Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade olímpica, helênica e meteórica


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Editorial

Olimpíadas, tropeços  & amores que vem e vão...

Estamos a iniciar o maravilhoso mundo das Olimpíadas.

Os Jogos Olímpicos da Era Moderna, idealizados pelo barão Pierre de Coubertin e patrocinados pelo milionário grego George Averoff iniciaram sua saga em 1896, em Atenas, na Grécia, local onde se realizam neste ano os XXVIII Jogos Olímpicos.

O surgimento dos jogos, em respeito aos preceitos defendidos por seu criados, deveriam levar o lema "O importante é competir".

Na Grécia Antiga, entre VIII a.C. e IV d.C. ocorriam os Jogos Olímpicos originais, que consistiam em provas de corrida a pé e a cavalo, lutas, saltos e arremessos. A sede, durante estes doze séculos foi uma só: a cidade de Olímpia, para onde os campeões de cada cidade se dirigiam, propiciando inclusive a interrupção de todo e qualquer combate entre os povos gregos, em respeito ao armistício que era decretado por ocasião dos jogos.

Mal sabiam eles que, séculos depois, uma guerra iria interromper o andamento dos jogos, que boicotes de nações poderosas iriam prejudicar seu andamento e que estratégias pouco honestas como o doping iriam tomar de assalto os Jogos onde "o importante é competir".

Como diz o Diego Mainardo em sua coluna nesta edição, parece que as pessoas não aceitam a queda. Temem ter que juntar forças para levantar e voltar a tentar vencer. Assim, antecipam-se e derrubam os outros. Esse comportamento não se restringe aos esportes. É generalizado. Está em todo lugar. Olhe para o seu lado agora. E agora. E agora.

Aqui no Simplicíssimo tentamos evitar esta competição desenfreada que só almeja a vitória individual ou de poucos. Queremos compartilhar, aprender juntos.

Um bom exemplo disso é que a campanha "Comenta que o coração esquenta!" foi um sucesso! Na edição passada tivemos o expressivo número de 60 comentários até o momento em que escrevi este editorial.

Mais importante: geraram-se amplos debates nas colunas, como pudemos acompanhar no texto "Amor e Sexo" de Luiz Maia, onde um acalorado debate entre o autor recifense e a leitora Márcia de Porto Alegre, no qual ambos saíram vencedores e, de lambuja, nos presentearam com seus interessantes pontos-de-vista. Até a Pinky que sabemos está sempre lendo às escondidas arriscou um comentário...

É isto que queremos: que os textos gerem respostas, produzam sentimentos, estímulos capazes de produzir aprendizado. Modificações na forma de pensar e agir do interlocutor e, que a resposta por este oferecida possa, por sua vez, gerar mudança na vida dos autores e colaboradores.

Nesta edição, quem nos acompanha de perto vai notar algumas mudanças e novidades.

Agora, a poesia que sempre era apresentada ao final, imediatamente antes do Ombudsman passará a ser publicada logo após o Artigo, que é o espaço dedicado aos textos dos usuais colaboradores e dos novos escritores do Simplicíssimo, como é o caso do Bernardo de Santa Maria - RS e do Lifebuster (Nuno Silva) de Portugal.

Outra estréia importante no Simplicíssimo é a da poeta Sara Fleck Neves, até há pouco intensa colaboradora e agora oficialmente colunista do site. Sara manterá a coluna semanal "Um pouco de cada: luz e trevas". Seja bem-vinda Sara!

Outra pequena mudança é que, as colunas de periodicidade não regular, como as Pequenas Resenhas Canalhas, do Maurício (que está de volta nesta edição) passaram para o final, imediatamente antes do Ombudsman, que, como sempre, encerra com chave de ouro o site.

O Desafio Simplex virou história. Resolvi deixar de distribuir os CDs através do site. A participação é pequena e os vencedores passavam a se repetir. O SuperDesafio Simplex, a distribuição de 89 CDs de uma vez só foi, por enquanto, a última distribuição de prêmios do site. Novidades a este respeito sem data marcada. A propósito, aos vencedores do SuperDesafio Simplex: seus CDs ainda não foram enviados, mas serão antes do fim das Olimpíadas, não se preocupem!

A todos que ainda estão temerosos quanto a participar ativamente do Simplicíssimo, deixem este medo de lado e tirem seus escritos da gaveta e enviem para nós! Teremos o prazer de apresentar seus escritos aos Simplileitores de todos cantos do Brasil, Portugal, Moçambique e onde mais quer que nossas palavras estejam tocando.

Até a próxima edição, na quarta-feira que vem, se tudo estiver bem!

Rafael Luiz Reinehr

"Estamos em um mundo de perdidos onde todos fazemos de conta que estamos achados"
Eduardo Castro

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As 3 estrelas de Cozumel
Bernardo W. K.


Sonhou que Abraão corria pela rua do meio fugindo dos guardas. Abraão derrubava tudo o que encontrava no caminho para tentar retardar os guardas que já haviam bebido mais de meio barril na taverna do dragão queimado.
_ Acabou! - Berrou um guarda com uma expressão tão bucólica que seus olhos estavam envoltos em sombras lançadas pelas sombrancelhas que se reprimiam pela impulsão suspensa da pele da bochecha enquanto ria. - É o seu fim Abrãao. - A
rua não tinha mais buracos, era para frente e para trás somente, e em ambos os lados os guardas tremiam as pernas, loucos para o massacre.
Abraão ajoelhou no chão de terra, sujou o manto cor de cavalo da terra, alisou a barba e fez o sinal da cruz três vezes olhando para três estrelas do céu limpo de jerusalém.
_ Qual é o seu nome? - Perguntou a um dos guardas, o mais jovem. - Antes de morrer eu preciso saber. - Cozumel - respondeu o rapaz com uma cara de poucos parentes vivos. - Cozumel, eu lhe declaro agora, dia da morte de São Budah, meu filho por parte de Deus, te amo com todas as minhas forças, agora me corte a cabeça e leve-a a quem te dá de comer.
Cozumel largou a lança no chão e se ajoelhou. Com a boca envergada de vergonha foi desmontando a armadura de talas, não dava ouvido às bravejas dos
companheiros de trilha.
_ Cozumel! Levante-se e mate esse velho! - Ordenou o chefe da tropa, o homem de sorriso bucólico. - Agora!
Uma luz surgiu de uma fenda no largo tecido azul de céu e pairou sobre Cozumel.
Abriu os olhos e enxergou suas mãos mais velhas, achou barba abaixo do papo de boi que nunca teve, passou a mão na cabeça e achou careca, olhou para si e viu o manto cor de cavalo da terra lhe cobrindo o frio do corpo nú, procurou seu corpo verdadeiro e o viu sorrindo ajoelhado remontando a armadura, abaixou os olhos e entendeu porque chamavam Abraão de O bruxo sem alma.

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A serena consciência de existir
Nuno Silva (Lifebuster)

Hoje, vendi-me ao vazio...
Espraiei-me na amplitude do quarto onde acordei,
Bebi um raio de luz, e voltei a dormir,
Rendido ao impulso do sono que sinto,
Quotidianamente, o mesmo.
Ontem, um responsável por mim partiu (para sempre?)
Subtraiu-se a um mundo de seres de perder a conta,
Incondicionalmente,
E pegou-me o sentido de vida ( ou de morte...)
Actual...

....
.............

Ouso um suspiro - movimento imenso,
Desafio enorme a esta lei de inércia que monótonamente confirmo,
Sou eu mesmo,
Renovando o ar que insistentemente inspiro,
Expiro, inspiro,
Outra vez, e outra vez igual...

.................
.................

Deslizo um pedaço, movimento de ilusão,
Pois energia e um corpo andante são
Tropelias de forças vivas e sonhos novos
De outros projectos que não os meus...


E o dia corre...
E a manhã brilha...

E pela janela entra uma fatia de luz oblíqua,
Que me convida à vida, e eu ignoro
Indiferente ao sol e à sua influência alternativa...


................


Que farei hoje? Serei alguém?
Não sei o que tenho...
Sinto-me eu, menos eu do que nunca...
( resta-me o som das plantas, que comigo crescem,
solidariamente alheias aos meus pormenores íntimos,
cúmplices das sombras que no tecto projecto e enormes,
recuso serem minhas...)

Não sei o que tenho...
( este sentido explico-o porque hoje é Domingo,
dia que se repete todos os dias no nome de
outro dia qualquer...)

Hoje faço 24 anos. Sem o pedir. Indefeso.
Rendido às marés que aceleram...

Detesto o tempo...

28/ 06/ 98
Texto feito depois de a minha avó ter morrido (faleceu no dia anterior aos meus anos.). Se entro sempre em depressão no meu aniversário, nessa altura ainda foi pior!

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Final de festa

“Se, no fim das contas, o que te importa é somente conceber o limite onde poderias ter chegado, de nada te vale a experiência extenuante e por vezes sofrida que envolve o processo.”

Sábato Costa, “Dez Matanças em Festas de Famílias”.

As velhas me olhavam com tamanha intensidade, que eu achava profundamente desnecessária a sua atitude de enfatizá-la através de chupadas nas garrafas de long-neck. A simulação óbvia de sexo oral, ao contrário de me excitar como conviria a um macho de grande estirpe, acabava por me enojar. Não pela demonstração em si, confesso que repleta de um misânscene quase teatral, uma oscilação erótica entre os filmes mais tôscos de emissoras abertas em final de noite e a natural tentativa de sedução de prostitutas em ruas escuras. O que acabava por estragar todo o teatrinho a que elas se propunham era mesmo as bocas que envolviam o gargalo da garrafa. Eu disse que eram velhas? Então, imagina a boca enrugada. Isto era o mais visível: o que envolvia a garrafa, chupada. A garrafa. De resto, todo o corpo que sustentava a cabeça, que continha a boca. Que chupava. A garrafa. O corpo não ajudava. Nenhum pouco.

Envolvidas em calças de lycra, com bustiês que não conseguiam esconder - e, creio, seu objetivo era realmente mostrar. O quê, não sei, pois não havia nada de bom para ser visto... - suas camadas de pneus que desabavam e balançavam pesadamente ao som dos bate-estacas. As coroas, ainda assim, com todos os adendos aqui descritos, pareciam encontrar-se em perfeito estado de êxtase. Um êxtase demonstrado claramente não somente através das chupadas estratégica e supostamente eróticas, mas também nas suas descompassadas danças de acasalamento que traçavam ao redor do infeliz escolhido como vítima de suas conquistas.

No momento em que me cercaram, consegui escapar através de um semi-giro cheio de suingue e, discretamente, como sujeito sensível que sou, para não magoá-las, retirei-me para uma região de maior segurança. Elas esboçaram reação, sugeriram ir até a minha direção, mas foram interceptadas na sua chama do desejo por um sujeito com uma cabeça enorme que lhes pareceu mais apetitoso do que eu no momento. Agradeci aos céus pela normalidade do tamanho da minha cabeça e fui ao encontro da minha amiga me perguntando como, por deus!, deixam uma fauna assim tomar conta do ambiente.

Carinhoso

Três. Três velhinhas sentadinhas no banco da praça e balançando as perninhas. Dando. Pipoca para os pombos. Os pombos. Pestilentos, cabeça cheia de piolho. As velhinhas. Rechonchudas, as três. Aquela cara de vó. A balançar. As perninhas das três velhinhas sentadas no banco da praça dando comida para os pombos. Bonitos, os pombos. Mas as cabeças cheias de piolhos. As velhinhas a balançar não se importam ou nem tem consciência dos piolhos nas cabeças dos pombos. São tão pequenos que nem se enxergam os que rumam para os dedos da velhinha que gosta de acariciar o pombinho manso que come pipoca na sua mão.

E quando chega em casa, já à tardinha, (jogou bingo, comeu pizza fria e perdeu quarenta e oito dinheiros) dá uma passadinha no quarto do neto para fazer um carinho antes. De ir ao banheiro. Lavar as mãos.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Entre poses e teorias

Depois de um breve estudo num material sobre a aposentadoria, resolvi compartilhar algumas de minhas reflexões. Começando por pragmatismos, penso que podemos dividir a aposentadoria em duas situações, de acordo com a forma que ocorre: (1) inesperada, que ocorre de forma abrupta, por questões alheias à vontade do indivíduo; é o caso das aposentadorias por doença incapacitante, tempo de serviço ou determinação do empregador e (2) planejada, desenhada ao longo da vida ou definida pela pessoa em algum momento específico.

Não é difícil imaginarmos que a primeira está mais sujeita a uma vivência de repercussões traumáticas. Ser atacado de surpresa pelo inesperado sempre provoca e exige reação, geralmente trazendo danos diretos (como uma incapacidade física) e indiretos (como uma depressão). Entretanto, ambas possam resultar em aposentadorias frustradas e problemáticas. É o que acontece na segunda situação, por exemplo, quando uma pessoa passa a vida inteira empurrando para a aposentadoria atividades que poderia e até deveria mesclar ao longo de toda a sua vida (lazer, viagens, etc.).

Logicamente, a situação financeira da grande maioria dos brasileiros não conforta muito os expectantes de uma aposentadoria com pleno gozo do resultante lucro acumulado por anos de trabalho. Tampouco se pode esperar muito do sistema previdenciário, que em tempos modernos passou de certeza a incógnita num pestanejar. E uma das explicações da falência da previdência está na própria sistemática do pagar e receber. Quando implementada tal política financeira, a composição societária era claramente uma pirâmide de larga base composta pelas crianças e jovens e o estreito ápice pelos velhos (até o ano 2000). As mudanças chegaram, as pessoas estão controlando a natalidade e vivendo cada vez de forma mais longínqua, determinando uma remodelagem na figura geométrica, que tende fortemente à retangularização (ano 2020 e 2050) e, quem sabe, uma possível inversão futura. Assim, se antes tínhamos mais pagadores e menos beneficiários, a situação atual passa a ser equivalente e pode-se prever um aumento no rombo para as próximas décadas.


Não é de se estranhar pois, que o IBGE nos informe em 2003 a aferição de 4,6 milhões de velhos que retornaram ao mercado de trabalho, cerca de 1/3 da população idosa. Menos mal que estas pessoas possam retomar atividades. Aliás, há muito caiu por terra a preconceituosa Teoria do Desencargo, proposta por dois norte-americanos em 1961. A idéia básica era de que o aposentado, tomado pela decadência física e psíquica, deveria abster-se de toda e qualquer atividade laborativa e social. Na mesma década (1968) já era proposta a Teoria da Atividade, batendo forte na questão da manutenção de papéis como ponto fundamental para a satisfação do ser humano.

E quando se fala em atividade, inclui-se toda forma de estimulação, seja cognitivo, social, físico, emocional, etc. Não é à toa que vemos os grupos de convivência se multiplicarem saudavelmente pelas cidades com música, dança, palestras, leituras, mutirões e muito mais. Logicamente que será muito mais provável o êxito seguindo dentro de hábitos, relações e padrões que se firmaram ao longo da vida (e aqui temos a Teoria da Continuidade) do que a implementação de atividades novas e desconhecidas, que geralmente caem no desinteresse dos velhos. Há quem deseje seguir trabalhando e deve ser assim estimulado dentro das suas capacitações e habilidades. Algumas pesquisas demonstram que há maior precisão e confiança (menos faltas por exemplo) no trabalho de pessoas mais velhas que, aliados à experiência, compensariam uma certa diminuição na velocidade com que trabalham. Ah e não posso deixar escapar uma atividade que é quase exclusividade das pessoas mais velhas: ser avô e avó. Fui buscar um texto que já recomendei noutro artigo no Portal da Família e encontrei vários outros. Vale a pena dar uma passada por lá.

Por fim, mas sem esgotar o assunto, penso que a aposentadoria, e a vida como um todo, não deve estar baseada apenas num pilar (e geralmente é o financeiro ou profissional). Aposentar-se do trabalho não significa aposentar-se do convívio social, familiar, das atividades laborativas, do lazer, da vida como um todo. Ou então estaremos aceitando o absurdo preconceito da aposentadoria como sinônimo irrefutável de inutilidade e jogaremos todos os velhos para o canto mais distante e escuro que conhecemos. Seria uma injustiça sem tamanho, de deixar qualquer cidadão sem pose alguma

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 9/X

Não se mete
O cinco se fingiu de seis
para matar o sete

EXAGERADOS

Da Sedução Dos Anjos

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-lhe
a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
Para que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

(Bertolt Brecht)

Saímos todos os dias tentando encontrar um porquê. Um carinho, uma forma de dizer obrigado. Você me completa. Todos os dias, melhoro um pouco por sua causa. E por minha.

Todos os dias, não temos o que conversar, já conversamos tudo ontem, tudo amanhã.

Todos os dias, nos beijamos como se fosse o último dia que nos encontraremos.

O que é isto?

Dom Juan de marco talvez fique com ciúmes das declarações aqui no simples, das formas de amar, do nosso jeito de beijar, do nosso jeito de dizer obrigado por existires. Exagerado talvez, mas é uma forma sincera de tentar.

Todos os dias, temos medo que um de nós se vá para sempre.

Lembre-se de pensar que isto é mais do que amizade, é mais do que ficar, é mais do que curtir. Pare de se importar com o mundo, para que o mundo se importe contigo.

Todos os dias.

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Veja só quem está falando!
Diego Mainardo

As Olimpíadas do Pateta

Resolvi mudar meu visual. Ajeitei o cabelo e dei uma caprichada no cuidado da pele. Mas a preferência pela camisa azul não me larga. Essa vai comigo onde eu for!

Há algum tempo atrás, me lembro de escrever artigos sempre buscando uma rudeza básica que, ao mesmo tempo que trazia para mim uma certa antipatia por parte de alguns leitores mas também trouxe uma legião de fãs. Atualmente, tento fugir um pouco desta “agressividade forçada”, e ando me preocupando menos em irritar (ou agradar) aos leitores e estou sendo mais fiel com os fatos e suas mais prováveis verdadeiras interpretações.

Estamos em épocas de Olimpíadas. A cada quatro anos, temos uma nova chance de utilizar este “termômetro de desenvolvimento” que enaltece as façanhas de Estados Unidos, França, Alemanha e Inglaterra – mas também da Rússia e de Cuba.

É certo que nos últimos anos o Brasil não tem conseguido demonstrar claramente todo seu potencial. O “País do Futebol” nem conseguiu enviar sua seleção principal para lá neste ano... Em compensação, temos um dos melhores iatistas do mundo, uma campeã mundial de ginástica olímpica, campeões mundiais no voleibol de quadra e de areia e, se o futebol de salão fosse esporte olímpico, teríamos uma medalha garantida.

Li em uma revista esses dias acerca da propaganda nazista que fora sido feita com auxílio das Olimpíadas de Berlim em 1936. O autor, ironicamente celebrava, em contraponto ao filme de Leni Riefenstahl, o curta O Campeão Olímpico, estrelado pelo Pateta. É... aquele mesmo, o personagem de Walt Disney. No filme o astro tropeça nos obstáculos, se esborracha na pista e “vence Hitler”.

Dizia ele que a queda dos atletas brasileiros nestas Olimpíadas não teria a capacidade de derrubar Hitler, já que não temos nenhum no Brasil, mas tão somente, quem sabe, algum diretor do Banco do Brasil.

Posso afirmar, discordando do autor do texto que, se algo vai derrubar o diretor do Banco do Brasil não será o desempenho do Brasil nas Olimpíadas, mas tão somente sua (in)competência em gerenciar aquilo que lhe é determinado.

Quanto ao filme do Pateta, uma das grandes lições que o mesmo ensina em seu cândido filme, pode ser resumido em um trecho de uma música referente ao filme que, traduzida para o português fica mais ou menos assim:

“Você pode ser supercampeão,
Você pode ser um craque
Mesmo sendo supertrapalhão,
Ou um jogador de araque
Você pode ser supercampeão
Siga o exemplo do Pateta
Pois mesmo quando caiu,
Ele jamais desistiu

Ele é mesmo um grande atleta”

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Utopias
Luiz Maia

Deus

É sempre muito interessante começar o dia refletindo sobre o nosso cotidiano. Podemos perceber, por exemplo, quantas coisas boas deixamos de receber da vida quando nos afastamos da natureza, absorvidos que estamos - quase sempre - com a correria da vida moderna.

Após a luta de mais um dia pela sobrevivência, o homem sente falta da felicidade e tenta buscá-la muito distante, esquecendo-se que ela está ao nosso lado e que poucos se apercebem disso. Aprendemos com o passar do tempo que aquilo que nos causa prazer e alegria neste mundo certamente só iremos encontrar nas coisas simples da vida.

A complexidade da criação da Natureza, quando observada pela ótica da fé, torna-se simples e perfeita. Isso nos conduz facilmente ao entendimento de que a Natureza é simples porque emana da graça de Deus.

Do amanhecer ao cair da tarde inúmeros fenômenos da natureza ocorrem para nosso deleite. São manifestações complexas e singulares, mas de uma beleza simples e estonteante.

Faça da sua rotina o caminho que o levará mais próximo a Deus. Felicidade mesmo é você poder acordar cedinho e logo agradecer a Deus pela ventura da vida.

É poder ficar olhando a lua cheia nascendo - como se estivesse saindo de dentro do mar - e, emocionado, com os olhos cheios d'água, ter o prazer de reconhecer a mão do nosso Pai, segurando nossas vidas e nos brindando com esses fenômenos maravilhosos.

Quando a brisa mansa tocar o rosto seu, entenda como sendo o abraço de Deus por estar feliz por você existir. Ao ouvir a passarada, anunciando mais um amanhecer, reconheça no canto de cada pássaro a sinfonia d'Ele para encantar o seu viver.

Quando você olhar os campos de trigais, observe, na sutileza de sua beleza, espécie de renda sedosa jamais vista em nenhum lugar. A natureza quando vista com os olhos do coração tem efeito benéfico e curador de inúmeros males.

Não perca mais tempo buscando no conforto material a alegria que você só poderá ter quando abraçada estiver à natureza, de forma inteira, plena e responsável. Curta as estrelas embelezando as nossas noites sem nada pedir em troca.

Contemple o sol que nos aquece e nos dá a luz para que possamos enxergar a beleza do mundo ao nosso redor. Observe mais vezes a chuva que cai, as águas que deslizam da cachoeira, os pores-de-sol, a noite mansa trazendo-nos consigo o silêncio que nos inspira a entender que Deus é a fonte da vida.

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Falando sobre mim:

Sara, nome escolhido por meu Papi. Antes, detestava, agora amo.
Sou louca, em todos os sentidos imagináveis e inimagináveis.
Sinto coisas, ouço vozes, falo alto e falo palavrão, arroto depois do almoço e escuto punk rock no último volume, escuto Bolero de Ravel no último volume também, choro com cenas fortes, choro com cenas suaves, me arrepio na brisa da manhã, quando sei que os espíritos da natureza começam a organizar mais um dia no universo... Amo tomar banho de chuva, amo raios e ventos fortes... Tenho pressentimentos e idéias mirabolantes, falo coisas e me arrependo, gosto de cozinhar, gosto de comandar, odeio ser comandada, odeio limpar, adoro organizar, converso com as árvores e com animais, os cachorros me seguem na rua... Acho-me poderosa, acredito em magia, acredito em Deus, acredito em Buda e nas curas pelas mãos, em Aura e espíritos... Choro ao invejar a liberdade dos pássaros, ao ver uma criança sorrir, chorar... Amo viajar, odeio ficar longe de casa, sou criativa, sou otimista e também pessimista... Queria ser cantora, bailarina, artista plástica, bióloga, poeta, escritora, diretora de cinema, atriz, mãe, diplomata, criadora de cavalos ou de peixes, ser paisagista, arquiteta...
Amo a minha vida, me acho linda, me acho horrível... Amo, amo, amo, quem eu quero, quem não queria, quem não merece... Essa sou eu... Semimulher, semimenina. Com apenas 25 anos, já vivi demais, comparando-me com algumas pessoas da minha idade e, no entanto, vivi muito pouco daquilo que já gostaria de ter vivido. Morei em três estados diferentes antes dos 12 anos de idade, sendo que o número total de mudanças de escola foram sete, contando com a vinda para o Rio Grande do Sul. Estou aqui desde 1992.
Essas mudanças malucas fizeram de mim uma “mutante”, ser adaptável em qualquer lugar. Ao longo dos anos, mudei várias vezes de planos e idéias também, tanto que abandonei vários sonhos. Hoje continuo sonhando. Sonho em viajar pelo mundo e deixar minhas idéias espalhadas por ele, pode ser que não sejam notadas por muitos, mas com certeza farão a diferença para alguém, assim como as idéias de outros mudaram a minha vida.
Escrever é uma das coisas que não mudei em mim. Desde criança gostava de escrever, minhas redações eram sempre as maiores da turma. Escrevo muitas poesias, alguns pensamentos filosóficos, poucas crônicas. Em contrapartida, desperdicei a oportunidade de ler mais, me fechei em mim mesma e não li muito nos últimos anos, espécie de Perséfone moderna. Digamos que não li os grandes clássicos da literatura internacional, mas não sou nenhuma ignorante também. Sou apenas desleixada. Pretendo recuperar o tempo perdido daqui para frente. É uma promessa que fiz a mim mesma.
Abandonei a faculdade de Comércio Exterior em 2002 e ainda não comecei a de Jornalismo por falta de verbas. Atualmente trabalho em um bar, abrindo garrafas de cerveja e fazendo coquetéis, limpando cinzeiros e o chão. Estou aprendendo a olhar o mundo com outros olhos, a ser mais humilde, e com certeza ser mais cordial com as pessoas que antes eu julgava menos privilegiadas do que eu, afinal, hoje trabalho em um bar, mas dentro de mim acontecem grandes revoluções e, quem está do outro lado, não pode ver além do que seus olhos humanos permitem. Nada é o que parece ser.
Agradeço a Deus e a todos do Simplicíssimo por me darem esta oportunidade.
Beijos

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Pequenas Resenhas Canalhas
Maurício Silveira dos Santos

Canalhas do Mal

Nesta edição, a Pequena Resenha Canalha não tratará de “Grande Literatura”, nem mesmo abordará um autor amplamente conhecido ou discutido nos meios culturais e críticos do país ou do mundo. Mas o livro contém em seu recheio, sem dúvida alguma, vários personagens canalhas. Pode-se considerar que talvez sejam mesmo os maiores canalhas que existem. Os pais das piores canalhices, seus criadores, incentivadores e maiores perpetradores. Estamos falando de “O Livro dos Demônios – manual de identificação de cada demônio e as defesas necessárias” escrito por Antônio Augusto Fagundes Filho, rebento da mais conhecida família de tradicionalistas do Rio Grande do Sul, habitante de Porto Alegre e, segundo ele mesmo, habitué de outras dimensões (acredite se quiser).

O autor explica suas intenções e seu método na introdução e depois passa a listar cada um dos demônios que merecem sua atenção seguindo a uma ordem de tópicos pré-estabelecida (cargo, referências, aspecto e características dos “personagens”, além de belas gravuras históricas). Ele se declara antidemonista e diz que a composição do livro foi muito desagradável pelo método escolhido, ou seja, a entrevista direta com as entidades demoníacas. Fagundes Filho explica que essas entrevistas só foram possíveis com uma autorização do Altíssimo. Os demônios, por conta disto, compareceram a contragosto. Durante as conversas com estes seres amedrontadores o nosso autor relata seus terríveis dissabores e desconfortos, além de ser constantemente ameaçado, ironizado e mesmo seduzido pelas criaturas. Ele afirma que estes seres do mal, contrariamente ao que se pensa, se modernizaram muito e hoje freqüentam nosso mundo muito mais intensamente do que poderíamos imaginar. Há inclusive uma hierarquia dos “trevosos” com cargos bem delimitados como: “sócio fundador”, “diretor-presidente”, “diretor-técnico”, “executiva-júnior”, “gerente-geral”, “diretor de marketing” e PASMEM(!) até ombudsman (que medo, hein?!).

A experiência proporcionada pela leitura noturna do livro talvez possa ser descrita como cômica e leve, ao mesmo tempo que assustadora e estranha. Você começa a gargalhar com as bobagens do autor, mas, quando percebe, está olhando desconfiado para aquele corredor escuro da sua casa. Será que poderia haver “algo” ali? E aquele estalo na cozinha, se não há ninguém em casa? Ihhh, vou ficando por aqui. Boa leitura aos corajosos.

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Ombudsman
Alessandro Sachetti

Vivemos dentro d'água

Vivemos na Era de Aquário, mas por vezes penso que este está seco, ou que, se ainda cheio, não somos peixes, mas sim humanos dentro d’água.
Concordo contigo Rafael quando discorre sobre ONGs fadadas ao fracasso e ainda mais sobre a globalização e aumento dos cofres das nações mais poderosas. Há o contra-ponto, há a informação mais disponível, sim, seres pensantes que somos, necessitamos de saber, sedentos em conhecimentos, mas alimento pra cabeça nunca vai matar a fome de ninguém.

De nada adianta ter “ferramentas” e não saber usá-las, a grande revolução, agora, seria interna, não comecemos pelo mundo inteiro, mas por nós mesmos.
Luiz, acho que acontece algo simples, as mulheres estão apenas reivindicando um lugar que sempre foi delas e que por século lhes foi negado. Por mero machismo, ou medo de que descobríssemos que elas são tão ou até mais competentes. Ainda bem que hoje podem assumir seu lugar, afinal, elas são vitais, não apenas no trabalho, mas em nossas vidas.

Que prazer ler “A perspectiva do sutil abandono”, que sutileza do Alessandro em seu texto, ao descrever intensamente o sentimento de solidão e saudade. Seu personagem descreve bem um ser sem sentido e quem sabe sentimento, alguém que depois de muito tempo sente a vida toda de uma vez, como se um raio caísse em sua cabeça, mas não há mais para onde correr, nem para onde ir, então qualquer lugar serve.

Sabbi, algumas coisas simplesmente não se esquecem, pode até ser que passem, mas a qualquer sinal de tênue semelhança, estamos com ela de novo na cabeça, e não há processo que faça se esquecer, penso que as coisas realmente esquecidas são as que não valeram a pena para serem lembradas. Quem nunca deitou na cama e se deparou com lembranças que pareciam esquecidas e surpreende-se com elas? A vida é assim mesmo, somos tudo o que fomos e lembramos, sempre, por termos desistido ou existido naquilo. E assim vamos vivendo, esquecendo até que se lembre.

O Pedro atacou de escatologia, e acertou. Afinal de contas a gente sempre imagina as divas mais lindas sorrindo, dançando, beijando, amando, mas nunca no banheiro cagando. E todo mundo, em algum momento fede.

Diego, ainda bem que preferiu a nós e nossos leitores, ao invés das revistas que tanto seguram as cortinas no palco da verdade política no Brasil. Sendo assim, de cara, ganhas o direito de ser livre para escrever o que bem entender, sem se preocupar com quem paga o seu editor. Não me surpreende o fato dos americanos encontrarem nomes para tentar diminuir o que fazem, quase sempre foi assim. Agora é torcer para a não reeleição do Bush. Seja bem-vindo, recorra ao Google quando precisar, eu mesmo recorro sempre e não tenho vergonha, aliás, atire a primeira pedra quem nunca usou o Google.

Gostei da análise do Luiz sobre amor e sexo, mas não estou bem certo se realmente nasce essa perspectiva de relações afetivas permeadas exclusivamente pelo amor em nossa sociedade. Acredito que de uma maneira geral estamos longe disso.

Sara, se não fosse o espelho, em todas as suas formas, nunca nos veríamos por inteiro, afinal quem consegue, sozinho, ver sua própria testa? Mas, na verdade, o que mostra este teu espelho? A carne ou a alma?

Grande Marcos, ser crítico de verdade é um tanto difícil, não é? Eu acho. A crítica, quando usada para o bem, é arte. Afinal, estamos de certa forma analisando e quem sabe acrescentando, nunca destruindo. Não me arriscaria a criticar da maneira como descreveu nosso Tenente, e nem trocaria meu emprego de trocados por tal profissão. Estou aqui, assim como você, mais para aprender do que para ensinar, mas se em algum momento algo que escreva tocar e acrescentar a alguém. Creio que então minha missão estará sendo cumprida.

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 

 

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