Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade frugal, lenta e sem caudalosidades


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Editorial

Pedras, sapatos, tangerinas e ombuses

Percebem que as pessoas não sentem mais o gosto da comida?

Que quero dizer com isso? Que está todo mundo tomado por uma epidemia de glossite leprosa e perdeu a sensibilidade do paladar? Ou que, por causas desconhecidas como em "Ensaio Sobre a Cegueira" do Saramago exista uma espécie de "falta de percepção" do mundo em que vivemos?

Fico com a segunda opção.

Ultimamente ando escrevendo muito sobre esta "falta de percepção" que aflige a contemporaneidade.

Estamos todos em um "mar de fúria", insanas fogueiras, chuvas ácidas e tiros metralhantes sem que possamos realmente reagir ou, pior, fingimos que não é conosco.

Falo mesmo das coisas mais simples, como uma janta em família. Enquanto um filho está comendo rápido para poder ir jogar videogame, outro já sai dizendo que vai comer na rua com os amigos, enquanto o pai dos guris está a assistir o Jornal Nacional (quando está em casa) e a mãe como pensando na merda de vida que tem e como deixou ficar assim...

Claro que as generalizações são sempre perigosas e sei que não é assim em todo canto.

Mas o que há de se concordar é que o mundo está andando MUITO RÁPIDO ultimamente.

Não conseguimos aproveitá-lo. Não conseguimos sentí-lo. Ele passa como um vendedor de algodões-doces surdo do outro lado da rua congestionada no centro de uma cidade grande.

É por isso que cada um de nós que, ao se aperceber disso, não pode ficar parado. temos que fazer alguma coisa para mostrar, iniciando por aqueles que estão do nosso lado, nossos familiares, amigos, colegas de trabalho e depois para todos aqueles a quem nossa voz puder chegar que existe saída para este mundo louco e ela começa buscando um retorno à Simplicidade.

Ferramentas como a Internet são fantásticas mas ao mesmo tempo alienantes.

Como escreveu minha amiga Evelise na edição de número 2 deste mesmo Simplicíssimo:

"O que me aborrece profundamente são assuntos como globalização, "chats", namoro virtual, superespecialização, individualização. Socorro! Ora... foda-se tudo isso! Será que alguém consegue enxergar??? Todos nós estamos vivendo uma crise de carência afetiva crônica!"

E continua:

"Pessoas cada vez menos se vêem, e quando eu falo ver, estou falando a respeito de encontros mesmo; se abraçam menos, sorriem menos, se beijam menos. Por mais que isto lhe pareça piegas, me entristecem estes fatos. Que fim levaram os encontros diários de amigos com todos aqueles abraços? Onde estão aquelas discussões fervorosas, com direito a tapas na mesa? Até mesmo os trabalhos acadêmicos em grupo... antes animados com lanches e fofocas? Todos estão mais entocados dentro de casa, mais egoístas, mais EU e menos NÓS, trocando mensagens quando estritamente necessário, vivendo nas células vitais de seus aptos."

Leiam o texto completo que vale a pena.

Quero fazer coro ao apeloda Evelise e de tantas pessoas que pensam e que ando lendo nestes últimos tempos. Poderia citar Fritjof Capra, Edgar Morin, Hazel Henderson, Jeremy Rifkin, o próprio José Saramago e a lista se estende por linhas a fio.

Assim, quero e preciso de ajuda: começemos a incitar esta visão, a da necessidade da "Redução de Velocidade do Mundo".

Para tanto, lá vou eu com mais uma Campanha do Simplicíssimo:

"Viva uma Vida frugal, retorne à Simplicidade e aumente o Alto-astral!"

Isso mesmo! Agora só falta criar um banner para a Campanha! Se você tem criatividade e afinidade com mídia de criação digital, ponha as mãos à obra e encaminhe uma sugestão de logomarca/banner para a Campanha. Se não, desenha em papel, escaneia e manda assim mesmo!

E, mais importante que isso, que essa busca antroposófica para uma nova realidade aqui neste meio virtual é a propagação boca-a-boca em nossa casa, escola, trabalho...

Agora, se você quer aprofundar esta e outras discussões que surgem aqui no Simplicíssimo, entre em nossa Confraria de Idéias, um grupo sempre disposto a discutir temas relevantes para melhorar a qualidade de vida da humanidade sobre a Terra ou, como escrevi na descrição de um instigante grupo de discussão alcoólico-filosófica do qual participei outrora - o Pigmeu Moral - "discutir as efervescências da humanidade, em busca incessante de respostas que inquietam nossa existência e também de mais questões para confundir nossa evolvente cuca".

Para participar, é só mandar uma mensagem para o Simplicíssimo-Grupo.

Seja por que motivo for, alguma coisa de bom temos que fazer nesta Terra que nos acolhe.

Vamos juntos?

Rafael Luiz Reinehr

PS: boas vindas ao Paulo Monti que estréia na seção Poesia e ao retorno de Gabriel Mingo Silveira, com seu texto mais do que intimista e ao também retorno de Luiz Antonio Ribeiro, lindamente pensando a beleza e a arte. Seja também especialmente bem-vindo nosso mais novo colunista: Roberto Yukio Iwai, que vai (desculpem a cacofonia!) estrelar uma coluna sobre Música (!) no Simplicíssimo. Estávamos sentindo falta de alguém que abordasse o assunto com regularidade. Sucesso a todos e até breve!

"Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho "
Clarice Lispector

"Ninguém aqui morre só a sua morte; / é um pouco de nós todos que se vai / e naquele que nasce há um pouco de todos nós / que se torna outro "
Gaston Miron

"Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros "
Antônio Vieira

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Carta a ti
Gabriel Mingo Silveira

Que ironia há no conteúdo desta carta. Depois de tantas poesias, tantos agrados, tantas palavras bonitas, venho escrever-te, agora, com um único objetivo: vingar-me. Vingar-me pois nada mais é declarar o meu amor do que massacrar a tua piedade inerente que dentro de ti carregas. Sei que a cada elogio a ti que despejo, arranco tuas escamas de compaixão, sangro-te a alma, expurgo-te o orgulho. Sei, que a cada beijo que te peço desfaço tua máscara, ausento tua lábia, corrompo tua volúpia. Sei e por isso o faço, agora: para vingar-me. Mas não sou, e nunca o fui, um homem vingativo. Sou, sobretudo, um romântico antiquado e, tendo minha nobre honra arranhada por tua inóspita forma de encarar o amor, os ventos lúdicos, as harmonias de Vênus, resguardo-me ao direito púdico de sacrificar-te, ao menos por alguns instantes, para que tu possas ir ao céu com o frescor da beatificação martirizada, e eu possa despir-me à escuridão pútrida do barco de Caronte no Inferno corrompido pelo orgulho.

Pois bem, saiba que não menos do que a palavra amor poderia ser-me grifada no peito, tatuada na alma, quando me refiro a tua bela e inconstante pessoa. Saiba que não menos que a vida eterna é o meu desejo mais profundo quando estou ao teu lado e não mais do que a morte seca e dura quando estou de ti distante. Portanto, senhora dos abismos incontroláveis do amor; majestade onipotente das belezas do universo; imperatriz soberana dos ventos do infinito, não tivesse minha vida um pingo de virtude e sabedoria, agora desfacelaria-me em nada, abdicaria do respirar para adentrar o corrupto livro dos jovens mortos e penetrar nos inconscientes estúpidos da morbidez institucionalizada de nossa sociedade. Não fosse eu egoísta o bastante para ainda desejar ver-te ao léu, mesmo que a maior e mais doídas das dores me corrompa nestes momentos, me deixaria levar pelo silêncio estanque, pelo sono disforme das manhãs e das tardes, pela covardia da impunidade material, pela irracionalidade de deixar de ser quando já não se é. E não menos do que O Romântico Eterno deveria estar grifado em meu túmulo vesgo de irreconciliação. Seria só eu, como sou agora, como hei de sempre ser.

Se nos braços da virtude vier a observar-me, dá de ombros, corrompe teu sorriso e chora quieta. Não mais humilhações para mim. O mundo já se foi junto com teu sorriso e não há mais esperança para os que choram durante o dia. Não mais humilhações para mim. O último sol pôs-se ontem e o amanhã será escuro como já se mostra o dia de hoje.

És ainda a mais linda e não menos brilhante do que a mais brilhante das estrelas do firmamento.

Lembranças do teu eterno Dom Quixote, apaixonado irreconciliavel pela sobrevivência da esperança que faleceu junto a mim.

Eu.

Ps.: Não observas o pôr do sol no crepúsculo que hoje prostrar-se-á. Deixa-o só para mim, com minhas mágoas, já lhe será o bastante. Conforma-te com a eternidade do sobrepujo e deixa-me enaltecer o despir-se do último dos sóis dourados.

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Eternizando a Beleza
Luiz Antônio Ribeiro

Eternizando a Beleza

De que vale a beleza, se dela não podemos usufruir? De que vale o mais belo objeto de arte, se não podemos tocá-lo? De que vale o ser mais lindo do mundo, se não podemos tê-lo? De que vale um dia lindo, se estamos trancados? Fiquei pensando isso hoje durante quase todo o dia. Isso porque ao pisar na grama de um jardim, fui advertido. “Não ta vendo a placa, não é pra pisar!” “Vi, é que eu ia almoçar, mas fui pego no flagrante.”, respondi eu.

Na verdade, de que adianta aquele lindo jardim, rodeando uma linda fonte, se não posso me aproximar dela? Ou eu tendo aquela bela visão, deveria pisar no asfalto duro e sujo? Sinceramente, não posso entender a mesquinhez e a mente pequena das pessoas. Eu não ia rolar na grama, sem chutá-la, nem estragá-la, mas somente andar por ela, senti-la com meu All Star, dá-la um pouco de prazer.

Fiquei pensando mais um pouco e estiquei esse pensamento para o amor. Ele nada mais é que ver na pessoa mais do que ela realmente é. Assim, eu posso me apaixonar todo dia por uma pessoa diferente. Porém, sabendo que nunca terei todas as mulheres que desejo, passo a olhar poucas. Subverter um sentimento em razão. Muitas vezes encontro uma linda, bela, tenra mulher, doce como a bruma, quente como o sol. E ao vê-la baixo os olhos como um religioso. Não posso encara-la, seria duro demais saber que nunca a possuiria. É velha história do “se não posso te tocar, melhor nem vê-la.” Essa uma verdade.

Para tudo isso temos a arte. O artista que para o belo e o traz para junto de nós, seja na tela, nas palavras, nos sons, no movimento, etc. Eu que essa parece uma visão meio Platônica, e até de Hitler, de que o belo deve se perpetuar, porém é verdade. O belo é mágico, ele transpassa o limite de prazer, ele exterioriza o mundo. É a parte mais bonita de nós.

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Repente
Paulo Monti

Num repente
A amplidão.
O céu invade
A sala
E os objetos
Flutuam
Num raio de sol.
Onde anda a visâo?
(O céu não invade mais as salas)
Digam-me, por favor.
Quero a lua perdida de um Planalto distante
E cheiro de relva fresca na madrugada.
Quero o coração deixado no mar.
Quero regar o cérebro embotado
E libertar os primeiros relâmpagos noturnos.

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Paulo Monti
 
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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Luiza (ou anotações para um mediano roteiro teatral)

“ (...) e ele achava que eram todos uns homossexuais estes diretores teatrais. Um homofóbico era o que ele era, para dizer bem a verdade. Mas nunca disse para ele porque poderia se zangar.”

Rubem Bonas, “Quebrar a perna”.

(É bom que as cortinas se abram neste exato momento, sem músicas e com o ator já em cena:)

O homem está em sua sala de estar, sentado em uma poltrona, fumando nervosamente. Sua aparência é desleixada. Barba por fazer, metido num velho pijama, chinelos nos pés. Ao lado da poltrona, há uma pequena mesa com um gravador antigo, à fita. Ao lado do gravador, um revólver e um aparelho de telefone. Termina de fumar, apaga o cigarro no cinzeiro e dá uma volta em torno da poltrona. Aperta play e rec no gravador e fala, bem próximo ao microfone, fazendo um teste. Em seguida, se fixa na ponta oposta, do outro lado da poltrona, testando: “'Tá gravando...?”, pergunta ele, rindo nervosamente e coçando o queixo de maneira frenética. “Porra, se não tiver também, azar... Nem sei porque dessa frescura, mesmo... Idéia mais sem originalidade... Quem será que foi o idiota que inventou que todo suicida tem que deixar um testamento...? Mas que merda, que se foda tudo e todos, também. Querer primar pela originalidade nos últimos instantes de vida, quando eu sei que tudo o que eu quero é emocionar os que possivelmente vão ouvir essa fita... Originalidade seria morrer em silêncio... Cidadão normal, vida normal, aparentemente feliz, típico acomodado, acima de qualquer suspeita... Um belo dia me dispo, como pra mais um costumeiro banho, e me deixo afundar, si-len-cio-sa-mente, na minha banheira: nenhum estampido, nenhum grito, nenhum sangue para ser limpo por nenhum faxineiro infeliz, depois de cumpridas as formalidades policiais...”.

O homem se distrai por um momento, se dá conta de estar devaneando e volta a si, tornando a falar para o gravador: “Isso não interessa, também... Droga, isto não tem nada a ver... Perda de tempo, mesmo, ficar gravando essa bosta... Pra quem vai interessar isto? Mais material pro noticiário da tevê: ‘homem se suicida e deixa fita-testamento. Ouça um trecho...’ Ah, não! Esqueci do acordo da imprensa em não veicular notícias de suicídio... é incentivador, segundo estudos... Ah, ah, nem para isto esta merda serve! Idiota, idiota, mesmo! Que se dane essa baboseira”, diz o homem, levantando a voz. “Vou acabar que nem homem com esta bosta! O homem aperta a tecla stop do gravador e, nervosamente, pega a arma de cima da mesa ao lado. Leva-a a até a boca e pressiona os olhos, fortemente, dedo no gatilho. Suas mãos que agarram com força o revólver tremem e ele fica naquela posição hesitante, durante muito tempo. Por fim, vai serenizando a face e baixando vagarosamente o revólver e termina por colocá-lo em cima da mesa ao lado, novamente.

O homem fica um instante em silêncio, mirando um ponto imaginário do espaço e volta a falar, olhar perdido: “Não... morrer quieto é coisa de leão-marinho velho, não vou te dar este gostinho, não... Não vou morrer sem fazer esparro, coisa que eu sempre fiz, não vai ser agora que eu vou deixar de fazer, não! Morte com todo estardalhaço possível: fita-testamento, e pedaços de miolos e sangue espalhados por todas as paredes!”, o homem ri de maneira doentia. “Será que você vai sentir pena? Vai chorar desesperada quando me vir - vir os meus pedaços - e esconder o rosto no peito do policial fardado?”, pergunta o homem, gritando. “Vai chorar, sua vagabunda, hein, você vai chorar?!”, o homem torna a baixar a voz e continua. “É bom que chore, porque se você não chorar, não vai haver ninguém mais para chorar por mim... Os policiais, profissionais, e a equipe do Instituto Médico, conseguirão no máximo comentar, compadecidos: ‘Mais um infeliz...’, enquanto tapam o nariz com seus lenços a fim de não inalarem o cheiro de sangue fresco e miolos que vai estar impregnando a casa inteira... Mas e se houver algum mais sensível entre eles? Não importa: é você que eu quero que chore por mim”.

O homem mira o nada. Aperta play e rec no gravador, e recomeça a ladainha: “Pergunta número um: você vai chorar por mim, Luiza? Pergunta número dois: vai chorar desesperadamente ou vão ser aquelas fungadinhas de putinha fingida? Pergunta número três: você já está chorando? Pergunta número quatro: porque você é uma puta?! Maldita vagabunda! Onde tu andou esfregando esse rabo sujo, hein? Te esfregou onde, antes de se esfregar em mim? Continua com o corpinho malhado de sempre ou esse vírus fodido já tá tomando conta do teu corpo, também? Se alastrando por toda a tua pele e deixando bem à vista as feridas que nunca cicatrizam, as nódoas e inflamações sem fim? Tá cumprindo tua meta de espalhar essa porra pra todo o mundo com quem tu conseguiste cruzar? São quantos outros otários, além de mim, sua desgraçada?!”

O homem grita e leva as mãos ao rosto, chorando compulsivamente. Funga e limpa o nariz com as costas da mão. Quando retorna a falar, é em um volume mais baixo. “Não importa... O meu destino tá traçado... Assim como o teu... Tu escolheste a tua sina, eu, a minha. Nada adianta pra nada, mesmo... Pra falar a verdade, acho até que tu me prestaste um favor... Encurtando minha já triste existência nesse mundo... Triste e inútil: um poeta medíocre, recusado por todas as editoras possíveis, biscateiro de tudo e de todos, não podia ter bom fim, não. Mas me bastava morrer em paz. Não, tinha que ser esse troço dolorido, humilhante, desmoralizante, nojento... E eu não vou esperar por isso, não! Eu prefiro as coisas da minha maneira... Luiza: tá fazendo o que, hein? Tá viva ainda? Policial, se você tá ouvindo esta fita: deixa essa infeliz em paz que ela vai ter sua própria condenação, já está tendo... assim como eu...”

O homem vai baixando mais a voz, à medida que vai afundando na poltrona, olhando para o parede branca à sua frente. Dá-se conta de que a fita está rodando, olha para o lado e recomeça a falar. “Ah, claro, antes que eu me esqueça, eu ainda estou aqui, Luiza. Enquanto você não tiver ouvido o estampido e o som gosmento de miolos sendo arremessados contra a parede, é por que eu continuo vivo: eu e minha voz, que, se se confirmarem os meus desejos, ficará pra sempre a ecoar na sua cabeça... se eu conseguir tanto. Não sei se minha pretensão é tamanha, também. O que eu conseguir de reação de você, já está de bom tamanho, uma vez que reação parece ser sinal de consideração... Coisa que tu não tiveste quando... quando... você sabe. E eu me pergunto que força doentia pode vir a mover uma pessoa como você... Doentio, sinistro... Eu, que nunca acreditei muito em Deus, começo a me perguntar se esse tal diabo não existe não, pra influenciar essa sua cabeça a mover tão sinistra ação... E, falando nisso, mais um ponto ganho com minha decisão: vou poder saber, finalmente, se Deus existe, ou não. Se eu for pro inferno, é por que realmente Ele existe e me mandou pro lugar que dizem que é para onde vão os suicidas. Se eu for pro céu, outra prova de que Ele existe e é bom... Não poderia imaginar que meus devaneios chegassem a tanto... Poeta medíocre concretista, me embasando na teologia vazia dos penitentes com sua fé irracional... É risível, irônico como quase tudo o que tem me rodeado ultimamente... Sozinho, amargurado, suicida, sem pai nem mãe... Um contaminado prestes a dar um tiro na cabeça... Sem nem bem saber o porque. Por ser um contaminado? Por ser um bosta total? Um cara que não consegue ganhar a vida com seus poemas medíocres, rejeitado por todos? Porque eu não posso me resignar a ser mais um ‘vencedor’, um lutador contra a doença, um pobre-diabo, apenas, a esperar o inevitável, como todo qualquer cidadão mediano de razoável bom nível educacional e situação financeira igualmente mediana? Enfim, um medíocre! As pessoas desconsideram a palavra medíocre, a subestimam... Ninguém quer estar no meio, indefinido, andrógino... Mas também, que motivo eu teria para não enfiar essa azeitona na cabeça? Ninguém bate nesta porta a... Nem sei quanto tempo... Viver pra que? Pra quem?”

O homem grita em direção à porta do seu apartamento: “Algum entregar de pizza por aí? Jornaleiro? Alguma carta para mim? Alguém quer saber se eu tenho gás? Alguma puta se oferecendo, de porta em porta? Alguém, alguém...?”

O homem silencia, depois ri, nervosamente. “Não, não posso perder a minha chance de aparecer no jornal, nem que seja nas páginas policiais, pequeno retângulo noticiando apenas como citação. Não vale a pena gastar espaço no jornal com alguém que não tem nem quem reclame o corpo... Nem pai, nem mãe, nem irmãos, nem amigos, nem companheiros de cachaça, nem poetas loucos de praça, nem mendigos, nem cachorros carniceiros, nem..., nem..., nem você, Luiza. Luiza, você vai reclamar meu corpo?” O homem se inclina para o gravador, como quem pergunta a uma criança. “Vai, Luiza, você vai reclamar meu corpo? Se não for você, quem vai, Luiza? Você vai reclamar meu corpo, Luiza? Vai? Diz que vai, Luiza, diz que vai, diz que vai...”.

O homem continua repetindo, ininterruptamente, e vai direcionando a mão para onde está o revólver. Com os olhos fechados, pega-o com as duas mãos e, volta-o para dentro de sua boca, apertando muito fortemente os olhos. Os dedos, tremendo, começam a engatilhar o revólver, vagarosamente - quando se ouve batidas na porta. A princípio, o homem não dá importância, depois se dá conta e abre os olhos, com as batidas repetidas, interrompendo a ação e aguardando, enquanto as batidas se repetem, e, finalmente, alguém fala: “Seu Antônio, seu Antônio? É a Rozela, seu Antônio... Vim pra limpar..., o senhor ta aí, seu Ant..”.

O homem larga o revólver apressadamente em cima da mesa, passa a mão no rosto e sorri. Abotoa os botões do pijama e, dirigindo-se à porta, fala: “Já vou. Só um instante, que eu já vou abrir... Rozela!” (E neste momento, as cortinas podem se fechar e é bom que venham os aplausos.)

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Ainda

Ainda sofro suspiros
Quando recebo teus versos
Mesmo que ao chão dispersos
Em meio a tantos papiros

Ainda sofro engasgos
Quando leio teu nome
Lembro nossa imensa fome
De doces beijos sem rasgos

Ainda sofro no peito
Já que por outro ousas
E nalgum lugar repousas
Distante do meu leito

Ainda sofro tanto e só agora sei que é dor
Sem ar, sem voz, sem ao menos o teu amor

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 14/X

Para teu governo
sou anarquista
pessimista.

Faroeste 1/X

Impacientemente
te amo
realmente

Gritos

Vivo circunsgrito em um universo do silêncio. Neste mundo de eu um só, minha voz ecoa como um sussurro nesta lama de lamentações. Não tenho vez, não tenho voz, tento fazer com que meus anseios por um mundo melhor sejam atendidos. Pelo menos para mim. Tudo bem, aceito compartilhar este mundo melhor com você, desde que você me empreste sua voz e grite ao meu lado. Quero um lugar ao sol. Estou impaciente para isto.

O que fazer? Alguém tem alguma sugestão de como posso berrar? Como se faz para ser alguém? Vou ser pagodeiro ou dançarino. Eles brilham na tv e as pessoas atendem seus desejos. Nem precisam de gênios ou mágicas.

Sigo urrando de dor, uma dor interna que impede minhas pregas vocais de pronunciarem um único fonema, um gemido, algo que possa ser discernido como uma tentativa qualquer de articulação verbal.

Quem sabe posso tentar esganiçado, um bramido qualquer ou um rugido, pois minha raiva é tamanha, que os sons ficam trancados na minha garganta e por mais que eu tente, não sai nada, nem colocando os dedos daquela tradicional forma de quem tem alguma coisa para botar para fora.

Sigo aqui, calado, tentando provar que não sou mudo, que tenho algo a dizer, que a minha vida tem valor e que os poderosos devem prestar atenção aos meus clamores.

Passei anos e anos da minha vida tentando ser diferente, porém ninguém falava minha língua. Chegavam perto de mim e perguntavam: “O que você está pretendendo dizer com seus grunhidos?”

Será que tenho cura? Consultei especialistas diversos, de aulas de dicção e cantores, fono-audiólogos, professores de linguagem de sinais, psicólogos e médicos. Todos eles, sem dúvida me dissseram que meu problema não era de saúde ou de articulação, simplesmente eu não sabia o que falar. Nunca iria ser ouvido. Tentei me escutar, o pouco que conseguia perceber que era a mesma língua que os outros na minha volta. O que estaria faltando? O que fazer para ser ouvido? Será que neste lugar ninguém se importa com o futuro dos seres humanos?

Sei lá, vou tentar de novo, quem sabe desde jeito me escutam e aplacam meus desejos (mas vou continuar gritando, esta barulheira de volta me revolta...).

Ei, garçom, você pode me trazer uma cerveja?

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Utopias
Luiz Maia

Benditas são as lágrimas

Estudos científicos indicam quão saudável é o choro àqueles que não o reprimem.

Está mais que provado que lágrimas são um poderoso intrumento de comunicação.

Quem as reprime estará perdendo esse importante canal da manifestação d'alma,
deixando de extravasar suas dores, seus medos, suas alegrias.

Estudos falam que o choro que expressa carência surgiu entre os humanos há 50.000 anos.
Portanto, atente para o fato do choro solitário.

Nada mais é que a necessidade de atenção ou sua disposição em partilhar.
Quando alguém chora, pode estar usando de estratégia para conseguir algo.

Lágrimas são palavras que calam fundo no coração de quem assiste a alguém derramar seu pranto.

E, quando alguém extravasa seus sentimentos assim,
certamente estará usando o mais poderoso dos tranqüilizantes.

Felizes são os que choram naturalmente e fazem disso ponte para alcançar o alívio de que necessitam.

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

A ti

A ti dedico esta linha.
Este pedaço de papel.
Este pensamento em material reciclável.

Aqui estão teus olhos e todos os meus sentidos.
Pois tu estás aqui comigo.
Teu corpo não sai de mim.

Tua boca conversa comigo.
Escuto teus pensamentos.
Tuas mãos percorrem meu corpo.
Não te vejo há meses, porém sei que estou ai.

Este texto, esta página.
Pobres testemunhas.
De tudo que apago e reescrevo por tua causa.
As palavras devem chegar perfeitas a ti.

Sem pensar em mim, já se foram vários minutos.
Pensando em ti o que escrevi daria para vários livros.
Lembrando de nós, teria mil roteiros.
Esquecendo de tudo, só resta teu sorriso.

A ti dedico minha poesia, minha canção.
Esta doce fantasia, fatias do meu coração.
A ti dedico meus dedos e minha imperfeição.

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Suburbanas
Marcos Claudino

São Paulo, 13 de setembro de 2004.

Ele não é um esportista, é um negociante


Princípio esportivo: Todo competidor deve usar de todos os seus argumentos físicos e intelectuais para superar os adversários, de forma justa, ética e honesta.

Pronto, expliquei. Agora, só resta comentar. Pois o brasileiro Rubens Barrichello não é um esportista que me traga qualquer espécie de orgulho. Gosto de fórmula 1, acompanho sempre que posso, mas, desde aquela freada do brasileiro, para que o alemão o ultrapassasse na reta de chegada, há dois anos, a credibilidade que eu ainda tinha neste esporte caiu por terra.

Engraçado é ver que, no primeiro grande prêmio após a conquista antecipada de Michael Schumacher, na última corrida, o brasileiro consegue uma pole-position, e vence o grande prêmio do último domingo. Quanto a isso, fazer-se o que... Ruim mesmo foi acompanhar a entrevista, em que nosso ilustre representante dizia-se feliz, pois nunca tirou o pé, sempre buscou a vitória, e foi recompensado.

Ora, Rubens Barrichello, somos brasileiros, apaixonados por este esporte que você é muito bem remunerado para praticar, criados pelas lendas de Émerson, Piquet, e o inesquecível Senna. Eu até aceito o fato de que você se conformou com o milionário salário, com a posição de segundo piloto, e que não conseguiria um lugar melhor.

Chateio-me porque você é bom, claro que não melhor que o campeão, mas é muito bom mesmo, e prefere não competir, obedecendo a ordens superiores, que contradizem qualquer filosofia esportiva que se imagine. Não creio que sua posição seja invejada por qualquer piloto de ponta da atualidade, muito menos por pilotos que, mesmo não vencendo, não pararam de lutar...

Pior ainda é ver os jornais da segunda-feira homenageando-o. Não acho justo. Salve Daiana, que perdeu por esforçar-se demais, salve Claudinei Quirino, que machucou-se tentando se superar, enfim, salve tantos outros que ultrapassaram seus limites, e respeitaram aos seus companheiros de esporte, ao povo que representavam, e a si mesmos. Abaixo os oportunistas, abaixo os antidesportivos, vaias aos desonestos, pois desonestidade não pode ser classificada, ela apenas existe, e deve ser eliminada de nosso convívio.

Mais uma vez venho falar de esporte, com tanto assunto mais urgente a tratar.

Desculpem, amigos. Mas, não o esporte em si, a categoria esportiva propriamente dita, mas creio que nossa mentalidade é que anda mal das pernas, e precisamos urgentemente melhorar nossos conceitos éticos, se quisermos realmente um dia sair desta situação de país sub-sub-sub-desenvolvido...

Forte abraço!!

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Musicalidade de povinilpirrolidona
Roberto Iukio Iwai

let it bed


As vacas no começo dizem tudo. O aviso de que não é um álbum de rock também. Afinal, é um dos momentos mais intensos da música brasileira, quase um acontecimento de deixar sem palavras todos envolvidos em música na face da Terra. É Arnaldo, cantando com seu piano maravilhoso, suas palavras cheias de sinceridade, com ternura infinita, com sentimento de quem já tudo. E todos sentados, ouvindo e olhando o ser no palco, sentados em posição de índio, com a cabeça tombada para o lado. Com sorriso: claro, não dá para não ter um sorriso.

Como englobar Arnaldo Baptista? Alguém ainda quer englobar Arnaldo Baptista, ou classificar suas obras como sendo exercício de musicalidade ortodoxa, de bom gosto e classe dispensada? Ora, para o inferno!... Arnaldo Baptista escalou ruas e percorreu montanhas na naturalidade de continuar andando, às vezes planando, tornando o lançamento de seus álbuns atos históricos a cada dez anos.

Let It Bed, disco inédito desde Disco Voador, de 1987, é Arnaldo. Que deve ser ouvido sem ranços do passado, porque tudo é além música deste ser. É lembrar que há muito tempo Let It Bed estava para ser lançado, planejado, e o momento não foi melhor: o presente tem muito que ouvir este disco.

Tem felicidade neste disco! Aquele sabor de gravar, de estar gravando pelo intenso prazer de gravar: de querer que tenha uma intensidade de voz naquele momento porque aquele momento proporcionou o tom da voz daquela maneira, de querer que tenha o som de uma lambida, variações de freqüências, ou palavra por palavra que se encaixam perfeitamente naquele cenário antes descrito: quem se sente maior ou menor, Arnaldo Baptista é ser que faz o mundo ser um só, de mesmo tamanho e corte de cabelo.

Cada faixa desse disco dissemina a música brasileira como música, insere a natureza de Arnaldo Baptista como faz tempo que precisava, com um âmbito que faz tempo, necessitava. Neste momento, os alternativos não são alternativos, os psicodélicos não são psicodélicos, os donos da verdade são apenas marionetes de um pensamento centralizado: permaneçam todos calados e maravilhados, quem quiser, para ouvir essa praticamente conversa entre sua mente e a mente de Arnaldo Baptista. Que garanto, lhe fará muito bem.

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Ombudsman
Alessandro Sachetti

Direto na orelha dos teus olhos

Como não falar de eleição nesse período de campanha política, se o que mais se vê em todos os cantos da cidade são panfletos e propagandas, assim como no jornal escrito e principalmente na TV? Grande tenente, achei muito bem sacado o trote, mas de um tremendo mau-gosto, mesmo assim não deixa de ser válida a provocação.

Sérgio, grande conto, em todos os sentidos. A forma como o conta é muito bem feita, me deixou preso até o final, que como todo bom conto, é inesperado. Parabéns pela sua estréia, espero que tenha participação constante aqui no Simplicíssimo. É sempre um prazer ler bons contos como este.

Mauro, acho que é isso mesmo, o futuro às vezes é estranho e imprevisível. Muitas das coisas que sonhamos hoje não chegam a se realizar, não por falta de vontade, mas por conta de acontecimentos que vão além da nossa vontade, vêm de encontro com ela mudando a direção. Qualquer previsão acerca do nosso futuro tem quantos por cento de possibilidade de acontecer? Os planos mudam porque nós mudamos.

Bom poema Marici, entrega em tuas linhas, algo um tanto raro de se ver hoje em dia, as pessoas tem a incrível mania de esconder o que sentem ou até mesmo fugir delas pôr medo.

Alessandro, não há muito o que dizer sobre o teu Pequenas resoluções de ano novo, perfeito? Talvez. Deliciosa leitura.

Eduardo, confesso que quando comecei a ler teu texto, achei um tanto confuso, a passagem do 2º para o 3º parágrafo, mas continuando a leitura percebe-se que a idéia é essa mesmo, afinal era a confusão na mente do personagem, afinal é ele que nos conduz entre os acontecimentos, a confusão na verdade é dele e não do texto, o que fica bem claro na seqüência do texto, gostei da tua narração em primeira pessoa e gostaria de ler o O grande Sonho por completo.

Pedro, depois da aula que me deste sobre Haikais, ficou bem mais interessante ler os teus Haikais. Gostei muito da dualidade do teu poema, da idéia de nacionalismo ao avesso (??).

Sara, antes de mais nada, obrigado por suas palavras. Agora, em relação ao teu texto, talvez devesse definir melhor as estrofes, por vezes vê-se três linhas, em outras quatro ou cinco. Não que perca em conteúdo, mas quebra um pouco o ritmo, a não ser que essa tenha sido tua intenção. Era?

Marcos de forma diferente dessa vez, três mini-contos, diretos sem enrolação. Cenário futurista, realista e imaginário com ótimos desfechos. Escreva mais destes e, se me permite uma opinião, tente recheá-los com mais imagem.

Por ora, mais nada para acrescer ou subtrair. Até a próxima semana.

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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