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01 /09/2004 - Edição número
91
Rascunho
e a Lista Simplex
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Rascunho e a Lista Simplex
Sou um novato assinante do Rascunho
- "O Jornal de Literatura do Brasil", como seus
editores mesmo lhe subentitulam.
Há cerca de 6 meses que recebo mensalmente
este jornal literário e a cada nova edição
fico plenamente satisfeito com seu conteúdo que abrange
tanto a crônica, o conto, a poesia, o ensaio, entrevistas
e muita, mas muita crítica literária.
Toda vez que aquele envelope pardo com remetente
de Curitiba chega em minha caixa de correio,
renova-se o sonho de contar também com uma edição
impressa do Simplicíssimo.
Ora vejam pois se não tenho razão:
são 9 colunas fixas (incluindo este editorial) e
mais 3 participações de colaboradores eventuais
a cada semana, totalizando 48 textos novinhos por mês.
A fila de espera para publicação
tanto de textos em prosa como poesia só faz crescer,
fazendo com que tenhamos que ampliar espaços para
publicação a cada bimestre pelo menos; a qualidade
dos escritores e seus escritos não deixa
a desejar (inclusive ultrapassa, em boa parte das vezes)
em relação aos grandes autores dos meios de
comunicação escrita de massa da atualidade;
o gás da galera que aqui participa é infindável
e o amor pelas letras que bate no peito de todos é
incomensurável.
Entramos hoje em uma nova fase do Simplicíssimo:
a fase de começar gradualmente a amadurecer a idéia
de tornar este sítio não apenas mais um na
recente onda de "armazéns literários
virtuais" mas sim referência estética,
poética e até ideológica de
qualidade no que diz respeito à produção
literária no Brasil.
Como bem salienta o ditado, "sonho que
se sonha só é só um sonho, mas sonho
que se sonha junto se transforma em realidade". Com
certeza, todo tipo de ajuda e idéias será
bem-vinda e o pontapé inicial para transformar esta
(por enquanto) miragem em realidade é a criação
de uma lista de discussão do Simplicíssimo.
Se você, digníssimo Simplileitor
quiser entrar nesta Nau e viajar psicodelicamente pelo éter
universal e imprimir nele suas pegadas, mande um e-mail
para simplicissimo@simplicissimo.com.br
e solicite sua inclusão na lista de discussão
do Simplicíssimo.
Atualizações importantes dos
debates da lista serão publicadas em "ata"
no Tudo Está Escrito no Éter Universal,
o blógue do Simplicíssimo na coluna direita
da capa.
Salve a inventividade, a energia voltada para
o bem e a curiosidade que questiona e soluciona ao mesmo
tempo.
Vamos juntos nessa que tá bom a beça
(é assim que se escreve?)!
Rafael Luiz Reinehr
PS: boas vindas ao Hugo
Oliveira que estréia com uma bela crônica
e, ao retorno doAdriano Oliveira com sua
genial análise dos "tipos psicológicos".
"As coisas mais belas são
ditadas pela loucura e escritas pela razão"
André Gide
"A beleza é a harmonia entre
o acaso e o bem"
Simone Weil
"Cada idade tem a sua beleza e essa
beleza deve sempre ser uma liberdade"
Robert Brasillach
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Marca
Registrada
Hugo Oliveira |
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Rotulagem, segundo o dicionário significa uma ação
de rotular e por sua vez rotular é pôr rótulo
em; servir de rótulo a; atribuir determinada classificação
a alguém ou a um grupo. Resumindo: rotular é
nada mais e nada menos que tachar.
Cada embalagem de algum produto, existe um impresso seja
ele em latas, caixas ou mesmo em garrafas que especifica
o seu conteúdo para que o consumidor saiba, pelo
menos na teoria, os detalhes do produto adquirido.
Neste mundo contemporâneo pós-moderno, onde
o importante é ser e não ter e que o consumismo
é estimulado desde quando somos crianças,
reflete um comportamento absurdo e cruel em nós.
É muito natural tarchasmo as pessoas. É muito
fácil rotular grupos sem ao menos conhecer o seu
“conteúdo”. Seu eu quero comprar uma
massa para fazer uma macarronada, vejo na sua embalagem
informações importantes sobre o produto, como
por exemplo, a sua data de fabricação, seus
compostos, nutrientes e muito mais.
E por que será que quando não conhecemos muito
bem uma pessoa colocamos um rótulo nela? Ficamos
falando com tanta segurança da personalidade das
pessoas que mal conhecemos e quando realmente a conhecemos
vimos que eram totalmente deiferentes do que pensávamos.
E porque existem denominações como heterossual,
homosseuxual, bissexual, se todos nós independentemente,
de opção sexual, somos seres humanos em busca
da felicidade? Esses nomes fazem diferença? E se
fazem diferença, pra quem?
Outra coisa coisa muito desagradável é rotular
as pessoas pelas suas vestes, senão está bem
vestida é porque é pobre. Será que
pobre não sabe se vestir adequadamente? E se a pessoa
tem um mau gosto ou ainda tiver saído atrasada de
casa? Realmente, o que é ser pobre?
Olhando por um lado menos pessimista, pensar sobre o outro
é um ato natural. Veja bem: conheço uma pessoa
em qualquer lugar que seja, trocamos telefones e falamos
sobre nós e aí marcamos um encontro para um
outro dia. Depois ficamos pensando como é a pessoa
no seu dia-a-dia e projetamos em nossa mente apeans coisas
agradáveis sobre a pessoa. Isso tudo é muito
natural.
O problema está quando uma impressão –
que é uma simples noção de si ou de
outrem, uma idéia apenas – é mal interpretada
e colocamos todo nosso preconceito qualquer que seja ele
adquirido através da experiências de vida e
incompreenssão em ação, donde nasce
o rótulo. Percebo que as pessoas julgam por demais
e não são nem um pouco compreensivas e mantém
muito as suas mentes fechadas, isoladas, não predispostas
dar seu amor ao próximo.
Geralmente o consumidor não muito atento, não
costuma ler rótulos de mercadorias, mas fielmente
rotula o chefe, aquele cara que está sempre sentado
no mesmo assento do ônibus, o colega do departamento
ao lado; enfim, acho que rotular as pessoas seja um ato
natural de todos nós e de acordo com a nossas experiências
de vida. Isso pode se tornar algo produtivo ou negativo
em nossas vidas? Acho que a resposta seria: depende de quem
rotula e problema de quem é rotulado.
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Tipos
Psicológicos
Adriano Oliveira |
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A Psicologia Analítica, corrente da
Psicologia criada pelo suiço Carl Gustav Jung, considera
que os seres humanos podem ser analisados segundo a sua
especificidade psicológica. Ora, mas o que isto significa?
Segundo Jung, todos nós temos uma maneira de se relacionar
com o mundo e com as pessoas. Existem aqueles que possuem
uma atitude mais reservada, intimista, que preferem um grupo
seleto de amigos à festas agitadas. Gostam de ficar
divagando com seus próprios pensamentos, imersos
em sua imaginação. A estes Jung chamou de
Introvertidos. Existem aqueles, no entanto, que
gostam de festas com muitas pessoas, que se sentem bem em
lugares onde não são conhecidos de todos –
não possuem medo do que lhes é estranho.
Não são introspectivos e preferem o diálogo
e o contato constante com as pessoas, atraídos por
tudo o que não lhes parece monótono. Estes
últimos foram considerados pelo nobre suiço
como Extrovertidos.
Mas a classificação junguiana do
tipos psicológicos não pára por aí.
Existem, ainda, quatro funções psicológicas,
subdivididas em duas subcategorias: as funções
de relação e as funções de julgamento.
As primeiras dizem respeito a maneira como o indivíduo
percebe a realidade. Como um homem ou uma mulher percebe
os dados do mundo e as pessoas. Esta maneira de perceber
o mundo, segundo Jung, pode ser intuitiva ou sensitiva,
predominando necessariamente nos sujeitos uma ou outra.
A pessoa intuitiva percebe as coisas de maneira um pouco
obscura. Ela tem uma percepção inconsciente
dos fatos ao seu redor, sem saber, no entanto, dar-lhes
o devido nome e lugar. As pessoas intuitivas tem uma melhor
percepção do futuro, e geralmente tendem a
confiar em suas impressões súbitas sobre as
pessoas. Já os sensitivos percebem a vida através
dos cinco sentidos. São muito sensíveis à
experiência concreta, ao tato, ao cheiro, aos sons
que lhes chegam, e com muita freqüência se guiam
por tais vias. São mais atraídos pelo mundo
exterior, dos esportes, das atividades intensas em detrimento
da vida interior.
A segunda subcategoria diz respeito à maneira como
o indivíduo vai julgar as situações
de sua vida. Segundo o mestre de Zurique, existem pessoas
que tomam decisões de tal forma a priorizarem o que
sentem, ou seja, seus sentimentos, seus valores. São
ótimos para perceberem os sentimentos alheios, dentre
eles o sofrimento. Assim, a lógica convencional e
as normas de qualquer espécie ficam em segundo plano
na hora de fazerem escolhas. Foram então denominados
tipos sentimentais. O pólo oposto refere-se
aquelas pessoas que são guiadas em suas decisões
pela razão. Pensam em todas as hipóteses ao
fazerem seus planos, lançando mão de argumentações
para justificar suas atitudes. Não são hábeis
em perceber o que os outros sentem, e chegam a ignorar os
próprios sentimentos, já que esta polaridade
se encontra inconsciente em tais sujeitos.
Assim, uma pessoa pode ser intuitiva ou sensitiva, de acordo
com a sua maneira de perceber o mundo, e ainda sentimental
ou reflexiva ( preponderância do pensamento), segundo
o modo como julgue as situações do cotidiano.
Jung assinala que estas funções irão
estar presentes em pessoas introvertidas e extrovertidas,
sendo que em cada um dos grupos existirão especificidades,
sem dúvida.
Os tipos psicológicos são mais empregados
pelos psicólogos junguianos para a análise
de relacionamentos. Um tipo reflexivo-sensitivo, por exemplo,
pode ter dificuldades ao se relacionar com um intuitivo-sentimental.
Isto não quer dizer que a relação pode
não dar certo, mas sem dúvida o casal deverá
levar em conta a especificidade psicológica do parceiro
– seus gostos, sua maneira de se relacionar, as formas
de se expressar - , para que ambos possam compreender suas
atitudes, já que ficar tentando “mudar”
o outro sempre resultará em fracasso.
Este modelo, no entanto, não visa a categorização
das pessoas e sua classificação. Para Jung,
o importante era fazer seus pacientes perceberem que não
poderiam se relacionar com a existência de forma unilateral.
Uma pessoa sentimental precisará saber ser lógica
e racional em muitas situações, a fim de que
não se torne ingênua. Da mesma forma que um
homem extremamente racional precisa reconhecer seus sentimentos,
a fim de não magoar àqueles de quem gosta,
sendo insensível e indiferente com as emoções
alheias – bem como poderá ser indiferente com
o que ele próprio sente.
Os Tipos Psicológicos, assim, são um instrumento
para a melhor compreensão de nós mesmos. Uma
ferramenta para podermos visualizar nossas atitudes sem
preconceitos. E você, qual o seu tipo?
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Cacheados os meus cabelos.
Eu me espreguiço na janela olhando
os vizinhos do prédio amarelo,
e ele coloca os braços em envelope sobre o peito
quando acorda.
Ontem de noite eu senti minha garganta doer,
e mesmo assim hoje eu li poemas para estranhos.
(se ele quiser eu leio um livro inteiro só prá
ele).
Na verdade o prédio não é amarelo,
mas inventaram cores que não têm nomes.
Eu gostava quando crianças me abraçavam e
o dia parecia ser um parágrafo.
Hoje as coisas não sabem para onde ir,
então eu fico em casa escrevendo letras de músicas
que eu não sei tocar,
ou eu faço tranças que depois eu vou desfazer
na cozinha.
Cacheados os meus cabelos;
Talento escorre entre meus dedos:
as manhãs são becos
aonde as cores
das flores
têm nomes
secos.
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Verdades perturbadoras
O oscilar atordoante entre passado e futuro, a forma como
as várias fases do tempo se intercalam, se devoram
e nutrem-se reciprocamente. O vai-vém que garante
vida, continuidade, mas, ao mesmo tempo, pode gerar o horror
não desejado, o futuro antevisto através da
terrível maldição da escrita.
“Pensamentos são reais. Palavras são
reais. Tudo que é humano é real, e às
vezes sabemos coisas antes que aconteçam, mesmo sem
ter consciência disso. Vivemos no presente, mas o
futuro está dentro de nós a todo momento.
Talvez isso seja escrever. Não registrar eventos
do passado, mas fazer as coisas acontecerem no futuro.”
O autor da afirmação acima é John
Trause. Escritor cuja renomada obra foi abordada pelo bibliógrafo
americano James Gillespie e, que, tal é a profusão
de resultados associada a seu nome em uma rápida
busca pela Internet, poderia facilmente existir. E, na realidade,
quem disse que não existe?
Por ser uma personagem do mais recente romance de Paul
Auster, “Noite do Oráculo”, isto não
se transforma em garantia absoluta da não-existência
de Trause. Se o mesmo, ainda, diz que palavras são
reais e escrever é fazer as coisas acontecerem no
futuro, seria mais um ponto provável para se acrescentar
à sua possível existência. No momento,
no entanto, em que nos damos conta de se tratar de um anagrama
do próprio Auster, é que, por instantes, deixamos
de estar perdidos na fantasia realidade-ficção
proposta por Paul Auster, e podemos estar mais certos de
qual lado do chão (em cima? em baixo?) estamos realmente
pisando.
E, uma vez certos da realidade que temos então,
mais seguros estamos para adentrar nesta fusão proposta
por Auster. E nela encontrarmos Sidney Orr, escritor que
sobreviveu a um violento trauma ocorrido após uma
queda e que se recupera de uma demorada estada no hospital
que o deixou entre a vida e a morte. Quando encontra na
papelaria de um estranho comerciante chinês um caderno
azul, de origem portuguesa, que exerce incrível atração
sobre Orr, este retoma sua atividade literária fervorosamente.
E ao escrever, refaz a história de Flitcraft, de
“O Falcão Maltês” de Dashiel Hammet.
Este personagem de Hammet, homem comum, norte-americano,
que, um belo dia, ao escapar ileso do acidente de um andaime
que, desabando, quase o atinge a cabeça, crê
que escapou da morte para recomeçar sua vida novamente.
Sem se importar com maiores providencias, decide que não
pode mais viver como antes e muda-se de cidade para iniciar
uma vida nova.
Como exercício proposto por seu amigo John Trause,
Orr cria Nick Bowen, o seu Flitcraft. Um editor de livros
com a mesma vida sem preocupações, a não
ser por um crescente tédio pela monotonia de um emprego
sem surpresas e um casamento sem maiores fascínios.
Quando escapa de um acidente semelhante ao do personagem
de Hammet, Bowen toma o primeiro avião para o primeiro
destino previsto e ruma para Kansas City, começar
sua vida do nada, sem se importar em avisar ninguém.
Tudo o que leva consigo são os originais de um livro
escrito por Sylvia Maxwell, romancista famosa na década
de vinte, chamado “Noite do Oráculo”
e entregue a ele por sua neta, Rosa Leightman. Auster se
encarrega, então, de incluir também a narrativa
deste “Noite do Oráculo”, lido com fervor
por Bowen, para tornar ainda mais labiríntica a sua
prosa. E quando esta é revelada, também o
é o fascínio das questões do tempo
e identidade sobre obra de Paul Auster. “Noite do
Oráculo”, de Sylvia, não de Auster,
narra a história de Lemuel Flagg, um tenente britânico
que, durante a Primeira Guerra Mundial, ficou cego com a
explosão de um morteiro. Ele foi salvo por dois órfãos
franceses, que dele cuidaram até que pudesse voltar
para casa. A sua cegueira lhe ofertou o dom da profecia.
Quando é jogado no chão, vez por outra, tomado
por terríveis transes, Flagg antevê fatos e
previsões que, realmente, preferiria não saber.
O presente e o futuro são questões continuamente
presentes na obra de Auster. Questionamentos que giram sobre
a função do escritor. E qual será?
Revisitar episódios do passado ou, de alguma forma,
prever, com os seus escritos, acontecimentos futuros? Embora
não seja uma indagação das mais originais,
os personagens de Auster se tomam por elas, tornando confusos
e perturbadores os seus dias quando envolvidos por tais
possibilidades. Afinal, poderão as palavras escritas
no fascinante caderno azul por Sidney Orr estar influenciando
na realidade dos que o envolvem? Que mistério, afinal,
ligará o famoso escritor e amigo John Trause a Grace,
à amada mulher de Orr, já que a conhece a
tanto tempo e por vezes parece nutrir por ela um amor mais
do que paternal? Ou serão os quase delírios
de Orr os responsáveis por confusões que o
afastam da realidade e lhe esboçam novas perspectivas,
becos sem saídas tão impassíveis quanto
ele mesmo cria, ao colocar seu personagem Bowen, em dado
momento, trancado em um quarto fechado?
“Noite do Oráculo” é como um
daqueles presentes que vêm dentro de uma caixa, dentro
de outra caixa, dentro de mais uma caixa. São narrativas
que se entrelaçam a todo momento, idas e vindas que
geram mais do que atordoantes coincidências, citações
e referências autoriais quase incessantes. Como se
não bastasse estas já oferecidas, Auster ainda
coloca Sidney Orr a rabiscar um roteiro adaptando “A
Máquina do Tempo” de H. G. Wells. Com tantas
tramas, fica um pouco difícil crer na afirmação
de Paul Auster de que “Noite do Oráculo”
não passa de uma história de amor, a de Sidney
Orr por sua mulher, Grace. Apesar de esta existir, também
é óbvio que se encontra à mercê
desta influência que os escritos parecem gerar sobre
a vida real. O livro de Auster não chega a ser uma
armadilha, com sua leitura fácil e agradável.
Mas propõe intrincadas experiências de cruzamentos
e coincidências, flutuações sobre irregularidades
e vácuos, chãos não absolutamente seguros.
Desta maneira, Paul Auster nos propõe uma tensão
que não se encontra absolutamente sobre os fatos
narrados, mas da maneira que estes o são, no fluxo
entre uma narrativa e outra, nas relações
estabelecidas entre produtos aparentemente díspares.
Assim, ações mais corriqueiras e a que estamos
comumente acostumados, como os pulos entre diversas atividades,
o folhear da página do jornal e o capítulo
da novela, a história ficcional e a informação
do noticiário – estes objetos e fatos por vezes
se transformam em prováveis irmãos, gêmeos
em suas linearidades, assustadores na sua semelhança
e correlação. É o mundo contemporâneo
e suas coincidências por vezes aterrorizantes.
Estes aspectos nos trazem a intenção clara
das palavras de Auster: “Livros são como sonhos,
não sabemos exatamento de onde ele vêm”.
Se assim, mais do que fundamentos intelectuais para apaziguar
nossa gana de conhecimento ou referência erudita,
o que temos são tramas atordoantes, a entrada consciente
em “verdades” perturbadoras. E tudo é
apenas história. Ou não.
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
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Mundo cão
Dia desses estava eu dentro do meu carro quando um menino
de rua (não sei se essa é a forma mais adequada
de defini-lo), passou pela frente do veículo. Talvez
não houvesse nada demais nesta cena, não fosse
me chamar atenção que vinha, em sua mão
direita, com uma cordinha esticada. Antes mesmo de ver por
completo, imaginei tratar-se de um cachorrinho. Meu pensamento
imediato foi de satisfação, algo do tipo:
“Pôxa que legal um menino de rua conduzindo
seu cão pela guia, que baita exemplo” e admito
um certo preconceito aqui. Mais alguns passos à frente
e eis que surge, na outra extremidade da corda, nada menos
do que um daqueles assustadores pitbulls. Fiquei perplexo
e preocupado, percebendo também que na mão
esquerda, o menino segurava um haltere de pequeno porte,
talvez entre 2 e 4 Kg, com o qual exercitava ininterruptamente
seu fino braço. Lembrei-me do amigo Pedro Volkmann,
em seu artigo sobre o Desarmamento, na
edição 43 do Simplicíssimo, quando
se referiu às armas e às armas. Inevitavelmente,
veio em meu pensamento uma seqüência de cenas
de uma gangue valendo-se da fera para assaltar transeuntes
desavisados. Em meu fugaz devaneio, senti-me realmente muito
angustiado. Não sei se isso tudo fica mais atrelado
ao nosso violento dia-a-dia urbano, ao senso comum, ao bom
senso ou por mais uma carga de preconceitos (com o menino
e com essa raça canina), mas foi realmente inevitável.
Até porque ocorreram duas histórias nada agradáveis
com minhas colegas de trabalho, gente de muito boa vontade.
Uma delas, ao parar com seu carro na sinaleira, foi abordada
por um mendigo que lhe pediu algum trocado. Respondeu-lhe
que não tinha, mas comovida pela insistente lamúria
do menino abriu a carteira para mostrar-lhe o quão
pouco tinha dentro. E pouco pode fazer para evitar o sentimento
de desilusão e raiva (com sua inocência, bondade
ou ambos) que seguiu-se à mão que adentrou
pelo vidro aberto e roubou-lhe as duas únicas notas
de R$ 1,00 que tinha. Também parada na sinaleira,
mas com o vidro fechado, a outra colega deu atenção
a uma criança pedinte (a mesma do outro caso, ao
que tudo indica). Com uma moeda em sua mão, o mendigo
pediu-lhe dinheiro e, frente à negativa, advertiu:
“Se você não me der vou riscar seu carro”,
acenando com a moeda. Tendo o sinal aberto, ela partiu,
sentindo na sua boa alma o barulho do metal rasgando a pintura
de toda a lateral de seu carro e o sorriso sarcástico
daquela pequena criatura que ficava para trás.
Volta e meia penso o que eu teria feito. Antes, durante
e depois de tal acontecimento. E imagino que você
tenha se perguntado o mesmo. Então me diga prezado
leitor, sinceramente, o que você teria feito?
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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 12/X
programada a obsolescência
de produtos e casamentos
quem cuida do filho ranhento?
Ensandecidas lombadas
Há algum tempo atrás, escrevi
um texto que trazia um longo trecho que falava de como se
comportar no trânsito. Hoje lembrei dele. Estava indo
para Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre, quando um ônibus
que havia passado um sinal vermelho me trancou de propósito,
pois eu arranco de forma bastante rápida (e dirijo
bem rápido também). Logo após isto,
tinha uma lombada que multa quem passar por ela a mais de
quarenta quilômetros por hora.
Depois disto, andei mais uns trinta quilômetros
de forma consciente, tentando observar as bobagens que acontecem
no trânsito. No dia-a-dia, não me ligo muito
nisto, pois procuro manter a calma. Então, procuro
esquecer tudo o que vi. Como ando cerca de quinhentos quilômetros
por semana, passo por cenas das mais inusitadas as mais
tristes todo o tempo, o tempo todo. Desde a tradicional
limpeza de salão até atropelamentos, carros
em postes, acidentes graves e muitas pessoas dançando
e falando sozinhas dentro de seus automóveis.
Agora, tem uma coisa que me deixa abismado.
É a velocidade máxima exigida nas tais das
lombadas eletrônicas. Eu ajo como se fossem pit stops,
paradas obrigatórias que tenho que fazer como penalidade
às muitas infrações que eu cometo diariamente.
Principalmente excesso de velocidade. Então vou indo,
de parada em parada, me penitenciando. Um dia quem sabe,
eu me conserto.
Na volta de Pinhal (dizem que é uma
praia aqui do sul) tem um aviso muito elucidativo desta
questão: logo após o aviso do pardal tem outro
que diz: “mantenha a velocidade de sessenta quilômetros
horários”. Sabe o que acontece ali? As pessoas,
com medo de serem pegas baixam para cinqüenta ou quarenta,
fazendo o de trás baixar para quarenta e nove ou
trinta e nove e assim por diante, até que o quadragésimo
carro tenha que parar. Nos feriados e no verão isto
significa um engarrafamento de mais ou menos cinqüenta
quilômetros. Pasmem. O problema é o seguinte.
Se no velocímetro está marcando quarenta,
o carro está mais ou menos a trinta e cinco. Então,
ao contrário de um certo filme, quanto mais devagar
melhor.
Não preciso dizer que isto também
traz carros fervendo e crianças gritando. Muito tri.
Pelo menos me deu um assunto para o Simplicíssimo.
A grande questão é: ensandecidas
lombadas, muito piores que as eletrônicas, são
aquelas que acabam com os carros, nas suas subidas e descidas
(aprenda a passar por elas: de ladinho e colocando o pé
no freio um segundo antes de entrar (para fazer o carro
subir)). Estas colocadas de forma maluca, fazem os maus
motoristas se atrapalharem e os bons pisarem fundo.
Ensandecidas lombadas, não combinam
com nosso ensandecido trânsito.
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Veja
só quem está falando!
Diego Mainardo |
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Na sala com Gangan
Gangan e eu. Eu e Gangan.
Gangan é traficante.
Sabe como assar um pato no microondas melhor
do que ninguém.
Gangan, Novinho, Bem-te-vi, Dudu.
Favela da Mineira, Rocinha, Vidigal e Cantagalo.
A polícia que prender Gangan. A polícia
ajuda a frustrar as tentativas da polícia.
Gangan é caridoso.
Dá dinheiro aos pobres. Dá aos
pobres remédios, roupas, abrigo. "Patrocina"
o transporte até os bailes funk.
Gangan é o bam-bam-bam (nos dois sentidos
da palavra) do Terceiro Comando.
Gerencia o Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa
cheia de versos mil.
Às vezes fico sem ter o que falar,
aí mesmo, por não ter nada a dizer, fico falando
sozinho.
Qualquer outra consideração
é uma afronta.
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Crise Existencial
Viver parece cada vez mais difícil.
Observando-se parâmetros mínimos de normalidade,
vê-se claramente o estado de degeneração
por que passa as relações humanas.
O homem está perdido em meio ao emaranhado de ilusões
por ele criado.
Algo não cheira bem na sociedade.
Vivemos uma crise existencial profunda.
As instituições, outrora sólidas, parecem
quedar-se
ante a sanha da corrupção e da prostituição
generalizadas.
A família, núcleo primeiro da sociedade,
assimila fácil os valores duvidosos,
impostos pelos meios de comunicação,
e penetra no mais obscuro terreno que se possa imaginar.
Parece que estamos todos na UTI, vítimas que somos
da permissividade e da promiscuidade juntas.
O mau gosto e os descaminhos prevalecem nas ações
empregadas no cotidiano do homem comum.
Como não se indignar diante disso?
O resultado é a mágoa instalada no coração
dos homens de bem,
que são ainda - felizmente - maioria entre nós.
O desencanto e a indignação que tomam conta
de todos, suscitam uma urgente mudança
de atitudes e comportamentos em relação ao
próprio futuro deste país.
O que está em jogo, na verdade, é o resgate
imediato de nossa identidade como ser humano.
Basta de ver homens sendo cobaias do mal, exercendo ações
que em nada o engrandecem.
Para isso precisamos reagir com dignidade e humanidade
a
fim de prepararmos o terreno para as futuras gerações.
Seja você também um agente poderoso na transformação
dos valores que permeiam a atual sociedade.
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Ventre
Voltei mais uma vez ao lugar, somente para
encontrar aquilo que havia esquecido.
Falta não fez aquele pedaço de mim, vísceras
do ventre corrompido.
O rompimento da pureza, da noção de beleza.
O começo da frieza.
Sombrio o caminho para encontrar o perdido.
Gélido e nojento, escuro e temido.
A parte esquecida do que deixei no esconderijo jazia no
vil.
Esconderijo sujo que não pertence à
parte alguma de lugar algum.
Pertence somente a mim, nele recupero o que perdi, nele
descubro porque sofri.
Ele permanece incerto, hora aqui, outra ali, fugindo de
mim.
Quando volto, preciso ter noção
de que não sou dali.
Ficar presa me mataria, sufocaria a razão.
Saio porque me permito, me conheço, mas sempre volto,
porque mereço...
O recomeço, costurar o ventre e andar sem peso.
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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São Paulo, 30 de agosto de 2004.
Tenho cara de idiota?
Muitas coisas me incomodam, e a você
também, tenho certeza. Uma das minhas campeãs,
são os guardadores de carros nas ruas, ou flanelinhas,
ou qualquer termo usado aí em sua região.
Pessoas desonestas me incomodam, com certeza. A famosa lei
de Gerson me incomoda, a falta de ética me incomoda,
enfim, mil coisas.
Ultimamente tenho assistido muita televisão, pois
minha condição de desempregado proporciona-me
este “prazer”. Tenho notado que, a cada dia,
a quantidade de comerciais tem subido muito. Você
demora a encontrar um programa que consiga assistir, e,
quando consegue, depara-se com comerciais dentro e fora
do próprio programa. São intervalos de três
a quatro minutos, principalmente nos horários de
pico de audiência. Além disso, virou mania
em programas de auditório, propagandas interrompendo
a apresentação das atrações.
Os produtos milagrosos infestam qualquer um deles. Desde
algas marinhas da Amazônia, que curam desde catarata,
até reumatismo e doenças venéreas.
Temos também os cogumelos do sol, da lua, e da via
Láctea inteira. Estes podem até reerguer defuntos,
segundo suas propriedades medicinais. Aparelhos de ginástica
que eliminam noventa por cento da gordura, e te transformam
em modelo fotográfico em algumas semanas de uso,
com poucos minutos diários. Engraçados são
os depoimentos dos supostos usuários, mal traduzidos,
e mal dublados, ganhando até das novelas mexicanas.
Temos muita gente querendo vender muita coisa, a maioria
inútil.
Confesso que paro muitas vezes nos canais, quando encontro
estas propagandas, pois a falta de criatividade leva-nos
a crer que o consumidor brasileiro é realmente muito
burro, ou o desespero chegou a pontos jamais vistos. A maioria
destes produtos são lançamentos falidos em
vários países, e chegam aqui com cara de novo.
Os nomes não são sequer traduzidos, e recuso-me
a acreditar que haja realmente quem os compre.
Mas, enfim, alonguei-me, na verdade querendo falar sobre
outra coisa. Uma propaganda que muito me incomoda vem das
esferas governamentais lá de Brasília, a terra
da fantasia. Pois agora temos propagandas com o título
de “vota Brasil”. Infame. Não o conteúdo,
tentando criar uma noção de cidadania na população.
Sei muito bem a importância do voto, as conseqüências
de um voto jogado fora, não se trata disso. O caso
mais peculiar, é que parece que estão pedindo
para que votemos, para que exerçamos nosso “direito”
ao voto. Desde quando? O voto é OBRIGATÓRIO,
catso!!! Não precisa pedir. Todos sabem que é
uma obrigação, o comprovante de votação
é exigido em vários casos, como quando damos
entrada em qualquer petição pública,
qualquer segunda via de documentos pessoais, quando entramos
numa empresa para trabalhar, enfim, em mil casos distintos.
Obriga-nos a votar, e gasta uma grana para pedir-nos para
votar? Mas que merda é essa? Que tipo de imbecil
vocês pensam que somos? Acho um absurdo a obrigatoriedade
do voto. Sabemos das conseqüências da desobrigação
a este exercício, mas creio que o direito não
seja o de votar, mas devemos ter o direito de não
votar, se assim acharmos.
Somos um país que é exemplo nas eleições,
com a inclusão das urnas eletrônicas a cada
dia em mais cidades. Ainda temos, em pequenos centros, as
famosas compras de votos, com doações de cestas
básicas, remédios desviados, um par de botas,
a parte de cima da dentadura, mas a urna eletrônica
permite um maior controle sobre estes aspectos, que espero
que desapareçam em breve.
O problema é que, ao que me parece, a desobrigação
irá gerar números pífios de cidadão
interessados em perder horas em filas, preocupados em melhorar
ou mudar as bases de governantes existentes. Mas, e daí?
Eles que se esforcem para tornarem-se confiáveis,
dignos de nosso sacrifício. Sem a obrigatoriedade,
aí teria sentido esta campanha de civilidade patriótica.
Sei que não é uma situação criada
agora, já vem de décadas, e somos pouco educados
para dar à política o valor que ela merece.
Mas, o que é certo, o meio político continua
tripudiando da capacidade do povo que, neste caso, não
tem culpa alguma nisso.
Enfim, senhoras e senhores, eis meu protesto. Votei neste
governo, “méa culpa” também. Gostaria
sinceramente que esta imposição vinda de tanto
tempo seja retirada de nossa constituição,
demonstrando um mísero de consideração
com sua população, que já tem tanto
com que se preocupar, não é?
Abraços!!
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Pequenas
resenhas canalhas
Maurício Silveira dos Santos |
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Mais que democracia, só Alegria!!!
Já que estamos em época de eleições
e temos de suportar, em nome da democracia conquistada com
tanto suor, toda a sorte de falastrões, desqualificados
e fascistas mais ou menos dissimulados na TV, nos postes,
outdoors, ou em qualquer espaço em que caiba a publicidade
política que logo formará toneladas de lixo
felizmente reciclável, a resenha canalha de hoje
tratará, à sua maneira, de política.
Chama-se Charles Fourier o autor-canalha
da vez. Ele publicou suas obras na primeira metade do séc.
XIX e é o que poderíamos chamar de filósofo
“maluco beleza”. Foi considerado por Engels
(é, ele mesmo, o colega do velho Karl Marx) como
participante do grupo de “socialistas utópicos”.
Engels queria diferenciar a teoria que ele e seu amigo Karl
fundavam, o socialismo “científico”,
de propostas que teriam um caráter fortemente idealista
ou sonhador no que tange à construção
de sociedades mais justas ou igualitárias, e que,
por ter esse caráter, não poderiam se concretizar.
Bobagem!! Charles Fourier não pode ser colocado em
grupo nenhum por um motivo: seu pensamento é singularíssimo.
Filho de uma família de comerciantes
abastados, perdeu sua fortuna e foi se dedicar às
suas teorias. Alguns biógrafos o descrevem como um
ser estranho e cheio de manias, mas possuidor de um ótimo
humor. Passava boa parte do tempo medindo objetos, ao que
parece sofria de uma espécie de obsessão matemática.
Um de seus passatempos era listar todos os subtipos possíveis
de cornos, isso mesmo, cornos. É que o tópico
central de sua teoria para uma nova sociedade, e agora chegamos
ao que interessa, é a defesa radical da liberdade
e do prazer para todos por meio da expressão das
paixões espontâneas do homem. Viram só,
ele nem estava tão preocupado com “justiça
social” ou revolução. Acreditava que
as instituições religiosas e econômicas
haviam impedido o “desabrochar livre das paixões”
e era esse entrave que, se solucionado, poderia criar um
novo mundo.
Na prática, a harmonia seria realizável
dentro de unidades sociais chamadas “falanstérios”
onde residiriam exatamente 1620 trabalhadores associados.
Todas as tarefas deveriam ser cumpridas permeadas por paixão
e alegria e no falanstério deveria se saber que “ninguém
é de ninguém” ,ou melhor, “todos
são de todos”. As atividades amorosas (coletivas)
seriam exercidas com muita freqüência e intensidade
e NADA DE NAMORADINHOS!! As parcerias sexuais variariariam
sempre. Mas Fourier admite o amor espiritual. Sabem como
ele seria exercido caso ocorresse no falanstério?
Simples: Cada indivíduo do casal espiritualmente
enamorado teria o privilégio de escolher as parcerias
sexuais do seu amor, contudo, nunca poderia ter relações
com ele/ela... para não misturar as coisas. Bem,
é claro que as idéias de Fourier vão
muito além disso, e há toda uma preocupação
estética nos seus escritos. Também as funções,
hierarquias, rituais e acontecimentos no falanstério
têm nomes ou títulos especiais ... alguém
aí está a fim de mandar às favas nossa
democracia liberal e partir para lá?? Então
tá, encontro marcado.
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Ombudsman
Alessandro Sachetti |
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O que foi e o que ficou
Grande Tenente, espero que as profecias não
se cumpram ou se cumpram ao avesso. O “Muro da Discórdia”
me remete a outro muro, aquele na Europa, marca de um império
prepotente e vencido. Quero acreditar que nada que se inicia
com idéias toscas e medíocres dure eternamente.
Não há distância que garanta segurança,
não importa o continente, nem a língua ou
a fé. Todo o barulho de lá ecoa aqui também.
Conrad Rose retorna com seu conto “Bovino”,
confesso que ainda não havia lido nada deste escritor,
e que em alguns aspectos muito me agradou, principalmente
a descrição do sofrimento. Porém, ao
ler seu texto, me ficou a sensação de que
faltava alguma coisa entre seus adjetivos, seria cola? Quem
sabe um tanto mais de substantivos ou algo que o valha.
Sua descrição às vezes fica um tanto
cansativa, pois não se sabe ao certo o que ou o porquê
das coisas. Sim, acredito que bons contos também
se fazem assim, usando apenas signos, mas é preciso
o mínimo de sequência prática e não
apenas virtuose desvairada.
Grasielle Regassini também retorna, outra que ainda
não havia lido e de que gostei. Mas seria um simples
conto ou um grande desabafo? Ou apenas dúvidas de
quem vive?
Se houvesse alguma forma de prever o futuro, então
ao certo morreríamos de véspera, não
acha? Todo, ou quase todo, ser humano tende a ser pessimista,
eu mesmo não me excluo, só tento fazer com
que as dores do que foi não me acompanhem muito tempo.
Acredito ser muito pior não ter coragem, e ser mais
fácil ter certeza do que conviver com a dúvida,
ter certeza de que se fez tudo que se podia e que, se não
deu certo, não foi por falta de vontade ou entrega.
Pior seria pensar que se tivesse arriscado mais, teria mantido
do meu lado o que perdi.
Mais uma nova tripulante da nossa nau literária,
Camila Mello estréia bem com suas “Tortilhas”,
só ficou a sensação de que, se quisesse,
poderia ter feitos dois poemas de um, pois a primeira parte
ficou um tanto desconexa. Gostei muito de sua autodescrição,
poderia começar com “que eu sou assim o
que sou”, seguindo até o final que é
muito bom. Aplausos.
Meu xará ataca de conto essa semana, conto aliás
que foi a tônica da nossa edição passada.
Gostei muito da sua “Revolução”,
as cores e as imagens que criou são interessantes
e fundamentais, talvez sem elas o conto ficasse vazio. Acho
legal trabalhar os símbolos da maneira que fez, sem
nada extremamente direto, assim cada leitor, de acordo com
seu repertório, vai ter suas próprias cores,
suas bocas OK? É ISSO MESMO??? e tudo vai completando
o mundo que você mostrou, mas que, mais importante
ainda, fez surgir na mente de quem leu.
Eduardo Sabbi nos presenteou com um conto delicioso, sem
querer desmerecer os outros que por aqui aportam, um dos
melhores que já li em nossa nau, mas ainda assim,
me parece que o ritmo tão bom no inicio cai do meio
para fim, meio que por uma ânsia de acabar. O fim
poderia ter ganhado mais, de qualquer forma é mesmo
um ótimo conto, desses que a gente lê e re-lê
sem reclamar.
Nosso Pedro mantém o seu estilo, que me agrada um
tanto, é legal também o conflito que seu texto
tem em relação ao escrito da Grasielle. São
visões diferentes de um mesmo planeta, mas não
necessariamente um mesmo mundo. Cada qual com o seu, e vamos
viver!
Diego, sempre achei que falar é fácil, agora
eu quero ver é ir à luta! Manifestos vazios
lotam prateleiras de sebos no mundo inteiro, agora gente
para defender ideais e arregaçar as mangas para mudar...
Grande Luiz, eu acho que em forma seu poema (!?) está
um tanto “truncado”, mas o conteúdo é
muito bom e precioso. Conhece os escritos de Edson Marques?
Se não conhece, fica a indicação www.mude.weblogger.com.br
A Sara é nova aqui, e vai mostrando suas faces entre
seus escritos. Nunca morrer, não é mesmo?
Seu “Sonhos” é bonito, mas tome
cuidado com a mistura de estilos, acaba deixando um pouco
pesado. Escolha entre formal e informal.
Para encerrar, Marcos Claudino e seu Giro Olímpico,
meu ex-companheiro de ombusdmanship, eu também trabalho
com Recursos Humanos, mas prometo que é por ora apenas...
Tenho certeza de que é vital levar atletas, mesmo
os que não têm a mínima chance de conquistar
medalhas, afinal disputar apenas em seu território
deixa sem referencial, é necessário um intercâmbio
mais constante, troca de informação de técnicas,
estilos etc.
Também fiquei contente com a colocação
de Daiane, claro que ela poderia ter conquistado mais, resolveu
se arriscar e pagou o preço da sua competência
– afinal, se ela não tivesse arriscado antes,
não teria hoje dois exercícios “batizados”
de Dos Santos.
Derrotados ou Vencedores, somos brasileiros. Como disse
o Giba, quando perguntado por um repórter europeu
sobre o motivo do choro enquanto a bandeira brasileira era
hasteada durante a execução do hino: “Pode
não parecer, mas esse povo brasileiro, alegre, festeiro
é muito sofrido e poder proporcionar alegria para
eles é muito bom”.
Atenas ficou para trás, hoje já é história.
Bem escrita pelos atletas que representaram nossa nação
de ouro, prata e bronze, a melhor participação
em jogos olímpicos é importante, mas não
deve esconder a falta de base, de estrutura que por aqui
aporta. Resta saber o que vai mudar.
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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