Simplicíssimo
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Editorial

Telefunken Technicolor

Como é dura a incerteza.

Tudo o que podemos saber, se a asserção acima for correta, é duro.

Nada é certo, nem mesmo o fato de estar aqui a escrever estas palavras.

As escolhas são os caminhos que nos trazem de volta a lugar algum, já dizia Ludwig van Törten.

De que são feitos os pedacinhos que compõe os pedações das coisas pequenas que fazem das coisas grandes o que são, perguntou o pequeno Joe.

A cegueira toma de assalto a visão e escutamos em silêncio os ruídos surdos de passos amputados dos descaminhos do desvario.

Fragmentos são instâncias do devir, cujo dever são resistir às legiões que, sem hora marcada para acontecer, se transformam no tudo e no nada das ondas do mar.

A falta de assunto não é desculpa para não se escrever um Editorial, nem tampouco poderia servir como justificativa para um Editorial ruim.

Ausência de computador para atualizar um site é igual a um amigo de plantão tendo que se virar em 2, 3 ou 4 para conseguir fazer as coisas seguirem seu fluxo.

Colunistas atrasados.

Se algo parecer fora do lugar – além disto que ora lês – nesta edição do Simplicíssimo, não temas! Não é o fim que está próximo!

Antes de cada revolução a calmaria caótica.

Hoje sem citações.

E você, o que está fazendo para dar mais cor à vida?

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Vazio literário
Luiz Antonio Ribeiro

Vazio literário

Estou aqui para escancarar. Agora eu vou ser tipo o Mister M, revelando tudo que vocês, pobres leitores, ainda não tenham percebido. O que vou mencionar é algo tão recorrente nas escritas atuais que chego a questionar se isso acontece em todo o mundo, em toda cultura que se chame “aute”. Isso tem acontecido em todos os campos, seja nas crônicas, contos, dissertações e/ou quaisquer outras formas de expressão textual.

Estou me referindo exatamente ao que fiz nesse primeiro parágrafo: a utilização de palavras difíceis para se esconder um texto fraco de idéia. Vejo isso acontecer sempre e muitas vezes já vi isso acontecer aqui mesmo nesse site. O camarada não tem o que dizer e sai lascando um monte de palavras difíceis, que esteticamente têm efeito, porém de idéia pouco diz. Eu poderia de repente ter começado meu texto assim: “Aqui me apresento para explicitar e tornar sucinta uma questão controvérsia, indo direto ao cerne da questão. Falo do rebuscamento vocabular inserido nos solilóquios e escritos atuais, em detrimento de um foco ideológico representativo.” O que diria um leigo em relação a isso. Olha, o cara é mesmo bom. Sabe escrever. Porém, não estaria enganando um entendido, alguém com uma cosmovisão mais apurada.

Hoje estou sem falsas expressões ideológicas, acho somente que em um texto, o principal é o que se diz, é a mensagem, é o interlocutor, e não a linguagem, o canal que se utiliza. Deveríamos dar valor aos escritores do simples, aqueles que não precisam de um dicionário para fazer uma grande obra. Temos muitos exemplos, alguns adorados, outros odiados, como por exemplo, Chico Buarque, Mário Quintana, Nelson Rodrigues, Cazuza, Guimarães Rosa, entre outros. Uma arte não é puramente estética, tanto que temos a chamada literatura de informação, que embora literatura, não seja considerada arte, pois não tem uma temática firme e expressiva, somente a necessidade de informar através de uma forma artística, o que não é arte.

Termino esperando ter sido claro na minha idéia. Desculpe se não me preocupei em detalhes textuais, em escrever “direito” como diz a nossa “norma culta gramatical brasileira”, que é um bando de folha cheia de observações e exceções. A língua é viva, não há certo nem errado. Portanto, aprenda a diferenciar um texto pelo que diz, e não como diz. Porque decorar a gramática e o dicionário é fácil, difícil é criar um mundo, é para o belo.

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Dona Bia
Camila Mello

Dona Bia

(A história desta senhora de oitenta e dois Outonos é muito triste e será encurtada para evitar lágrimas).

Esfinge em ruínas, destituída de toda e qualquer fonte de carinho, Dona Bia foi abandonada por seus parentes nos labirintos da velhice e colocada em seu atual apartamento há doze anos atrás, como uma foto velha tirada da estante e jogada entre mil outras lembranças a serem esquecidas. Quando sai de seu apartamento, é vista com os cabelos brancos bem amarrados em um coque, o vestido engomado, o rosto com um leve toque de maquiagem e os sapatinhos impecáveis. Mas quando Dona Bia está sozinha novamente, ninguém a vê transformar-se de volta em uma carcaça mofada, chorando sentada na cadeira de balanço com as mãos cruzadas sobre o colo, vendo o dia passar pelo caminho das sombras.

É assim que a vida de Dona Bia tem sido, e assim vai acabar. Em silêncio, em um ritmo melancólico e clandestino, esta senhora vai sofrer punhaladas cada vez mais profundas do tempo, e desfalecer aos olhos de seus vizinhos, sem que nem um deles perceba.

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Brasil meio mil
Haroldo P. Barboza

Brasil meio mil

Há bem pouco completamos
Quinhentos anos de idade
E não chegamos à maioridade.
Agimos como mera colônia,
Sob o signo da alta insônia.

Esquecemos de reconhecer
Aquele que ama a Natureza
De espírito isento de impureza.
Alegamos que longe da cidade,
Ele não carrega civilidade.

Nos entregamos às ilusões
Falseadas pela pobre televisão
Que sabe iludir o coração.
Promovendo o consumo intenso,
Em nosso território imenso.

Cinco séculos de propaganda
Escondendo a real situação
Do sofrimento dentro do sertão.
Difícil manter leve esperança,
Na barriga vazia da criança.

Que se livre do hipnotismo
Nossa dominada consciência
Na busca da independência.
Para que façamos a festa,
Com o pouco que nos resta.


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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Santa Teresa

Lá em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus as velhas carolas mandam rezar missas e oferecem intenções aos santos casamenteiros para que as suas filhas encontrem um pretendente que não somente se aproveite de suas condições de moças solteiras (e muito tempo desconhecedoras dos prazeres da carne), mas que queira contrair um matrimônio sério, respeitoso e bonito conforme as normas do Senhor e de acordo com todos os predicados necessários a uma bela cerimônia que seja notícia na cidade inteira e faça as vizinhas que ainda têm filhas solteironas na idade do perigo se roerem de inveja por que não arranjaram tão bons genros. As velhas que têm filhas solteironas na idade do perigo e não são carolas, lá em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus, costumam consultar-se com certa freqüência com dona Ataíde, que promete atrair um bom partido para as suas filhas em menos de trinta dias, mas que exige uma não-desprezível quantia em dinheiro para que o trabalho com as entidades casamenteiras resulte em sucesso absoluto e, quando este não resulta, insulta as velhas por não estarem com a sensibilidade aberta ao contato mais pleno com o mundo espiritual.

Em tempo, Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus não é santa casamenteira.

Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus é terra de poucas portas e muitas bocas, por isso, para fazer safadeza na cidade de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus é preciso muita esperteza e magnífica capacidade de enganar o alheio com desculpas as mais dignas de crédito. O ponto positivo, é que em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus são tantos, mas tantos os moradores dados a uma safadeza que, portanto, para o bem-estar geral da população, que inevitavelmente se abalaria e viveria dias intermináveis de atrito com as muitas bocas dispostas a propagar as safadezas muitas ao conhecimento público, achou-se por bem se instituir uma regra não declarada de só vir a público as safadezas daqueles moradores genuinamente tidos no conceito geral como safados e sem possibilidade de recuperação. Desta maneira, em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus, as conversinhas que se estendem na porta da quitanda do Seu Jonas e que têm, normalmente como protagonistas dona Sirleide, comadre Constância e tia Marília - esta última, sócio-fundadora do Grupo Mantenedor do Decoro e dos Bons Costumes de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus - invariavelmente fazem referência a Mestre Jofre, Donatinho Gonzaga, Diana, esposa do farmacêutico Moura e Talitta Mey. Como estes, e somente estes, são os tidos por consenso geral como os únicos passíveis de conversas a respeito das informações que se colherem de todos os lados a respeito de detalhes de suas vidas, fica oportuna e terminantemente proibido fazer referência e, principalmente, a delegado Fabiano (que por acaso vem a ser esposo de dona Sirleide), a compadre Tenório (com vinte e sete anos de relação conjugal com comadre Constância) e não, também, a beato Osório - não menos coincidentemente, parceiro matrimonial de tia Marília. Com base em regras tão, a nosso ver, injustas, é fato certo que grande parte da população daquela pequena, porém honrosa em acertos verbais, cidade de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus, não toma parte das peculiares e não menos safadas tramas envolvendo, justamente, delegado Fabiano, compadre Tenório e beato Osório. Se soubessem destas, entrariam em conta certa de quão recôndita e irônica é a cidade em seus rumos, já que acaba cruzando com bastante freqüência as vidas dos supracitados e consensualmente respeitados moradores com a vida daqueles tidos por todos como safados e perniciosamente imorais.

Lá em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus, é provável que se criasse uma revolução geral (ou no mínimo grande tumulto e falação em festejos de muita concentração popular, como as quermesses do padre Ariosto e a Festa da Caçada da Mulita no bailão do Dioclécio), se a população viesse a se dar conta de que, enquanto as Três Caninanhas, como são chamadas à boca-pequena dona Sirleide, comadre Constância e tia Marília, demoram-se por horas na quitanda do Seu Jonas a tagarelar sobre a vida dos alheios, é exatamente nestas horas, que seus maridos sabem ser sagradas para as respectivas esposas, que delegado Fabiano se encontra em consórcios carnais prevaricativos e adúlteros justamente na cama de Diana, esposa do farmacêutico Moura, pobre homem acometido pela moléstia da impotência do cumprimento de suas funções maritais, costumeiramente fazedor de vista grossa das atividades extra-conjugais da mulher fogosa, intempestiva e insaciável que Deus achou por bem colocar em sua vida. Tudo isto se a população viesse a tomar tento das questões não resolvidas envolvendo justamente aquelas que se julgam as guardiãs dos bons costumes e mantenedoras da ordem da pequena, porém particular cidade de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus. Por que se viesse a isto, os populares moradores, naturais ou não deste município atravancado no norte do mais ao leste dos estados, viriam a saber, também, que por mais que Donatinho Gonzaga venha a ser durante tardes intermináveis personagem preferido das Três Caninanhas em estupefatos e horrorizados comentários que envolvem a ojeriza à pederastia enrustida de tão delicado munícipe, os mesmos comentários não existiriam se não houvesse como desconhecido antagonista de tão indecorosas histórias com Donatinho Gonzaga justamente compadre Tenório, secretamente dado ao amancebamento com rapazes sem muito pêlo no peito, exatamente como Donatinho, a quem, entremeando ósculos apaixonados em tardes quentes na cabana junto ao Rio das Três Quebradeiras, costuma chamar carinhosamente de Galego.

Mas é assim a vida em Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus: os boatos vêm se infiltrando vagarosa, mas insistentemente, oferecendo conclusões aos mais atentos cidadãos que costumam observar mais detidamente a porta do "Luxúria's", auto-proclamado "night club" de propriedade da afamada Talitta Mey, mas, cá para nós, um muito catinguento de um puteiro que já viu dias melhores - em que, por exemplo, as atrações musicais iam além dos shows de dublagens do travesti Tâmela em seus rebolados ao som de Nikka Costa e Bonnie Tyler, enfiado em vestidos puídos recobertos de lantejoulas e as "acompanhantes", mocinhas acostumadas a chamar Talitta de "mainha", não se resumiam a meia dúzia de bugras com o rosto bexiguento se requebrando sonolentamente ao som de "Total Eclipse of The Heart". Ainda assim, e provavelmente por que Talitta Mey continuava a gastar seus minguados rendimentos em produtos importados direto da capital, mantendo-se, desta maneira, como uma espécie de acompanhante-especial-com-preço-mais-alto-somente-para-os-figurões-da-cidade, que observadores moradores de defronte do "Luxúria's" percebiam com tanta freqüência as constantes visitas nada catequizadoras de beato Osório justamente rumo à escadinha que conduz direto ao quarto de Talitta, saindo de lá com mais gomalina do que quando entrou.

Aos jovens freqüentadores do "Luxúria's", inclusive beato Osório, que mesmo enveredando-se (a seu ver) secretamente até o quartinho de Talitta Mey consegue comprazer-se pela rede interna de vídeo, resta o divertimento ainda oferecido pelos educativos filmes tão solicitamente oferecidos por Mestre Jofre para encher de imaginação os clientes que insistem que as pobres bugras realizem performances tão entusiasmantes quanto às oxigenadas e peitudas atrizes das produções com que Mestre Jofre ainda abastece a sessão "xxx" da única videolocadora da cidade.

Ah, esta prosaica cidadezinha de Santa Teresa do Bem Aventurado Coração de Jesus! É provável que por se conservar na ingênua ignorância que somente aos puros é reservada é que continua mantendo os seus dias ainda repletos de tão entusiasmante felicidade como quando nos torneios oficiais de bocha, nas encenações da Paixão de Cristo e nos promocionais churrascos de mulita promovidos pela Matriz para angariar fundos para a reforma da imagem de Santa Teresa, rachada justamente no meio da face, trocando a tradicional expressão em seu rosto, que parecia dizer a todos "bem aventurados sejam os filhos de Deus", por uma mais próxima de "ai, meu Deus, o que será de nós?".

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

A outra cabeça

Eles são bonitos, simpáticos, gostam dos mesmos assuntos, têm uma afinidade com um encaixe perfeito. Teoricamente, o casal perfeito. Mas o fato é que na prática não deu certo. E não se encontra muitas respostas a quem ousa questionar o porquê. Talvez por não existir mesmo, talvez pelo nosso infinito desconhecimento da natureza humana.

Pois uma idéia que me faz entender um pouco melhor essa delicada situação está nos quebra-cabeças. Tomamos por exemplo quatro imagens que estão à procura de seus semelhantes:

Devemos considerar, é claro, que nada é assim muito definido “de cara”. Quando conhecemos alguém, tomamos ciência de apenas parte daquela pessoa, que vai surgindo por inteira, aos poucos, às vezes de forma mais rápida outras vezes lentamente e por vezes nunquinha mesmo (aproveitando o que Caetano dizia: “De perto ninguém é normal”).

Então vamos recortar todos essas imagens em pedaços menores, com encaixes positivos e negativos (assim como as qualidades e defeitos), como se fossem peças de um quebra-cabeças. E suponhamos que por algum mérito exclusivo do nosso supremo arquiteto do universo, para algumas peças ele possa ter usado a mesma forma e, ainda, vamos imaginar que o verso de todas as peças resultantes possuam uma mesma cor, ou simplesmente a ausência de qualquer uma:

E só ele mesmo poderia separá-las, misturá-las bem, e jogar por aí, como quem sopra um punhado de plumas ao vento. Caídas aos pedaços, de frente ou verso, sem que soubéssemos nem ao menos o que isso queria dizer. Um trabalho nada fácil para encontrar os recortes certos de cada imagem.

Mas enfim, em nossa viagem finita (ou não) saímos por aí encontrando pessoas e as conhecendo-as, muitas vezes encaixando-as em nosso mundo de relações e nos aproximando cada vez mais, como se procurássemos completar algo, ou a nós mesmos. E, em nossa ânsia contemporânea, por vezes acabamos formando imagens erradas das pessoas, com peças incompletas ou com representações (que bem podem ser nossos anseios e desejos projetados nos versos vazios das imagens).

Façamos mais um esforço. Com todas as peças ao avesso, tudo é muito parecido. E se encaixarmos com perfeição, ao virar o conjunto teremos a grande surpresa desilusória:

Percebam assim, que aquilo que à primeira vista nos parece estar perfeitamente encaixadinho (principalmente para quem vê de fora, para quem não está montando o quebra-cabeças), por vezes nada mais é do que um ledo engano, um emaranhado pouco compreensível.

Ah sim, no quebra-cabeças da vida, nem sempre tudo é perfeito. Aliás, deveríamos mesmo estar esperando algo diferente? (...)

“Mas louco é quem me diz .. que não é feliz”. E por falar em música, isso tudo me lembrou do poema "Peças de Pessoas", lindamente interpretado pela cantora gaúcha Adriana Deffenti.

PEÇAS DE PESSOAS
(Mateus Mapa/Leonardo Boff)

Uma pessoa não pode agir de qualquer maneira
Senão da maneira que lhe faça sentir pessoa
Cada pessoa possui em si, peças de pessoas
Uma pessoa em todas as pessoas

Um general está para um Gabeira
Uma cabeça pertence a um universo Globo
Da mesma forma que o fogão pra geladeira
Assim como a vovó pertence ao lobo

A caligrafia está para a letra torta
A minoria do mundo vem chocando o povo
Assim como o espantalho está para o corvo
Assim como a galinha está no ovo

Uma pessoa não pode agir de qualquer maneira
Senão da maneira que lhe faça sentir pessoa
Cada pessoa possui em si, peças de pessoas
Uma pessoa em todas as pessoas

No ovo de um João Gilberto, um João Gordo
Assim como para o quilograma o metro
Como para o feto, o morto
Nessa feira a caixa está à venda
Do conteúdo nem se faz a encomenda

De uma pessoa,
Uma cabeça numa fogueira
Libertada, qualquer maneira
No lado inverso, o destino da poeira
Capoeira, Capoeira

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 15/X

Para ser como antes
vou viver congelado
e não fazer nada errado

Faroeste 2/X

Amo tuas caras
teu jeito, teu rosto
e tua tara.

TRABALHO

Disse o sábio para o parvo:
- Não podemos ter certeza de nada!
O parvo perguntou?
- Você tem certeza disto?
E o sábio retrucou:
- Claro, que tenho.

Eu tenho que concordar com o Raul Seixas quando ele canta, na sua música Metro linha 743, que, quem pensa, pensa melhor parado. Tudo bem, você acredita em meditações em movimento e eu também. Você tem as melhores idéias no banho, eu também, ou dirigindo. Claro, nossas melhores idéias vêm quando libertamos nosso cérebro para que ele pense livremente, sem stress. Não adianta você fazer isto no meu da fogueira, ou fazer algo deliberadamente, o que tem que ser feito é deixar os seus pensamentos fluírem naturalmente.

Acredito que o que é pensar parado, naquela música, seja um momento como aquele, onde o cara acende um cigarro e fica a toa (e é capturado). Concordo e ao mesmo tempo não concordo com o Domenico de Masi, em seu Ócio Criativo. É bom ter um certo tempo para pensar, mas não demais.

Por que você trabalha? Você gosta do que faz? Você considera seu trabalho escravidão? Até que ponto você sente prazer ou sofrimento no seu labor? Você é daquelas pessoas que conseguiria viver todo o tempo sem trabalhar, sem se achar produtivo? Você tem um trabalho que aparece no final do dia e do qual você pode se sentir orgulhoso? Ou seu trabalho é daqueles que só aparece quando não é feito? Será que isto não é apenas um dos nossos impossíveis (ou pelo menos o meu impossível)?

Não sei se tenho certeza se gosto de trabalhar ou de escrever, apenas sou compelido a fazer isto. Talvez eu seja um sábio, talvez eu seja parvo.

Você é feliz no trabalho? Vamos ver quem tem algo a dizer sobre isto.

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Utopias
Luiz Maia

A família

Reside na família o alicerce mais importante para que nos tornemos homens de bem,
pautando com seriedade e respeito nossas ações no mundo.

É no núcleo famíliar que estão os pais, que nos preparam para superarmos os obstáculos
que a vida nos reserva,
impondo-nos os rigores necessários da disciplina para obtermos
resultados satisfatórios na longa caminhada.

Geralmente nos ensinam nobres e sólidos valores, cobrando-nos sempre um
bom desempenho do nosso papel social e humano.
Às vezes esse objetivo é alcançado.
Apesar de todas as dificuldades, vemos alguns pais levando a bom termo a
condução de seus filhos, fazendo-os homens de bem.
Muitas pessoas integram uma família bem estruturada, equilibrada e feliz.

Mas não é fácil a tarefa de um pai ou de uma mãe, principalmente na sociedade de consumo,
onde predominam o materialismo e o imediatismo que destróem estruturas morais frágeis.

Os inúmeros apelos dessa sociedade têm infelicitado a vida das famílias,
realçando o lado negativo em seus destinos.
Jovens são levados pelo desejo do ter em detrimento do ser.
Muitos sucumbem diante do brilho falso, das relações banais e dos valores fofos.
E aí não há medidas nem regras de boa convivência que resistam.

O jovem começa a cavar o seu próprio poço.
Não raras vezes vemos conflitos intermináveis entre pais e filhos, alguns com finais trágicos.
As drogas são um componente desagregador, criando filhos e/ou pais
que cometem as mais absurdas atrocidades.

Que falar da gravidez indesejada da filha, da descoberta do filho que faz do sexo ponte falsa
que suspenda a sua angústia, do envolvimento com drogas de outro.
E dos filhos que são verdadeiros tiranos, que acolhem em seu íntimo o que de pior possa existir no ser humano.

Nem sempre os pais são culpados pelos desvios de conduta de seus filhos,
embora às vezes cooperem para isso.
É fundamental que os pais eduquem seus filhos com sabedoria e relativa tolerância.
Que possam sempre saber dizer "não" quando necessário,
impondo-lhes os limites desejáveis para não virem a se arrepender mais adiante.

Tudo isso permeado por doses de amor ilimitadas.
Pois sem amor nenhuma fórmula será bem sucedida,
nenhum esforço terá sentido na condução da educação de seus filhos,
preceito básico e incondicional para o fortalecimento de uma família saudável, ajustada e feliz!

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Restaurada

Largo o passo com o qual atravessava a sala
A sombra da lua se mostrava inquieta pelo pequeno buraco da cortina da janela
O desenho dos teus braços abertos

Sentia o cheiro do suor, o cheiro da boca entreaberta
Como se crisálidas repentinamente se transformassem em borboletas
Como se tuas lágrimas fossem pequenos cristais tilintando sinfonias de dor

O rangido da madeira velha me denunciava, não podia mais espiar
Percebeste a minha presença e moveste os braços
Abriste a janela e todas a borboletas que via sumiram ao luar

Teu olhar era de desespero, o meu de agonia
Súbito arrepio, forte magnetismo encolheu a sala em uma única viga
Naquele momento encostamos um no outro, olhos nos olhos

Instante em que adormecemos
Um pequeno segundo movimentou muitas horas
A viga não suportou, dobrou diante do peso de nossas almas

A sala restaurou-se ao acordarmos tocando os lábios
Perdoamos tudo, os erros de outrora
A sinfonia então era de amor, acordes de boas novas

Cada fragmento de luz que ali entrava, revelava partes da nossa morada
O sol nos iluminava, dançávamos sem tocar o chão
As borboletas enfeitavam as paredes e o chão revestido de madeira nova

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Suburbanas
Marcos Claudino

São Paulo, 20 de setembro (Já??) de 2004.

QUEM SOUBER QUE CONTE OUTRA

Acordo pela manhã e escovo os dentes. Minha pasta de dentes contém própolis, pó de juá, menta americana, e gel extra protetor. Tomo um banho, e o meu xampu contem aloe vera natural do campo, fragrância aromatizante, anti-caspa u.v.j., melanina, rena e anti-oxidante para as pontas. Meu sabonete só pode ter sido fabricado pela Nasa. Ele vem com pigmentos especiais que acariciam a pele ao esfregar, contém anti-germes canadense, creme hidratante, e não irrita os olhos. Isso tudo, e não se passaram quarenta minutos do meu dia.

Vou me trocar, e escolho minhas roupas, claro, todas lavadas com o especial sabão em pó com oxigênio ativo, que retira as manchas, sem prejudicar o tecido, amacia e perfuma ao mesmo tempo, além de nunca tirar a cor natural.

No almoço, evidente, acompanhando minha refeição, tomo um refrigerante light diet extra lemmon, que contém 0% de calorias, ajuda a combater as doenças cardíacas, respiratórias e intestinais, mesmo que meu almoço seja uma bela feijoada. Na saída, tomo um cafezinho, que não fica atrás em suas propriedades mirabolantes. Este café não foi cultivado com adubos químicos, contém aromatizantes especiais, e ingredientes que auxiliam na digestão.

Saindo do serviço, não posso esquecer de passar na farmácia, pois minha mulher pediu-me que levasse absorventes. Mais e mais maravilhas das mãos do bicho-homem. Escolho um que absorve o fluxo por inteiro, deixando em minha esposa uma agradável sensação de ter acabado de vestir uma calcinha nova. Isso por conta dos flocos de gel ultra aromatizados, porque incomodada, ficava a sua bisavó...

Não quero jantar, e resolvo comer um cereal com leite. Meu leite tem ingredientes que a pobre da vaquinha nem imaginava produzir. Meu cereal só falta falar comigo, pois contém todas as vitaminas necessárias pelo resto do dia, e olha que a noite requer muita vitamina... hehehe...
Enfim, parei dia desses a observar as embalagens dos produtos que consumimos em nosso dia a dia. Fiquei pasmo. Não importa a marca, um é melhor que o outro. Desde o achocolatado, até os ingredientes de uma buchada de bode, tudo, hoje em dia, traz algum ou muito benefício.

Olha, não é que eu não queira duvidar da força do progresso, do domínio cada vez maior da tecnologia em nosso favor, mas, a dúvida que não quer calar é: Como é que as pessoas conseguiam viver há cem, duzentos anos, antes do aparecimento destas maravilhas que consumimos hoje?

Abraço!!
Marcos

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Musicalidade de povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai

A ideologia dos gaúchos às vezes beira ao passado mais reluzente que o próprio presente daquela época. É sempre assim com os estilos que pegam e fogem daquela estética boba: "atualizam". O que o Weezer fez sem nem saber o que é jovem guarda, mas pegando Beatles nas alcunhas, e juntando peso e outros itens que os tornam alternativos.

Jé no sul do Brasil, localizado lé em alguns pontos do mapa, há um pessoal que não quer saber de atualizar não. E quer mais é que soe autêntico mesmo. A lágrima que escorre quando se ouve, pode-se jurar também nenhuma emulação de um choro.

Pois por mais que eu não tenha vivido em 1967, transpirado os efervescentes anos dos programas musicais e festivais da TV Record, me recordo bem de uma vida que não vivi. E nela há guitarras, bateria, beat e órgãos. E quem reside nos órgãos, nesse histórico do país mais rico musicalmente, mas tão cabisbaixo e desmemorado?

Ora, Lafayette simplesmente revolucionou a jovem guarda. Até porque a jovem guarda foi uma revolução tremenda para os jovens na época. Não temos lá nossos LSD's, raves e sons eletrônicos no começo do século XXI? Não soará assim tão ingênuo para uma juventude que caminha com tapadeiras de olhares de burros, com o mais "moderno" em forma de cenoura?

Não seja prepotente, é claro que tudo vai se tornar obsoleto a medida que o tempo passa. E é por isso que 1969 se torna tão atraente em 2004. Afinal, o que é ser moderno? Com timbres assim, eu quero morar em Porto Alegre. Jesus Voltará, e lá ele vai estar.Astronauta Pinguim e seu Petiscos: Sabor Churrasco - Switched-On Bah! fez tudo isso. É lágrima? É timbre? É Órgão choroso? Sim, são todos por todos os lados.

Quem imagina o ser que vivesse nos anos 60. Que nunca imaginaria um dia fosse ouvir uma versão instrumental de uma canção que estava presente em seu recinto todos os dias, que cantarolava as letras e não concebia nem por decreto outra forma mais perfeita do formato som em seus ouvidos, ver de repente Lafayette transmutar a música em bailes fervorosos por toda a sociedade da época?

Assim é o mesmo com Astronauta Pinguim, versão 2004. Eu, ser que vivo fisicamente no ano 2000, que ouço algumas das músicas presentes no disquinho de estréia do tecladista no recinto no qual estou instalado, com emoção de não poder mais, presenciar uma total revitalização do estilo Lafayette de soar, de crescer e boquiabertar.

Em minha mente, já no imaginário pontuante, são os órgãos, vocoders e moogs que Astronauta usa, em substituição à voz na original canção. Versões baile de hinos como "Um Lugar do Caralho", de Júpiter Maçã, ou "Nunca Diga", da Graforréia Xilarmônica, parecem ter sido tiradas de alguma das antigas coletâneas de hit parade e canções de ternura de amor e rouquidão com catarro nas goelas. É quase terapêutico degustar as transformações que as canções sofreram, ver cada detalhe, os sons peculiares que a banda que o acompanha, e ele próprio, escolheram para identificar uma composição de terceiro em uma interpretação particular de música.

A versão samba de "Epilático" de Doiseu Mimdoisema equivale ao contrário é linda versão de "London, London" (de Caetano Veloso) que Lafayette concebeu nos anos 70. Muta para algo diferente, mas sem perder a postura de dignidade sonora. E no mais, belas harmonias jovem guarda, que fizeram de "Melissa" (da Bidê ou Balde) ou de "Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo" (de Wander Wildner) verdadeiras experimentações dentro daquilo que agrada aos ouvidos mais atentos em forma de refrão. Astronauta transforma em linha sonora hi-fi.

O que é ser moderno? Astronauta Pinguim eu não sei. S? espero agora uma série de Petiscos: Sabor Churrasco, em outros mais volumes. Sem ir na rasteira ou comparação é Lafayette todo o tempo, mas o delicioso disso tudo é o passado em si, que nos volta e nos morde no tendão.

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Ombudsman
Alessandro Sachetti

Vamos Viver

Brilhante idéia, como sempre, essa do Rafael, porém que o banner não seja apenas para o site, mas estampe o peito e o sorriso de todos.

Por vezes me pego meio no fluxo do que disse, vivendo bem assim, fazendo as coisas por fazer e não pelo prazer no que faço, automático e robotizado. Mastigando por mastigar, por saber que tenho que o fazer, bebendo, até rindo e muitas outras vezes conversando. Percebem o perigo disso? Logo depois que saio do meu trabalho venho pra casa e me afogo em mais trabalho, faço mil coisas ao mesmo tempo e deixo muita coisa pra depois. Mas será que há o depois? Não há certeza de nada a não ser o que vivemos agora, então mude agora - parafraseando Edson Marques: Mude, mas comece devagar porque a direção é mais importante que a velocidade. Apoio e me proponho a divulgar esta campanha. Viva!

Belo retorno do Gabriel - vejo vingança em tuas linhas, vingança na dor que tem, vingança em forma de amor.

Luiz, eu penso que o amor não seja isso. É mais, muito mais. Amar é dar o que não se tem, já disse Lacan. Sempre achei o amor platônico algo estranho: é ter a musa e não tocá-la, o que me faz concluir que, ao toque, acaba-se o encanto, destrói-se o amor, vira-se outra coisa.

Sê bem-vindo, Paulo, gostei do teu texto, gosto deste tipo de poema, viagem ácida sabe? Surreal e muito bom. Mas um tanto contraditório. Por que não há mais a visão?

Conto maravilhoso, Alessandro. A cada semana estamos sendo presenteados com contos excelentes, é ótimo esse revezamento impensado. Entrei totalmente na tua história, como se entrasse em um sonho e fosse acordado no ápice.

O Sabbi tem me surpreendido a cada semana; prova ser, além de ótimo colunista, também ótimo em contos e agora em poemas. Bons teus versos, rimas não-forçadas. Suaves como devem ser os poemas rimados. E ao mesmo tempo forte em conteúdo.

Pedro, começaste muito bem tua coluna, gostei do neologismo em circunsgrito. É engraçado como sempre temos textos que se interligam ao acaso, vejo muito do teu texto nas idéias do nosso tenente. E, se este for teu mal, não te cures nunca.

Gostei muito do texto do Luiz Maia, mas o que mais me chamou a atenção foi a frase Lágrimas são palavras que calam fundo no coração. Percebes a força dessa frase? Muito bem-construída e muito dentro do teu texto. Eu sou chorão e não tem essa de que homem não chora, é alívio em dor ou alegria. É esvaziar o peito pra encarar a batalha novamente.

Sara, gostei da construção e da desconstrução em teu poema, mas me diz: Teu processo criativo funciona como? Lê, relê e "trelê" teus escritos antes de publicá-los?

É, Marcos, tem gente que ganha pra perder. Um tanto estranha essa frase, mas me parece bem verdade. Sou fanático em Fórmula 1 desde que me conheço por gente, via Piquet ganhar campeonatos quando ainda nem sonhava em dirigir. Sofro demasiadamente com a falta de um ídolo tupiniquim no topo desse esporte. Mas vejo uma luz no fim do túnel. O nome? Nelson Ângelo Piquet, ou Nelsinho Piquet, se preferirem. Aguardem!

O que dizer sobre Arnaldo Baptista depois desta bela explanação do Roberto Iwai? Não há muito a ser acrescentado, apenas considerações. Mutantes foi e ainda é uma das maiores bandas nacionais. Mas não vejo o Arnaldo como único e acho que ele não funciona tão bem sozinho - entretanto, música é coisa estranha, são vibrações que chegam aos nossos ouvidos e decidimos se nos agradam ou não. É extremamente pessoal, só isso já explica o motivo de haver tantos e tão variados estilos musicais. Sê bem-vindo, espero trocar muitas "figurinhas" sobre música contigo. Pois não vivo sem música.

Só reforçando a campanha do nosso tenente: Vamos viver, sentir, sorrir e chorar!

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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