz saber que Nashe comprou, com o dinheiro do piano uma série de fitas cassetes para o toca-fitas do carro - diz o texto original, tentando justificar o personagem: "pareceu-lhe um gesto apropriado - transformar música em música". É que o nosso herói problemático, Nashe, estava abandonando a casa com razões de sobra para fazê-lo dinheiro de mais e sorte de menos. Espero, sinceramente, que nenhuma dessas hipóteses ronde nosso hipotético leitor.

Pois bem, o personagem que pega a estrada se faz acompanhar de música: Bach, Mozart e Verdi. E para Nashe, "a essência de tudo era a velocidade, a alegria de estar no carro e percorrer rapidamente as distâncias".

A esta altura, deixo que a música do acaso decida o final desta crônica e de romances e dilemas outros para você também, como já o fez para Nashe e para muitos amantes da Música.

Sonhadores, no limiar dos cinquent´anos, os homens entregam-se aos sonhos e à música; é sabido, que, independente de cultura, raça, credo, em todo o globo, somos empurrados para o sonho. Alguns se perdem com o sonho pela juventude e, ao crepúsculo, no estio, no outono, são perseguidos por fantasias e imaginam que podem voltar com facilidade a ser o que foram aos 20.

Estes homens, são como nós amarrados pela mesma tentação, só resistem quando enxergam o futuro em solidão: “ficar olhando pra parede, no escuro”. Oh, suprema dor, diz o poeta. E a tentação e o pesadelo se dissipam com a boa Música, a boa literatura, o bom vinho, a boa companhia, o bom-gosto, o paraíso sonhado.

Vamos atenuar a gravidade da pergunta do meu amigo Milton Ribeiro, e encarar com mais leveza e confiança os sonhos e pesadelos com que nos deparamos. Sobreviveremos à avalanche de críticos, de mídias e à especialização - às vezes enfadonhas, pois na origem de nossa memória musical está o Amor à Música, que nos embala e nos devolve nossa essência, nossa infância, nossa pureza que podem nos restituir o paraíso e ser o veículo para nossa salvação. (AQ).

 

Nua & Crua
Cristiane Martins

O Ernesto

E me observava da janela do outro prédio...
Nem sei quando foi que me dei conta daquele xereta me bisbilhotando.
O fato era que de uma certa forma aquilo não me incomodava. Era algo assim como um afago em meu ego. Alguém querendo talvez descobrir algo de mim, um fã talvez que me admirava em seu anonimato. Ou talvez apenas um adolescente meio lascivo , no auge da sua turbulência de hormônios ansiando por algum peitinho de fora ou uma inocente caída de toalha.
Passei meses tentando formar em minha mente o seu rosto, já que os bons metros que separavam nossos prédios não me permitiam uma visão muito boa, fora minha pequena miopia que me deixava em desvantagem.
A minha fértil mente feminina correu desde Brad Pitt à Clint Eastwood...
Talvez um corpo músculoso, ou um adolescente esquelético com o rosto coberto de acne, ou ainda poderia ser um velho nojento e intrometido com cabelos sebosos, aqueles que levam um pente no bolso para um possível retoque.
É... Minha mente podia ser cruel quando eu queria...
Confesso que em certas noites meio solitárias era prazeroso pensar nele como uma opção.
Alguém ali, a disposição esperando o meu contato. Alguém que talvez me seguisse quando eu fosse até o mercado, e que talvez até já me cedera educadamente seu acento no ônibus...
Eu era caprichosa em meus pensamentos.
E cada dia que passava eu era mais ardilosa em meus movimentos e modelitos. A cada ducha era uma toalha diferente, e cada vez menor...
Um dia, cansada de minhas fantasias, resolvi fazer uma pesquisa sobre os moradores para talvez descobrir a identidade secreta do meu super xereta.
Cautelosamente me dirigi à síndica do prédio e perguntei assim como quem não quer nada sobre os moradores do quarto andar, que eram os correspondentes ao meu andar, dizendo-me ser uma demonstradora de cosméticos a procura de possíveis compradores potenciais.
Descobri que no meu andar haviam quatro apartamentos, dois desocupados, um era de um casal de velhinhos que residiam há anos e com certeza não estariam interessado em meus cosméticos fictícios (nem nos meus peitos exibidos por debaixo de minha camisola transparente).
No outro porém era de um morador novo, ou melhor, era uma moradora. Contara-me a síndica que era de uma jovem senhora de quarenta e poucos anos que recém mudara para o prédio e que aparentemente não tinha parentes morando com ela. Uma costureira de mão cheia como disse a simpática síndica.
Era ela meu alvo, bem, não exatamente ela, mas agora era uma questão de honra saber quem me observava daquela janela.
Decidida a descobrir, peguei um casaco antigo que precisava de um reparo na manga e toquei a campainha do apartamento. Uma senhora de óculos veio me atender:
-- Pois não minha jovem?
-- Preciso de um conserto.
-- Entre, entre, meu nome é Mirtes – falou abrindo a porta do pequeno apartamento delicadamente decorado com móveis rústicos de muito bom gosto.
-- Não quero incomodar, sou Raquel, muito prazer. Só vim deixar esse casaco que precisa de um reparo aqui na manga e...
-- Não me incomoda em nada, sente-se. Quer um refresco Raquel? Acabei de fazer!
-- Claro.
Logo ela escapara rumo à cozinha e voltara com uma jarra enorme de um saboroso suco de manga.
-- E então? Gostando da nova vizinhança? Sou sua vizinha do prédio ao lado sabia?
-- Que ótimo querida. Sabe ainda não conheço muita gente por aqui. Sou meio caseira. Mudei-me para cá desde que meu marido faleceu em junho, agora minha companhia é somente o Ernesto – falou apontando para o quartinho de costura que dava de frente para minha janela.
Qual não foi meu susto ao ver um garboso manequim masculino disposto em frente a janela.
-- Ernesto?
-- É sim... Acabei dando esse nome à ele – ela me puxou até o quarto e me “apresentou” o inerte companheiro que exibia um sorriso de Ken e um modelo muito antigo de óculos escuros.
Meu mundo caiu! Então esse era meu observador? Meu Brad Pitt? Meu Clint Eastwood?
-- Ele acaba sendo meu modelito para as costuras sabe menina. Às vezes esqueço que ele é somente um boneco, cada dia ele veste algo diferente e hoje ele vestirá... amarelo – falou pegando meu casaco de minha mão e vestindo-o no boneco.
Depressa eu despedi-me da doce (e solitária) senhora e fui para casa na promessa de voltar dentro de três dias para pegar o casaco consertado.
Tudo parecia diferente agora quando entrei em meu apartamento.
Com ódio olhei pela janela, e lá estava o Ernesto, no seu novo traje amarelo olhando para mim, exatamente como vinha fazendo todos esses meses.
Fechei a cortina de súbito e pensei comigo: esses homens não prestam mesmo. Não podem ver rabo de saia. Imagina? Me traindo com essa costureira...
Humpf.... Ernesto... Que morra seco e inerte nesse quatinho de costura... E trate de não estragar meu casaco senão te parto a cara! Seu, seu, seu... desalmado!

 

Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Mensagem de um futuro qualquer

Tu te lembras quando eu te escrevia cartas? Se eu me recordo bem, tu as esperava com a ansiosidade típica com que sabias que, ao avistar o homem de amarelo aparecendo na ponta da tua esquina, tu tinhas a certeza, que, dentro de sua grande bolsa, vinham cartas minhas. Às vezes enviava-te cartões e, quantas vezes – não conseguia controlar minha ânsia de escrever-te desesperadamente! – mais de uma carta vinha ao mesmo tempo, do mesmo remetente: eu, um louco que postava mais de uma correspondência para ti ao mesmo tempo, como a querer compensar a espera que te afligia.

Não sei o que achavas melhor no momento em recebias o envelope rechonchudo de papel das mãos do carteiro (aguardava-o no teu portão e recebia as minhas cartas direto de suas próprias mãos. Acho que para ele, era um belo presente: uma linda menina a querer receber cartas de suas mãos, ao contrário do frio contato das caixas de correspondência...). O envelope em teu poder, finalmente, era o que provavelmente mais te agradava; minhas palavras, escritas com a mais apurada caligrafia possível, agora chegavam até ti e tu podias ter-me, em pedaços, em fragmentos, em por vezes descompassadas frases – mas tinha-me em essência. Minha letra, indubitavelmente parte minha.

Só para prolongar o doce instante que se suspendia neste momento para ti, tu caminhavas com vagar até chegar dentro de tua casa. Então, te encerravas na intimidade do teu quarto, crendo como se eu próprio estivesse ali. E cheirava as cartas, sei que cheirava e, por isto mesmo, eu não esquecia a cerimônia de borrifar perfume nelas para que nossa pretensa proximidade se tornasse mais passível de verdade.

Depois – e somente após conferir com rigor o endereço já há muito conhecido, a cidade de que te postava, meu nome, todo ele, com toda a formalidade e rigor possível e todos os outros adendos postais que sempre se fizeram necessários – te entregavas ao corte preciso do envelope, cuidando para não machucar o papel ali dentro. Algumas vezes sei que gostavas de retirar o selo com cuidado, e o colava em uma espécie de álbum que tinhas para esta finalidade. Na maioria das vezes, no entanto, preferias manter intacto o envelope, bem como viera. Era teu fetiche, alguns diziam que eras cheias de mania, enfim. Eu, no entanto, sempre preferi deleitar-me com teu capricho. Gostava de saber que minhas cartas para ti eram assim tão bem tratadas. Era como se, por extensão, estivesses a me acariciar, tão longe me encontrava.

E só depois destes demorados procedimentos, é que te deitavas na cama, com as numerosas folhas que compunham minhas cartas e te entregavas definitivamente à leitura. Momento este, que definitivamente te ocupava a noite inteira: quantas vezes não varastes madrugadas a ler e reler minhas palavras, como se orações fossem para ti? Dizia amar minha letra quase tanto quanto a mim, só por saber minha. E meus pontos e travessões e vírgulas bem colocadas. Quem ainda sabe usar ponto-e-vírgula? A formalidade no cabeçalho, a enunciar cidade e data. Tudo tão preciso como dados para um arquivo que organizavas, guardando minhas cartas e cartões e bilhetes, um a um, cronologicamente.

Isto já faz um tempo, no entanto. O que não fez com que estreitássemos em definitivo nossa proximidade geográfica. Para te ver é uma função que deve ser planejada com antecedência e aproveitada com a certeza de que, infelizmente, tão cedo não o farei novamente. Por isto, gostaria de pensar que é verdade que as belas traquitanas tecnológicas tratariam de aproximar a expressão de nossos sentimentos com toda a intensidade que eles sempre se fizeram merecedores. Para me consolar, penso que facilidade, definitivamente, estas tecnologias nos trouxeram.

Hoje, digito para ti com a rapidez que este bom computador me assegura. Incluo teu endereço com a facilidade que minha bico de pena não seria capaz de realizar. É bem verdade que em outros tempos eu não conseguiria te localizar com este símbolo que eu sempre pensei, servisse somente para identificar quantidade de quinze quilos. O que antes pesava cacau, hoje é um ideograma que faz minha missiva cair diretamente na tua caixa postal. E tu não te demoras mais em abrir envelopes: não há papel, o contato físico se fez desnecessário. Com um clique tens minhas palavras, sem as formalidades, é verdade. Verdade, também, que sem cheiro, sem volume, sem nada que te dê a certeza de serem realmente minhas. Há um tal protocolo de segurança, mas isto não te convence muito. As animações que piscam, os barulhinhos, as demoradas imagens que teu computador lerdo demora em mostrar... Nada disto parece melhor que os desenhos tôscos com que enfeitava as cartas.

No final das contas, como não tens o que guardar – e, sendo cada vez mais rápidos, bobos, vulgares e sem circunlóquios os meus escritos acho que eles não merecem, mesmo! – o que te resta é somente a indecisão que te divide entre ‘salvar’ e ‘deletar’ meu e-mail para não entupir tua caixa postal.

 



en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

O PT, o Lula e Você - Prá que lado afinal?

Pôxa, é verdade e tenho que admitir: votei no Collor com medo do Lula mudar muita coisa no governo, sabe como é, meter o dedo que ele não tem onde não devia. Na verdade, os cerca de 35 mil brasileiros que votaram nele (42,75% do povo) são objetos raros de se encontrar por aí. Estão sumidos por não estarem assumidos. Também era minha (e de todo brasileiro) primeira eleição direta, eu nunca tinha feito isso na vida, jet-ski é o maior barato e blá, blá, blá. Mas deixemos a vergonha de lado com a célebre “honni soi qui mal y pense” (alguém por favor me ajude a escrever isso direito!).

Anos mais tarde e, finalmente eleito, agora com as expectativas populares de mudança, Lula conseguiu construir tantas alianças de direita quanto necessárias para descaracterizar sua canhotice. Aliás, esse negócio de direita e esquerda é bem complicado. Sempre pensei que direita é aquele que está do lado de quem governa e esquerda a oposição. Isso faria bastante sentido numa democracia onde a maioria elege o dono que merece (alusões musicais ao Nei Lisboa) e são também os destros a maioria. Mas não é bem assim e achei um texto interessante sobre isso no Jornal Veritas, no site da Associação Cultural Montfort (que nem eu tinha ouvido falar antes). Em todo caso, acho que o Detran deveria providenciar algumas placas de “proibido converter à direita”, “escândalos proibidos à esquerda” ou coisas do gênero, para centrar definitivamente essa gente.

Mas enfim, com tantas voltas e reviravoltas, parece que andamos mesmo foi em círculo. Pouca coisa mudou, para lamento de alguns, de outros e do próprio presidente que vê seus amigos MSTistas seguirem numa ferrenha, impaciente e Fidelista batalha contra o governo que hay. Será que poderíamos pois, ter acelerado o processo político-democrático brasileiro elegendo Lula ainda em 1989? Não sei não. Todo processo é, por conceito, um processo. Precisa do antes para alcançar o agora e ter o depois. Éramos outros, diferentes dos que agora somos, mesmo que iguais a antes. Um velho probleminha dialético, conhecido dos filósofos de plantão desde que Heráclito se meteu nessa canoa. E por falar em plantão, vou encerrando por aqui senão chego atrasado ...

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann

Agruras de Sininho
(amigos do rei)

Assim de mansinho, fala devagarinho;
Quem nunca sonhou com a fadinha?

Pequena e valente,
Amiga e obediente
Quem poderá a salvar?

Um dia, um cara mau,
Não estava normal
E disse: esta mulher
Não é polivalente.
Não há quem agüente.

Argumentou
Peter Pan,
O que passou, passou.

Não era ela perfeita?
Bem melhor que a anterior?

Velhas maldades, velhos babões,
A fizeram tremer na base.
Alguns sermões dos chefões,
Que fase.

Talvez se case.
(E deixe a terra do nunca).

Capitão gancho,
Na hora do rancho,
Deu um pé na bunda
Da moribunda.

Mamãe me acuda
Chegou a miuda,
E a levou...

É meu amigo, é triste descobrir ser amigo do nada, pensando ser amigo do Rei.

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Diálogos com Deus
Rafael Luiz Reinehr

Deus e o ateu

- Quem é você?

- Sou seu pai, e pai de todos aqui nesta Terra?

- Adão? George Bush?

- Não meu, filho, sou Deus...

- Que deus o caramba! Não acredito nestas baboseiras!

- Não precisar acreditar. Não preciso da tua crença para existir, assim como um elefante voador cor-de-rosa não precisa que tu acredites na existência dele para existir...

- Mas... Espera aí? São possíveis elefantes voadores cor-de-rosa?

- Vou te responder da seguinte forma: para saber se algo existe ou existiu de verdade, tens que ter estado aqui desde o começo dos tempos e ao mesmo tempo em todos os lugares, pada poder presenciar tudo que existe. Do contrário nunca saberás se elefantes voadores cor-de-rosa são possíveis.

- Sim, mas isto é impossível!

- Não é não! Lembre-se que só Deus é onipotente, onipresente e onisciente. Mas, como não acreditas em mim, não te dou a resposta do elefante! Tchau!

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Meias verdades
Alessandro Max Sachetti


Nem toda nuvem é chuva
Nem todo sol é calor
Nem tudo que faço é isso mesmo
Nem tudo é o que quero

Todo movimento é voluntário
Posso até estar parado
Mas não significa que não esteja reagindo
A melhor reação muitas vezes é a inércia

Não acredite em tudo que falo
E não duvide de nada também
Eu nunca minto
Outras vezes só não falo a verdade

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Ombudsman
Maurício Silveira dos Santos

Abaixo o Creme de Berinjelas Congelado, Viva a Revolução das Algas!

É bom estar de volta, caros leitores. Esta edição foi sensacional, não é mesmo? Isso acaba por me irritar um pouco porque fica difícil bater em textos tão robustos ...brincadeira. Mas é verdade que essa edição foi especial. A Cristiane Martins, por exemplo, está sofisticando o estilo Nua&Crua a níveis bem interessantes depois de um período de alguma monotonia. Como foi bem observado nos comentários a sua coluna, o trabalho dela de descrição de detalhes que passam freqüentemente despercebidos e que emolduram a situação narrada e permitem ao leitor “participar” da ação está “no ponto”. O texto do Milton é de uma elegância e de uma erudição admiráveis e os comentários do Zadig são a indispensável sobremesa a uma refeição deste quilate. Com relação à pergunta do final do texto, vou meter a colher: a música ,caro Milton, é anterior aos especialistas, acadêmicos, profissionais, concertos e etc. é anterior mesmo à escrita, por isso é coisa não apenas para os especialistas ou apaixonados, é coisa para os vivos. E como estou vivo e estou ombudsman, mesmo não sendo músico ou erudito (na música ou em geral) resolvi responder, falei bobagem?

Ainda há na edição três libelos políticos “latu sensu”: o texto “Subir, Descer,Crescer” que narra a descoberta de um mundo injusto por um recém desencantado (provável) menino de classe média que se descreve algo alienado e amedrontado; a declaração pacifista do “En Passant” e “Os diálogos com Deus”. Agradeço aos autores por estes textos, pois eles me permitem parar de elogiar, elogiar e elogiar “tudo-o-tempo-todo” (o que me irrita muito pois sou sádico por natureza e escolha). Apesar das boas intenções e da destilação de bons sentimentos os dois primeiros são algo ingênuos e quase adolescentes tanto pelo tom de descoberta de que a terra gira em torno do sol (no caso do primeiro quando trata de desigualdade social) como pela típica revolta pequeno-burguesa (no segundo), que tende a se tornar superfial na medida em que em vez de gerar alguma análise ou observação criativa se torna um desabafo baseado em listas de injustiças, das menores às maiores, das estruturais às impulsionadas pela mídia, das mais fundamentais às que não passam de agruras do cotidiano da classe média. Aliás, penso que este tem sido um ponto fraco do nosso louvado Simplicíssimo; os textos que tratam de história, política, análises conjunturais normalmente deixam a desejar. Talvez tenha sido este fenômeno que fez com que o nosso editor tenha importado uns textos nessa linha de outro site, alguns bem interessantes. Destes três textos co pretensões sócio-políticas vou poupar o “Os Diálogos com Deus” já que está enxuto, direto, bem humorado e deixa que o leitor tire as suas conclusões, convidando-o a pensar nos desafios e frustrações do governo Lula.

Para terminar: nunca tinha ouvido mais criativa definição do nosso feioso rio (ou lago, como queiram) Guaíba. Creme de berinjela congelado (!), que maravilha. Boa parte dos portoalegrenses teima em enxergar a beleza(?!) nas águas do Guaíba e vem com essa conversa de mais belo pôr-do-sol do mundo !!! É quase um delírio coletivo re-afirmado por alguns programinhas da RBS e gente que ouve demais as músicas do Fogaça e da sua esposa... não dá para agüentar. A coluna I-racional, fora esta espetacular descrição do Guaíba e a percepção de que as algas são o menor dos nossos males, está realmente muito boa (talvez por isso tão poucos comentários).

Abraço a todos, e até o próximo melhor pôr-do-sol do mundo...

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Desafio Simplex

Em função dos preparativos para o SuperDesafio Simplex, nesta semana não teremos o Desafio Simplex.

Aguardem: NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA...

...o SUPER DESAFIO SIMPLEX ! ! !


Nesta semana NÃO teremos


Desafio Simplex!

Aguarde!!!

Clique aqui para saber mais!!!

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sítio ou blógue!


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http://www.simplicissimo.com.br
e depois nos avise!


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

 

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