Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade igual a maciça distribuição de CDs


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Editorial

Êia que é nóis! [ou: Isto é um Editorial ou Deveria Sê-lo.]

Então, neste exato momento, tu pára e pensa. Tu. Eu? Não, tu. Tu mesmo, que por um motivo ou outro está lendo isto aqui. A bem da verdade, poderíamos gastar preciosos minutos em que tu já poderias ter adentrado a leitura habitual destes kbytes de palavrórios que a ti importam. Já poderias estar lendo o Eduardo Sabbi, a Cristiane Martins e todos estes parcerias que se acumulam aqui sob a alcunha de simplicolunistas. Mas tu ainda tá aqui. E não te faz de louco, vai adiante. Acho que não vale a pena argumentar sobre quais são, afinal, os motivos de tu estares aqui, lendo na tela do teu computador as linhas deste chamado Editorial [afinal, isto é um Editorial, ou pelo menos deveria sê-lo...], deste e-zine, revista eletrônica - ou sei lá que título te agrada mais às vistas, aos olhos e ao coração – denominado Simplicíssimo.

A realidade é que poderíamos entrar em demoradas considerações do porquê de tu estares aqui. Mas, sejamos simplistas [afinal, você está no Simplicíssimo! Ahá!]: aqui estás tu, e pronto. E então que tu gastas alguns dos teus preciosos minutos dando-te ao trabalho desta leitura. E tu, leitor de muitos Editoriais, assim, repentinamente, te dá conta, e, antes de chegar às linhas finais, onde lerá ‘Editor Interino’, percebe: “Peraí, tu não é o Rafael! Este tom jocoso, cínico. Esta tentativa de fazer piadinhas irônicas, estes rascunhos de metalinguagem... Péra lá: tu deve ser aquele Alessandro! Que porra é esta aqui?!”. Ok, ok, tu me desmascarastes. E tu sabes quem eu sou! Palmas pra ti, leitor!

E se, por um acaso, te vai ao coração as razões pelas quais nosso prezado Rafael não se encontra aqui nesta edição, adentrando com suas palavras o respeitoso Editorial, é bem provável que eu venha a te dizer, que, num conglomerado revoltoso, nós, os colunistas, o seqüestramos para imprimir nossa cara a, pelo menos uma edição. Um de cada vez. Uma edição para cada um. E esta é a minha. No Editorial. Comandando esta chalaça.

E já que tu continuas por aqui, e não foi ler a Martha Medeiros, o Scliar, ou sei lá que outro colunista aí do mainstream, é bom dar voto às nossas palavras. Mais livres, mais honestas, mais desfeitas de qualquer interesse e mais interessadas no teu retorno.

Afinal, não deve ser por acaso que tu lês o Simplicíssimo. Alguma coisa de novo tu deves estar procurando. Alguma coisa que podem te arranjar os textos do Sabbi, da Cristiane, do Queiroz, do Volkmann, do Reinehr... ou até meus textos, mesmo. É, meus textos, fora o Editorial, também se encontram por aqui. Lá embaixo. Por que não ta fácil a coisa e o negócio é ser multitarefa. Homenageando sempre o mestre Cortázar, nas velhas Instruções Para Dar Corda no Relógio. Basta tu deslizares alguns caracteres abaixo. Mas vai rápido. Com a mesma rapidez com que as novidades se apresentam pra ti. E se criam mundos novos, mundos virtuais; mentiras doces alimentadas em conglomerados de comunidades e centenas de amigos e discussões sem fim. Um mundo como o Orkut. Uma linha tênue entre o irreal e o tangível. Só não vai te confundir. O que tem lá, o que tem aqui, e o que tem verdadeiramente à tua volta. Te dá conta do recado, caminha até a Comunidade Simplicíssimo e estende aos debates [http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=51593] que rolam por estas bandas.

Bueno, boa edição. Vamos aos textos. Vida longa à todos nós e viva Cortázar!

Alessandro Garcia
Editor Interino

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Som bem atual
Daniel Rech


Outro dia li em um jornal sobre uma banda gaúcha nova que estava na estrada há 5 meses e se preparava para conquistar os mercados do sul do Brasil, Santa Catarina e Paraná, já que no Rio Grande do Sul eles já tinham bastante sucesso. Confesso que nunca ouvi falar da banda e vou me permitir não colocar o nome, já que este texto não tem a finalidade de criticá-los, até porque, como já falei, nunca ouvi tal banda.
O que me chamou a atenção nesse artigo, foi a definição do som da banda como sendo “um som bem atual”, o que me deixou bastante assustado, uma banda que quer em 5 longos meses de estrada conquistar o Brasil e é caracterizada como banda de som atual tem grandes possibilidades de ser uma banda fabricada.
Vamos pensar: O que seria ter um “som bem atual”??? Isso é bom ou ruim??? Na minha modesta opinião, isso é bem ruim, pelo menos para uma banda de Rock. No que se refere à música gaúcha então, isso é péssimo.
Uma banda de som bem atual não me assusta pelo fato de estar renegando Beatles, Pink Floyd ou quaisquer outros gênios da história do Rock, na verdade não é esse o sentido que a reportagem quis dar à expressão “som atual”, o sentido da expressão me parece estar na filosofia moderna musical, na filosofia “Armandinho no Planeta Atlântida” ou “A extraordinária revelação hoje no Faustão”. Vou mudar um pouco de assunto pra me fazer entender:
Sabe aquele cara que deseja uma mulher acima de qualquer coisa, mas não pode tê-la porque a recíproca não é verdadeira? Porém ele tem um amigo bilionário que quer ajuda-lo, então oferece R$ 1.000.000 pra tal mulher casar-se com seu amigo. O casamento acontece, eles vivem juntos, o cara tem sexo, tem a mulher que ama ao seu lado, mas nunca vai se sentir completamente realizado por não receber o amor ou o carinho que gostaria.
O que acontece no Rio Grande do Sul em relação à bandas novas na mídia é exatamente isso, alguém escolhe uma determinada música de uma banda e coloca ela pra rodar alucinadamente durante todo o dia e durante muitos dias. Simplesmente diz para o público alvo o que eles devem gostar e ouvir, mas o mais incrível é que as pessoas realmente se convencem que gostam muito daquilo e ouvem loucamente, sem qualquer questionamento. Sequer se perguntam por que essa música toca tantas vezes no rádio durante um único dia? Será que é tão boa assim?
A banda terá um bom público no show, que aguardará com ansiedade a única música que lhes interessa e que logo será esquecida, então será necessária uma nova injeção de ânimo nas pessoas através da mídia para que a banda apareça novamente, até que “eles” achem que a banda não é mais necessária. Se nesse tempo a banda não adquiriu um público verdadeiro, o sonho acabou. Divórcio, o que era muito bom, agora é nada.
Por isso, fuja de bandas que se intitulam atuais, fuja da filosofia Acústico MTV Charlie Brown, tenha suas próprias idéias e não marche junto pro grande caldeirão. Este é o meu conselho.

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Simples Goyuchos
Milton Ribeiro

Manhã Patrocinada

O despertador de meu celular Nokia me acorda. Levanto a cabeça para conferir a hora no rádio-relógio General Electric sobre o criado-mudo SRD. Levanto-me lentamente pensando se tiro meu pijama Benet ou se vou ao banheiro ainda vestido. Está frio e resolvo mantê-lo. Faço xixi na privada Ideal Standard e vou para cozinha, onde abro o freezer-geladeira da Eletrolux e pego um croissant congelado da Casa do Croissant e a caixa de leite da Elegê. O croissant é imediatamente redirecionado para o forno de microondas Panasonic e o leite, acompanhado de Zero Cal,vai para um copo SRD. Ainda dormindo, mas com o piloto automático by Milton me levando, pego meu lanchinho e vou à sala onde ligo o amplificador Gradiente, o DVD da LG para ouvir um CD da EMI Classics de música de Hindemith. Pego o jornal Zero Hora, que tenta me demonstrar (e consegue) quão boquirroto anda nosso presidente, do PT. Levanto a cabeça para ver Claudia aproximar-se com um roupão da Teka e um iogurte Corpus, da Danone, na mão esquerda. Serve-se dele numa colher Pinti. Diz que estamos sem papel (Ripasa) para impressora Epson de nosso computador Itautec. Não dou muita importância, pois estou pensando em ver meu saldo no Santander. Volto ao banheiro e escovo os dentes com Oral-B e pasta Close-up. Faço algo inconfessável, livro-me dos vestígios com Neve e tiro o mau cheiro com Gleid. Uso o sabonete Senador para lavar as mãos e o rosto e vou me vestir. Vagarosamente, vou pondo uma cueca da Preston Field, calças da Happy Man, camisa da Riccardi, meias da Lupo e sapatos da Gallarate. Depois, reviso o que tenho que levar para o trabalho. Pego então a calculadora HP e um livro da Guanabara e jogo-os na pasta cuja marca procurei procurei procurei e não encontrei. Dou um beijo na Claudia Antonini e desço as escadas pensando em como ela beija bem até encontrar meu carro Volkswagen. Coloco-o para funcionar e reviso se ele tem em seu tanque gasolina Ipiranga. Aliviado, faço os pneus Good-year me levarem ao centro de Porto Alegre. Durante o caminho confiro em meu relógio Technos se não estou atrasado. Chego ao escritório e, enquanto ligo meu computador IBM, vejo se o chá Leão já está na garrafa térmica da Termolar. Como estava, pego um copo plástico da Zanatta e penso se pus no porta-malas do carro Volkswagen o tênis Nike, o calção Wilson e a camiseta da Sul Malhas, pois posso precisar disto se sobrar um tempinho para ir à academia do Grêmio Náutico União. Volto para a mesa e começo a telefonar de meu Siemens para o cliente Trensurb. Enquanto isto, abro a gaveta da mesa Orlandi e pego as contas para pagar. Há duas do Colégio Americano e uma do Banco Itaú. Com uma caneta Cross assino cheques do Santander e vejo acabaram os clips da ACC. A ligação é desligada. Volto-me para o monitor LG de meu computador e ele mostra o Simplicissimo, onde leio esta bobagem.

Observação: SRD é uma expressão do jargão veterinário e significa "Sem Raça Definida".

 

Nua & Crua
Cristiane Martins

Paixão de bar

Todos os dias ela passava no mesmo horário, no ritmo do seu gingado emoldurado por uma saia minúscula, repleta de plissados que iam e vinham...
Sua blusa com um decote tão displincente e deliciosamente provocador me levava à loucura.
Ela entrava no bar, passando por mim como se eu fosse somente um ornamento qualquer, uma cadeira jogada no canto menos importante.
Sentava-se delicadamente cruzando sua pernas morenas e muito bem torneadas e jogava os cabelos negros para trás com suas mãos.
Todos os dias ela pedia sempre a mesma coisa: um flan de baunilha que ela degustava como se tivesse degustando do meu corpo.
E eu ficava ali imaginando aquela porção pequena de doce naquela boca carnuda, adentrando sua boca, perdendo-se entre os movimentos de sua língua.
Ahh como eu desejava estar lá, no meio daquela mistura toda, colocando minha língua na sua boca e a levando á loucura.
Então no meu devaneio eu beijava aquela boca carnuda e nada inocente, passando a língua por seu pescoço, mordiscando sua orelha, me perdendo em seus seios volumosos, sentindo aquele cheiro de mulher misturado ao perfume de baunilha.
Mas ela nem notava a minha existência.
Eu ficava ali, fumando meu cigarro e observando a harmonia com que ela devorava o flan.
Vez que outra ela passava a lingua pelos lábios para buscar algum pedacinho fujão e eu novamente mergulhava no meu delírio de desejo.
Ela era a perfeita tradução da minha libido, de todos os meu pensamentos mais pecaminosos.
Eu era o Lobo Mau e ela a Chapeuzinho Vermelho levando seus doces flans para a vovozinha, digo, doces...
Quando o tempo mudava, e ficava frio ela preferia capuccino, e eu ficava observando a mutação do bico dos seus seios.
Chegavam como duas setas apontando para os dois lados da rua. Mas quando o capuccino descia pela sua garganta eles simplesmente desarmavam-se, como cavalos selvagens sendo domados.
Depois, levantava-se e sem dispensar nem mesmo uma olhadela para o meu canto ela ia embora.
Eu me levantava e ficava na porta acompanhando seu balanço de pernas.
Ia uma, ia a outra, e eu me imaginava no meio delas, sendo esmagado, sendo triturado, sentindo o suor e o cheiro que delas provinha.
Provavelmente ela era uma estudante, pois sempre carregava alguns livros entre os braços, e aparentava ter uns vinte anos.
Na flor da idade. E eu no auge dos meus trinta e muitos a devorava com os olhos.
Um certo dia eu decidi que iria abordá-la.
Coloquei meu melhor perfume, vesti a melhor camisa e me dirigi como de costume ao bar.
Eu não sabia como ela responderia a minha abordagem, mas eu estava decidido e iria fazê-lo.
Nesse dia eu sentei propositalmente na mesa que ela costumava ocupar e fiquei na minha angustiante espera, como se fosse um adolescente esperando sua primeira namorada.
Ela chegou no mesmo horário. Era britânica! Vestindo uma camisa tão apertada que seus botões pareciam prestes a estourar a qualquer momento. De livros entres os braços como de costume ela entrou e sem pestanejar sentou-se em uma mesa ao lado da minha.
Era a hora. Eu era o leão prestes a dar o bote na presa.
Cheguei em frente a mesa e indaguei:
-- Posso me sentar por um minuto?
-- Algum problema com sua mesa?
-- Não, mas eu gostaria de trocar algumas palavras com a senhorita - tentei ser o mais educado possível, mas confesso que me senti uns quarenta anos mais velho do que ela dizendo isso.
-- O senhor está perdido? Quer alguma informação.
Então eu destilei meu veneno, meio a conta-gotas:
-- Sabe eu venho te observando a meses. E sei que chegas sempre no mesmo horário, pede sempre as mesmas coisas e fiquei intrigado com...
Então, como se o jogo tivesse virado ela destilou:
-- Quanto?
-- Como?
-- Quanto vai pagar? E o que vai querer?
-- Me desculpe mas...
Mas ela me interrompeu com o golpe final:
-- O lance é o seguinte: uma chupada por cem mangos, mas pra trepar é mais caro. Só faço o trivial, ou seja: esqueça sexo anal, não curto brincadeiras sado masoquistas e não engulo. Vai querer?
Eu gostaria de ter visto minha própria cara naquele momento.
A desgraçada era uma prostituta! Putana!
Dei as costas deixando-a sozinha no seu ritual de deglutição do flan e saí do bar meio atônito.
Um dia é da caça, outro do caçador!

 

Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

"É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso! Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se." (Baudelaire)

Nestas tardes itinerantes da cidade, em que temos que traçar aquele circuito inevitável, definido quase sempre entre casa-faculdade-trabalho, dentro dos coletivos, as ações mais ou menos se resumem entre contemplar a paisagem de todos os dias, composta pela variação pouco espetacular de casas, casebres, prédios, pessoas; tentar ler um revista ou livro e sofrer um reconfortante desvio de córnea a cada solavanco, ou se comportar, somente, com a cara clássica de viagem de ônibus: queixão para a frente, seriedade, porque não é a hora de rir de piadas internas sozinho e sofrer o assédio visual de quem o considerar louco, e uma ou outra olhadela, de soslaio, como diria o meu tio Adagobaldo, para as gostosas que passam espremidas e os pervertidos que sempre tentam dar uma encoxada nas mesmas. Como as opções de escolha dentro do passeio delícia no ônibus acabam sendo muito reduzidas nos horários de movimento [leia-se: todos], não cabe a nós a frescura de ficar selecionando, afinal, ao lado de quem vamos sentar. É apaziguante pensar, pois, que as possibilidades de ter como companheiro de viagem um gordo que senta de pernas arreganhadas com uma sacola gigante contendo pneus em promoção do Carrefour sobre o colo, acaba, no final das contas sendo praticamente igual à chance de sentar ao lado da Fernanda Lima, que visitando Porto Alegre, resolveu dar uma banda de coletivo só para ver “qualé”. Numa das minhas últimas viagens, coube aconchegar-me ao lado de uma mulher que, pelo jeito, já vinha dormindo há muitas paradas atrás, tal era a profundidade de seu sono. Não acho frescura dizer que já começava a me incomodar a grossa baba que escorria pelo canto de sua boca, e traçava itinerário por sobre a pele enrugada, num vinco preciso e calculado com a ajuda visível de engenheiros de dragagem, pensei eu, ali, com meus botões, meu zíper e tudo o mais. A plasta babal, por assim dizer, descia pelo pescoço até encontrar uma espécie de morredouro na correntinha de plaquê de Santa Edwiges que pendia em seu pescoço. Eu me dividia entre olhar com o famoso canto do olho à cena que me remetia aos princípios de escrotidão que eu tantas vezes exaltara, e entre encarar compadecido o chiclete mastigado de muitos carnavais passados grudado no assento do banco da frente.

Nas penosas viagens de ônibus a que sou submetido freqüentemente na rotina suburbana, sem possibilidade de outro divertimento durante o caminho diário que ao menos me ocupasse momentaneamente, sem causar danos como descolamento de retina e desvio de cérebro, me vejo naquela quase inconsciente sessão de passadas de olhos por sobre os tipos que julgo ainda mais estranhos que eu e que compõem esta interessante fauna que formam os passageiros de ônibus.

Quando acordei um pouco dos meus devaneios, gradativamente, a mulher começou a inclinar-se num ângulo que tendia para o meu lado a cada vez que o ônibus fazia uma curva. Isto aconteceu umas três vezes. De uma maneira não brusca, eu fazia-a voltar para seu lugar, mas, ainda assim, em um empurrão um pouco mais vigoroso, ela abriu os olhos embaçados, e, entre dentes solitários perdidos em uma boca um tanto grande para tão poucos, regurgitou uma mistura de queijo e mortadela com cachaça, e perguntou-me, solenemente “porque você não vai à puta que te pariu?”. Neste momento, acontecendo o que eu mais temia – ser o centro das atenções – todos os olhares se voltaram em nossa direção e, em meio à risos abafados e murmúrios de “...aquela velha bêbada...”, eu ainda balbuciei “mas a senhora está caindo por cima de mim...”. Sem pestanejar, naquela certeza típica dos ébrios (“te considero...”) ela volveu uma contra-argumentação: “E daí, teu corpinho é de ouro? Não pode tocar, não?”. Na falta de possibilidades de rebate, reduzi-me à minha insignificância sóbria. Não voltando a apresentar justificativas para aquele ato tão violento que eu tive ao empurrá-la de volta para seu lugar, e que lhe despertara tamanha animosidade, voltei os olhos à minha volta à procura de um algum puto lugar alternativo onde me sentar. Mas, porra do caralho, como que senhora dos meus pensamentos, voltei a ser obrigado a ouvir a magia da constatação da amiga dos destilados: “Quer sair daqui? Tou te incomodando?”. Naquele quase estado de catarse que os poucos segundos encarando seus olhos baços me proporcionaram, consegui indagar-me de como era possível os olhos de uma pessoa chegar a um estado tal de vermelhidão e falta total de brilho. Nestes poucos instantes que pude contemplá-la na imensidão de seus olhos embaçados, procurei, por um átimo de tempo, alguma resposta às questões mais profundas formuladas pelo universo. Mas quem parecia querer uma resposta, e rapidamente, era ela, que não cansava de me perguntar, não aceitando a indiferença e o silêncio como resposta, àquela questão que, talvez, viesse a mudar sua vida, ou livrá-la de algum possível complexo de inferioridade: “Hein?! Tou te incomodando? Porque se eu tiver, tu me avisa e eu saio daqui...”. Cheia de cinismo e daquela malandragem típica de quem está acostumada a viver no meio de celebridades da vida marginal. Eu ainda tentava aceitar em silêncio a hipocrisia de sua dita predisposição em sair fora dali caso eu a fizesse crer que me estava incomodando. Era ainda aceitável tal falsidade. No entanto, quando, ao final da frase, ela emitiu a mais bizarra, a mais nojenta, a mais grotesca e a mais escrota de todas as gargalhadas, naquele gorgolejar entremeado do farfalhar gosmento do catarro a sacudir-se em suas cordas vocais, eu não consegui me segurar. Agarrei àquela maçaroca que formava seu cabelo, e putaquepariu!, bati com sua cabeça de encontro ao vidro da janela, uma, duas, três, quatro vezes. Todos os espectadores, entretidos então com aquele embate psicológico que tinha se formado, e que continuavam a encarar-nos, querendo, obviamente, algum tipo de reação da minha parte, arregalaram os olhos diante DAQUELA reação, pelo que pude julgar, por eles pouco esperada. De todos os que se levantaram para conter meu ímpeto assassino, que continuava me motivando a bater com violência sua cabeça repetidas vezes de encontro ao vidro, molhando de vermelho aquela maçaroca acinzentada à qual eu prendia meu dedos, creio que cinco caras foram suficientes para, finalmente, me agarrar e, deixando o corpo da velha sem vida por sobre o banco de fibra, me arrastar até o chão do ônibus e encher a minha cara de porrada até que eu perdesse totalmente a consciência.

quase memória

Tu não sabias porque as outras crianças não te deixavam brincar com elas no pátio dos apartamentos. Tu eras meio estranha e um pouco gorda em comparação às outras gurias com suas tetinhas ouriçadas e seus calçõezinhos de lycra coladinhos no rego, mas estes tu não podias usar - porque tu eras um pouco gorda e sabias que não ficaria algo muito bonito de se ver. No mais, tu tinhas quase certeza de que não gostaria de sentir aquele tecido gelado enfiadinho por entre as tuas coxinhas roliças, e achava melhor, então, usar aquela bermuda de algodão folgado que te deixava maior do que tu eras.

Também, isto não tinha lá muita importância no resumo geral das coisas, porque tu acabas mesmo passando o dia olhando as crianças da janela do teu apartamento ao rés-do-chão, já que elas não te chamavam para participar do esconde-esconde, então, quase ninguém te via com aquela bermuda larga de algodão. Se te visse, tu já achavas que não tinha muito problema, porque há tempos já desistira da idéia de encontrar em si própria um pouco de graça, ou de parecer interessante de algum tipo de maneira estética. Eu acho que tu nem tinhas muita noção do conceito de estética. É, esquece, tu eras extremamente novinha naquele tempo e, provavelmente, crianças novinhas e normais na concepção social da palavra, não se ligam muito em preciosismos vocabulares. Se bem que eu esqueci que, naquela época, tu eras meio estranha. Eu, por exemplo, não entendia porque tu gostavas de judiar com o gato do teu irmão menor. Não sei se tu tinhas raiva do bichano, de verdade, ou se usava o pobre para se vingar do fato das atenções terem se voltado todas para teu mano e, então, tu te achar completamente abandonada.

Ninguém ligava que tu ficasses horas na frente da televisão assistindo aqueles filmes onde os homens sempre queriam estar por cima das mulheres, se esfregando que nem o guri daquele apartamento do lado do teu ficava se esfregando na tua vizinha Lurdes. Tu não sabias o que havia de interessante em ficar se esfregando. Tu não sabias muita coisa naquela época, para falar a verdade. Agora não sei se tu aprendeste um pouquinho mais.

Também, eu não tenho nada que ver com isto.

Aos apaixonados e entusiastas das teorias mil de subliminares e devoções demoníacas no universo Disney, vai ser bastante interessante e eu diria um prato cheio quando começar a retumbar mais amplamente pela imprensa a contratação do cineasta e escritor Clive Barker para um dos próximos projetos do estúdio. Na tentativa de tentar entrar no filão do sobrenatural aberto pelo Harry Potter, a Disney vai apostar na saga infanto-juvenil do autor que ganhou notoriedade por criar um estilo próprio de terror, repleto de sangue, cadáveres, sadomasoquismo e escatologia. Só para ter uma idéia, o cara é o diretor do muuuito demoníaco Hellraiser e criador do cabeça de prego Pinhead. Não bastassem estes pequenos dados que por si só são um excelente instrumento de contra-marketing que os adversários da Disney poderão usar à revelia contra o estúdio, Barker é gay assumido, conhecido pelas pinturas eróticas e macabras, apresentadas nas vernissages “para adulto” que costuma fazer. Coisa pouca, do tipo cadáver sem cabeça jorrando sangue pelo pescoço e uma singela homenagem a seu companheiro, em uma obra que retrata os seus pênis atados por um cordão. Tudo que os moralistas adoram! E é o escritor e ilustrador de Abarat, sobre um arquipélago sobrenatural - um universo paralelo - no qual a trama se desenvolve, onde a adolescente Candy entra por acaso através de uma passagem, desenvolvendo dons de magia e sendo perseguida por monstros. Os direitos de filmagem do livro, que acaba de chegar ao Brasil pela Cia. das Letras já foram comprados pela bagatela de 8 milhões de dólares, e, antes que possam me acusar de algum tipo de moralismo, como o dos velhos jornalistas horrorizados com o filme de Gallo, já vou dizendo que a mim pouco importa quem escreva, produza e dirija os filmes da Disney: nem sou fã do estúdio e do veio Walt por já ter estudado com alguma profundidade a dissimulação figurativa de seus personagens e suas histórias com Tio Patinhas e seus patos sem calças e sem filhos. Só são duas as questões: isto sem dúvida é um prato cheio para os indivíduos mencionados acima e me espanta o quão abundante é esta onda de apelo sobrenatural, auto-ajuda, místico e o escambau que anda se produzindo, hein? Dá um chute em uma moita e sai correndo um monte de bruxo e mago e fada e esta tranqueira de fábulas para entreter e imbecilizar ainda mais a humanidade. Morte ao entretenimento vazio!!



en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Do Conselho à Ordem

Domingo de manhã (não, não saí prá caçar rã) acordei realmente muito cedo e chamou-me atenção uma notícia trazida pelo Dorotéo Fagundes em seu programa “Galpão do Nativismo”. Pois ele trouxe À tona a carta de um amigo seu, advogado e músico (não necessariamente nessa ordem), onde havia conquistado judicialmente o direito de exercer sua profissão artística sem a necessidade de filiar-se e muito menos de estar financeiramente em dia com a Ordem dos Músicos do Brasil, a OMB. Tal façanha foi saudada pelo ilustre radialista e, sem dúvida, por grande parte daqueles que tem nessa arte o seu ganha-pão ou mesmo um hobby. Ouço ainda a narrativa, em tom de alívio e felicidade, de fatos pitorescos protagonizados pela OMB, como por exemplo barrar artistas antes da subida ao palco para averiguar a situação (e até forçar um acerto antes do show) ou inclusive subir ao palco e interromper shows em andamento com a mesma finalidade. Imaginem que constrangedor.

Mas infelizmente, entidades que valem-se de seu discurso fiscalizador, repressor e intimidador para alimentar uma máquina caça-níqueis em desdém ao que deveriam ter como sua senão única, principal finalidade, a representativa. não é um exemplo exclusivo da área artística. Explico-me. Desde que trabalho em estabelecimentos geriátricos, convivo com a visita freqüente do Conselho Regional de Enfermagem, o COREN. Se for a primeira visita, o “fiscal” deixa uma lista de documentos que precisam ser encaminhados para registro do estabelecimento no Conselho, que cobrará regularmente pela filiação. Sempre em clima pouco amigável e em pose de absoluto autoritarismo, tenha a certeza de que ele nunca sairá sem deixar uma lista padrão equivalente a uma “notificação”. Com o papel cheio de quadradinhos, parecia ele divertir-se marcando “x” aqui e ali, como quem faz com habilidade um passatempo de palavras-cruzadas debaixo de um coqueiro à beira-mar. E aquela “coisa” vai subindo dentro da gente, que se segura em respeito a quem parece não saber muito o significado desse termo. No último contato, quando me foi questionado sobre a presença da enfermeira e, não estando a funcionária presente mas tendo eu respondido com clareza sobre o seu horário, assinalou um “x” com assombrada rapidez, daquelas de vestibulando estudioso e convicto frente à pergunta mais fácil da prova, no item “não possui enfermeira”. E não houve protesto que fizesse dissuadi-la de tal marcação que até São Tomé teria vergonha.

Depois veio o Conselho de Nutrição solicitar cadastramento e já espero pelo de Terapia Ocupacional, pelo das Cozinheiras, das Arrumadeiras e dos Jardineiros. Então enquanto meu bolso gritava e minha alma ardia, uma colega mostrou-me reportagem no jornal da SindiHospa (Sindicato das Clínicas e Hospitais), datado de 2000, onde esclareciam que a empresa deve responder apenas a um Conselho, aquele onde reside sua atividade principal. Fui atrás (ou seria à frente?) e obtive resposta do mesmo sindicato via email, confirmando a validade da matéria para nossa realidade de hoje. Não contente, busquei ajuda junto ao Conselho Regional de Medicina, o CRM e se você já está aborrecido com tantas siglas, já tem talvez menos um décimo da condição para se colocar no meu lugar. Mas enfim similar alegria e alívio daquela do primeiro parágrafo tomou conta de minha pessoa ao receber em mãos do CRM uma cópia do parecer 09/1993, do Conselho Federal de Medicina, o CFM (arghhhh!), que versa sobre a obrigatoriedade de registro dos hospitais e clínicas nos conselhos de enfermagem, reiterando o restante do material que eu já havia reunido. De forma sensata e racional, encontro no referido parecer o seguinte trecho:

A contrário sensu, seguindo a lógica exarada pelo COREN e pela justiça do Rio de Janeiro, teríamos que, para cada profissional integrante do corpo clínico, seria obrigatório um registro da instituição no Órgão da categoria afim, o que, além de burocratizar o serviço o inviabilizaria devido à sobrecarga tributaria que recairia sobre o hospital ou clínica, prejudicando o serviço de interesse público.

Agora me dêem licença que vou fazer uma visitinha ao COREN ...

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann

A moça do café

Toda vez que tenho que falar ou escrever sobre poder, lembro de uma cena, no mínimo insólita, que acontecia todos os dias em uma agência de propaganda de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Era mais ou menos assim: pela manhã os funcionários da agência tinham direito a um café. À tarde, mais um. Isto mesmo. E ai de quem tentasse pedir mais um. Não tinha para ninguém. Pediram para o diretor da agência ir falar com ela, não adiantou (Anedotário da Rua da Praia).
O diretor, com sua autoridade legitimada, tentou de tudo, começou buscando usar sua influência, fingindo que estava tudo bem, argumentou de todas as formas (manipulação), e foi além de sua autoridade, ameaçou ela de demissão (coerção). Como era um sujeito de paz, não usou a força. Por certo, a reunião tinha aquele ingrediente único de uma disputa de poder, o conflito de interesses. Geralmente, falar de interesses prove uma licença para a criação de julgamentos normativos e caracteres moral e políticas. O poder é uma questão de relações e vive variando, mudando seu foco, de acordo com interesses.
(Existe um mapa conceitual que acompanha o raciocínio de Bachrach e Baratz que mostra bem as diferenças de situações que envolvem ou não conflito e mostra, também a diferença entre poder e autoridade (Lukes, 1993:32)
Está certo, Dona Negrona, como era chamada, tinha um certo poder, pois influía na ação dos funcionários da agência. Isso, usando uma definição de poder bem comportamental, é uma ação de a que influencia b.
De onde imanava o poder de Dona Negrona? Conhecimento, economia, sexo? Duvido muito, o poder costuma imanar destas outras relações, mas acredito que não era o caso... Mas, como observamos, elas podem vir de qualquer classe, somente pela análise de dominador e dominados (no nosso caso descafeinados). Ela tinha suas intenções, objetivas, como é comum no poder. Sabia o que fazia, o que queria e as conseqüências de seus atos, coisas que, às vezes, não são de conhecimento de grupos de dominação.
Trabalhei nesta agência algum tempo, depois da aposentadoria daquela faxineira. Faz pouco tempo, entrei para a vida acadêmica, vindo de um processo de seleção que tem várias etapas, bem positivista. Cheguei ao mestrado e estou me dedicando a conhecer mais o construcionismo, porém tenho muitas influências do passado.
Eu vivo numa espécie de panóptico, pois existem câmeras por todos os lados e eu não as vejo. Estranho isto. Muito além de George Orwell no seu magnífico 1984 e do filme Invasão de Privacidade, estamos quase na época em que todos seremos Big Brothers (sem concorrer ao prêmio da globo). O panóptico tem uma característica muito interessante, você está sendo observado e vai agir corretamente, não importa quem esteja do outro lado, inclusive pode não ter ninguém. O autor (xxxx) mostra algumas utilizações para este mecanismo de poder.
Então, vou tentar criar um texto contextualizado, mas pode ser que você leitor ainda note minhas raízes. Pode ler, criticar e me desnudar, pois não tenho problemas de viver nesta sociedade panóptica, pois, hoje, a principal razão desta infinidade de controle é conter a violência.
Voltarei ao caso da faxineira, ele mostra a capacidade de a (a faxineira) em influenciar b (os funcionários da agência). Ele ilustra bem um tipo de visão de poder, chamado visão unidimensional de poder. Os aspectos observados neste tipo de análise são comportamentais (ações de a sobre b) nas suas tomadas de decisão, em assuntos que foram externados (que estão na pauta – como tomar um café). São levados em conta os conflitos observáveis (declarados). Os interesses políticos são levados em conta.
Vamos supor, agora, uma hipotética segunda faxineira, que pudesse servir mais café. Imaginem as seguintes cenas: Dona Negrona no banheiro: o funcionário ganharia café; Dona Negrona na cozinha: o funcionário não ganharia café. Ambas têm o poder de dar café (metáforas...), Podemos então imaginar dois sensos – o Senso operatório: capacidade de uso do poder e o Senso efetivo: demonstra quem fez a ação para mudar o resultado. Hoje, sabe-se que existem extensões de poder e que existem formas de poder veladas e um que de violentas (mais no sentido de violação) ao mesmo tempo.

Dona do Café
Deu um fim na nossa paciência,
Acabou com o símbolo da convivência
E da ausência de conflito,
Que agito.

Tudo isto,
Numa empresa de relacionamento
Que tormento.
No paraíso do mundo simbólico,
Diabólico.
(Agências de propaganda criam símbolos)
E atribuem poder as marcas.

Preparado,
Interfere nas nossas ações;
Somente estruturado,
Cria reações;
(Este é o poder simbólico)

Ainda mais,
Reproduzem a dominação,
Me atreveria,
E até diria,
Que as agências são
Ela própria.

Para o mundo mudar
É preciso transformar
as maneiras de fazer
E manter
Os grupos.
Coisas Ditas

Pois é, a visão unidimensional analisa fatos que ocorreram, influências que mudaram o curso das decisões. Eles argumentam que é impossível determinar o que NÃO aconteceu, pois existem infinitas possibilidades de não ações. Como analisa-las, então? O que aconteceria se nossa heroína liberasse o café na agência? Qual seria o tempo gasto no cafezinho? Qual seria a produtividade do pessoal? Uma coisa é certa - a faxineira teria mais trabalho...
Além desta visão, existem ainda duas outras visões que são a visão bidimensional e a visão tridimensional. A primeira é uma crítica qualificada sobre a visão que foca no comportamento das pessoas. Traz a tona tomadas e não tomadas de decisão, assuntos que potencialmente seriam discutidos e conflitos declarados e não declarados e preferências políticas e queixas. A segunda também faz uma crítica aos pluralistas, mas de forma menos direta. Seus tópicos: tomada de decisão e agenda política (não através de decisões), assuntos e assuntos potenciais, conflitos latentes e interesses reais e subjetivos.
A não decisão é um evento que não ocorreu devido a presença do poder (ninguém pedir café na agência não quer dizer que ninguém queira café...).
Os conceitos de agenda política e os conflitos latentes existentes na visão tridimensional são essenciais para o entendimento completo do poder, pois através do controle de uma agenda política, podemos retardar ou até mesmo excluir assuntos contra nossos interesses (a faxineira não queria lavar xícaras, nem fazer café...) e os conflitos latentes explicam aqueles conflitos que não são mostrados (o autor em questão faz questão de argumentar que a identificação destes conflitos pode passar por hipóteses refutáveis).
Procurei mostrar um pouco de algo que nos fascina e amedronta, o poder. Suas facetas (imanência, conflitos, interesses, dinamicidade, alguma forma de resistência contra etc.) e três formas de análise, através das visões unidimensional (comportamental) e de visões mais complexas como a bidimensional e a tridimensional que levam a questões subjetivas que julgo importantes. Porém, o que mais importa, que para pedir um café, naquela agência de propaganda, somente alterando a forma de fazer o mundo, como diz Bordieu.
Queres tomar um café?

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Diálogos com Deus
Rafael Luiz Reinehr

Maria vai à feira


- Onde tu vai Maria?

- Vou a feira. Por quê?

- É que Jesus estava te procurando. Acho que ele queria te dizer alguma coisa. Parecia importante.

- Bem, diga a ele que não pude esperar. A feira é muito longe e levo duas horas pra ir e mais duas pra voltar. À noite falo com ele. Também: esqueci de carregar meu celular. Não vai poder me ligar. Fui.

- Até mais Maria.

...poucos minutos depois

- Pai! Viste mamãe?

- Acabou de sair para ir à feira. Passei teu recado mas ela disse que não podia esperar.

- Que droga! Tinha um recado pra dar pra ela! Já sei! Vou ligar pro celular!

- Nem adianta, meu filho. Ela deixou em casa porque está sem bateria... Mas, afinal: qual era o recado tão importante que querias dar pra ela com essa urgência toda?

- É que eu vi na Internet que a cidade está toda alagada e não vai ter feira hoje...

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Imenso Amor
Cláudia Sleman - Rahna


As palavras já não são suficientes
Porque ele, o amor, agigantou-se demais.
Debate-se inquieto por entre estas letras vãs.
Quer sair destes versos e adejar pelo teu corpo...
Invadir o teu coração e a tua boca...
Estas linhas já não satisfazem...
Porque ele, o amor, quer libertar-se destas rimas
E encontrar abrigo no teu peito,
Para resguardar-se do glacial inverno que o mortifica.
Estas pautas são grades de ferro, e ele, o amor,
A esta prisão não mais suporta...
Precisa desesperadamente livrar-se
Destas doridas e cinzentas barras de chumbo,
Deste limitado quadrante que o sufoca,
Despir-se... Alcançar o céu...
Desobrigar-se das figuras de linguagem
E voar até você, porque ele, o amor,
Na cabe mais numa folha de papel...

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Ombudsman
Rafael Luiz Reinehr

Uma semana sem Ombudsman.

De qualquer forma, devido à beleza plástica, estética, poética e prosódica dos textos aqui publicados na última edição, quem quer que fosse o Ombudsman não teria o que fazer a não ser dar o braço a torcer e cair de queixo no chão com a qualidade impressionantemente crescente dos textos publicados no Simplicíssimo.

O site está dando um banho em termos qualitativos edição após edição. Devemos lembrar que nenhum dos colunistas que aqui escrevem ganham qualquer remuneração ou vencimento financeiro, sendo que aqui permanecem pelo puro, simples e enorme amor pela arte da escrita. Pelo prazer de se comunicar com aquele que lê e quer estar "antenado" com o que está a acontecer neste mundo virtual, reflexo imperfeito da matéria que dia após dia experimentamos através da força sensível de nossos órgãos perceptivos. Órgãos perceptivos esses que novamente transformam matéria real em impressão e sentimento e, através de qualquer criação humana, quer seja ela científica, artística, filosófica, culinária, política ou tal, retorna ao cerne do que aqui discuto - o amor pela comunicação e pela perpetuação dos estímulos de-para seres humanos.

Então, caros amigos Simplileitores e Simplicolaboradores, tenha-se por certo que uma semana sem Ombudsman, a esta altura do campeonato é a amostra significativa da dificuldade que se tem em conseguir sujeitos com a peculiar habilidade de criticar o que aqui se escreve. O ecletismo por cá demonstrado é dificíl - ouso até imaginar impossível - de se ver registrado em qualquer outro sítio da Internet de tempos idos ou da atualidade.

A longevidade do Simplicíssimo já é uma marca interessante. Chegar a 74 edições semanais não é tarefa para qualquer bunda-mole!

Mas tome tenência e me desafie a continuar este sítio por mais um ano. Veremos quem ganha a aposta!

A propósito: se por acaso você chegou a este texto sem ler com atenção os textos anteriores, vá tomar vergonha na cara e leia-s com cuidado porque estão "lôcos de especial"!

Forte e fraterno amplexo!

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Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

 

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