Simplicíssimo
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Editorial

Uma Aldeia chamada Linguagem

Querido amigo Hiperativo Confuso:

Como havia lhe prometido, estou escrevendo sobre esta nova terra que acabei de conhecer. Nem lembro direito como cheguei a ela, acho que foi depois de dobrar à direita após uma ravena passando uns cinqüenta quilômetros do Himalaia.

O que importa é que tudo transcorreu bem e agora estou aqui, pronto para seguir jornada para mais uma aventura. Mas antes, tenho que lhe falar deste povo que conheci e de seus costumes.

Viviam em uma Aldeia hermeticamente fechada chamada Linguagem.

Me disseram que seus ancestrais eram todos de origem grega.

Cada qual com sua função, seu porquê, seu destino. Dividiam sua comunidade entre os trabalhadores braçais, os responsáveis pelas idéias e os donos da palavra.

Dentre os primeiros, quem conheci logo na chegada à Aldeia foi Elipse, um funcionário público difícil de encontrar em seu local de trabalho. Quando ia às compras – que foi quando lhe conheci - tinha a mania de perguntar o preço de tudo, mesmo sabendo que não iria comprar:

- Quanto custa? (o sapato)
- Quanto custa? (o abajur)
- Quanto custa? ( a garrafa de vinho)

Elipse tinha um irmão chamado Zeugma. Este irmão era singular em um aspecto: detestava repetir qualquer coisa que já houvera dito anteriormente, mesmo de forma oculta. Dizia:

- Eu te conto uma piada, você me conta outra.
- Outra o quê?
- Grrrrr! – resmungava, já irritado.

Vizinho de Elipse e Zeugma, Polissíndeto é empregado de uma fábrica de calçados, onde é responsável por unir a sola com a base dos sapatos. Seu irmão gêmeo, Assíndeto, trabalhava na mesma fábrica, e revisava calçados que não ficavam bem ligados pela cola que era usada.
Dizia Polissíndeto, quando brigava com o irmão:

- Estou cansado de chorar e sofrer e perder e me conter e de ouvir e ocultar e viver.
Ao que lhe respondia prontamente Assíndeto:
- Pois então, chorando, sofrendo, perdendo, contendo, ouvindo, ocultando, enfim, sentindo é que vou levando a vida assim, feliz!

Pleonasmo trabalhava no depósito de lixo da comunidade. Lá tinha o que fazer em abundância. Como não tinha estudo, ficava repetindo o que os outros diziam e, ainda, repetia a si mesmo para reforçar suas idéias. Bradava:

- Naquele dia em que roubaram os galináceos do padre Metáfora, vi claramente visto o ladrão.

Ou ainda, nos dias em que bebia um pouco além de sua capacidade de metabolizar o álcool:

- Não vejo a hora de entrar pra dentro de minha casa e subir para cima até meu quarto e capotar na cama.

Pleonasmo era apaixonado por Iteração, cujo apelido carinhoso era Repetição, com a qual tinha muitas afinidades de idéias:

- Como é triste, triste mesmo e muito triste este mundo, não achas, Pleonasmo? Não quero um mundo assim, pobre assim, triste assim...

Pessoa estranha era a professora Anáfora: tinha o cacoete de começar todas suas explicações com “se”:

- Se você somar dois mais dois, temos quanto Subjetivo?
- Se as nuvens são feitas de vapor d’água, quais são os elementos que formam a nuvem, Oração Subordinada?
- Se você cantasse
Se você gritasse
Se você urrasse
Se você esperneasse, alguém te ouviria!

O arquiteto Anacoluto, esposo de Anáfora, era um sujeito quase incompreensível. Suas frases pareciam sem seguimento, davam a impressão de não conter uma ordem lógica:

- Estamos aqui, a construir este prédio. E veja, o Sol desce calmamente no horizonte enquanto a humanidade desfalece prematura. As pessoas, os tijolos...

O melhor amigo de Anacoluto, Hipérbato, parecia ter saído daqueles livros de antigamente pois falava de forma invertida, o que todos achavam muito engraçado:

- Pois então, Lutinho, te dizia, é a liberdade, branca que nos põe a caminho.

Um dos lugares que os amigos mais gostavam de ir nos fins-de-semana era a casa de campo de Hipérbato. Lá, vim a conhecer o caseiro, que se chamava Aliteração. Já na chegada, fomos extremamente bem recebidos:

- Faz favor, feche o ferrolho! Fico feliz fazendo faisão com feijão para a família se fastiar!

A esposa de Aliteração, dona Silepse, fazia um faisão com feijão de deixar a boca, os olhos e os ouvidos abertos. Era uma pessoa muito compreensiva e sensível, sabia o que seu marido queria dizer só pelo olhar.

- Benhê, leva um casaco para seu Anacoluto e dona Anáfora, já que o casal esqueceram que vai esfriar. Aproveita e leva um para seu Hipérbato, que é um criança e se resfria fácil. Se não, eles vão pensar que a gente somos sem alma e inútil.

Nas bibliotecas e cafés filosóficos da comunidade, se concentrava a nata do pensamento da Aldeia: os filósofos, físicos, cientistas sociais e outros teóricos.
A mais antiga representante do grupo, a filósofa Ironia era quem mais questionava o grupo. Era um ponto de interrogação em pessoa. Vivia dizendo o contrário do que pensava, satirizando e questionando o comportamento dos outros com a intenção de ridicularizar.

- E então caro amigo Eufemismo, deves sentir-se bem com seu belo par de novos chifres.
- Não fale deste jeito, Ironia. Eu e minha esposa, desde sempre nos entendemos muito bem. Nos últimos tempos apenas descobri que a compreensão dela é um pouco mais ampla.

Ao qual intrometeu-se o químico Hipérbole:

- Se eu estivesse em seu lugar Eufemismo, já haveria de ter posto fim à minha vida. Setecentas mil vezes eu teria dado cabo à minha vida. Sofrimento igual nem em um milhão de mundos.

Ao que Antítese, poeta que tudo percebe, frente e verso, e que também por lá estava, retrucou (parafraseando Camões):

-“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”

Outros membros da Confraria das Idéias são o músico Apóstrofe, o inventor Gradação e a contadora de histórias Prosopopéia.
Apóstrofe adorava em suas canções interromper a música para invocar alguém ou algo:

- Tempestade! Tempestade!
Quantas vidas já ceifaste
Neste lamaçal que tua água produz
Tempestade! Tempestade!
Que cruel consegues ser
Ao esconder do Sol a luz.

Gradação é uma pessoa que poderíamos chamar de fatalista: tinha tudo previamente determinado, seguindo uma seqüência pré-estabelecida até a plenitude ou até o vazio:

- Não há porque lutar contra a morte, inequívoca verdade que transforma nossa beleza em corpo em degradação, em cinza, em pó, em lembrança, em nada.

Prosopopéia era “contadora de histórias” em uma organização não-governamental que auxiliava crianças com câncer. E como era boa no seu trabalho! Fazia as pedras andarem, dava vida a suas histórias. Contava assim:

- Enquanto a noite dormia, em cada esquina os paralelepípedos preparavam a revolução; os postes, outrora sempre quietos, arrepiavam-se ao ouvir as notícias que voavam velozmente por entre os becos...

Havia ainda na comunidade mais duas figuras interessantíssimas que não poderia deixar de lhe fazer conhecer.

O primeiro deles, Metonímia, era um político de prestígio, governante da Aldeia inclusive (pelo que consta, têm os cidadãos desta Aldeia memória curta, sendo que Metonímia aproveitava esta característica para, ao final de cada mandato eleitoral, mudar de nome para conseguir a reeleição).

Seus comícios eram impagáveis, tive oportunidade de presenciar um:

- Meu povo, minhas cabeças! Venho até vós levantando minha bandeira em torno de uma bandeira comum: nossa amada Aldeia!
Cheguei aqui pela primeira vez a vapor, mas lhes digo, como seu representante maior: preciso fosse, viria até de vela! Pelo povo linguageense, faria brandir meu ferro se necessário para defender a honra e a terra deste chão que tanto prezo!

No canto do palanque, outra personalidade única: o padre Metáfora, chefe maior da Igreja na comunidade, mestre em transportar para uma coisa o nome da outra.
Em suas missas, dizia:

- Este é o corpo de Cristo: Comei! Tomai: este é o sangue de Cristo! Seu sofrimento foi o pagamento de nossos pecados...

Agora, enquanto termino de escrever esta carta para você, meu amigo, lembro ainda do motorista do táxi que me trouxe até o aeroporto. Chamava-se Catacrese:

- E então, para onde vamos? Vais avionar, transatlanticar ou onibiar?

Realmente um povo muito estranho. Costumes esquisitos que não havia visto igual em nenhuma de minhas viagens, exceto, talvez, no Brasil.

Te mando outra carta depois de melhor conhecer meu próximo destino: Utopia.

Um abraço sincero e afetuoso,

Neurótico Lunático Anônimo

 

Rafael Luiz Reinehr

 

Sejam bem-vindas a Raquel e a Suzana Yogi, que estréiam com glamour nesta edição do Simplicíssimo e também a Grasielle Regassini, que retorna querendo saber o sentido de muitas coisas.

Ótima leitura a todos e uma próspera Simpli-semana! (aquela que começa na quarta e termina na terça-feira)

 

PS: Ninguém (além de mim) comprou nada na Livraria Cultura nas últimas semanas! Vamos dar uma força ao Simplicíssimo! Se você conhecer alguém que compra livros pela Internet, recomende que compre através do site. Agradecemos!

"Os leitores extraem dos livros, consoante o seu caráter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o veneno "
Friederich Nietsche

"Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante "
Carlos Drummond de Andrade

"Os escritos são a descendência da alma assim como as crianças o são do corpo "
Clemente Alexandria

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Conto sobre um Samurai
Susana Sanae Yogi

Fazia muito frio naquela noite,e aquele tempo condizia com o espírito do solitário guerreiro. A frieza do seu olhar assustava.Nada parecia importar para ele.A não ser seguir seu caminho,mas ninguém tinha conhecimento do destino na qual ele queria alcançar

Ele era considerado uma lenda.O seu jeito de lutar ,a sua arte era única.Mas praticamente ninguém o conhecia verdadeiramente

O único que conhecia a fundo a história deste samurai ,era já um senhor idoso que se apressava a relatar o que sabia ao governate de uma vila que tinha lhe ordenado para contar sobre este homem que já estava virando uma lenda.

Em nome da honra ,um samurai se mata. Existem regras,leis,principios e nobreza para ser um legítimo samurai.Mas seguir tudo isso a risca pode deixar um grupo cego.E foi o que aconteceu com o grupo de Nori Matsuda "Em nome da honra",iriam semear a uerra.Invadindo a vila que antes era aliada, e por causa de uma traição eles escolheram uma direção que não haveria vencedores.

Nori Matsuda já tinha enfrentado vários outros samurais,sua espada derramava lágrimas de sangue.Mas ele foi esinado assim,tinha que ser forte e defender seu povo e seus principios.

Mas algo se rebelava dentro dele.E uma grande fúria chamejante crescia e simultaneamente a frieza em seus olhos camuflava seus verdadeiros sentimentos.

Mas é claro que o idoso senhor não poderia contar a história de seu amigo assim.Então apenas contou que ele foi expulso por seu grupo por ser rebelde demais,e que ele( o idoso senhor) pertencia à vila que o grupo de Nori Matsuda iria atacar .Então ao invés de ataca-los ,ele os defendeu,dizendo que a amizade que tinha por ele significava sua verdadeira honra, e que não estava mais se importando para o que seu grupo acreditava. Então foi expulso.

E agora vivia conforme suas própria idéias e principios O governante da vila ficou pensativo mas chamou Nori Matsuda de louco. E o idoso senhor voltou a sua vida e seus afazeres.

Foi nesta mesma época que depois de muitas lutas, batalhas,e guerra interior que o samurai,de repente abandonou sua espada A sua espada foi encontrada na beira de um lago,ao lado de flores de sakurá.

As lendas continuaram,mas agora não mais giravam em torno de um bravo guerreiro. Agora ouvia-se muito a respeito de um misterioso homem que as vezes tinha um olhar frio e congelante e outras vezes um olhar que aquecia qualquer um.

Mas quem recebia de sua visita ,era como se a vida fosse inundada por uma tempestade.A mudança sempre acontecia

O homem misterioso se chamava Nori Matsuda. Um verdadeiro samurai Ilimitado na sua essencia Guiado por uma luz maior que ele e que faz parte dele.

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Faz sentido?
Grasielle Regassini

Quem é que nunca se pegou acordado de madrugada olhando as estrelas e pensando em alguém, ou olhando pro teto com os olhos lacrimejando de saudade?

O coração parece que vai parar, o choro não vem, dá um nó na garganta que parece sufocar. Isso é saudade, isso é solidão. É a dor de não poder se sentir completo por si só. É quando alguém nos faz mais falta do que nós mesmos. É por que dói voltar pra casa sem ver quem você queria ver. É por que dói pensar que a essa altura da madrugada ele certamente estará com outra, uma namorada, um rolo, ou apenas um caso da noite. E pensando nisso você se sente covarde, impotente, por que você não consegue fazer o mesmo. Você não consegue beijar qualquer um pra não pensar nele, por que você se conhece e sabe que isso só vai te fazer pensar mais ainda nele. Você sabe o quanto vai doer se fechar os olhos e imaginar que o está beijando, por que você sabe que não se engana assim. Você sabe que esse desgraçado tem um jeitinho maravilhoso de te dizer as coisas que você quer ouvir, no exato momento que você precisa escutar. E se no conceito feminino os homens são todos iguais, ele certamente freqüentou assiduamente as aulas de cafajeste por que só ele sabe ser da maneira que ele é com você. Suas preces e orações pra ele te ligar no fim de semana são quase que sagradas. E se ele não te ligar (o que certamente vai acontecer), você vai sair com suas amigar, fingir que tá tudo bem, que você consegue se divertir sem ele e tentar
enganar a si mesma (porque suas amigas você não engana mais).

E assim se vai mais uma semana da sua vida, mais uma semana que você vai passar sonhando e inventando situações em que ele sempre volta pra você com juras de amor eterno.Tudo isso porque você sabe que é só por isso que você ainda vive. É só porque você se ilude que você ainda respira. É só porque se enganando você ainda tem um fio de esperança naquele cara que não faz sentido nenhum, mas é o cara que te faz perder o sentido, e que te faz pensar no sentido da vida.

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Mantra
Raquel

Grande, largo e raso.
Melhor estreito e profundo...
Depende de cada caso.

Quisera eu que antes de tudo
Depois do nada
Houvesse um muro

Sei-o, não há.
E na cova como na cama,
O arrepio nos acompanha.
Seja o desejo, seja o medo;
Seja os dois em passional agregamento.

Fino, adocicado e raro.
Quase perfeito, não fosse a vontade que deixa.

Impressão de vazio impreenchível
Na boca, na alma;
Não respiro por medo de desmontar
Sinto-me oca,
Vejo-me louca
Cansei dessa toca que remonta ao tosco recôndito ancestral

Escuro, úmido, ecoa..
Ecoa, ecoa...
Povoam meus sonhos esses ecos.
Grunhidos indistinguíveis
Mesclados aos meus, inconfundíveis.

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Lições para ouvir Marvin Gaye

Ela me disse “Sexual Healing”, mas me disse com alguma pretensão que escondia, na realidade, sua vontade de parecer tão descolada, diferente de qualquer garota comum que na certa me diria o nome de alguma música de Alanis Morissette e reviraria os olhinhos somente por causa da emoção que a lembrança lhe traria. Quando ela me disse “Sexual healing”, então, eu vi que o negócio dela era sexo somente, e que estávamos, portanto, nos entendo tão bem. E isso me pareceu sempre mais importante. Mais do que todos os joguinhos propostos, todas as dificuldades naturalmente impostas, todo o desejo dissimulado.

Até que estivéssemos em seu apartamento, ainda passamos por “Let’s Get it on” e uma meia dúzia de Kenny Gee que em qualquer outra situação eu refugaria educadamente. Como o programador musical da festa parecia, entretanto, querer nos embriagar de apelos sexuais, dançar ao som do sax meloso não me pareceu a pior das experiências. No embate entre não se mostrar a mais fácil das mulheres e me oferecer uma resistência, que, afinal de contas, não acabasse fazendo com que o mais animado dos homens se desmotivasse, ela escolheu um meio termo bastante apropriado, e duas músicas em que, com os braços levantados como que em êxtase profundo, eu consegui notar que o seu entusiasmo pelo sexo poderia ser igual ou até maior do que o meu (elas dançam assim, como se o mundo fosse acabar umas cinco músicas depois: os braços levantados, o copo em um das mãos, os olhos invariavelmente fechados e o corpo em lânguidos e lentos movimentos, não importando muito o ritmo da música, mas nunca em contraponto melódico a ela – e não importa, a mais desajeitada das mulheres seguindo estes passos básicos, estas poucas lições de como parecer atraente e esta já será outra mulher sob o olhar do mais exigente dos homens. Mas o momento deve ser único: a música, ouvida e sentida como se fosse “a música” de sua vida, a canção que mais arrepios lhe traz, aquela capaz de domar todos os seus sentimentos amorosos, sexuais e soterrados sob o cotidiano. E aquele momento é único. Se a noite tiver quente, ela estiver somente com uma fina regata de malha e os braços levantados não oferecerem qualquer impedimento à visão, somente aquilo, a visão pura, simples e inesquecível de um belo par de braços em ritmo lânguido e sensual como se o mundo fosse acabar, e a lição terá findado: são poucas as lições quando tudo o que se almeja é curtir intensamente Marvin Gaye).

Ela disse Na minha casa. Eu não perguntei Por que não na minha. Imaginei que ela pudesse ter toda a coleção de Marvin Gaye para continuarmos a festa em um ambiente muito mais íntimo e, afinal de contas, para que contradizê-la se ela no comando estava se mostrando tão perspicaz? Meia dúzia de esquinas depois, o caminho de sua casa bem mais curto do que seria para a minha, ela em estado alcoólico de quase semiconsciência. Pensei que transar com ela naquele estado poderia render-me a acusação de estupro. Isto se ela lembrasse no dia seguinte que havíamos transado. Consegui carregá-la até o seu apartamento subindo três lances de escada como se houvéssemos acabado de nos casar. E derrubá-la em sua cama, despi-la para que dormisse tão confortavelmente e oferecer-lhe um balde para os inevitáveis vômitos não foram certamente a realização de um projeto de uma noite de sexo desenfreado e descompromissado.

No dia seguinte, depois de acertar com facilidade a pergunta sobre quem, afinal era eu e fazê-la crer que dançava a música mais sensual do mundo como se este fosse acabar, acabou por agradecer por não ter me aproveitado dela naquele estado em que parecia pedir para que me aproveitasse dela e me preparando um café para compensar o meu final de noite fracassado. Entre tentar convencer-me de que era a primeira vez que isto lhe acontecia, acabou por gaguejar uma porção de vezes e vendo que eu não parecia acreditar, acabou por concordar em me mostrar sua coleção do Marvin Gaye e me responder que sim, “Sexual Healing” é a música da sua vida.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

A grande planta verde

Um plantão é algo realmente desgastante para o profissional da área da saúde. Não apenas pelo estresse das situações limítrofes e das habilitações necessárias para tal, como bem podemos ver no famoso seriado do E.R. ou do um pouco mais bem humorado Scrubs. Mas, como era de se esperar, nosso país tem suas particularidades e absurdos que incrementam qualquer história. A maior parte se deve, penso eu, à falta de informação adequada e/ou uma correta atitude das pessoas envolvidas (leia-se: profissional e paciente). Mas existem outras causas, algumas que eu nem devo ter ainda imaginado. Vamos tentar aprofundar a questão, mas deixando de lado temporariamente o caos social, a violência e outras coisas mais que indubitavelmente fazem parte da cena deste crime.

É fato que os locais de atendimento de urgência e emergência tem estado cada vez mais lotados, o que acaba conferindo um certo “grau maior” de insalubridade ao meio. Não menos certo é a irritabilidade das pessoas com as filas e a demora no atendimento. Há muito aquela paradinha na sala de espera deixou de ser um charme para o “doutor” e cada vez mais todos nós padecemos de um imediatismo assustador para tudo e todos. Até o jornal de domingo queremos ter em mãos ainda no sábado. E não é diferente com a nossa saúde. Quantos pacientes impacientes já entram no consultório com ares de poucos amigos, de quem teve um péssimo dia e está pronto para descontar tudo no primeiro cara de branco que aparecer pela frente? (como diz o Fábio, meu grande amigo e colega, “só porque vestimos branco vão achando que somos ovelhinhas”). Ainda mais se ele assistiu à reportagem do Fantástico da série “Médicos Ruins”. Daí sim, a mesa está servida. Isso poderia explicar em parte também as ligações que os pacientes fazem querendo saber qual o médico de plantão.

Mas a confusão entre um consultório e uma emergência não pára por aqui.
_ Em que posso lhe ajudar?
_ É essa manchinha aqui no meu braço que apareceu há uns 2 meses ...
Ou então:
_ Dona Judite, você por aqui de novo? (grrrrr)
_ Sabe como é né doutor, depois que a gente se acerta com um médico não quer ir noutro ...
Ou ainda:
_ O que era para a senhora?
_ Ah eu vim trazer o meu filho para o pediatra e já que estou aqui aproveitei para uma consultinha. A gente sempre tem alguma coisa para consertar não é?
_ grrrrrrrrr
Estes são pequenos exemplos que parecem inofensivos para quem vive apenas o seu mundo, mas se tornam grandes tumultuadores quando se repetem nas salas de emergência.

A facilidade de acesso e o comodismo saltam aos nossos olhos ainda mais quando se recorre a um serviço de emergência com um problema específico que deveria ser resolvido por um especialista. Se as lavagens de ouvido são a maior causa de processo entre os otorrinolaringologistas (pelo rompimento da membrana timpânica), certamente deveria-se abolir tal procedimento de um pronto-atendimento não especializado e informar adequadamente a população, para que não fiquem achando se tratar de falta de vontade do médico. Uma vasta gama de patologias cirúrgicas (incluindo pêlo e unha encravados) pode se encaixar aqui também. Por vezes uma simples padronização nos serviços evitaria muita confusão:
_ O quê, mas o Dr. Fulano faz aqui, por que você NÃO QUER fazer? Olha que eu vou para os jornais ...

Ah sim, já ia me esquecendo. A nova moda é processar os médicos. Porque fez, porque não fez, porque isso, porque aquilo. Nos EUA a regra é passar grande parte do tempo da consulta literalmente lendo bulas para o paciente não alegar que faltou informação. O que se dizer das consultas em postos de saúde, onde atende-se 20 pacientes por hora, numa velocidade que até Schumacher sucumbiria. E uma boa relação médico paciente ajuda, mas já não é mais garantia para nada. Assim como nas portas de cadeia, há sempre os oportunistas de plantão atacando no plantão. Que lugar para se tentar levar uma vantagem. Tem uma festa? Faltou ao trabalho? Quer sair um dia antes ou voltar um depois no feriadão? Não custa nada conseguir um atestado. Errado, custa caro, custa muito caro. Principalmente para quem tem consciência. Mas lembre-se, um dia você ou um dos seus pode ter uma parada cardíaca, chegar inconsciente numa emergência e o médico estar ocupado atendendo alguém com uma micose, convencendo um cidadão a buscar um especialista, tentando entender uma mentira em busca de um atestado frio ou qualquer coisa do gênero ...

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 17/X

Numa manobra radical
arriscou tudo
Furou o olho, animal

Faroeste 4/X

Mudo toda hora
Penso cada minuto
na senhora

Textos, contextos, críticas e descrições
(Texto publicado a pedidos)

Estudar instituições
Aprender a gerenciar
Fazer ilações
Criticar

Posições precárias
Choro e lágrimas
Podem nossas máximas
Erradas?

Ver lugares de atores submissos
Compromissos,
críticos
Políticos

A organização afeta, muda

Escreve por linhas tortas
transmuta (para pior?!?!)

As vidas mortas.

Novos estudos, olhares
Vem de perto
Por certo
Novos lugares

Ver o empreendedor
Que luta até o anoitecer
Que faz acontecer
As coisas ao seu re-dor

(dupla dor)

Assim como nossa ação,
Para olhar:
Crítica ou descrição
Texto, contextualização

Será só um método, pergunto?
Analisar discursos
Ou perspectivas de ver assuntos
Belo recurso

(Das ciências sociais)

Reduto astuto
Para mostrar
O que não pode variar.
Limitadas escolhas
Seu bolha. (desculpe)

Novas direções:
Mapear cultura
(Velhas lições)
e estruturas.

Conjecturas
Após tantas leituras
Talvez eu não veja direita

Bordieu fala de poder
De querer ter
Das forças e da luta
Quem refuta?

Esquerda?
Ou mais uma forma de “ismos”?
Continuísmo

A formula pode ser
De mudar e ficar
De ensinar a fazer
Pesquisar, modificar

O grande problema
É viver
Onde quer que seje
“Se lá ta, deixe que lateje”.

Não ser radical,
ser o tal, ser moral
E conseguir viver de pequenas mudanças.
(todos os dias)

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Utopias
Luiz Maia

Virtudes & Vícios

Virtude e vício são coisas distintas em essência.
A virtude é habituar-se à prática do saudável, daquilo que proporciona prazer e faz bem.
Enquanto o vício é danoso e só causa mal.

A virtude implica em bons hábitos, como reservar momentos para admirar a natureza, destinar parte do tempo para praticar a quietude, mergulhar em si mesmo, admirar o belo.
Aquele que lê, ouve boas músicas e se alimenta sem pressa, cultiva hábitos salutares.
Esse certamente vai descobrir coisas maravilhosas.
São pessoas que contemplam a vida com olhos de quem ama a Deus.

Manter bons hábitos nos ajuda a um maior domínio próprio e senso de equilíbrio para administrar as vicissitudes da vida e não nos entregarmos às depressões.
Bons hábitos fazem a vida sempre melhor.
Práticas diárias saudáveis e sociáveis tornam a vida de todos mais proveitosas e benéficas.
Como realizar boas ações e auxiliar aqueles que estão ao redor.
Os hábitos, bons e maus, influenciam muitas vezes a conduta dos mais próximos.
Servem de exemplo. Por isso é grande a responsabilidade por nossas práticas.

Devemos estar sempre atentos aos nossos costumes.
Há aqueles que cultivam mau hábitos: os vícios.
São pessoas que vivem num mundo da correria exagerada, da rapidez do descartável, onde a calma e o bem-feito parecem ter perdido o seu lugar.

Viciadas são todas aquelas que vivem a desrespeitar as condições básicas do bom-viver.
Tem vício quem adora a sofisticação em vez das coisas naturais e simples, quem fuma,
quem usa drogas, quem fere o próximo ou quem ingere álcool exageradamente.
É viciado quem infelizmente deixa de lado o saudável ato de criar para repetir padrões sem nenhuma inventividade.
Gente que a todo instante acena com facilidades e superficialidades.

Viciados são todos os descrentes de suas habilidades, que só buscam imitar e procurar o mais fácil.
Viciadas são as pessoas que mal se permitem comer uma boa refeição, por não se darem ao trabalho de escolher um cardápio que as satisfaçam, e se alimentam de pratos congelados, sem nenhuma caloria, desprovidos dos nutrientes necessários para a nossa saúde.

Gente que detesta usar a calma e a paciência em suas ações.
Viciadas são todas aquelas que ignoram o respeito ao próximo, a si mesmas e fazem dos melhores valores algo desprezível e descartável.

Enfim, se bastam com suas medíocres existências.
Observando as diferenças entre a virtude e o vício percebemos que a vida
de quem dispensa os hábitos positivos pode parecer mais prática, mas, sinceramente,
perdeu muito do seu encanto, do seu romantismo e da sua poesia.

Não é este o modelo de vida desejável para os nossos filhos.
Quando nos habituamos a práticas pouco saudáveis, desperdiçamos tempo com coisas bobas e fúteis. Fazemos mal a todos e ao mundo.

Mas quando incorporamos bons hábitos às nossas ações, cooperamos para a beleza e melhoria da vida do planeta.
E, à medida em que nos lembramos de dar o melhor de nós mesmos,
através de pequenos gestos que podem contribuir para o bem-estar da humanidade, impondo cada vez mais a virtude em nossas vidas,
estaremos enfraquecendo o sentimento de pequenez daqueles que usam o vício como princípio em suas vidas.

Portanto, tornemos a virtude uma prática natural em nossa vida e estaremos contribuindo
para um mundo melhor.

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Original

O que é originalidade? De acordo com o dicionário brasileiro, originalidade significa a qualidade do que é original. Original por sua vez significa referir-se à origem; primitivo; primordial; que tem caráter próprio; não copiado; nem imitado ou traduzido; singular; extraordinário; extravagante; bla bla bla; pessoa singular; excêntrica. E vem do latim originale.

Se existe uma qualidade que realmente aspiro, respeito e considero essencial na humanidade é a originalidade. Ser original é ser você, pois seus genes não existem em nenhum outro ser do planeta, e, acredite em mim, você é original e deve manter-se assim. Quem foi que inventou a padronização? De tudo que já estudei até hoje, não posso afirmar qual foi o povo que deu origem à padronização, mas sei que foi muito esperto e tirano.

Vamos a um exemplo prático: algum louco queria mandar nos outros a sua volta, era forte e inteligente, era líder nato como gostamos de colocar. Lutou contra vários oponentes para ganhar a liderança da tribo. Quando finalmente conseguiu, precisava de algo que o destacasse diante do restante do povo, então instituiu vestimentas hierárquicas, cores e comportamentos aceitáveis de acordo com esses níveis diferenciados de sociedade e ocupação. É muito provável também que a moeda local começasse a ser mais utilizada naquele momento da história. Liderança + dinheiro = capitalismo primitivo. Com a padronização veio a produção em média escala. Esqueça a originalidade, você veste o que eu mando você vestir. Sem essa de dizer que uniformes ou roupas parecidas servem para identificar grupos ou etnias, se moro no reinado azul e quero usar rosa, por que não posso ser reconhecido pelo meu rosto e meu nome, por que tem que ser pela roupa? Por que sou tão insignificante assim? Eu sou único, não tem como me confundir.

Se o rei usa um tipo de roupa e jóias, os sacerdotes usam outros, o exército e suas patentes outros tipos, e assim sucessivamente, até chegarmos aos simples camponeses. Tente imaginar os costureiros e artesãos desta época inventada por mim como exemplo, provavelmente eram analfabetos, se é que já haviam descoberto a escrita nesta tribo, não pensei nisso. Enfim, vamos assumir que não sabiam ler nem escrever. Agora vamos voltar ao conceito de originalidade neste contexto. Os costureiros recebiam ordens faladas do que deviam fazer e como deveriam ser os resultados. Muitas provas, acertos e por fim, depois de quatro meses, as vestimentas do rei e do exército estavam prontas. Mas certo dia um costureiro muito inteligente teve uma excelente idéia. Após medir duzentos homens durante meses, observou que havia padrões de medida e que poderia criar moldes ajustáveis rapidamente. Teve a sua idéia original. Que inovação para essa tribo, fabricar roupas a partir de moldes. A partir da originalidade de um homem, foi tirada a originalidade de tantos outros. O líder rapidamente enxergou possibilidade de ganhos em cima da idéia inovadora do simples costureiro. Obrigou aquele pobre homem a ensinar sua técnica a costureiros de tribos vizinhas por algumas gramas de ouro ou prata, e quem sabe alguns porcos, não importa. Os reis destes outros costureiros estavam pagando. Estava criado o primeiro workshop capitalista do mundo. O slogan deveria ser mais ou menos este: Venham, ensinaremos você como ganhar mais, fazendo menos e ainda por cima convencendo os seus súditos de que eles devem se vestir como você quer, se não o fizerem, morrerão, ou irão para a cadeia. Ou pior, não terão emprego. Pois todo o dinheiro arrecadado com os workshops e com as vendas das vestimentas vai para o cofre do reino e você não pode fazer nada a respeito. São ordens diretas do rei. Roubaram a idéia do costureiro e criaram o caos. Duas vezes menos originalidade no mundo.

Pode parecer um pouco confuso, mas você vai entender onde quero chegar. Se você quiser ir para o trabalho de blusa roxa, saia amarela e meias verdes, será que você pode? A resposta é óbvia, a não ser que você trabalhe em uma casa noturna de música eletrônica, ou fazendo teatro, com certeza a sua roupa vai ser ridicularizada pelos demais. Por que? Por que parece que a humanidade já engoliu e assimilou tão bem a padronização de comportamento. Grande empresa, sala com ar-condicionado, roupa bem passada e sapato brilhando, seu cérebro podia até ficar em casa já que é reconhecido e apreciado por todos, do porteiro do prédio (que por falar nisso usa um macacão horrível) ao presidente da empresa. Agora, pegue um homem inteligente, porém que aprecia a sua originalidade, que gosta de usar tênis, jeans velho e camisetas de time de futebol, será que ele vai conseguir uma sala com ar-condicionado? Não vai nem chegar a fazer a entrevista para a vaga!!! Não passará no filtro de Recursos Humanos da empresa, não tem boa aparência. Mesmo que as idéias dele fossem inovadoras como as do costureiro que inventei, ele teve de esquecer a chance de mostrar para o mundo as suas idéias. Foi barrado por excesso de originalidade. Que ironia! Hahahahahahahaha!

Por isso eu amo e admiro a Europa. Lá você pode ir a um bom restaurante usando penteado estilo moicano na cor verde se quiser. Pode fazer top less nas praias sem que os homens cubram o sol fazendo um círculo ao seu redor. Pode ser brilhante como quiser. Acho que o Brasil está melhorando, hoje dão bons empregos aos tatuados também. Viva o século 21. Na originalidade os brasileiros ganham nota dez quando querem. Até canudinho de plástico se transforma em fantasia de Mestre-sala e Porta Bandeira no carnaval, latas, caixas de papelão se transformam em fantasias que deveriam ir para exposições de arte moderna. Mas vamos trazer esta originalidade para o resto do ano também, vamos abusar da criatividade nata do nosso povo. Vamos assumir nossa originalidade, cada um a sua. E é claro, não é só na aparência que a originalidade deve prevalecer. Utilizei este contexto para trazer a luz a minha opinião, mas a originalidade deve ser apreciada nas idéias, nas ações, nas criações e nas dúvidas também, pois a dúvida gera a busca, e a busca gera a descoberta, que gera o pensamento primordial, que não pode ser copiado.
Eu digo, viva a coragem de ser o que quiser. Viva a Madonna, os Ramones, os Mamonas Assassinas, o Tiririca. Viva as minhas escolhas e as minhas preferências. As suas escolhas e as suas preferências. Foda-se o padrão! Viva a originalidade!

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Suburbanas
Marcos Claudino

São Paulo, 03 de outubro de 2004.

Votos brancos e nulos

Arquimedes era um cidadão pacato, meio chato. Mas era boa gente. Era daqueles tipos comuns, até meio antiquado. Vindo do trabalho, parava na padaria da esquina, comprava seus seis pãezinhos, tomava uma caninha só pra abrir o apetite, e puxava conversa com qualquer vizinho que estivesse por perto. Assuntos como o tempo, o ônibus, o preço das coisas, essas coisas. Era desses sujeitos que as pessoas não sabem se gostam ou não gostam. Arquimedes passava despercebido por estas elucubrações. Não que fosse superior a elas, nem isso...

Do nada, tirou da cabeça a idéia de se candidatar a vereador. Não sabe bem de onde veio isso. Ninguém o encorajou, a idéia apareceu do nada, sem pai nem mãe. Típico do Arquimedes essas coisas. Como na vez em que decidiu comprar um terreno na Praia Grande. Comprou, pagou todas as prestações, mas até hoje, sete anos depois, nunca foi ver a propriedade. Se fosse, descobriria que teria que entrar com uma ação de desocupação contra a pobre dona da Pensão Beira Mar...

Pois bem, Arquimedes decidiu candidatar-se a vereador. Nem licença do trabalho resolveu tirar. Foi a uma gráfica e imprimiu dois mil santinhos com sua foto. Escolheu um dos candidatos a prefeito para apoiar, mas esqueceu-se de imprimi-lo no pequeno panfleto de sua plataforma política. Chegou em casa com os santinhos, e a mulher nem deu bola. Achou que fosse uma brincadeira. Os filhos preocuparam-se, mas esqueceram do assunto alguns minutos após o jantar. As coisas eram assim com o Arquimedes.
Pela manhã, colocou uns quinhentos santinhos no bolso do paletó, e foi trabalhar. No caminho, entregava os santinhos a quem encontrasse. No vagão do trem, as pessoas nem reparavam que era o próprio candidato quem entregava a propaganda. Muitos jogavam no chão no mesmo instante. Assim, Arquimedes passou toda a campanha, acreditando realmente que poderia ser eleito.
O grande dia chegara. Após o jantar, Arquimedes pega seu radinho de pilhas, e dirige-se ao quartinho dos fundos, para prestar atenção ao resultado das apurações. Sua esposa estranhou o comportamento do marido, sempre tão meticuloso e discreto. Encontrou-o de cabeça baixa, o radinho quebrado no chão, ao seu lado.

Arquimedes foi o primeiro candidato a ter zero votos, em toda a história eleitoral do país. Chateou-se pela família não ter se lembrado, mas não se perdoou por ter esquecido seu número de inscrição, votando apenas na legenda. Sabe como é, não sobrou nenhum santinho pra ele mesmo...

Hoje ele é famoso, mas não pára mais na padaria após o trabalho, nem cumprimenta os vizinhos, falta apenas um ano para se aposentar, e está pensando em visitar o terreninho na praia...

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Opiniões, Idéias e Viagens Mentais
 

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Musicalidade de povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai

Wonkavision - Wonkavision (2004)

O intuito do primeiro disco oficial do Wonkavision já é de cara louvável: atingir um público mais abrangente, não estando apenas nos nichos indie ou nos dials das rádios no sul do Brasil. Só por isso esse
disco já merecia existir.

Falar de Wonkavision é quase como uma tese de mestrado. Afinal, foram poucas as bandas que surgiram como eles, fazendo uso pleno da internet e de demos que beiravam à perfeição pop, até alcançar o status de
banda respeitada em todos os segmentos, ganhadora de concursos, e enfim. (e agora, neste momento do texto, anulando o fanatismo que fãs costumam ter) Realmente a banda compunha canções que ninguém tinha coragem, imaginação, e/ou dinâmica em compor.

Já desde 2001 a garotada elegia Demo Disc #3 como o ápice de uma coleção de boas músicas, com vocais masculinos e femininos, moog aqui e ali, guitarras pesadas, e letras que todos gostariam de ouvir, trágicas e com um sorriso perneta no rosto.

Mas em Preview em 2002, a banda atingiu uma sonoridade ainda mais redonda. Evolutivo ou não, isso não importa. A maravilha em ser sarcástico e alegre,
aquele contraste todo, em canções como "Comprimidos" e "Powerbossa".

Todo mundo que era vivo no mundo independente não esperava que fosse possível uma melhora no som ou nas
letras da banda daqui para frente. Na cabeça das pessoas, a "fórmula Wonkavision" (seja lá que diabos seja isso, para qualquer banda) já está consolidada. O que causava apreensão ao ouvir o disco que iria
recriar as canções que tanto embalaram garotos e garotas em festas, shows, escuros de quarto, ou madrugada feliz.

Em seu primeiro disco por uma gravadora, em 2004 finalmente o Wonkavision solta o que seria na cabeça deles um grande álbum para cativar um público ainda maior de ouvintes à procura de um pop competente. Com hits antigos, futuros hits, balões, pensamentos psicóticos (se formos comparar à normalidade de ética que a sociedade institucionaliza), muitas guitarras,
moog, e felicidade.

Desde que a banda surgiu, as pessoas (e principalmente os críticos) cismavam em comparar o Wonkavision ao Weezer. Até houve uma música-homenagem a Rivers Cuomo e tudo mais por parte deles, mas mesmo que a banda quisesse e fizesse de propósito transparecer essa semelhança, não seria isso o que resumiria a sonoridade da banda.

O tracklist do cd é interessante: para quem nunca ouviu a banda, todas as músicas são novas, obviamente.
E quase todas são boas. Para quem já ouviu, vai claro entrar naquela discussão de "pô, porque mudaram tal frase?", ou "porque isso está mais assado que cozido, e por isso mais temperado que frito?", o que é normal.
Vide eu mesmo, que ouvia as músicas das demos sem parar, é quase um choque térmico.

Mas vale. Mesmo quem adorasse as versões originais das letras de "O Plano Mudou" ou "Errado?", ou a sonoridade mais densa da primeira, logo vai se perder nessas cismas em novas canções belíssimas. E não é
isso para que uma banda existe, a caminhada musical?

Das canções antigas, "Comprimidos" foi a que ficou mais palatável, com letra mais uniforme, ainda assim expressando uma certa verdade escondida nessa geração, mas tendo mais rimas.

E são os pequenos detalhes que permeiam o disco inteiro, e que fazem o Wonkavision querer ser pop, mas ainda assim não se entregando tão facilmente. Como no
berro do refrão de "Ei, Não É Por Mal", pegando de surpresa quem acha que é uma canção rock normal, ou apostando na quase glicose saturada de "Brinquedos",
deixando a banda brincar com sonoridades viajantes e refrão em inglês.

"Quando 16" e "Rejection Junkie" (já conhecida em mp3s ao vivo rodando internet afora) são grandes respostas às rádios que deverão tocar essas duas músicas, por
decreto máximo, ou ter um carro alto-falante pelas ruas de todas as cidades.

O primeiro disco do Wonkavision foi o que é: mostrar ao público poderosas canções, seja as antigas ou novas, e introduzir ainda mais o ouvinte ao mundo Wonkavision, não só de camisetas, fanatismo nazista,
babação de ovos e enfins novamente. Sucesso é o que essa banda merece, e espero eu em minhas previsões, não só no meio independente, não só no Brasil.

Website oficial (em construção)

mp3 para download

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Pensamentos Destoados Pela Antítese
 

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Ombudsman
Alessandro Sachetti

Até o fechamento da edição, o Alessandro não estava conseguindo nem respirar nem realizar suas necessidades mais básicas (cerveja, namorada, nesta ordem), mas vai tentar mandar o ombudsman assim que possível.

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Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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