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29/09/2004 - Edição número
95
O Patati
é aqui...
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Indefesa comilança
Um dos momentos em que nós, seres humanos,
estamos mais desprotegidos é aquele em que acabamos
de ter servido em nossa mesa o prato que havíamos
solicitado no restaurante.
Pois, é justamente naquela hora em
que os olhos estão voltados para a refeição
que antecipamos em imaginação nos minutos
que antecederam, que os odores primeiros que se desprendem
do manjar percorrem os caminhos das narinas, que as glândulas
salivares iniciam ferozmente seu trabalho e as mãos
ansiosas se dirigem aos talheres ou se entrecruzam esperando
as palavras últimas do garçom que sinalizam
o começo do regozijo:
- Mais alguma coisa?
É aí, justamente aí que
nossos sentidos se despreendem de tudo o mais que não
diz respeito àquela esperada refeição.
O ambiente à nossa volta - mesmo que por vagos instantes
- deixa de ter significado ou importância.
Em pouco tempo, a rotina de olhares em volta
pode novamente retomar seu lugar, tão cedo quanto
imediatamente após a primeira prova do alimento escolhido,
motivo principal de nossa indefesa.
Rafael Luiz Reinehr
PS: é decepcionante: fiquei 10 dias
sem computador, estando o mesmo em manutenção
para resolver um problema sério de superaquecimento
e puf! nada feito! Tempos difíceis estes nossos...
Ainda bem que lido com a vida humana... Se por acaso der
puf!, a pessoa certamente não voltará para
reclamar... $#@*&%!!!
As boas vindas para a Ana Cordeiro, que diretamente
de Portugal estréia no Simplicíssimo. Também
a nota pelo retorno do Gabriel Silveira e do Bernardo WK,
grandes participações. E, é claro,
a grande satisfação de contar com os brilhantes
e espetaculares colunistas que sempre maravilham nossas
mentes cansadas da mesmice do dia-a-dia e nos fazem enveredar
pelo mundo maravilhoso das letras e sentidose criam a história
deste que já é, em número de edições
e pela longevidade, um dos maiores sites de literatura do
Brasil.
"Bem comido, a minha alma de nada
quer saber. E nem os maiores desgostos a conseguem comover
"
Jean Molière
"Qual o melhor momento para o jantar?
'Se alguém é rico, quando quiser, se é
pobre, quando puder' "
Diógenes
"Não existe maior loucura
no mundo do que um homem entrar no desespero"
Miguel de Cervantes
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O
Julgamento de Caim
Bernardo W K |
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As lágrimas escorriam desenfreadamente
me fazendo soluçar de tanto que as engolia, meu reflexo
no espelho mostrava como os olhos podem ficar vermelhos
de sangue podre e coagulado. A pia estava gelada, tentei
enxergar-me melhor, tinha o olhar das pessoas que sabem
que vão morrer. Olhando o espelho berrei de novo,
desta vez tão alto que ecoou pelos cantos do nada.
As penumbras se tornavam escuridões muito rápido,
não pensava, ou pela dose de remédios ou pela
falta de ar. Já havia virado mais de duzentos comprimidos
de todas as tarjas. Não conseguia levantar a cabeça,
meu corpo pesava tranqüilos trezentos quilos e só
o reflexo me mantinha de pé naquele momento, por
ele só enxergava minhas mãos. Ainda apoiado
na pia, abri o espelho babando líquidos que jamais
imaginei existir dentro de mim, agarrei um vidro de alguma
coisa, o ultimo remédio do armário que antes
mais parecia uma farmácia, engoli tudo de uma vez
num susto reumático e senti meus músculos
explodindo sincopadamente. Milênios depois recobrei
minhas forças para andar. Atravessei o corredor com
pés de elefante até a porta do apartamento,
agarrei a fechadura e puxei três vezes para fugir
dali, fui cuspido escada abaixo pelo impulso contrário.
Despenquei uns quarenta degraus de mármore e azulejos.
Fiquei no chão do andar de baixo com a cabeça
aberta, sangrando e tendo alguns espasmos. Cravei os punhos
no chão, fechei os olhos de sangue e levantei. Tarde
demais, com um rombo na cabeça e todo disritmado,
percebi que só havia rolado até o descansar
da escada, me desequilibrei de bebiçe vertiginosa
e fui tragado para o centro da terra, mais quarenta degraus
de história. Mal havia arrebentado as costelas, me
levantei do chão, com a cabeça berrando o
eco da dor e os pés pesando elefantes, as mãos
em lascas vermelhas, subi os dois lances da escada pintada
de sangue, entrei em casa e fui até o quarto vomitando
órgãos vitais e arrotando células-mãe,
abri a gaveta do criado mudo, tirei o 38 e atirei na minha
cabeça da forma mais certa de morrer, por dentro
da boca, onde nada poderia sobreviver para dizer quem fui.
O tiro me desconstruiu e não me dei conta de que
ainda estava em pé quando por impulso suicida me
taquei do sétimo andar.
Acordei deitado num acolchoado roxo, vestido de festa e
sem me lembrar de nada. Haviam pessoas chorando em volta
de mim, num ato reflexo de lucidez, levantei e corri.
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Julgamentos
Salomónicos
Ana Cordeiro |
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Em 1989 Jon Elster, um dos pensadores de ciências
sociais que mais admiro, publicou a obra Solomonic
Judgments. Studies in the limitations of rationality
(Cambridge University Press). Nesta obra exploram-se os
limites de uma teoria: para demonstrar as limitações
da perspectiva da escolha racional e utilitária,
Elster propõe-se estudar o que acontece quando as
decisões são tomadas por processos aleatórios.
Qual é a racionalidade das lotarias? Qual é
a racionalidade da escolha ao acaso? - pergunta o autor.
Repare-se no interesse deste ponto de vista uma vez que
quebra a sólida ligação utilitária
entre o acto de decidir e as consequências desse acto.
Baseada nesta ideia escrevi uma história publicada
no blogue http://historiaspequenas.blogspot.com/.
Espero que aguce a curiosidade.
Julgamentos Salomónicos
Apoiou-se em mais um cigarro:
- Fazemos assim, deitamos uma moeda ao ar: se sair caras
a Presidência é para nós e se sair coroas
é para vocês.
O outro dirigente recostou-se na cadeira sem parar de rabiscar
figuras:
- Moeda ao ar não me parece francamente o processo
de decisão indicado.
- Mas é preferível do que concorrermos em
listas separadas. E uma vez que ninguém abdica do
lugar de presidente… uma vez que não chegamos
a acordo ao fim de três horas de discussão…
O outro parou de escrevinhar:
- Tira-se à sorte? Já mediste bem as palavras?
Os associados vão votar, convencidos que exercem
um direito de opção, depositam a sua confiança
nos candidatos e afinal esses candidatos são escolhidos
à sorte: tanto podia ser este como aquele... É
a mais completa inversão de valores. Ora nós
não podemos transformar uma eleição
numa escolha arbitrária. Imagina que alguém
descobre como as coisas se passaram. Com que cara é
que ficamos?
O fumador coçou atrás do pescoço. Depois
chegou-se à frente e contra argumentou:
- De qualquer modo os eleitores participam sempre em escolhas
feitas por outros. Votam em listas e quem faz as listas
somos nós. Lamento mas é assim que as coisas
funcionam. Vivemos numa democracia representativa e não
numa democracia directa. Além disso esqueces um pormenor
fundamental: a partir do momento em que alguém mostra
vontade em eleger determinado presidente o que era uma escolha
aleatória converte-se numa escolha intencional. A
última palavra cabe aos eleitores. Eles eliminam
o acaso.
A ideia era razoável e estava satisfeito por ter
utilizado as palavras "aleatório" e "intencional".
O outro, porém, não se deu por vencido:
- Segundo esse teu raciocínio, se o lançamento
da moeda favorecer o pior candidato, os eleitores vão
acabar por julgar essa decisão.
O fumador concordou mas o dirigente fez questão de
repetir a pergunta de modo a obter uma resposta claramente
audível:
- O candidato é mau, portanto não o elegem.
É isso?
- Em princípio, sim.
- E quem é o responsável pelo fracasso? A
moeda?
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Soneto
da lembrança
Gabriel Mingo Silveira |
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Não fossem teus olhos profundos
como é profundo o por Netuno presidido,
outros olhos talvez me fizessem encanto
e por rasos mares talvez fosse coagido.
Não fosse teu lábio o mais saboroso
tal qual a mais saborosa das frutas a brotar,
outros lábios, por certo mais desgostos,
no amargo contemplariam o meu beijar.
Não fossem teus negros cabelos,
mais negros que o firmamento estrelado,
outros fios, mais secos, mais mortos,
à diurnidade obscura me fariam condenado.
Não fosse tua face linda
de beatitude não esperada
Eu estaria ainda no que finda.
Não estivesse, em tua alma tenaz,
minha poesia perdida, ainda,
eu cairia, morto desta paixão Ferraz.
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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O último do Zaragalli
Até onde eu me lembro, a perspectiva sobre o lançamento
do último do Zaragalli foi, como sempre, cercado
de toda a expectativa tão típica que sempre
cercou um lançamento do Zaragalli – resultado
dos incessantes apelos que a mídia, amante do que
fosse que Zaragalli estivesse despejando no mercado, se
apressava em veicular de todas as maneiras. O próprio
Zaragalli não se esforçava em mostrar-se tímido,
modesto, ou o que quer que fosse que pudesse emprestar uma
aura de intelectualidade reservada a mais um dos seus lançamentos.
Ele fazia o tipo participante, sempre disposto a uma fotografia
junto a um de seus contemporâneos, a um drinque de
última hora em uma coletiva organizada às
pressas no lobby de algum grande hotel da cidade.
Zaragalli era assim, e respeitávamos aquele jeito
dele. Na verdade, somente alguns de nós aprendeu
a acostumar-se verdadeiramente com este seu novo método
mais propício às necessidades do mercado.
Se nem todos sabíamos nos adaptar ao mercado –
e se você conhecesse Zaragalli na época em
que nós o conhecemos, é provável que
estranhasse a súbita mudança de comportamento
de Zaragalli, tanto do ponto de vista artístico quanto
logo depois, quando com mais uma de suas obras já
concluída, ele se mostrava como o mais disposto do
mundo para lançá-la com todo o estardalhaço
possível. Era previsível, no entanto, que,
conforme a ascensão de Zaragalli se mostrasse mais
e mais contundente a todos nós que acompanhávamos
desde o princípio a enorme cena que se formava ao
seu redor, começasse a ficar cada vez mais claro
que eram os reais seguidores de suas propostas, quem compactuava
com as suas idéias ou quais aqueles que somente até
o momento haviam se aproveitado de sua sombra promocional
para tentar crescer sem, contudo, deter metade das qualidades
que Zaragalli sempre demonstrou ter em cada uma de suas
realizações.
Eu, que acompanhei desde os seus passos iniciais, com a
distância crítica de um colega de atividade,
– apesar de portadora de afeto, que, como amigo de
Zaragalli não deixaria de ter – poderia ser
uma das testemunhas mais isentas sobre todo o seu método
de criação. Chegar naquele momento, às
vésperas de mais um lançamento que estava
para se fazer, com toda a pompa a que Zaragalli ultimamente
tinha direito, de acordo com os mimos possibilitados por
seus patrocinadores e parceiros em seus projetos, trazia-me
à tona o ritmo enlouquecedor que tomava conta de
seus dias quando sua obra estava prestes a se tornar táctil,
apresentável a todos aqueles sedentos por apreciá-la,
com gana mais e mais voraz. Por que as obras de Zaragalli,
a bem da verdade, possuíam estas duas capacidades
tão intrínsecas quanto díspares: ao
mesmo tempo em que provocava engulhos em uma parcela dos
que o acompanhavam (e, convenhamos, sempre houve um prazer
mórbido naqueles que chegam a acompanhar com tanta
obsessão os que são frutos de seu ódio,
pelo simples prazer de poder odiá-lo mais e mais,
conforme mais uma de suas obras é lançada),
naqueles que o rechaçavam de toda forma, inclusive
através de organizações que se uniam
para tentar apontar defeitos em cada elemento pertencente
às suas criações, havia aqueles, lógico,
fiéis seguidores de todas as etapas que envolviam
a sua arte. Zaragalli, sempre solícito, atendia de
braços abertos a estes últimos, não
se portava como um ídolo longínquo; seguidas
vezes podíamos encontrar Zaragalli participando de
animadas mesas nos mais baratos botequins, somente por que
algum de seus admiradores o encontrara de passagem, e Zaragalli
não resistira ao pedido para que se sentasse e dividisse
com eles algum acepipe ou uma rodada de cerveja. Era este
o tipo tão peculiar de Zaragalli: considerado um
gênio por tantos, aclamado por críticos até
então tão sedentos de um realizador do porte
de Zaragalli, e, ao mesmo tempo, tão simples e modesto
em suas ações, tão próximo de
seu público.
É notável que até este seu aspecto
poderia servir de mote para aqueles que gostavam de acusar
Zaragalli de demagogo, falso amigo do proletariado, amante
mentiroso dos pobres. Volta e meia teciam considerações
nem um pouco amistosas sobre o caráter excludente
de suas obras, sobre a falta de representatividade dos marginais
em suas realizações. Do quanto Zaragalli era,
na verdade, um sádico, um aproveitador da ilusão
daqueles que gostavam de sentir-se, nem que fosse por um
momento apenas, o mais próximo possível de
uma estrela da elite. Chegaram a chamá-lo, certa
feita, de vampiro! Que sua fonte criadora era sugada da
retumbante alegria que, não obstante tantos dissabores,
sempre continuava presente no coração dos
menos favorecidos.
Tantas acusações! E eu, mesmo ciente de
toda a verdade a respeito dele, tinha que me manter quieto,
cumpridor de meu princípio de discrição.
Se o acusavam em minha frente, e muitas vezes isto me doía,
forçava-me a um silêncio pontiagudo. Eu tinha,
conforme o próprio Zaragalli havia me incumbido,
de guardar segredo sobre a sua vida. Espantava-me, a bem
da verdade, este teto de vidro tão resistente com
que Zaragalli se mantinha durante toda a sua carreira. Recebia
tantas pedradas de um lado, tantas acusações
vãs, tanto ódio gratuito, tanto crítico
querendo se autopromover a inventar as mais sórdidas
teorias a respeito de um passado não-sabido de Zaragalli;
ao mesmo tempo, penso que o que continuava a manter Zaragalli
no topo de sua categoria de realização, era
o carinho que recebia, não obstante, daqueles que
sempre foram seus fiéis apreciadores, seus verdadeiros
e não vis admiradores, aqueles capazes de encontrar
em suas obras toda a significância que Zaragalli fazia
tanta questão e sentia-se tão feliz quando
encontravam.
Como definir um verdadeiro gênio? Como separar do
meio de uma horda de fraudes intelectualóides aquele
que não pretende engambelar o público com
meia dúzia de idéias prontas, com meandros
enganosos, com meias-voltas confusas e soluções
forçadas? Pessoas assim eu encontrava aos borbotões
nos meios em que, junto com Zaragalli, acostumei-me a participar.
Criadores que se divertiam ao empregar soluções
tão complexas que a própria crítica
não se atrevia a contestá-los com medo de
ser tachada de ignorante, não percebedora. Se optavam
por análise sobre um viés depreciativo, estas
fraudes travestidas encarregavam-se de dizer, através
de suas assessorias de imprensa, que o crítico era
um néscio, um desconhecedor do princípio básico
de composição de sua arte, que não
servia nem mesmo para servir cafezinho, que dirá
tecer críticas argumentativas sobre sua obra! E os
críticos, pobres, acabavam caindo no ostracismo,
assustados com sua própria falta de visão,
deportados a comentários em colunas sociais e outras
trivialidades.
É fácil concluir que este era outro dos
motivos por que festejavam tanto Zaragalli. Custa-me muito
lembrar de quando Zaragalli conseguiu ser violento com um
crítico que fosse! Sempre optou pela mediação,
por aceitar – não com passividade, comiseração
ou demagogia, mas como opção, mesmo –
as outras possibilidades analíticas sobre a sua obra.
Afinal, compreendia as nuances diversas de percepção
que podem envolver um olhar sobre o que realizava com tanto
prazer e dedicação. E, uma vez as críticas
não sendo gratuitas, rançosas, ainda que distantes
de uma verdade com a qual concordasse, Zaragalli se recolhia
em um mutismo simpático e continuava a sorrir e a
manter-se agradável com todos.
Desta maneira, como não enchermo-nos de expectativas
às vésperas do lançamento do último
de Zaragalli? Da mesma maneira que o que o podia aguardar
era uma cadeira voando em sua direção de algum
de seus detratores, sabíamos aquilo o que, com certeza
não iria faltar: uma multidão que parece não
ter mais fim de ansiosos fãs, verdadeiramente cheios
de vontades de, em abraços, beijos e afagos, resumir
toda a felicidade que somente a obra de Zaragalli era capaz
de lhes proporcionar.
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
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Vale a pena LER de novo?
Parece incrível, mas depois de mais de 365 dias
eu bem que poderia repetindo exatamente o mesmo texto da
edição 42, intitulado “Transgênicos,
da Revolução Farroupilha ao cinema de Schwarzenegger”.
Entre uma viagem e outra (nos países ou nos seus
discursos mesmo) Lula ora diz que assina, ora recusa uma
medida provisória. E lembro que já estamos
provisórios há 1 ano. Pior, encontra-se numa
difícil disputa de beleza entre os textos da Câmara
e do Senado e as idéias de Rigotto e Requião.
Com toda cautela, vai pisando nos ovos do agricultor que,
imagino eu, não tenha ficado esperando pelo “pátrio
poder”. E não pára por aí: nesse
país de constituição exemplar e exemplo
desconstituído, ainda não se sabe o tema é
de competência da Comissão Técnica Nacional
de Biossegurança (CTNBio), do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA),
do Movimento dos Sem-Terra (MST) ou do Partido Verde (PV).
E quando tudo parecia bem ou mal encaminhado, a votação
da Lei de Biossegurança não acontece e você
já deve imaginar o porquê. “Os senadores
começaram a deixar Brasília na quarta-feira
e na manhã de ontem, para participarem das campanhas
municipais.” Redige Luis Renato Strauss, jornalista
da Folha de S.Paulo, na sexta-feira (17/09/2004), dia seguinte
ao que deveria ser realizada votação. Parece
que a vontade de ser político supera de longe a de
fazer política. Aliás, fazer o que não
se sabe é uma regra escancarada nessa bagunça
toda. Falta espaço para pitacos, emendas, substitutivos
e afins.
Como se pode ver, o assunto segue sendo tratado como uma
obra política destituída do auxílio
da ciência e receio que pouco se possa ressaltar como
mudança desde aquele meu texto original. A não
ser, quem sabe, a vitória de Schwarzenegger para
o governo da Califórnia.
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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 16/X
Sou o cara, não nego
não gosto de nego
isto faz bem para o meu ego
Faroeste 3/X
Tenha isto em mente
Só mais um pouquinho
não é suficiente
Tempo Tinha
Falar sobre o universo da comunicação
é muito complexo, justamente porque muita gente acha
muito simples. Não nos entendemos nunca, de jeito algum.
Sempre temos que nos dar conta disto, pois, normalmente, nosso
interlocutor vai achar que está entendendo tudo o que
dizemos ou escrevemos. Vamos por partes, já diria o
Jack. Veja o título: muitas pessoas podem pensar bobagens,
em um texto que vai falar sobre o tempo. Só sobre isto.
Certamente você já ouviu todas aquelas baboseiras
sobre quanto vale um segundo, um minuto, um ano etc.
Tudo isto é relativo, diria nosso amigo Einstein.
Já o dono de uma emissora de rádio e tv sabe,
mais do que ninguém, o valor do tempo. Para ele, não
tem volta. Se não entrou no ar naquele segundo, é
dinheiro que escorreu pelo ralo.
E o seu tempo? Você faz coisas úteis com ele?
Ih! Pergunta tola! Todo mundo aproveita o seu tempo da melhor
forma possível. Basta saber que estou fazendo este
texto as 3 horas e 20 minutos da quarta-feira. Sim, do texto
que deveria ter sido publicado a meia-noite.
Acontece. E é muito triste. Talvez você seja
daquelas pessoas que o tempo está sempre ao seu favor,
ou você a favor dele. Sim, você pode ser uma daquelas
pessoas que chega sempre nos compromissos alguns minutos antes,
com toda a calma do mundo. Pois saiba que tenho inveja de
você.
Quando fui para a Austrália, comecei a fazer minhas
malas às 18 h e 10 minutos. O processo foi muito rápido.
Às 18 h e 45 min eu já estava com elas prontas.
Foi ótimo, afinal de contas, tinha que estar no aeroporto
às 18h. Pelo menos embarquei.
Minha amiga Wilsi, de Curitiba, disse que não consegue
seguir ao pé da letra os conselhos de um amigo, o Raphael
que diz que tempo é uma questão de preferência.
Tenho que concordar com ele. Gosto de dar tempo ao tempo.
Pena que nem todos entendam o tempo como eu.
Uma vez tive uma conversa muito séria com um amigo
em Porto Seguro. Ele me disse que estava lá, na terra
da festa, há quase uma semana e não tinha conseguido
transar. Então eu disse:
Caro amigo, não conseguiste transar de babaca, pois
aqui Tempo Tinha.
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Transcender
O dia-a-dia da maioria dos seres humanos é de muita
luta. Absorvidos com a lei da sobrevivência, pouco
tempo lhes sobra para conseguir um padrão de vida
com um minimo de dignidade. Em lugar de receberem estímulos,
as pessoas interagem diariamente com o pessimismo imposto
por centenas de más notícias, que as conduzem
por caminhos cinzentos que levam à frustração.
Os homens carecem de boas notícias que ampliem a
esperança em seu coração, afastando
em definitivo o fatalismo que vem justificar o porquê
de o mundo ir de mal a pior. Enquanto muitos ficarem indiferentes
à necessidade de se interagir mais com a natureza,
a qualidade de vida da humanidade e do Planeta estará
comprometida.
Abdicar da verdadeira essência da vida é um
preço alto demais que os homens pagam por não
mudarem seus conceitos de vida. É preciso transcender
às questões menores, inerentes ao corriqueiro
dia-a-dia em busca do quantitativo. Tem-se que crescer na
escala de valores.
Ser feliz, fazendo os outros igualmente felizes, visar
sempre o bem-estar comum, são metas que todo ser
humano deve buscar para si. Para isso é necessário
compreender de transcendência, traduzida pela criatividade
e pelo amor. Amor holístico, que abrange todas as
formas do que é benigno.
Inteirar-se, como ser e cidadão, de sua infinda
responsabilidade com a vida do Planeta.
Transcender é canalizar a energia do sonho e da esperança
no bem em tudo que é amável, decente e construtivo.
Ao contrário daquilo que alguns imaginam, transcendência
nada tem a ver com o sobrenatural. Significa adotar costumes,
em geral simples e práticos, que fogem aos padrões
estabelecidos pela sociedade industrial e moderna, que preocupa-se
apenas em oferecer conforto, luxo e superficialidades ao
conjunto da população, indo de encontro aos
verdadeiros desejos e carências da humanidade.
Transcender é a necessidade prazerosa que temos
em observar, por exemplo, a natureza com a intimidade de
quem desfruta de amor pela vida. É contemplar o amanhecer
e beijar o sol que aquece a nova manhã. É
meditar e refletir na inteireza do Universo e sentir-se
parte integrante dele.
Transcende aquele que reconhece sua responsabilidade perante
o meio ambiente e tudo faz para preservá-lo. Saber
transcender é alimentar-se sem pressa ao mastigar,
fazer da alimentação um prazer e agradecer
a Deus pela comida, de forma emocionada.
Você transcende quando ama as pessoas sem preconceitos,
quando contempla um pôr-de-sol, quando ouve uma música.
Transcender é estar eventualmente triste e, mesmo
assim, alegrar-se com a felicidade do outro. Uma maneira
valiosa de transcender é quando você ora agradecendo
ao Pai pela ventura da vida!
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Tempo honesto
O tempo todo, o todo inteiro.
Inteiro o sonho, o sonho imenso.
Imenso o verso, o verso insano.
Insano o vento, o vento incerto.
Incerto o preço, o preço certo.
Certo o apego, o apego inverso.
Inverso o meio, o meio esperto.
Esperto o tempo, o tempo honesto!
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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São Paulo, 28 de setembro de 2004.
O início do caos
No princípio eram só as trevas,
o nada, ou o tudo. O Big Bang, o estalo do Criador, a obra
prima do acaso, ou qual seja a denominação
a que quisermos dar a isso, mas sabemos que algo aconteceu...
Enfim, muito tempo se passou, e aquele macaquinho, morto
de fome, cansado da dieta de brotos e folhas de árvores,
desceu, arriscou-se, foi atrás de alguma coisinha
mais suculenta. Pode até ser que o primeiro não
conseguiu seu intuito, então um segundo desceu, tentou
de novo, e foi devorado por um faminto tigre dente de sabre.
E assim foi, um a um, descendo e morrendo.
Então, um dia, ninguém saberia dizer o por
que, resolveram descer dois, não apenas um, daquela
árvore. E, enquanto um distraía o tigre, o
outro conseguiu pegar do chão alguns petiscos diferentes.
Não precisamos nem contar que o outro infeliz morreu
abocanhado.
Mais alguns séculos, e descobriram que, se descessem
todos, apenas um seria sacrificado, e o restante cumpriria
com certa tranqüilidade a tarefa de pegar da terra
o melhor alimento. Pouco tempo foi necessário para
que esse macaquinho transformasse a ameaça dos predadores
em seu próprio alimento. Organizaram-se, evoluíram,
e dominaram todo o planeta.
Enfim, agora, dono do reino inteiro, outra ameaça
surgia. O maior inimigo do frágil primata era ele
mesmo. Agora nem tão curvado, braços mais
curtos e ágeis, pernas bem melhor equilibradas, e
um cérebro que conseguia raciocinar, faziam dos mais
espertos os líderes. Estes aproveitavam-se da ingenuidade
de seus súditos, e gozavam de sua soberania com desdém.
Chegou então o tempo em que os dominados dominaram,
e trocavam o dono do poder por outro menos injusto, sucessivamente
(matando-os, é lógico), pois a necessidade
de ter alguém a obedecer sempre existiu. Certa feita,
algum grego sem muito o que fazer, contemplando as maravilhas
da natureza, disse que o povo precisava se organizar para
escolher seus representantes legítimos. Ouviram-se
gargalhadas, alguns quiseram matá-lo (talvez tenham
conseguido, quem sabe?), mas, enfim, alguns séculos
depois, uma tal de Democracia já fazia parte da vida
da maioria dos habitantes deste planeta.
Neste ponto, era necessário que se identificassem,
no meio da medíocre população, algum
líder, capaz de guiar aquela coletividade de almas
ao caminho do progresso. E muitos perceberam que, deste
meio, seria fácil aproveitar-se das honrarias do
poder, em benefício próprio. E isso verifica-se
até os dias atuais, e, para nosso desespero, ainda
muito se verificará...
E criou-se o horário eleitoral, os debates na TV,
o voto obrigatório, e a sensação de
que, por mais que tentemos dar crédito à política,
menos ela nos ajuda, menos ela nos corresponde, menos ela
nos acode... Dizem alguns, que o único bom político,
que nasceu com o dom da justiça, com o carisma e
a aceitação de seu povo, com o dom da palavra
e atos, com o poder de convencimento jamais vistos, foi
crucificado, e, daí pra frente, nenhum outro líder
seguiu seu exemplo... Não duvido não...
Hoje, olhando a patifaria que se transformaram as disputas
políticas, principalmente nessas épocas eleitorais,
as mentiras de todas as partes, o jogo sujo, o uso da ingenuidade
das massas, as mesmas carinhas de santo, as promessas que
entendemos impossíveis, mas que convencem, sinceramente,
chego a maldizer aquele bendito macaquinho, que desceu da
árvore para tentar uma vida melhor...
Cito o Barão Vermelho, num momento de felicidade:
“... invejo os bichos, invejo os bichos, que no mundo
não procuram nexo. Vivem em paz, sem ganância
ou capricho, e só brigam por comida e sexo...”.
Quero ser desmentido, ajudem-me...
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Musicalidade
de povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
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Noventa e nove por cento dos americanos e
europeus ouviram
este disco, e com ele aclamaram a glória do
renascimento de Tom Zé (que vai lá
saber se eles caso
sabiam). Noventa e nove por cento dos brasileiros
bradavam Tom com a classificação
de "São, São Paulo"
nos anos 60.
Dez por cento assistiam Tom Zé antes
do lançamento de Com Defeito de Fabricação,
o disco que sucedeu The Hips Of Tradition (As
Ancas das Tradições, no português).
Mas o bem da verdade é que The Hips Of
Tradition foi o álbum que auxiliou Tom a
solidificar a escalada, que o levou aonde está hoje.
Nos primeiros shows de Zé que eu fui, não
conhecia muitas das músicas, por essas pertencerem
a esse disco, e eu
ainda não conhecer.
(Há o episódio em que paguei
muito caro pela versão importada,
porque o Brasil oh vergonha tinha retirado
de catálogo. E colocado logo depois
que desembolsei
muito pelo cd...)
Quase metade dos shows de Tom até o
lançamento de Jogos
de Armar, o disco que sucedeu Com
Defeito de Fabricação
(fabrication defect, no inglês)
foram baseados em The Hips Of
Tradition. Que é um grande álbum.
Porque Nave Maria, o disco que antecedeu
The Hips..., também
era. Mas como em Estudando o Samba (disco que antecedeu
todos aqui citados), não
houve abertura popular. E nunca houve, desde a época
em que "São, São Paulo" ecoava como
grande
sucesso e grande vencedora, pelo noventa e nove por cento
dos brasileiros.
The Hips Of Tradition trazia o que
Estudando... trazia: canções que
não eram
convencionais, comparado aos (grandes) sambas que Tom Zé
compunha em 72. Um caminho que, acredito eu, era o que Tom
queria.
E The Hips... trazia o que Nave Maria
já trazia: grandes canções. Se "Nave
Maria", a música, era uma das composições
mais impactantes de Tom,
"Ogodô, Ano 2000" era a música mais
verdadeira de Zé.
Competindo com "O Pão Nosso de Cada Mês"
(dizendo ironicamente "Passarei/esta década/Num
chiqueirinho bem burguês/Comendo/Minha
culturinha de massa todo mês/Sentado no sofá
da sala"), que em show, vira um festival de esmeril,
faíscas, luzes apagadas, leitura do jornal do dia,
e afins.
O mesmo para "Lua-Gira-Sol", que é canção
que dá aberturas totais para uma representação
de uivos, metáforas, pacto com a platéia,
o grande show mesmo de Tom Zé. Onde tudo é
o que não deveria ser, e mesmo
assim, deveria ser o que todos não são.
O disco ainda traz a bela releitura de "Taí",
clássico da música brasileira, que dura pouco
apenas porque as coisas boas da vida duram pouquíssimo.
As mais inspiradas canções de amor (podendo
acreditar no
estilo único e realmente amoroso no sentido de amor
sem falsidades) de Tom Zé estão representadas
por "O Amor é Velho-Menina", ou "Sem
A Letra 'A'" ("Sem você
nem tristeza teremos/Pra nos lamentar/Sem você nem
morrer de saudade/Nem mesmo chorar/Pois não há
chorar/(...) Palavra vazia ninguém mais namorará").
Noventa e nove por cento dos americanos e
europeus ouviram The Hips Of Tradition, mas não
sabiam realmente o que havia acontecido para ter o subtítulo
de "The return Of Tom Zé". Dez por cento
dos brasileiros ouviram, clamavam a volta. Outros nem lembravam,
outros não queriam lembrar.
O mundo em 1968 só estava aberto a
melodias bonitas e rimas perfeitas. O disco de estréia
todo de Tom Zé é perfeito em todas as formas.
The Hips Of
Tradition é perfeito por inteiro. Todo mundo
que já foi em show de Tom Zé já ouviu
quase o disco inteiro. Não é mero álbum
de retorno, é um grande trabalho.
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Ombudsman
Alessandro Sachetti |
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Não queira limitar-se!
Vamos juntar nossas lápis e pintar
nossos dias com cores que nunca usamos. Não importa
quantas cores você tenha, o segredo é o que
você faz com elas. Não se preocupe em colorir
somente dentro das linhas. Pinte por fora das linhas e fora
das páginas. Não queira limitar-se! Nós
nos movemos com o oceano, não estamos ancorados!
A viagem não requer explicações, apenas
passageiros. Siga!
Luiz, concordo quando dizes que é mais fácil
se esconder atrás de belas palavras, mesmo que vazias;
só não te enganes (e isso serve para todo
mundo) e não penses que todo o simples é belo
ou que todo texto difícil é feio.
Triste Dona Bia esperando o fim, vive como se já
tivesse morrido, não é, Camila? Bom texto.
O tema, sempre recorrente – desigualdade em nossa
nação. Bom trabalho, Haroldo, mas tomes um
pouco mais de cuidado para não caíres tanto
em lugar-comum nem usar muito os chavões. Pode acabar
cansando quem lê; afinal, nada do que disseste é
novidade para nós brasileiros.
Alexandre, achei teu conto muito peculiar, me lembrou muito
o filme Dogville, de Lars Von Trier, pela maneira como é
narrado, pela lentidão do que não acontece,
pela repetição do “Santa Teresa do Bem
Aventurado Coração de Jesus”. É
um bom texto, e a maneira com que escreveste acentua bem
como as coisas aconteciam no lugar. Outra maneira que não
fosse essa, outro ritmo que não esse, deixaria um
tanto sem sentido, ou pelo menos daria um outro sentido
– que, imagino, não seria o certo.
Eduardo, eu penso que nós somos o grande quebra-cabeça
a ser montado, que cada pessoa que passa por nossa vida
nos atribui uma nova peça ou até mesmo muda
a disposição do que somos, a maneira como
somos construídos, os valores, o número de
peças, enfim.
Há muito desisti de entender, ou tentar entender,
alguém por inteiro, aprecio a companhia ou não,
resolvo se aceito ou me mando. Talvez aceitar seja ainda
mais difícil do que entender. Mas nem tudo precisa
ser entendido, não há razão para dar
sentido a tudo o que acontece. Deve-se apenas sentir mais,
não atropelar os sentimentos. E quem sabe assim o
quebra-cabeça que sou fará mais sentido em
existir. Não sei ao certo, mas é o que penso.
Grande Pedro, ficamos de conversar sobre o texto e acabou
que não falamos antes de eu mandar minha coluna ao
nosso tenente. Mas, vamos lá. Sou tão feliz
no meu trabalho que quero deixá-lo ontem. Nesse momento
estou no trabalho, mas não há trabalho por
ora. Então aproveito para escrever minha coluna,
pensando parado, pois assim penso melhor, tal qual dizia
Raul. Mas não é o parado em relação
a movimento que importa, mas é liberar o pensar,
como tu mesmo disseste: deixa fluir.
Também li o Ócio Criativo de Domenico de Masi,
e aprendi muito pouco para a vida prática. A teoria,
sim, é interessante. Mas na prática funciona
pouco, ou talvez eu não tenha entendido direito a
idéia. Intriga-me muito a frase do autor: Quem trabalha
muito não tem tempo para ganhar dinheiro. Antes fosse
simples assim; isso cabe, a meu ver, aos gênios, que
precisam do ócio mesmo para criar. Concordo que meus
melhores textos foram criados no ócio total, mas
mesmo o ócio inspira tanto ou desmotiva ainda mais?
Tudo depende do estado de espírito.
Luiz Ribeiro, eu sou pai, sei quão complicada é
essa tarefa, ao meu ver teu texto tem acertos e erros, e
ainda bem, pois acertar em tudo é muito chato –
se tudo fosse acertado, do que eu falaria agora? Os pais
nos preparam para muitas coisas, mas muitas coisas apenas
nós podemos fazer e descobrir. Nunca te atrevas a
pular todos os obstáculos por teu filho, é
um erro. É preciso aprender errando, mas errar com
o filho não é uma boa idéia. A família,
penso eu, está falida há décadas. O
pai repressor, a mãe protetora são erros gigantes
que tentamos corrigir e separar de nosso âmago. Amor
demais faz mal.
Sara, gostei muito desse poema, muito bem-construído,
há harmonia entre as linhas, estrofes. Tudo bem feito
e tudo em seu lugar. Levado com calma.
Quanto à pergunta que me fizeste na edição
anterior. Acho importante rever a maneira pela qual escrevemos,
nem sempre é bom reler/refazer/reconstruir um texto.
Tudo é sentimento quando tu escreves? Ótimo,
continua assim, és mais visceral. É mais emoção
ou mais razão pra escrever? Tudo depende de como
crias teus textos. Há maneiras para treinar, o mais
importante é saber quando parar, quando dar por acabado
teu escrito. Às vezes ao se insistir em continuar
comete-se o erro fatal e o texto perde o sentido quando
já devia ter acabado.
Caro Marcos, belo texto, percepção de realidade
ao extremo, relato das pequenas coisas que fazemos todo
dia e a que nem sempre damos atenção. O que
descreveste é mais um processo automático
do que prazeroso, por mais que se usem produtos interplanetários.
Há cem, duzentos anos a expectativa de vida era de
30, 40 anos. Hoje um tanto mais, 60, 70 – em alguns
países, até 80. Mas me digas, o que perdemos
e o que ganhamos?
Roberto Yukio, por sorte fui apresentado a várias
das bandas que citaste há algumas semanas, bandas
gaúchas, coisas que raramente chegam até aqui
hoje em dia. Júpiter Maçã foi uma bela
surpresa. Weezer, que faz um punk-rock aveludado, surge
como uma das grandes bandas do cenário mundial e
influencia muito pelo estilo nerd de ser e pelo nova tocada
punk. Agora, como falaste do cenário porto-alegrense,
onde fica a banda Cachorro Grande nessa história?
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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