|
|
06 /10/2004 - Edição número
96
Tumba laca
tumba laca tumba-ba!
|
| |
|
|
|
Uma Aldeia chamada Linguagem
Querido amigo Hiperativo Confuso:
Como havia lhe prometido, estou escrevendo
sobre esta nova terra que acabei de conhecer. Nem lembro
direito como cheguei a ela, acho que foi depois de dobrar
à direita após uma ravena passando uns cinqüenta
quilômetros do Himalaia.
O que importa é que tudo transcorreu bem e agora
estou aqui, pronto para seguir jornada para mais uma aventura.
Mas antes, tenho que lhe falar deste povo que conheci e
de seus costumes.
Viviam em uma Aldeia hermeticamente fechada chamada Linguagem.
Me disseram que seus ancestrais eram todos de origem grega.
Cada qual com sua função, seu porquê,
seu destino. Dividiam sua comunidade entre os trabalhadores
braçais, os responsáveis pelas idéias
e os donos da palavra.
Dentre os primeiros, quem conheci logo na chegada à
Aldeia foi Elipse, um funcionário
público difícil de encontrar em seu local
de trabalho. Quando ia às compras – que foi
quando lhe conheci - tinha a mania de perguntar o preço
de tudo, mesmo sabendo que não iria comprar:
- Quanto custa? (o sapato)
- Quanto custa? (o abajur)
- Quanto custa? ( a garrafa de vinho)
Elipse tinha um irmão chamado Zeugma.
Este irmão era singular em um aspecto: detestava
repetir qualquer coisa que já houvera dito anteriormente,
mesmo de forma oculta. Dizia:
- Eu te conto uma piada, você me conta outra.
- Outra o quê?
- Grrrrr! – resmungava, já irritado.
Vizinho de Elipse e Zeugma, Polissíndeto
é empregado de uma fábrica de calçados,
onde é responsável por unir a sola com a base
dos sapatos. Seu irmão gêmeo, Assíndeto,
trabalhava na mesma fábrica, e revisava calçados
que não ficavam bem ligados pela cola que era usada.
Dizia Polissíndeto, quando brigava com o irmão:
- Estou cansado de chorar e sofrer e perder e me conter
e de ouvir e ocultar e viver.
Ao que lhe respondia prontamente Assíndeto:
- Pois então, chorando, sofrendo, perdendo, contendo,
ouvindo, ocultando, enfim, sentindo é que vou levando
a vida assim, feliz!
Pleonasmo trabalhava no depósito
de lixo da comunidade. Lá tinha o que fazer em abundância.
Como não tinha estudo, ficava repetindo o que os
outros diziam e, ainda, repetia a si mesmo para reforçar
suas idéias. Bradava:
- Naquele dia em que roubaram os galináceos do padre
Metáfora, vi claramente visto o ladrão.
Ou ainda, nos dias em que bebia um pouco além de
sua capacidade de metabolizar o álcool:
- Não vejo a hora de entrar pra dentro de minha casa
e subir para cima até meu quarto e capotar na cama.
Pleonasmo era apaixonado por Iteração,
cujo apelido carinhoso era Repetição, com
a qual tinha muitas afinidades de idéias:
- Como é triste, triste mesmo e muito triste este
mundo, não achas, Pleonasmo? Não quero um
mundo assim, pobre assim, triste assim...
Pessoa estranha era a professora Anáfora:
tinha o cacoete de começar todas suas explicações
com “se”:
- Se você somar dois mais dois, temos quanto Subjetivo?
- Se as nuvens são feitas de vapor d’água,
quais são os elementos que formam a nuvem, Oração
Subordinada?
- Se você cantasse
Se você gritasse
Se você urrasse
Se você esperneasse, alguém te ouviria!
O arquiteto Anacoluto, esposo de Anáfora,
era um sujeito quase incompreensível. Suas frases
pareciam sem seguimento, davam a impressão de não
conter uma ordem lógica:
- Estamos aqui, a construir este prédio. E veja,
o Sol desce calmamente no horizonte enquanto a humanidade
desfalece prematura. As pessoas, os tijolos...
O melhor amigo de Anacoluto, Hipérbato,
parecia ter saído daqueles livros de antigamente
pois falava de forma invertida, o que todos achavam muito
engraçado:
- Pois então, Lutinho, te dizia, é a liberdade,
branca que nos põe a caminho.
Um dos lugares que os amigos mais gostavam de ir nos fins-de-semana
era a casa de campo de Hipérbato. Lá, vim
a conhecer o caseiro, que se chamava Aliteração.
Já na chegada, fomos extremamente bem recebidos:
- Faz favor, feche o ferrolho! Fico feliz fazendo faisão
com feijão para a família se fastiar!
A esposa de Aliteração, dona Silepse,
fazia um faisão com feijão de deixar a boca,
os olhos e os ouvidos abertos. Era uma pessoa muito compreensiva
e sensível, sabia o que seu marido queria dizer só
pelo olhar.
- Benhê, leva um casaco para seu Anacoluto e dona
Anáfora, já que o casal esqueceram que vai
esfriar. Aproveita e leva um para seu Hipérbato,
que é um criança e se resfria fácil.
Se não, eles vão pensar que a gente somos
sem alma e inútil.
Nas bibliotecas e cafés filosóficos da comunidade,
se concentrava a nata do pensamento da Aldeia: os filósofos,
físicos, cientistas sociais e outros teóricos.
A mais antiga representante do grupo, a filósofa
Ironia era quem mais questionava o grupo.
Era um ponto de interrogação em pessoa. Vivia
dizendo o contrário do que pensava, satirizando e
questionando o comportamento dos outros com a intenção
de ridicularizar.
- E então caro amigo Eufemismo,
deves sentir-se bem com seu belo par de novos chifres.
- Não fale deste jeito, Ironia. Eu e minha esposa,
desde sempre nos entendemos muito bem. Nos últimos
tempos apenas descobri que a compreensão dela é
um pouco mais ampla.
Ao qual intrometeu-se o químico Hipérbole:
- Se eu estivesse em seu lugar Eufemismo, já haveria
de ter posto fim à minha vida. Setecentas mil vezes
eu teria dado cabo à minha vida. Sofrimento igual
nem em um milhão de mundos.
Ao que Antítese, poeta que tudo
percebe, frente e verso, e que também por lá
estava, retrucou (parafraseando Camões):
-“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”
Outros membros da Confraria das Idéias são
o músico Apóstrofe, o inventor
Gradação e a contadora de
histórias Prosopopéia.
Apóstrofe adorava em suas canções interromper
a música para invocar alguém ou algo:
- Tempestade! Tempestade!
Quantas vidas já ceifaste
Neste lamaçal que tua água produz
Tempestade! Tempestade!
Que cruel consegues ser
Ao esconder do Sol a luz.
Gradação é uma pessoa que poderíamos
chamar de fatalista: tinha tudo previamente determinado,
seguindo uma seqüência pré-estabelecida
até a plenitude ou até o vazio:
- Não há porque lutar contra a morte, inequívoca
verdade que transforma nossa beleza em corpo em degradação,
em cinza, em pó, em lembrança, em nada.
Prosopopéia era “contadora de histórias”
em uma organização não-governamental
que auxiliava crianças com câncer. E como era
boa no seu trabalho! Fazia as pedras andarem, dava vida
a suas histórias. Contava assim:
- Enquanto a noite dormia, em cada esquina os paralelepípedos
preparavam a revolução; os postes, outrora
sempre quietos, arrepiavam-se ao ouvir as notícias
que voavam velozmente por entre os becos...
Havia ainda na comunidade mais duas figuras interessantíssimas
que não poderia deixar de lhe fazer conhecer.
O primeiro deles, Metonímia, era
um político de prestígio, governante da Aldeia
inclusive (pelo que consta, têm os cidadãos
desta Aldeia memória curta, sendo que Metonímia
aproveitava esta característica para, ao final de
cada mandato eleitoral, mudar de nome para conseguir a reeleição).
Seus comícios eram impagáveis, tive oportunidade
de presenciar um:
- Meu povo, minhas cabeças! Venho até vós
levantando minha bandeira em torno de uma bandeira comum:
nossa amada Aldeia!
Cheguei aqui pela primeira vez a vapor, mas lhes digo, como
seu representante maior: preciso fosse, viria até
de vela! Pelo povo linguageense, faria brandir meu ferro
se necessário para defender a honra e a terra deste
chão que tanto prezo!
No canto do palanque, outra personalidade única:
o padre Metáfora, chefe maior da
Igreja na comunidade, mestre em transportar para uma coisa
o nome da outra.
Em suas missas, dizia:
- Este é o corpo de Cristo: Comei! Tomai: este é
o sangue de Cristo! Seu sofrimento foi o pagamento de nossos
pecados...
Agora, enquanto termino de escrever esta carta para você,
meu amigo, lembro ainda do motorista do táxi que
me trouxe até o aeroporto. Chamava-se Catacrese:
- E então, para onde vamos? Vais avionar, transatlanticar
ou onibiar?
Realmente um povo muito estranho. Costumes esquisitos que
não havia visto igual em nenhuma de minhas viagens,
exceto, talvez, no Brasil.
Te mando outra carta depois de melhor conhecer meu próximo
destino: Utopia.
Um abraço sincero e afetuoso,
Neurótico Lunático
Anônimo
Rafael Luiz Reinehr
Sejam bem-vindas a Raquel e a Suzana Yogi,
que estréiam com glamour nesta edição
do Simplicíssimo e também a Grasielle Regassini,
que retorna querendo saber o sentido de muitas coisas.
Ótima leitura a todos e uma próspera
Simpli-semana! (aquela que começa
na quarta e termina na terça-feira)
PS: Ninguém (além de mim) comprou
nada na Livraria Cultura nas últimas semanas! Vamos
dar uma força ao Simplicíssimo! Se você
conhecer alguém que compra livros pela Internet,
recomende que compre através do site. Agradecemos!
"Os leitores extraem dos livros,
consoante o seu caráter, a exemplo da abelha ou da
aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra
o veneno "
Friederich Nietsche
"Há livros escritos para evitar
espaços vazios na estante "
Carlos Drummond de Andrade
"Os escritos são a descendência
da alma assim como as crianças o são do corpo
"
Clemente Alexandria
|
subir
Conto
sobre um Samurai
Susana Sanae Yogi |
|
Fazia muito frio naquela noite,e aquele tempo
condizia com o espírito do
solitário guerreiro. A frieza do seu olhar assustava.Nada
parecia importar para
ele.A não ser seguir seu caminho,mas ninguém
tinha conhecimento do destino na
qual ele queria alcançar
Ele era considerado uma lenda.O seu jeito de lutar ,a sua
arte era única.Mas
praticamente ninguém o conhecia verdadeiramente
O único que conhecia a fundo a história deste
samurai ,era já um senhor idoso
que se apressava a relatar o que sabia ao governate de uma
vila que tinha lhe
ordenado para contar sobre este homem que já estava
virando uma lenda.
Em nome da honra ,um samurai se mata.
Existem regras,leis,principios e nobreza para ser um legítimo
samurai.Mas seguir
tudo isso a risca pode deixar um grupo cego.E foi o que
aconteceu com o grupo
de Nori Matsuda "Em nome da honra",iriam semear
a uerra.Invadindo a vila que antes era aliada, e por causa de uma traição eles escolheram
uma direção que não haveria
vencedores.
Nori Matsuda já tinha enfrentado vários outros samurais,sua espada derramava
lágrimas de sangue.Mas ele foi esinado assim,tinha
que ser forte e defender seu
povo e seus principios.
Mas algo se rebelava dentro dele.E uma grande fúria
chamejante crescia e
simultaneamente a frieza em seus olhos camuflava seus verdadeiros
sentimentos.
Mas é claro que o idoso senhor não poderia
contar a história de seu amigo
assim.Então apenas contou que ele foi expulso por
seu grupo por ser rebelde
demais,e que ele( o idoso senhor) pertencia à vila
que o grupo de Nori Matsuda
iria atacar .Então ao invés de ataca-los ,ele
os defendeu,dizendo que a amizade
que tinha por ele significava sua verdadeira honra, e que
não estava mais se
importando para o que seu grupo acreditava.
Então foi expulso.
E agora vivia conforme suas própria idéias
e principios
O governante da vila ficou pensativo mas chamou Nori Matsuda
de louco.
E o idoso senhor voltou a sua vida e seus afazeres.
Foi nesta mesma época que depois de muitas lutas,
batalhas,e guerra interior que
o samurai,de repente abandonou sua espada
A sua espada foi encontrada na beira de um lago,ao lado
de flores de sakurá.
As lendas continuaram,mas agora não mais giravam
em torno de um bravo guerreiro.
Agora ouvia-se muito a respeito de um misterioso homem que
as vezes tinha um
olhar frio e congelante e outras vezes um olhar que aquecia
qualquer um.
Mas quem recebia de sua visita ,era como se a vida fosse
inundada por uma
tempestade.A mudança sempre acontecia
O homem misterioso se chamava Nori Matsuda.
Um verdadeiro samurai
Ilimitado na sua essencia
Guiado por uma luz maior que ele e que faz parte dele.
|
subir
Faz
sentido?
Grasielle Regassini |
|
Quem é que nunca se pegou acordado
de madrugada olhando as estrelas e pensando
em alguém, ou olhando pro teto com os olhos lacrimejando
de saudade?
O coração parece que vai parar, o choro não
vem, dá um nó na garganta que
parece sufocar. Isso é saudade, isso é solidão.
É a dor de não poder se sentir
completo por si só. É quando alguém
nos faz mais falta do que nós mesmos. É por
que dói voltar pra casa sem ver quem você queria
ver. É por que dói pensar que
a essa altura da madrugada ele certamente estará
com outra, uma namorada, um
rolo, ou apenas um caso da noite. E pensando nisso você
se sente covarde,
impotente, por que você não consegue fazer
o mesmo. Você não consegue beijar
qualquer um pra não pensar nele, por que você
se conhece e sabe que isso só vai
te fazer pensar mais ainda nele. Você sabe o quanto
vai doer se fechar os olhos
e imaginar que o está beijando, por que você
sabe que não se engana assim. Você
sabe que esse desgraçado tem um jeitinho maravilhoso
de te dizer as coisas que
você quer ouvir, no exato momento que você precisa
escutar. E se no conceito
feminino os homens são todos iguais, ele certamente
freqüentou assiduamente as
aulas de cafajeste por que só ele sabe ser da maneira
que ele é com você.
Suas preces e orações pra ele te ligar no
fim de semana são quase que sagradas.
E se ele não te ligar (o que certamente vai acontecer),
você vai sair com suas
amigar, fingir que tá tudo bem, que você consegue
se divertir sem ele e tentar
enganar a si mesma (porque suas amigas você não
engana mais).
E assim se vai mais uma semana da sua vida, mais uma semana
que você vai passar
sonhando e inventando situações em que ele
sempre volta pra você com juras de
amor eterno.Tudo isso porque você sabe que é
só por isso que você ainda vive. É
só porque você se ilude que você ainda
respira. É só porque se enganando você
ainda tem um fio de esperança naquele cara que não
faz sentido nenhum, mas é o
cara que te faz perder o sentido, e que te faz pensar no
sentido da vida.
|
Grande, largo e raso.
Melhor estreito e profundo...
Depende de cada caso.
Quisera eu que antes de tudo
Depois do nada
Houvesse um muro
Sei-o, não há.
E na cova como na cama,
O arrepio nos acompanha.
Seja o desejo, seja o medo;
Seja os dois em passional agregamento.
Fino, adocicado e raro.
Quase perfeito, não fosse a vontade que deixa.
Impressão de vazio impreenchível
Na boca, na alma;
Não respiro por medo de desmontar
Sinto-me oca,
Vejo-me louca
Cansei dessa toca que remonta ao tosco recôndito ancestral
Escuro, úmido, ecoa..
Ecoa, ecoa...
Povoam meus sonhos esses ecos.
Grunhidos indistinguíveis
Mesclados aos meus, inconfundíveis.
|
subir
Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
|
Lições para ouvir
Marvin Gaye
Ela me disse “Sexual Healing”, mas me disse
com alguma pretensão que escondia, na realidade,
sua vontade de parecer tão descolada, diferente de
qualquer garota comum que na certa me diria o nome de alguma
música de Alanis Morissette e reviraria os olhinhos
somente por causa da emoção que a lembrança
lhe traria. Quando ela me disse “Sexual healing”,
então, eu vi que o negócio dela era sexo somente,
e que estávamos, portanto, nos entendo tão
bem. E isso me pareceu sempre mais importante. Mais do que
todos os joguinhos propostos, todas as dificuldades naturalmente
impostas, todo o desejo dissimulado.
Até que estivéssemos em seu apartamento,
ainda passamos por “Let’s Get it on” e
uma meia dúzia de Kenny Gee que em qualquer outra
situação eu refugaria educadamente. Como o
programador musical da festa parecia, entretanto, querer
nos embriagar de apelos sexuais, dançar ao som do
sax meloso não me pareceu a pior das experiências.
No embate entre não se mostrar a mais fácil
das mulheres e me oferecer uma resistência, que, afinal
de contas, não acabasse fazendo com que o mais animado
dos homens se desmotivasse, ela escolheu um meio termo bastante
apropriado, e duas músicas em que, com os braços
levantados como que em êxtase profundo, eu consegui
notar que o seu entusiasmo pelo sexo poderia ser igual ou
até maior do que o meu (elas dançam assim,
como se o mundo fosse acabar umas cinco músicas depois:
os braços levantados, o copo em um das mãos,
os olhos invariavelmente fechados e o corpo em lânguidos
e lentos movimentos, não importando muito o ritmo
da música, mas nunca em contraponto melódico
a ela – e não importa, a mais desajeitada das
mulheres seguindo estes passos básicos, estas poucas
lições de como parecer atraente e esta já
será outra mulher sob o olhar do mais exigente dos
homens. Mas o momento deve ser único: a música,
ouvida e sentida como se fosse “a música”
de sua vida, a canção que mais arrepios lhe
traz, aquela capaz de domar todos os seus sentimentos amorosos,
sexuais e soterrados sob o cotidiano. E aquele momento é
único. Se a noite tiver quente, ela estiver somente
com uma fina regata de malha e os braços levantados
não oferecerem qualquer impedimento à visão,
somente aquilo, a visão pura, simples e inesquecível
de um belo par de braços em ritmo lânguido
e sensual como se o mundo fosse acabar, e a lição
terá findado: são poucas as lições
quando tudo o que se almeja é curtir intensamente
Marvin Gaye).
Ela disse Na minha casa. Eu não perguntei Por que
não na minha. Imaginei que ela pudesse ter toda a
coleção de Marvin Gaye para continuarmos a
festa em um ambiente muito mais íntimo e, afinal
de contas, para que contradizê-la se ela no comando
estava se mostrando tão perspicaz? Meia dúzia
de esquinas depois, o caminho de sua casa bem mais curto
do que seria para a minha, ela em estado alcoólico
de quase semiconsciência. Pensei que transar com ela
naquele estado poderia render-me a acusação
de estupro. Isto se ela lembrasse no dia seguinte que havíamos
transado. Consegui carregá-la até o seu apartamento
subindo três lances de escada como se houvéssemos
acabado de nos casar. E derrubá-la em sua cama, despi-la
para que dormisse tão confortavelmente e oferecer-lhe
um balde para os inevitáveis vômitos não
foram certamente a realização de um projeto
de uma noite de sexo desenfreado e descompromissado.
No dia seguinte, depois de acertar com facilidade a pergunta
sobre quem, afinal era eu e fazê-la crer que dançava
a música mais sensual do mundo como se este fosse
acabar, acabou por agradecer por não ter me aproveitado
dela naquele estado em que parecia pedir para que me aproveitasse
dela e me preparando um café para compensar o meu
final de noite fracassado. Entre tentar convencer-me de
que era a primeira vez que isto lhe acontecia, acabou por
gaguejar uma porção de vezes e vendo que eu
não parecia acreditar, acabou por concordar em me
mostrar sua coleção do Marvin Gaye e me responder
que sim, “Sexual Healing” é a música
da sua vida.
|
subir
en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
|
A grande planta verde
Um plantão é algo realmente desgastante para
o profissional da área da saúde. Não
apenas pelo estresse das situações limítrofes
e das habilitações necessárias para
tal, como bem podemos ver no famoso seriado do E.R. ou do
um pouco mais bem humorado Scrubs. Mas, como era de se esperar,
nosso país tem suas particularidades e absurdos que
incrementam qualquer história. A maior parte se deve,
penso eu, à falta de informação adequada
e/ou uma correta atitude das pessoas envolvidas (leia-se:
profissional e paciente). Mas existem outras causas, algumas
que eu nem devo ter ainda imaginado. Vamos tentar aprofundar
a questão, mas deixando de lado temporariamente o
caos social, a violência e outras coisas mais que
indubitavelmente fazem parte da cena deste crime.
É fato que os locais de atendimento de urgência
e emergência tem estado cada vez mais lotados, o que
acaba conferindo um certo “grau maior” de insalubridade
ao meio. Não menos certo é a irritabilidade
das pessoas com as filas e a demora no atendimento. Há
muito aquela paradinha na sala de espera deixou de ser um
charme para o “doutor” e cada vez mais todos
nós padecemos de um imediatismo assustador para tudo
e todos. Até o jornal de domingo queremos ter em
mãos ainda no sábado. E não é
diferente com a nossa saúde. Quantos pacientes impacientes
já entram no consultório com ares de poucos
amigos, de quem teve um péssimo dia e está
pronto para descontar tudo no primeiro cara de branco que
aparecer pela frente? (como diz o Fábio, meu grande
amigo e colega, “só porque vestimos branco
vão achando que somos ovelhinhas”). Ainda mais
se ele assistiu à reportagem do Fantástico
da série “Médicos Ruins”. Daí
sim, a mesa está servida. Isso poderia explicar em
parte também as ligações que os pacientes
fazem querendo saber qual o médico de plantão.
Mas a confusão entre um consultório e uma
emergência não pára por aqui.
_ Em que posso lhe ajudar?
_ É essa manchinha aqui no meu braço que apareceu
há uns 2 meses ...
Ou então:
_ Dona Judite, você por aqui de novo? (grrrrr)
_ Sabe como é né doutor, depois que a gente
se acerta com um médico não quer ir noutro
...
Ou ainda:
_ O que era para a senhora?
_ Ah eu vim trazer o meu filho para o pediatra e já
que estou aqui aproveitei para uma consultinha. A gente
sempre tem alguma coisa para consertar não é?
_ grrrrrrrrr
Estes são pequenos exemplos que parecem inofensivos
para quem vive apenas o seu mundo, mas se tornam grandes
tumultuadores quando se repetem nas salas de emergência.
A facilidade de acesso e o comodismo saltam aos nossos
olhos ainda mais quando se recorre a um serviço de
emergência com um problema específico que deveria
ser resolvido por um especialista. Se as lavagens de ouvido
são a maior causa de processo entre os otorrinolaringologistas
(pelo rompimento da membrana timpânica), certamente
deveria-se abolir tal procedimento de um pronto-atendimento
não especializado e informar adequadamente a população,
para que não fiquem achando se tratar de falta de
vontade do médico. Uma vasta gama de patologias cirúrgicas
(incluindo pêlo e unha encravados) pode se encaixar
aqui também. Por vezes uma simples padronização
nos serviços evitaria muita confusão:
_ O quê, mas o Dr. Fulano faz aqui, por que você
NÃO QUER fazer? Olha que eu vou para os jornais ...
Ah sim, já ia me esquecendo. A nova moda é
processar os médicos. Porque fez, porque não
fez, porque isso, porque aquilo. Nos EUA a regra é
passar grande parte do tempo da consulta literalmente lendo
bulas para o paciente não alegar que faltou informação.
O que se dizer das consultas em postos de saúde,
onde atende-se 20 pacientes por hora, numa velocidade que
até Schumacher sucumbiria. E uma boa relação
médico paciente ajuda, mas já não é
mais garantia para nada. Assim como nas portas de cadeia,
há sempre os oportunistas de plantão atacando
no plantão. Que lugar para se tentar levar uma vantagem.
Tem uma festa? Faltou ao trabalho? Quer sair um dia antes
ou voltar um depois no feriadão? Não custa
nada conseguir um atestado. Errado, custa caro, custa muito
caro. Principalmente para quem tem consciência. Mas
lembre-se, um dia você ou um dos seus pode ter uma
parada cardíaca, chegar inconsciente numa emergência
e o médico estar ocupado atendendo alguém
com uma micose, convencendo um cidadão a buscar um
especialista, tentando entender uma mentira em busca de
um atestado frio ou qualquer coisa do gênero ...
|
subir
I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
|
De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 17/X
Numa manobra radical
arriscou tudo
Furou o olho, animal
Faroeste 4/X
Mudo toda hora
Penso cada minuto
na senhora
Textos, contextos, críticas
e descrições
(Texto publicado a pedidos)
Estudar instituições
Aprender a gerenciar
Fazer ilações
Criticar
Posições precárias
Choro e lágrimas
Podem nossas máximas
Erradas?
Ver lugares de atores submissos
Compromissos,
críticos
Políticos
A organização afeta, muda
Escreve por linhas tortas
transmuta (para pior?!?!)
As vidas mortas.
Novos estudos, olhares
Vem de perto
Por certo
Novos lugares
Ver o empreendedor
Que luta até o anoitecer
Que faz acontecer
As coisas ao seu re-dor
(dupla dor)
Assim como nossa ação,
Para olhar:
Crítica ou descrição
Texto, contextualização
Será só um método, pergunto?
Analisar discursos
Ou perspectivas de ver assuntos
Belo recurso
(Das ciências sociais)
Reduto astuto
Para mostrar
O que não pode variar.
Limitadas escolhas
Seu bolha. (desculpe)
Novas direções:
Mapear cultura
(Velhas lições)
e estruturas.
Conjecturas
Após tantas leituras
Talvez eu não veja direita
Bordieu fala de poder
De querer ter
Das forças e da luta
Quem refuta?
Esquerda?
Ou mais uma forma de “ismos”?
Continuísmo
A formula pode ser
De mudar e ficar
De ensinar a fazer
Pesquisar, modificar
O grande problema
É viver
Onde quer que seje
“Se lá ta, deixe que lateje”.
Não ser radical,
ser o tal, ser moral
E conseguir viver de pequenas mudanças.
(todos os dias)
|
subir
Virtudes & Vícios
Virtude e vício são coisas distintas em essência.
A virtude é habituar-se à prática do
saudável, daquilo que proporciona prazer e faz bem.
Enquanto o vício é danoso e só causa
mal.
A virtude implica em bons hábitos, como reservar
momentos para admirar a natureza, destinar parte do tempo
para praticar a quietude, mergulhar em si mesmo, admirar
o belo.
Aquele que lê, ouve boas músicas e se alimenta
sem pressa, cultiva hábitos salutares.
Esse certamente vai descobrir coisas maravilhosas.
São pessoas que contemplam a vida com olhos de quem
ama a Deus.
Manter bons hábitos nos ajuda a um maior domínio
próprio e senso de equilíbrio para administrar
as vicissitudes da vida e não nos entregarmos às
depressões.
Bons hábitos fazem a vida sempre melhor.
Práticas diárias saudáveis e sociáveis
tornam a vida de todos mais proveitosas e benéficas.
Como realizar boas ações e auxiliar aqueles
que estão ao redor.
Os hábitos, bons e maus, influenciam muitas vezes
a conduta dos mais próximos.
Servem de exemplo. Por isso é grande a responsabilidade
por nossas práticas.
Devemos estar sempre atentos aos nossos costumes.
Há aqueles que cultivam mau hábitos: os vícios.
São pessoas que vivem num mundo da correria exagerada,
da rapidez do descartável, onde a calma e o bem-feito
parecem ter perdido o seu lugar.
Viciadas são todas aquelas que vivem a desrespeitar
as condições básicas do bom-viver.
Tem vício quem adora a sofisticação
em vez das coisas naturais e simples, quem fuma,
quem usa drogas, quem fere o próximo ou quem ingere
álcool exageradamente.
É viciado quem infelizmente deixa de lado o saudável
ato de criar para repetir padrões sem nenhuma inventividade.
Gente que a todo instante acena com facilidades e superficialidades.
Viciados são todos os descrentes de suas habilidades,
que só buscam imitar e procurar o mais fácil.
Viciadas são as pessoas que mal se permitem comer
uma boa refeição, por não se darem
ao trabalho de escolher um cardápio que as satisfaçam,
e se alimentam de pratos congelados, sem nenhuma caloria,
desprovidos dos nutrientes necessários para a nossa
saúde.
Gente que detesta usar a calma e a paciência em suas
ações.
Viciadas são todas aquelas que ignoram o respeito
ao próximo, a si mesmas e fazem dos melhores valores
algo desprezível e descartável.
Enfim, se bastam com suas medíocres existências.
Observando as diferenças entre a virtude e o vício
percebemos que a vida
de quem dispensa os hábitos positivos pode parecer
mais prática, mas, sinceramente,
perdeu muito do seu encanto, do seu romantismo e da sua
poesia.
Não é este o modelo de vida desejável
para os nossos filhos.
Quando nos habituamos a práticas pouco saudáveis,
desperdiçamos tempo com coisas bobas e fúteis.
Fazemos mal a todos e ao mundo.
Mas quando incorporamos bons hábitos às nossas
ações, cooperamos para a beleza e melhoria
da vida do planeta.
E, à medida em que nos lembramos de dar o melhor
de nós mesmos,
através de pequenos gestos que podem contribuir para
o bem-estar da humanidade, impondo cada vez mais a virtude
em nossas vidas,
estaremos enfraquecendo o sentimento de pequenez daqueles
que usam o vício como princípio em suas vidas.
Portanto, tornemos a virtude uma prática natural
em nossa vida e estaremos contribuindo
para um mundo melhor.
|
subir
Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
|
Original
O que é originalidade? De acordo com
o dicionário brasileiro, originalidade significa
a qualidade do que é original. Original por sua vez
significa referir-se à origem; primitivo; primordial;
que tem caráter próprio; não copiado;
nem imitado ou traduzido; singular; extraordinário;
extravagante; bla bla bla; pessoa singular; excêntrica.
E vem do latim originale.
Se existe uma qualidade que realmente aspiro, respeito e
considero essencial na humanidade é a originalidade.
Ser original é ser você, pois seus genes não
existem em nenhum outro ser do planeta, e, acredite em mim,
você é original e deve manter-se assim. Quem
foi que inventou a padronização? De tudo que
já estudei até hoje, não posso afirmar
qual foi o povo que deu origem à padronização,
mas sei que foi muito esperto e tirano.
Vamos a um exemplo prático: algum louco queria mandar
nos outros a sua volta, era forte e inteligente, era líder
nato como gostamos de colocar. Lutou contra vários
oponentes para ganhar a liderança da tribo. Quando
finalmente conseguiu, precisava de algo que o destacasse
diante do restante do povo, então instituiu vestimentas
hierárquicas, cores e comportamentos aceitáveis
de acordo com esses níveis diferenciados de sociedade
e ocupação. É muito provável
também que a moeda local começasse a ser mais
utilizada naquele momento da história. Liderança
+ dinheiro = capitalismo primitivo. Com a padronização
veio a produção em média escala. Esqueça
a originalidade, você veste o que eu mando você
vestir. Sem essa de dizer que uniformes ou roupas parecidas
servem para identificar grupos ou etnias, se moro no reinado
azul e quero usar rosa, por que não posso ser reconhecido
pelo meu rosto e meu nome, por que tem que ser pela roupa?
Por que sou tão insignificante assim? Eu sou único,
não tem como me confundir.
Se o rei usa um tipo de roupa e jóias, os sacerdotes
usam outros, o exército e suas patentes outros tipos,
e assim sucessivamente, até chegarmos aos simples
camponeses. Tente imaginar os costureiros e artesãos
desta época inventada por mim como exemplo, provavelmente
eram analfabetos, se é que já haviam descoberto
a escrita nesta tribo, não pensei nisso. Enfim, vamos
assumir que não sabiam ler nem escrever. Agora vamos
voltar ao conceito de originalidade neste contexto. Os costureiros
recebiam ordens faladas do que deviam fazer e como deveriam
ser os resultados. Muitas provas, acertos e por fim, depois
de quatro meses, as vestimentas do rei e do exército
estavam prontas. Mas certo dia um costureiro muito inteligente
teve uma excelente idéia. Após medir duzentos
homens durante meses, observou que havia padrões
de medida e que poderia criar moldes ajustáveis rapidamente.
Teve a sua idéia original. Que inovação
para essa tribo, fabricar roupas a partir de moldes. A partir
da originalidade de um homem, foi tirada a originalidade
de tantos outros. O líder rapidamente enxergou possibilidade
de ganhos em cima da idéia inovadora do simples costureiro.
Obrigou aquele pobre homem a ensinar sua técnica
a costureiros de tribos vizinhas por algumas gramas de ouro
ou prata, e quem sabe alguns porcos, não importa.
Os reis destes outros costureiros estavam pagando. Estava
criado o primeiro workshop capitalista do mundo. O slogan
deveria ser mais ou menos este: Venham, ensinaremos você
como ganhar mais, fazendo menos e ainda por cima convencendo
os seus súditos de que eles devem se vestir como
você quer, se não o fizerem, morrerão,
ou irão para a cadeia. Ou pior, não terão
emprego. Pois todo o dinheiro arrecadado com os workshops
e com as vendas das vestimentas vai para o cofre do reino
e você não pode fazer nada a respeito. São
ordens diretas do rei. Roubaram a idéia do costureiro
e criaram o caos. Duas vezes menos originalidade no mundo.
Pode parecer um pouco confuso, mas você vai entender
onde quero chegar. Se você quiser ir para o trabalho
de blusa roxa, saia amarela e meias verdes, será
que você pode? A resposta é óbvia, a
não ser que você trabalhe em uma casa noturna
de música eletrônica, ou fazendo teatro, com
certeza a sua roupa vai ser ridicularizada pelos demais.
Por que? Por que parece que a humanidade já engoliu
e assimilou tão bem a padronização
de comportamento. Grande empresa, sala com ar-condicionado,
roupa bem passada e sapato brilhando, seu cérebro
podia até ficar em casa já que é reconhecido
e apreciado por todos, do porteiro do prédio (que
por falar nisso usa um macacão horrível) ao
presidente da empresa. Agora, pegue um homem inteligente,
porém que aprecia a sua originalidade, que gosta
de usar tênis, jeans velho e camisetas de time de
futebol, será que ele vai conseguir uma sala com
ar-condicionado? Não vai nem chegar a fazer a entrevista
para a vaga!!! Não passará no filtro de Recursos
Humanos da empresa, não tem boa aparência.
Mesmo que as idéias dele fossem inovadoras como as
do costureiro que inventei, ele teve de esquecer a chance
de mostrar para o mundo as suas idéias. Foi barrado
por excesso de originalidade. Que ironia! Hahahahahahahaha!
Por isso eu amo e admiro a Europa. Lá você
pode ir a um bom restaurante usando penteado estilo moicano
na cor verde se quiser. Pode fazer top less nas praias sem
que os homens cubram o sol fazendo um círculo ao
seu redor. Pode ser brilhante como quiser. Acho que o Brasil
está melhorando, hoje dão bons empregos aos
tatuados também. Viva o século 21. Na originalidade
os brasileiros ganham nota dez quando querem. Até
canudinho de plástico se transforma em fantasia de
Mestre-sala e Porta Bandeira no carnaval, latas, caixas
de papelão se transformam em fantasias que deveriam
ir para exposições de arte moderna. Mas vamos
trazer esta originalidade para o resto do ano também,
vamos abusar da criatividade nata do nosso povo. Vamos assumir
nossa originalidade, cada um a sua. E é claro, não
é só na aparência que a originalidade
deve prevalecer. Utilizei este contexto para trazer a luz
a minha opinião, mas a originalidade deve ser apreciada
nas idéias, nas ações, nas criações
e nas dúvidas também, pois a dúvida
gera a busca, e a busca gera a descoberta, que gera o pensamento
primordial, que não pode ser copiado.
Eu digo, viva a coragem de ser o que quiser. Viva a Madonna,
os Ramones, os Mamonas Assassinas, o Tiririca. Viva as minhas
escolhas e as minhas preferências. As suas escolhas
e as suas preferências. Foda-se o padrão! Viva
a originalidade!
|
subir
Suburbanas
Marcos Claudino |
|
São Paulo, 03 de outubro de 2004.
Votos brancos e nulos
Arquimedes era um cidadão pacato,
meio chato. Mas era boa gente. Era daqueles tipos comuns,
até meio antiquado. Vindo do trabalho, parava na
padaria da esquina, comprava seus seis pãezinhos,
tomava uma caninha só pra abrir o apetite, e puxava
conversa com qualquer vizinho que estivesse por perto. Assuntos
como o tempo, o ônibus, o preço das coisas,
essas coisas. Era desses sujeitos que as pessoas não
sabem se gostam ou não gostam. Arquimedes passava
despercebido por estas elucubrações. Não
que fosse superior a elas, nem isso...
Do nada, tirou da cabeça a idéia de se candidatar
a vereador. Não sabe bem de onde veio isso. Ninguém
o encorajou, a idéia apareceu do nada, sem pai nem
mãe. Típico do Arquimedes essas coisas. Como
na vez em que decidiu comprar um terreno na Praia Grande.
Comprou, pagou todas as prestações, mas até
hoje, sete anos depois, nunca foi ver a propriedade. Se
fosse, descobriria que teria que entrar com uma ação
de desocupação contra a pobre dona da Pensão
Beira Mar...
Pois bem, Arquimedes decidiu candidatar-se a vereador. Nem
licença do trabalho resolveu tirar. Foi a uma gráfica
e imprimiu dois mil santinhos com sua foto. Escolheu um
dos candidatos a prefeito para apoiar, mas esqueceu-se de
imprimi-lo no pequeno panfleto de sua plataforma política.
Chegou em casa com os santinhos, e a mulher nem deu bola.
Achou que fosse uma brincadeira. Os filhos preocuparam-se,
mas esqueceram do assunto alguns minutos após o jantar.
As coisas eram assim com o Arquimedes.
Pela manhã, colocou uns quinhentos santinhos no bolso
do paletó, e foi trabalhar. No caminho, entregava
os santinhos a quem encontrasse. No vagão do trem,
as pessoas nem reparavam que era o próprio candidato
quem entregava a propaganda. Muitos jogavam no chão
no mesmo instante. Assim, Arquimedes passou toda a campanha,
acreditando realmente que poderia ser eleito.
O grande dia chegara. Após o jantar, Arquimedes pega
seu radinho de pilhas, e dirige-se ao quartinho dos fundos,
para prestar atenção ao resultado das apurações.
Sua esposa estranhou o comportamento do marido, sempre tão
meticuloso e discreto. Encontrou-o de cabeça baixa,
o radinho quebrado no chão, ao seu lado.
Arquimedes foi o primeiro candidato a ter zero votos, em
toda a história eleitoral do país. Chateou-se
pela família não ter se lembrado, mas não
se perdoou por ter esquecido seu número de inscrição,
votando apenas na legenda. Sabe como é, não
sobrou nenhum santinho pra ele mesmo...
Hoje ele é famoso, mas não pára mais
na padaria após o trabalho, nem cumprimenta os vizinhos,
falta apenas um ano para se aposentar, e está pensando
em visitar o terreninho na praia...
|
subir
Musicalidade
de povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
|
Wonkavision - Wonkavision
(2004)
O intuito do primeiro disco oficial do Wonkavision
já é de cara louvável: atingir um público
mais abrangente, não estando apenas nos nichos indie
ou nos dials das rádios no sul do Brasil. Só
por isso esse
disco já merecia existir.
Falar de Wonkavision é
quase como uma tese de mestrado. Afinal, foram poucas as
bandas que surgiram como eles, fazendo uso pleno da internet
e de demos que beiravam à perfeição
pop, até alcançar o status de
banda respeitada em todos os segmentos, ganhadora de concursos,
e enfim. (e agora, neste momento do texto, anulando o fanatismo
que fãs costumam ter) Realmente a banda compunha
canções que ninguém tinha coragem,
imaginação, e/ou dinâmica em compor.
Já desde 2001 a garotada elegia Demo
Disc #3 como o ápice de uma coleção
de boas músicas, com vocais masculinos e femininos,
moog aqui e ali, guitarras pesadas, e letras que todos gostariam
de ouvir, trágicas e com um sorriso perneta no rosto.
Mas em Preview em 2002, a banda atingiu
uma sonoridade ainda mais redonda. Evolutivo ou não,
isso não importa. A maravilha em ser sarcástico
e alegre,
aquele contraste todo, em canções como "Comprimidos"
e "Powerbossa".
Todo mundo que era vivo no mundo independente
não esperava que fosse possível uma melhora
no som ou nas
letras da banda daqui para frente. Na cabeça das
pessoas, a "fórmula Wonkavision" (seja
lá que diabos seja isso, para qualquer banda) já
está consolidada. O que causava apreensão
ao ouvir o disco que iria
recriar as canções que tanto embalaram garotos
e garotas em festas, shows, escuros de quarto, ou madrugada
feliz.
Em seu primeiro disco por uma gravadora, em
2004 finalmente o Wonkavision solta o que seria na cabeça
deles um grande álbum para cativar um público
ainda maior de ouvintes à procura de um pop competente.
Com hits antigos, futuros hits, balões, pensamentos
psicóticos (se formos comparar à normalidade
de ética que
a sociedade institucionaliza), muitas guitarras,
moog, e felicidade.
Desde que a banda surgiu, as pessoas (e principalmente
os críticos) cismavam em comparar o Wonkavision ao
Weezer. Até houve uma música-homenagem a Rivers
Cuomo e tudo mais por parte deles, mas mesmo que a banda
quisesse e fizesse de propósito transparecer essa
semelhança, não seria isso o que resumiria
a sonoridade da banda.
O tracklist do cd é interessante: para
quem nunca ouviu a banda, todas as músicas são
novas, obviamente.
E quase todas são boas. Para quem já ouviu,
vai claro entrar naquela discussão de "pô,
porque mudaram tal frase?", ou "porque isso está
mais assado que cozido, e por isso mais temperado que frito?",
o que é normal.
Vide eu mesmo, que ouvia as músicas das demos sem
parar, é quase um choque térmico.
Mas vale. Mesmo quem adorasse as versões
originais das letras de "O Plano Mudou" ou "Errado?",
ou a sonoridade mais densa da primeira, logo vai se perder
nessas cismas em novas canções belíssimas.
E não é
isso para que uma banda existe, a caminhada musical?
Das canções antigas, "Comprimidos"
foi a que ficou mais palatável, com letra mais uniforme,
ainda assim expressando uma certa verdade escondida nessa
geração, mas tendo mais rimas.
E são os pequenos detalhes que permeiam
o disco inteiro, e que fazem o Wonkavision querer ser pop,
mas ainda assim não se entregando tão facilmente.
Como no
berro do refrão de "Ei, Não É
Por Mal", pegando de surpresa quem acha que é
uma canção rock normal, ou apostando na quase
glicose saturada de "Brinquedos",
deixando a banda brincar com sonoridades viajantes e refrão
em inglês.
"Quando 16" e "Rejection Junkie"
(já conhecida em mp3s ao vivo rodando internet afora)
são grandes respostas às rádios que
deverão tocar essas duas músicas, por
decreto máximo, ou ter um carro alto-falante pelas
ruas de todas as cidades.
O primeiro disco do Wonkavision foi o que
é: mostrar ao público poderosas canções,
seja as antigas ou novas, e introduzir ainda mais o ouvinte
ao mundo Wonkavision, não só de camisetas,
fanatismo nazista,
babação de ovos e enfins novamente. Sucesso
é o que essa banda merece, e espero eu em minhas
previsões, não só no meio independente,
não só no Brasil.
Website
oficial (em construção)
mp3
para download
|
Ombudsman
Alessandro Sachetti |
|
Até o fechamento da edição,
o Alessandro não estava conseguindo nem respirar
nem realizar suas necessidades mais básicas (cerveja,
namorada, nesta ordem), mas vai tentar mandar o ombudsman
assim que possível.
|
subir
www.simplicissimo.com.br
Copyright © 2003 - Rafael Luiz Reinehr - Todos os direitos
reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir os
textos do site, mas não esqueça de citar a
fonte e o autor.
|
|
Agora
você pode comprar seus livros preferidos aqui mesmo pelo Simplicíssimo
e, ainda por cima, ajudar a manter o site funcionando!
Compra
através do banner aí embaixo que estarás doando 4%
do valor de suas compras ao Simplicíssimo!

Pegue o banner
do Simplicíssimo
e divulgue em seu
sítio ou blógue!

Línque
para
http://www.simplicissimo.com.br
e depois nos avise!

Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
|

Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
|
|