12/05/2004
- Edição número
75
The Good, the Evil, the Boring
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Editorial
Um
Editorial Multi-Consciente para o Simplicíssimo
ou A Solução Definitiva para Relacionamentos
Amorosos ou The Good, the Evil, the Boring
Rafael
Reinehr dá-me a indiscutível honra de abrir
a edição de número 75 do festejado e-zine Simplicíssimo.
Todos os links de meu blog têm autores que não
sei se são gordos ou magros, nervosos ou calmos,
se são mesmo mulheres (ou homens) ou se me enganam,
se têm tom de voz agradável ou perfurante. O único
que conheço, aquele que subitamente materializou-se
na minha frente foi o citado RR. E veio com a
namorada e com seu amigo - também Simplicíssimo
- Eduardo Sabbi. Ademais, Rafael é médico e foi
colega de minha irmã em algum hospital de Porto
Alegre. É uma pessoa querida e fácil de gostar.
E, por falar em gostar, gostaria de escrever um
bom editorial para ele.
Rafael Reinehr convidou-me para escrever o editorial
do Simplicíssimo desta semana. Sem dúvida, é uma
temeridade. Ele não imagina o perigo que seu e-zine
corre quando convida alguém daltônico, cambota,
ateu, de pés chatos e com três erros de português
no nome para representá-lo; ele não sonha quão
ressentido pode ser alguém assim e as inconveniências
que sem dúvida cometerei no texto abaixo. A edição
de número 75 da revista eletrônica será lamentável.
Farei com que o número de leitores caia e os colaboradores
acabarão por pedir licença de suas presenças semanais.
Ficaremos aqui somente eu e meus 7 rarefeitos
leitores, à espera dos hackers.
Como
não foi sugerido nenhum tema, vou escrever sobre
aquilo em que mais penso enquanto dirijo, como,
abro uma janela, fecho os olhos para dormir, etc.
Sei que qualquer coisa - um chinelo fora do lugar,
um jogo do Inter (...), um pé de brócolis, uma
dor de dente ou a luz outonal - pode gerar uma
cadeia de pensamentos que nos leva a qualquer
tema, mas, em alguns períodos da vida, nossos
pensamentos dão uma longa volta e retornam sempre
ao mesmo leit motiv temporário.
O
fato é que estou absolutamente obcecado por alguns
assuntos de meu interesse exclusivo e vou impingi-los
a vocês. Não acreditem no espertinho de prosa
elegante do parágrafo anterior. Eu não presto!
Vou logo sacanear e dizer que ele quer falar sobre
mulher. Ele, que passou os anos 90 comendo muito
raramente uma mesma insípida e rotineiríssima
fêmea, agora quer dar conselhos, o experiente.
Preparem-se para um rosário de baboseiras!
Gostaria
de lançar um olhar enviezado para a história de
meus relacionamentos amorosos. Fui um solteiro
"irrecuperável" até os 30 anos. Conheço todos
aqueles discursos que as pessoas nesta situação
enfileiram: Não gosto de compromisso. Não consigo
dividir. Só encontro homem canalha. Não tenho
tempo pra relações românticas, trabalho demais
e é assim mesmo. Estou esperando a pessoa certa.
Ninguém consegue balançar o meu coração. Ele é
egoísta. Ela é inconstante. Ele é galinha. Ela
é fútil. Ele liga demais. Ela liga de menos. Já
fui muito magoada. Não confio e nem acredito mais.
Não suporto mais, mas já me acostumei com ele.
Posso viver melhor sem. Não tenho paciência. Ninguém
se enquadra nos meus critérios. Nenhum deles presta.
São todas vagabundas. Tenho um, mas queria ter
vários. Tenho várias, mas no fundo não tenho nenhuma.
O mundo é cruel. As pessoas são más. E ninguém
me ama, ou pelo menos parece que quer me amar.
E assim seguimos, todos procurando. Mas ninguém
acha ninguém. Por trás de todos os discursos,
engraçadinhos, sofridos ou articuladamente racionais
(inclusive o meu), dá pra ouvir nitidamente a
mesma lógica: tenho um medo terrível de me envolver;
porque, pra me envolver, preciso me expor.
O
que significa "um olhar enviezado"? Certamente
é uma defesa patética que deve ser lida como "não
me critiquem por ser tão incompleto em minhas
avaliações." Pelamordedeus! Ah, e desde "Não gosto
de compromisso" até o final do parágrafo, tudo
foi roubado da Mafalda
(post Brave Heart, abril de 2004). Esta Mafalda
é uma esplêndida escritora (em minha opinião,
um dos poucos de nós a merecerem tal substantivo)
e você deveria sair logo daqui e ir correndo lê-la.
Na verdade, gostaria de apropriar-me do trecho.
Mais: e até os 30 anos, eu não fui um solteiro
irrecuperável coisa nenhuma, eu era mais: era
um fracasso em qualquer área que não fosse a literatura
e a música. Para todas as outras "poucas coisas"
que há no mundo, lançava um olhar longínquo, superior
e indiferente... Minha adolescência durou uns
18 anos.
Cheguei a odiar crianças. Porém, um dia, tocou
o alarme do famoso relógio biológico e mandou-me
ter filhos. Era urgente encontrar alguém! Escolhi
a primeira e fiquei 15 anos dentro de um casamentozinho
pobre, pobre, paupérrimo, no qual minha única
admiração pela outra era sua capacidade intelectual...
A festa, a felicidade, a plenitude, o encontro,
a harmonia, toda esta coisa ideal, inatingível
e inexistente para o jovem cético, só passou a
existir na maturidade, em meus 44 anos. Uma vez,
numa noite em que bebi acima da cota, criei um
método de auto-ajuda para casais: para uma curiosa
dupla destas dar certo é preciso satisfazer a
um programa mínimo que inclui...
(1) paciência e tolerância médias, principalmente
em assuntos para nós fúteis;
(2) grande amizade;
(3) química funcionando a pleno;
(4) interesses e lazer - grande parte ao menos
- em comum e
(5) - FUNDAMENTAL! - a existência de um guichê
de desistências aberto 24h e 7 dias por semana,
pois uma pessoa razoável e inteligente tem que
sentir-se livre para ir embora a qualquer momento
e o eventual ofensor tem que sentir-se passível
da pior das punições.
É
incrível, mas acredito que este método funcione.
Tanto
Thomas Mann, Montaigne, Machado, Shakespeare,
Kafka, etc. para acabar na auto-ajuda! E da pior
qualidade! Mais mentiras: bêbado nada, eu não
tinha escrito que pensava nisto quase todo o tempo?
A Lya Luft - que vai aparecer na Veja nas próximas
semanas - ficaria apavorada! Porém, meus amigos
e amigas, vocês não acham que eu poderia ganhar
dinheiro escrevendo livros de auto-ajuda? Não
seria o caminho natural para alguém tão vivido...?
Neste momento de minha existência, logo após brindá-los
com uma pérola de minha sabedoria, convido formalmente
o endocrinologista Rafael Reinehr e seu fiel escudeiro
- o médico Eduardo Sabbi, especilista em psiquiatria
geriátrica - para escrever a seis mãos o best-seller
"O Que Os Velhos Desejam de Você", obra que lançará
uma luz sobre a questão dos velhos em nosso país
e dará dicas sobre como contornar estes problemas.
Funcione
para mim, bem entendido. Este gênero de auto-ajuda
é inútil. Muitas vezes, nós, que não somos profissionais
nestas coisas da alma, procuramos vender informalmente
nossa experiência pregressa para outras pessoas,
quase sempre na forma de receitas. É inútil, repito,
e é chato. Talvez o melhor da maturidade seja
a tranqüilidade interna e a incerta sabedoria
a ela associada, ambas pessoais e intrasferíveis.
Ué?
Tava tão entusiasmado com os negócios... Lembro
que Shakespeare - sob a voz de Alonso - escreveu
em "A Tempestade": Tendo perdido a esperança,
dela me afasto aqui, para que não mais me lisonjeie.
Milton
Ribeiro
Editor Interino
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Finalmente
Juliana Robin
Eu
não me acostumo mesmo a começar
a escrever direto nessas coisinhas quadradas onde
eu sempre troco os dedos e escrevo tudo torto,
errado, abreviado e sem acento.
Mas hoje vou tentar.
Finalmente choveu. Finalmente sinto um ventinho
nostálgico a soprar nas ruas estranhas
de manhã. e eu corro para baixo das cobertas
querendo ficar lá para sempre e vou correndo
pegar um disco do The Cure.
Ter de ver as mesmas caras, os mesmos conceitos,
os mesmos pré-conceitos. isso já
não é mais diversão.
Já não sei mais onde estou nem por
que estou.
Olha só isso, nem uma virgulinha, soh reticencias
como se as frases fossem apodrecendo e se desintegrando
aos poucos. como se tudo o que eu escrevo aqui
nessa caixinha iluminada e abstrata( e assustadora)
fosse ficando gasto e sumisse..
Mas esta valsa que eu toco aqui, batendo os dedos
nesse teclado .não é Chopin.
"eu, eu, eu, eu".eu também apodreço
e rápido.
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Simples
Goyuchos
Adalberto
de Queiroz
Rios
de minha vida...
Uma
croniqueta martelando a mente torna-se mais um
elemento de um conjunto do imaginário a
invadir os pensamentos do cronista, neste outono
brasileiro que traz consigo tempos e climas diversos
na ponte Goyaz-Rio Grande.
Acha assim a fórmula segura de deslizar
por meio das manobras verbais de sorte a iludir
o leitor, fazendo a junção da teoria
dos conjuntos, resumida de forma quase ficcional
por Berlinski na frase do confrade Milton Ribeiro:
a mesma e única idéia de que conjuntos
de palavras "podem gerar uma cadeia de
pensamentos..." .
Se é verdade que toda obra de arte é
a solução de um problema e não
menos verdadeiro o caráter infinito dos
conjuntos, tem o(a) paciente leitor(a), diante
de si uma ponte infindável de possibilidades
para atravessar em meio às composições
sonoras e literárias ou proto-literárias,
como esta.
Eis os conjuntos que se apresentam ao cronista:
{rio, terra, pontes} e {afeto, filhos, legado}
Eles se apresentam em meio às manhãs
ensolaradas de Goyaz, de céus-de-brigadeiro,
nesta quase-primavera-verão, que inundam
a alma do cronista de esperança e paz;
enquanto às margens do Guaíba, reporta
a bela moça do tempo, muita chuvas compensam
a secura dos meses passados e, na sua beleza se
permite um trocadilho para designar o outono das
águas de maio, que banham o Rio Grande,
sem pena pela paráfrase ao Tom Jobim e
o cronista que divide este espaço.
Apressa-se o estressado leitor a apaziguar a alma
quando ouve falar de uma ponte possível
entre territórios tão distantes
e a um só tempo tão próximos.
É que para o leitor menos afeito às
mudanças do tempo e sua influência
no humor diário, quase nada se obtém
de efeito ciclamato para a alma quando o tema
predominante é o quando do cronista. É
preciso que o leitor se disponha a viajar para
este quando no aqui-e-agora para entender e julgar
qual a harmonia do conjunto proposto.
Entre as tantas pontes levadiças que o
sopro da imaginação eleva de pronto
e põe a funcionar para a passagem de navios
ou dos passageiros, que transitam entre o Brasil
meridional e o centro-oeste - dito no jargão
político: "o coração
do brasil" -, eis uma que aos desavisados
deixa em desconcerto.
E como nessa edição especial não
quero atirar um catatau ao leitor, apresso-me
a escolher uma só e única ponte
por onde deslizar por sua superfície de
madeira, como nas pontes cobertas da longínqua
Pensilvânia, aqui trazida pela memória
afetiva de um lugar recentemente conhecido, para
onde desejo transportar o leitor.
Quando cheguei ao Rio Grande, aos vinte anos -
ó cruel sina a perseguir os cronistas:
não ter mais vinte anos!
Dizia-lhes da chegada ao Rio Grande, que foi com
este dote único da juventude que minha
esposa e eu, cruzamos uma fronteira importante
como goyanos que muito sonhavam e pouco (ou nada)
viajavam, cruzamos o rio Paranaíba dispostos,
apesar de inexperientes, a viajar milhares de
quilômetros para sair de Goyaz e chegar
ao "Porto dos Casais".
Eis
que em Porto Alegre, Deus nos deu a enorme chance
de construir e reconstruir nossa saga pessoal
e familiar: formação universitária,
amigos, a música de orquestra (a Ospa,
ah! a Ospa e suas mozartianas e haydinianas),o
churrasco e o chimarrão, as festas e suas
prendas, o pampa infindável, o Grêmio
Football Porto-Alegrense. De lá, voltamos
a Goyaz com a maior dádiva do Rio Grande:
nossa filha Maíra, a filha que, recentemente,
fomos levar ao altar na cerimônia de casamento
na Pensilvânia.
E
são essas, pontes incrivelmente surreais
que me levaram do Paranaíba ao Guaíba,
e que me animaram a cruzar um oceano para conhecer
o rio Susquehanna, na Pensilvânia. Se já
alguns rios corriam em minha memória, com
a força do rio de minha aldeia, a eles
se juntam agora, novas águas.
Águas
que correm em minha memória, marcando nova
mudança. A começar da pronúncia,
este novo rio é mágico e poético.
O Susquehanna se junta às águas
de minha vida, fundando outras pontes imaginárias
e trazendo uma matemática avançada
- a certeza poética de que infinda é
a combinação possível dos
conjuntos afetivos.
E
como o cronista é um físico frustrado,
contenta-se com a aritmética, propondo
que o leitor comece criando seus próprios
conjuntos e subconjuntos do acervo afetivo com
os versos finais desta croniqueta.
É
de Mário Quintana, o filho de Alegrete
que mais cantou a capital do Rio Grande, aqui
soando como finale, feito nota do canto
do passarinho que, do alto da árvore nos
implora reservarmos olhares e sensibilidade para
a beleza das manhãs de maio:
"Amar é morar no Outro".
Adalberto
de Queiroz, 49, é jornalista e empresário.
Mantém o blog www.zadig.blogger.com.br
e escreve mensalmente no 8 Colunas.
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Nua
& Crua
Cristiane
Martins
Um
Patético Desabafo de Uma Mulher Medíocre
Escrito em 05/Setembro/2002
Hoje
quero falar de mim ...
Ah, você não quer saber?
Bem, então sugiro que clique no "X"
bem a sua direita ou que troque de site porque
hoje quero gritar o que meu íntimo está
pedindo: SOCOOOORRROOO!!!!
Salvem me!!!!
Preciso ser protegida de mim!
É meu ser que briga com meu próprio
ser!
É como se o mocinho brigasse com o vilão...
quem vencerá?
Hoje acordei com meu costumeiro bom humor... e
já me questionando ... (normal) por quê???
Vesti meu taileur de risca de giz, uma camisa
branca para completar o visual, maquilagem, mais
uma olhada no espelho!
Te amo! Será? Por que? Pare de me questionar!!!
Seu espelho patético e turvo!!!
Pare de me mostrar algo que não quero olhar
.... pare de ser tão cruel comigo!!!
Minha camisa está apertada... teria eu
engordado? Ou foi a fantástica combinação:
máquina de lavar + sabão em pó
+ varal que fizeram isso por mim???
Sei lá ??? Pra que questionar afinal? Ninguém
vai notar mesmo!!!
Tem coisa mais nostálgica que rotina? Eu
respondo: NÃO!
Sair de casa, ir até o ponto de ônibus
e encontrar as mesmas pessoas patéticas
com papinhos patéticos que você é
obrigada a ouvir como se teu ouvido fosse o lixo
da cozinha deles....chega ao trabalho, passa cartão,
(preciso registrar minha presença, meu
salário depende disso afinal), mas pra
quê?
Bom dia, bom dia ... todos patéticamente
cumprimentam-se com sorrisos nos lábios
e caras ainda visivelmente amassadas pela longa
noite apertadas nos travesseiros de espuma!!!
Que falsa alegria e disposição ....
me causa asco !
Gente medíocre fingindo que estão
brincando de "ser feliz" ou será
que fui eu quem me tornei medíocre quando
criei essa frase?
Sabe-se lá? Já estou eu aqui me
questionando novamente ....
Sigo minha rotina ... papéis e mais papéis
e minha cabeça muito, muito longe de todo
esse circo ...
De vez em quando consigo ver meio que turva minha
imagem refletida na tela escura do computador...
"ai meu Deus, uma ruga?" não,
não sua paranóica, você tem
24 anos lembra-se???
É apenas uma sujeira na tela do computador!
Ufa!
Erro! Ctrl + Alt + Del resolve tudo!
Posso dar Ctrl + Alt + Del na minha vida???? Seria
muito bom, mas de que adiantaria?
Daí começaria denovo e provavelmente
cometeria os mesmos erros com as mesmas coisas
e pessoas ... coisa mais medíocre impossível!!!
Ops, tua colega notou que teu botão está
a ponto de estourar! Droga! Se eu estivesse com
roupa nova ninguém notaria, mas uma sujeira
de feijão no dente ... ah, daí toda
a torcida do flamengo notaria !!!
Tlec, tlec, tlec, meus dedos vão frenéticamente
digitando e digitando e o ponteiro do relógio
vai correndo ....
Quem foi o idiota que deletou meus arquivos particulares?
Eu! Sem querer esbarrei no "delete"
... Ainda tento me desculpar ... "azar o
teu" ... grrr mocinho ou bandido, mocinho
ou bandido, mocinho ou bandido .... BANG BANG
BANG ....
Quem morreu???
Mocinho?
Bandido?
Não, foi apenas eu que matei uma mosca
que pousou na minha sopa, digo na minha mesa ...
pobre bichinho ...
Coisa mais louca ... sigo minha nostálgica
rotina ... enquanto que você que se dispôs
a ler esse texto maluco tá aí perdendo
um pouquinho do teu tão precioso tempo,
saindo um pouquinho da tua importante rotina de
trabalho ... "vamos trabalhe" dizem
eles .... loucos insensatos.... querem nosso sangue,
isso sim ...
Chega de briga!
Meu eu se acalmou ... posso voltar a minha vida
... boa vida ... boa vida uma ova!!!
P.S.
Descobri que peguei a camisa da minha amiga que
mora comigo por engano ... ainda há uma
chance pra mim ....
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro
Garcia
Outono
O
outono é, em definitivo, a estação
dos cafés. E não só dos cafés.
Há, afinal, estação mais
privilegiada para o romance do que o outono? Você
poderá me dizer que o calor do verão,
todo o suor e a sensualidade emanada das propagandas
de cerveja, por que, afinal, moramos em um “país
tropical”, são mais compatíveis
com nosso sentimento caliente. É direito
seu levantar este argumento, se interessado você
estiver em me contradizer. Ainda assim, continuarei
a defender com veemência o outono. Precedente
ao verão, no outono vão longe os
dias de agitação dos corpos aos
sons dos tradicionais hits que se criam nesta
estação de praia, biquíni
e sunga (e há que se respeitar os ainda
tradicionalistas usuários de sunga!), não
há mais os hormônios atiçados
pelo demoníaco calor, as lambadas (ainda
existem as lambadas?) que fazem saracotear os
corpos das lordosas moças com suas curvas
intermináveis e carnes deliciosamente expostas.
Como resistir a estes encantos do verão?
Como não cair em tentações
infinitas, em traições, em acintosas
e deleitosas incursões pelos corpos bronzeados
que se colocam à nossa disposição
com seus desafiantes piercings a cingir umbigos?
No
entanto, e é este o ponto que acho para
dar mais valor ao meu conceito inicial, sabemos
nós o quanto os sentimentos propagados
no verão se devem mais ao frenesi, a loucura
e descontrole hormonal que nos tornam novamente
como que habitantes do tempo das cavernas. É
o calor o culpado. Funde a cuca, este infeliz.
Faz cozido daquela específica área
responsável pela razão a nos dizer:
“Não, João. A morena dançando
lambada é um espetáculo, eu sei.
Mas não esquece a Maria em casa, João.
A Maria está te esperando...”. E
quantas vezes não mandamos a Maria às
favas pela queimadura de terceiro grau em nossos
cérebros, causada pelo tenebroso, indecoroso
e inconseqüente sol do verão?
Agora,
no outono, foi-se o calor. Não há
desculpa alguma para a razão não
ser a principal motivadora dos nossos atos. De
tempos e de estudos sabemos o quanto o frio contribui
para o desenvolvimento de nações
mais intelectualmente privilegiadas, com altos
índices de inclusão escolar e notáveis
desempenhos geniais. Nos dias de frio só
pertencemos a nós mesmos. Cada passo dado
parece-nos mais claro, as folhas secas a crepitarem
sob os nossos pés adquirem contornos os
mais nítidos possíveis. Parece que
cada frase que sai de nossa boca é reforçada
por uma remasterização rica em efeitos
5.1. Os erros cometidos no outono estão
sob nossa total responsabilidade. Não há
desculpas para impulsos desmedidos, gestos “esquentados”,
por que não há “quentura”
que os justifiquem. O que há são
os cafés. As vozes fortes e límpidas.
Os casacos, as mesas das cafeterias. Os romances.
E, principalmente, os romances nas cafeterias.
“Ele
está apaixonado!”, pode estar você
a pensar. Não necessariamente, ainda que
eu diga que sim. E pela mesma mulher. De antes
e antes. O outono clareou meus pensamentos, fez
me dar valor a cada pequeno gesto, cada afago
na face enquanto o cappuccino não chega.
O nariz gelado na bochecha nesta hora parece o
mais carinhoso dos gestos. E o dividir da xícara
fumegante e espumosa a mais altruísta das
atitudes.
Sim,
não há mais o “living la vida
loca”. Combina mais agora um Los Hermanos
a embalar as tardes de sábado acompanhado
embaixo do edredon. E os chocolates, as leituras
conjuntas e os pés gelados. Deus estava
inspirado quando decidiu que um dia os casais
esquentariam seus pés mutuamente. Se este
gesto fosse melhor sentido e entendido em toda
a sua profundidade, quantos conflitos o mundo
não evitaria!
Viva
o outono e os pés gelados. Sem esquecer
dos cafés, é claro.
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi
Caixa
do Banco
Um
discreto aceno autorizou minha aproximação
do balcão, onde o caixa, cabisbaixo,
concentrava-se na burocracia que a cliente anterior
havia gerado. Alcancei a conta de água
e o dinheiro. Sem desviar o olhar do que fazia,
estendeu a mão e pegou os papéis.
Neles passou os olhos, teclou na maquininha,
conferiu o dinheiro, fez a operação
de registro e encontrou as moedas certas para
o troco. Colocou tudo ao meu alcance no balcão
à sua frente. Ensaiei um muito obrigado,
mas não teve jeito, não saiu.
Não vi a cor dos olhos do sujeito e tive
a desagradável sensação
de que teria me sentido melhor com o caixa eletrônico.
Restou-me apenas sair, enquanto o caixa do banco,
cabisbaixo, concentrava-se na burocracia que
eu acabara de gerar.
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I-racional
Pedro Armando Furtado
Volkmann
Comentários
Só
posso pensar em duas coisas quando vejo o número
de comentários dos meus textos só
posso pensar em duas coisas. A primeira delas,
foi aventada pelo Alessandro Garcia no seu editorial,
dizendo que meus textos eram muito bons. A segunda
coisa que posso pensar é que meus textos
são muito ruins. De diversas formas: mal
escritos, difíceis de entender ou sem sentido.
Não queria escrever mais um texto sobre
esta coisa do escrever pois há algumas
semanas escrevi um texto baseado em leituras de
Borges e Calvino.
Então estou aqui, vou escrever três
textos, totalmente distintos para procurar satisfazer
todos os gostos dos leitores do simplex.
Fandangos
Noites
de luar, prendas buenachas. E eu, com meu violão.
Violão, o instrumento.
Que pode me levar as prendas, que estão
sobre o luar.
Mas, se estão sobre o luar, aqui estão.
Porque preciso de meu violão?
(para fazer mandingas)
Mandingas
Faço
tudo para te prender.
Mas tudo que faço é te perder.
Queria poder ter.
Poder te enfeitiçar.
Fetiche.
(para viver)
Viver
Minhocario,
Viveiro.
Formigueiro.
Ligeiro.
Descobri que estou vivo.
As formigas me morderam
(e está doendo para burro).
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Diálogos
com Deus
Rafael Luiz Reinehr
Deus e Maria no almoço
- Passa o sal.
- Com ferro de passar ?
- Deixa de ser boba! Me alcance o sal!
- Como se diz?
- Como assim, como se diz?
- Qual é a palavrinha mágica?
- Abracadabra!
- Não! Agora é você quem está
bancando o bobo! Que palavra mágica se
usa quando pedimos um favor?
- Hum... – Deus pára, pensativo.
- Vamos lá! Não é tão
difícil assim! – estimula Maria.
- Já sei! Por favor!
- Muito bem! Tome aí o sal! Mas não
vai exagerar que sua pressão já
anda meio alta, ouviu?
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Paradoxo
Fabricio Pessôa
Te amo
Porém não te quero
E paciente espero
A morte desse amor
Te
amo
Entretanto não é como antes
Relembrar nossos lindos instantes
Agora só causa dor
Te
amo
Mas quero deixar de te amar
Estou certo que vou superar
Essa fase ruim
Te
amo
Tanto, que não posso te olhar
Porém conseguirei matar
Esse maldito amor que há em mim.
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Ombudsman
Maurício
Silveira dos Santos
Bye
Bye, So Long, Farewell
Como
diz (o sábio) Guilherme Arantes: “Adeus
também foi feito pra se dizer, bye bye,
so long, farewell”. Assim me despeço
(liberto) desta coluna que me divertiu muito e
incomodou um pouco. Espero que tenha sido bom
para alguns de vocês também. A coluna
deve sobreviver e é missão do nosso
nobre editor selecionar o(s) novo(s) ombudsman(en).
Há alguém interessado?
Quanto a mim leitores, pretendo sobreviver à
morte do ombudsman que me habitou nestes meses
e iniciar um novo espaço no louvado Simplicíssimo.
Se chamará (eu já obtive autorização
do Tenente-editor) Pequenas Resenhas Canalhas
e tratará a cada duas edições
de resenhar um livro qualquer adquirido em um
sebo qualquer sem um motivo muito específico
além da percepção de que
é uma obra “interessante”(por
mais amplo que isto possa parecer). Diferentemente
do extinto ‘caderno de resenhas’ da
Folha de São Paulo onde boa parte dos resenhistas
fazia um enorme e descarado esforço para
exalar erudição a ponto de gerar
suspeitas de que desejavam parecer mais sábios
que o autor do livro que pretendiam comentar,
as resenhas da nossa coluna serão concisas
e canalhas (canalhice que só é possível
para o homem comprometido apenas com o seu desejo
de ler e escrever), tudo no intuito de tornar
o livro comentado ou trechos dele interessantes
e relevantes, seja pelo motivo que for, das mais
nobres às menos nobres razões, por
meio de elogios lambidos ou críticas estaladas.
Abraço a todos e até a primeira
‘Pequena Resenha Canalha’, em duas
semanas.
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SUPER
Desafio Simplex
O
Desafio Simplex agora é Super!
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A
Lista dos Competidores que pontuaram,
por ordem (provisória de classificação
na corrida pelos 89 CDs!:
Luiz
Antonio Ribeiro (Petrópolis -
RJ) - 30 pontos
Alessandro Sachetti (?) - 30 pontos
Corina Abreu (Rio de Janeiro - RJ) -
20 pontos
Rebeca Campani Donazar ( Porto Alegre
- RS) - 10 pts.
Pedro Volkmann (Porto Alegre - RS) -
10 pontos
Diego Altieri. Silveira (Sapucaisa do
Su l- RS) - 10 pontos
Roberto Iukio Iwai (São Paulo
- SP) - 10 pontos
Esses
são os competidores que acertaram,
respectivamente, 3, 2 e 1 dos 89 (oitenta
e nove!!!) CDs a serem dados nas próximas
semanas, até a edição
de aniversário de 1 ano do site,
em 26 de junho próximo.
O
próximo Desafio já está
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para seus amigos, façam um bolão
e dividam os prêmios!
LEMBRE-SE:
durante a semana, a qualquer momento,
podemos estabelecer uma prova relâmpago
onde quem cumprir primeiro a tarefa
leva os pontos! Esteja atento!
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Copyright © 2003 - Rafael Luiz Reinehr - Todos os direitos
reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir os
textos do site, mas não esqueça de citar a
fonte e o autor.
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Línque
para
http://www.simplicissimo.com.br
e depois nos avise!

Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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