Simplicíssimo
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Editorial

Rascunho e a Lista Simplex

Sou um novato assinante do Rascunho - "O Jornal de Literatura do Brasil", como seus editores mesmo lhe subentitulam.

Há cerca de 6 meses que recebo mensalmente este jornal literário e a cada nova edição fico plenamente satisfeito com seu conteúdo que abrange tanto a crônica, o conto, a poesia, o ensaio, entrevistas e muita, mas muita crítica literária.

Toda vez que aquele envelope pardo com remetente de Curitiba chega em minha caixa de correio, renova-se o sonho de contar também com uma edição impressa do Simplicíssimo.

Ora vejam pois se não tenho razão: são 9 colunas fixas (incluindo este editorial) e mais 3 participações de colaboradores eventuais a cada semana, totalizando 48 textos novinhos por mês.

A fila de espera para publicação tanto de textos em prosa como poesia só faz crescer, fazendo com que tenhamos que ampliar espaços para publicação a cada bimestre pelo menos; a qualidade dos escritores e seus escritos não deixa a desejar (inclusive ultrapassa, em boa parte das vezes) em relação aos grandes autores dos meios de comunicação escrita de massa da atualidade; o gás da galera que aqui participa é infindável e o amor pelas letras que bate no peito de todos é incomensurável.

Entramos hoje em uma nova fase do Simplicíssimo: a fase de começar gradualmente a amadurecer a idéia de tornar este sítio não apenas mais um na recente onda de "armazéns literários virtuais" mas sim referência estética, poética e até ideológica de qualidade no que diz respeito à produção literária no Brasil.

Como bem salienta o ditado, "sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto se transforma em realidade". Com certeza, todo tipo de ajuda e idéias será bem-vinda e o pontapé inicial para transformar esta (por enquanto) miragem em realidade é a criação de uma lista de discussão do Simplicíssimo.

Se você, digníssimo Simplileitor quiser entrar nesta Nau e viajar psicodelicamente pelo éter universal e imprimir nele suas pegadas, mande um e-mail para simplicissimo@simplicissimo.com.br e solicite sua inclusão na lista de discussão do Simplicíssimo.

Atualizações importantes dos debates da lista serão publicadas em "ata" no Tudo Está Escrito no Éter Universal, o blógue do Simplicíssimo na coluna direita da capa.

Salve a inventividade, a energia voltada para o bem e a curiosidade que questiona e soluciona ao mesmo tempo.

Vamos juntos nessa que tá bom a beça (é assim que se escreve?)!

Rafael Luiz Reinehr

PS: boas vindas ao Hugo Oliveira que estréia com uma bela crônica e, ao retorno doAdriano Oliveira com sua genial análise dos "tipos psicológicos".

"As coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão"
André Gide

"A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem"
Simone Weil

"Cada idade tem a sua beleza e essa beleza deve sempre ser uma liberdade"
Robert Brasillach

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Marca Registrada
Hugo Oliveira


Rotulagem, segundo o dicionário significa uma ação de rotular e por sua vez rotular é pôr rótulo em; servir de rótulo a; atribuir determinada classificação a alguém ou a um grupo. Resumindo: rotular é nada mais e nada menos que tachar.

Cada embalagem de algum produto, existe um impresso seja ele em latas, caixas ou mesmo em garrafas que especifica o seu conteúdo para que o consumidor saiba, pelo menos na teoria, os detalhes do produto adquirido.
Neste mundo contemporâneo pós-moderno, onde o importante é ser e não ter e que o consumismo é estimulado desde quando somos crianças, reflete um comportamento absurdo e cruel em nós.

É muito natural tarchasmo as pessoas. É muito fácil rotular grupos sem ao menos conhecer o seu “conteúdo”. Seu eu quero comprar uma massa para fazer uma macarronada, vejo na sua embalagem informações importantes sobre o produto, como por exemplo, a sua data de fabricação, seus compostos, nutrientes e muito mais.
E por que será que quando não conhecemos muito bem uma pessoa colocamos um rótulo nela? Ficamos falando com tanta segurança da personalidade das pessoas que mal conhecemos e quando realmente a conhecemos vimos que eram totalmente deiferentes do que pensávamos. E porque existem denominações como heterossual, homosseuxual, bissexual, se todos nós independentemente, de opção sexual, somos seres humanos em busca da felicidade? Esses nomes fazem diferença? E se fazem diferença, pra quem?

Outra coisa coisa muito desagradável é rotular as pessoas pelas suas vestes, senão está bem vestida é porque é pobre. Será que pobre não sabe se vestir adequadamente? E se a pessoa tem um mau gosto ou ainda tiver saído atrasada de casa? Realmente, o que é ser pobre?

Olhando por um lado menos pessimista, pensar sobre o outro é um ato natural. Veja bem: conheço uma pessoa em qualquer lugar que seja, trocamos telefones e falamos sobre nós e aí marcamos um encontro para um outro dia. Depois ficamos pensando como é a pessoa no seu dia-a-dia e projetamos em nossa mente apeans coisas agradáveis sobre a pessoa. Isso tudo é muito natural.
O problema está quando uma impressão – que é uma simples noção de si ou de outrem, uma idéia apenas – é mal interpretada e colocamos todo nosso preconceito qualquer que seja ele adquirido através da experiências de vida e incompreenssão em ação, donde nasce o rótulo. Percebo que as pessoas julgam por demais e não são nem um pouco compreensivas e mantém muito as suas mentes fechadas, isoladas, não predispostas dar seu amor ao próximo.

Geralmente o consumidor não muito atento, não costuma ler rótulos de mercadorias, mas fielmente rotula o chefe, aquele cara que está sempre sentado no mesmo assento do ônibus, o colega do departamento ao lado; enfim, acho que rotular as pessoas seja um ato natural de todos nós e de acordo com a nossas experiências de vida. Isso pode se tornar algo produtivo ou negativo em nossas vidas? Acho que a resposta seria: depende de quem rotula e problema de quem é rotulado.

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Tipos Psicológicos
Adriano Oliveira

A Psicologia Analítica, corrente da Psicologia criada pelo suiço Carl Gustav Jung, considera que os seres humanos podem ser analisados segundo a sua especificidade psicológica. Ora, mas o que isto significa?
Segundo Jung, todos nós temos uma maneira de se relacionar com o mundo e com as pessoas. Existem aqueles que possuem uma atitude mais reservada, intimista, que preferem um grupo seleto de amigos à festas agitadas. Gostam de ficar divagando com seus próprios pensamentos, imersos em sua imaginação. A estes Jung chamou de Introvertidos. Existem aqueles, no entanto, que gostam de festas com muitas pessoas, que se sentem bem em lugares onde não são conhecidos de todos – não possuem medo do que lhes é estranho. Não são introspectivos e preferem o diálogo e o contato constante com as pessoas, atraídos por tudo o que não lhes parece monótono. Estes últimos foram considerados pelo nobre suiço como Extrovertidos.

Mas a classificação junguiana do tipos psicológicos não pára por aí. Existem, ainda, quatro funções psicológicas, subdivididas em duas subcategorias: as funções de relação e as funções de julgamento.

As primeiras dizem respeito a maneira como o indivíduo percebe a realidade. Como um homem ou uma mulher percebe os dados do mundo e as pessoas. Esta maneira de perceber o mundo, segundo Jung, pode ser intuitiva ou sensitiva, predominando necessariamente nos sujeitos uma ou outra. A pessoa intuitiva percebe as coisas de maneira um pouco obscura. Ela tem uma percepção inconsciente dos fatos ao seu redor, sem saber, no entanto, dar-lhes o devido nome e lugar. As pessoas intuitivas tem uma melhor percepção do futuro, e geralmente tendem a confiar em suas impressões súbitas sobre as pessoas. Já os sensitivos percebem a vida através dos cinco sentidos. São muito sensíveis à experiência concreta, ao tato, ao cheiro, aos sons que lhes chegam, e com muita freqüência se guiam por tais vias. São mais atraídos pelo mundo exterior, dos esportes, das atividades intensas em detrimento da vida interior.

A segunda subcategoria diz respeito à maneira como o indivíduo vai julgar as situações de sua vida. Segundo o mestre de Zurique, existem pessoas que tomam decisões de tal forma a priorizarem o que sentem, ou seja, seus sentimentos, seus valores. São ótimos para perceberem os sentimentos alheios, dentre eles o sofrimento. Assim, a lógica convencional e as normas de qualquer espécie ficam em segundo plano na hora de fazerem escolhas. Foram então denominados tipos sentimentais. O pólo oposto refere-se aquelas pessoas que são guiadas em suas decisões pela razão. Pensam em todas as hipóteses ao fazerem seus planos, lançando mão de argumentações para justificar suas atitudes. Não são hábeis em perceber o que os outros sentem, e chegam a ignorar os próprios sentimentos, já que esta polaridade se encontra inconsciente em tais sujeitos.

Assim, uma pessoa pode ser intuitiva ou sensitiva, de acordo com a sua maneira de perceber o mundo, e ainda sentimental ou reflexiva ( preponderância do pensamento), segundo o modo como julgue as situações do cotidiano. Jung assinala que estas funções irão estar presentes em pessoas introvertidas e extrovertidas, sendo que em cada um dos grupos existirão especificidades, sem dúvida.

Os tipos psicológicos são mais empregados pelos psicólogos junguianos para a análise de relacionamentos. Um tipo reflexivo-sensitivo, por exemplo, pode ter dificuldades ao se relacionar com um intuitivo-sentimental. Isto não quer dizer que a relação pode não dar certo, mas sem dúvida o casal deverá levar em conta a especificidade psicológica do parceiro – seus gostos, sua maneira de se relacionar, as formas de se expressar - , para que ambos possam compreender suas atitudes, já que ficar tentando “mudar” o outro sempre resultará em fracasso.

Este modelo, no entanto, não visa a categorização das pessoas e sua classificação. Para Jung, o importante era fazer seus pacientes perceberem que não poderiam se relacionar com a existência de forma unilateral. Uma pessoa sentimental precisará saber ser lógica e racional em muitas situações, a fim de que não se torne ingênua. Da mesma forma que um homem extremamente racional precisa reconhecer seus sentimentos, a fim de não magoar àqueles de quem gosta, sendo insensível e indiferente com as emoções alheias – bem como poderá ser indiferente com o que ele próprio sente.

Os Tipos Psicológicos, assim, são um instrumento para a melhor compreensão de nós mesmos. Uma ferramenta para podermos visualizar nossas atitudes sem preconceitos. E você, qual o seu tipo?

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Becos
Camila Mello

Cacheados os meus cabelos.

Eu me espreguiço na janela olhando os vizinhos do prédio amarelo,
e ele coloca os braços em envelope sobre o peito quando acorda.
Ontem de noite eu senti minha garganta doer,
e mesmo assim hoje eu li poemas para estranhos.
(se ele quiser eu leio um livro inteiro só prá ele).
Na verdade o prédio não é amarelo,
mas inventaram cores que não têm nomes.
Eu gostava quando crianças me abraçavam e o dia parecia ser um parágrafo.
Hoje as coisas não sabem para onde ir,
então eu fico em casa escrevendo letras de músicas que eu não sei tocar,
ou eu faço tranças que depois eu vou desfazer na cozinha.

Cacheados os meus cabelos;
Talento escorre entre meus dedos:
as manhãs são becos
aonde as cores
das flores
têm nomes
secos.

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Verdades perturbadoras

O oscilar atordoante entre passado e futuro, a forma como as várias fases do tempo se intercalam, se devoram e nutrem-se reciprocamente. O vai-vém que garante vida, continuidade, mas, ao mesmo tempo, pode gerar o horror não desejado, o futuro antevisto através da terrível maldição da escrita.

“Pensamentos são reais. Palavras são reais. Tudo que é humano é real, e às vezes sabemos coisas antes que aconteçam, mesmo sem ter consciência disso. Vivemos no presente, mas o futuro está dentro de nós a todo momento. Talvez isso seja escrever. Não registrar eventos do passado, mas fazer as coisas acontecerem no futuro.”

O autor da afirmação acima é John Trause. Escritor cuja renomada obra foi abordada pelo bibliógrafo americano James Gillespie e, que, tal é a profusão de resultados associada a seu nome em uma rápida busca pela Internet, poderia facilmente existir. E, na realidade, quem disse que não existe?

Por ser uma personagem do mais recente romance de Paul Auster, “Noite do Oráculo”, isto não se transforma em garantia absoluta da não-existência de Trause. Se o mesmo, ainda, diz que palavras são reais e escrever é fazer as coisas acontecerem no futuro, seria mais um ponto provável para se acrescentar à sua possível existência. No momento, no entanto, em que nos damos conta de se tratar de um anagrama do próprio Auster, é que, por instantes, deixamos de estar perdidos na fantasia realidade-ficção proposta por Paul Auster, e podemos estar mais certos de qual lado do chão (em cima? em baixo?) estamos realmente pisando.

E, uma vez certos da realidade que temos então, mais seguros estamos para adentrar nesta fusão proposta por Auster. E nela encontrarmos Sidney Orr, escritor que sobreviveu a um violento trauma ocorrido após uma queda e que se recupera de uma demorada estada no hospital que o deixou entre a vida e a morte. Quando encontra na papelaria de um estranho comerciante chinês um caderno azul, de origem portuguesa, que exerce incrível atração sobre Orr, este retoma sua atividade literária fervorosamente. E ao escrever, refaz a história de Flitcraft, de “O Falcão Maltês” de Dashiel Hammet. Este personagem de Hammet, homem comum, norte-americano, que, um belo dia, ao escapar ileso do acidente de um andaime que, desabando, quase o atinge a cabeça, crê que escapou da morte para recomeçar sua vida novamente. Sem se importar com maiores providencias, decide que não pode mais viver como antes e muda-se de cidade para iniciar uma vida nova.

Como exercício proposto por seu amigo John Trause, Orr cria Nick Bowen, o seu Flitcraft. Um editor de livros com a mesma vida sem preocupações, a não ser por um crescente tédio pela monotonia de um emprego sem surpresas e um casamento sem maiores fascínios. Quando escapa de um acidente semelhante ao do personagem de Hammet, Bowen toma o primeiro avião para o primeiro destino previsto e ruma para Kansas City, começar sua vida do nada, sem se importar em avisar ninguém. Tudo o que leva consigo são os originais de um livro escrito por Sylvia Maxwell, romancista famosa na década de vinte, chamado “Noite do Oráculo” e entregue a ele por sua neta, Rosa Leightman. Auster se encarrega, então, de incluir também a narrativa deste “Noite do Oráculo”, lido com fervor por Bowen, para tornar ainda mais labiríntica a sua prosa. E quando esta é revelada, também o é o fascínio das questões do tempo e identidade sobre obra de Paul Auster. “Noite do Oráculo”, de Sylvia, não de Auster, narra a história de Lemuel Flagg, um tenente britânico que, durante a Primeira Guerra Mundial, ficou cego com a explosão de um morteiro. Ele foi salvo por dois órfãos franceses, que dele cuidaram até que pudesse voltar para casa. A sua cegueira lhe ofertou o dom da profecia. Quando é jogado no chão, vez por outra, tomado por terríveis transes, Flagg antevê fatos e previsões que, realmente, preferiria não saber.

O presente e o futuro são questões continuamente presentes na obra de Auster. Questionamentos que giram sobre a função do escritor. E qual será? Revisitar episódios do passado ou, de alguma forma, prever, com os seus escritos, acontecimentos futuros? Embora não seja uma indagação das mais originais, os personagens de Auster se tomam por elas, tornando confusos e perturbadores os seus dias quando envolvidos por tais possibilidades. Afinal, poderão as palavras escritas no fascinante caderno azul por Sidney Orr estar influenciando na realidade dos que o envolvem? Que mistério, afinal, ligará o famoso escritor e amigo John Trause a Grace, à amada mulher de Orr, já que a conhece a tanto tempo e por vezes parece nutrir por ela um amor mais do que paternal? Ou serão os quase delírios de Orr os responsáveis por confusões que o afastam da realidade e lhe esboçam novas perspectivas, becos sem saídas tão impassíveis quanto ele mesmo cria, ao colocar seu personagem Bowen, em dado momento, trancado em um quarto fechado?

“Noite do Oráculo” é como um daqueles presentes que vêm dentro de uma caixa, dentro de outra caixa, dentro de mais uma caixa. São narrativas que se entrelaçam a todo momento, idas e vindas que geram mais do que atordoantes coincidências, citações e referências autoriais quase incessantes. Como se não bastasse estas já oferecidas, Auster ainda coloca Sidney Orr a rabiscar um roteiro adaptando “A Máquina do Tempo” de H. G. Wells. Com tantas tramas, fica um pouco difícil crer na afirmação de Paul Auster de que “Noite do Oráculo” não passa de uma história de amor, a de Sidney Orr por sua mulher, Grace. Apesar de esta existir, também é óbvio que se encontra à mercê desta influência que os escritos parecem gerar sobre a vida real. O livro de Auster não chega a ser uma armadilha, com sua leitura fácil e agradável. Mas propõe intrincadas experiências de cruzamentos e coincidências, flutuações sobre irregularidades e vácuos, chãos não absolutamente seguros. Desta maneira, Paul Auster nos propõe uma tensão que não se encontra absolutamente sobre os fatos narrados, mas da maneira que estes o são, no fluxo entre uma narrativa e outra, nas relações estabelecidas entre produtos aparentemente díspares. Assim, ações mais corriqueiras e a que estamos comumente acostumados, como os pulos entre diversas atividades, o folhear da página do jornal e o capítulo da novela, a história ficcional e a informação do noticiário – estes objetos e fatos por vezes se transformam em prováveis irmãos, gêmeos em suas linearidades, assustadores na sua semelhança e correlação. É o mundo contemporâneo e suas coincidências por vezes aterrorizantes.

Estes aspectos nos trazem a intenção clara das palavras de Auster: “Livros são como sonhos, não sabemos exatamento de onde ele vêm”. Se assim, mais do que fundamentos intelectuais para apaziguar nossa gana de conhecimento ou referência erudita, o que temos são tramas atordoantes, a entrada consciente em “verdades” perturbadoras. E tudo é apenas história. Ou não.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Mundo cão

Dia desses estava eu dentro do meu carro quando um menino de rua (não sei se essa é a forma mais adequada de defini-lo), passou pela frente do veículo. Talvez não houvesse nada demais nesta cena, não fosse me chamar atenção que vinha, em sua mão direita, com uma cordinha esticada. Antes mesmo de ver por completo, imaginei tratar-se de um cachorrinho. Meu pensamento imediato foi de satisfação, algo do tipo: “Pôxa que legal um menino de rua conduzindo seu cão pela guia, que baita exemplo” e admito um certo preconceito aqui. Mais alguns passos à frente e eis que surge, na outra extremidade da corda, nada menos do que um daqueles assustadores pitbulls. Fiquei perplexo e preocupado, percebendo também que na mão esquerda, o menino segurava um haltere de pequeno porte, talvez entre 2 e 4 Kg, com o qual exercitava ininterruptamente seu fino braço. Lembrei-me do amigo Pedro Volkmann, em seu artigo sobre o Desarmamento, na edição 43 do Simplicíssimo, quando se referiu às armas e às armas. Inevitavelmente, veio em meu pensamento uma seqüência de cenas de uma gangue valendo-se da fera para assaltar transeuntes desavisados. Em meu fugaz devaneio, senti-me realmente muito angustiado. Não sei se isso tudo fica mais atrelado ao nosso violento dia-a-dia urbano, ao senso comum, ao bom senso ou por mais uma carga de preconceitos (com o menino e com essa raça canina), mas foi realmente inevitável. Até porque ocorreram duas histórias nada agradáveis com minhas colegas de trabalho, gente de muito boa vontade.

Uma delas, ao parar com seu carro na sinaleira, foi abordada por um mendigo que lhe pediu algum trocado. Respondeu-lhe que não tinha, mas comovida pela insistente lamúria do menino abriu a carteira para mostrar-lhe o quão pouco tinha dentro. E pouco pode fazer para evitar o sentimento de desilusão e raiva (com sua inocência, bondade ou ambos) que seguiu-se à mão que adentrou pelo vidro aberto e roubou-lhe as duas únicas notas de R$ 1,00 que tinha. Também parada na sinaleira, mas com o vidro fechado, a outra colega deu atenção a uma criança pedinte (a mesma do outro caso, ao que tudo indica). Com uma moeda em sua mão, o mendigo pediu-lhe dinheiro e, frente à negativa, advertiu: “Se você não me der vou riscar seu carro”, acenando com a moeda. Tendo o sinal aberto, ela partiu, sentindo na sua boa alma o barulho do metal rasgando a pintura de toda a lateral de seu carro e o sorriso sarcástico daquela pequena criatura que ficava para trás.

Volta e meia penso o que eu teria feito. Antes, durante e depois de tal acontecimento. E imagino que você tenha se perguntado o mesmo. Então me diga prezado leitor, sinceramente, o que você teria feito?

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 12/X

programada a obsolescência
de produtos e casamentos
quem cuida do filho ranhento?

Ensandecidas lombadas

Há algum tempo atrás, escrevi um texto que trazia um longo trecho que falava de como se comportar no trânsito. Hoje lembrei dele. Estava indo para Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre, quando um ônibus que havia passado um sinal vermelho me trancou de propósito, pois eu arranco de forma bastante rápida (e dirijo bem rápido também). Logo após isto, tinha uma lombada que multa quem passar por ela a mais de quarenta quilômetros por hora.

Depois disto, andei mais uns trinta quilômetros de forma consciente, tentando observar as bobagens que acontecem no trânsito. No dia-a-dia, não me ligo muito nisto, pois procuro manter a calma. Então, procuro esquecer tudo o que vi. Como ando cerca de quinhentos quilômetros por semana, passo por cenas das mais inusitadas as mais tristes todo o tempo, o tempo todo. Desde a tradicional limpeza de salão até atropelamentos, carros em postes, acidentes graves e muitas pessoas dançando e falando sozinhas dentro de seus automóveis.

Agora, tem uma coisa que me deixa abismado. É a velocidade máxima exigida nas tais das lombadas eletrônicas. Eu ajo como se fossem pit stops, paradas obrigatórias que tenho que fazer como penalidade às muitas infrações que eu cometo diariamente. Principalmente excesso de velocidade. Então vou indo, de parada em parada, me penitenciando. Um dia quem sabe, eu me conserto.

Na volta de Pinhal (dizem que é uma praia aqui do sul) tem um aviso muito elucidativo desta questão: logo após o aviso do pardal tem outro que diz: “mantenha a velocidade de sessenta quilômetros horários”. Sabe o que acontece ali? As pessoas, com medo de serem pegas baixam para cinqüenta ou quarenta, fazendo o de trás baixar para quarenta e nove ou trinta e nove e assim por diante, até que o quadragésimo carro tenha que parar. Nos feriados e no verão isto significa um engarrafamento de mais ou menos cinqüenta quilômetros. Pasmem. O problema é o seguinte. Se no velocímetro está marcando quarenta, o carro está mais ou menos a trinta e cinco. Então, ao contrário de um certo filme, quanto mais devagar melhor.

Não preciso dizer que isto também traz carros fervendo e crianças gritando. Muito tri. Pelo menos me deu um assunto para o Simplicíssimo.

A grande questão é: ensandecidas lombadas, muito piores que as eletrônicas, são aquelas que acabam com os carros, nas suas subidas e descidas (aprenda a passar por elas: de ladinho e colocando o pé no freio um segundo antes de entrar (para fazer o carro subir)). Estas colocadas de forma maluca, fazem os maus motoristas se atrapalharem e os bons pisarem fundo.

Ensandecidas lombadas, não combinam com nosso ensandecido trânsito.

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Veja só quem está falando!
Diego Mainardo

Na sala com Gangan

Gangan e eu. Eu e Gangan.

Gangan é traficante.

Sabe como assar um pato no microondas melhor do que ninguém.

Gangan, Novinho, Bem-te-vi, Dudu.

Favela da Mineira, Rocinha, Vidigal e Cantagalo.

A polícia que prender Gangan. A polícia ajuda a frustrar as tentativas da polícia.

Gangan é caridoso.

Dá dinheiro aos pobres. Dá aos pobres remédios, roupas, abrigo. "Patrocina" o transporte até os bailes funk.

Gangan é o bam-bam-bam (nos dois sentidos da palavra) do Terceiro Comando.

Gerencia o Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa cheia de versos mil.

Às vezes fico sem ter o que falar, aí mesmo, por não ter nada a dizer, fico falando sozinho.

Qualquer outra consideração é uma afronta.

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Utopias
Luiz Maia

Crise Existencial

Viver parece cada vez mais difícil.
Observando-se parâmetros mínimos de normalidade,
vê-se claramente o estado de degeneração por que passa as relações humanas.
O homem está perdido em meio ao emaranhado de ilusões por ele criado.
Algo não cheira bem na sociedade.
Vivemos uma crise existencial profunda.
As instituições, outrora sólidas, parecem quedar-se
ante a sanha da corrupção e da prostituição generalizadas.

A família, núcleo primeiro da sociedade, assimila fácil os valores duvidosos,
impostos pelos meios de comunicação,
e penetra no mais obscuro terreno que se possa imaginar.

Parece que estamos todos na UTI, vítimas que somos da permissividade e da promiscuidade juntas.
O mau gosto e os descaminhos prevalecem nas ações empregadas no cotidiano do homem comum.
Como não se indignar diante disso?

O resultado é a mágoa instalada no coração dos homens de bem,
que são ainda - felizmente - maioria entre nós.
O desencanto e a indignação que tomam conta de todos, suscitam uma urgente mudança
de atitudes e comportamentos em relação ao próprio futuro deste país.

O que está em jogo, na verdade, é o resgate imediato de nossa identidade como ser humano.
Basta de ver homens sendo cobaias do mal, exercendo ações que em nada o engrandecem.

Para isso precisamos reagir com dignidade e humanidade a
fim de prepararmos o terreno para as futuras gerações.
Seja você também um agente poderoso na transformação
dos valores que permeiam a atual sociedade.

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Ventre

Voltei mais uma vez ao lugar, somente para encontrar aquilo que havia esquecido.
Falta não fez aquele pedaço de mim, vísceras do ventre corrompido.
O rompimento da pureza, da noção de beleza. O começo da frieza.

Sombrio o caminho para encontrar o perdido.
Gélido e nojento, escuro e temido.
A parte esquecida do que deixei no esconderijo jazia no vil.

Esconderijo sujo que não pertence à parte alguma de lugar algum.
Pertence somente a mim, nele recupero o que perdi, nele descubro porque sofri.
Ele permanece incerto, hora aqui, outra ali, fugindo de mim.

Quando volto, preciso ter noção de que não sou dali.
Ficar presa me mataria, sufocaria a razão.
Saio porque me permito, me conheço, mas sempre volto, porque mereço...
O recomeço, costurar o ventre e andar sem peso.

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Suburbanas
Marcos Claudino

São Paulo, 30 de agosto de 2004.

Tenho cara de idiota?

Muitas coisas me incomodam, e a você também, tenho certeza. Uma das minhas campeãs, são os guardadores de carros nas ruas, ou flanelinhas, ou qualquer termo usado aí em sua região. Pessoas desonestas me incomodam, com certeza. A famosa lei de Gerson me incomoda, a falta de ética me incomoda, enfim, mil coisas.

Ultimamente tenho assistido muita televisão, pois minha condição de desempregado proporciona-me este “prazer”. Tenho notado que, a cada dia, a quantidade de comerciais tem subido muito. Você demora a encontrar um programa que consiga assistir, e, quando consegue, depara-se com comerciais dentro e fora do próprio programa. São intervalos de três a quatro minutos, principalmente nos horários de pico de audiência. Além disso, virou mania em programas de auditório, propagandas interrompendo a apresentação das atrações. Os produtos milagrosos infestam qualquer um deles. Desde algas marinhas da Amazônia, que curam desde catarata, até reumatismo e doenças venéreas. Temos também os cogumelos do sol, da lua, e da via Láctea inteira. Estes podem até reerguer defuntos, segundo suas propriedades medicinais. Aparelhos de ginástica que eliminam noventa por cento da gordura, e te transformam em modelo fotográfico em algumas semanas de uso, com poucos minutos diários. Engraçados são os depoimentos dos supostos usuários, mal traduzidos, e mal dublados, ganhando até das novelas mexicanas. Temos muita gente querendo vender muita coisa, a maioria inútil.

Confesso que paro muitas vezes nos canais, quando encontro estas propagandas, pois a falta de criatividade leva-nos a crer que o consumidor brasileiro é realmente muito burro, ou o desespero chegou a pontos jamais vistos. A maioria destes produtos são lançamentos falidos em vários países, e chegam aqui com cara de novo. Os nomes não são sequer traduzidos, e recuso-me a acreditar que haja realmente quem os compre.

Mas, enfim, alonguei-me, na verdade querendo falar sobre outra coisa. Uma propaganda que muito me incomoda vem das esferas governamentais lá de Brasília, a terra da fantasia. Pois agora temos propagandas com o título de “vota Brasil”. Infame. Não o conteúdo, tentando criar uma noção de cidadania na população. Sei muito bem a importância do voto, as conseqüências de um voto jogado fora, não se trata disso. O caso mais peculiar, é que parece que estão pedindo para que votemos, para que exerçamos nosso “direito” ao voto. Desde quando? O voto é OBRIGATÓRIO, catso!!! Não precisa pedir. Todos sabem que é uma obrigação, o comprovante de votação é exigido em vários casos, como quando damos entrada em qualquer petição pública, qualquer segunda via de documentos pessoais, quando entramos numa empresa para trabalhar, enfim, em mil casos distintos. Obriga-nos a votar, e gasta uma grana para pedir-nos para votar? Mas que merda é essa? Que tipo de imbecil vocês pensam que somos? Acho um absurdo a obrigatoriedade do voto. Sabemos das conseqüências da desobrigação a este exercício, mas creio que o direito não seja o de votar, mas devemos ter o direito de não votar, se assim acharmos.
Somos um país que é exemplo nas eleições, com a inclusão das urnas eletrônicas a cada dia em mais cidades. Ainda temos, em pequenos centros, as famosas compras de votos, com doações de cestas básicas, remédios desviados, um par de botas, a parte de cima da dentadura, mas a urna eletrônica permite um maior controle sobre estes aspectos, que espero que desapareçam em breve.

O problema é que, ao que me parece, a desobrigação irá gerar números pífios de cidadão interessados em perder horas em filas, preocupados em melhorar ou mudar as bases de governantes existentes. Mas, e daí? Eles que se esforcem para tornarem-se confiáveis, dignos de nosso sacrifício. Sem a obrigatoriedade, aí teria sentido esta campanha de civilidade patriótica.

Sei que não é uma situação criada agora, já vem de décadas, e somos pouco educados para dar à política o valor que ela merece. Mas, o que é certo, o meio político continua tripudiando da capacidade do povo que, neste caso, não tem culpa alguma nisso.
Enfim, senhoras e senhores, eis meu protesto. Votei neste governo, “méa culpa” também. Gostaria sinceramente que esta imposição vinda de tanto tempo seja retirada de nossa constituição, demonstrando um mísero de consideração com sua população, que já tem tanto com que se preocupar, não é?

Abraços!!

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Pequenas resenhas canalhas
Maurício Silveira dos Santos

Mais que democracia, só Alegria!!!

Já que estamos em época de eleições e temos de suportar, em nome da democracia conquistada com tanto suor, toda a sorte de falastrões, desqualificados e fascistas mais ou menos dissimulados na TV, nos postes, outdoors, ou em qualquer espaço em que caiba a publicidade política que logo formará toneladas de lixo felizmente reciclável, a resenha canalha de hoje tratará, à sua maneira, de política.

Chama-se Charles Fourier o autor-canalha da vez. Ele publicou suas obras na primeira metade do séc. XIX e é o que poderíamos chamar de filósofo “maluco beleza”. Foi considerado por Engels (é, ele mesmo, o colega do velho Karl Marx) como participante do grupo de “socialistas utópicos”. Engels queria diferenciar a teoria que ele e seu amigo Karl fundavam, o socialismo “científico”, de propostas que teriam um caráter fortemente idealista ou sonhador no que tange à construção de sociedades mais justas ou igualitárias, e que, por ter esse caráter, não poderiam se concretizar. Bobagem!! Charles Fourier não pode ser colocado em grupo nenhum por um motivo: seu pensamento é singularíssimo.

Filho de uma família de comerciantes abastados, perdeu sua fortuna e foi se dedicar às suas teorias. Alguns biógrafos o descrevem como um ser estranho e cheio de manias, mas possuidor de um ótimo humor. Passava boa parte do tempo medindo objetos, ao que parece sofria de uma espécie de obsessão matemática. Um de seus passatempos era listar todos os subtipos possíveis de cornos, isso mesmo, cornos. É que o tópico central de sua teoria para uma nova sociedade, e agora chegamos ao que interessa, é a defesa radical da liberdade e do prazer para todos por meio da expressão das paixões espontâneas do homem. Viram só, ele nem estava tão preocupado com “justiça social” ou revolução. Acreditava que as instituições religiosas e econômicas haviam impedido o “desabrochar livre das paixões” e era esse entrave que, se solucionado, poderia criar um novo mundo.

Na prática, a harmonia seria realizável dentro de unidades sociais chamadas “falanstérios” onde residiriam exatamente 1620 trabalhadores associados. Todas as tarefas deveriam ser cumpridas permeadas por paixão e alegria e no falanstério deveria se saber que “ninguém é de ninguém” ,ou melhor, “todos são de todos”. As atividades amorosas (coletivas) seriam exercidas com muita freqüência e intensidade e NADA DE NAMORADINHOS!! As parcerias sexuais variariariam sempre. Mas Fourier admite o amor espiritual. Sabem como ele seria exercido caso ocorresse no falanstério? Simples: Cada indivíduo do casal espiritualmente enamorado teria o privilégio de escolher as parcerias sexuais do seu amor, contudo, nunca poderia ter relações com ele/ela... para não misturar as coisas. Bem, é claro que as idéias de Fourier vão muito além disso, e há toda uma preocupação estética nos seus escritos. Também as funções, hierarquias, rituais e acontecimentos no falanstério têm nomes ou títulos especiais ... alguém aí está a fim de mandar às favas nossa democracia liberal e partir para lá?? Então tá, encontro marcado.

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Ombudsman
Alessandro Sachetti

O que foi e o que ficou

Grande Tenente, espero que as profecias não se cumpram ou se cumpram ao avesso. O “Muro da Discórdia” me remete a outro muro, aquele na Europa, marca de um império prepotente e vencido. Quero acreditar que nada que se inicia com idéias toscas e medíocres dure eternamente.
Não há distância que garanta segurança, não importa o continente, nem a língua ou a fé. Todo o barulho de lá ecoa aqui também.
Conrad Rose retorna com seu conto “Bovino”, confesso que ainda não havia lido nada deste escritor, e que em alguns aspectos muito me agradou, principalmente a descrição do sofrimento. Porém, ao ler seu texto, me ficou a sensação de que faltava alguma coisa entre seus adjetivos, seria cola? Quem sabe um tanto mais de substantivos ou algo que o valha. Sua descrição às vezes fica um tanto cansativa, pois não se sabe ao certo o que ou o porquê das coisas. Sim, acredito que bons contos também se fazem assim, usando apenas signos, mas é preciso o mínimo de sequência prática e não apenas virtuose desvairada.
Grasielle Regassini também retorna, outra que ainda não havia lido e de que gostei. Mas seria um simples conto ou um grande desabafo? Ou apenas dúvidas de quem vive?
Se houvesse alguma forma de prever o futuro, então ao certo morreríamos de véspera, não acha? Todo, ou quase todo, ser humano tende a ser pessimista, eu mesmo não me excluo, só tento fazer com que as dores do que foi não me acompanhem muito tempo. Acredito ser muito pior não ter coragem, e ser mais fácil ter certeza do que conviver com a dúvida, ter certeza de que se fez tudo que se podia e que, se não deu certo, não foi por falta de vontade ou entrega. Pior seria pensar que se tivesse arriscado mais, teria mantido do meu lado o que perdi.
Mais uma nova tripulante da nossa nau literária, Camila Mello estréia bem com suas “Tortilhas”, só ficou a sensação de que, se quisesse, poderia ter feitos dois poemas de um, pois a primeira parte ficou um tanto desconexa. Gostei muito de sua autodescrição, poderia começar com “que eu sou assim o que sou”, seguindo até o final que é muito bom. Aplausos.
Meu xará ataca de conto essa semana, conto aliás que foi a tônica da nossa edição passada. Gostei muito da sua “Revolução”, as cores e as imagens que criou são interessantes e fundamentais, talvez sem elas o conto ficasse vazio. Acho legal trabalhar os símbolos da maneira que fez, sem nada extremamente direto, assim cada leitor, de acordo com seu repertório, vai ter suas próprias cores, suas bocas OK? É ISSO MESMO??? e tudo vai completando o mundo que você mostrou, mas que, mais importante ainda, fez surgir na mente de quem leu.
Eduardo Sabbi nos presenteou com um conto delicioso, sem querer desmerecer os outros que por aqui aportam, um dos melhores que já li em nossa nau, mas ainda assim, me parece que o ritmo tão bom no inicio cai do meio para fim, meio que por uma ânsia de acabar. O fim poderia ter ganhado mais, de qualquer forma é mesmo um ótimo conto, desses que a gente lê e re-lê sem reclamar.
Nosso Pedro mantém o seu estilo, que me agrada um tanto, é legal também o conflito que seu texto tem em relação ao escrito da Grasielle. São visões diferentes de um mesmo planeta, mas não necessariamente um mesmo mundo. Cada qual com o seu, e vamos viver!
Diego, sempre achei que falar é fácil, agora eu quero ver é ir à luta! Manifestos vazios lotam prateleiras de sebos no mundo inteiro, agora gente para defender ideais e arregaçar as mangas para mudar...
Grande Luiz, eu acho que em forma seu poema (!?) está um tanto “truncado”, mas o conteúdo é muito bom e precioso. Conhece os escritos de Edson Marques? Se não conhece, fica a indicação www.mude.weblogger.com.br
A Sara é nova aqui, e vai mostrando suas faces entre seus escritos. Nunca morrer, não é mesmo? Seu “Sonhos” é bonito, mas tome cuidado com a mistura de estilos, acaba deixando um pouco pesado. Escolha entre formal e informal.
Para encerrar, Marcos Claudino e seu Giro Olímpico, meu ex-companheiro de ombusdmanship, eu também trabalho com Recursos Humanos, mas prometo que é por ora apenas... Tenho certeza de que é vital levar atletas, mesmo os que não têm a mínima chance de conquistar medalhas, afinal disputar apenas em seu território deixa sem referencial, é necessário um intercâmbio mais constante, troca de informação de técnicas, estilos etc.
Também fiquei contente com a colocação de Daiane, claro que ela poderia ter conquistado mais, resolveu se arriscar e pagou o preço da sua competência – afinal, se ela não tivesse arriscado antes, não teria hoje dois exercícios “batizados” de Dos Santos.
Derrotados ou Vencedores, somos brasileiros. Como disse o Giba, quando perguntado por um repórter europeu sobre o motivo do choro enquanto a bandeira brasileira era hasteada durante a execução do hino: “Pode não parecer, mas esse povo brasileiro, alegre, festeiro é muito sofrido e poder proporcionar alegria para eles é muito bom”.
Atenas ficou para trás, hoje já é história. Bem escrita pelos atletas que representaram nossa nação de ouro, prata e bronze, a melhor participação em jogos olímpicos é importante, mas não deve esconder a falta de base, de estrutura que por aqui aporta. Resta saber o que vai mudar.

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