05/05/2004
- Edição número
74
Êia que é nóis!
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Editorial
Êia
que é nóis! [ou: Isto é um
Editorial ou Deveria Sê-lo.]
Então, neste
exato momento, tu pára e pensa. Tu. Eu?
Não, tu. Tu mesmo, que por um motivo ou
outro está lendo isto aqui. A bem da verdade,
poderíamos gastar preciosos minutos em
que tu já poderias ter adentrado a leitura
habitual destes kbytes de palavrórios que
a ti importam. Já poderias estar lendo
o Eduardo Sabbi, a Cristiane Martins e todos estes
parcerias que se acumulam aqui sob a alcunha de
simplicolunistas. Mas tu ainda tá aqui.
E não te faz de louco, vai adiante. Acho
que não vale a pena argumentar sobre quais
são, afinal, os motivos de tu estares aqui,
lendo na tela do teu computador as linhas deste
chamado Editorial [afinal, isto é um Editorial,
ou pelo menos deveria sê-lo...], deste e-zine,
revista eletrônica - ou sei lá que
título te agrada mais às vistas,
aos olhos e ao coração – denominado
Simplicíssimo.
A realidade é
que poderíamos entrar em demoradas considerações
do porquê de tu estares aqui. Mas, sejamos
simplistas [afinal, você está no
Simplicíssimo! Ahá!]: aqui estás
tu, e pronto. E então que tu gastas alguns
dos teus preciosos minutos dando-te ao trabalho
desta leitura. E tu, leitor de muitos Editoriais,
assim, repentinamente, te dá conta, e,
antes de chegar às linhas finais, onde
lerá ‘Editor Interino’, percebe:
“Peraí, tu não é o
Rafael! Este tom jocoso, cínico. Esta tentativa
de fazer piadinhas irônicas, estes rascunhos
de metalinguagem... Péra lá: tu
deve ser aquele Alessandro! Que porra é
esta aqui?!”. Ok, ok, tu me desmascarastes.
E tu sabes quem eu sou! Palmas pra ti, leitor!
E se, por um acaso,
te vai ao coração as razões
pelas quais nosso prezado Rafael não se
encontra aqui nesta edição, adentrando
com suas palavras o respeitoso Editorial, é
bem provável que eu venha a te dizer, que,
num conglomerado revoltoso, nós, os colunistas,
o seqüestramos para imprimir nossa cara a,
pelo menos uma edição. Um de cada
vez. Uma edição para cada um. E
esta é a minha. No Editorial. Comandando
esta chalaça.
E já que tu
continuas por aqui, e não foi ler a Martha
Medeiros, o Scliar, ou sei lá que outro
colunista aí do mainstream, é bom
dar voto às nossas palavras. Mais livres,
mais honestas, mais desfeitas de qualquer interesse
e mais interessadas no teu retorno.
Afinal,
não deve ser por acaso que tu lês
o Simplicíssimo. Alguma coisa de novo tu
deves estar procurando. Alguma coisa que podem
te arranjar os textos do Sabbi, da Cristiane,
do Queiroz, do Volkmann, do Reinehr... ou até
meus textos, mesmo. É, meus textos, fora
o Editorial, também se encontram por aqui.
Lá embaixo. Por que não ta fácil
a coisa e o negócio é ser multitarefa.
Homenageando sempre o mestre Cortázar,
nas velhas Instruções Para Dar Corda
no Relógio. Basta tu deslizares alguns
caracteres abaixo. Mas vai rápido. Com
a mesma rapidez com que as novidades se apresentam
pra ti. E se criam mundos novos, mundos virtuais;
mentiras doces alimentadas em conglomerados de
comunidades e centenas de amigos e discussões
sem fim. Um mundo como o Orkut. Uma linha tênue
entre o irreal e o tangível. Só
não vai te confundir. O que tem lá,
o que tem aqui, e o que tem verdadeiramente à
tua volta. Te dá conta do recado, caminha
até a Comunidade Simplicíssimo e
estende aos debates [http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=51593]
que rolam por estas bandas.
Bueno,
boa edição. Vamos aos textos. Vida
longa à todos nós e viva Cortázar!
Alessandro
Garcia
Editor Interino
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Som bem atual
Daniel Rech
Outro
dia li em um jornal sobre uma banda gaúcha
nova que estava na estrada há 5 meses e
se preparava para conquistar os mercados do sul
do Brasil, Santa Catarina e Paraná, já
que no Rio Grande do Sul eles já tinham
bastante sucesso. Confesso que nunca ouvi falar
da banda e vou me permitir não colocar
o nome, já que este texto não tem
a finalidade de criticá-los, até
porque, como já falei, nunca ouvi tal banda.
O que me chamou a atenção nesse
artigo, foi a definição do som da
banda como sendo “um som bem atual”,
o que me deixou bastante assustado, uma banda
que quer em 5 longos meses de estrada conquistar
o Brasil e é caracterizada como banda de
som atual tem grandes possibilidades de ser uma
banda fabricada.
Vamos pensar: O que seria ter um “som bem
atual”??? Isso é bom ou ruim??? Na
minha modesta opinião, isso é bem
ruim, pelo menos para uma banda de Rock. No que
se refere à música gaúcha
então, isso é péssimo.
Uma banda de som bem atual não me assusta
pelo fato de estar renegando Beatles, Pink Floyd
ou quaisquer outros gênios da história
do Rock, na verdade não é esse o
sentido que a reportagem quis dar à expressão
“som atual”, o sentido da expressão
me parece estar na filosofia moderna musical,
na filosofia “Armandinho no Planeta Atlântida”
ou “A extraordinária revelação
hoje no Faustão”. Vou mudar um pouco
de assunto pra me fazer entender:
Sabe aquele cara que deseja uma mulher acima de
qualquer coisa, mas não pode tê-la
porque a recíproca não é
verdadeira? Porém ele tem um amigo bilionário
que quer ajuda-lo, então oferece R$ 1.000.000
pra tal mulher casar-se com seu amigo. O casamento
acontece, eles vivem juntos, o cara tem sexo,
tem a mulher que ama ao seu lado, mas nunca vai
se sentir completamente realizado por não
receber o amor ou o carinho que gostaria.
O que acontece no Rio Grande do Sul em relação
à bandas novas na mídia é
exatamente isso, alguém escolhe uma determinada
música de uma banda e coloca ela pra rodar
alucinadamente durante todo o dia e durante muitos
dias. Simplesmente diz para o público alvo
o que eles devem gostar e ouvir, mas o mais incrível
é que as pessoas realmente se convencem
que gostam muito daquilo e ouvem loucamente, sem
qualquer questionamento. Sequer se perguntam por
que essa música toca tantas vezes no rádio
durante um único dia? Será que é
tão boa assim?
A banda terá um bom público no show,
que aguardará com ansiedade a única
música que lhes interessa e que logo será
esquecida, então será necessária
uma nova injeção de ânimo
nas pessoas através da mídia para
que a banda apareça novamente, até
que “eles” achem que a banda não
é mais necessária. Se nesse tempo
a banda não adquiriu um público
verdadeiro, o sonho acabou. Divórcio, o
que era muito bom, agora é nada.
Por isso, fuja de bandas que se intitulam atuais,
fuja da filosofia Acústico MTV Charlie
Brown, tenha suas próprias idéias
e não marche junto pro grande caldeirão.
Este é o meu conselho.
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Simples
Goyuchos
Milton
Ribeiro
Manhã
Patrocinada
O
despertador de meu celular Nokia
me acorda. Levanto a cabeça para conferir
a hora no rádio-relógio General
Electric sobre o criado-mudo SRD. Levanto-me
lentamente pensando se tiro meu pijama Benet
ou se vou ao banheiro ainda vestido. Está
frio e resolvo mantê-lo. Faço xixi
na privada Ideal Standard e vou
para cozinha, onde abro o freezer-geladeira da
Eletrolux e pego um croissant
congelado da Casa do Croissant
e a caixa de leite da Elegê.
O croissant é imediatamente redirecionado
para o forno de microondas Panasonic
e o leite, acompanhado de Zero Cal,vai
para um copo SRD. Ainda dormindo, mas com o piloto
automático by Milton me
levando, pego meu lanchinho e vou à sala
onde ligo o amplificador Gradiente,
o DVD da LG para ouvir um CD
da EMI Classics de música
de Hindemith. Pego o jornal Zero Hora,
que tenta me demonstrar (e consegue) quão
boquirroto anda nosso presidente, do PT.
Levanto a cabeça para ver Claudia aproximar-se
com um roupão da Teka
e um iogurte Corpus, da Danone,
na mão esquerda. Serve-se dele numa colher
Pinti. Diz que estamos sem papel
(Ripasa) para impressora
Epson de nosso computador Itautec.
Não dou muita importância, pois estou
pensando em ver meu saldo no Santander.
Volto ao banheiro e escovo os dentes com Oral-B
e pasta Close-up. Faço
algo inconfessável, livro-me dos vestígios
com Neve e tiro o mau cheiro
com Gleid. Uso o sabonete Senador
para lavar as mãos e o rosto e vou me vestir.
Vagarosamente, vou pondo uma cueca da Preston
Field, calças da Happy
Man, camisa da Riccardi,
meias da Lupo e sapatos da Gallarate.
Depois, reviso o que tenho que levar para o trabalho.
Pego então a calculadora HP
e um livro da Guanabara e jogo-os
na pasta cuja marca procurei procurei procurei
e não encontrei. Dou um beijo na Claudia
Antonini e desço as escadas
pensando em como ela beija bem até encontrar
meu carro Volkswagen. Coloco-o
para funcionar e reviso se ele tem em seu tanque
gasolina Ipiranga. Aliviado,
faço os pneus Good-year
me levarem ao centro de Porto Alegre. Durante
o caminho confiro em meu relógio Technos
se não estou atrasado. Chego ao escritório
e, enquanto ligo meu computador IBM,
vejo se o chá Leão
já está na garrafa térmica
da Termolar. Como estava, pego
um copo plástico da Zanatta
e penso se pus no porta-malas do carro Volkswagen
o tênis Nike, o calção
Wilson e a camiseta da Sul
Malhas, pois posso precisar disto se
sobrar um tempinho para ir à academia do
Grêmio Náutico União.
Volto para a mesa e começo a telefonar
de meu Siemens para o cliente
Trensurb. Enquanto isto, abro
a gaveta da mesa Orlandi e pego
as contas para pagar. Há duas do Colégio
Americano e uma do Banco Itaú.
Com uma caneta Cross assino cheques
do Santander e vejo acabaram
os clips da ACC. A ligação
é desligada. Volto-me para o monitor LG
de meu computador e ele mostra o Simplicissimo,
onde leio esta bobagem.
Observação:
SRD é uma expressão do jargão
veterinário e significa "Sem Raça
Definida".
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Nua
& Crua
Cristiane
Martins
Paixão
de bar
Todos
os dias ela passava no mesmo horário, no
ritmo do seu gingado emoldurado por uma saia minúscula,
repleta de plissados que iam e vinham...
Sua blusa com um decote tão displincente
e deliciosamente provocador me levava à
loucura.
Ela entrava no bar, passando por mim como se eu
fosse somente um ornamento qualquer, uma cadeira
jogada no canto menos importante.
Sentava-se delicadamente cruzando sua pernas morenas
e muito bem torneadas e jogava os cabelos negros
para trás com suas mãos.
Todos os dias ela pedia sempre a mesma coisa:
um flan de baunilha que ela degustava como se
tivesse degustando do meu corpo.
E eu ficava ali imaginando aquela porção
pequena de doce naquela boca carnuda, adentrando
sua boca, perdendo-se entre os movimentos de sua
língua.
Ahh como eu desejava estar lá, no meio
daquela mistura toda, colocando minha língua
na sua boca e a levando á loucura.
Então no meu devaneio eu beijava aquela
boca carnuda e nada inocente, passando a língua
por seu pescoço, mordiscando sua orelha,
me perdendo em seus seios volumosos, sentindo
aquele cheiro de mulher misturado ao perfume de
baunilha.
Mas ela nem notava a minha existência.
Eu ficava ali, fumando meu cigarro e observando
a harmonia com que ela devorava o flan.
Vez que outra ela passava a lingua pelos lábios
para buscar algum pedacinho fujão e eu
novamente mergulhava no meu delírio de
desejo.
Ela era a perfeita tradução da minha
libido, de todos os meu pensamentos mais pecaminosos.
Eu era o Lobo Mau e ela a Chapeuzinho Vermelho
levando seus doces flans para a vovozinha, digo,
doces...
Quando o tempo mudava, e ficava frio ela preferia
capuccino, e eu ficava observando a mutação
do bico dos seus seios.
Chegavam como duas setas apontando para os dois
lados da rua. Mas quando o capuccino descia pela
sua garganta eles simplesmente desarmavam-se,
como cavalos selvagens sendo domados.
Depois, levantava-se e sem dispensar nem mesmo
uma olhadela para o meu canto ela ia embora.
Eu me levantava e ficava na porta acompanhando
seu balanço de pernas.
Ia uma, ia a outra, e eu me imaginava no meio
delas, sendo esmagado, sendo triturado, sentindo
o suor e o cheiro que delas provinha.
Provavelmente ela era uma estudante, pois sempre
carregava alguns livros entre os braços,
e aparentava ter uns vinte anos.
Na flor da idade. E eu no auge dos meus trinta
e muitos a devorava com os olhos.
Um certo dia eu decidi que iria abordá-la.
Coloquei meu melhor perfume, vesti a melhor camisa
e me dirigi como de costume ao bar.
Eu não sabia como ela responderia a minha
abordagem, mas eu estava decidido e iria fazê-lo.
Nesse dia eu sentei propositalmente na mesa que
ela costumava ocupar e fiquei na minha angustiante
espera, como se fosse um adolescente esperando
sua primeira namorada.
Ela chegou no mesmo horário. Era britânica!
Vestindo uma camisa tão apertada que seus
botões pareciam prestes a estourar a qualquer
momento. De livros entres os braços como
de costume ela entrou e sem pestanejar sentou-se
em uma mesa ao lado da minha.
Era a hora. Eu era o leão prestes a dar
o bote na presa.
Cheguei em frente a mesa e indaguei:
-- Posso me sentar por um minuto?
-- Algum problema com sua mesa?
-- Não, mas eu gostaria de trocar algumas
palavras com a senhorita - tentei ser o mais educado
possível, mas confesso que me senti uns
quarenta anos mais velho do que ela dizendo isso.
-- O senhor está perdido? Quer alguma informação.
Então eu destilei meu veneno, meio a conta-gotas:
-- Sabe eu venho te observando a meses. E sei
que chegas sempre no mesmo horário, pede
sempre as mesmas coisas e fiquei intrigado com...
Então, como se o jogo tivesse virado ela
destilou:
-- Quanto?
-- Como?
-- Quanto vai pagar? E o que vai querer?
-- Me desculpe mas...
Mas ela me interrompeu com o golpe final:
-- O lance é o seguinte: uma chupada por
cem mangos, mas pra trepar é mais caro.
Só faço o trivial, ou seja: esqueça
sexo anal, não curto brincadeiras sado
masoquistas e não engulo. Vai querer?
Eu gostaria de ter visto minha própria
cara naquele momento.
A desgraçada era uma prostituta! Putana!
Dei as costas deixando-a sozinha no seu ritual
de deglutição do flan e saí
do bar meio atônito.
Um dia é da caça, outro do caçador!
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro
Garcia
"É
preciso estar sempre embriagado. Aí está:
eis a única questão. Para não
serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se;
embriaguem-se sem descanso! Com quê? Com
vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se."
(Baudelaire)
Nestas
tardes itinerantes da cidade, em que temos que
traçar aquele circuito inevitável,
definido quase sempre entre casa-faculdade-trabalho,
dentro dos coletivos, as ações mais
ou menos se resumem entre contemplar a paisagem
de todos os dias, composta pela variação
pouco espetacular de casas, casebres, prédios,
pessoas; tentar ler um revista ou livro e sofrer
um reconfortante desvio de córnea a cada
solavanco, ou se comportar, somente, com a cara
clássica de viagem de ônibus: queixão
para a frente, seriedade, porque não é
a hora de rir de piadas internas sozinho e sofrer
o assédio visual de quem o considerar louco,
e uma ou outra olhadela, de soslaio, como diria
o meu tio Adagobaldo, para as gostosas que passam
espremidas e os pervertidos que sempre tentam
dar uma encoxada nas mesmas. Como as opções
de escolha dentro do passeio delícia no
ônibus acabam sendo muito reduzidas nos
horários de movimento [leia-se: todos],
não cabe a nós a frescura de ficar
selecionando, afinal, ao lado de quem vamos sentar.
É apaziguante pensar, pois, que as possibilidades
de ter como companheiro de viagem um gordo que
senta de pernas arreganhadas com uma sacola gigante
contendo pneus em promoção do Carrefour
sobre o colo, acaba, no final das contas sendo
praticamente igual à chance de sentar ao
lado da Fernanda Lima, que visitando Porto Alegre,
resolveu dar uma banda de coletivo só para
ver “qualé”. Numa das minhas
últimas viagens, coube aconchegar-me ao
lado de uma mulher que, pelo jeito, já
vinha dormindo há muitas paradas atrás,
tal era a profundidade de seu sono. Não
acho frescura dizer que já começava
a me incomodar a grossa baba que escorria pelo
canto de sua boca, e traçava itinerário
por sobre a pele enrugada, num vinco preciso e
calculado com a ajuda visível de engenheiros
de dragagem, pensei eu, ali, com meus botões,
meu zíper e tudo o mais. A plasta babal,
por assim dizer, descia pelo pescoço até
encontrar uma espécie de morredouro na
correntinha de plaquê de Santa Edwiges que
pendia em seu pescoço. Eu me dividia entre
olhar com o famoso canto do olho à cena
que me remetia aos princípios de escrotidão
que eu tantas vezes exaltara, e entre encarar
compadecido o chiclete mastigado de muitos carnavais
passados grudado no assento do banco da frente.
Nas penosas viagens
de ônibus a que sou submetido freqüentemente
na rotina suburbana, sem possibilidade de outro
divertimento durante o caminho diário que
ao menos me ocupasse momentaneamente, sem causar
danos como descolamento de retina e desvio de
cérebro, me vejo naquela quase inconsciente
sessão de passadas de olhos por sobre os
tipos que julgo ainda mais estranhos que eu e
que compõem esta interessante fauna que
formam os passageiros de ônibus.
Quando acordei um pouco dos meus devaneios, gradativamente,
a mulher começou a inclinar-se num ângulo
que tendia para o meu lado a cada vez que o ônibus
fazia uma curva. Isto aconteceu umas três
vezes. De uma maneira não brusca, eu fazia-a
voltar para seu lugar, mas, ainda assim, em um
empurrão um pouco mais vigoroso, ela abriu
os olhos embaçados, e, entre dentes solitários
perdidos em uma boca um tanto grande para tão
poucos, regurgitou uma mistura de queijo e mortadela
com cachaça, e perguntou-me, solenemente
“porque você não vai à
puta que te pariu?”. Neste momento, acontecendo
o que eu mais temia – ser o centro das atenções
– todos os olhares se voltaram em nossa
direção e, em meio à risos
abafados e murmúrios de “...aquela
velha bêbada...”, eu ainda balbuciei
“mas a senhora está caindo por cima
de mim...”. Sem pestanejar, naquela certeza
típica dos ébrios (“te considero...”)
ela volveu uma contra-argumentação:
“E daí, teu corpinho é de
ouro? Não pode tocar, não?”.
Na falta de possibilidades de rebate, reduzi-me
à minha insignificância sóbria.
Não voltando a apresentar justificativas
para aquele ato tão violento que eu tive
ao empurrá-la de volta para seu lugar,
e que lhe despertara tamanha animosidade, voltei
os olhos à minha volta à procura
de um algum puto lugar alternativo onde me sentar.
Mas, porra do caralho, como que senhora dos meus
pensamentos, voltei a ser obrigado a ouvir a magia
da constatação da amiga dos destilados:
“Quer sair daqui? Tou te incomodando?”.
Naquele quase estado de catarse que os poucos
segundos encarando seus olhos baços me
proporcionaram, consegui indagar-me de como era
possível os olhos de uma pessoa chegar
a um estado tal de vermelhidão e falta
total de brilho. Nestes poucos instantes que pude
contemplá-la na imensidão de seus
olhos embaçados, procurei, por um átimo
de tempo, alguma resposta às questões
mais profundas formuladas pelo universo. Mas quem
parecia querer uma resposta, e rapidamente, era
ela, que não cansava de me perguntar, não
aceitando a indiferença e o silêncio
como resposta, àquela questão que,
talvez, viesse a mudar sua vida, ou livrá-la
de algum possível complexo de inferioridade:
“Hein?! Tou te incomodando? Porque se eu
tiver, tu me avisa e eu saio daqui...”.
Cheia de cinismo e daquela malandragem típica
de quem está acostumada a viver no meio
de celebridades da vida marginal. Eu ainda tentava
aceitar em silêncio a hipocrisia de sua
dita predisposição em sair fora
dali caso eu a fizesse crer que me estava incomodando.
Era ainda aceitável tal falsidade. No entanto,
quando, ao final da frase, ela emitiu a mais bizarra,
a mais nojenta, a mais grotesca e a mais escrota
de todas as gargalhadas, naquele gorgolejar entremeado
do farfalhar gosmento do catarro a sacudir-se
em suas cordas vocais, eu não consegui
me segurar. Agarrei àquela maçaroca
que formava seu cabelo, e putaquepariu!, bati
com sua cabeça de encontro ao vidro da
janela, uma, duas, três, quatro vezes. Todos
os espectadores, entretidos então com aquele
embate psicológico que tinha se formado,
e que continuavam a encarar-nos, querendo, obviamente,
algum tipo de reação da minha parte,
arregalaram os olhos diante DAQUELA reação,
pelo que pude julgar, por eles pouco esperada.
De todos os que se levantaram para conter meu
ímpeto assassino, que continuava me motivando
a bater com violência sua cabeça
repetidas vezes de encontro ao vidro, molhando
de vermelho aquela maçaroca acinzentada
à qual eu prendia meu dedos, creio que
cinco caras foram suficientes para, finalmente,
me agarrar e, deixando o corpo da velha sem vida
por sobre o banco de fibra, me arrastar até
o chão do ônibus e encher a minha
cara de porrada até que eu perdesse totalmente
a consciência.
quase
memória
Tu não sabias
porque as outras crianças não te
deixavam brincar com elas no pátio dos
apartamentos. Tu eras meio estranha e um pouco
gorda em comparação às outras
gurias com suas tetinhas ouriçadas e seus
calçõezinhos de lycra coladinhos
no rego, mas estes tu não podias usar -
porque tu eras um pouco gorda e sabias que não
ficaria algo muito bonito de se ver. No mais,
tu tinhas quase certeza de que não gostaria
de sentir aquele tecido gelado enfiadinho por
entre as tuas coxinhas roliças, e achava
melhor, então, usar aquela bermuda de algodão
folgado que te deixava maior do que tu eras.
Também, isto
não tinha lá muita importância
no resumo geral das coisas, porque tu acabas mesmo
passando o dia olhando as crianças da janela
do teu apartamento ao rés-do-chão,
já que elas não te chamavam para
participar do esconde-esconde, então, quase
ninguém te via com aquela bermuda larga
de algodão. Se te visse, tu já achavas
que não tinha muito problema, porque há
tempos já desistira da idéia de
encontrar em si própria um pouco de graça,
ou de parecer interessante de algum tipo de maneira
estética. Eu acho que tu nem tinhas muita
noção do conceito de estética.
É, esquece, tu eras extremamente novinha
naquele tempo e, provavelmente, crianças
novinhas e normais na concepção
social da palavra, não se ligam muito em
preciosismos vocabulares. Se bem que eu esqueci
que, naquela época, tu eras meio estranha.
Eu, por exemplo, não entendia porque tu
gostavas de judiar com o gato do teu irmão
menor. Não sei se tu tinhas raiva do bichano,
de verdade, ou se usava o pobre para se vingar
do fato das atenções terem se voltado
todas para teu mano e, então, tu te achar
completamente abandonada.
Ninguém ligava
que tu ficasses horas na frente da televisão
assistindo aqueles filmes onde os homens sempre
queriam estar por cima das mulheres, se esfregando
que nem o guri daquele apartamento do lado do
teu ficava se esfregando na tua vizinha Lurdes.
Tu não sabias o que havia de interessante
em ficar se esfregando. Tu não sabias muita
coisa naquela época, para falar a verdade.
Agora não sei se tu aprendeste um pouquinho
mais.
Também,
eu não tenho nada que ver com isto.
Aos
apaixonados e entusiastas das teorias mil de subliminares
e devoções demoníacas no
universo Disney, vai ser bastante interessante
e eu diria um prato cheio quando começar
a retumbar mais amplamente pela imprensa a contratação
do cineasta e escritor Clive Barker para um dos
próximos projetos do estúdio. Na
tentativa de tentar entrar no filão do
sobrenatural aberto pelo Harry Potter, a Disney
vai apostar na saga infanto-juvenil do autor que
ganhou notoriedade por criar um estilo próprio
de terror, repleto de sangue, cadáveres,
sadomasoquismo e escatologia. Só para ter
uma idéia, o cara é o diretor do
muuuito demoníaco Hellraiser e criador
do cabeça de prego Pinhead. Não
bastassem estes pequenos dados que por si só
são um excelente instrumento de contra-marketing
que os adversários da Disney poderão
usar à revelia contra o estúdio,
Barker é gay assumido, conhecido pelas
pinturas eróticas e macabras, apresentadas
nas vernissages “para adulto” que
costuma fazer. Coisa pouca, do tipo cadáver
sem cabeça jorrando sangue pelo pescoço
e uma singela homenagem a seu companheiro, em
uma obra que retrata os seus pênis atados
por um cordão. Tudo que os moralistas adoram!
E é o escritor e ilustrador de Abarat,
sobre um arquipélago sobrenatural - um
universo paralelo - no qual a trama se desenvolve,
onde a adolescente Candy entra por acaso através
de uma passagem, desenvolvendo dons de magia e
sendo perseguida por monstros. Os direitos de
filmagem do livro, que acaba de chegar ao Brasil
pela Cia. das Letras já foram comprados
pela bagatela de 8 milhões de dólares,
e, antes que possam me acusar de algum tipo de
moralismo, como o dos velhos jornalistas horrorizados
com o filme de Gallo, já vou dizendo que
a mim pouco importa quem escreva, produza e dirija
os filmes da Disney: nem sou fã do estúdio
e do veio Walt por já ter estudado com
alguma profundidade a dissimulação
figurativa de seus personagens e suas histórias
com Tio Patinhas e seus patos sem calças
e sem filhos. Só são duas as questões:
isto sem dúvida é um prato cheio
para os indivíduos mencionados acima e
me espanta o quão abundante é esta
onda de apelo sobrenatural, auto-ajuda, místico
e o escambau que anda se produzindo, hein? Dá
um chute em uma moita e sai correndo um monte
de bruxo e mago e fada e esta tranqueira de fábulas
para entreter e imbecilizar ainda mais a humanidade.
Morte ao entretenimento vazio!!
|
en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi
Do
Conselho à Ordem
Domingo de manhã (não,
não saí prá caçar
rã) acordei realmente muito cedo e chamou-me
atenção uma notícia trazida
pelo Dorotéo Fagundes em seu programa
“Galpão do Nativismo”. Pois
ele trouxe À tona a carta de um amigo
seu, advogado e músico (não necessariamente
nessa ordem), onde havia conquistado judicialmente
o direito de exercer sua profissão artística
sem a necessidade de filiar-se e muito menos
de estar financeiramente em dia com a Ordem
dos Músicos do Brasil, a OMB. Tal façanha
foi saudada pelo ilustre radialista e, sem dúvida,
por grande parte daqueles que tem nessa arte
o seu ganha-pão ou mesmo um hobby. Ouço
ainda a narrativa, em tom de alívio e
felicidade, de fatos pitorescos protagonizados
pela OMB, como por exemplo barrar artistas antes
da subida ao palco para averiguar a situação
(e até forçar um acerto antes
do show) ou inclusive subir ao palco e interromper
shows em andamento com a mesma finalidade. Imaginem
que constrangedor.
Mas infelizmente, entidades
que valem-se de seu discurso fiscalizador, repressor
e intimidador para alimentar uma máquina
caça-níqueis em desdém
ao que deveriam ter como sua senão única,
principal finalidade, a representativa. não
é um exemplo exclusivo da área
artística. Explico-me. Desde que trabalho
em estabelecimentos geriátricos, convivo
com a visita freqüente do Conselho Regional
de Enfermagem, o COREN. Se for a primeira visita,
o “fiscal” deixa uma lista de documentos
que precisam ser encaminhados para registro
do estabelecimento no Conselho, que cobrará
regularmente pela filiação. Sempre
em clima pouco amigável e em pose de
absoluto autoritarismo, tenha a certeza de que
ele nunca sairá sem deixar uma lista
padrão equivalente a uma “notificação”.
Com o papel cheio de quadradinhos, parecia ele
divertir-se marcando “x” aqui e
ali, como quem faz com habilidade um passatempo
de palavras-cruzadas debaixo de um coqueiro
à beira-mar. E aquela “coisa”
vai subindo dentro da gente, que se segura em
respeito a quem parece não saber muito
o significado desse termo. No último
contato, quando me foi questionado sobre a presença
da enfermeira e, não estando a funcionária
presente mas tendo eu respondido com clareza
sobre o seu horário, assinalou um “x”
com assombrada rapidez, daquelas de vestibulando
estudioso e convicto frente à pergunta
mais fácil da prova, no item “não
possui enfermeira”. E não houve
protesto que fizesse dissuadi-la de tal marcação
que até São Tomé teria
vergonha.
Depois
veio o Conselho de Nutrição solicitar
cadastramento e já espero pelo de Terapia
Ocupacional, pelo das Cozinheiras, das Arrumadeiras
e dos Jardineiros. Então enquanto meu
bolso gritava e minha alma ardia, uma colega
mostrou-me reportagem no jornal da SindiHospa
(Sindicato das Clínicas e Hospitais),
datado de 2000, onde esclareciam que a empresa
deve responder apenas a um Conselho, aquele
onde reside sua atividade principal. Fui atrás
(ou seria à frente?) e obtive resposta
do mesmo sindicato via email, confirmando a
validade da matéria para nossa realidade
de hoje. Não contente, busquei ajuda
junto ao Conselho Regional de Medicina, o CRM
e se você já está aborrecido
com tantas siglas, já tem talvez menos
um décimo da condição para
se colocar no meu lugar. Mas enfim similar alegria
e alívio daquela do primeiro parágrafo
tomou conta de minha pessoa ao receber em mãos
do CRM uma cópia do parecer
09/1993, do Conselho Federal de Medicina,
o CFM (arghhhh!), que versa sobre a obrigatoriedade
de registro dos hospitais e clínicas
nos conselhos de enfermagem, reiterando o restante
do material que eu já havia reunido.
De forma sensata e racional, encontro no referido
parecer o seguinte trecho:
A
contrário sensu, seguindo a lógica
exarada pelo COREN e pela justiça do
Rio de Janeiro, teríamos que, para cada
profissional integrante do corpo clínico,
seria obrigatório um registro da instituição
no Órgão da categoria afim, o
que, além de burocratizar o serviço
o inviabilizaria devido à sobrecarga
tributaria que recairia sobre o hospital ou
clínica, prejudicando o serviço
de interesse público.
Agora
me dêem licença que vou fazer uma
visitinha ao COREN ...
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I-racional
Pedro Armando Furtado
Volkmann
A
moça do café
Toda vez que tenho
que falar ou escrever sobre poder, lembro de uma
cena, no mínimo insólita, que acontecia
todos os dias em uma agência de propaganda
de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande
do Sul, Brasil. Era mais ou menos assim: pela
manhã os funcionários da agência
tinham direito a um café. À tarde,
mais um. Isto mesmo. E ai de quem tentasse pedir
mais um. Não tinha para ninguém.
Pediram para o diretor da agência ir falar
com ela, não adiantou (Anedotário
da Rua da Praia).
O diretor, com sua autoridade legitimada, tentou
de tudo, começou buscando usar sua influência,
fingindo que estava tudo bem, argumentou de todas
as formas (manipulação), e foi além
de sua autoridade, ameaçou ela de demissão
(coerção). Como era um sujeito de
paz, não usou a força. Por certo,
a reunião tinha aquele ingrediente único
de uma disputa de poder, o conflito de interesses.
Geralmente, falar de interesses prove uma licença
para a criação de julgamentos normativos
e caracteres moral e políticas. O poder
é uma questão de relações
e vive variando, mudando seu foco, de acordo com
interesses.
(Existe um mapa conceitual que acompanha o raciocínio
de Bachrach e Baratz que mostra bem as diferenças
de situações que envolvem ou não
conflito e mostra, também a diferença
entre poder e autoridade (Lukes, 1993:32)
Está certo, Dona Negrona, como era chamada,
tinha um certo poder, pois influía na ação
dos funcionários da agência. Isso,
usando uma definição de poder bem
comportamental, é uma ação
de a que influencia b.
De onde imanava o poder de Dona Negrona? Conhecimento,
economia, sexo? Duvido muito, o poder costuma
imanar destas outras relações, mas
acredito que não era o caso... Mas, como
observamos, elas podem vir de qualquer classe,
somente pela análise de dominador e dominados
(no nosso caso descafeinados). Ela tinha suas
intenções, objetivas, como é
comum no poder. Sabia o que fazia, o que queria
e as conseqüências de seus atos, coisas
que, às vezes, não são de
conhecimento de grupos de dominação.
Trabalhei nesta agência algum tempo, depois
da aposentadoria daquela faxineira. Faz pouco
tempo, entrei para a vida acadêmica, vindo
de um processo de seleção que tem
várias etapas, bem positivista. Cheguei
ao mestrado e estou me dedicando a conhecer mais
o construcionismo, porém tenho muitas influências
do passado.
Eu vivo numa espécie de panóptico,
pois existem câmeras por todos os lados
e eu não as vejo. Estranho isto. Muito
além de George Orwell no seu magnífico
1984 e do filme Invasão de Privacidade,
estamos quase na época em que todos seremos
Big Brothers (sem concorrer ao prêmio da
globo). O panóptico tem uma característica
muito interessante, você está sendo
observado e vai agir corretamente, não
importa quem esteja do outro lado, inclusive pode
não ter ninguém. O autor (xxxx)
mostra algumas utilizações para
este mecanismo de poder.
Então, vou tentar criar um texto contextualizado,
mas pode ser que você leitor ainda note
minhas raízes. Pode ler, criticar e me
desnudar, pois não tenho problemas de viver
nesta sociedade panóptica, pois, hoje,
a principal razão desta infinidade de controle
é conter a violência.
Voltarei ao caso da faxineira, ele mostra a capacidade
de a (a faxineira) em influenciar b (os funcionários
da agência). Ele ilustra bem um tipo de
visão de poder, chamado visão unidimensional
de poder. Os aspectos observados neste tipo de
análise são comportamentais (ações
de a sobre b) nas suas tomadas de decisão,
em assuntos que foram externados (que estão
na pauta – como tomar um café). São
levados em conta os conflitos observáveis
(declarados). Os interesses políticos são
levados em conta.
Vamos supor, agora, uma hipotética segunda
faxineira, que pudesse servir mais café.
Imaginem as seguintes cenas: Dona Negrona no banheiro:
o funcionário ganharia café; Dona
Negrona na cozinha: o funcionário não
ganharia café. Ambas têm o poder
de dar café (metáforas...), Podemos
então imaginar dois sensos – o Senso
operatório: capacidade de uso do poder
e o Senso efetivo: demonstra quem fez a ação
para mudar o resultado. Hoje, sabe-se que existem
extensões de poder e que existem formas
de poder veladas e um que de violentas (mais no
sentido de violação) ao mesmo tempo.
Dona do Café
Deu um fim na nossa paciência,
Acabou com o símbolo da convivência
E da ausência de conflito,
Que agito.
Tudo isto,
Numa empresa de relacionamento
Que tormento.
No paraíso do mundo simbólico,
Diabólico.
(Agências de propaganda criam símbolos)
E atribuem poder as marcas.
Preparado,
Interfere nas nossas ações;
Somente estruturado,
Cria reações;
(Este é o poder simbólico)
Ainda mais,
Reproduzem a dominação,
Me atreveria,
E até diria,
Que as agências são
Ela própria.
Para o mundo mudar
É preciso transformar
as maneiras de fazer
E manter
Os grupos.
Coisas Ditas
Pois
é, a visão unidimensional analisa
fatos que ocorreram, influências que mudaram
o curso das decisões. Eles argumentam que
é impossível determinar o que NÃO
aconteceu, pois existem infinitas possibilidades
de não ações. Como analisa-las,
então? O que aconteceria se nossa heroína
liberasse o café na agência? Qual
seria o tempo gasto no cafezinho? Qual seria a
produtividade do pessoal? Uma coisa é certa
- a faxineira teria mais trabalho...
Além desta visão, existem ainda
duas outras visões que são a visão
bidimensional e a visão tridimensional.
A primeira é uma crítica qualificada
sobre a visão que foca no comportamento
das pessoas. Traz a tona tomadas e não
tomadas de decisão, assuntos que potencialmente
seriam discutidos e conflitos declarados e não
declarados e preferências políticas
e queixas. A segunda também faz uma crítica
aos pluralistas, mas de forma menos direta. Seus
tópicos: tomada de decisão e agenda
política (não através de
decisões), assuntos e assuntos potenciais,
conflitos latentes e interesses reais e subjetivos.
A não decisão é um evento
que não ocorreu devido a presença
do poder (ninguém pedir café na
agência não quer dizer que ninguém
queira café...).
Os conceitos de agenda política e os conflitos
latentes existentes na visão tridimensional
são essenciais para o entendimento completo
do poder, pois através do controle de uma
agenda política, podemos retardar ou até
mesmo excluir assuntos contra nossos interesses
(a faxineira não queria lavar xícaras,
nem fazer café...) e os conflitos latentes
explicam aqueles conflitos que não são
mostrados (o autor em questão faz questão
de argumentar que a identificação
destes conflitos pode passar por hipóteses
refutáveis).
Procurei mostrar um pouco de algo que nos fascina
e amedronta, o poder. Suas facetas (imanência,
conflitos, interesses, dinamicidade, alguma forma
de resistência contra etc.) e três
formas de análise, através das visões
unidimensional (comportamental) e de visões
mais complexas como a bidimensional e a tridimensional
que levam a questões subjetivas que julgo
importantes. Porém, o que mais importa,
que para pedir um café, naquela agência
de propaganda, somente alterando a forma de fazer
o mundo, como diz Bordieu.
Queres tomar um café?
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Diálogos
com Deus
Rafael Luiz Reinehr
Maria vai à feira
-
Onde tu vai Maria?
- Vou a feira. Por quê?
- É que Jesus estava te procurando. Acho
que ele queria te dizer alguma coisa. Parecia
importante.
- Bem, diga a ele que não pude esperar.
A feira é muito longe e levo duas horas
pra ir e mais duas pra voltar. À noite
falo com ele. Também: esqueci de carregar
meu celular. Não vai poder me ligar. Fui.
- Até mais Maria.
...poucos
minutos depois
-
Pai! Viste mamãe?
- Acabou de sair para ir à feira. Passei
teu recado mas ela disse que não podia
esperar.
- Que droga! Tinha um recado pra dar pra ela!
Já sei! Vou ligar pro celular!
- Nem adianta, meu filho. Ela deixou em casa porque
está sem bateria... Mas, afinal: qual era
o recado tão importante que querias dar
pra ela com essa urgência toda?
- É que eu vi na Internet que a cidade
está toda alagada e não vai ter
feira hoje...
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Imenso
Amor
Cláudia Sleman - Rahna
As palavras já não são suficientes
Porque ele, o amor, agigantou-se demais.
Debate-se inquieto por entre estas letras vãs.
Quer sair destes versos e adejar pelo teu corpo...
Invadir o teu coração e a tua boca...
Estas linhas já não satisfazem...
Porque ele, o amor, quer libertar-se destas rimas
E encontrar abrigo no teu peito,
Para resguardar-se do glacial inverno que o mortifica.
Estas pautas são grades de ferro, e ele,
o amor,
A esta prisão não mais suporta...
Precisa desesperadamente livrar-se
Destas doridas e cinzentas barras de chumbo,
Deste limitado quadrante que o sufoca,
Despir-se... Alcançar o céu...
Desobrigar-se das figuras de linguagem
E voar até você, porque ele, o amor,
Na cabe mais numa folha de papel...
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Ombudsman
Rafael
Luiz Reinehr
Uma
semana sem Ombudsman.
De
qualquer forma, devido à beleza plástica,
estética, poética e prosódica
dos textos aqui publicados na última edição,
quem quer que fosse o Ombudsman não teria
o que fazer a não ser dar o braço
a torcer e cair de queixo no chão com a
qualidade impressionantemente crescente dos textos
publicados no Simplicíssimo.
O
site está dando um banho em termos qualitativos
edição após edição.
Devemos lembrar que nenhum dos colunistas que
aqui escrevem ganham qualquer remuneração
ou vencimento financeiro, sendo que aqui permanecem
pelo puro, simples e enorme amor pela arte da
escrita. Pelo prazer de se comunicar com aquele
que lê e quer estar "antenado"
com o que está a acontecer neste mundo
virtual, reflexo imperfeito da matéria
que dia após dia experimentamos através
da força sensível de nossos órgãos
perceptivos. Órgãos perceptivos
esses que novamente transformam matéria
real em impressão e sentimento e, através
de qualquer criação humana, quer
seja ela científica, artística,
filosófica, culinária, política
ou tal, retorna ao cerne do que aqui discuto -
o amor pela comunicação e pela perpetuação
dos estímulos de-para seres humanos.
Então,
caros amigos Simplileitores e Simplicolaboradores,
tenha-se por certo que uma semana sem Ombudsman,
a esta altura do campeonato é a amostra
significativa da dificuldade que se tem em conseguir
sujeitos com a peculiar habilidade de criticar
o que aqui se escreve. O ecletismo por cá
demonstrado é dificíl - ouso até
imaginar impossível - de se ver registrado
em qualquer outro sítio da Internet de
tempos idos ou da atualidade.
A
longevidade do Simplicíssimo já
é uma marca interessante. Chegar a 74 edições
semanais não é
tarefa para qualquer bunda-mole!
Mas
tome tenência e me desafie a continuar este
sítio por mais um ano. Veremos quem ganha
a aposta!
A
propósito: se por acaso você chegou
a este texto sem ler com atenção
os textos anteriores, vá tomar vergonha
na cara e leia-s com cuidado porque estão
"lôcos de especial"!
Forte
e fraterno amplexo!
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SUPER
Desafio Simplex
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Copyright © 2003 - Rafael Luiz Reinehr - Todos os direitos
reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir os
textos do site, mas não esqueça de citar a
fonte e o autor.
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Línque
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e depois nos avise!

Selo comemorativo
alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente
criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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