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Editorial

Editorial do Ed: é TRI!!!

Há 6 semanas atrás o ilustríssimo Rafael Reinehr avisou-me da tarefa de escrever o editorial da edição 79, que seria o Editorial do Ed. Mal ele sabia que os acontecimentos deste último final de semana seriam um prato cheio para o meu editorial, o Editorial do Ed. Bem, eu poderia falar aqui sobre muita coisa que aconteceu, está acontecendo, vai acontecer ou que eu gostaria ou não que acontecesse. Poderia ser a perda do mundialmente querido ator e ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, que há 1 década já padecia da Doença de Azheimer, mas o Editorial é do Ed. Eu poderia falar aqui do crescimento do mercado informal, resultante da absurda política tributária, que tem um dedo do Lula (ahá, então foi aqui que ele perdeu o minguinho) e de outros tantos com e sem anel de doutor, mas o Editorial é do Ed. Quase que eu falo aqui dos 60 anos do Dia D, um marco histórico do início da derrocada nazista pelas forças de quase todo o resto do mundo, mas este Editorial é do Ed.

E o Editorial do Ed, é dedicado a dois recentes campeões do esporte gaúcho: o Internacional de Porto Alegre e o Mário Wink Sabbi de Santa Cruz do Sul. Mário, que já havia consagrado-se campeão de Padel em sua categoria no ano de 2003, seguiu acertadamente com seu fiel escudeiro, Guilherme Silva.O resultado? Neste domingo eles arrasaram nas quadras do Mega Padel em Porto Alegre. Valeu não apenas a conquista da etapa, mas também a sua consolidação como primeiro no ranking em sua categoria. E o tiozão aqui não poderia deixar por menos, senão citá-lo num editorial, o Editorial do Ed.

Já o Inter... Ah o Inter! O glorioso Inter invadiu a casa do adversário tricolor (azul, grená e branco) que mais uma vez não era o Grêmio (e eu nem me lembro quanto tempo faz) na disputa pelo título gaúcho de 2004. E, sob os olhos da sua imensa torcida alvi-rubra da qual o Ed, do Editorial do Ed, faz parte, assegurou a conquista do tricampeonato consecutivo, seu 36º título no certame. É a confirmação de que “Essa terra tem dono”, frase que circulou em vários outdoors colorados da capital gaúcha. O sertão do estádio da Ulbra virou mar, um mar vermelho de pura alegria e vibração digna dos campeões, enquanto a Azenha, sem comando e com Football no nome, reivindica ser dono do melhor site, ter um grande museu e estar com as dependências do seu estádio recém pintadas. “Ah! Eu tô maluco!”, mas pouco importa, pois este Editorial é do Ed e o Editorial do Ed agora é TRI, sabidamente TRI, incontestavelmente TRI!!!

Eduardo Hostyn Sabbi
Editor Interino

Clique aqui para ver a figura de fundo original - vale a pena!!!
(Retirada do site Página Colorada)

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Cegueira
Daniela Castilho

“A criança que nasceu cega não sabe o que é enxergar, tampouco tem consciência do que é que as outras pessoas enxergam.”
Kay Alicyn Ferrel
Suggestions for Raising Young Blind & Visually Impaired Children

“O amor que não é cego, não é amor.”
Honoré de Balzac

Ela era cega de nascença. Jamais tinha visto o sol, o céu, nada, seu mundo se resumia à escuridão. Aprendeu a conhecer as coisas pelo que as outras pessoas lhe contavam, pelas descrições que lhe faziam. Aprendeu a distinguir cada mínima entonação de voz, cada respiração, cada pausa, cada emoção da pessoa que lhe narrava a beleza do que estava vendo e assim, aprendeu a compreender a beleza através dos olhos dos outros. Ela não sabia como eram as cores, mas associando cada cor com o modo como as pessoas falam percebia que quando alguém lhe dizia "hoje o céu está tão azul" que o azul devia ser algo muito bonito, ou que quando alguém comentava “que flor tão bonita!” que a beleza de uma flor devia ser algo realmente especial de se ver, e ficava imaginando se a beleza da flor seria comparável a delícia de seu perfume ou ao carinho do toque das pétalas.
As descrições eram suficientes para que ela percebesse cada coisa do mundo, se comunicasse com as pessoas e assim, ela ia vivendo, mesmo cega, e sentia-se feliz.
Em um sábado de sol, ela o conheceu por acaso: ele se enganou de número e telefonou para a casa dela. A voz dele chamou sua atenção pelo tom alegre e ele foi tão gentil e simpático que, ao invés de responder com um simples “desculpe, é um engano” e desligar, ela iniciou uma animada conversa e quando os dois perceberam, estavam ao telefone há quase três horas. Ele passou a telefonar para ela todos os finais de semana, as conversas recheadas de inteligência, ele rindo um riso cheio e sonoro, contando dos passeios com seus amigos na chuva, das luzes das avenidas principais, dos filmes no cinema, dos livros curiosos que lhe pediam para ler na faculdade, das pessoas que via diariamente no ônibus. Tornaram-se amigos rapidamente. Com ele, ela aprendeu uma gama de descrições e sensações novas que enriqueceram a escuridão natural de seus dias. O ponto de vista dele era diferente de tudo que apreendera dos outros até então. Ela aprendeu a identificar a voz dele, aprendeu os significados dessa voz, as pequenas nuances de entonação, seus silêncios, o ritmo de sua respiração, cada mínima alteração, aprendeu a conhecê-lo bem, mesmo sem nunca tê-lo visto.
Ela jamais disse à ele que era cega.
Em um sábado, depois de várias semanas de conversa, numa manhã em que falavam sobre poesia, ele finalmente sugeriu que se conhecessem em pessoa. Ela pediu para pensar um pouco antes de responder, ele ficou em silêncio alguns segundos, antes de dizer um “tudo bem” num tom de voz pouco à vontade. Ele tinha estranhado a hesitação dela e ela percebeu. Eles ainda conversaram mais um pouco, e depois que ele desligou, ela descobriu que, pela primeira vez, tinha medo de dar-se a conhecer para alguém, mas queria intensamente conhecê-lo.
O que ele pensaria dela?
Tinham-lhe dito diversas vezes na vida que era bonita, mas em geral, quem dizia isso eram pessoas amigas ou sua família, que gostavam dela desde sempre.
Será que ela era mesmo bonita?
Ela passou a semana em suas atividades normais, mas sempre pensando no que iria dizer a ele. Ensaiou e repassou diálogos em sua mente, imaginando a reação dele a variadas respostas.
Será que ele gostaria dela depois de conhecê-la em pessoa?
No sábado, quando o telefone tocou, ela atendeu, conversou normalmente com ele, mas não tocou no assunto. No finalzinho da conversa, ele fez um prolongado silêncio na linha e perguntou novamente se ela não queria combinar para se conhecerem em pessoa. Ela respirou fundo, criando coragem, e finalmente respondeu que sim, tudo bem, e marcaram um encontro diante do cinema do centro para aquela mesma tarde, ela achou uma boa solução, quanto menos tempo tivesse para repensar a respeito maior coragem teria para ir, ele perguntou se ela sabia onde era e ela respondeu que sim, combinaram como se faz há séculos, o primeiro encontro de estranhos, ela disse que estaria de óculos escuros, de blusa azul e ele disse que estaria de blusa amarela. Desligaram. Ela pediu à mãe que separasse uma blusa azul para ela usar. Decidiu que esperaria que ele a abordasse, ela reconheceria sua voz mesmo a quilômetros de distância, mesmo em meio a uma multidão.
Ela chegou na praça diante do cinema pontualmente. Agora não tinha mais como voltar atrás. Sentou-se num dos bancos da praça, olhando o nada com seus olhos vazios, levemente apreensiva. As horas passaram. Ela finalmente convenceu-se de que ele não apareceria. Voltou para casa, desolada.
A semana transcorreu em silêncio. Ela não telefonou para ele, não fez nada, não quis conversar com ninguém a respeito. Na sexta-feira, triste e angustiada com a situação, ela finalmente intimou a irmã com desespero, perguntando-lhe se realmente era bonita, se não tinha nascido feia ou repulsiva, procurando uma razão para ter sido rejeitada daquela maneira. A irmã garantiu-lhe que não, chocada com a tempestade de sentimentos, e assegurou-lhe que ela era bonita, especial, que ninguém que a conhecesse ou visse poderia jamais, jamais sentir repulsa por ela. Aquelas palavras não a consolaram. Não havia qualquer coisa que a consolasse.
O sábado chegou novamente e o telefone não tocou a manhã toda. Ela tentou, timidamente, telefonar para ele, foi atendida por uma gravação comercial que a informou profissionalmente que aquele número de telefone havia sido desligado.
Teria sido um sonho?
Mais uma semana passou-se, morna, devagar, mais um sábado chegou. Próximo ao meio-dia, quando o ar estava quieto como nos momentos que antecedem uma tempestade, o telefone tocou uma, duas vezes. Ela atendeu sem pensar, disse o “Alô” com um tom indiferente na voz e escutou aquela voz tão familiar dele respondendo do outro lado. Ficou muda, a respiração suspensa no ar por um segundo.
“Eu sinto tanto, tanto” – disse ele num tom desolado como um dia de verão no concreto da cidade – “Eu sinto muito, imagino como você deve ter ficado triste, eu vi você ali, desamparada, sozinha, linda... mas assim que eu a vi eu pensei, não, eu não sou bom o bastante para ela, eu não a mereço, eu não posso fazer isso com ela.”
Ela o interrompeu, o nó subindo a garganta, prestes a explodir em decepção.
“Como você pode dizer isso? Por favor, por que não fala logo que a razão é que eu é que não sou bonita o suficiente...”
“Eu nunca te disse” – continuou ele, interrompendo-a e controlando a própria emoção na voz – “porque eu pensei que podia, mas descobri que não, que não poderia nunca, eu pensei que eu fosse capaz de vencer essa barreira, mas eu não posso. Eu sofri um acidente há dois anos, eu tenho grande parte do corpo coberto de cicatrizes, eu não suporto nem me olhar no espelho de manhã... e quando cheguei lá na praça, eu te vi tão linda, sentada no banco, vestida de azul, de óculos escuros, e percebi que não poderia, nunca, nunca, deixar que você olhasse para mim, visse que tipo de monstro eu sou, que tipo de criatura horrível eu me tornei. Eu sinto tanto, eu pensei que podia, mas não pude. Eu nem queria te contar isso, eu preferia que você jamais soubesse, mas é que eu não quis que você se sentisse mal, eu estou te contando apenas para que você saiba que não é você, você é mais que perfeita, você é maravilhosa, sou eu que... ” – ele se calou.
Agora ela chorava abertamente, incrédula, magoada.
“Oh, meu Deus!” – falou ela finalmente, entre as lágrimas – “Eu sou cega.”
O silêncio entre eles durou um vôo de borboleta inteiro, ela ouviu-o soluçar do outro lado do fone desconsoladamente e então, ele desligou.

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Pequenas Resenhas Canalhas
Maurício Silveira dos Santos

Quando você pensa em poesia, que imagem surge em sua mente? São múltiplas as possibilidades, da lírica mais rocambolesca à secura da estética concretista, por exemplo. Há uma característica, contudo, muito freqüente no mundo da poesia: uma certa tonalidade nobre, altiva, que parece impor a si mesma a grandiosa missão de tratar das profundidades da alma ou talvez denunciar as injustiças e os descompassos da humanidade. À margem deste circuito surgem, de tempos em tempos, os chamados poetas marginais (alguns bem menos marginais do que se pretendem). Eles se dedicam a avacalhar com o que foi estabelecido e acabou por se tornar uma lei, um parâmetro, um cânone. E é aqui que iniciamos nossa resenha canalha propriamente dita: Glauco Mattoso é o marginal dos marginais da poesia brasileira.

Foi num extinto e saudoso sebo do bairro Bom Fim que encontrei ‘Centopéia –Sonetos nojentos e Queijandos’. Eu participava de uma greve e não havia algo mais apropriado naquele momento do que caçar alta literatura pelos cantos da cidade – nunca esperem me encontrar em piquetes ou rodinhas de chimarrão de grevistas, é repugnante! Voltemos ao ‘Centopéia’. O livro contém 100 sonetos em estilo camoniano. O autor justifica sua escolha pelo soneto explicando que é a melhor forma de dar conta da sua angústia sem abrir mão do pé, um fetiche arraigado, que “agora se eleva à categoria de célula temática, em torno da qual cada poema funciona como variação orquestral”. E de pé sujo em pé sujo, de lambida em lambida, de sebinho em sebinho; o poeta vai destilando seu veneno, na opinião de alguns, o único remédio cabível para uma literatura doente, uma espécie de “sadomasoquismo purificador”. À primeira leitura pode parecer estranho. A formalidade calculada e rígida dos sonetos como moldura e uma verdadeira descida aos esgotos da alma como cenário. Crueldade, submissão, secreções de todos os tipos, mau cheiro, insetos repugnantes e muitos, muitos pés sujos. É como se a vida fosse uma imensa sola suja de coturno e o Glauco, nosso poeta, sedento de desejo, sempre estivesse louco para lambê-la até cansar.

O pseudônimo Glauco Mattoso se originou da doença (glaucoma) que deixou o poeta cego, apesar de vários tratamentos e cirurgias. Podólara declarado, ele tem uma admirável obra (poesia, ficção, ensaios traduções...) publicada nos últimos cerca de 30 anos, que é estudada também no exterior. Aí está talvez uma das maiores riquezas desta obra, ter a capacidade de almoçar no inferno e jantar no Olimpo. O livro ‘Centopéia’ seria uma boa “introdução” à obra poética de Glauco, se isso fizesse algum sentido. Deixo com vocês um soneto, que vale muitíssimo mais do que todo esse lero-lero de “leitor de orelha”. Abraços e lá vai:

SEGUNDO SONETO NOJENTO

Se o pão dormido vira uma borracha;
se o leite está repleto de bichinho;
filé de bacalhau só tem espinho;
e surge uma perninha na bolacha;

Se um cheiro bom de açougue ninguém acha;
se é mais fedido o lixo do vizinho;
vinagre é o que devia ser bom vinho;
patê de caviar parece graxa;

Se maionese tem sabor suspeito;
se o molho pronto é preto, e não vermelho;
se vem nervo demais no prato feito;

Se até sopa de lata tem pentelho,
por que ninguém respeita o meu direito
de degustar chulé num vão de artelho?

ps- a próxima resenha tratará de um livro sobre o amor, para variar um pouquinho...

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

O Amor te surpreendeu bebendo leite

O Amor te surpreendeu se embriagando com leite-de-onça pelo Bar João. No princípio, Ele quase te confundiu com o sujeito engomadinho que enchia a cara de cachaça de butiá na mesa ao lado da tua. No entanto, como não cabe a Ele se enganar, atingiu-te em cheio bem no momento em que tu caminhavas para pagar a tua conta para a mocinha do caixa. De maneira que, estando já devidamente embriagado, o quase cambaleio engendrado por tuas pernas não chegou a te surpreender – como saberias tu ser a flecha que o Amor te lançou, bem ali, na coluna cervical? – e tu te recompuseste com incrível agilidade até para alguém que emborcou doses de destilado tão doce quanto o maldito leite-de-onça. Desta maneira, com a dignidade que ainda restava (e sempre resta) aos ébrios bebedores de cachaças adocicadas, tomaste tu novamente o rumo do caixa e foi ao encontro da mocinha de tranças ruivas que esperava com demasiada paciência, é verdade, mas como saberemos nós o que vai ao coração destas mocinhas de tranças ruivas que atendem no caixa de botecos sujos como o Bar João, sempre a receber notas ainda mais sujas nas mãos de cachaceiros diversos? Conseguido terminar o trajeto, estendeste a nota amassada, como todo dinheiro de bêbado costuma ser, para a mocinha que a recebeu com uma solicitude acima da média. Ainda que estando bêbado, tu conseguiste perceber, ah, eu sei que conseguiste!, quando ela deu uma risadinha pra ti, bem na mesma hora em que perguntava se tu não tinhas trocado. Ao contrário da rispidez que sempre esteve acompanhando as tuas respostas a gordos e escrotos atendentes de botecos os mais diversos a que estás acostumado a beber leite-de-onça (embora o leite-de-onça do Bar João continue, imbativelmente, sendo o melhor, por algum motivo místico, é verdade. Coisa que, no momento, não vale a pena debatermos, até por que, se escolhêssemos entrar em tais discussões, sairíamos em excesso do rumo de nossa fábula), quando teus olhos encontraram a pele sardenta da mocinha que atende o famigerado boteco e pé-sujo Bar João, tu mesmo, dentro da rispidez tão própria que te caracteriza, contrária ao doce enjoativo do leite-de-onça que emborcas com freqüência, te surpreendeste com a doçura que saiu de tua voz e, ao invés de responder um mal-educado “se eu tivesse trocado eu teria te dado”, tu conseguiste balbuciar, suavemente, ainda que com o enjoativo hálito de cachaceiro, “não, infelizmente não tenho...”. Ah, foi neste momento, eu tenho certeza! Foi neste exato momento que o Amor parou de jogar a partida de sinuca que tinha iniciado com aquele estudante riponga de História que tomava Fanta Uva de canudinho – com uma coragem adquirida não sei onde, admito – e se voltou para a direção onde tu e a mocinha de tranças ruivas iniciavam, naquele exato momento, uma espécie de conversa, tão entremeada de balbúcios desconexos de bebum que tu sempre fostes, mas, ainda assim, adornada de doçura e leveza. As palavras se revestiam de tal encanto quando escapavam da tua boca, que o Amor julgou que tinha cumprido felizmente a sua missão e, malandramente, com um descuido do riponga estudante de História, tratou de rapar da mesa o dinheiro que tinha apostado e, dando-se por satisfeito, sumiu daquele ambiente sórdido, mas repleto do seu amor (sim, por que o Amor lança flechinhas de amor!), com a mesma rapidez e agilidade com que, sem ser convidado, surgira, para calçar desconforto, sim, mas, mais do que isto, também encanto, magia e paixão na vida daqueles dois seres tão díspares que descobriram que tinham muito em comum e não descartaram em nenhum momento a possibilidade de uma vida conjunta, para todo o sempre, amém.

Ah, e isto é uma fábula romântica.

Fim.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

O Caso da Vovó Enjaulada

Junho de 2006, Montenegro-RS. Uma senhora de 68 anos é condenada à prisão já que o filho deixou de pagar pensão à neta e simplesmente desapareceu. Impossível deixar de lado toda a comoção nacional pela pobre velhinha que padece de vários males crônicos de saúde e, por isso mesmo, não dispõe do dinheiro da pensão. Entendendo a aplicação da regra neste caso como um exagero, a Justiça se recusou a cumprir o mandado da Justiça (sim, é para confundir a cuca mesmo) e a prisão foi “apenas” domiciliar. Cerca de 24 horas depois, o defensor público reverteu a tragédia com a presença do super-herói habeas corpus (que imagino tenha HC bordado no peito).

Para uma discussão mais aprofundada do caso, vejamos o que diz alguns trechos do Estatuto do Idoso:

Art. 10. É obrigação do Estado e da sociedade, assegurar à pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais, garantidos na Constituição e nas leis. (...)
- § 2o O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, de valores, idéias e crenças, dos espaços e dos objetos pessoais.
- § 3o É dever de todos zelar pela dignidade do idoso, colocando-o a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Art. 15. É assegurada a atenção integral à saúde do idoso, por intermédio do Sistema Único de Saúde – SUS.(...)
- § 2o Incumbe ao Poder Público fornecer aos idosos, gratuitamente, medicamentos, especialmente os de uso continuado, assim como próteses, órteses e outros recursos relativos ao tratamento, habilitação ou reabilitação.

Art. 19. Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contraidoso serão obrigatoriamente comunicados pelos profissionais de saúde

Art. 96. (...)
- Pena – reclusão de 6 (seis) meses a 1 (um) ano e multa.
- § 1o Na mesma pena incorre quem desdenhar, humilhar, menosprezar ou discriminar pessoa idosa, por qualquer motivo.
- § 2o A pena será aumentada de 1/3 (um terço) se a vítima se encontrar sob os cuidados ou responsabilidade do agente.

Art. 99. Expor a perigo a integridade e a saúde, física ou psíquica, do idoso, submetendo-o a condições desumanas ou degradantes ou privando-o de alimentos e cuidados indispensáveis, quando obrigado a fazê-lo, ou sujeitando-o a trabalho excessivo ou inadequado:
- Pena – detenção de 2 (dois) meses a 1 (um) ano e multa.

Mas chega de lei. Aos Sherlocks de plantão, aqui vai a pergunta que não quer calar: quem é o verdadeiro culpado nesta lambança toda e por quê?

a) A própria vovozinha, por ter gerado o filho desaparecido?
b) O filho que tomou o chá por ter abandonado a todos?
c) O filho, por ter dados netos à vovozinha?
d) O filho, ao se casar com a mulher que entrou com a ação?
e) A nora, por ter entrado com a ação?
f) O casal, por terem tido os netos da vovozinha?
g) Os netos, por serem netos?
h) O Legislativo, por ter feito uma lei estúpida?
i) O Judiciário, por seguir a injusta e estúpida lei ao invés de caçar o filho?
j) O Oficial de Justiça, que em crise de compaixão mudou a pena para prisão domiciliar?
k) O Defensor Público que entrou com o habeas corpus sei lá por quê?
l) O super-herói, esse tal de habeas corpus que eu nunca sei do que se trata?
m) A mídia que expôs a vovozinha para o Brasil inteiro?
n) O povo brasileiro, que assistiu a tudo de braços cruzados, como de costume?
o) O Poder Público (quem?), que não paga os remédios pra vovozinha, já que somos um país rico que pode fazer do SUS uma realidade?
p) Os profissionais de saúde, que nem entraram na história, mas deveriam realizar denúncia de maus tratos?

q) O Paim, que fez o Estatuto que incrimina todos os acima?
r) Outro (indicar no comentário), porque se for colocar todo mundo aqui vai acabar o alfabeto.

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

Eu, Eu Mesmo e Eu Amanhã

Amanhã, quando eu acordar, estarei rindo das besteiras que fiz hoje. É muito legal quando a gente se dá conta de onde partimos e para onde vamos. O problema é que para chegar, temos que ir de um ponto a outro e ninguém conhece o caminho a seguir. O caminho é só nosso. Pode ser que muitas pessoas já o tenham trilhado. Mas não tem como saber. Não é possível chegar até elas. A gente não quer, não pode ou não tem como chegar até estas pessoas.
Por isto, sigo sozinho, curtindo minha solitária busca para s(t)er alguém.
Ontem gritei com alguém que não merecia, amanhã também.
Não gostei do texto da semana passada, pode ser que eu troque de opinião.
Pode ser que não.
Erro todos os dias, que bom. Que ruim.
Acerto todos os dias, que ruim, que bom.
Agora, tem textos que eu gosto, desde o dia que os escrevi. São daquele tipo, das coisas que não mudam em mim. Ou será que eu gosto porque já mudei?
Será que eles representam eu mesmo? Ou será que os textos que não gosto mais é que verdadeiramente me representavam?
Será que eu consigo gostar de mim, de eu, eu mesmo e eu amanhã?
Sei lá, eu sou eu mesmo, ontem, hoje e amanhã.
Um pouco mudado, cada dia, cada noite, em cada conversa com você.
Vivo analisando os outros para achar pedaços de mim mesmo, fora de mim. Pedaços que gosto, que odeio, que não me importo.
Mais estranho é saber que os acertos que tinha ontem, já não os tenho hoje.
Máscaras estranhas estas, entranhadas no mais fundo eu.
Máscaras de antigas dores, odores, suores, seduções e decepções. Máscaras de riso, analfabetizadas pelo inconsciente. Que a gente julga consciente.
Ontem estava brabo, hoje apreensivo. A felicidade vem em gotas. De fel.
Mais do que isto, aquilo. Noites ao vento, noites sedento do teu amor.
Será que amanhã pode ser ontem? Ontem poderá ser amanhã?
Eu mesmo posso ser o mesmo, ontem, hoje e amanhã?
Caminhadas em Ipanema, noites na Lima, madrugadas na cama.
Tem um pedaço de mim, em cada passo, repasso.
Se tiver que fazer de novo, não sei se faço, se calo, se amo.
O melhor de mim, está por vir, pois sempre será amanhã.
Ou ontem.
É besteira eu sei, saber tudo isto, o que importa é viver, como não existisse ontem ou amanhã.
Vivo de hoje, vivo de festa, vivo da raiva, de amar e odiar você.
Vivo das certezas que hoje não é amanhã.
Amanhã só amanhã, se bem que eu escrevi este texto ontem (hoje) e você está lendo amanhã (hoje). Que coisa sem nexo, pode a literatura ter a velocidade da luz? De dizer coisas ontem que valem amanhã?
Tomara que pelo menos, amanhã eu não ame ou odeie o que eu escrevi.

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Diálogos com Deus
Rafael Luiz Reinehr

Deus e a cólica biliar

Maria e Jesus levam Deus às pressas ao Pronto Socorro:

- Maria, me ajuuuude! Não agüento mais a dor!

Maria: - Doutor, doutor, acuda! Meu marido está passando muit mal! Ele não é de fazer fita!

- Não se preocupe dona! Seu marido sairá daqui são e salvo ou não me chamo Doutor Baratta!

Depois que o médico lhe examina e faz alguns exames de sangue e uma ultrassonografia abdominal, chega o diagnóstico: cólica biliar.

-Seu Deus, o senhor está com uma pedra na vesícula. Vamos ter que lhe operar.

- Operar? Sem essa! Quem opera milagres aqui sou eu!

- Mas... - tenta interceder o médico...

- Deixa comigo - diz Maria.

- Escuta aqui, senhor Deus Oni da Silva! Vamos deixar de agir como criança! Se o médico diz que vai ter que operar, vamos operar sim senhor!

- Mas, mas... Querida!...

- Sem mas-mas-mas! Não tem discussão! Viu no que deu todos aqueles churrascos, aquela carne gordurosa? Agora agüenta as pontas queridinho!

Voltando-se para o doutor: - Ele vai operar sim doutor. É só marcar.

- Bem, assim sendo, vejo que entraram em um consenso. A cirurgia será daqui a 2 horas. Vou me preparar.

E deu de costas rumo à sala de emergência para tomar as providências cabíveis, enquanto Deus olhava seu algoz se afastar, com olhinhos pequeninos qual cachorro pidão, ainda tentando reverter a situação.

- Maria...

- Que foi!? - ollhando séria.

(vendo que não havia mais o que fazer) - Fica comigo na sala de cirurgia?

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Incólume Passageiro
Rafael Luiz Reinehr


Incólume passageiro
Navegante disfarçado
Neste mar de sensações

Como podes ser tão insensível
O que te faz cruzar assim
A estrada das emoções?

De que é feita tua carcaça
Como resiste tua blindagem
Ao amor e ódio que tentam,
Em vão te dissuadir?

Pelas ruas por onde andas
Por onde andamos todos nós
Segues firme teu destino
Nada te faz parar

E por mais que tente
Não consigo te entender
Quais as forças que te mantém
Incólume passageiro

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Ombudsman
Marcos Claudino

Ombudsman, eu???

Olá amigo, muito prazer... Cá estou, numa madrugada gelada, em Sampa, digitando com luvas de lã, tentando fazer uma justa análise da edição 078 do nosso amado simplicíssimo.
Tentarei, juro. O resultado, as indignações e reclamações serão levadas a sério, prometo... Basta você anotar nesse ícone abaixo...
Começo com uma impressão que já foi dita por outros.
Os poucos comentários preocupam. Gostaríamos mesmo que mais e
mais pessoas registrassem suas opiniões, pois o intuito não é agradar a todos, mas chegar ao maior número de leitores. E os comentários são mesmo um termômetro desse alcance.
Já de começo, o amigo Maurício Silveira manda um editorial diferente, irreverente, e que todos nós, que demos nossa palavra, já vivenciamos. Tão ou mais importante que o texto bem sacado, os comentários anexos foram muito gratos a este projeto de crítico. Uma pena ser ficção o fato da irmã do colunista não haver realmente vindo pra Sampa...
(brincadeirinha, ok?)...
Conrad Rose deixou-me um pouco dolorido, mas deleitado num estilo de escrita bastante peculiar. Claro que o olhar de Deus para o corpo do infeliz traria uma excelente
oportunidade aos fantásticos “diálogos com deus”, que nosso tenente tão bem elucida por estas paragens. Bem vindo Conrad, o impecável.
Alessandro Garcia traz, e explica porquê, todos os acontecimentos possíveis em qualquer lugar do mundo, com pessoas, cães e até ovelhas (pôxa, nunca comi um churrasco de ovelha), para um único dia da semana. Um pouco duro, porque aos sábados, tantas coisas boas também podem ocorrer. Mas, se o intuito era mesmo o negativismo, conseguiu acertar em cheio...
Eduardo Sabbi ataca de poesia. Mundo novo aos meus olhos, vindo deste rico escritor. Romântico, lembrou Neruda,
Vinícius e tantos. Valeu à pena ler os comentários, onde o amigo Suiká complementa o poema, separando os queijos...
Agora, respondam-me, como criticá-los?
O esperado Diálogo com Deus, do nosso digníssimo tenente Rafael, deixa o pai celestial puto com o Bushinho...
Uma pena, pois o Onipotente poderia ter pensado em bilhões de pessoas mais interessantes, inteligentes, humanas, etc, etc, etc... O tema é realmente importante, saibamos.
Claudia Sleman (muito prazer, amiga...) chega
romântica, triste, desiludida por um amor não correspondido.
Claudia, você não é a única, mas ao menos sabe expressar bem seus sentimentos.
Enfim, amigos, esta foi a primeira, pode também ser a última, mas juro que tentei levar minha contribuição a este
simpático e admirado trabalho, mostrado semanalmente aqui no simplicíssimo...
E que venham as farpas!!!
Abraços!!

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SUPER Desafio Simplex

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Luciano Trevisan (Júlio de Castilhos - RS) - 240 pontos

Luiz Antonio Ribeiro (Petrópolis - RJ) - 30 pontos

Corina Abreu (Rio de Janeiro - RJ) - 20 pontos

Daniel Rech (Porto Alegre - RS) - 20 pontos

Rebeca Campani Donazar ( Porto Alegre - RS) - 10 pts.

Pedro Volkmann (Porto Alegre - RS) - 10 pontos

Diego Altieri. Silveira (Sapucaisa do Sul- RS) - 10 pontos

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LEMBRE-SE: durante a semana, a qualquer momento, podemos estabelecer uma prova relâmpago onde quem cumprir primeiro a tarefa leva os pontos! Esteja atento!

Atenção! Os pontos dos Desafios Relâmpagos serão atualizados juntamente com o site, nas quartas-feiras!

SEGUE A LISTA COMPLETA DOS CDs (o primeiro a escolher o grupo de CDs é, obviamente, o vencedor da gincana, passando consecutivamente ao segundo e terceiro lugares e assim consecutivamente, até encerrarem os 10 grupos de premiação).

Coletâneas

Acervo Especial Rock
20 Preferidas Italianas
Globo Special Hits – 2
Rock Stars
Coletânea ShowBizz
Video Music Brasil 1996
A Música do Século 1, 2, 6
Novela em CD – melhores temas
Rock Reflections
A Revista Rock – 89
Os Incríveis Anos 50, 60 e 70

Rock Internacional

Sixties – UK
Woodstock Festival 1994
Dick Dale – Calling Up Spirits
The Doors – When The Music is Over
Metallica – Live in Concert
Bob Dylan´s Greatest Hits
The Wonders – That Thing You Do
10cc – The Collection
The 60´s Greatest Hits


Miscelâneas

De Las Alturas
Roger Whittaker
Sepultura – Chaos A.D.
Tutta Itália
Os Bons Tempos Estão de Volta
Rei Roberto e Erasmo Cantam
Molotov – Apocalypshit
Orquestra Românticos de Cuba – Romance no Cinema
Saturday Morning – Cartoons Greatest Hits
Fats Domino – The Best Of
Grupo Raça – Jeito de Felicidade
De Ros – Universe
De Ros – Ad Dei Gloriam
Richard Powell

Singles Importados da Inglaterra

Reef – Sweetie
Reef – I´ve got something to say
Reef – Sweetie
Garbage – You Look So Fine
Garbage – You Look So Fine

Pop & Rock Nacional

Ultraje a rigor – 2 é demais
RPM – Rádio Pirata
Cazuza – Ideologia
Devotos de Nossa Senhora Aparecida
Utopia – Edição Histórica
Barão Vermelho – Os dois primeiros
Inocentes – Subterrâneos

Reggae & Ska

Inner Circle – Forward Jah Jah People
The Reggae Collection – Keep On Moving (1 a 4) importado da Inglaterra
Mestres do Ska


Blues & Jazz

Blues & Soul – vol 2
Blues Invention – British
Sound The Trumpets – Gold Encore Series
Isley Brothers Greatest Motown Hits
Jimmi Whiterspoon – Cry The Blues
Quinteto Onze e Meia
Jazz – Saxfaction

MPB & Nacional

Chico Buarque – MPB Compositores
Catálogo dos Novos Talentos da MPB
Gilberto Gil – Quanta
Caetano Veloso – Sem Lenço Sem Documento
Chico Buarque – Instrumental
20 Preferidas – Bossa Nova
Tropicália 30 anos
Jorge Bem Jor – Música para tocar em elevador
Demônios da Garoa – Esses divinos
Vinícius de Moraes e Chico Buarque – A Arte do Encontro
20 Preferidas – Toquinho

Disco/Funk

Dee Lite – Dewdrops in the Garden
Funk Brasil
The Disco History
Groove Brasil
Funkín Soul – The Best Of
Partie Dancing – Around The World
Discoteca Folha da Música Brasileira – Dance
Depeche Mode – Ultra
Cartoon Networks Dance
Édson Cordeiro – Disco Clubbing ao Vivo

Clássicos

Os Grandes Clássicos – Ludwig van Beethoven (1,2,3)
Vozes da Tranqüilidade (2 CDs)
Dvórak
Elgar

A propósito: todo exercício de desapego deve ser realizado de forma gradual e progressiva. Eis porque não se encontram aqui listados (ainda) meus CDs dos Mutantes, da Graforréia Xilarmônica, do ACDC, Iron Maiden, Ramones, Funkadelic e outras precosidades.


E ELE FINALMENTE CHEGOU!


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Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

 

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