Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade abstrata, concreta e indefinida


melhor visualizado
em 800 x 600 pixels

 
Editorial

Pesquisa eleitoral

TRIMMM...
- Alô!?
- Alô! Com quem falo?
- Com quem quer falar?
- Aqui é Carlos Nascimento, do Pesquisas Populares. Desculpe incomodar neste horário, o senhor está muito ocupado?
- Pesquisa? Do IBOPE?
- Sim, é uma pesquisa. Mas sou do Pesquisas Populares, não do IBOPE! Estamos realizando uma pesquisa sobre as próximas eleições e gostaríamos de saber se o senhor poderia participar.
- Hummm... Vai demorar?
- A pesquisa é rápida. São só algumas perguntas.
- Então tá bom! Se for rápido...
- Para sua conferência, o meu código de pesquisador é 165850 e o telefone de nossa Central de Pesquisas, para esclarecimento de quaisquer dúvidas é 555-5555. Posso começar?
- Vai...
- Primeiro, seus dados de identificação: primeiro nome?
- João.
- Sexo?
- Macho! Muito macho!
- Certo, masculino...
- Estado civil?
- Casado. Muito bem casado!
- Tá... Cor?
- Vermelho. Colorado de coração!
- Vermelho? Hahaha! Não sua cor preferida! Cor da pele!
- Sou negrão com muito orgulho!
- Casa própria ou alugada?
- Própria. A muito custo neste país!
- Grau de escolaridade?
- Terminei a oitava série.
- Profissão?
- Motorista de ônibus.
- Certo. Poderia dizer a renda familiar, mais ou menos?
- Ah! Com o dinheiro da patroa, que vende comida pronta, dá uns 5 salários...
- Ótimo! Agora vamos às demais perguntas da pesquisa: em quem você vai votar para Prefeito?
- Prefeito? Vou de Valdeci! Na cabeça!
- Ah, tá... Do PT, né?
- E para Governador, votas em quem?
- Vou votar no Olívio! O bigode no Piratini!
- Olívio? Tem certeza? Vou colocar aqui hein? Não vai se arrepender!
- Pode colocar!
- E para Senador, em quem vai votar?
- Vou votar no Paim, no Paulo Paim.
- No Paim? Hummm... Aquele “da cor” do PT, né?
- Como?
- Nada, nada não... Só mais uma pergunta: em quem o senhor vai votar para presidente da República? É a decisão mais importante de todas!
- Ah! Pra presidente vou votar no Lula!
- No Lula? Não, você só pode estar brincando!
- Ué? Por quê?
- Não vou colocar isso aqui! Vou colocar Serra!
- O quê? Mas não pode!
- Ah! Vou sim! Você já votou em todos do PT! Colocou prefeito do PT, governador do PT e até senador do PT! Vou colocar seu voto para presidente no Serra...
- Você ta louco? Coloca Lula aí! Onde já se viu uma coisa dessas?
- Me nego a colocar esse PTzão aqui! Como você pode votar em um quase analfabeto? Vou marcar o Serra aqui!
- Olha aqui seu filha da puta! Ou você coloca aí que eu vou votar no Lula ou te quebro os cornos!
- Ah, pára! Um cara que nem eu, com curso superior, consegui este emprego no Pesquisas Populares para aumentar minha renda, não vou deixar você, quase analfabeto também fazer essa besteira!
- Seu desgraçado! Vou descobrir onde tu mora e vou aí rachar tua cara! Tu não tem ética seu filho duma mãe? E a imparcialidade do pesquisador? Eu sabia que essas pesquisas eram todas uma fraude. Como você pode mudar minha opinião?
- Mas vem cá: me dá um argumento para você votar no Lula. Umzinho só!
- Que argumento o caramba! Você vai botar aí que eu vou votar no Lula e ponto final! Olha que eu tenho amigos na imprensa e eles vão denunciar esta tua pesquisa de merda!
- Pfu! Denuncia nada! O Pesquisas Populares é acima de qualquer suspeita! Tem tradição e credibilidade, ninguém vai acreditar! Me diz aí: dá só um argumento pra você votar no Lula. Te dou vários para você votar no Serra!
- Então, me diz 1 motivo pra eu votar no Serra!!!
- Ah! Porque o titio.. hã... porque o Serra foi o responsável pelo lançamento dos genéricos. Não é um bom motivo?
- O Serra é teu tio?
- Que nada... De onde tu tirou isso? Olha só: vou colocar o Serra aqui porque senão o Lula ganha fácil essa pesquisa. Assim fica mais emocionante.
- Olha aqui! Já te falei seu corno! Se você botar Serra aí na pesquisa vou aí e te enfio a mão!
- Então tá! Marquei Serra aqui na sua pesquisa! Muito obrigado pela colaboração e tenha uma boa tarde seu João!
- Espera aí seu...
Tu tu tu tu tu...

Rafael Luiz Reinehr

(agradecimentos especiais ao Anderson Lazzaron, que me contou sobre a história acima, segundo ele um trote telefônico idealizado e posto em prática por um amigo em época de eleições)

PS: boas vindas ao Sérgio Pires que estréia com um espetacular (e longo!) conto, à Marici Bross que estréia na seção Poesia e ao retorno de Mauro Schneider, desta vez com sua "história da vida real". Ah! E adeus ao Diego Mainardo, que cansou/desistiu de ficar passando a perna no Diogo Mainardi, outro esse que é o campeão das baboseiras na revista Veja (na opinião deste humilde editor!)

"O conhecimento da natureza humana é o princípio e o fim da educação política"
Henry Adams

"A diferença entre a moral e a política está no fato de que, para a moral, o homem é um fim, enquanto que para a política é um meio. A moral, portanto, nunca pode ser política, e a política que for moral deixa de ser política"
Pio Baroja

"Nunca interrompas o teu inimigo enquanto estiver a cometer um erro"
Napoleão Bonaparte

Línques relacionados:
Escrever Por Escrever
 

Comente este texto - 015 leitores comentaram.

subir

 

Legião
Sérgio Pires


“— Estou com mau pressentimento — disse Caio naquela noite nublada, há vinte e cinco anos”.

Eu já havia esquecido aquela noite.
Não totalmente — e não admitir isso seria uma idiotice, ao levar em conta o pesadelo pelo qual passamos — mas posso dizer que foi como esconder a sujeira embaixo do tapete. E agora que estou sentado na varanda da minha casa, observando o outro lado da rua, minhas lembranças vieram à tona. Mais ou menos como se alguém, depois de muito tempo, levantasse o tapete e dissesse “Ei, o que significa isto mocinho?! Será que você pode me dizer??”
Sim, eu posso. Não queria, mas posso.
Naquela época, fazíamos parte da Legião. Eu, Rubens, Caio e Paulo, quatro rapazolas filhinhos-de-papai interessados somente em prazeres sujos e diversão barata.
Vergonhoso, mas pura verdade.
Gostávamos mesmo do lado obscuro da coisa. Fumar maconha e cheirar cocaína durante noites inteiras.
E, às vezes, depois de uma boa briga, injetávamos algo diferente em nossas veias com o resto dos caras.
Essa era a nossa gangue.
Essa era a Legião.
Na verdade, uma legião de otários. E aprendi isso da pior maneira possível.
Naquela noite, estávamos no centro de São Paulo á procura de uma tal droga nova que era vendida num beco próximo à rua Augusta. Já tínhamos cheirado um bocado de pó durante o dia, mas queríamos mais. Rubens, o mais velho, tinha obsessão por novidades e, quando comentaram sobre o que estava sendo vendido por aí, ficou entusiasmado. “Putz! — disse ele esfregando as mãos — Não durmo enquanto não injetar essa coisa na minha veia. Vamos lá agora mesmo!”. Estávamos sem carro e o apartamento dos pais de Rubens era ali perto. No início, pareceu ser uma boa idéia.
Mas foi só no início.

______________

— Sei não, Denis — continuou Caio — Estou com mau pressentimento. Principalmente agora — disse ele apontando com a cabeça.
O que ele apontava era uma garota que não deveria ter mais que dezesseis anos. Caminhava à frente, ao lado de Rubens. Pela aparência suja das roupas, deduzi que já estava na rua a um bom tempo. Rubens a trouxe quando paramos num bar para comprar cigarros.
— Fique calmo — falei — Você sabe que ele sempre faz isso.
Algumas vezes, ele não fora muito bem sucedido em suas empreitadas, mas já tinha conseguido transar com pelo menos duas garotas, usando sempre seus convitinhos ingênuos. Tinha o corpo atlético e acho que isso ajudava um pouco com as meninas mais novas. Mas, ao contrário do que pensávamos, os dois não estavam conversando muito.
Geralmente Rubens era assim: Passando a euforia inicial, ele se preocupava mais com o que iria cheirar do que com quem iria trepar. E, a julgar pela sua conversa desanimada, ele não estava mais a fim de trepar com ninguém.
—...Será que vamos encontrar o tal sujeito? — perguntou — Estou louco pra cheirar...
— Sei lá — respondi sem dar muita atenção.
Apenas observava a garota que mal sabíamos o nome.
Possuía o andar trôpego e não descruzara os braços desde que saímos do bar.
E era bela.
Seus cabelos longos e escuros realçavam a pele clara de seu rosto e o azul de seus olhos. Usava uma calça “Jeans” desbotada e uma camiseta clara de algodão. Pude perceber a pele de seu ombro eriçada. “Está com frio” — pensei.
Paulo percebeu meu olhar e aproximou-se. Era meio abobalhado e possuía uma barriga nada discreta. Nós o chamávamos de Paulo Fofonho.
— Rubens disse que ela veio por causa das drogas — falou.
Eu já imaginava isso. Era uma viciada de rua. Não tinha casa certa e nem família.
Quanto a nós?
Bem, nós éramos aqueles que tinham dinheiro, conta-corrente, cartão magnético e uma boa mesada. Pegávamos o carro do papai na hora que bem entendêssemos e viajávamos sempre que desse na telha. E é claro que nossos pais sabiam o que acontecia quando nos encontrávamos.
Mas fingiam não saber.
Talvez tivessem medo de encarar os fatos e colocarem em risco a posição que ocupavam diante de outros riquinhos de bosta.
— Bonitinha ela né? — disse Paulo, interrompendo meus pensamentos.
— Hã?
— A garota. Uma graça.
— Ah! Sim. É sim — respondi meio encabulado, sem que ele percebesse que já me sentia atraído de alguma maneira.
E, antes de qualquer piada a respeito, avistamos o beco.
Era uma rua sem saída e, apesar da escuridão, pude ver ao longe, quase no final, o sujeito encostado num Furgão. Usava um casaco escuro e seu rosto ocultava-se nas trevas.
— É ele. Eu vou lá — disse Rubens — Vocês, esperem aqui.
Encostei-me a uma parede, próxima à calçada e observei Rubens afastando-se lentamente, sendo engolido pela escuridão. Senti um calafrio.
Paulo e Caio andavam de um lado para o outro, chutando uma lata de refrigerante, demonstrando impaciência. A garota encostou-se ao meu lado. Desta vez, havia descruzado os braços.
Pedi um cigarro para Caio que me estendeu um “Marlboro” prontamente.
Traguei o cigarro, demonstrando falsa tranqüilidade. No fundo, eu estava tão ansioso quanto eles.
Mas havia algo mais.
Aquela sensação de calafrio não abandonara meu corpo totalmente e eu não conseguia tirar os olhos do sujeito que, naquele momento, dialogava com Rubens em meio às sombras.
— Pode me arrumar um trago?— perguntou-me a menina.
— Claro — falei estendendo-lhe o cigarro que já havia queimado pela metade.
— Como é seu nome? — perguntou ela, colocando o cigarro entre os lábios.
— Denis. E o seu?
— Laura.
— Você mora aqui perto? — perguntei, enquanto observava novamente Rubens e o sujeito do Furgão. Estavam mais próximos agora, como se estivessem cochichando alguma obscenidade.
— Moro por aí... — respondeu ela.
Dias depois, eu descobriria que “Por aí...” era uma casa de massagem onde sua mãe trabalhava. E, talvez, se a coisa toda não tivesse acontecido como aconteceu, ela também trabalharia lá em um futuro não muito distante. Mas, naquele momento, eu estava perguntando demais e decidi calar minha boca grande.
Mesmo assim, ela permaneceu ao meu lado, até que Rubens retornasse.
— Vamos embora — disse ele apressado.
— Conseguiu o “negócio”? — perguntou Caio.
— Sim, consegui — disse ele mostrando cinco envelopinhos de cocaína e um frasco plástico com um pó esverdeado — Agora, vamos embora.
Antes de sairmos, dei uma última olhada naquele beco e vi o sujeito lá, parado, acendendo um cigarro. O isqueiro iluminou seu rosto quase totalmente.
E, por um instante, pensei tê-lo visto sorrindo.
Paulo, Rubens e Caio foram caminhando na frente. Cantarolavam antigas canções de Raul Seixas, animadamente.
E a garota caminhava ao meu lado.
Conversamos um pouco e Caio virou-se, dando uma piscadela, como se pudesse dizer: “Isso Denis, ela está na sua. Agora só falta jogar uma conversa mole e meter a noite inteira”.
Parecia já ter esquecido o que havia me dito há alguns minutos.
“Estou com mau pressentimento”.

______________________


Chegamos ao prédio onde Rubens morava mais ou menos às 02hs. da manhã.
A rua que dava para a entrada do prédio nunca foi muito movimentada e àquela hora não tinha uma viva alma.
José, o porteiro, fazia palavras cruzadas e nos observou por cima de seus óculos, levantando a mão direita. Acenamos de volta e entramos no elevador. Aquele homem era o porteiro dali a mais de dez anos e nunca pegou no nosso pé por causa dos horários que chegávamos.
O apartamento ficava no primeiro andar. A cozinha era digna do desejo de qualquer dona-de-casa e a sala também era grande. Logo que entramos, sentei-me no sofá maior. À minha frente havia um pequeno corredor, onde ficava o quarto dos pais de Rubens. Atrás de mim, existia outro corredor maior, onde se encontravam outros três quartos.
Laura sentou-se ao meu lado. Rubens largou o corpo no sofá à minha frente.
Paulo Fofonho ligou o aparelho de som e um Rock antigo fluiu baixinho através das caixas acústicas, em cima de uma grande estante de mogno, ao lado da TV de 20 polegadas.
Caio foi até a cozinha e trouxe uma bandeja rasa de prata.
— Se minha mãe visse isso... — disse Rubens soltando uma gargalhada.
Mas Caio não respondeu. Estava concentrado, como um terrível garçom de iguarias exóticas.
Entregou uma seringa pequena, juntamente com uma colher, nas mãos de Rubens. Colocou a bandeja sobre o colo e despejou a cocaína dos envelopes que Rubens havia comprado. Com um cuidado notável e um cartão de crédito, passou a fazer pequenos filetes de pó branco.
— Quero uma nota nova — disse ele.
Estendi-lhe uma nota que hoje equivaleria a uns cinqüenta paus e ele a enrolou até ficar um canudo bem fino.
E todos nós cheiramos, um a um, como num ritual macabro.
Menos Rubens, que já abastecia a seringa com o líquido esverdeado que fora pó, antes de ser aquecido na colher média.
— Quero ser o primeiro a experimentar...
Laura fechou os olhos e deixou a cabeça tombar para trás, até encostar-se no sofá, enquanto eu, já alterado, observava Rubens, completamente entregue ao efeito daquela coisa verde que aplicara na veia.
Havia algo estranho.
O cara não parava de esfregar os olhos.
— Não consigo enxergar direito...
Ninguém deu muita atenção.
—Está ardendo!!! – dessa vez gritou forte o suficiente para me deixar assustado.
De repente, Rubens parou de reclamar do ardor e arregalou os olhos. Havia mais do que simplesmente medo ali...
— Caio... — murmurou —... Tem algo em sua cabeça!
— Aquela coisa verde te deixou muito louco — disse Caio soltando uma gargalhada.
... Era terror.
Seu tom de voz aumentou.
— Tem algo pulando na sua cabeça, seu imbecil!
Paulo e Laura também começaram a rir, sob efeito da droga.
E eu estava apavorado.
“Estou com mau pressentimento”.
Meu coração disparou e eu podia sentir a cabeça pulsar. Já não havia qualquer efeito da droga.
Sentia apenas medo.
— Essas Coisas — continuou gritando — Estão na cabeça de todos vocês! SÃO COMO DEMÔNIOS!!
Ergueu as mãos como se quisesse se proteger de algo — Afastem-se!!! Afastem-se, cacete!!!
— Mas, do que ele está falando? — perguntou Paulo Fofonho ainda rindo.
— Sei lá! — respondeu Caio, sem ver mais graça em nada — Acho que enlouqueceu...
Rubens continuou:
— Vocês não enxergam?! Não estão vendo?!
Correu e escondeu-se atrás do sofá. Uma cena patética.
— Caio... — falei —... Ele não está bem. Precisamos fazer alguma coisa.
Paulo e Laura continuavam a rir. Aquilo era irritante.
Rubens deixou apenas os olhos vitrificados aparecerem por detrás do sofá, como um soldado na trincheira.
— Essas coisinhas verdes — disse ele — Estão fazendo a festa na cabeça de vocês. Eu posso vê-los enfiando as garras dentro dos seus miolos e... — fez uma pausa, balançando a cabeça negativamente —... Vocês não enxergam.
— Vamos acabar logo com essa palhaçada — disse Caio levantando-se.
— NÃO SE APROXIME DE MIM!! MALDITO DESGRAÇADO!! — Gritou ele, enquanto pulava por sobre o sofá e fugia para dentro do quarto de seus pais, trancando a porta.
— O que será que ele tem? — perguntou Laura que já não estava mais rindo.
Caio olhou para nós e deu de ombros.
— Não sei, deve ter sido essa coisa que ele injetou.
— Deve estar tendo alucinações — completei.
Paulo levantou-se.
— Perdi até o tesão — disse ele.
E desligou o aparelho de som.

_______________

Dez minutos silenciosos passaram-se e percebi que estava olhando fixamente em direção à cabeça de Caio.
— O que foi? — bufou ele — Vai dizer que também está vendo demônios verdes plantando bananeira na minha cabeça?!
— Não, é que... Ah! Deixa pra lá.
Nem mesmo eu sabia por que o estava olhando daquela maneira.
— Desculpe, Denis — disse Caio — Fiquei nervoso com tudo isso. Acho que aquele negócio novo o deixou neurótico...
Caio parou subitamente. Ouvimos a porta do quarto se abrir.
Rubens apareceu.
— Não estou neurótico e sei o que estou vendo — disse ele com os olhos quase saltando das órbitas — Criaturas verdes pulando por cima de suas cabeças. Demônios. Enfiando suas garrinhas bem no fundo de suas mentes. Manipulando todos vocês...
Então, meu coração voltou a disparar quando vi a arma que ele ostentava ameaçadoramente em sua mão direita.
—... E vou tirar esse sorrisinho amarelo da cara deles, agora!
Rubens engatilhou o revólver e apontou para nós.
Eu já tinha visto aquela arma. Pertencia a seu pai. Uma Taurus calibre .38 de seis tiros, prontinha para alvejar os supostos demônios que pulavam festeiros em nossas cabeças.
— O que você vai fazer com is...
“click!”
Foi o som que escutamos quando Rubens apertou o gatilho. Laura gritou.
O revólver estava descarregado.
— Putz cara! Você me assustou — disse Paulo Fofonho respirando aliviado.
Rubens deu um sorriso insano e puxou seis balas do bolso.
— Nossa... — disse ele enfiando os projéteis no tambor inoxidável —... Estou tão dopado que esqueci de carregar... Agora sim!
Apontou para Caio e atirou.
Rubens era um bom atirador. Lembro-me de quando viajávamos, sempre escolhendo estradinhas desertas. Praticávamos tiro em garrafas de cerveja. Gostávamos de ver os cacos de vidro voarem pelos ares. Mas, quando se atira na cabeça de alguém, não são cacos de vidro que se vê voarem por aí.
O projétil atravessou o crânio de Caio.
Sangue, massa cinzenta e alguns fragmentos de ossos salpicaram a parede branca da sala. O corpo inerte tombou sobre o colo de Paulo Fofonho, que berrava como uma criança amedrontada ao ver o líquido vermelho e espesso que fluía de algo que lembrava bem de longe o que horas atrás fora um pescoço.
Laura também se pôs a gritar e meus ouvidos quase estouraram.
Enquanto Paulo se desvencilhava do cadáver ensangüentado, agarrei Laura e, num ímpeto de medo, corremos pelo corredor maior, entrando no último quarto.
Tranquei a porta.
Escutei mais dois tiros. E soube, naquele momento, que Paulo Fofonho também estava morto.

_______________

Fiquei parado junto à porta durante um tempo.
Laura chorava baixinho, encolhida num canto da parede. Fui até ela e enfiei a mão em sua boca para abafar os gemidos e tentar captar algum som.
Silêncio.
Por um breve momento pensei na possibilidade de Paulo ainda estar vivo.
E, como se pudesse ler meus pensamentos, Rubens gritou:
— Fofonho está morto, Denis! Foi preciso, está escutando? Tinha umas Coisas controlando eles e está controlando você também. Vocês não puderam enxergar, mas eu pude. Vou acabar com tudo isso cara. Vou te livrar desse Demônio nojento... — fez uma pausa — Você e essa putinha...
Ouvi um barulho forte. Ele havia aberto a porta do primeiro quarto e se aproximava pelo corredor.
Laura desesperou-se. Apertei mais ainda minha mão em sua boca. Apertei tão forte que pude sentir os dentes contra os nós de meus dedos.
— Aqui não está... — disse ele — Onde você se meteu, hein? Apareça, quero apenas tirar essas Coisas de você...
Abriu a segunda porta.
— Tsc, tsc, tsc... Acho que agora sei onde você está.
Fechei os olhos e abracei Laura. Vi a maçaneta mexer-se e meu coração quase parou.
Foi quando ouvi vozes que vinham da entrada do apartamento.
— Abram! É a polícia.
Rubens largou a maçaneta e correu para a sala.
— O que vocês querem? — gritou.
— Abra! Ou vamos invadir.
Abri a porta vagarosamente e fui até o corredor. Rubens estava de costas.
Paulo Fofonho jazia estirado no chão com um tiro no abdômen e outro no olho direito, que fora transformado numa cratera ensangüentada.
— Vocês não entendem, vão embora — disse Rubens com a voz fraca, como num doloroso lamento — Não sabem nada... Os demônios... Aquelas Coisas verdes... Ah! Que se fodam!!
Os policiais invadiram.
E Rubens atirou.
Eram dois policiais e o primeiro foi recebido com um tiro entre os olhos assim que entrou.
O segundo policial reagiu, mas conseguiu acertar-lhe apenas o ombro esquerdo.
Rubens não errou. Seu tiro furou em cheio a jugular do jovem policial que oscilou por alguns instantes e caiu feito uma laranja podre, com a farda empapada de sangue.
Rubens observou os quatro cadáveres estirados entre poças vermelhas que se formavam no chão da sala. Houve um pequeno momento de lucidez em seus olhos.
Foi só por um momento.
Enfiou o revólver na boca e atirou.
Num desespero louco, corri para o quarto e arrastei Laura para fora.
— Vamos — gritei — Outros policiais devem estar vindo.
— Deus... — balbuciou ela ao ver os corpos. Ajoelhou-se ao lado de Paulo e vomitou.
— Vem — disse eu obrigando-a a levantar-se — A viatura estava fazendo ronda e ouviram os disparos. Os outros vão chegar lo...
Não consegui continuar.
E é nesta parte que devo jurar perante Deus-Todo-Poderoso duas coisas: A primeira é que não cheguei nem perto daquela coisa que Rubens injetou na veia.
E a segunda é que eu vi aquilo que desencadeou toda a paranóia de Rubens.
Eu estava vendo a Coisa.
Não possuia mais que 50 centímetros e estava sentada em cima da TV. Sua pele esverdeada e escamosa cobria o corpo e três dedos em cada uma das mãos em forma de garra. Os olhos avermelhados e opacos fitavam-me atentamente enquanto o rosto enrugado exibia uma boca escura com dentes disformes. Um filete de baba escorria pelo canto e o fluxo aumentou quando a boca entreabriu-se na tentativa de um sorriso sarcástico.
— O que foi? — perguntou Laura.
Somente eu enxergava. Balancei a cabeça, como um bêbado que tenta ficar sóbrio e olhei novamente.
A Criatura ainda estava lá.
Um vulto me chamou a atenção e percebi uma segunda criatura como aquela, escondida atrás do aparelho de som. Esgueirou-se sobre a estante e com um salto rápido, quase felino, postou-se ao lado daquele que parecia um irmão. Não demonstravam intenção nenhuma de saírem dali e nos atacar. Mesmo assim caminhei em direção a saída lentamente, sem tirar os olhos daquelas Coisas.
— O que foi? — insistiu Laura.
— Nada. Vamos embora — falei enquanto caminhava lentamente em direção a saída.
Antes de sair, dei uma última olhada. Os pequenos Demônios haviam sumido.
Ilusão? Sinceramente, não sei dizer.
Descemos pelas escadas. A portaria estava deserta.
José poderia ter fugido com o som dos tiros. Àquela altura, não saberia dizer.
Quando saí do prédio, avistei a viatura dos policiais e um Furgão branco encostado na calçada. Apenas quando dobrei a esquina, me dei conta do que vi.
Aquele era o Furgão do sujeito que vendera as drogas para Rubens.
— Espere aqui — falei.
Fiquei atrás da parede do prédio e avistei o sujeito de casaco escuro entrar apressadamente no prédio, carregando algo embaixo dos braços.
Rezei, naquele momento, para a polícia aparecer. Nada aconteceu.
Depois de alguns minutos, o sujeito saiu calmamente pela entrada do prédio, arrastando cinco sacos grandes de lona. Eram os corpos de meus amigos e dos policiais que estavam dentro daqueles sacos mortuários. Abriu a parte traseira do Furgão e, com a mesma força sobrenatural, arremessou-os para dentro. Aquilo não podia ser humano.
Ouvi as sirenes dos carros de polícia ao longe.
O sujeito entrou no veículo e desapareceu logo que dobrou a primeira esquina.
O som das sirenes aproximava-se mais.
Puxei Laura pela mão e fugimos. Corremos durante um bom tempo até estarmos longe o suficiente. Paramos com a respiração ofegante. Abraçamos-nos.
E choramos.

_______________


E esse foi o fim.
Nunca contei para meus pais o que havia acontecido. Disse que não estava junto dos caras naquela noite e dei o assunto por encerrado.
Eu e Laura continuamos juntos por um bom período.
Não houve paixão. Não houve amor.
Houve apenas a necessidade de mostrarmos um pro outro que tudo aquilo acontecera e que não estávamos loucos. Sua presença me confirmava isso.
E foi bom ter dormido com ela durante aquele tempo.
Hoje estou só, tenho um bom emprego e uma casa e tanto. E acho que basta de relembrar. Chega de olhar para baixo do tapete.
O que interessa mesmo é o que fez com que o tapete fosse levantado.
Do outro lado da rua, observo a casa de Paula Mariano. É uma garota loura de uns vinte anos. Pra mim não passa de uma piranha de boca suja.
Seus pais viajaram neste fim de semana e ela andou fazendo uma festinha com os amigos. Muito álcool e muitas drogas.
Há uma hora, escutei uns gritos estranhos vindos de lá. Olhei pela janela e vi um Furgão branco estacionar em frente a casa. E eu sei quem entrou lá.
Está demorando um pouco mais do que aquela vez há vinte e cinco anos.
Mas o sujeito vai sair. Humano ou não, ele terá de sair.
Enquanto isso, eu verifico a munição da minha pistola 765. E quando ele aparecer, estarei aqui.
Esperando...

Comente este texto - 05 leitores comentaram.

subir

 


Amanhã? Não sei...
Mauro Belo Schneider

Um dia desses eu estava chegando na PUC, mais precisamente na FAMECOS (Faculdade de Comunicação Social), e fui atacado por uma pessoa que me chamou pelo nome. Parei, olhei para ela e reconheci: era a Manoela. A Manoela também faz o curso de Jornalismo. Apesar de estudarmos em turnos diferentes, nos conhecemos através de um trabalho que fizemos na monitoria de eventos da universidade. Tentei iniciar uma conversa sobre isso com ela, mas logo fui interrompido ao perceber que o colega que a acompanhava já estava me filmando. Bem, até aí tudo certo. Estudantes de Jornalismo se acostumam a ver câmeras, luzes, gente sendo entrevistada, gente entrevistando... Enfim, são coisas da profissão. Então, aceitei o convite que ela me fez: "Quer responder umas perguntinhas para nós?". Quando descobri quais eram as tais perguntinhas, me arrependi de ter aceitado o convite. Não que a Manoela tenha pego pesado ou tenha feito perguntas inconvenientes... Nada disso! Mas acho que ainda não estava preparado para falar de tal assunto: "quais são as tuas expectativas para o futuro?", essa foi a indagação que me fez ficar vermelho, roxo, verde e com a maior cara de pau dizer: "ficar famoso". Pedi para que cortassem, para que parassem de gravar e me desculpei pelas respostas tão infantis. Inventei que tinha uma prova naquele período e saí correndo, tentando escapar daquela situação. Contudo, não saia da minha cabeça aquela cena e não entendia o porquê da minha incapacidade para falar de algo tão simples: o amanhã...

A aula havia terminado e eu voltei para casa. Deitado em minha cama decidi formular uma boa resposta para essa pergunta (que eu sabia que seria feita inúmeras vezes novamente). Pensei, pensei, cheguei a me enxergar respondendo com firmeza e com uma postura de seriedade, mas acabei adormecendo em meio a tantos pensamentos. O dia seguinte passou rápido e era hora de voltar à FAMECOS... Quando o sinal para o intervalo tocou, eu e meus colegas fomos em direção ao saguão. Mas, novamente fui atacado por uma pessoa. Desta vez, não a conhecia. Eram dois guris que me fizeram o seguinte convite: "Quer responder umas perguntinhas para nós?". Lembrei do que havia acontecido no dia anterior, tive fé e acreditei que agora já estaria maduro para responder qualquer pergunta que me fizessem. E, realmente, comecei bem... "O que achou do novo currículo?", foi a primeira delas. "Achei excelente... A prática desde o 1º semestre é muito importante e tal e coisa e coisa e tal..." . As palavras fluíam de minha boca. Ao terminar de responder, lá veio a próxima: "Quais as tuas expectativas para o futuro?". Novamente... A pergunta que havia me feito tão pequeno estava diante de mim para mais uma batalha. O
silêncio tomou conta de meu corpo, mas consegui vencê-lo com a seguinte resposta: "Não sei...".

Foi a coisa mais sincera que já disse em toda a minha vida. Simplesmente não sei o que o futuro me reserva... Muitas vezes planejamos, sonhamos, e o futuro nos coloca dentro de um universo completamente diferente das nossas ambições. Então, agora acho que já tenho uma resposta formulada para o próximo colega que vier me perguntar sobre o futuro: "Não sei... Só poderei falar dele quando fizer parte do passado. Tal como se escreve a história de uma nação". Aliás, nunca se atinge a maturidade para falar de coisas desconhecidas...

Comente este texto - 08 leitores comentaram.

 

Amor maduro
Marici Bross

Amor... cheguei
Passo entrar?
Vim para ficar.
Quer?

Desta vez te encontrei
Desta vez estou amando
Um amor maduro
Não menos belo.

Pelo contrário...
O amor maduro
É o mais belo
O mais verdadeiro
Pois chega, para ficar!

Tem o encanto da vida
O amadurecimento, dos anos
É sábio, sabe o que quer.
E quando vem, saiba amor.
É para ficar!!

Comente este texto - 01 leitores comentaram.

subir

 

Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Pequenas resoluções de ano novo

“No nove, no oito e no sete, me apertou a mão. Se Liana me visse, em pleno reveillón...”

Adriano de Severo, “Novo Tempo”.

1.

Quando eu o encontrei na segunda vez em frente ao restaurante, ele tentava se desviar dos pingos da chuva. Assim que me viu, abriu um sorriso que denunciou todos os seus dentes inexistentes e pareceu crer que eu realmente me aconchegaria no seu cobertor imundo e cheio de rastros de ranho. Com todo um misânscene ao mesmo tempo deprimente e tocante, encostou um dos joelhos no chão, abrindo os braços e, à minha frente, enfiou o naco de pão entre os dentes como quem morde uma rosa com todo o cuidado. Era um misto de figurante de peça de Shakespeare e cachorro pedindo comida.

Ainda que contra os meus princípios convenientes de pequeno burguês, favorável às ideologias apoiadoras de sistemas governamentais que garantam a subsistência dos desvalidos – contrário, portanto, ao ato de dar esmolas à pobres-diabos que cruzam comigo pela rua à toda hora – saquei da carteira e, em uma esmerada inflexão dos joelhos, procurando dar continuidade à representação por ele iniciada, me estiquei o mais que pude para lhe alcançar uma nota de dez reais.

Não me dei por conta de que uso daria à quantia – não me importava o destino final do dinheiro que lhe entregava. Ele pegou da nota, dobrou-a em sete pequenas porções e a enfiou dentro do naco de pão. Reclinou-se com um floreio, socando o pão no bolso e foi remexer a lixeira do bar do outro lado da rua. Ana, ao meu lado, me disse que eu era um imbecil por dar dinheiro ao homem e que ele iria encher a cara de cachaça. Pensei que mesmo sendo ainda o último dia do ano e que minhas resoluções começariam a vigorar somente a partir do próximo, não ficaria bem quebrar os dentes de Ana, por que, afinal, ainda tínhamos que chegar à casa de Clóvis para a festa.

2.

Das lembranças da noite anterior que restavam à sua volta quando acordou, se encontravam o cinzeiro repleto de guimbas de cigarro, as dezenas de copos sujos, garrafas vazias e todos os cheiros que continuavam a empestear o ar. Do seu lado, ninguém e, por toda a casa os destroços da maldita festa. Como todo final de festa, o fim das ilusões de estar cercado - reforçadas pelos abraços e desejos de feliz ano novo - e a certeza da solidão, única verdade inconteste.

Não tinha vontade de levantar da cama. À frente, a televisão continuava emitindo um chiado ininterrupto em uma estação inexistente. Em algum ponto do corpo, a dor. Não virou para ver que não acharia o controle remoto que estava em algum lugar muito perdido da casa. Foi o tempo de não olhar e não ver o Sérgio, que dormia no chão de tabuão, ao lado de sua cama. Somente não contrariando mais a verdadeira necessidade que tinha de caminhar até o guarda-roupa, achar alguma toalha limpa e uma calcinha que não fosse bege, é que teria a chance de levantar da cama, tropeçar no corpo de Sérgio – jazia como um cadáver: nu e gelado – e se espantar por que, afinal, não estava sozinha em casa. Como não contrariou a vontade, por que se sentia realmente uma puta, deitada com os cabelos desgrenhados e fedendo à cigarro, com gosto de batom e licor e cerveja e uísque na boca e achando que um banho poderia fazer-lhe melhor, foi que resolveu caminhar até o guarda-roupa para achar alguma toalha limpa e uma calcinha que não fosse bege (ia encontrar Mário e se tudo se encaminhasse da maneira corriqueira de sempre, estariam transando antes do final da tarde e não gostaria de estar usando calcinha bege). Levantou da cama e tropeçou em Sérgio, deitado como um cadáver: sem roupa e com os olhos arroxeados. Como não precisara dar mais que dois passos no exercício de levantar da cama e acertar o ombro direito de Sérgio com o peito de seu pé, foi somente no terceiro passo, quando firmou este mesmo pé no chão frio de tabuão, que sentiu realmente, a dor insuportável (ainda que tivesse suportado, porque, tudo o que fez foi berrar como uma porca abatida com um golpe de faca e cair novamente na cama; de resto, continuou existindo como sempre e sentindo a dor) que começava na parte traseira da coxa e se estendia ainda e de maneira latejante até a polpa da sua bunda, envolvendo todos os músculos de suas nádegas e encontrando seu centro de maior potência em algum ponto infinito do seu cu.

Quando desabou sobre a cama, junto com a dor, ouviu os murmúrios de Sérgio, perturbado pelo seu chute involuntário, mas que continuava no seu estado de semidesmaio a babar o chão de seu quarto. A dor, prolongando-se, através de sua espinha até a nuca conseguiu se manifestar em toda a sua intensidade, não dando atenção para a cabeça já incomodada pelas fartas doses na noite anterior de licor e cerveja e uísque. A dor foi mais do que suficiente para atingir algum ponto do cérebro que lhe recordou os excessos da noite passada. Das lembranças da noite anterior que restavam à sua volta, mais do que um cinzeiro repleto de guimbas de cigarro, as dezenas de copos sujos, garrafas vazias e todos os cheiros que continuavam a empestear o ar, vieram também os insistentes pedidos de Sérgio, suas malemolentes e risonhas recusas; os mais insistentes pedidos de Sérgio e suas esquivas e hesitantes recusas; os ainda mais insistentes pedidos de Sérgio e seus nãos de voz embargada, denunciando, por insistência ou cansaço, um sim ou algo semelhante a isto, entre dentes e álcool, de quem se deixa levar por mãos que acariciam e abrem caminho, vagarosa, porém decididamente. Das lembranças da noite anterior vieram uma língua molhada que entrava no seu ouvido, alguns murmúrios excitados e dentes gelados que mordiam sua orelha, um corpo pesado sobre o seu corpo estirado provavelmente na mesma cama em que acordara e uma calcinha não bege arrancada com força e jogada em um canto do quarto. Das lembranças da noite anterior, algum creme ou gel que se fazia frio entre suas nádegas, amortecendo em parte sua sensibilidade ali e um corpo que entrava vagaroso, mas terminava rompendo com estocadas (como que) intermináveis e em gritos seus que não se faziam ouvidos.

Das lembranças da noite anterior, seu corpo mole e seus sentidos alterados. Algum corpo que desabava para o chão depois de gemer e seu seguinte estado de inconsciência.

Da sensação desta manhã, a dor, somente a dor.

Da dor a certeza, travestida em resolução de novo ano, de não voltar mais a tomar no cu.

-----------------------------------------

E, aproveitando, momento marketing pessoal, tem um conto meu publicado lá na Bestiário, bacana revista de contos que homenageia o deus Julio Cortázar. Dá uma conferida!

Línques relacionados:
Suburbana
 

subir


en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

A Vila das Duas Cruzes *

Encerrou-se mais um dia de trabalho. Mas aquele dia era diferente. Não via por chegar a hora de poder voltar para casa com sua mais nova compra: uma motocicleta. Máquina bastante simples, nada de exagero, mas sua alegria era bem maior do que a potência do motor. Andou alguns quilômetros com o ar batendo de frente em seu rosto. Parou no semáforo e avistou do outro lado da rua uma blitz policial e tratou de vestir seu casaco de couro que trazia no colo para evitar qualquer problema. "Não tenho nada a temer", pensou de forma fugaz. O sinal abriu e arrancou com tranqüilidade, o que não se desfez com o aceno do policial para que encostasse no meio fio. Aquele policial era tão simpático que nem parecia exercer realmente essa função. Em tom extremamente amigável e com gestos e sorrisos confortáveis, parecia querer lhe dizer algo quando apontava pequenos detalhes nada comprometedores em sua moto.

"Este volante - dizia ele - poderia estar mais alto" e lhe dirigia um olhar amigo mas ao mesmo tempo intrigante. O que estava ele querendo lhe dizer? Havia alguma coisa no ar. O que poderia ser? Afinal, estava com tudo em ordem ... tudo em ordem exceto ... Deus! Como não havia se dado conta antes! Esquecera o capacete! E parece que o policial ouvira seu pensamento ou lera nos seus olhos de pavor, já que na mesma hora balançou satisfeito a cabeça, como quem diz "Pois é ...". Desesperou-se, pensou em milhões de explicações, mas só conseguia dizer que não entendia como ele tinha esquecido tão importante regra. "Logo eu, que há pouco escrevi a esse respeito". Não acreditava que aquilo estava acontecendo. Seus olhos encheram-se de lágrimas, sua voz embargou. Repetia a mesma frase, ainda incrédulo de sua falha. O policial interveio, mantendo sua postura impecável e sendo ainda mais paciente e, porque não dizer, até bastante consolador: "Não se preocupe, venha comigo que vamos providenciar um capacete". Sentiu realmente uma boa ajuda naquelas palavras e chegou até a imaginar que não seria multado. Era o que tudo indicava.

Deixou de lado a moto e acompanhou o policial, que pegou com gentileza sua pasta jogando-a sobre um caminhão que continha muitas outras tralhas e mais se assemelhava a um carreto de frete do que qualquer outra coisa. Disse-lhe: "Isso vai aqui, você não vai precisar carregá-la junto". Aos dois somou-se uma pequena menina, que abraçou o policial com ares de filha e embarcaram juntos pela porta de um ônibus que se enfileirava logo à frente. Pai e filha foram para o fundo do ônibus enquanto ele preferiu tomar um assento vago sem ninguém ao lado. Talvez porque precisasse refletir sobre tudo aquilo. O ônibus não era lá essas coisas. Lembrou-se do tempo em que esse era seu veículo diário de locomoção. De onde estava avistava o policial, agora já à paisana, e sua filha no último banco do ônibus. Uma cena muito agradável. Ele dormia suavemente e ela recostava sua cabeça no ombro paterno.

Uma pessoa que embarcara no ônibus sentou-se ao seu lado, tomando o assento da janela. Era um jovem rapaz que lhe remeteu um olhar desconcertante. Observou a estrada de chão batido e empoeirada e sentiu o jovem roçar-lhe a perna. Afastou-se rapidamente e a investida veio então pelo roçar do braço. Desgostoso, retirou o braço e olhou firme para o rapaz, que voltou a se aproximar. Foi preciso falar com alguma rispidez que não estava nem um pouco a fim daquilo, o que provocou a ira do jovem, que levantou-se e desceu na parada seguinte. Respirou aliviado. Observou o policial ainda dormindo ao fundo, com sua filha aconchegada em terna fotografia. Pensou em fugir, aproveitando-se do descuido, mas sem muito esforço decidiu seguir ali. Observou pela janela a estrada e os pedregulhos. O verde que se desenhava nas montanhas era digno de uma inspiração mais profunda.

Estava chegando a sua parada. Por algum motivo sabia que estava chegando e pôs-se em pé no corredor. Deu alguns passou em direção à porta e segurou firme na barra metálica que fazia o encosto do banco à sua frente. Ali estava uma menina de cabelos escuros e uma mulher com semelhantes traços ao seu lado. Não a achou muito bonita, mas da mesma forma não poderia dizer o contrário. Ficaram se olhando por um longo tempo.Vez que outra ela esboçava um sorriso e por fim falou: "Já que você não se apresenta para nós eu vou nos apresentar". E disse seu nome e o da mulher ao seu lado, que devia mesmo ser a sua mãe. Fez mais algumas perguntas, ajudada pela companheira, mas ele não conseguia responder mais do que monossílabos. Parecia deveras envergonhado. Eis que o ônibus parou, e desceu junto com o policial e a filha.

Seguindo por uma trilha de chão batido, contou ao policial sobre o rapaz que lhe assediou, gerando longas gargalhadas. Algumas casas esparsas começaram a surgir pelo caminho. Apenas seguiu o policial até a entrada de uma delas, subindo os degrau da varanda e entrando pela porta. Um casal que trabalhavam num computador foi logo dando lugar ao policial, que sentou-se e passou a editar alguns dados num programa, o que parecia ser um procedimento de rotina. Resolveu sair um pouco para ver melhor o lugar. Surpreso e maravilhado, deparou-se cercado de casas feitas de biscoitos do tipo plic-placs recheados de chocolate. Ao centro, uma casa maior, uma espécie de torre (muito parecida com a famosa Eifel francesa) totalmente feita daqueles canudinhos salgados que serviam em festas infantis recheados de creme ou maionese. Mas ali estavam vazios e unidos numa belíssima construção. E tanto para a torre quando para as demais edificações, não conseguia ver além de um segundo ou terceiro andar. Uma densa névoa cobria tudo, numa paisagem sombria, mas não desagradável.

Observou um menino de cerca de 6 anos de idade se aproximando de mãos dadas com um moça de olhos claros cuja beleza não havia com passar desapercebida. Querendo ser simpático, abaixou-se e falou para a criança, apontando para uma das casas: "Olha lá, a casa de chocolate". A lembrança da estória infantil de João e Maria era sui generis. Mas ao contrário do que podia imaginar, o menino pouco se entusiasmou, e sentia que o sorriso em seu rosto fora apenas para não chateá-lo. Era como se aquilo não lhe chamasse atenção, como se fosse algo corriqueiro e estivesse lhe dizendo: "Sim e daí?". Já a linda moça sorriu-lhe dizendo com isso algo mais belo do que qualquer palavra. "O que você está fazendo aqui?" perguntou-lhe a jovem que agora também era sabidamente dona de uma rica voz. Virando-se para a casa onde o policial estava, ele respondeu em tom de brincadeira: "Seu pai vai me dar uma multa". Uma doce risada cheia de espontaneidade surgiu na bela moça. Era como se ela estivesse lhe dizendo algo do tipo "Meu pai? Imagina, ele não é capaz de fazer mal algum".

Dirigiram-se para a casa e os primeiros degraus lhe trouxeram uma lembrança que o deixou muito angustiado. Adentrou pela varanda e correu assustado na direção do policial: "A minha carteira ... ficou na bolsa ... no caminhão ...como vou comprar um capacete?". Mas nada parecia abalar a paciência e ternura do guarda: "Não se preocupe meu filho, aqui você não vai precisar disso." "Mas que lugar é esse? Em que cidade estamos?" "Não numa cidade meu jovem, numa vila: esta é a Vila das Duas Cruzes". Sua curiosidade foi longe. Saiu rápido para ver se avistava as cruzes, imaginando-as ao morro, uma na entrada e outra na saída da vila. Mas a névoa era implacável ao seus olhos. Nada muito além para ser visto. Entrou novamente e decidiu ficar por ali junto com outras pessoas espalhadas pela sala. Ao chegar no centro, olhou para cima. Não havia teto e a visão panorâmica revelava as casas de biscoitos encobertas pela neblina. Pode ouvir uma música tocando ao fundo. Era Breathe, do Pink Floyd. Seu coração se encheu de paz e alegria. Que cenário fascinante aquele. Olhou para os demais presentes. Não acreditava na forma como agiam, como se aquilo tudo fosse tão natural quanto a vida. Uma felicidade sem igual tomara conta de todo seu ser. Foi quando lembrou de um antigo desejo seu manifesto: Pink Floyd era o que desejaria que estivesse tocando no seu enterro ...

* Fragmentos de "O Grande Sonho"


Breathe

Breathe, breathe in the air
Don't be afraid to care
Leave but don't leave me
Look around and choose your own ground
For long you live and high you'll fly
And smiles you'll give and tears you'll cry
And all you touch and all you see
Is all your life will ever be

Run, run rabbit run
Dig that hole, forget the sun,
And when at last the work is done
Don't sit down it's time to dig another one
For long you live and high you'll fly
But only if you ride the tide
Balanced on the biggest wave
You race towards an early grave.

Breathe (Reprise)

Home, home again
I like to be here when I can
When I come in cold and tired
It's good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spell

subir

 

I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 13/X

Dia 13, que azar
furou a camisinha
E ela, não conseguiu gozar

Setembrinas
Este é o Brasil que nós fazemos

Primeira parte

Um amigo meu, é todo certinho,
Fez direito
Está no bom caminho.

É forte e franco,
Não gosta de brigar
Vai conquistar seu lugar

Meu colega de classe
Bom no futebol
Não tinha quem o marcasse.

Notícias não manda,
Não sei por onde anda
Nasceu em 7 de setembro

Segunda parte

Um amigo meu, já nasceu torto
Filho de astrólogo
Super absorto

Trabalha na Universidade
Com dedicação exclusiva
Para ele, mocidade

Muito Criativo, pensante,
Para vôos profundos
Não é vagabundo

Super brasileiro, um cara de tino
Tanto que nasceu dia 7 de setembro
Só que é argentino.


Comente este texto - 03 leitores comentaram.

subir

 

 

Utopias
Luiz Maia

Dentro de nós

"O medo nos faz ver os obstáculos.
A fé nos faz enxergar as oportunidades."
Dia desses vi uma senhora a se lamentar.
Dizia nunca ter experimentado a paz e a alegria
em sua vida.
Há que se considerar a sua dor, no entanto gostaria
de dizer uma coisinha a você agora.

A paz, a luz, a alegria não podem ser concedidas
pelos outros.
O poço está em nós mesmos.
Se cavarmos o suficiente, no momento presente, a água jorrará.

Muita gente vive a buscar Deus nos locais errados.
Uns buscam nos templos, outros nos palácios, outros na ajuda que vem do próprio homem,
e assim todos seguem frustrados por nunca encontrá-lo.

Essa analogia serve-nos a todos de exemplo.
Da mesma forma como aquela senhora nunca encontrou a paz
nem a felicidade para si,
única e exclusivamente por não olhar para dentro de
si mesma,
muitos não perceberam que Deus vive em cada um de nós!

A paz, a alegria, a felicidade, o nosso bom Deus,
todas essas coisas maravilhosas estão bem seguras dentro de nós mesmos.
A sugestão é para que se permita ser amada, alegre e feliz!
Sempre com Deus no coração.

Línques relacionados:
Luiz Maia

Comente este texto - 01 leitores comentaram.

subir

 

Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Jornada

Num oceano vasto de riquezas,
Ondas vão cheias de amor, plenas.
Suave brisa cobre teu corpo e derrama teu brilho sobre a água.

Tua aura parece a Lua.
Tua voz acalma o vento.
Então cantas e o controlas...
Sabes o caminho certo.

Onde está a tua barca?
Ela vem ao meu encontro...
Vês o redemoínho?
Nele poderás abrir teu coração e jorrar teu espectro de emoções...
O centro do universo balança...
Depois se acalma.

Durma e não penses em nada...
Falta pouco para o fim da jornada.
No final do oceano está a minha casa...
As portas estão abertas...
A barca flutua lentamente...

Abra os olhos...
Meu fênix te guiará pelo espaço...
No topo do monte soltar-te-á.
Enquanto desceres... olhes para mim...
Meus braços estarão embaixo de ti.

Colocar-te-ei em berço de rubis...
Para renascermos em um só corpo
Feito todo de amor.
Nosso fruto será soberano e os planetas serão seu reino.
A jornada estará completa e poderemos navegar tranqüilamente.

Comente este texto - 0 leitores comentaram.

subir

 
Suburbanas
Marcos Claudino

Curtas e Loucas


Verão escaldante. Ano de 2345. 38 graus de temperatura, é que veio uma frente fria, sabe? Pois é, o sujeito caminha pelas ruas, olhos atentos, preocupado, pois o volume que trás debaixo da camisa é de extrema importância. Na esquina, dois moleques percebem que ali vai um cara com algo valioso. Abordam o sujeito, pegam o recipiente e dão o fora. Na delegacia, o sujeito, desconsolado, dá queixa do roubo de seus 200 ml de água potável, economizado durante anos, que seria presente para a noiva desidratada, igual a quase todos os habitantes...

---------------------------------------------

A puta pede passagem. Caminha orgulhosa, em meio aos lixos na calçada, gente e lixo, tudo igual. Mas ela não. O último cliente prometeu casa, comida, salário bom, e conforto. Também, com o trabalho que ela teve, com tanto prazer proporcionado, sua hora teria mesmo que chegar... Passa-se o tempo, e o prometido realmente aconteceu. A ex-puta aprecia da janela as raparigas novas, correndo e brigando pelos melhores lugares da esquina, com seus peitos e bundas bem à mostra. "Vacas", pensa ela, enquanto corre para tirar o assado do forno... Tem que se apressar, pois hoje é o dia do patrão vir, jantar na mesa e na cama...

---------------------------------------------

O cão era apaixonado pela gata da vizinha. Esta, por sua vez, sirigaita que era, andava de piscadelas com o rato, que morava no porão. Mas este, só de birra, fazia ciúmes pra gata, paquerando a cachorra da rua de trás... A passarinha jogou seu charme pra cima do coelho, e este não resistiu. Comeu-a literalmente, não deixou nem as penas, pois ele não era muito chegado nessa onda de misturas. Preconceito sim, ao menos mata a fome...

Línques relacionados:
Opiniões, Idéias e Viagens Mentais
 

Comente este texto - 01 leitores comentaram.

subir


 

Ombudsman
Alessandro Sachetti

Crítica também é arte

Edição de número 92 do nosso sítio literário, sempre um prazer maior poder participar e aprender mais a cada nova edição.
Rafael, sonhar nunca é demais. Idéias não faltam, quem sabe consigamos passar do virtual para o palpável, seria gratificante com certeza. Vamos juntos começar a transformar esse sonho em realidade.
Às vezes me parece que os textos que são enviados e publicados são propositalmente feitos acerca de um mesmo tema, não é a primeira vez que tenho essa sensação. Tive a mesma sensação na edição passada; claro que não são todos, mas poderíamos dividir os textos por assuntos ou até mesmo traçar uma linha de evolução (?) entre eles, como complementos interligados.
Na edição passada, Hugo Oliveira, em seu texto de estréia, nos fez uma boa explanação sobre rotulagem, que me faz repensar o assunto. Sempre levei em consideração que rótulos não são nada, eu ainda tenho opinião própria, mas é claro que existe uma predisposição a aceitar ou não algo a partir do que rotulam. Um rótulo nem sempre diz tudo, mas é certo que para muita gente nomes fazem muita diferença. Afinal as pessoas temem o que não conhecem e preferem ter “certeza” de algo antes mesmo de formar opinião, preferem tudo mastigado, mesmo que esteja tudo errado.
Mas rotular algo é muito pessoal, afinal de contas, quem é que dita o bom gosto? E o que é, exatamente, esse tal bom gosto? O que é bom para mim não é necessariamente bom para você. Existe alguém que seja o “dono” da conduta moral e saiba dizer o que todos devem ou não fazer? Isso é preconceito bobo. Ignorância, sempre vizinha da maldade.
Muito interessante o texto de Adriano Oliveira que, se não rotula, nos traz classificações humanas, segundo Jung. O que dizer? Não muito, apenas leio e aprendo mais. Mas também é impossível não ligar seu texto ao anterior. Há algum tempo li o livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, que trata deste assunto, inteligência racional e emocional. Imagino que já conheça, mas fica a dica para quem quiser saber um pouco mais.
Camila, foi realmente um prazer ler seu poema, Becos, na minha modesta opinião um dos melhores poemas que li por aqui. Gostei da força das imagens que você criou, da entrega. Parabéns.
Alessandro, muito me encantou sua resenha sobre o livro de Paul Aster. Noite do Oráculo realmente deve ser um livro maravilhoso, ainda não o li, mas com certeza depois do seu texto ele já é um dos próximos em minha grande lista de leituras pendentes. Obrigado pela indicação, pois não há dinheiro que pague uma boa leitura.
Caro Eduardo Sabbi, você tem a mania de nos jogar questões inquietantes, de não deixar as coisas escondidas; muito pelo contrário, quer que elas atravessem nosso caminho e que não se tenha como desviar. Sinceramente eu não sei o que teria feito, pensei muito sobre e não cheguei a conclusão alguma. Não vou cair em lugar-comum dizendo que o problema é o país, a falta de estrutura, educação, saúde, oportunidade, salário decente, cultura, acesso à informação e outras tantas coisas que nos faltam. A pergunta agora talvez seja: “O que você faz para mudar?”. Sempre soube que não adianta querer mudar o mundo, é melhor começar por nós mesmos.
Grande Pedro, eu não sei o que tinha na cabeça quem inventou esses obstáculos, mas besteira pouca é bobagem. Em um trânsito louco, um país maluco, você esperava o quê?
Como o Diego mesmo disse, qualquer outra consideração é uma afronta. E como afrontar essa cruel realidade?
Luiz Maia, com o tempo começo a compreender melhor a sua maneira de escrever; confesso que ainda não entendo muito o porquê da forma, mas o conteúdo já fica mais fácil. Talvez não devesse usar os textos centralizados, daria mais sentido na estética que também é importante para entender melhor seu texto.
Gosto dos seus poemas, Sara, ainda que me pareçam sempre uma busca. Voltar à fonte é sempre bom, recarregar as energias para um novo caminhar. Mas lembre-se de, vez por outra, mudar de caminho.
Claudino, a propaganda pode não ser mais a alma do negócio, mas alguém tem que contratar Duda Mendonça para algo, não é? Quanto à eleição, voto etc. concordo contigo, não deveríamos ter isso como obrigação, mas poderia ser pior, você poderia ter que trabalhar gratuitamente nas eleições sem direito a recusa, salvo problemas sérios. Pois é, tudo pode ser pior e como desgraça pouca não tem graça, eu vou trabalhar nas eleições do dia 3 de outubro.
Ótimo texto, Maurício, fica a dúvida, Charles Fourier seria o predecessor ou o inspirador dos Tribalistas?
Há tempo. Sobre os comentários na e sobre a minha coluna na edição passada.
Estou aqui para fazer crítica do bem. Para, ainda que em meus modestos conhecimentos, contribuir e trocar idéias sobre o que por aqui se publica. Sou responsável e assumo o que escrevo, é o que penso ou que sei, o que pode não ser muito, mas que desenvolvi ao longo dos meus 26 anos de leituras e aprendizados. Sou apaixonado por literatura moderna, o que se encaixa bem com o estilo Simplicíssimo. Não falo por falar, peso muito bem minhas críticas. E as faço sem pudor, não vou engrandecer alguém por pura rasgação de seda. Sempre achei que comentários vagos não engrandecem em nada, comentários como “lindo”, “adorei”, “ficou muito bom” acrescentam em quê? Também não sigo fórmula para fazer minhas críticas, são sempre espontâneas e nada recheadas de jargões vazios e sem sentido, nem tanto palavras ou frases bonitas e lugar-comum. Também não sei tanto de gramática, vez por outra erro em minhas concordâncias, por isso este meu texto é sempre revisado por quem entende do assunto antes de chegar ao e-mail do nosso tenente Rafael.
Só para constar, crítica também é arte, sabiam? Não vou citar exemplo ou fonte de difícil acesso, basta ter em mãos ou acesso ao livro O que é arte de Jorge Coli, da coleção Primeiros Passos (editora Brasiliense). E vai confirmar o que eu digo, é leitura simples – como o próprio nome da coleção já diz, é para quem quer aprender, já aprendeu e quer saber mais, enfim.
Vou continuar a criticar sim! Nunca para o mal, mesmo quando alguém pense que estou sendo leviano. Na verdade leviano seria se achasse o texto muito fraco e dissesse “Que bonito, parabéns”.
Agora, se não aceita críticas feche os olhos para a minha coluna ou faça terapia. Desista de escrever ou escreva para si, compre um caderno e guarde embaixo do seu travesseiro. Se quer jogar seus escritos ao mundo é para que seus leitores pensem, apreciem ou não o seu trabalho. Quando receber críticas, boas ou ruins, entenda e principalmente cresça, melhore, viva – e por favor não chore.
Até a semana que vem e bom feriado a todos!

Comente este texto - 04 leitores comentaram.

subir

 

Agora você pode comprar seus livros preferidos aqui mesmo pelo Simplicíssimo e, ainda por cima, ajudar a manter o site funcionando!

Compra através do banner aí embaixo que estarás doando 4% do valor de suas compras ao Simplicíssimo!

Pegue o banner
do Simplicíssimo
e divulgue em seu
sítio ou blógue!


Línque para
http://www.simplicissimo.com.br
e depois nos avise!

 


Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

Copyright © 2003-2009 - Rafael Luiz Reinehr - Todos os direitos reservados.
Sinta-se à vontade para reproduzir os textos do site, mas não esqueça de citar a fonte e o autor.