28/04/2004
- Edição número
73
I´m going through changes
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Editorial
Olha
quem está aqui!
Inaugurando o editorial de autor!
Bom, como diria o Jack Estripador, vamos por partes!
Eu queria falar nesse editorial de mudanças!
É... como cantou e canta Ozzy: I´m
going through changes...
Grandes mudanças...
Grandes mudanças no mundo... ao nosso redor
e em nossas vidas.
Aqui mesmo no site: muitas mudanças estão
acontecendo, grandes tentativas, alguns deslizes,
mas acho que isso tudo é muito normal no
começo, porque não há mudanças
e crescimento sem sofrimento, mesmo que seja mínimo.
Eu estava puxando pela memória como eu
cheguei ao Simplicíssimo!
Não lembro realmente, mas posso dizer que
por aqui aprendi muito e venho aprendendo a cada
dia e acho que ensinando um pouco porque nossa
vida é um aprendizado mútuo.
Minha vida agora está repleta de mudanças!
Estou mudando de emprego, indo trabalhar em Porto
Alegre, sendo que moro em Novo Hamburgo, vai ser
um desafio! Um desafio nem um pouco "simplex"!
Mas é a vida! Cheia de altos e baixos!
E agora estarei trabalhando mais perto da galera
do Simplicíssimo de uma certa forma!
Quem sabe eu não possa experimentar a gostosa
oportunidade de encontrar algum autor dia desses,
editor, colunista, menos ombudsman, esse dispenso
(risos).
Fica aí a idéia de um happy hour
com o pessoal que "integra" essa trupe!
Brincadeiras a parte, eu gostaria de indicar para
quem ainda não viu, se é que alguém
além de mim ainda não viu/leu/ouviu,
uma poesia de uma autora americana que foi transformada
em música e recitada lindamente por nosso
Big Boss Pedro Bial.
O nome da música é EVERYBODY’S
FREE (TO WEAR SUNSCREEN) e a tradução
ficou "Filtro Solar".
A letra traduzida ficou liiiinda, simples e ao
mesmo tempo profunda, fala de coisas do nosso
cotidiano de uma maneira tão singela, mas
com um ponto de vista muito amplo.
Bom, para quem não teve a oportunidade
ainda, vale a pena ler, ouvir, e ver o clipe cheio
de mensagens visuais recheado pela linda poesia
que nos passa pequenas lições de
vida.
Era isso, fico por aqui.
Aproveitem a "nossa" edição
fresquinha, cheirando a pão recém
assado em forno de lenha... hummmm
Leiam, comentem, não deixem de participar...
Até a próxima (se houver uma).
Cristiane
Martins
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Vestibular da Vida
Mauro Belo Schneider*
Ser médico ou engenheiro? Comprar
a calça amarela ou a laranja? Colocar o
nome do bebê de Ana Carolina ou de Ana Karina?
Casar ou viver como eternos amantes? Continuar
colocando exemplos ou, simplesmente, parar por
aqui? Enfim, fazemos escolhas em todos os momentos.
Mas como saber se elas são corretas?
Bem, pelo que se sabe ainda não existe
um gabarito para a prova da vida. Contudo, chega
um momento em que é facilmente visível
os erros ou acertos cometidos durante a jornada
da sobrevivência. Pena que em algumas vezes
fechamos os olhos e não damos muita importância
para certas escolhas que, no final, terão
o mesmo "peso" das outras. Aliás,
a prova da vida não é do tipo em
que os acertos compensam os erros.
E, falo de coisas simples como, por exemplo, escolher
entre ser amigo dos mais populares da turma, mas
que ao mesmo tempo não estão nem
aí para ti, ou ser amigo do pessoal que
não faz tanto "sucesso", mas
que no futuro estarão ao teu lado para
comemorar as vitórias ou chorar pelas derrotas.
Ou, quem sabe, escolher entre namorar a guria
"mais gostosa do mundo", mas que não
te entende, ou a guria que não é
tão bonita assim, mas que amanhã
entenderá o que você quer pelo olhar.
Afinal, o que quero dizer, com essa comparação
a uma prova de vestibular, é que não
se deve misturar interesses às escolhas
da vida. Deve-se seguir unicamente o coração...
Tal qual uma prova de vestibular, toda questão
tem apenas uma escolha correta. E, nem sempre
é a mais bonita, a que está na "boca
da galera" ou a que todos marcam. Quase sempre
ela é a mais discreta, aquela que você
teria a obrigação de conhecer. Mas,
se não conhece, tudo bem, tente, chute.
O máximo que vai acontecer é um
dia você ver que estava errado e sofrer.
A diferença entre a vida e a prova é
que estando vivo, você sempre terá
tempo de voltar atrás e tentar reparar
os erros! Então, para saber se as escolhas
estão certas, basta viver, sem deixar os
momentos passarem em branco.
*
Estudande de Jornalismo da PUC-RS
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Simples
Goyuchos
Adalberto
Queiroz
A
música e a memória
Talvez tenha esgotado
a memória. Este drama seria o pesadelo
ou este pesadelo seria o drama do cronista. O
drama do poeta que cavalga o vazio de nuvens,
quando o céu está carregado e o
sol ainda é claro. Quando é dia,
não há sombras, senão na
alma.
O cronista chegado a este limiar da vida sonha
e qualquer mais mínimo pesadelo o põe
em alvoroço. Dizem que assim se mudam os
empreendimentos humanos. Lembra do que escrevera
ou pensara. Era mais ou menos assim.
A música é
uma espécie de salvação.
Talvez por essa razão, o poeta francês
Paul Verlaine tenha dito:
"De
la musique avant toute chose
Et pour cela préfère l´Impair."
Um personagem do escritor norte-americano Paul
Auster, Nashe do romance “A Música
do Acaso” traz um exemplo da relação
visceral com a música. Auster, o mais francês
dos escritores americanos, nos mostra claramente
que Nashe é salvo pela música porque
a ama incondicionalmente: "por sorte
ele tinha suas partituras" em meio ao
castigo dramático que lhe é imposto
ao longo do romance.E assim, não lhe faltaria
o que tocar.
Como Nashe, temos
o que ouvir Bach, Couperin, Mozart, Monteverdi,
Beethoven, Schubert, Bartók, Satie e Villa-Lobos.
As Barricadas Misteriosas de Couperin fazem sonhar
e sorrir garante o autor - não poderia,
com o rigor da letra, ser testemunha por não
ser músico:
"ele
levava apenas dois minutos para executá-la
e não lhe exigia, em nenhum momento de
sua progressão lenta e majestosa, com todas
as pausas, suspensões e repetições,
tocar mais de uma nota por vez. A música
começava e parava, recomeçava e
parava de novo e, no entanto, continuava a avançar,
a seguir para uma conclusão que nunca chegava.
Seriam essas as barricadas misteriosas? Nashe
se lembrava de ter lido em algum lugar que ninguém
sabia ao certo o que Couperin quisera dizer com
esse título. Alguns estudiosos o interpretavam
como uma referência cômica à
roupa de baixo feminina - à impenetrabilidade
dos espartilhos - enquanto outros aí viam
uma alusão às armonias não
resolvidas da obra. Nashe não tinha resposta
para isso..."
Os
amantes da música, mesmo que não
a executem, haverão de apreciar o trecho
abaixo. É melhor lê-lo, pensando
no desafio Miltoniano, será a música
(dita erudita) e a literatura coisa de especialista
(“Tornar-se-á a música
erudita uma área exclusiva para especialistas
e para os perdidamente apaixonados por música?”).
Eu fico com a sabedoria
popular, saída da boca de um amigo restaurateur
italiano: “não é preciso que
você seja um fabricante de vinhos para apreciá-los
e dar seus palpites sobre seu gosto a respeito
deles”:
"Sabia
que seria necessário se desvenchilhar do
piano, mas deixou essa providência para
o final, querendo mantê-lo até o
último momento. Não tinha ilusões
quanto a ser pianista, mas costumava dedicar ao
instrumento algumas horas por semana, tocando
velhas peças que aprendera quando criança.
Isso sempre o acalmara, como se a música
o ajudasse a ver mais claramente o mundo, a compreender
seu lugar na ordem invisível das coisas.
Assim, como a casa estava vazia, adiou por um
dia a partida e deu um longo recital de despedida
para as paredes nuas. Uma a uma, ele tocou as
suas peças preferidas, dezenas delas, começando
com as Barricadas Misteriosas, de Couperin, e
terminando com Jitterburg Waltz, de Fats Waller.
Bateu no teclado até os dedos ficarem amortecidos
e ter de parar”.
O
Autor nos faz saber que Nashe comprou, com o dinheiro
do piano uma série de fitas cassetes para
o toca-fitas do carro - diz o texto original,
tentando justificar o personagem: "pareceu-lhe
um gesto apropriado - transformar música
em música". É
que o nosso herói problemático,
Nashe, estava abandonando a casa com razões
de sobra para fazê-lo dinheiro de mais e
sorte de menos. Espero, sinceramente, que nenhuma
dessas hipóteses ronde nosso hipotético
leitor.
Pois
bem, o personagem que pega a estrada se faz acompanhar
de música: Bach, Mozart e Verdi. E para
Nashe, "a essência de tudo
era a velocidade, a alegria de estar no carro
e percorrer rapidamente as distâncias".
A esta altura, deixo
que a música do acaso decida o final desta
crônica e de romances e dilemas outros para
você também, como já o fez
para Nashe e para muitos amantes da Música.
Sonhadores, no limiar
dos cinquent´anos, os homens entregam-se
aos sonhos e à música; é
sabido, que, independente de cultura, raça,
credo, em todo o globo, somos empurrados para
o sonho. Alguns se perdem com o sonho pela juventude
e, ao crepúsculo, no estio, no outono,
são perseguidos por fantasias e imaginam
que podem voltar com facilidade a ser o que foram
aos 20.
Estes homens, são
como nós amarrados pela mesma tentação,
só resistem quando enxergam o futuro em
solidão: “ficar olhando pra parede,
no escuro”. Oh, suprema dor, diz o poeta.
E a tentação e o pesadelo se dissipam
com a boa Música, a boa literatura, o bom
vinho, a boa companhia, o bom-gosto, o paraíso
sonhado.
Vamos atenuar a gravidade
da pergunta do meu amigo Milton Ribeiro, e encarar
com mais leveza e confiança os sonhos e
pesadelos com que nos deparamos. Sobreviveremos
à avalanche de críticos, de mídias
e à especialização - às
vezes enfadonhas, pois na origem de nossa memória
musical está o Amor à Música,
que nos embala e nos devolve nossa essência,
nossa infância, nossa pureza que podem nos
restituir o paraíso e ser o veículo
para nossa salvação. (AQ).
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Nua
& Crua
Cristiane
Martins
O
Ernesto
E me observava da
janela do outro prédio...
Nem sei quando foi que me dei conta daquele xereta
me bisbilhotando.
O fato era que de uma certa forma aquilo não
me incomodava. Era algo assim como um afago em
meu ego. Alguém querendo talvez descobrir
algo de mim, um fã talvez que me admirava
em seu anonimato. Ou talvez apenas um adolescente
meio lascivo , no auge da sua turbulência
de hormônios ansiando por algum peitinho
de fora ou uma inocente caída de toalha.
Passei meses tentando formar em minha mente o
seu rosto, já que os bons metros que separavam
nossos prédios não me permitiam
uma visão muito boa, fora minha pequena
miopia que me deixava em desvantagem.
A minha fértil mente feminina correu desde
Brad Pitt à Clint Eastwood...
Talvez um corpo músculoso, ou um adolescente
esquelético com o rosto coberto de acne,
ou ainda poderia ser um velho nojento e intrometido
com cabelos sebosos, aqueles que levam um pente
no bolso para um possível retoque.
É... Minha mente podia ser cruel quando
eu queria...
Confesso que em certas noites meio solitárias
era prazeroso pensar nele como uma opção.
Alguém ali, a disposição
esperando o meu contato. Alguém que talvez
me seguisse quando eu fosse até o mercado,
e que talvez até já me cedera educadamente
seu acento no ônibus...
Eu era caprichosa em meus pensamentos.
E cada dia que passava eu era mais ardilosa em
meus movimentos e modelitos. A cada ducha era
uma toalha diferente, e cada vez menor...
Um dia, cansada de minhas fantasias, resolvi fazer
uma pesquisa sobre os moradores para talvez descobrir
a identidade secreta do meu super xereta.
Cautelosamente me dirigi à síndica
do prédio e perguntei assim como quem não
quer nada sobre os moradores do quarto andar,
que eram os correspondentes ao meu andar, dizendo-me
ser uma demonstradora de cosméticos a procura
de possíveis compradores potenciais.
Descobri que no meu andar haviam quatro apartamentos,
dois desocupados, um era de um casal de velhinhos
que residiam há anos e com certeza não
estariam interessado em meus cosméticos
fictícios (nem nos meus peitos exibidos
por debaixo de minha camisola transparente).
No outro porém era de um morador novo,
ou melhor, era uma moradora. Contara-me a síndica
que era de uma jovem senhora de quarenta e poucos
anos que recém mudara para o prédio
e que aparentemente não tinha parentes
morando com ela. Uma costureira de mão
cheia como disse a simpática síndica.
Era ela meu alvo, bem, não exatamente ela,
mas agora era uma questão de honra saber
quem me observava daquela janela.
Decidida a descobrir, peguei um casaco antigo
que precisava de um reparo na manga e toquei a
campainha do apartamento. Uma senhora de óculos
veio me atender:
-- Pois não minha jovem?
-- Preciso de um conserto.
-- Entre, entre, meu nome é Mirtes –
falou abrindo a porta do pequeno apartamento delicadamente
decorado com móveis rústicos de
muito bom gosto.
-- Não quero incomodar, sou Raquel, muito
prazer. Só vim deixar esse casaco que precisa
de um reparo aqui na manga e...
-- Não me incomoda em nada, sente-se. Quer
um refresco Raquel? Acabei de fazer!
-- Claro.
Logo ela escapara rumo à cozinha e voltara
com uma jarra enorme de um saboroso suco de manga.
-- E então? Gostando da nova vizinhança?
Sou sua vizinha do prédio ao lado sabia?
-- Que ótimo querida. Sabe ainda não
conheço muita gente por aqui. Sou meio
caseira. Mudei-me para cá desde que meu
marido faleceu em junho, agora minha companhia
é somente o Ernesto – falou apontando
para o quartinho de costura que dava de frente
para minha janela.
Qual não foi meu susto ao ver um garboso
manequim masculino disposto em frente a janela.
-- Ernesto?
-- É sim... Acabei dando esse nome à
ele – ela me puxou até o quarto e
me “apresentou” o inerte companheiro
que exibia um sorriso de Ken e um modelo muito
antigo de óculos escuros.
Meu mundo caiu! Então esse era meu observador?
Meu Brad Pitt? Meu Clint Eastwood?
-- Ele acaba sendo meu modelito para as costuras
sabe menina. Às vezes esqueço que
ele é somente um boneco, cada dia ele veste
algo diferente e hoje ele vestirá... amarelo
– falou pegando meu casaco de minha mão
e vestindo-o no boneco.
Depressa eu despedi-me da doce (e solitária)
senhora e fui para casa na promessa de voltar
dentro de três dias para pegar o casaco
consertado.
Tudo parecia diferente agora quando entrei em
meu apartamento.
Com ódio olhei pela janela, e lá
estava o Ernesto, no seu novo traje amarelo olhando
para mim, exatamente como vinha fazendo todos
esses meses.
Fechei a cortina de súbito e pensei comigo:
esses homens não prestam mesmo. Não
podem ver rabo de saia. Imagina? Me traindo com
essa costureira...
Humpf.... Ernesto... Que morra seco e inerte nesse
quatinho de costura... E trate de não estragar
meu casaco senão te parto a cara! Seu,
seu, seu... desalmado!
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro
Garcia
Mensagem
de um futuro qualquer
Tu
te lembras quando eu te escrevia cartas? Se eu
me recordo bem, tu as esperava com a ansiosidade
típica com que sabias que, ao avistar o
homem de amarelo aparecendo na ponta da tua esquina,
tu tinhas a certeza, que, dentro de sua grande
bolsa, vinham cartas minhas. Às vezes enviava-te
cartões e, quantas vezes – não
conseguia controlar minha ânsia de escrever-te
desesperadamente! – mais de uma carta vinha
ao mesmo tempo, do mesmo remetente: eu, um louco
que postava mais de uma correspondência
para ti ao mesmo tempo, como a querer compensar
a espera que te afligia.
Não sei o que achavas melhor no momento
em recebias o envelope rechonchudo de papel das
mãos do carteiro (aguardava-o no teu portão
e recebia as minhas cartas direto de suas próprias
mãos. Acho que para ele, era um belo presente:
uma linda menina a querer receber cartas de suas
mãos, ao contrário do frio contato
das caixas de correspondência...). O envelope
em teu poder, finalmente, era o que provavelmente
mais te agradava; minhas palavras, escritas com
a mais apurada caligrafia possível, agora
chegavam até ti e tu podias ter-me, em
pedaços, em fragmentos, em por vezes descompassadas
frases – mas tinha-me em essência.
Minha letra, indubitavelmente parte minha.
Só para prolongar o doce instante que se
suspendia neste momento para ti, tu caminhavas
com vagar até chegar dentro de tua casa.
Então, te encerravas na intimidade do teu
quarto, crendo como se eu próprio estivesse
ali. E cheirava as cartas, sei que cheirava e,
por isto mesmo, eu não esquecia a cerimônia
de borrifar perfume nelas para que nossa pretensa
proximidade se tornasse mais passível de
verdade.
Depois – e somente após conferir
com rigor o endereço já há
muito conhecido, a cidade de que te postava, meu
nome, todo ele, com toda a formalidade e rigor
possível e todos os outros adendos postais
que sempre se fizeram necessários –
te entregavas ao corte preciso do envelope, cuidando
para não machucar o papel ali dentro. Algumas
vezes sei que gostavas de retirar o selo com cuidado,
e o colava em uma espécie de álbum
que tinhas para esta finalidade. Na maioria das
vezes, no entanto, preferias manter intacto o
envelope, bem como viera. Era teu fetiche, alguns
diziam que eras cheias de mania, enfim. Eu, no
entanto, sempre preferi deleitar-me com teu capricho.
Gostava de saber que minhas cartas para ti eram
assim tão bem tratadas. Era como se, por
extensão, estivesses a me acariciar, tão
longe me encontrava.
E só depois destes demorados procedimentos,
é que te deitavas na cama, com as numerosas
folhas que compunham minhas cartas e te entregavas
definitivamente à leitura. Momento este,
que definitivamente te ocupava a noite inteira:
quantas vezes não varastes madrugadas a
ler e reler minhas palavras, como se orações
fossem para ti? Dizia amar minha letra quase tanto
quanto a mim, só por saber minha. E meus
pontos e travessões e vírgulas bem
colocadas. Quem ainda sabe usar ponto-e-vírgula?
A formalidade no cabeçalho, a enunciar
cidade e data. Tudo tão preciso como dados
para um arquivo que organizavas, guardando minhas
cartas e cartões e bilhetes, um a um, cronologicamente.
Isto já faz um tempo, no entanto. O que
não fez com que estreitássemos em
definitivo nossa proximidade geográfica.
Para te ver é uma função
que deve ser planejada com antecedência
e aproveitada com a certeza de que, infelizmente,
tão cedo não o farei novamente.
Por isto, gostaria de pensar que é verdade
que as belas traquitanas tecnológicas tratariam
de aproximar a expressão de nossos sentimentos
com toda a intensidade que eles sempre se fizeram
merecedores. Para me consolar, penso que facilidade,
definitivamente, estas tecnologias nos trouxeram.
Hoje, digito para ti com a rapidez que este bom
computador me assegura. Incluo teu endereço
com a facilidade que minha bico de pena não
seria capaz de realizar. É bem verdade
que em outros tempos eu não conseguiria
te localizar com este símbolo que eu sempre
pensei, servisse somente para identificar quantidade
de quinze quilos. O que antes pesava cacau, hoje
é um ideograma que faz minha missiva cair
diretamente na tua caixa postal. E tu não
te demoras mais em abrir envelopes: não
há papel, o contato físico se fez
desnecessário. Com um clique tens minhas
palavras, sem as formalidades, é verdade.
Verdade, também, que sem cheiro, sem volume,
sem nada que te dê a certeza de serem realmente
minhas. Há um tal protocolo de segurança,
mas isto não te convence muito. As animações
que piscam, os barulhinhos, as demoradas imagens
que teu computador lerdo demora em mostrar...
Nada disto parece melhor que os desenhos tôscos
com que enfeitava as cartas.
No final das contas,
como não tens o que guardar – e,
sendo cada vez mais rápidos, bobos, vulgares
e sem circunlóquios os meus escritos acho
que eles não merecem, mesmo! – o
que te resta é somente a indecisão
que te divide entre ‘salvar’ e ‘deletar’
meu e-mail para não entupir tua caixa postal.
|
en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi
O
PT, o Lula e Você - Prá que lado
afinal?
Pôxa, é verdade
e tenho que admitir: votei no Collor com medo
do Lula mudar muita coisa no governo, sabe como
é, meter o dedo que ele não tem
onde não devia. Na verdade, os cerca
de 35 mil brasileiros que votaram nele (42,75%
do povo) são objetos raros de se encontrar
por aí. Estão sumidos por não
estarem assumidos. Também era minha (e
de todo brasileiro) primeira eleição
direta, eu nunca tinha feito isso na vida, jet-ski
é o maior barato e blá, blá,
blá. Mas deixemos a vergonha de lado
com a célebre “honni soi qui mal
y pense” (alguém por favor me ajude
a escrever isso direito!).
Anos
mais tarde e, finalmente eleito, agora com as
expectativas populares de mudança, Lula
conseguiu construir tantas alianças de
direita quanto necessárias para descaracterizar
sua canhotice. Aliás, esse negócio
de direita e esquerda é bem complicado.
Sempre pensei que direita é aquele que
está do lado de quem governa e esquerda
a oposição. Isso faria bastante
sentido numa democracia onde a maioria elege
o dono que merece (alusões musicais ao
Nei Lisboa) e são também os destros
a maioria. Mas não é bem assim
e achei um texto interessante sobre isso no
Jornal
Veritas, no site da Associação
Cultural Montfort (que nem eu tinha ouvido falar
antes). Em todo caso, acho que o Detran deveria
providenciar algumas placas de “proibido
converter à direita”, “escândalos
proibidos à esquerda” ou coisas
do gênero, para centrar definitivamente
essa gente.
Mas enfim, com tantas voltas
e reviravoltas, parece que andamos mesmo foi
em círculo. Pouca coisa mudou, para lamento
de alguns, de outros e do próprio presidente
que vê seus amigos MSTistas seguirem numa
ferrenha, impaciente e Fidelista batalha contra
o governo que hay. Será que poderíamos
pois, ter acelerado o processo político-democrático
brasileiro elegendo Lula ainda em 1989? Não
sei não. Todo processo é, por
conceito, um processo. Precisa do antes para
alcançar o agora e ter o depois. Éramos
outros, diferentes dos que agora somos, mesmo
que iguais a antes. Um velho probleminha dialético,
conhecido dos filósofos de plantão
desde que Heráclito se meteu nessa canoa.
E por falar em plantão, vou encerrando
por aqui senão chego atrasado ...
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|
I-racional
Pedro Armando Furtado
Volkmann
Agruras
de Sininho
(amigos do rei)
Assim
de mansinho, fala devagarinho;
Quem nunca sonhou com a fadinha?
Pequena
e valente,
Amiga e obediente
Quem poderá a salvar?
Um
dia, um cara mau,
Não estava normal
E disse: esta mulher
Não é polivalente.
Não há quem agüente.
Argumentou
Peter Pan,
O que passou, passou.
Não
era ela perfeita?
Bem melhor que a anterior?
Velhas
maldades, velhos babões,
A fizeram tremer na base.
Alguns sermões dos chefões,
Que fase.
Talvez
se case.
(E deixe a terra do nunca).
Capitão
gancho,
Na hora do rancho,
Deu um pé na bunda
Da moribunda.
Mamãe
me acuda
Chegou a miuda,
E a levou...
É
meu amigo, é triste descobrir ser amigo
do nada, pensando ser amigo do Rei.
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Diálogos
com Deus
Rafael Luiz Reinehr
Deus e o ateu
-
Quem é você?
- Sou seu pai, e pai de todos aqui nesta Terra?
- Adão? George Bush?
- Não meu, filho, sou Deus...
- Que deus o caramba! Não acredito nestas
baboseiras!
- Não precisar acreditar. Não preciso
da tua crença para existir, assim como
um elefante voador cor-de-rosa não precisa
que tu acredites na existência dele para
existir...
- Mas... Espera aí? São possíveis
elefantes voadores cor-de-rosa?
- Vou te responder da seguinte forma: para saber
se algo existe ou existiu de verdade, tens que
ter estado aqui desde o começo dos tempos
e ao mesmo tempo em todos os lugares, pada poder
presenciar tudo que existe. Do contrário
nunca saberás se elefantes voadores cor-de-rosa
são possíveis.
- Sim, mas isto é impossível!
- Não é não! Lembre-se que
só Deus é onipotente, onipresente
e onisciente. Mas, como não acreditas em
mim, não te dou a resposta do elefante!
Tchau!
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Meias
verdades
Alessandro Max Sachetti
Nem toda nuvem é chuva
Nem todo sol é calor
Nem tudo que faço é isso mesmo
Nem tudo é o que quero
Todo
movimento é voluntário
Posso até estar parado
Mas não significa que não esteja
reagindo
A melhor reação muitas vezes é
a inércia
Não
acredite em tudo que falo
E não duvide de nada também
Eu nunca minto
Outras vezes só não falo a verdade
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|
Ombudsman
Maurício
Silveira dos Santos
Abaixo
o Creme de Berinjelas Congelado, Viva a Revolução
das Algas!
É bom estar
de volta, caros leitores. Esta edição
foi sensacional, não é mesmo? Isso
acaba por me irritar um pouco porque fica difícil
bater em textos tão robustos ...brincadeira.
Mas é verdade que essa edição
foi especial. A Cristiane Martins, por exemplo,
está sofisticando o estilo Nua&Crua
a níveis bem interessantes depois de um
período de alguma monotonia. Como foi bem
observado nos comentários a sua coluna,
o trabalho dela de descrição de
detalhes que passam freqüentemente despercebidos
e que emolduram a situação narrada
e permitem ao leitor “participar”
da ação está “no ponto”.
O texto do Milton é de uma elegância
e de uma erudição admiráveis
e os comentários do Zadig são a
indispensável sobremesa a uma refeição
deste quilate. Com relação à
pergunta do final do texto, vou meter a colher:
a música ,caro Milton, é anterior
aos especialistas, acadêmicos, profissionais,
concertos e etc. é anterior mesmo à
escrita, por isso é coisa não apenas
para os especialistas ou apaixonados, é
coisa para os vivos. E como estou vivo e estou
ombudsman, mesmo não sendo músico
ou erudito (na música ou em geral) resolvi
responder, falei bobagem?
Ainda há
na edição três libelos políticos
“latu sensu”: o texto “Subir,
Descer,Crescer” que narra a descoberta de
um mundo injusto por um recém desencantado
(provável) menino de classe média
que se descreve algo alienado e amedrontado; a
declaração pacifista do “En
Passant” e “Os diálogos com
Deus”. Agradeço aos autores por estes
textos, pois eles me permitem parar de elogiar,
elogiar e elogiar “tudo-o-tempo-todo”
(o que me irrita muito pois sou sádico
por natureza e escolha). Apesar das boas intenções
e da destilação de bons sentimentos
os dois primeiros são algo ingênuos
e quase adolescentes tanto pelo tom de descoberta
de que a terra gira em torno do sol (no caso do
primeiro quando trata de desigualdade social)
como pela típica revolta pequeno-burguesa
(no segundo), que tende a se tornar superfial
na medida em que em vez de gerar alguma análise
ou observação criativa se torna
um desabafo baseado em listas de injustiças,
das menores às maiores, das estruturais
às impulsionadas pela mídia, das
mais fundamentais às que não passam
de agruras do cotidiano da classe média.
Aliás, penso que este tem sido um ponto
fraco do nosso louvado Simplicíssimo; os
textos que tratam de história, política,
análises conjunturais normalmente deixam
a desejar. Talvez tenha sido este fenômeno
que fez com que o nosso editor tenha importado
uns textos nessa linha de outro site, alguns bem
interessantes. Destes três textos co pretensões
sócio-políticas vou poupar o “Os
Diálogos com Deus” já que
está enxuto, direto, bem humorado e deixa
que o leitor tire as suas conclusões, convidando-o
a pensar nos desafios e frustrações
do governo Lula.
Para terminar: nunca
tinha ouvido mais criativa definição
do nosso feioso rio (ou lago, como queiram) Guaíba.
Creme de berinjela congelado (!), que maravilha.
Boa parte dos portoalegrenses teima em enxergar
a beleza(?!) nas águas do Guaíba
e vem com essa conversa de mais belo pôr-do-sol
do mundo !!! É quase um delírio
coletivo re-afirmado por alguns programinhas da
RBS e gente que ouve demais as músicas
do Fogaça e da sua esposa... não
dá para agüentar. A coluna I-racional,
fora esta espetacular descrição
do Guaíba e a percepção de
que as algas são o menor dos nossos males,
está realmente muito boa (talvez por isso
tão poucos comentários).
Abraço a todos,
e até o próximo melhor pôr-do-sol
do mundo...
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Desafio
Simplex
Em
função dos preparativos
para o SuperDesafio Simplex, nesta semana
não teremos o Desafio Simplex.
Aguardem:
NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA...
...o
SUPER DESAFIO SIMPLEX ! ! !
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Selo comemorativo
alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente
criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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