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08 /09/2004 - Edição número
92
Pesquisa
eleitoral
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Pesquisa eleitoral
TRIMMM...
- Alô!?
- Alô! Com quem falo?
- Com quem quer falar?
- Aqui é Carlos Nascimento, do Pesquisas Populares.
Desculpe incomodar neste horário, o senhor está
muito ocupado?
- Pesquisa? Do IBOPE?
- Sim, é uma pesquisa. Mas sou do Pesquisas Populares,
não do IBOPE! Estamos realizando uma pesquisa sobre
as próximas eleições e gostaríamos
de saber se o senhor poderia participar.
- Hummm... Vai demorar?
- A pesquisa é rápida. São só
algumas perguntas.
- Então tá bom! Se for rápido...
- Para sua conferência, o meu código de pesquisador
é 165850 e o telefone de nossa Central de Pesquisas,
para esclarecimento de quaisquer dúvidas é
555-5555. Posso começar?
- Vai...
- Primeiro, seus dados de identificação: primeiro
nome?
- João.
- Sexo?
- Macho! Muito macho!
- Certo, masculino...
- Estado civil?
- Casado. Muito bem casado!
- Tá... Cor?
- Vermelho. Colorado de coração!
- Vermelho? Hahaha! Não sua cor preferida! Cor da
pele!
- Sou negrão com muito orgulho!
- Casa própria ou alugada?
- Própria. A muito custo neste país!
- Grau de escolaridade?
- Terminei a oitava série.
- Profissão?
- Motorista de ônibus.
- Certo. Poderia dizer a renda familiar, mais ou menos?
- Ah! Com o dinheiro da patroa, que vende comida pronta,
dá uns 5 salários...
- Ótimo! Agora vamos às demais perguntas da
pesquisa: em quem você vai votar para Prefeito?
- Prefeito? Vou de Valdeci! Na cabeça!
- Ah, tá... Do PT, né?
- E para Governador, votas em quem?
- Vou votar no Olívio! O bigode no Piratini!
- Olívio? Tem certeza? Vou colocar aqui hein? Não
vai se arrepender!
- Pode colocar!
- E para Senador, em quem vai votar?
- Vou votar no Paim, no Paulo Paim.
- No Paim? Hummm... Aquele “da cor” do PT, né?
- Como?
- Nada, nada não... Só mais uma pergunta:
em quem o senhor vai votar para presidente da República?
É a decisão mais importante de todas!
- Ah! Pra presidente vou votar no Lula!
- No Lula? Não, você só pode estar brincando!
- Ué? Por quê?
- Não vou colocar isso aqui! Vou colocar Serra!
- O quê? Mas não pode!
- Ah! Vou sim! Você já votou em todos do PT!
Colocou prefeito do PT, governador do PT e até senador
do PT! Vou colocar seu voto para presidente no Serra...
- Você ta louco? Coloca Lula aí! Onde já
se viu uma coisa dessas?
- Me nego a colocar esse PTzão aqui! Como você
pode votar em um quase analfabeto? Vou marcar o Serra aqui!
- Olha aqui seu filha da puta! Ou você coloca aí
que eu vou votar no Lula ou te quebro os cornos!
- Ah, pára! Um cara que nem eu, com curso superior,
consegui este emprego no Pesquisas Populares para aumentar
minha renda, não vou deixar você, quase analfabeto
também fazer essa besteira!
- Seu desgraçado! Vou descobrir onde tu mora e vou
aí rachar tua cara! Tu não tem ética
seu filho duma mãe? E a imparcialidade do pesquisador?
Eu sabia que essas pesquisas eram todas uma fraude. Como
você pode mudar minha opinião?
- Mas vem cá: me dá um argumento para você
votar no Lula. Umzinho só!
- Que argumento o caramba! Você vai botar aí
que eu vou votar no Lula e ponto final! Olha que eu tenho
amigos na imprensa e eles vão denunciar esta tua
pesquisa de merda!
- Pfu! Denuncia nada! O Pesquisas Populares é acima
de qualquer suspeita! Tem tradição e credibilidade,
ninguém vai acreditar! Me diz aí: dá
só um argumento pra você votar no Lula. Te
dou vários para você votar no Serra!
- Então, me diz 1 motivo pra eu votar no Serra!!!
- Ah! Porque o titio.. hã... porque o Serra foi o
responsável pelo lançamento dos genéricos.
Não é um bom motivo?
- O Serra é teu tio?
- Que nada... De onde tu tirou isso? Olha só: vou
colocar o Serra aqui porque senão o Lula ganha fácil
essa pesquisa. Assim fica mais emocionante.
- Olha aqui! Já te falei seu corno! Se você
botar Serra aí na pesquisa vou aí e te enfio
a mão!
- Então tá! Marquei Serra aqui na sua pesquisa!
Muito obrigado pela colaboração e tenha uma
boa tarde seu João!
- Espera aí seu...
Tu tu tu tu tu...
Rafael Luiz Reinehr
(agradecimentos especiais ao Anderson Lazzaron,
que me contou sobre a história acima, segundo ele
um trote telefônico idealizado e posto em prática
por um amigo em época de eleições)
PS: boas vindas ao Sérgio
Pires que estréia com um espetacular (e
longo!) conto, à Marici Bross que estréia
na seção Poesia e ao retorno de Mauro
Schneider, desta vez com sua "história
da vida real". Ah! E adeus ao Diego Mainardo,
que cansou/desistiu de ficar passando a perna no
Diogo Mainardi, outro esse que é o campeão
das baboseiras na revista Veja (na opinião deste
humilde editor!)
"O conhecimento da natureza humana
é o princípio e o fim da educação
política"
Henry Adams
"A diferença entre a moral
e a política está no fato de que, para a moral,
o homem é um fim, enquanto que para a política
é um meio. A moral, portanto, nunca pode ser política,
e a política que for moral deixa de ser política"
Pio Baroja
"Nunca interrompas o teu inimigo
enquanto estiver a cometer um erro"
Napoleão Bonaparte
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“— Estou com mau pressentimento — disse
Caio naquela noite nublada, há vinte e cinco anos”.
Eu já havia esquecido aquela noite.
Não totalmente — e não admitir isso
seria uma idiotice, ao levar em conta o pesadelo pelo qual
passamos — mas posso dizer que foi como esconder a
sujeira embaixo do tapete. E agora que estou sentado na
varanda da minha casa, observando o outro lado da rua, minhas
lembranças vieram à tona. Mais ou menos como
se alguém, depois de muito tempo, levantasse o tapete
e dissesse “Ei, o que significa isto mocinho?! Será
que você pode me dizer??”
Sim, eu posso. Não queria, mas posso.
Naquela época, fazíamos parte da Legião.
Eu, Rubens, Caio e Paulo, quatro rapazolas filhinhos-de-papai
interessados somente em prazeres sujos e diversão
barata.
Vergonhoso, mas pura verdade.
Gostávamos mesmo do lado obscuro da coisa. Fumar
maconha e cheirar cocaína durante noites inteiras.
E, às vezes, depois de uma boa briga, injetávamos
algo diferente em nossas veias com o resto dos caras.
Essa era a nossa gangue.
Essa era a Legião.
Na verdade, uma legião de otários. E aprendi
isso da pior maneira possível.
Naquela noite, estávamos no centro de São
Paulo á procura de uma tal droga nova que era vendida
num beco próximo à rua Augusta. Já
tínhamos cheirado um bocado de pó durante
o dia, mas queríamos mais. Rubens, o mais velho,
tinha obsessão por novidades e, quando comentaram
sobre o que estava sendo vendido por aí, ficou entusiasmado.
“Putz! — disse ele esfregando as mãos
— Não durmo enquanto não injetar essa
coisa na minha veia. Vamos lá agora mesmo!”.
Estávamos sem carro e o apartamento dos pais de Rubens
era ali perto. No início, pareceu ser uma boa idéia.
Mas foi só no início.
______________
— Sei não, Denis — continuou
Caio — Estou com mau pressentimento. Principalmente
agora — disse ele apontando com a cabeça.
O que ele apontava era uma garota que não deveria
ter mais que dezesseis anos. Caminhava à frente,
ao lado de Rubens. Pela aparência suja das roupas,
deduzi que já estava na rua a um bom tempo. Rubens
a trouxe quando paramos num bar para comprar cigarros.
— Fique calmo — falei — Você sabe
que ele sempre faz isso.
Algumas vezes, ele não fora muito bem sucedido em
suas empreitadas, mas já tinha conseguido transar
com pelo menos duas garotas, usando sempre seus convitinhos
ingênuos. Tinha o corpo atlético e acho que
isso ajudava um pouco com as meninas mais novas. Mas, ao
contrário do que pensávamos, os dois não
estavam conversando muito.
Geralmente Rubens era assim: Passando a euforia inicial,
ele se preocupava mais com o que iria cheirar do que com
quem iria trepar. E, a julgar pela sua conversa desanimada,
ele não estava mais a fim de trepar com ninguém.
—...Será que vamos encontrar o tal sujeito?
— perguntou — Estou louco pra cheirar...
— Sei lá — respondi sem dar muita atenção.
Apenas observava a garota que mal sabíamos o nome.
Possuía o andar trôpego e não descruzara
os braços desde que saímos do bar.
E era bela.
Seus cabelos longos e escuros realçavam a pele clara
de seu rosto e o azul de seus olhos. Usava uma calça
“Jeans” desbotada e uma camiseta clara de algodão.
Pude perceber a pele de seu ombro eriçada. “Está
com frio” — pensei.
Paulo percebeu meu olhar e aproximou-se. Era meio abobalhado
e possuía uma barriga nada discreta. Nós o
chamávamos de Paulo Fofonho.
— Rubens disse que ela veio por causa das drogas —
falou.
Eu já imaginava isso. Era uma viciada de rua. Não
tinha casa certa e nem família.
Quanto a nós?
Bem, nós éramos aqueles que tinham dinheiro,
conta-corrente, cartão magnético e uma boa
mesada. Pegávamos o carro do papai na hora que bem
entendêssemos e viajávamos sempre que desse
na telha. E é claro que nossos pais sabiam o que
acontecia quando nos encontrávamos.
Mas fingiam não saber.
Talvez tivessem medo de encarar os fatos e colocarem em
risco a posição que ocupavam diante de outros
riquinhos de bosta.
— Bonitinha ela né? — disse Paulo, interrompendo
meus pensamentos.
— Hã?
— A garota. Uma graça.
— Ah! Sim. É sim — respondi meio encabulado,
sem que ele percebesse que já me sentia atraído
de alguma maneira.
E, antes de qualquer piada a respeito, avistamos o beco.
Era uma rua sem saída e, apesar da escuridão,
pude ver ao longe, quase no final, o sujeito encostado num
Furgão. Usava um casaco escuro e seu rosto ocultava-se
nas trevas.
— É ele. Eu vou lá — disse Rubens
— Vocês, esperem aqui.
Encostei-me a uma parede, próxima à calçada
e observei Rubens afastando-se lentamente, sendo engolido
pela escuridão. Senti um calafrio.
Paulo e Caio andavam de um lado para o outro, chutando uma
lata de refrigerante, demonstrando impaciência. A
garota encostou-se ao meu lado. Desta vez, havia descruzado
os braços.
Pedi um cigarro para Caio que me estendeu um “Marlboro”
prontamente.
Traguei o cigarro, demonstrando falsa tranqüilidade.
No fundo, eu estava tão ansioso quanto eles.
Mas havia algo mais.
Aquela sensação de calafrio não abandonara
meu corpo totalmente e eu não conseguia tirar os
olhos do sujeito que, naquele momento, dialogava com Rubens
em meio às sombras.
— Pode me arrumar um trago?— perguntou-me a
menina.
— Claro — falei estendendo-lhe o cigarro que
já havia queimado pela metade.
— Como é seu nome? — perguntou ela, colocando
o cigarro entre os lábios.
— Denis. E o seu?
— Laura.
— Você mora aqui perto? — perguntei, enquanto
observava novamente Rubens e o sujeito do Furgão.
Estavam mais próximos agora, como se estivessem cochichando
alguma obscenidade.
— Moro por aí... — respondeu ela.
Dias depois, eu descobriria que “Por aí...”
era uma casa de massagem onde sua mãe trabalhava.
E, talvez, se a coisa toda não tivesse acontecido
como aconteceu, ela também trabalharia lá
em um futuro não muito distante. Mas, naquele momento,
eu estava perguntando demais e decidi calar minha boca grande.
Mesmo assim, ela permaneceu ao meu lado, até que
Rubens retornasse.
— Vamos embora — disse ele apressado.
— Conseguiu o “negócio”? —
perguntou Caio.
— Sim, consegui — disse ele mostrando cinco
envelopinhos de cocaína e um frasco plástico
com um pó esverdeado — Agora, vamos embora.
Antes de sairmos, dei uma última olhada naquele beco
e vi o sujeito lá, parado, acendendo um cigarro.
O isqueiro iluminou seu rosto quase totalmente.
E, por um instante, pensei tê-lo visto sorrindo.
Paulo, Rubens e Caio foram caminhando na frente. Cantarolavam
antigas canções de Raul Seixas, animadamente.
E a garota caminhava ao meu lado.
Conversamos um pouco e Caio virou-se, dando uma piscadela,
como se pudesse dizer: “Isso Denis, ela está
na sua. Agora só falta jogar uma conversa mole e
meter a noite inteira”.
Parecia já ter esquecido o que havia me dito há
alguns minutos.
“Estou com mau pressentimento”.
______________________
Chegamos ao prédio onde Rubens morava mais ou menos
às 02hs. da manhã.
A rua que dava para a entrada do prédio nunca foi
muito movimentada e àquela hora não tinha
uma viva alma.
José, o porteiro, fazia palavras cruzadas e nos observou
por cima de seus óculos, levantando a mão
direita. Acenamos de volta e entramos no elevador. Aquele
homem era o porteiro dali a mais de dez anos e nunca pegou
no nosso pé por causa dos horários que chegávamos.
O apartamento ficava no primeiro andar. A cozinha era digna
do desejo de qualquer dona-de-casa e a sala também
era grande. Logo que entramos, sentei-me no sofá
maior. À minha frente havia um pequeno corredor,
onde ficava o quarto dos pais de Rubens. Atrás de
mim, existia outro corredor maior, onde se encontravam outros
três quartos.
Laura sentou-se ao meu lado. Rubens largou o corpo no sofá
à minha frente.
Paulo Fofonho ligou o aparelho de som e um Rock antigo fluiu
baixinho através das caixas acústicas, em
cima de uma grande estante de mogno, ao lado da TV de 20
polegadas.
Caio foi até a cozinha e trouxe uma bandeja rasa
de prata.
— Se minha mãe visse isso... — disse
Rubens soltando uma gargalhada.
Mas Caio não respondeu. Estava concentrado, como
um terrível garçom de iguarias exóticas.
Entregou uma seringa pequena, juntamente com uma colher,
nas mãos de Rubens. Colocou a bandeja sobre o colo
e despejou a cocaína dos envelopes que Rubens havia
comprado. Com um cuidado notável e um cartão
de crédito, passou a fazer pequenos filetes de pó
branco.
— Quero uma nota nova — disse ele.
Estendi-lhe uma nota que hoje equivaleria a uns cinqüenta
paus e ele a enrolou até ficar um canudo bem fino.
E todos nós cheiramos, um a um, como num ritual macabro.
Menos Rubens, que já abastecia a seringa com o líquido
esverdeado que fora pó, antes de ser aquecido na
colher média.
— Quero ser o primeiro a experimentar...
Laura fechou os olhos e deixou a cabeça tombar para
trás, até encostar-se no sofá, enquanto
eu, já alterado, observava Rubens, completamente
entregue ao efeito daquela coisa verde que aplicara na veia.
Havia algo estranho.
O cara não parava de esfregar os olhos.
— Não consigo enxergar direito...
Ninguém deu muita atenção.
—Está ardendo!!! – dessa vez gritou forte
o suficiente para me deixar assustado.
De repente, Rubens parou de reclamar do ardor e arregalou
os olhos. Havia mais do que simplesmente medo ali...
— Caio... — murmurou —... Tem algo em
sua cabeça!
— Aquela coisa verde te deixou muito louco —
disse Caio soltando uma gargalhada.
... Era terror.
Seu tom de voz aumentou.
— Tem algo pulando na sua cabeça, seu imbecil!
Paulo e Laura também começaram a rir, sob
efeito da droga.
E eu estava apavorado.
“Estou com mau pressentimento”.
Meu coração disparou e eu podia sentir a cabeça
pulsar. Já não havia qualquer efeito da droga.
Sentia apenas medo.
— Essas Coisas — continuou gritando —
Estão na cabeça de todos vocês! SÃO
COMO DEMÔNIOS!!
Ergueu as mãos como se quisesse se proteger de algo
— Afastem-se!!! Afastem-se, cacete!!!
— Mas, do que ele está falando? — perguntou
Paulo Fofonho ainda rindo.
— Sei lá! — respondeu Caio, sem ver mais
graça em nada — Acho que enlouqueceu...
Rubens continuou:
— Vocês não enxergam?! Não estão
vendo?!
Correu e escondeu-se atrás do sofá. Uma cena
patética.
— Caio... — falei —... Ele não
está bem. Precisamos fazer alguma coisa.
Paulo e Laura continuavam a rir. Aquilo era irritante.
Rubens deixou apenas os olhos vitrificados aparecerem por
detrás do sofá, como um soldado na trincheira.
— Essas coisinhas verdes — disse ele —
Estão fazendo a festa na cabeça de vocês.
Eu posso vê-los enfiando as garras dentro dos seus
miolos e... — fez uma pausa, balançando a cabeça
negativamente —... Vocês não enxergam.
— Vamos acabar logo com essa palhaçada —
disse Caio levantando-se.
— NÃO SE APROXIME DE MIM!! MALDITO DESGRAÇADO!!
— Gritou ele, enquanto pulava por sobre o sofá
e fugia para dentro do quarto de seus pais, trancando a
porta.
— O que será que ele tem? — perguntou
Laura que já não estava mais rindo.
Caio olhou para nós e deu de ombros.
— Não sei, deve ter sido essa coisa que ele
injetou.
— Deve estar tendo alucinações —
completei.
Paulo levantou-se.
— Perdi até o tesão — disse ele.
E desligou o aparelho de som.
_______________
Dez minutos silenciosos passaram-se e percebi
que estava olhando fixamente em direção à
cabeça de Caio.
— O que foi? — bufou ele — Vai dizer que
também está vendo demônios verdes plantando
bananeira na minha cabeça?!
— Não, é que... Ah! Deixa pra lá.
Nem mesmo eu sabia por que o estava olhando daquela maneira.
— Desculpe, Denis — disse Caio — Fiquei
nervoso com tudo isso. Acho que aquele negócio novo
o deixou neurótico...
Caio parou subitamente. Ouvimos a porta do quarto se abrir.
Rubens apareceu.
— Não estou neurótico e sei o que estou
vendo — disse ele com os olhos quase saltando das
órbitas — Criaturas verdes pulando por cima
de suas cabeças. Demônios. Enfiando suas garrinhas
bem no fundo de suas mentes. Manipulando todos vocês...
Então, meu coração voltou a disparar
quando vi a arma que ele ostentava ameaçadoramente
em sua mão direita.
—... E vou tirar esse sorrisinho amarelo da cara deles,
agora!
Rubens engatilhou o revólver e apontou para nós.
Eu já tinha visto aquela arma. Pertencia a seu pai.
Uma Taurus calibre .38 de seis tiros, prontinha para alvejar
os supostos demônios que pulavam festeiros em nossas
cabeças.
— O que você vai fazer com is...
“click!”
Foi o som que escutamos quando Rubens apertou o gatilho.
Laura gritou.
O revólver estava descarregado.
— Putz cara! Você me assustou — disse
Paulo Fofonho respirando aliviado.
Rubens deu um sorriso insano e puxou seis balas do bolso.
— Nossa... — disse ele enfiando os projéteis
no tambor inoxidável —... Estou tão
dopado que esqueci de carregar... Agora sim!
Apontou para Caio e atirou.
Rubens era um bom atirador. Lembro-me de quando viajávamos,
sempre escolhendo estradinhas desertas. Praticávamos
tiro em garrafas de cerveja. Gostávamos de ver os
cacos de vidro voarem pelos ares. Mas, quando se atira na
cabeça de alguém, não são cacos
de vidro que se vê voarem por aí.
O projétil atravessou o crânio de Caio.
Sangue, massa cinzenta e alguns fragmentos de ossos salpicaram
a parede branca da sala. O corpo inerte tombou sobre o colo
de Paulo Fofonho, que berrava como uma criança amedrontada
ao ver o líquido vermelho e espesso que fluía
de algo que lembrava bem de longe o que horas atrás
fora um pescoço.
Laura também se pôs a gritar e meus ouvidos
quase estouraram.
Enquanto Paulo se desvencilhava do cadáver ensangüentado,
agarrei Laura e, num ímpeto de medo, corremos pelo
corredor maior, entrando no último quarto.
Tranquei a porta.
Escutei mais dois tiros. E soube, naquele momento, que Paulo
Fofonho também estava morto.
_______________
Fiquei parado junto à porta durante
um tempo.
Laura chorava baixinho, encolhida num canto da parede. Fui
até ela e enfiei a mão em sua boca para abafar
os gemidos e tentar captar algum som.
Silêncio.
Por um breve momento pensei na possibilidade de Paulo ainda
estar vivo.
E, como se pudesse ler meus pensamentos, Rubens gritou:
— Fofonho está morto, Denis! Foi preciso, está
escutando? Tinha umas Coisas controlando eles e está
controlando você também. Vocês não
puderam enxergar, mas eu pude. Vou acabar com tudo isso
cara. Vou te livrar desse Demônio nojento... —
fez uma pausa — Você e essa putinha...
Ouvi um barulho forte. Ele havia aberto a porta do primeiro
quarto e se aproximava pelo corredor.
Laura desesperou-se. Apertei mais ainda minha mão
em sua boca. Apertei tão forte que pude sentir os
dentes contra os nós de meus dedos.
— Aqui não está... — disse ele
— Onde você se meteu, hein? Apareça,
quero apenas tirar essas Coisas de você...
Abriu a segunda porta.
— Tsc, tsc, tsc... Acho que agora sei onde você
está.
Fechei os olhos e abracei Laura. Vi a maçaneta mexer-se
e meu coração quase parou.
Foi quando ouvi vozes que vinham da entrada do apartamento.
— Abram! É a polícia.
Rubens largou a maçaneta e correu para a sala.
— O que vocês querem? — gritou.
— Abra! Ou vamos invadir.
Abri a porta vagarosamente e fui até o corredor.
Rubens estava de costas.
Paulo Fofonho jazia estirado no chão com um tiro
no abdômen e outro no olho direito, que fora transformado
numa cratera ensangüentada.
— Vocês não entendem, vão embora
— disse Rubens com a voz fraca, como num doloroso
lamento — Não sabem nada... Os demônios...
Aquelas Coisas verdes... Ah! Que se fodam!!
Os policiais invadiram.
E Rubens atirou.
Eram dois policiais e o primeiro foi recebido com um tiro
entre os olhos assim que entrou.
O segundo policial reagiu, mas conseguiu acertar-lhe apenas
o ombro esquerdo.
Rubens não errou. Seu tiro furou em cheio a jugular
do jovem policial que oscilou por alguns instantes e caiu
feito uma laranja podre, com a farda empapada de sangue.
Rubens observou os quatro cadáveres estirados entre
poças vermelhas que se formavam no chão da
sala. Houve um pequeno momento de lucidez em seus olhos.
Foi só por um momento.
Enfiou o revólver na boca e atirou.
Num desespero louco, corri para o quarto e arrastei Laura
para fora.
— Vamos — gritei — Outros policiais devem
estar vindo.
— Deus... — balbuciou ela ao ver os corpos.
Ajoelhou-se ao lado de Paulo e vomitou.
— Vem — disse eu obrigando-a a levantar-se —
A viatura estava fazendo ronda e ouviram os disparos. Os
outros vão chegar lo...
Não consegui continuar.
E é nesta parte que devo jurar perante Deus-Todo-Poderoso
duas coisas: A primeira é que não cheguei
nem perto daquela coisa que Rubens injetou na veia.
E a segunda é que eu vi aquilo que desencadeou toda
a paranóia de Rubens.
Eu estava vendo a Coisa.
Não possuia mais que 50 centímetros e estava
sentada em cima da TV. Sua pele esverdeada e escamosa cobria
o corpo e três dedos em cada uma das mãos em
forma de garra. Os olhos avermelhados e opacos fitavam-me
atentamente enquanto o rosto enrugado exibia uma boca escura
com dentes disformes. Um filete de baba escorria pelo canto
e o fluxo aumentou quando a boca entreabriu-se na tentativa
de um sorriso sarcástico.
— O que foi? — perguntou Laura.
Somente eu enxergava. Balancei a cabeça, como um
bêbado que tenta ficar sóbrio e olhei novamente.
A Criatura ainda estava lá.
Um vulto me chamou a atenção e percebi uma
segunda criatura como aquela, escondida atrás do
aparelho de som. Esgueirou-se sobre a estante e com um salto
rápido, quase felino, postou-se ao lado daquele que
parecia um irmão. Não demonstravam intenção
nenhuma de saírem dali e nos atacar. Mesmo assim
caminhei em direção a saída lentamente,
sem tirar os olhos daquelas Coisas.
— O que foi? — insistiu Laura.
— Nada. Vamos embora — falei enquanto caminhava
lentamente em direção a saída.
Antes de sair, dei uma última olhada. Os pequenos
Demônios haviam sumido.
Ilusão? Sinceramente, não sei dizer.
Descemos pelas escadas. A portaria estava deserta.
José poderia ter fugido com o som dos tiros. Àquela
altura, não saberia dizer.
Quando saí do prédio, avistei a viatura dos
policiais e um Furgão branco encostado na calçada.
Apenas quando dobrei a esquina, me dei conta do que vi.
Aquele era o Furgão do sujeito que vendera as drogas
para Rubens.
— Espere aqui — falei.
Fiquei atrás da parede do prédio e avistei
o sujeito de casaco escuro entrar apressadamente no prédio,
carregando algo embaixo dos braços.
Rezei, naquele momento, para a polícia aparecer.
Nada aconteceu.
Depois de alguns minutos, o sujeito saiu calmamente pela
entrada do prédio, arrastando cinco sacos grandes
de lona. Eram os corpos de meus amigos e dos policiais que
estavam dentro daqueles sacos mortuários. Abriu a
parte traseira do Furgão e, com a mesma força
sobrenatural, arremessou-os para dentro. Aquilo não
podia ser humano.
Ouvi as sirenes dos carros de polícia ao longe.
O sujeito entrou no veículo e desapareceu logo que
dobrou a primeira esquina.
O som das sirenes aproximava-se mais.
Puxei Laura pela mão e fugimos. Corremos durante
um bom tempo até estarmos longe o suficiente. Paramos
com a respiração ofegante. Abraçamos-nos.
E choramos.
_______________
E esse foi o fim.
Nunca contei para meus pais o que havia acontecido. Disse
que não estava junto dos caras naquela noite e dei
o assunto por encerrado.
Eu e Laura continuamos juntos por um bom período.
Não houve paixão. Não houve amor.
Houve apenas a necessidade de mostrarmos um pro outro que
tudo aquilo acontecera e que não estávamos
loucos. Sua presença me confirmava isso.
E foi bom ter dormido com ela durante aquele tempo.
Hoje estou só, tenho um bom emprego e uma casa e
tanto. E acho que basta de relembrar. Chega de olhar para
baixo do tapete.
O que interessa mesmo é o que fez com que o tapete
fosse levantado.
Do outro lado da rua, observo a casa de Paula Mariano. É
uma garota loura de uns vinte anos. Pra mim não passa
de uma piranha de boca suja.
Seus pais viajaram neste fim de semana e ela andou fazendo
uma festinha com os amigos. Muito álcool e muitas
drogas.
Há uma hora, escutei uns gritos estranhos vindos
de lá. Olhei pela janela e vi um Furgão branco
estacionar em frente a casa. E eu sei quem entrou lá.
Está demorando um pouco mais do que aquela vez há
vinte e cinco anos.
Mas o sujeito vai sair. Humano ou não, ele terá
de sair.
Enquanto isso, eu verifico a munição da minha
pistola 765. E quando ele aparecer, estarei aqui.
Esperando...
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Amanhã?
Não sei...
Mauro Belo Schneider |
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Um dia desses eu estava chegando na PUC,
mais precisamente na FAMECOS (Faculdade de Comunicação
Social), e fui atacado por uma pessoa que me chamou pelo
nome. Parei, olhei para ela e reconheci: era a Manoela.
A Manoela também faz o curso de Jornalismo. Apesar
de estudarmos em turnos diferentes, nos conhecemos através
de um trabalho que fizemos na monitoria de eventos da universidade.
Tentei iniciar uma conversa sobre isso com ela, mas logo
fui interrompido ao perceber que o colega que a acompanhava
já estava me filmando. Bem, até aí
tudo certo. Estudantes de Jornalismo se acostumam a ver
câmeras, luzes, gente sendo entrevistada, gente entrevistando...
Enfim, são coisas da profissão. Então,
aceitei o convite que ela me fez: "Quer responder umas
perguntinhas para nós?". Quando descobri quais
eram as tais perguntinhas, me arrependi de ter aceitado
o convite. Não que a Manoela tenha pego pesado ou
tenha feito perguntas inconvenientes... Nada disso! Mas
acho que ainda não estava preparado para falar de
tal assunto: "quais são as tuas expectativas
para o futuro?", essa foi a indagação
que me fez ficar vermelho, roxo, verde e com a maior cara
de pau dizer: "ficar famoso". Pedi para que cortassem,
para que parassem de gravar e me desculpei pelas respostas
tão infantis. Inventei que tinha uma prova naquele
período e saí correndo, tentando escapar daquela
situação. Contudo, não saia da minha
cabeça aquela cena e não entendia o porquê
da minha incapacidade para falar de algo tão simples:
o amanhã...
A aula havia terminado e eu voltei para casa.
Deitado em minha cama decidi formular uma boa resposta para
essa pergunta (que eu sabia que seria feita inúmeras
vezes novamente). Pensei, pensei, cheguei a me enxergar
respondendo com firmeza e com uma postura de seriedade,
mas acabei adormecendo em meio a tantos pensamentos. O dia
seguinte passou rápido e era hora de voltar à
FAMECOS... Quando o sinal para o intervalo tocou, eu e meus
colegas fomos em direção ao saguão.
Mas, novamente fui atacado por uma pessoa. Desta vez, não
a conhecia. Eram dois guris que me fizeram o seguinte convite:
"Quer responder umas perguntinhas para nós?".
Lembrei do que havia acontecido no dia anterior, tive fé
e acreditei que agora já estaria maduro para responder
qualquer pergunta que me fizessem. E, realmente, comecei
bem... "O que achou do novo currículo?",
foi a primeira delas. "Achei excelente... A prática
desde o 1º semestre é muito importante e tal
e coisa e coisa e tal..." . As palavras fluíam
de minha boca. Ao terminar de responder, lá veio
a próxima: "Quais as tuas expectativas para
o futuro?". Novamente... A pergunta que havia me feito
tão pequeno estava diante de mim para mais uma batalha.
O
silêncio tomou conta de meu corpo, mas consegui vencê-lo
com a seguinte resposta: "Não sei...".
Foi a coisa mais sincera que já disse
em toda a minha vida. Simplesmente não sei o que
o futuro me reserva... Muitas vezes planejamos, sonhamos,
e o futuro nos coloca dentro de um universo completamente
diferente das nossas ambições. Então,
agora acho que já tenho uma resposta formulada para
o próximo colega que vier me perguntar sobre o futuro:
"Não sei... Só poderei falar dele quando
fizer parte do passado. Tal como se escreve a história
de uma nação". Aliás, nunca se
atinge a maturidade para falar de coisas desconhecidas...
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Amor... cheguei
Passo entrar?
Vim para ficar.
Quer?
Desta vez te encontrei
Desta vez estou amando
Um amor maduro
Não menos belo.
Pelo contrário...
O amor maduro
É o mais belo
O mais verdadeiro
Pois chega, para ficar!
Tem o encanto da vida
O amadurecimento, dos anos
É sábio, sabe o que quer.
E quando vem, saiba amor.
É para ficar!!
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Pequenas resoluções
de ano novo
“No nove, no oito e no sete, me
apertou a mão. Se Liana me visse, em pleno reveillón...”
Adriano de Severo, “Novo Tempo”.
1.
Quando eu o encontrei na segunda vez em frente ao restaurante,
ele tentava se desviar dos pingos da chuva. Assim que me
viu, abriu um sorriso que denunciou todos os seus dentes
inexistentes e pareceu crer que eu realmente me aconchegaria
no seu cobertor imundo e cheio de rastros de ranho. Com
todo um misânscene ao mesmo tempo deprimente e tocante,
encostou um dos joelhos no chão, abrindo os braços
e, à minha frente, enfiou o naco de pão entre
os dentes como quem morde uma rosa com todo o cuidado. Era
um misto de figurante de peça de Shakespeare e cachorro
pedindo comida.
Ainda que contra os meus princípios convenientes
de pequeno burguês, favorável às ideologias
apoiadoras de sistemas governamentais que garantam a subsistência
dos desvalidos – contrário, portanto, ao ato
de dar esmolas à pobres-diabos que cruzam comigo
pela rua à toda hora – saquei da carteira e,
em uma esmerada inflexão dos joelhos, procurando
dar continuidade à representação por
ele iniciada, me estiquei o mais que pude para lhe alcançar
uma nota de dez reais.
Não me dei por conta de que uso daria à quantia
– não me importava o destino final do dinheiro
que lhe entregava. Ele pegou da nota, dobrou-a em sete pequenas
porções e a enfiou dentro do naco de pão.
Reclinou-se com um floreio, socando o pão no bolso
e foi remexer a lixeira do bar do outro lado da rua. Ana,
ao meu lado, me disse que eu era um imbecil por dar dinheiro
ao homem e que ele iria encher a cara de cachaça.
Pensei que mesmo sendo ainda o último dia do ano
e que minhas resoluções começariam
a vigorar somente a partir do próximo, não
ficaria bem quebrar os dentes de Ana, por que, afinal, ainda
tínhamos que chegar à casa de Clóvis
para a festa.
2.
Das lembranças da noite anterior que restavam à
sua volta quando acordou, se encontravam o cinzeiro repleto
de guimbas de cigarro, as dezenas de copos sujos, garrafas
vazias e todos os cheiros que continuavam a empestear o
ar. Do seu lado, ninguém e, por toda a casa os destroços
da maldita festa. Como todo final de festa, o fim das ilusões
de estar cercado - reforçadas pelos abraços
e desejos de feliz ano novo - e a certeza da solidão,
única verdade inconteste.
Não tinha vontade de levantar da cama. À
frente, a televisão continuava emitindo um chiado
ininterrupto em uma estação inexistente. Em
algum ponto do corpo, a dor. Não virou para ver que
não acharia o controle remoto que estava em algum
lugar muito perdido da casa. Foi o tempo de não olhar
e não ver o Sérgio, que dormia no chão
de tabuão, ao lado de sua cama. Somente não
contrariando mais a verdadeira necessidade que tinha de
caminhar até o guarda-roupa, achar alguma toalha
limpa e uma calcinha que não fosse bege, é
que teria a chance de levantar da cama, tropeçar
no corpo de Sérgio – jazia como um cadáver:
nu e gelado – e se espantar por que, afinal, não
estava sozinha em casa. Como não contrariou a vontade,
por que se sentia realmente uma puta, deitada com os cabelos
desgrenhados e fedendo à cigarro, com gosto de batom
e licor e cerveja e uísque na boca e achando que
um banho poderia fazer-lhe melhor, foi que resolveu caminhar
até o guarda-roupa para achar alguma toalha limpa
e uma calcinha que não fosse bege (ia encontrar Mário
e se tudo se encaminhasse da maneira corriqueira de sempre,
estariam transando antes do final da tarde e não
gostaria de estar usando calcinha bege). Levantou da cama
e tropeçou em Sérgio, deitado como um cadáver:
sem roupa e com os olhos arroxeados. Como não precisara
dar mais que dois passos no exercício de levantar
da cama e acertar o ombro direito de Sérgio com o
peito de seu pé, foi somente no terceiro passo, quando
firmou este mesmo pé no chão frio de tabuão,
que sentiu realmente, a dor insuportável (ainda que
tivesse suportado, porque, tudo o que fez foi berrar como
uma porca abatida com um golpe de faca e cair novamente
na cama; de resto, continuou existindo como sempre e sentindo
a dor) que começava na parte traseira da coxa e se
estendia ainda e de maneira latejante até a polpa
da sua bunda, envolvendo todos os músculos de suas
nádegas e encontrando seu centro de maior potência
em algum ponto infinito do seu cu.
Quando desabou sobre a cama, junto com a dor, ouviu os
murmúrios de Sérgio, perturbado pelo seu chute
involuntário, mas que continuava no seu estado de
semidesmaio a babar o chão de seu quarto. A dor,
prolongando-se, através de sua espinha até
a nuca conseguiu se manifestar em toda a sua intensidade,
não dando atenção para a cabeça
já incomodada pelas fartas doses na noite anterior
de licor e cerveja e uísque. A dor foi mais do que
suficiente para atingir algum ponto do cérebro que
lhe recordou os excessos da noite passada. Das lembranças
da noite anterior que restavam à sua volta, mais
do que um cinzeiro repleto de guimbas de cigarro, as dezenas
de copos sujos, garrafas vazias e todos os cheiros que continuavam
a empestear o ar, vieram também os insistentes pedidos
de Sérgio, suas malemolentes e risonhas recusas;
os mais insistentes pedidos de Sérgio e suas esquivas
e hesitantes recusas; os ainda mais insistentes pedidos
de Sérgio e seus nãos de voz embargada, denunciando,
por insistência ou cansaço, um sim ou algo
semelhante a isto, entre dentes e álcool, de quem
se deixa levar por mãos que acariciam e abrem caminho,
vagarosa, porém decididamente. Das lembranças
da noite anterior vieram uma língua molhada que entrava
no seu ouvido, alguns murmúrios excitados e dentes
gelados que mordiam sua orelha, um corpo pesado sobre o
seu corpo estirado provavelmente na mesma cama em que acordara
e uma calcinha não bege arrancada com força
e jogada em um canto do quarto. Das lembranças da
noite anterior, algum creme ou gel que se fazia frio entre
suas nádegas, amortecendo em parte sua sensibilidade
ali e um corpo que entrava vagaroso, mas terminava rompendo
com estocadas (como que) intermináveis e em gritos
seus que não se faziam ouvidos.
Das lembranças da noite anterior, seu corpo mole
e seus sentidos alterados. Algum corpo que desabava para
o chão depois de gemer e seu seguinte estado de inconsciência.
Da sensação desta manhã, a dor, somente
a dor.
Da dor a certeza, travestida em resolução
de novo ano, de não voltar mais a tomar no cu.
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E, aproveitando, momento marketing pessoal,
tem um conto meu publicado lá na Bestiário,
bacana revista de contos que homenageia o deus Julio Cortázar.
Dá uma conferida!
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
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A Vila das Duas Cruzes *
Encerrou-se mais um dia de trabalho. Mas aquele dia era
diferente. Não via por chegar a hora de poder voltar para
casa com sua mais nova compra: uma motocicleta. Máquina
bastante simples, nada de exagero, mas sua alegria era bem
maior do que a potência do motor. Andou alguns quilômetros
com o ar batendo de frente em seu rosto. Parou no semáforo
e avistou do outro lado da rua uma blitz policial e tratou
de vestir seu casaco de couro que trazia no colo para evitar
qualquer problema. "Não tenho nada a temer", pensou
de forma fugaz. O sinal abriu e arrancou com tranqüilidade,
o que não se desfez com o aceno do policial para que encostasse
no meio fio. Aquele policial era tão simpático que nem parecia
exercer realmente essa função. Em tom extremamente amigável
e com gestos e sorrisos confortáveis, parecia querer lhe
dizer algo quando apontava pequenos detalhes nada comprometedores
em sua moto.
"Este volante - dizia ele - poderia estar
mais alto" e lhe dirigia um olhar amigo mas ao mesmo
tempo intrigante. O que estava ele querendo lhe dizer? Havia
alguma coisa no ar. O que poderia ser? Afinal, estava com
tudo em ordem ... tudo em ordem exceto ... Deus! Como não
havia se dado conta antes! Esquecera o capacete! E parece
que o policial ouvira seu pensamento ou lera nos seus olhos
de pavor, já que na mesma hora balançou satisfeito
a cabeça, como quem diz "Pois é ...". Desesperou-se,
pensou em milhões de explicações, mas só conseguia dizer
que não entendia como ele tinha esquecido tão importante
regra. "Logo eu, que há pouco escrevi a esse respeito".
Não acreditava que aquilo estava acontecendo. Seus olhos
encheram-se de lágrimas, sua voz embargou. Repetia a mesma
frase, ainda incrédulo de sua falha. O policial interveio,
mantendo sua postura impecável e sendo ainda mais paciente
e, porque não dizer, até bastante consolador: "Não se
preocupe, venha comigo que vamos providenciar um capacete".
Sentiu realmente uma boa ajuda naquelas palavras e chegou
até a imaginar que não seria multado. Era o que tudo indicava.
Deixou de lado a moto e acompanhou o policial, que pegou
com gentileza sua pasta jogando-a sobre um caminhão que
continha muitas outras tralhas e mais se assemelhava a um
carreto de frete do que qualquer outra coisa. Disse-lhe:
"Isso vai aqui, você não vai precisar carregá-la junto".
Aos dois somou-se uma pequena menina, que abraçou o policial
com ares de filha e embarcaram juntos pela porta de um ônibus
que se enfileirava logo à frente. Pai e filha foram para
o fundo do ônibus enquanto ele preferiu tomar um assento
vago sem ninguém ao lado. Talvez porque precisasse refletir
sobre tudo aquilo. O ônibus não era lá essas coisas. Lembrou-se
do tempo em que esse era seu veículo diário de locomoção.
De onde estava avistava o policial, agora já à paisana,
e sua filha no último banco do ônibus. Uma cena muito agradável.
Ele dormia suavemente e ela recostava sua cabeça no ombro
paterno.
Uma pessoa que embarcara no ônibus sentou-se ao seu lado,
tomando o assento da janela. Era um jovem rapaz que lhe
remeteu um olhar desconcertante. Observou a estrada de chão
batido e empoeirada e sentiu o jovem roçar-lhe a perna.
Afastou-se rapidamente e a investida veio então pelo roçar
do braço. Desgostoso, retirou o braço e olhou firme para
o rapaz, que voltou a se aproximar. Foi preciso falar com
alguma rispidez que não estava nem um pouco a fim daquilo,
o que provocou a ira do jovem, que levantou-se e desceu
na parada seguinte. Respirou aliviado. Observou o policial
ainda dormindo ao fundo, com sua filha aconchegada em terna
fotografia. Pensou em fugir, aproveitando-se do descuido,
mas sem muito esforço decidiu seguir ali. Observou pela
janela a estrada e os pedregulhos. O verde que se desenhava
nas montanhas era digno de uma inspiração mais profunda.
Estava chegando a sua parada. Por algum motivo sabia que
estava chegando e pôs-se em pé no corredor. Deu alguns passou
em direção à porta e segurou firme na barra metálica que
fazia o encosto do banco à sua frente. Ali estava uma menina
de cabelos escuros e uma mulher com semelhantes traços ao
seu lado. Não a achou muito bonita, mas da mesma forma não
poderia dizer o contrário. Ficaram se olhando por um longo
tempo.Vez que outra ela esboçava um sorriso e por fim falou:
"Já que você não se apresenta para nós eu vou nos apresentar".
E disse seu nome e o da mulher ao seu lado, que devia mesmo
ser a sua mãe. Fez mais algumas perguntas, ajudada pela
companheira, mas ele não conseguia responder mais do que
monossílabos. Parecia deveras envergonhado. Eis que o ônibus
parou, e desceu junto com o policial e a filha.
Seguindo por uma trilha de chão batido, contou ao policial
sobre o rapaz que lhe assediou, gerando longas gargalhadas.
Algumas casas esparsas começaram a surgir pelo caminho.
Apenas seguiu o policial até a entrada de uma delas, subindo
os degrau da varanda e entrando pela porta. Um casal que
trabalhavam num computador foi logo dando lugar ao policial,
que sentou-se e passou a editar alguns dados num programa,
o que parecia ser um procedimento de rotina. Resolveu sair
um pouco para ver melhor o lugar. Surpreso e maravilhado,
deparou-se cercado de casas feitas de biscoitos do tipo
plic-placs recheados de chocolate. Ao centro, uma
casa maior, uma espécie de torre (muito parecida com a famosa
Eifel francesa) totalmente feita daqueles canudinhos salgados
que serviam em festas infantis recheados de creme ou maionese.
Mas ali estavam vazios e unidos numa belíssima construção.
E tanto para a torre quando para as demais edificações,
não conseguia ver além de um segundo ou terceiro andar.
Uma densa névoa cobria tudo, numa paisagem sombria, mas
não desagradável.
Observou um menino de cerca de 6 anos de idade se aproximando
de mãos dadas com um moça de olhos claros cuja beleza não
havia com passar desapercebida. Querendo ser simpático,
abaixou-se e falou para a criança, apontando para uma das
casas: "Olha lá, a casa de chocolate". A lembrança
da estória infantil de João e Maria era sui generis.
Mas ao contrário do que podia imaginar, o menino pouco se
entusiasmou, e sentia que o sorriso em seu rosto fora apenas
para não chateá-lo. Era como se aquilo não lhe chamasse
atenção, como se fosse algo corriqueiro e estivesse lhe
dizendo: "Sim e daí?". Já a linda moça sorriu-lhe
dizendo com isso algo mais belo do que qualquer palavra.
"O que você está fazendo aqui?" perguntou-lhe a jovem
que agora também era sabidamente dona de uma rica voz. Virando-se
para a casa onde o policial estava, ele respondeu em tom
de brincadeira: "Seu pai vai me dar uma multa". Uma
doce risada cheia de espontaneidade surgiu na bela moça.
Era como se ela estivesse lhe dizendo algo do tipo "Meu
pai? Imagina, ele não é capaz de fazer mal algum".
Dirigiram-se para a casa e os primeiros degraus lhe trouxeram
uma lembrança que o deixou muito angustiado. Adentrou pela
varanda e correu assustado na direção do policial: "A
minha carteira ... ficou na bolsa ... no caminhão ...como
vou comprar um capacete?". Mas nada parecia abalar a
paciência e ternura do guarda: "Não se preocupe meu filho,
aqui você não vai precisar disso." "Mas que lugar
é esse? Em que cidade estamos?" "Não numa cidade
meu jovem, numa vila: esta é a Vila das Duas Cruzes". Sua
curiosidade foi longe. Saiu rápido para ver se avistava
as cruzes, imaginando-as ao morro, uma na entrada e outra
na saída da vila. Mas a névoa era implacável ao seus olhos.
Nada muito além para ser visto. Entrou novamente e decidiu
ficar por ali junto com outras pessoas espalhadas pela sala.
Ao chegar no centro, olhou para cima. Não havia teto e a
visão panorâmica revelava as casas de biscoitos encobertas
pela neblina. Pode ouvir uma música tocando ao fundo. Era
Breathe, do Pink Floyd. Seu coração
se encheu de paz e alegria. Que cenário fascinante aquele.
Olhou para os demais presentes. Não acreditava na forma
como agiam, como se aquilo tudo fosse tão natural quanto
a vida. Uma felicidade sem igual tomara conta de todo seu
ser. Foi quando lembrou de um antigo desejo seu manifesto:
Pink Floyd era o que desejaria que estivesse tocando no
seu enterro ...
* Fragmentos de "O Grande Sonho"
Breathe
Breathe, breathe in the air
Don't be afraid to care
Leave but don't leave me
Look around and choose your own ground
For long you live and high you'll fly
And smiles you'll give and tears you'll cry
And all you touch and all you see
Is all your life will ever be
Run, run rabbit run
Dig that hole, forget the sun,
And when at last the work is done
Don't sit down it's time to dig another one
For long you live and high you'll fly
But only if you ride the tide
Balanced on the biggest wave
You race towards an early grave.
Breathe (Reprise)
Home, home again
I like to be here when I can
When I come in cold and tired
It's good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spell
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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 13/X
Dia 13, que azar
furou a camisinha
E ela, não conseguiu gozar
Setembrinas
Este é o Brasil que nós fazemos
Primeira parte
Um amigo meu, é todo certinho,
Fez direito
Está no bom caminho.
É forte e franco,
Não gosta de brigar
Vai conquistar seu lugar
Meu colega de classe
Bom no futebol
Não tinha quem o marcasse.
Notícias não manda,
Não sei por onde anda
Nasceu em 7 de setembro
Segunda parte
Um amigo meu, já nasceu torto
Filho de astrólogo
Super absorto
Trabalha na Universidade
Com dedicação exclusiva
Para ele, mocidade
Muito Criativo, pensante,
Para vôos profundos
Não é vagabundo
Super brasileiro, um cara de tino
Tanto que nasceu dia 7 de setembro
Só que é argentino.
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Dentro de nós
"O medo nos faz ver os obstáculos.
A fé nos faz enxergar as oportunidades."
Dia desses vi uma senhora a se lamentar.
Dizia nunca ter experimentado a paz e a alegria
em sua vida.
Há que se considerar a sua dor, no entanto gostaria
de dizer uma coisinha a você agora.
A paz, a luz, a alegria não podem ser concedidas
pelos outros.
O poço está em nós mesmos.
Se cavarmos o suficiente, no momento presente, a água
jorrará.
Muita gente vive a buscar Deus nos locais errados.
Uns buscam nos templos, outros nos palácios, outros
na ajuda que vem do próprio homem,
e assim todos seguem frustrados por nunca encontrá-lo.
Essa analogia serve-nos a todos de exemplo.
Da mesma forma como aquela senhora nunca encontrou a paz
nem a felicidade para si,
única e exclusivamente por não olhar para
dentro de
si mesma,
muitos não perceberam que Deus vive em cada um de
nós!
A paz, a alegria, a felicidade, o nosso bom Deus,
todas essas coisas maravilhosas estão bem seguras
dentro de nós mesmos.
A sugestão é para que se permita ser amada,
alegre e feliz!
Sempre com Deus no coração.
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Jornada
Num oceano vasto de riquezas,
Ondas vão cheias de amor, plenas.
Suave brisa cobre teu corpo e derrama teu brilho sobre a
água.
Tua aura parece a Lua.
Tua voz acalma o vento.
Então cantas e o controlas...
Sabes o caminho certo.
Onde está a tua barca?
Ela vem ao meu encontro...
Vês o redemoínho?
Nele poderás abrir teu coração e jorrar
teu espectro de emoções...
O centro do universo balança...
Depois se acalma.
Durma e não penses em nada...
Falta pouco para o fim da jornada.
No final do oceano está a minha casa...
As portas estão abertas...
A barca flutua lentamente...
Abra os olhos...
Meu fênix te guiará pelo espaço...
No topo do monte soltar-te-á.
Enquanto desceres... olhes para mim...
Meus braços estarão embaixo de ti.
Colocar-te-ei em berço de rubis...
Para renascermos em um só corpo
Feito todo de amor.
Nosso fruto será soberano e os planetas serão
seu reino.
A jornada estará completa e poderemos navegar tranqüilamente.
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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Curtas e Loucas
Verão escaldante. Ano de 2345. 38 graus de temperatura,
é que veio uma frente fria, sabe? Pois é,
o sujeito caminha pelas ruas, olhos atentos, preocupado,
pois o volume que trás debaixo da camisa é
de extrema importância. Na esquina, dois moleques
percebem que ali vai um cara com algo valioso. Abordam o
sujeito, pegam o recipiente e dão o fora. Na delegacia,
o sujeito, desconsolado, dá queixa do roubo de seus
200 ml de água potável, economizado durante
anos, que seria presente para a noiva desidratada, igual
a quase todos os habitantes...
---------------------------------------------
A puta pede passagem. Caminha orgulhosa, em
meio aos lixos na calçada, gente e lixo, tudo igual.
Mas ela não. O último cliente prometeu casa,
comida, salário bom, e conforto. Também, com
o trabalho que ela teve, com tanto prazer proporcionado,
sua hora teria mesmo que chegar... Passa-se o tempo, e o
prometido realmente aconteceu. A ex-puta aprecia da janela
as raparigas novas, correndo e brigando pelos melhores lugares
da esquina, com seus peitos e bundas bem à mostra.
"Vacas", pensa ela, enquanto corre para tirar
o assado do forno... Tem que se apressar, pois hoje é
o dia do patrão vir, jantar na mesa e na cama...
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O cão era apaixonado pela gata da vizinha.
Esta, por sua vez, sirigaita que era, andava de piscadelas
com o rato, que morava no porão. Mas este, só
de birra, fazia ciúmes pra gata, paquerando a cachorra
da rua de trás... A passarinha jogou seu charme pra
cima do coelho, e este não resistiu. Comeu-a literalmente,
não deixou nem as penas, pois ele não era
muito chegado nessa onda de misturas. Preconceito sim, ao
menos mata a fome...
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Ombudsman
Alessandro Sachetti |
|
Crítica também é
arte
Edição de número 92 do
nosso sítio literário, sempre um prazer maior
poder participar e aprender mais a cada nova edição.
Rafael, sonhar nunca é demais. Idéias não
faltam, quem sabe consigamos passar do virtual para o palpável,
seria gratificante com certeza. Vamos juntos começar
a transformar esse sonho em realidade.
Às vezes me parece que os textos que são enviados
e publicados são propositalmente feitos acerca de
um mesmo tema, não é a primeira vez que tenho
essa sensação. Tive a mesma sensação
na edição passada; claro que não são
todos, mas poderíamos dividir os textos por assuntos
ou até mesmo traçar uma linha de evolução
(?) entre eles, como complementos interligados.
Na edição passada, Hugo Oliveira, em seu texto
de estréia, nos fez uma boa explanação
sobre rotulagem, que me faz repensar o assunto. Sempre levei
em consideração que rótulos não
são nada, eu ainda tenho opinião própria,
mas é claro que existe uma predisposição
a aceitar ou não algo a partir do que rotulam. Um
rótulo nem sempre diz tudo, mas é certo que
para muita gente nomes fazem muita diferença. Afinal
as pessoas temem o que não conhecem e preferem ter
“certeza” de algo antes mesmo de formar opinião,
preferem tudo mastigado, mesmo que esteja tudo errado.
Mas rotular algo é muito pessoal, afinal de contas,
quem é que dita o bom gosto? E o que é, exatamente,
esse tal bom gosto? O que é bom para mim não
é necessariamente bom para você. Existe alguém
que seja o “dono” da conduta moral e saiba dizer
o que todos devem ou não fazer? Isso é preconceito
bobo. Ignorância, sempre vizinha da maldade.
Muito interessante o texto de Adriano Oliveira que, se não
rotula, nos traz classificações humanas, segundo
Jung. O que dizer? Não muito, apenas leio e aprendo
mais. Mas também é impossível não
ligar seu texto ao anterior. Há algum tempo li o
livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman,
que trata deste assunto, inteligência racional e emocional.
Imagino que já conheça, mas fica a dica para
quem quiser saber um pouco mais.
Camila, foi realmente um prazer ler seu poema, Becos,
na minha modesta opinião um dos melhores poemas que
li por aqui. Gostei da força das imagens que você
criou, da entrega. Parabéns.
Alessandro, muito me encantou sua resenha sobre o livro
de Paul Aster. Noite do Oráculo realmente
deve ser um livro maravilhoso, ainda não o li, mas
com certeza depois do seu texto ele já é um
dos próximos em minha grande lista de leituras pendentes.
Obrigado pela indicação, pois não há
dinheiro que pague uma boa leitura.
Caro Eduardo Sabbi, você tem a mania de nos jogar
questões inquietantes, de não deixar as coisas
escondidas; muito pelo contrário, quer que elas atravessem
nosso caminho e que não se tenha como desviar. Sinceramente
eu não sei o que teria feito, pensei muito sobre
e não cheguei a conclusão alguma. Não
vou cair em lugar-comum dizendo que o problema é
o país, a falta de estrutura, educação,
saúde, oportunidade, salário decente, cultura,
acesso à informação e outras tantas
coisas que nos faltam. A pergunta agora talvez seja: “O
que você faz para mudar?”. Sempre soube que
não adianta querer mudar o mundo, é melhor
começar por nós mesmos.
Grande Pedro, eu não sei o que tinha na cabeça
quem inventou esses obstáculos, mas besteira pouca
é bobagem. Em um trânsito louco, um país
maluco, você esperava o quê?
Como o Diego mesmo disse, qualquer outra consideração
é uma afronta. E como afrontar essa cruel realidade?
Luiz Maia, com o tempo começo a compreender melhor
a sua maneira de escrever; confesso que ainda não
entendo muito o porquê da forma, mas o conteúdo
já fica mais fácil. Talvez não devesse
usar os textos centralizados, daria mais sentido na estética
que também é importante para entender melhor
seu texto.
Gosto dos seus poemas, Sara, ainda que me pareçam
sempre uma busca. Voltar à fonte é sempre
bom, recarregar as energias para um novo caminhar. Mas lembre-se
de, vez por outra, mudar de caminho.
Claudino, a propaganda pode não ser mais a alma do
negócio, mas alguém tem que contratar Duda
Mendonça para algo, não é? Quanto à
eleição, voto etc. concordo contigo, não
deveríamos ter isso como obrigação,
mas poderia ser pior, você poderia ter que trabalhar
gratuitamente nas eleições sem direito a recusa,
salvo problemas sérios. Pois é, tudo pode
ser pior e como desgraça pouca não tem graça,
eu vou trabalhar nas eleições do dia 3 de
outubro.
Ótimo texto, Maurício, fica a dúvida,
Charles Fourier seria o predecessor ou o inspirador dos
Tribalistas?
Há tempo. Sobre os comentários na e sobre
a minha coluna na edição passada.
Estou aqui para fazer crítica do bem. Para, ainda
que em meus modestos conhecimentos, contribuir e trocar
idéias sobre o que por aqui se publica. Sou responsável
e assumo o que escrevo, é o que penso ou que sei,
o que pode não ser muito, mas que desenvolvi ao longo
dos meus 26 anos de leituras e aprendizados. Sou apaixonado
por literatura moderna, o que se encaixa bem com o estilo
Simplicíssimo. Não
falo por falar, peso muito bem minhas críticas. E
as faço sem pudor, não vou engrandecer alguém
por pura rasgação de seda. Sempre achei que
comentários vagos não engrandecem em nada,
comentários como “lindo”, “adorei”,
“ficou muito bom” acrescentam em quê?
Também não sigo fórmula para fazer
minhas críticas, são sempre espontâneas
e nada recheadas de jargões vazios e sem sentido,
nem tanto palavras ou frases bonitas e lugar-comum. Também
não sei tanto de gramática, vez por outra
erro em minhas concordâncias, por isso este meu texto
é sempre revisado por quem entende do assunto antes
de chegar ao e-mail do nosso tenente Rafael.
Só para constar, crítica também é
arte, sabiam? Não vou citar exemplo ou fonte de difícil
acesso, basta ter em mãos ou acesso ao livro O
que é arte de Jorge Coli, da coleção
Primeiros Passos (editora Brasiliense). E vai confirmar
o que eu digo, é leitura simples – como o próprio
nome da coleção já diz, é para
quem quer aprender, já aprendeu e quer saber mais,
enfim.
Vou continuar a criticar sim! Nunca para o mal, mesmo quando
alguém pense que estou sendo leviano. Na verdade
leviano seria se achasse o texto muito fraco e dissesse
“Que bonito, parabéns”.
Agora, se não aceita críticas feche os olhos
para a minha coluna ou faça terapia. Desista de escrever
ou escreva para si, compre um caderno e guarde embaixo do
seu travesseiro. Se quer jogar seus escritos ao mundo é
para que seus leitores pensem, apreciem ou não o
seu trabalho. Quando receber críticas, boas ou ruins,
entenda e principalmente cresça, melhore, viva –
e por favor não chore.
Até a semana que vem e bom feriado a todos!
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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