Simplicíssimo
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Editorial

Um Editorial Multi-Consciente para o Simplicíssimo ou A Solução Definitiva para Relacionamentos Amorosos ou The Good, the Evil, the Boring

Rafael Reinehr dá-me a indiscutível honra de abrir a edição de número 75 do festejado e-zine Simplicíssimo. Todos os links de meu blog têm autores que não sei se são gordos ou magros, nervosos ou calmos, se são mesmo mulheres (ou homens) ou se me enganam, se têm tom de voz agradável ou perfurante. O único que conheço, aquele que subitamente materializou-se na minha frente foi o citado RR. E veio com a namorada e com seu amigo - também Simplicíssimo - Eduardo Sabbi. Ademais, Rafael é médico e foi colega de minha irmã em algum hospital de Porto Alegre. É uma pessoa querida e fácil de gostar. E, por falar em gostar, gostaria de escrever um bom editorial para ele.

Rafael Reinehr convidou-me para escrever o editorial do Simplicíssimo desta semana. Sem dúvida, é uma temeridade. Ele não imagina o perigo que seu e-zine corre quando convida alguém daltônico, cambota, ateu, de pés chatos e com três erros de português no nome para representá-lo; ele não sonha quão ressentido pode ser alguém assim e as inconveniências que sem dúvida cometerei no texto abaixo. A edição de número 75 da revista eletrônica será lamentável. Farei com que o número de leitores caia e os colaboradores acabarão por pedir licença de suas presenças semanais. Ficaremos aqui somente eu e meus 7 rarefeitos leitores, à espera dos hackers.

Como não foi sugerido nenhum tema, vou escrever sobre aquilo em que mais penso enquanto dirijo, como, abro uma janela, fecho os olhos para dormir, etc. Sei que qualquer coisa - um chinelo fora do lugar, um jogo do Inter (...), um pé de brócolis, uma dor de dente ou a luz outonal - pode gerar uma cadeia de pensamentos que nos leva a qualquer tema, mas, em alguns períodos da vida, nossos pensamentos dão uma longa volta e retornam sempre ao mesmo leit motiv temporário.

O fato é que estou absolutamente obcecado por alguns assuntos de meu interesse exclusivo e vou impingi-los a vocês. Não acreditem no espertinho de prosa elegante do parágrafo anterior. Eu não presto! Vou logo sacanear e dizer que ele quer falar sobre mulher. Ele, que passou os anos 90 comendo muito raramente uma mesma insípida e rotineiríssima fêmea, agora quer dar conselhos, o experiente. Preparem-se para um rosário de baboseiras!

Gostaria de lançar um olhar enviezado para a história de meus relacionamentos amorosos. Fui um solteiro "irrecuperável" até os 30 anos. Conheço todos aqueles discursos que as pessoas nesta situação enfileiram: Não gosto de compromisso. Não consigo dividir. Só encontro homem canalha. Não tenho tempo pra relações românticas, trabalho demais e é assim mesmo. Estou esperando a pessoa certa. Ninguém consegue balançar o meu coração. Ele é egoísta. Ela é inconstante. Ele é galinha. Ela é fútil. Ele liga demais. Ela liga de menos. Já fui muito magoada. Não confio e nem acredito mais. Não suporto mais, mas já me acostumei com ele. Posso viver melhor sem. Não tenho paciência. Ninguém se enquadra nos meus critérios. Nenhum deles presta. São todas vagabundas. Tenho um, mas queria ter vários. Tenho várias, mas no fundo não tenho nenhuma. O mundo é cruel. As pessoas são más. E ninguém me ama, ou pelo menos parece que quer me amar. E assim seguimos, todos procurando. Mas ninguém acha ninguém. Por trás de todos os discursos, engraçadinhos, sofridos ou articuladamente racionais (inclusive o meu), dá pra ouvir nitidamente a mesma lógica: tenho um medo terrível de me envolver; porque, pra me envolver, preciso me expor.

O que significa "um olhar enviezado"? Certamente é uma defesa patética que deve ser lida como "não me critiquem por ser tão incompleto em minhas avaliações." Pelamordedeus! Ah, e desde "Não gosto de compromisso" até o final do parágrafo, tudo foi roubado da Mafalda (post Brave Heart, abril de 2004). Esta Mafalda é uma esplêndida escritora (em minha opinião, um dos poucos de nós a merecerem tal substantivo) e você deveria sair logo daqui e ir correndo lê-la. Na verdade, gostaria de apropriar-me do trecho. Mais: e até os 30 anos, eu não fui um solteiro irrecuperável coisa nenhuma, eu era mais: era um fracasso em qualquer área que não fosse a literatura e a música. Para todas as outras "poucas coisas" que há no mundo, lançava um olhar longínquo, superior e indiferente... Minha adolescência durou uns 18 anos.

Cheguei a odiar crianças. Porém, um dia, tocou o alarme do famoso relógio biológico e mandou-me ter filhos. Era urgente encontrar alguém! Escolhi a primeira e fiquei 15 anos dentro de um casamentozinho pobre, pobre, paupérrimo, no qual minha única admiração pela outra era sua capacidade intelectual... A festa, a felicidade, a plenitude, o encontro, a harmonia, toda esta coisa ideal, inatingível e inexistente para o jovem cético, só passou a existir na maturidade, em meus 44 anos. Uma vez, numa noite em que bebi acima da cota, criei um método de auto-ajuda para casais: para uma curiosa dupla destas dar certo é preciso satisfazer a um programa mínimo que inclui...

(1) paciência e tolerância médias, principalmente em assuntos para nós fúteis;
(2) grande amizade;
(3) química funcionando a pleno;
(4) interesses e lazer - grande parte ao menos - em comum e
(5) - FUNDAMENTAL! - a existência de um guichê de desistências aberto 24h e 7 dias por semana, pois uma pessoa razoável e inteligente tem que sentir-se livre para ir embora a qualquer momento e o eventual ofensor tem que sentir-se passível da pior das punições.

É incrível, mas acredito que este método funcione.

Tanto Thomas Mann, Montaigne, Machado, Shakespeare, Kafka, etc. para acabar na auto-ajuda! E da pior qualidade! Mais mentiras: bêbado nada, eu não tinha escrito que pensava nisto quase todo o tempo? A Lya Luft - que vai aparecer na Veja nas próximas semanas - ficaria apavorada! Porém, meus amigos e amigas, vocês não acham que eu poderia ganhar dinheiro escrevendo livros de auto-ajuda? Não seria o caminho natural para alguém tão vivido...? Neste momento de minha existência, logo após brindá-los com uma pérola de minha sabedoria, convido formalmente o endocrinologista Rafael Reinehr e seu fiel escudeiro - o médico Eduardo Sabbi, especilista em psiquiatria geriátrica - para escrever a seis mãos o best-seller "O Que Os Velhos Desejam de Você", obra que lançará uma luz sobre a questão dos velhos em nosso país e dará dicas sobre como contornar estes problemas.

Funcione para mim, bem entendido. Este gênero de auto-ajuda é inútil. Muitas vezes, nós, que não somos profissionais nestas coisas da alma, procuramos vender informalmente nossa experiência pregressa para outras pessoas, quase sempre na forma de receitas. É inútil, repito, e é chato. Talvez o melhor da maturidade seja a tranqüilidade interna e a incerta sabedoria a ela associada, ambas pessoais e intrasferíveis.

Ué? Tava tão entusiasmado com os negócios... Lembro que Shakespeare - sob a voz de Alonso - escreveu em "A Tempestade": Tendo perdido a esperança, dela me afasto aqui, para que não mais me lisonjeie.

Milton Ribeiro
Editor Interino

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Finalmente
Juliana Robin


Eu não me acostumo mesmo a começar a escrever direto nessas coisinhas quadradas onde eu sempre troco os dedos e escrevo tudo torto, errado, abreviado e sem acento.
Mas hoje vou tentar.
Finalmente choveu. Finalmente sinto um ventinho nostálgico a soprar nas ruas estranhas de manhã. e eu corro para baixo das cobertas querendo ficar lá para sempre e vou correndo pegar um disco do The Cure.
Ter de ver as mesmas caras, os mesmos conceitos, os mesmos pré-conceitos. isso já não é mais diversão.
Já não sei mais onde estou nem por que estou.
Olha só isso, nem uma virgulinha, soh reticencias como se as frases fossem apodrecendo e se desintegrando aos poucos. como se tudo o que eu escrevo aqui nessa caixinha iluminada e abstrata( e assustadora) fosse ficando gasto e sumisse..
Mas esta valsa que eu toco aqui, batendo os dedos nesse teclado .não é Chopin.
"eu, eu, eu, eu".eu também apodreço e rápido.

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Simples Goyuchos
Adalberto de Queiroz

Rios de minha vida...

Uma croniqueta martelando a mente torna-se mais um elemento de um conjunto do imaginário a invadir os pensamentos do cronista, neste outono brasileiro que traz consigo tempos e climas diversos na ponte Goyaz-Rio Grande.
Acha assim a fórmula segura de deslizar por meio das manobras verbais de sorte a iludir o leitor, fazendo a junção da teoria dos conjuntos, resumida de forma quase ficcional por Berlinski na frase do confrade Milton Ribeiro: a mesma e única idéia de que conjuntos de palavras "podem gerar uma cadeia de pensamentos..." .
Se é verdade que toda obra de arte é a solução de um problema e não menos verdadeiro o caráter infinito dos conjuntos, tem o(a) paciente leitor(a), diante de si uma ponte infindável de possibilidades para atravessar em meio às composições sonoras e literárias ou proto-literárias, como esta.
Eis os conjuntos que se apresentam ao cronista: {rio, terra, pontes} e {afeto, filhos, legado}
Eles se apresentam em meio às manhãs ensolaradas de Goyaz, de céus-de-brigadeiro, nesta quase-primavera-verão, que inundam a alma do cronista de esperança e paz; enquanto às margens do Guaíba, reporta a bela moça do tempo, muita chuvas compensam a secura dos meses passados e, na sua beleza se permite um trocadilho para designar o outono das águas de maio, que banham o Rio Grande, sem pena pela paráfrase ao Tom Jobim e o cronista que divide este espaço.
Apressa-se o estressado leitor a apaziguar a alma quando ouve falar de uma ponte possível entre territórios tão distantes e a um só tempo tão próximos. É que para o leitor menos afeito às mudanças do tempo e sua influência no humor diário, quase nada se obtém de efeito ciclamato para a alma quando o tema predominante é o quando do cronista. É preciso que o leitor se disponha a viajar para este quando no aqui-e-agora para entender e julgar qual a harmonia do conjunto proposto.
Entre as tantas pontes levadiças que o sopro da imaginação eleva de pronto e põe a funcionar para a passagem de navios ou dos passageiros, que transitam entre o Brasil meridional e o centro-oeste - dito no jargão político: "o coração do brasil" -, eis uma que aos desavisados deixa em desconcerto.

E como nessa edição especial não quero atirar um catatau ao leitor, apresso-me a escolher uma só e única ponte por onde deslizar por sua superfície de madeira, como nas pontes cobertas da longínqua Pensilvânia, aqui trazida pela memória afetiva de um lugar recentemente conhecido, para onde desejo transportar o leitor.
Quando cheguei ao Rio Grande, aos vinte anos - ó cruel sina a perseguir os cronistas: não ter mais vinte anos!
Dizia-lhes da chegada ao Rio Grande, que foi com este dote único da juventude que minha esposa e eu, cruzamos uma fronteira importante como goyanos que muito sonhavam e pouco (ou nada) viajavam, cruzamos o rio Paranaíba dispostos, apesar de inexperientes, a viajar milhares de quilômetros para sair de Goyaz e chegar ao "Porto dos Casais".

Eis que em Porto Alegre, Deus nos deu a enorme chance de construir e reconstruir nossa saga pessoal e familiar: formação universitária, amigos, a música de orquestra (a Ospa, ah! a Ospa e suas mozartianas e haydinianas),o churrasco e o chimarrão, as festas e suas prendas, o pampa infindável, o Grêmio Football Porto-Alegrense. De lá, voltamos a Goyaz com a maior dádiva do Rio Grande: nossa filha Maíra, a filha que, recentemente, fomos levar ao altar na cerimônia de casamento na Pensilvânia.

E são essas, pontes incrivelmente surreais que me levaram do Paranaíba ao Guaíba, e que me animaram a cruzar um oceano para conhecer o rio Susquehanna, na Pensilvânia. Se já alguns rios corriam em minha memória, com a força do rio de minha aldeia, a eles se juntam agora, novas águas.

Águas que correm em minha memória, marcando nova mudança. A começar da pronúncia, este novo rio é mágico e poético. O Susquehanna se junta às águas de minha vida, fundando outras pontes imaginárias e trazendo uma matemática avançada - a certeza poética de que infinda é a combinação possível dos conjuntos afetivos.

E como o cronista é um físico frustrado, contenta-se com a aritmética, propondo que o leitor comece criando seus próprios conjuntos e subconjuntos do acervo afetivo com os versos finais desta croniqueta.

É de Mário Quintana, o filho de Alegrete que mais cantou a capital do Rio Grande, aqui soando como finale, feito nota do canto do passarinho que, do alto da árvore nos implora reservarmos olhares e sensibilidade para a beleza das manhãs de maio:
"Amar é morar no Outro".

Adalberto de Queiroz, 49, é jornalista e empresário. Mantém o blog www.zadig.blogger.com.br e escreve mensalmente no 8 Colunas.

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Nua & Crua
Cristiane Martins

Um Patético Desabafo de Uma Mulher Medíocre
Escrito em 05/Setembro/2002

Hoje quero falar de mim ...
Ah, você não quer saber?
Bem, então sugiro que clique no "X" bem a sua direita ou que troque de site porque hoje quero gritar o que meu íntimo está pedindo: SOCOOOORRROOO!!!!
Salvem me!!!!
Preciso ser protegida de mim!
É meu ser que briga com meu próprio ser!
É como se o mocinho brigasse com o vilão... quem vencerá?
Hoje acordei com meu costumeiro bom humor... e já me questionando ... (normal) por quê???
Vesti meu taileur de risca de giz, uma camisa branca para completar o visual, maquilagem, mais uma olhada no espelho!
Te amo! Será? Por que? Pare de me questionar!!! Seu espelho patético e turvo!!!
Pare de me mostrar algo que não quero olhar .... pare de ser tão cruel comigo!!!
Minha camisa está apertada... teria eu engordado? Ou foi a fantástica combinação: máquina de lavar + sabão em pó + varal que fizeram isso por mim???
Sei lá ??? Pra que questionar afinal? Ninguém vai notar mesmo!!!
Tem coisa mais nostálgica que rotina? Eu respondo: NÃO!
Sair de casa, ir até o ponto de ônibus e encontrar as mesmas pessoas patéticas com papinhos patéticos que você é obrigada a ouvir como se teu ouvido fosse o lixo da cozinha deles....chega ao trabalho, passa cartão, (preciso registrar minha presença, meu salário depende disso afinal), mas pra quê?
Bom dia, bom dia ... todos patéticamente cumprimentam-se com sorrisos nos lábios e caras ainda visivelmente amassadas pela longa noite apertadas nos travesseiros de espuma!!!
Que falsa alegria e disposição .... me causa asco !
Gente medíocre fingindo que estão brincando de "ser feliz" ou será que fui eu quem me tornei medíocre quando criei essa frase?
Sabe-se lá? Já estou eu aqui me questionando novamente ....
Sigo minha rotina ... papéis e mais papéis e minha cabeça muito, muito longe de todo esse circo ...
De vez em quando consigo ver meio que turva minha imagem refletida na tela escura do computador... "ai meu Deus, uma ruga?" não, não sua paranóica, você tem 24 anos lembra-se???
É apenas uma sujeira na tela do computador! Ufa!
Erro! Ctrl + Alt + Del resolve tudo!
Posso dar Ctrl + Alt + Del na minha vida???? Seria muito bom, mas de que adiantaria?
Daí começaria denovo e provavelmente cometeria os mesmos erros com as mesmas coisas e pessoas ... coisa mais medíocre impossível!!!
Ops, tua colega notou que teu botão está a ponto de estourar! Droga! Se eu estivesse com roupa nova ninguém notaria, mas uma sujeira de feijão no dente ... ah, daí toda a torcida do flamengo notaria !!!
Tlec, tlec, tlec, meus dedos vão frenéticamente digitando e digitando e o ponteiro do relógio vai correndo ....
Quem foi o idiota que deletou meus arquivos particulares? Eu! Sem querer esbarrei no "delete" ... Ainda tento me desculpar ... "azar o teu" ... grrr mocinho ou bandido, mocinho ou bandido, mocinho ou bandido .... BANG BANG BANG ....
Quem morreu???
Mocinho?
Bandido?
Não, foi apenas eu que matei uma mosca que pousou na minha sopa, digo na minha mesa ... pobre bichinho ...
Coisa mais louca ... sigo minha nostálgica rotina ... enquanto que você que se dispôs a ler esse texto maluco tá aí perdendo um pouquinho do teu tão precioso tempo, saindo um pouquinho da tua importante rotina de trabalho ... "vamos trabalhe" dizem eles .... loucos insensatos.... querem nosso sangue, isso sim ...
Chega de briga!
Meu eu se acalmou ... posso voltar a minha vida ... boa vida ... boa vida uma ova!!!

P.S. Descobri que peguei a camisa da minha amiga que mora comigo por engano ... ainda há uma chance pra mim ....

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Outono

O outono é, em definitivo, a estação dos cafés. E não só dos cafés. Há, afinal, estação mais privilegiada para o romance do que o outono? Você poderá me dizer que o calor do verão, todo o suor e a sensualidade emanada das propagandas de cerveja, por que, afinal, moramos em um “país tropical”, são mais compatíveis com nosso sentimento caliente. É direito seu levantar este argumento, se interessado você estiver em me contradizer. Ainda assim, continuarei a defender com veemência o outono. Precedente ao verão, no outono vão longe os dias de agitação dos corpos aos sons dos tradicionais hits que se criam nesta estação de praia, biquíni e sunga (e há que se respeitar os ainda tradicionalistas usuários de sunga!), não há mais os hormônios atiçados pelo demoníaco calor, as lambadas (ainda existem as lambadas?) que fazem saracotear os corpos das lordosas moças com suas curvas intermináveis e carnes deliciosamente expostas. Como resistir a estes encantos do verão? Como não cair em tentações infinitas, em traições, em acintosas e deleitosas incursões pelos corpos bronzeados que se colocam à nossa disposição com seus desafiantes piercings a cingir umbigos?

No entanto, e é este o ponto que acho para dar mais valor ao meu conceito inicial, sabemos nós o quanto os sentimentos propagados no verão se devem mais ao frenesi, a loucura e descontrole hormonal que nos tornam novamente como que habitantes do tempo das cavernas. É o calor o culpado. Funde a cuca, este infeliz. Faz cozido daquela específica área responsável pela razão a nos dizer: “Não, João. A morena dançando lambada é um espetáculo, eu sei. Mas não esquece a Maria em casa, João. A Maria está te esperando...”. E quantas vezes não mandamos a Maria às favas pela queimadura de terceiro grau em nossos cérebros, causada pelo tenebroso, indecoroso e inconseqüente sol do verão?

Agora, no outono, foi-se o calor. Não há desculpa alguma para a razão não ser a principal motivadora dos nossos atos. De tempos e de estudos sabemos o quanto o frio contribui para o desenvolvimento de nações mais intelectualmente privilegiadas, com altos índices de inclusão escolar e notáveis desempenhos geniais. Nos dias de frio só pertencemos a nós mesmos. Cada passo dado parece-nos mais claro, as folhas secas a crepitarem sob os nossos pés adquirem contornos os mais nítidos possíveis. Parece que cada frase que sai de nossa boca é reforçada por uma remasterização rica em efeitos 5.1. Os erros cometidos no outono estão sob nossa total responsabilidade. Não há desculpas para impulsos desmedidos, gestos “esquentados”, por que não há “quentura” que os justifiquem. O que há são os cafés. As vozes fortes e límpidas. Os casacos, as mesas das cafeterias. Os romances. E, principalmente, os romances nas cafeterias.

“Ele está apaixonado!”, pode estar você a pensar. Não necessariamente, ainda que eu diga que sim. E pela mesma mulher. De antes e antes. O outono clareou meus pensamentos, fez me dar valor a cada pequeno gesto, cada afago na face enquanto o cappuccino não chega. O nariz gelado na bochecha nesta hora parece o mais carinhoso dos gestos. E o dividir da xícara fumegante e espumosa a mais altruísta das atitudes.

Sim, não há mais o “living la vida loca”. Combina mais agora um Los Hermanos a embalar as tardes de sábado acompanhado embaixo do edredon. E os chocolates, as leituras conjuntas e os pés gelados. Deus estava inspirado quando decidiu que um dia os casais esquentariam seus pés mutuamente. Se este gesto fosse melhor sentido e entendido em toda a sua profundidade, quantos conflitos o mundo não evitaria!

Viva o outono e os pés gelados. Sem esquecer dos cafés, é claro.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Caixa do Banco

Um discreto aceno autorizou minha aproximação do balcão, onde o caixa, cabisbaixo, concentrava-se na burocracia que a cliente anterior havia gerado. Alcancei a conta de água e o dinheiro. Sem desviar o olhar do que fazia, estendeu a mão e pegou os papéis. Neles passou os olhos, teclou na maquininha, conferiu o dinheiro, fez a operação de registro e encontrou as moedas certas para o troco. Colocou tudo ao meu alcance no balcão à sua frente. Ensaiei um muito obrigado, mas não teve jeito, não saiu. Não vi a cor dos olhos do sujeito e tive a desagradável sensação de que teria me sentido melhor com o caixa eletrônico. Restou-me apenas sair, enquanto o caixa do banco, cabisbaixo, concentrava-se na burocracia que eu acabara de gerar.

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann

Comentários

Só posso pensar em duas coisas quando vejo o número de comentários dos meus textos só posso pensar em duas coisas. A primeira delas, foi aventada pelo Alessandro Garcia no seu editorial, dizendo que meus textos eram muito bons. A segunda coisa que posso pensar é que meus textos são muito ruins. De diversas formas: mal escritos, difíceis de entender ou sem sentido.
Não queria escrever mais um texto sobre esta coisa do escrever pois há algumas semanas escrevi um texto baseado em leituras de Borges e Calvino.
Então estou aqui, vou escrever três textos, totalmente distintos para procurar satisfazer todos os gostos dos leitores do simplex.

Fandangos

Noites de luar, prendas buenachas. E eu, com meu violão.
Violão, o instrumento.
Que pode me levar as prendas, que estão sobre o luar.
Mas, se estão sobre o luar, aqui estão.
Porque preciso de meu violão?
(para fazer mandingas)


Mandingas

Faço tudo para te prender.
Mas tudo que faço é te perder.
Queria poder ter.
Poder te enfeitiçar.
Fetiche.
(para viver)

Viver

Minhocario, Viveiro.
Formigueiro.
Ligeiro.
Descobri que estou vivo.
As formigas me morderam
(e está doendo para burro).

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Diálogos com Deus
Rafael Luiz Reinehr

Deus e Maria no almoço


- Passa o sal.

- Com ferro de passar ?

- Deixa de ser boba! Me alcance o sal!

- Como se diz?

- Como assim, como se diz?

- Qual é a palavrinha mágica?

- Abracadabra!

- Não! Agora é você quem está bancando o bobo! Que palavra mágica se usa quando pedimos um favor?

- Hum... – Deus pára, pensativo.

- Vamos lá! Não é tão difícil assim! – estimula Maria.

- Já sei! Por favor!

- Muito bem! Tome aí o sal! Mas não vai exagerar que sua pressão já anda meio alta, ouviu?

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Paradoxo
Fabricio Pessôa


Te amo
Porém não te quero
E paciente espero
A morte desse amor

Te amo
Entretanto não é como antes
Relembrar nossos lindos instantes
Agora só causa dor

Te amo
Mas quero deixar de te amar
Estou certo que vou superar
Essa fase ruim

Te amo
Tanto, que não posso te olhar
Porém conseguirei matar
Esse maldito amor que há em mim.

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Ombudsman
Maurício Silveira dos Santos

Bye Bye, So Long, Farewell

Como diz (o sábio) Guilherme Arantes: “Adeus também foi feito pra se dizer, bye bye, so long, farewell”. Assim me despeço (liberto) desta coluna que me divertiu muito e incomodou um pouco. Espero que tenha sido bom para alguns de vocês também. A coluna deve sobreviver e é missão do nosso nobre editor selecionar o(s) novo(s) ombudsman(en). Há alguém interessado?

Quanto a mim leitores, pretendo sobreviver à morte do ombudsman que me habitou nestes meses e iniciar um novo espaço no louvado Simplicíssimo. Se chamará (eu já obtive autorização do Tenente-editor) Pequenas Resenhas Canalhas e tratará a cada duas edições de resenhar um livro qualquer adquirido em um sebo qualquer sem um motivo muito específico além da percepção de que é uma obra “interessante”(por mais amplo que isto possa parecer). Diferentemente do extinto ‘caderno de resenhas’ da Folha de São Paulo onde boa parte dos resenhistas fazia um enorme e descarado esforço para exalar erudição a ponto de gerar suspeitas de que desejavam parecer mais sábios que o autor do livro que pretendiam comentar, as resenhas da nossa coluna serão concisas e canalhas (canalhice que só é possível para o homem comprometido apenas com o seu desejo de ler e escrever), tudo no intuito de tornar o livro comentado ou trechos dele interessantes e relevantes, seja pelo motivo que for, das mais nobres às menos nobres razões, por meio de elogios lambidos ou críticas estaladas. Abraço a todos e até a primeira ‘Pequena Resenha Canalha’, em duas semanas.

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SUPER Desafio Simplex

O Desafio Simplex agora é Super!

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A Lista dos Competidores que pontuaram, por ordem (provisória de classificação na corrida pelos 89 CDs!:

Luiz Antonio Ribeiro (Petrópolis - RJ) - 30 pontos

Alessandro Sachetti (?) - 30 pontos

Corina Abreu (Rio de Janeiro - RJ) - 20 pontos

Rebeca Campani Donazar ( Porto Alegre - RS) - 10 pts.

Pedro Volkmann (Porto Alegre - RS) - 10 pontos

Diego Altieri. Silveira (Sapucaisa do Su l- RS) - 10 pontos

Roberto Iukio Iwai (São Paulo - SP) - 10 pontos

Esses são os competidores que acertaram, respectivamente, 3, 2 e 1 dos 89 (oitenta e nove!!!) CDs a serem dados nas próximas semanas, até a edição de aniversário de 1 ano do site, em 26 de junho próximo.

O próximo Desafio já está aí. Acesse o Super Desafio Simplex e participe! Divulgue para seus amigos, façam um bolão e dividam os prêmios!

LEMBRE-SE: durante a semana, a qualquer momento, podemos estabelecer uma prova relâmpago onde quem cumprir primeiro a tarefa leva os pontos! Esteja atento!


E ELE FINALMENTE CHEGOU!


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e depois nos avise!


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

 

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