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Jornal Virtual de periodicidade atômica, margarética e suicida


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Editorial

O Muro da Discórdia

Está sendo construído por Israel um muro com o intuito de separá-lo da Cisjordânia e abraçar os principais assentamentos de judeus, objetivando um “desligamento unilateral” entre Israel e os palestinos.

Uma Assembléia Geral da ONU votou a questão e, excetuando-se os Estados Unidos da América – aliados incondicionais de Israel – condenou a construção do muro.

Ao mesmo tempo, em toda Europa e mais intensamente na França, onde moram cerca de 600.000 judeus, cresce o anti-semitismo.

São registradas explosões de bombas em sinagogas e escolas judaicas e profanação de túmulos em cemitérios judeus.

Se somarmos essas informações e uma outra, que é a taxa de natalidade de 3,4% entre os árabes-israelenses (muçulmanos que vivem em Israel), percebemos o surgimento de um crescimento populacional que pode ser visto como uma “bomba de efeito retardado”.

Tal crescimento fatalmente levará a um aumento concomitante do poder político do grupo que legitimará suas reinvindicações.
Para dar um toque místico a este texto, lembro da profecia assinalada no livro “O Código da Bíblia”, que afirma que entre 2005 e 2006 acontecerá um “holocausto atômico” em Israel.

A despeito disso realmente ocorrer e se tais acontecimentos podem ou não ter relação com a construção do “Muro da Discórdia”, recomendo fortemente que, antes de qualquer comentário, quem não leu “O Código da Bíblia” deve dirigir-se de imediato ao site Saindo da Matrix e ler atentamente o fascinante resumo do livro que lá se encontra.

Entre lutas entre gregos e troianos, negros e brancos, maragatos e chimangos, civis e militares, sulistas e do norte, fico mesmo com a solução encontrada por um amigo meu ex-colega das Ciências Sociais (ou era da Filosofia?): transformar tudo em música a ser tocada espetacularmente em sua banda “Os Israéis Palestinos”.

Fiquem com Deus (cada um com o seu e respeitando o do próximo!)!

Rafael Luiz Reinehr

PS: boas vindas à Camila Mello que estréia com brilho na seção Poesia, ao retorno de Conrad Rose e da Grasielle Regassini, ao mais novo colunista Marcos Claudino e ao agora Ombudsman de todas as semanas Alessandro Sachetti.
Aos novos saudações e aos da casa muito gás para as novas participações!

"Uma paz certa é melhor e mais segura do que uma vitória esperada"
Tito Lívio

"Olho por olho, e o mundo acabará cego"
Mohandas Gandhi

"Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem"
Jean-Paul Sartre

(a propósito: para quem gosta e citações e reflexões, um ótimo sítio é o Citador, um blógue português com um rico conteúdo. É de onde extraio boa parte das citações que uso aqui)

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Bovino
Conrad Rose


Quando Jaime chegou à clareira no interior da mata, estremeceu ao se deparar com um esqueleto bovino completo, amontoado na relva. De pronto enterrou o dito, separando dois dos maiores ossos, com os quais confeccionou uma cruz atada a cipó. Acalentou-lhe o espírito com um pai-nosso como a agradecer ao finado, por ser ele fator preponderante na conservação do espaço. Obcecado, Jaime resolveu assumir tal responsabilidade.
Nos dias que se seguiram, trouxe latas perfuradas que viraram luminárias sustentadas por galhos de bracatinga. Também querosene, machado, esteira e manta. Era outono. Panela e chaleira; talheres e mantimentos. E um álbum de retratos, sua única lembrança física dos pais.
Ornava diariamente o sepulcro com as mais belas e diferentes flores dos arredores. Para economizar reza, contornou-o com pedras e ostentou ali a mais querida foto dos ascendentes. Compôs um mausoléu por fim. Ausentou-se numa tarde para providenciar muito mais comida, centenas de velas das mais sortidas cores e tamanhos. Um terço, pão e vinho. Uma imagem de São Sebastião e outra de Nossa Senhora Aparecida. Uma bíblia sagrada.

Jaime perdera os pais num ganancioso embate no garimpo. Porém, aquilo acelerara-lhe a herança aos treze. Pepitas escondidas que o garoto carregou ao sair fugido. Se fosse um pouco mais velho talvez os hormônios atrapalhassem, mas Jaime preencheu-se de responsabilidade de tal maneira, que jamais tornou a trabalhar na vida. Mesquinho, tampouco compartilhou seu coração. E desconhecia sexo.
Até que resolveu se esquivar definitivamente do mundo. Na clareira de seus delírios fincou os pais na sepultura como outrora não pudera. Improvisou um altar com tocos e na mistura água/terra modelou e retocou. Orgulhava-se do zelo. Amava-se-lhe. Um terço por dia. Cultivava e melhorava o local sem parar. Catava mudas e frutos.
Alimentava-se somente como ofício para continuar vivo, vara seca que era e, por saber da dor e da importância da sua verdade, resolveu criar uma própria. Calejou mãos, pés e joelhos. Fez-se apenas de suplício doravante.
Demorou para as velas acabarem, mas chegou o dia...

Jaime procurou novamente um comércio nas cercanias, reabasteceu-se de luz e conheceu Márcia, cujo nome só soubera indiretamente, e quase pôs tudo a perder. Cogitou ter companhia. Viu-se próximo do que mais precisava se distanciar. Este medo comumente manifestava um desejo cruel a todas que – por lapso – sorria descuidado. Estas, normalmente lhe retornavam. O putrefato jovem tinha neste sorriso denso seu único contato com a luxúria; e intimista, ejaculava-se ao recordar.
Márcia presenteou-lhe com um sorriso maroto de dentes ávidos, sardas, imensos olhos azuis, nariz ereto e boca rosa; instigou-o com pequenos e pontiagudos seios semi-ocultos, cabelos negros ao ombro e maneiras etéreas; bondade e receptividade. Jaime passou-lhe uma lista e absolutamente nada falou, pagou-a e percorreu o corpo da moça com os olhos. Ela desviou-lhes estritamente o necessário, providenciando-se-lhe propostas. Dominado por sua impotência, ele findou a ocasião dando-lhe as costas e gozou pelo caminho. Ela prometeu avançá-lo na próxima, ocasião que jamais acontecera.

Jaime – tomado por melancolia profunda – começou a preparar sua cova. A lembrança da morte dos entes foi-lhe consumindo desorganizadamente. Estabeleceu sua providência ao lado dos pais, prostando-se numa cama esburacada à Terra, e precavido, guardou sua última pepita abaixo de seu colchão de folha de bananeira. Orou para morrer dormindo e solicitou com fé que Deus o livrasse do infortúnio da morte horrenda - como a antes testemunhada ou a provinda de famigerado animal. E esta – conforme os pedidos – alcançou-o ao relento, ajudada pelo frio, para enfim cicatrizá-lo.

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Saudades de um amor suicida
Grasielle Regassini


Às vezes o que sonhamos, o que desejamos, nunca se realiza, ou não sai exatamente como queríamos! Uma pena não é... Eu que sempre acreditei que a vida fosse um dom especial, que se existimos não é por acaso! Sempre acreditei que se os sonhos existem, eles podem se realizar,
sempre acreditei que nem um amor é de todo impossível...mas como acreditar nisso agora? Hoje acabei de perceber que estava redondamente enganada! Me prove o contrário quem puder! Quantas tragédias acontecem por ai sem explicação! Quantas pessoas morrem sem mais nem menos, por fatos tão banais, por tão pouca coisa. É como dizia Renato Russo:"É tão estranho, os bons morrem antes..." E por quê?

E o quê fazer a respeito disso? Nada ...me diga o que podemos fazer? Nada!!Viver a nossa vida como se fosse o último dia? Isso é muito lindo ...muito poético ..mas só serve para filmes ...como as histórias de amor com final feliz! Na vida real as histórias de amor nem sempre tem um final feliz, ninguém vive cada dia como se fosse o último! Não importa o que aconteça, não importa o que te digam ...quando você chega no final da linha, você sempre acha que não aproveitou o suficiente, você sempre vai olhar para traz e ver que faltou alguma coisa, faltou a vida ...aquela vida que você sempre sonhou e apesar de buscar, continua e diariamente, você nunca a encontrou!

Fico pensando se soubesse o que ia acontecer amanhã, assim como se soubesse no dia 22 de junho o que ia acontecer no dia 23. Ah, teria mudado tanta coisa...mas eu não sabia, e agora é um pouco tarde. E mesmo que eu tenha vivido cada minuto como se fosse o último eu ainda não tive tempo pra viver tudo o que eu queria. Nós buscamos, buscamos, pra no fim não encontrar o que realmente queremos! Vivemos para morte e não para vida! Parece um absurdo, mas é a mais pura verdade...cada dia que passa você está mais próximo da morte! Um tom muito pessimista ...mas verdadeiro.

De que adiantam todas aquelas regras simples de felicidade, assim como "sempre deixe as pessoas que você ama com palavras de carinho", eu deixei, eu juro que eu disse o quanto o amava, mas mesmo assim ele se foi, ele não entendeu o sentido das minhas palavras, ou entendeu bem demais quando eu disse que enfrentaria tudo pra ficar com ele, por que eu disse que por ele eu seria forte, mas não sem ele, assim não dá, sem objetivos não se sonha, não se vive. Eu não sei o que é pior, não ter coragem ou ter coragem demais!

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Tortilhas
Camila Mello

Existem mexicanos nos Estados Unidos da América,
e aqui no Brasil eu já não sei quantos mais!
É tanta cara branca,
tanta cara preta,
tanta cara rosa,
tanto arco-íris em prosa,
que eu que sou assim o que sou
já não me defino
(mas que perda de tempo, faça-me o favor!)
Eu sei sim o que faço:
eu como falo transo abalo ai meu siso indeciso amanhã tenho que ir ao dentista
ontem fui ao oculista ginecologista cardiologista malabarista trapezista
contorcionista ai minha vista estou com miopia com antipatia e barriga vazia.
Pronto, senhores, com vocês: eu!
Sem cinismo, meus senhores,
não leiam neste tom!
Isto tudo é realmente eu,
esta pequena zona,
este ser plebeu.
Aplausos, por favor.

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Revolução

A Margareth. Igual a todas as outras: coque no cabelo, uniforme azul-ciano, base no rosto e o maldito batom rosa-bebê. A Corporação era quem dava a diretriz - o padrão estético, segundo eles, era resultado das mais esmiuçadas pesquisas de tendência para a aceitação do visual das atendentes de Grandes Corporações. Margareth odiava a Corporação, mas a grana era boa e ainda oferecia desconto nas mensalidades da sua faculdade. Ruim era o restaurante da Corporação. Comida pior que de colégio municipal. Não valia o esforço do maldito batom rosa-bebê.

Três anos de corporação e ainda o batom rosa-bebê. O uniforme, design novo, uma faixa branca na lapela. No coque, uma telinha de renda para adornar o penteado. O batom, o mesmo. Começou a organizar uma rebelião. As gurias não ousaram, não queriam arriscar o emprego. Um tom acima!, pediu a Margareth para a moça do avon. De rosa-bebê, passou a usar o rosa-681, código que identificava a cor um pouco mais ousada. Bem pouco. A vó nem notou. O vigilante que ficava zanzando em frente ao seu balcão de atendimento todos os dias, também não. É certo que olhava para a sua boca. Também. Mas não notou. Na hora do lanche, as gurias horrorizadas, dizendo que Margareth iria ser demitida. Margareth nem ligou, chamou elas de bobas. Bem assim. Sabia que estavam com inveja, não tinham coragem de ousar como Margareth. Azar o delas.

No outro mês, o rosa-683. Margareth não era boba. Fechava o batom com a tampinha do rosa-bebê. Na frente da supervisora era como se ainda usasse o antigo. Margareth começou a achar o trabalho mais agradável. Não sabia bem porquê. O batom, talvez. Mais sensual. Notava os homens se demorando mais a perguntar onde ficava o prédio onze. E o vigilante olhava mais para a sua boca, também. As gurias quase nem falavam com ela. Era a ousada, a rebelde. Quase devassa.

Em julho não se agüentou. Achou o rosa-paixão divino e pensou em chutar o balde. Como as gurias já nem lhe dirigiam a palavra e tampouco a supervisora lhe mirava os lábios com precisão, chegou naquela tarde com os beiços em encarnado. O vigilante comentou, as gurias resmungaram algo como “hmpf!” antes de lhe virar a cara e ela achou em excesso o interesse de tanto homem a lhe perguntar onde ficava o prédio onze. No fim do expediente a supervisora disse que queria falar com ela. Ainda arranjou tempo para ligar pra moça do avon e pedir o vermelho-rubro. Achava que ficaria bem com o tailleur vermelho-sangue com que passaria no dia seguinte no departamento de pessoal.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

A Campanha do Pereirinha

Pereirinha era um daqueles caras legais, camaradas, sempre de bem com a vida. Andava de bar em bar, estava em todas as festas e eventos, esbanjava elegância mesmo dentro de casa e de pijama. Falava e convencia como poucos. Ninguém sabia de onde vinha tanta cultura, até porque muitos não entendiam uma palavra do que ele dizia ou talvez porque não era nada muito entendível mesmo. Cultura ou enrolação, tratava-se sem dúvida alguma de uma figura e tanto. E foi Osmar, seu grande amigo de infância, quem teve aquela idéia, entre um intervalo do pandeiro e uma pitada de fumo.

_ Você tem que ser político.
_ Imagina Osmar, eu fora!
_ Não, falo sério. Tem pinta de político, fala como político.
_ Nem pensar, me deixa quieto no meu canto homem.
_ Imagina só você sendo o prefeito dessa cidade. Quanta coisa você ia poder fazer hein Pereirinha? E com esse teu jeitão então, em breve seria governador e até presidente.
_ Mas ... - Osmar estava embalado. Tapou-lhe a boca e seguiu falando.
_ Mas nada homem de Deus! Você iria andar por aí de limousine abanando para o povo, viver voando de avião e visitando outros países desse mundão.

Um brilho lhe saltou os olhos. Sempre quis voar de avião. Ficava horas olhando os aviões que passavam com suas luzes piscantes pelo bairro em direção ao aeroporto e se imaginando mais perto das nuvens. Assistia a todos aqueles filmes de seqüestro em aviões mas nem sabia o enredo. Queria mesmo era ver o cenário. E Osmar não parou por aí. Sabia que estava quase lá. Não era à toa que eram tão amigos.

_ Vai morar no Palácio da Alvorada ... fazer cada festança na Granja do Torto ... falar um monte de bobagens em tom de discurso, cagar umas leis por aí ... sem falar na ajudinha que ia dar pra todo mundo aqui né Pereirinha? E aposto que você ainda não pensou na patroa sendo chamada de Primeira Dama ...

Um sorriso abriu-se em seu olhar distante e iluminado. Parecia voar por entre as nuvens, mesmo que o céu não tivesse nenhuma sequer naquele momento. Não houve pausa:

_ E o povo nas ruas gritando sem parar: “Zé Pereira, Zé Pereira, Zé Pereira!”...

Aterrisou repentinamente. Algo não soara bem. Enrugou a testa e fez uma carranca de assustar até mesmo o seu grande amigo. Foi curto e grosso em suas próximas palavras:

_ Zé Pereira não Osmar, Pereirinha! Sr. Presidente P e r e i r i n h a! – e decolou seu olhar novamente para as nuvens ...

***

A campanha política fora um sucesso. Idéia do Paulão, que topou de cara entrar de cabeça no apoio ao Pereirinha. O lema era Política Segura. Sem panfletos que era pra não sujar a rua e manter o clima politicamente correto do candidato, mesmo que ele não fosse (como geralmente aliás, acontece na vida real). Mais: tinha que ser algo útil, como ele seria se eleito (sem comentários).

Todos adoraram a idéia da camisinha. Quando chegou o caminhão com todo o material então, foi aquela alegria. Ficaram ótimas. Nas cores do partido, tinham frases de impacto variadas:

• Contra a procriação da roubalheira, dos crimes e da inflação: vote Pereireinha!
• Com Pereirinha, você vai poder gozar a vida tranqüilo!
• Pereirinha, o candidato intimamente ligado ao seu desejo e à sua necessidade!
• Meta na urna com confiança: vá de Pereirinha!
• Vote Pereirinha para não reproduza os erros dos outros!
• Agora é Pereirinha, porque voto de castidade é coisa do passado!
• Se duas cabeças pensam melhor do que uma, use bem as duas, vote Pereirinha!

Tinha até camisinha com cédula impressa direto no látex. É bem verdade que isso gerou alguma polêmica. Teve a mesária que meteu a boca no eleitor que levou junto uma Playboy com a desculpa que precisava ver a “cola” para votar certo. E o outro mesário que teve que ir lá tirar a boca dessa primeira do eleitor ...

Também houve reclamações das fiscais na contagem dos votos ao se depararem com algumas cédulas que estavam um tanto grudentas. Por mera coincidência, nelas o voto sempre era para o Pereirinha.

E apesar de estupendo sucesso, Pereirinha perdeu a eleição. Mas ao contrário do que se possa pensar, ele não deixou de ser o falastrão bem-humorado e querido de todos. Ainda mais que nunca o bairro teve um controle de natalidade tão eficiente como o daquele ano.

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 10/X

Mãe judia
Filho drogado
Carro amassado

Escondidos

Quem foi criança sabe que a melhor parte desta brincadeira é saber que tem alguém querendo saber de você. Onde você está, o que está fazendo? Sim, aquela criança está procurando você, que se escondeu muito bem e pode salvar as outras. Estará ela perto do pique? Você conseguirá chegar lá antes dela e ter o prazer de se esconder de novo? Quem poderá saber? Ora, você já sabe, quem está escondido!!!

Alguns dos locais mais belos do mundo estão escondidos das pessoas. A praia vermelha em Garopaba, por exemplo, é um destes paraísos perdidos. Do lado da praia em que foi filmado “O Piano”, a praia Beatles, na Nova Zelândia, tem outra prainha, tão bela quanto, que ninguém conhece. Será que é sempre assim? O que faz com que um lugar seja endeusado e o outro, muito melhor seja preterido? Será que é melhor ser o Didi do que o Giannechini?

O melhor de um dia pode ser a noite. O melhor de um jogo pode ser o que está por vir. Não estou querendo dizer que a grama mais verde é a do vizinho ou que a vida deixa o melhor para os outros. Nada disso. Estou dizendo apenas para você não se contentar só com o que aparece. Parece que é bom, então pode ser melhor ainda. De tempo ao tempo, mas não se esqueça que o melhor amante do mundo é o Don Juan de Marco.

O melhor de conhecer alguém bem é que esta pessoa pode esconder belezas que a gente não imagina. Talentos e personalidades que não se mostram de cara. Tem gente que é bom de cheiro, de organização ou de fazer amigos. Cada um tem qualidades que não aparecem logo de saída. Gente de verdade atrás de máscaras.

Às vezes, mostrar sentimentos pode ser bom. Porém a verdadeira arte de amar se dá nas pequenas coisas camufladas, que ninguém se dá conta, nem mesmo você. Pense e faça. Uma declaração que pode ficar escondida em um texto, uma frase que só “ela” entende. Se prepare, não prepare, sinta.

Pois é, a felicidade é feita destes momentos, de sentimentos às vezes abertos, às vezes velados, às vezes intensos, às vezes serenos.

Viver é bom, mas lembre-se de uma coisa, não se esconda de si.

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Veja só quem está falando!
Diego Mainardo

A irmandade chavista

Sessenta e oito intelectuais e artistas brasileiros assinaram o manifesto “Se fosse venezuelano, eu votaria em Chávez”.

Há quem critique esta onda de manifestos que têm surgido ultimamente condenando guerras, repudiando associações com a ALCA, etc.

O argumento principal de quem faz tal crítica é um só: tais manifestos seriam absolutamente tendenciosos, buscariam agradar ideais particulares, rejeitando outros possíveis manifestos moralmente válidos mas que contrariam em parte suas convicções.
Ora, pois... Já que sugere então tal atitude, parta à batalha!

Críticas vazias não promovem ações, digníssimo amigo.

Talvez angariem cartas, e-mails e comentários, mas não movem o mundo.

Se te preocupas sobre a influência dos intelectuais e artistas na permanência de Chávez, e és contra, organiza-te e luta contra.

Do contrário, permanecerás um eterno idiota...

Se eu fosse venezuelano votaria com os brasileiros...

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Utopias
Luiz Maia

Desapego

Você já sentiu vontade de se ver livre
da pressão das tarefas diárias, do tempo e de alguns relacionamentos?
Cansou-se dos alimentos lights, diets?
Já não existe romantismo em apreciar o jardim de sua casa?

Então, experimente desprender-se de tudo
que pareça estar lhe cansando.
Desapegue-se de suas próprias idéias para poder
ficar receptivo às novas.
Desapegar-se é entender a realidade tal como ela é, mas
procurando abrir espaços ao sonho e à esperança.

Assim você poderá desfrutar das
oportunidades da vida, abraçando-se às mudanças, internas ou externas,
que vêm lhe seduzindo.

É bem provável que agindo assim você venha a se sentir de bem com a vida,
responsável pelos outros e feliz.
Às vezes é mesmo preciso persistir na busca do novo, deixando de lado
possíveis valores que já perderam o sentido de ser.

Precisamos manter o coração aberto ao novo, eliminando o apego extremado a valores,
pessoas, sentimentos e posturas que não mais contribuem
para uma vida saudável e feliz.

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Sonhos

Por entre abismos de nuvens corremos
Sentenciados à vagar pela noite deserta
Corações selvagens palpitando de amor
E as canções que cantamos passeiam pelo vento como plumas de águias novas

Nossos olhos estão voltados ao alto
Contemplando a lua que está sorrindo
Abraçamos o infinito e desejamos nunca morrer
Dois corpos quentes, queimados pelo fogo
Cabelos molhados pelo orvalho e pele arrepiada de prazer

Voamos para longe, tentando nos esconder
Pois o sol já está surgindo e com ele nossos sonhos esvair-se-ão
Não há tempo para nos despedirmos
Então esperamos a noite retornar novamente
Para juntos completarmos nosso viver

Que venha o entardecer!

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Suburbanas
Marcos Claudino

São Paulo, 24 de agosto de 2004.

Giro Olímpico

Sou formado em Ciências Contábeis, desde 2000. Não executo a função, desde 1997. Trabalho com Recursos Humanos, e, confesso, creio que o faço muito bem.
Esta introdução serve apenas para justificar que não sou, e creio mesmo que não serei jornalista, de qualquer ramificação, muito menos esportiva. Por esta razão, peço desculpas pelo esculacho do manifesto descrito abaixo.

Embora o mercado de trabalho tenha resolvido, nas últimas semanas, chamar-me a várias entrevistas de vagas oferecidas, não são todos os dias que estou com os dias ocupados, e, por esta razão, tenho tido tempo de acompanhar o desenrolar de boa parte destes jogos olímpicos, realizados nas lindas terras gregas.

Sou um nacionalista. Adoro meu país e minha gente. Algumas coisas irritam-me profundamente, desde declarações de jornalistas que resolvem fazer muito mais que simples narrações esportivas, a comentaristas, que ultrapassam os limites das imagens e resultados, e chegam a requerer verdadeiros cargos honorários de donos da verdade ininterrupta e incontestável.

Pois tenho ouvido muita gente dizer que é besteira levar mais de duzentos atletas aos jogos, sendo que a grande minoria é que tem real chance de medalhas. Pois só este aspecto pode até tomar todas as linhas deste mal escrito texto. O que penso é que estamos evoluindo. Se um esportista brasileiro chega em último lugar em sua prova, não quer dizer que não mereça o apoio necessário ao seu esporte. Ao contrário, a este é que deve-se concentrar mais recursos, pois ganha experiência, noção de competição, e, principalmente, leva a bagagem do que as próximas gerações irão encontrar nas próximas competições. Ou será que qualquer um pode ser último, menos o Brasil? Tenho a sensação que nossa cultura esportiva resume-se, exclusivamente, a futebol. Este, mesmo assim, se não ganhar a competição, de nada valerá um segundo, terceiro, ou quarto lugar. Pensamento pequeno, é o que eu penso.

Fiquei verdadeiramente contente com o quinto lugar da Daiane. Mas, sei que muitos já estão dizendo que a menina amarelou. Amarelou? Como alguém tem coragem de dizer uma coisa dessas? São mais de duzentos países participando. Muitos, com vinte, trinta competidores. E nós encaixamos três atletas, entre quinto, décimo segundo, e décimo sexto lugares, respectivamente. Nunca havíamos chegado a uma final. Será que na próxima olimpíada não estaremos mais maduros, com mais condições? Na natação, tivemos a revelação da jovem Joana Maranhão, chegando a duas finais, uma terminada em quinto, outra em sétimo. Sem medalhas, e daí? E daí? Daí, que crescemos, e é uma ascendência que não regride mais, tenho certeza. E as meninas do futebol?

Dando a lição aos marmanjos milionários, de que, com vontade, com espírito, e com talento, dá pra chegar lá. A prata já está garantida, mas não é impossível que subam ao pedestal maior nas premiações. Se não trouxerem, a festa deverá ser a mesma. E tantos outros, que alcançaram pontos jamais atingidos? Aquela modalidade que ninguém conhece, que nunca vimos, a cada dia sendo ocupada por um ou outro brasileiro.

Olha só. A imprensa, e a mentalidade das pessoas influenciam tanto a cabeça de nossos atletas, que nosso grande Cláudio Honorato ficou envergonhado de não ter conseguido trazer uma medalha. Chorou um choro sentido, pediu desculpas. Olha, gigante, a mim você não deve desculpas. Eu é que lhe devo palmas, aplausos, e a alegria de tê-lo como nosso representante. A você e a cada um de nossos representantes olímpicos, por mais inexpressiva que tenha sido sua classificação final, pois vocês vestem a nossa camisa, representam-nos ao mundo, e, a cada dia, colocam um pouquinho mais de medo em tantas e tantas super potências esportivas. Bom saber que, até agora, e espero até o fim dos jogos, nenhum registro de doping brasileiro, o que já é um grande exemplo.

Enfim, esporte é muito mais do que opiniões simplistas de pessoas que jamais se contentaram com evoluções, mesmo que essas evoluções demorem a vir, se vierem. Esporte é uma celebração, antes de tudo, da vida, da capacidade de nossos corpos e mentes, representando a força da criatura mais evoluída deste planeta que, em tantas vezes, não sabe exercer este papel...

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Ombudsman
Alessandro Sachetti

Brasil, o país da vela!

Grande Tenente, Rafael, as mudanças se fazem necessárias quando tem foco e potencial para trazer melhorias, o que, imagino ser o caso da criação do Conselho Federal de Jornalismo. No papel é uma ótima idéia, basta apenas realmente ser constituído e, ainda mais, dirigido pelo bom senso. Uma maneira interessante de acabar com os subempregos, pois, hoje é comum encontrarmos pessoas com o diploma do curso superior tendo o cargo de estagiário em empresas. Alegam a tal falta de experiência, mas não dão oportunidades, além de ser extremamente vantajoso ter mão-de-obra qualificada e barata. Assim, isentam-se do pagamento de férias, décimo terceiro, fundo de garantia e demais encargos. Concordo contigo e engrosso o coro de Granma para todos! E, se possível, grana também.

Gostei das “melhorias” estéticas do site. E fico feliz em ver que os comentários têm aumentado, o que é gratificante para quem escreve, essa troca é vital, é a referência que nos dá mais força e visão exterior, escrever para ninguém é escrever com tinta invisível.
Dani Castilho volta, e nos presenteia com seu conto, sempre muito bem contado (sic). O abismo está sempre há um passo de distância, você pula ou fica apreciando a vista lá de cima. Às vezes tenho a impressão que viver é saltar de um abismo por dia, tudo o que vai ser está intrinsecamente ligado às escolhas de agora. A gente se arrepende sim das coisas que fez, mas pior é se arrepender do que não fez.

Não falarei do meu texto, mas gostaria de falar dos comentários que recebi. É sempre bom saber que um texto que escrevi faz alguém pensar, imagino que é o que sempre esperam os escritores.

Sobre os sonhos, ainda não aprendi a controlá-los e nem a descobrir que estou sonhando, para ter a consciência desperta durante um sonho e poder “vivê-lo” melhor. Para quem gosta do tema e quer ir além, assista ao filme Waking Life. É tudo isso e um pouco mais.

Concordo com o comentário do Marcos, a idéia é encontrar alguém para sonhar junto, acordado ou não.

Eduardo, gostaria muito de saber o nome do psicanalista e descobrir se ele possui algo publicado, seria interessante. Agora, imagina se toda nossa vida fosse mesmo um sonho e um dia acordamos. Isso soa Matrix, não acha? Então veja o filme que indiquei acima e tenha uma outra visão.

Meu xará, Alessandro, fala sobre um dos filmes que mais gostei esse ano, e contesta muito o que viu, então hei de contestá-lo segundo minha visão, e que isso fique bem claro. Até por isso não vou rebater linha por linha o que ele disse, mas sim a leitura que fiz do filme.

Ken Park começa banal, com o suicídio do personagem que dá nome ao filme, só que aí também começa toda a forma pretensiosamente desleixada da história. Larry Clark apresenta outra realidade em seus filmes, em Ken Park não é diferente, os personagens estão mais para suburbanos do que para os playboys e patricinhas americanos, crítica clara aos efeitos colaterais do modo de vida americano, assim como todo o embasamento do filme.
O skate dá o tom da película, nos pés do adolescentes que mantém relações sexuais com a mãe da namorada. Junto do filho que vê a sua rotina com sua mãe ser abalada pela chegada de um padastro pançudo e beberrão. Clark toma as situações e personagens antes inanimados para dar-lhes vida e falta de educação católica.

Então, eis que surge o sexo, e os closes em genitálias masculinas, sempre escondidas no cinema, ao contrário do corpo feminino sempre e cada vez mais à mostra, tanto que já se tornou comum e não causa mais espanto. Nu frontal e sexo explícito, não fosse a bela fotografia os mais recatados não conseguiriam ir até o fim do filme e nem assistiriam um dos mais estarrecedores finais da história do cinema erudito atual.
Talvez a sensação de vazio, seja, pela falta de critério com que o sexo e a vida sem rumo dos personagens surgem grudados, feito cães no cio, e mais vazio ainda sabendo que isso existe e está o tempo todo a nossa volta.
Grande Eduardo, também creio que a “escola” onde se formam tais imbecis é a mesma dos Laulas, e irrita mesmo esse tipo de atitude, é incrível como algumas pessoas ainda teimam em querer tirar vantagem desse tipo de situação. O tal “Dia do Pendura” há muito acabou, pois, o bom senso também acabou faz tempo. Também gostaria de crer que isso é exceção, mas me parece cada vez mais exceção generalizada.

Ótimo o seu Haikai caro Pedro Volkmann, de longe um dos que mais gostei. Lobisomens não são lendas, pelo menos não os dessa raça, muito pelo contrário, são mais comuns do que se poderia imaginar. E nessa época se apresentam numerados, filiados, unidos. Para contar causos furados e roubarem nossos trocados.

Mainardo, nunca havia me passado pela cabeça à idéia de termos Senna como presidente. Me agrada muito seu texto, mas também é fato que vários dos grandes governantes tinha, de certa forma, um bom desempenho em todas as matérias que você citou com muita propriedade, mas o problema reside em uma enorme inteligência em ser tão sem escrúpulo quanto hábil em todos os fundamentos que constituem um grande homem.

Luiz, eu acredito que o contentamento de qualquer desejo é logo superado por um novo desejar, e uma nova satisfação causa novo desejo em seguida e assim consecutivamente até o fim. O fim.

Sara és, para mim, uma agradável surpresa. Muita força e muita imagem em teu estilo de escrever. Que força de solidão melancólica. O poeta Christian Bobin já dizia que melancolia: “é um eclipse. Pois bem, é isto: a lua que se põe à frente do coração, e o coração que não emite mais sua luz. A noite em pleno dia. A melancolia é doce e escura”.
Grande Marcos, a vida é assim, nunca vamos saber tudo, eu na verdade nem quero. Se isso fosse possível, sofreria de terríveis enxaquecas, me contento em aprender e aprender mais sempre, e ainda assim saber que não sei nada e ainda há muito a aprender. Fico feliz em saber que assumes um novo posto, gratificante para mim que tive o prazer de dividir esse posto por um tempo contigo. Tempo este, que se pequeno, foi intenso e muito produtivo. Sorte e força.

Criticar é sempre complicado, temo em exercer tal tarefa, no máximo discordo ou concordo e vou até aí. Se assumirmos que tudo é relativo, então qual o ponto de vista adequado para analisar algo? Nunca saberei, pois, só tenho o meu ponto de vista. E quem garante que ele está correto? Ninguém, muito menos eu. Nunca fui e nem vou ser o dono da verdade.

Nota sobre as Olimpíadas: Infelizmente caro Marcos, os americanos já estão em pé de igualdade com os chineses no quadro de medalhas e devem abrir certa vantagem em breve, mas acredito que este desempenho da China tem muito haver com o crescimento da economia daquele país. Nosso primeiro ouro veio com Scheidt e tivemos o sonho frustrado com nossa Daiane, espero que mesmo assim ela seja reverenciada pelo seu enorme talento e não simplesmente apedrejada como fazem sempre nossa mídia cruel.

Mesmo com alguns bons resultados isolados, percebe-se a nossa grande carência de infra-estrutura para o esporte. Afinal, um país tão grande e tão cheio de talentos mal cuidados até agora se encontra no quadro de medalhas, atrás de países como Belarus (?), Etiópia, Geórgia, Tailândia, Chile, Nova Zelândia, Indonésia, Zimbábue entre outros. É muito pouco.

De qualquer forma, temos medalhas garantidas no vôlei de praia masculino e feminino, resta torcer pelo ouro dessas duplas, assim como o Futebol feminino, quem vai salvar a nossa fama de país do futebol. Força Meninas!

Santo Robert Scheidt, que só sobrevive por ser um fenômeno no que faz. E o judô sempre matendo tradição de medalhas.

Tem ainda Torben Grael e Márcio Ferreira com ótimas chances de ouro e também Ricardo Winicki, o Bimba a um passo da medalha, todos esses na vela.

Quem diria, Brasil o país da vela!

Ainda em clima de Olimpíadas, a partir dessa semana, assim como já disse o Marcos na edição passada, assumo o posto de Ombudsman único, já que meu querido companheiro mudou de modalidade e não espera mais pelo bastão depois da próxima curva.

Vamos seguindo, aprendendo, chorando e sorrindo.

E até semana que vem!

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