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Editorial


Clonagem Terapêutica: Mito ou Realidade?

A clonagem terapêutica envolve a criação de um embrião através da transferência do núcleo da célula adulta de um paciente em um óvulo humano cujo núcleo foi retirado. Após crescer em um meio de cultura por vários dias, este clone gera várias células-tronco, capazes de se diferenciarem em qualquer tecido do organismo. Pelo fato de terem o mesmo código genético das próprias células do paciente, não existiriam problemas de rejeição ao serem usadas para tratar doenças ou tecidos danificados.

Sua promessa de acabar com doenças como o diabetes, a Doença de Parkinson e mesmo restabelecer o movimento em pessoas com lesões da medula espinhal tem sido a força motriz de uma parcela da população científica. Do outro lado, existem aqueles que condenam a produção de um embrião que teria sua assim chamada “vida” encerrada após poucos dias.

Toda esta discussão se acentuou em Fevereiro, após uma publicação na revista Science de um artigo de W. S. Hwang, médico veterinário sul-coreano da Universidade de Seul onde o mesmo demonstrava pela primeira vez a cultura efetiva de células tronco a partir de óvulos femininos clonados.

Deixando de lado toda aquela história dos Raelianos, para os quais a clonagem é o caminho para a imortalidade, que bradavam ter criado o primeiro clone humano – o que jamais foi provado – esta seria a primeira prova científica de uma clonagem realizada com sucesso na raça humana.

Para conseguirem criar uma única linha de células-tronco, foram necessários 242 óvulos oriundos de 16 mulheres, que voluntariamente submeteram-se ao tratamento hormonal necessário à produção de 12 a 20 óvulos por ciclo menstrual ao invés de um, que seria o normal. É importante dizer que tal tratamento pode causar às mulheres desde desconforto e estresse emocional até trombose venosa e um acidente vascular isquêmico (derrame cerebral).

Em conclusão, antes que a clonagem terapêutica se torne uma realidade, a produção de células-tronco deverá se tornar mais eficiente, assim como as técnicas que as fazem transformar nos tecidos esperados. Até lá muita discussão nos campos da Ética devem servir para guiar a Ciência no caminho que a humanidade como um todo espera.

Rafael Luiz Reinehr

 

Sejam bem-vindas o Marko Ajdaric e o Carlos Róbson que estréiam sensacionalmente nesta edição do Simplicíssimo e também o Conrad Rose, que retorna com sua Cozinha da Mãe Rosa em sua segunda parte.

Ficamos sem Ombudsman por mais esta edição, pois o digníssimo Alessandro Sachetti encontra-se atulhado de trabalho e não encontrou tempo para ler todos artigos do site e nos enviar sua crítica. Torçamos para que tudo entre nos conformes e que o tenhamos em breve ocupando seu cargo.

Ótima leitura a todos e uma próspera Simpli-semana!

 

PS: Depois do pedido encarecido, vários Simplileitores entraram em contato perguntando como comprar através do site na Livraria Cultura e auxiliar o Simplicíssimo. Respondo: É simples: basta clicar no banner aí em cima na direita! O resto é automático!

"Há pessoas que vêem as coisas como elas são e que perguntam a si mesmas: ''Porquê?'' e há pessoas que sonham as coisas como elas jamais foram e que perguntam a si mesmas: ''Por que não?"
G. Bernard Shaw

"Aquilo que hoje está provado não foi outrora mais do que imaginado "
William Blake

"A obra que trazemos em nós parece-nos sempre mais bela do que aquela que fizemos"
Alphonse Daudet

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Como triunfar no jornalismo pós-moderno?
Marko Ajdaric

1) Qualquer notícia é qualquer notícia.

2) Os fatos não tem história.

3) O auê é mais importante do que o por que.

4) Não se ligue em essências. A aparência é o que vale.

5) Não há versões, nem análises. Só os mesmos fatos de sempre.

6) Mentir não é um problema. Desde que seja a mentira da moda.

7) Não deixe as pessoas descobrirem o que você não possa dominar.

8) Fale sempre dos mesmos assuntos.

9) Elogie sempre o que já está em evidência.

10) Fale mal de um cara na página 2 e de outro na página 4 e venda seu jornal
para ambos.

11) Nunca trate nada com profundidade. Assim, quando você descartar um assunto,
ninguém vai perceber.

12) Nunca mostre a essência de um governo. Siga o factóide do dia.

13) Ponha bastante expressões estrangeiras. Assim, vão acreditar que você é
inteirado.

14) Não mostre outras fontes. Não corra o risco de fugirem de sua verdade.

15) Caso você tenha opinião, não deixe que percebam.

16) Se a notícia não agrada seu anunciante -ou o dono do grupo que controla seu
jornal - você não a viu.

17) Não existem outras versões de um fato além da nossa.

18) Se o citado é um ícone nosso, destaque-o no título (Ex: O New York
Times), se não, oclua (Ex: jornal).

19) Não importa o que aconteça na economia real: a manchete sempre tem que ser
sobre bolsas de valores.

20) Não estude. Basta seguir esta cartilha.

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A Cozinha da Mãe Rosa (II)
Conrad Rose

Na véspera, Mãe Rosa conversava com a caçula – única filha que viera para o final de semana, enquanto trocava a água do bacalhau (1200 gramas) – pela quinta e última vez(!), e coava café. Propôs à filha a companhia de Seu Onofre, homem solitário e de origem lusitana. A filha ainda incentivou e percebeu um intrigante brilho no sorriso de Mãe Rosa.

Cozeu feijão fradinho e – bem quente – acrescentou cebola e cheiro-verde picados. Assou na chapa dois pimentões vermelhos e após descascá-los e picá-los, juntou ao feijão já frio e temperou com azeite de oliva, vinagre de vinho branco, sal e pimenta - tudo ao som de Elis Regina. Refrigerou o feijão e reservou o bacalhau. Foi para a cama cedo, evitando olheiras. A caçula também, com Nirvana no fone e desenhando corações aos dezesseis.

Mãe Rosa retardou preguiçosamente o levantar. Após o café – ouvindo Pixinguinha – colheu uma chicória italiana e com louro, cheiro-verde e coentro fez um amarrado. Ferveu o bacalhau por cinco minutos, retirou-lhe os espinhos, partindo-o em lascas. Esquentou 300 mililitros de azeite de oliva; ali refogou seis cebolas grandes e dois pimentões verdes em rodelas, seis dentes de alho picados e cheiro-verde a gosto. Cozeu um quilo de batata e cinco ovos.

Quando o sol transpôs os montes, ela já havia fritado o bacalhau e as batatas no refogado por dez minutos e assim que as batatas começaram a fritar, montou o prato. Mãe Rosa providenciou um grande refratário e dispôs: lascas de bacalhau, ovos cozidos cortados ao meio, cebolas, pimentões e batatas em rodelas e azeitonas pretas. Antes porém, verificou o sal.

O amarrado soltou ao arroz depois de usá-lo para mexer meia cebola ralada no óleo de milho, com sal a gosto. Orientou a filha no tempo e na intensidade do fogo. O arroz solto. Quinze minutos de forno máximo para o bacalhau. A chicória cortada como dedos mínimos com o feijão acima. Mãe Rosa liberou-se para um demorado banho e muitos aprumos. Escolheu um vestido florido onde predominava o vermelho que se encontrava guardado há anos. Água de cheiro.
Seu Onofre retirou de sua adega um vinho do Porto e um branco seco de suas parreiras, completamente orgânico. Paletó e a melhor de suas violetas, num belo vaso de barro pintado.

A moça tirou de letra e ainda fervera um quilo de açúcar, 600 mililitros de água, um pau de canela e quatro cravos. Acrescentara dois quilos de goiabas vermelhas – sem cascas ou sementes, para cozer.

Anunciando-se a chegada de Seu Onofre – precisamente ao meio-dia como marcado, Mãe Rosa mantinha os quentes na chapa do fogão à lenha e tratou de postar a mesa: bacalhau ao forno, arroz e salada de feijão fradinho com chicória. A goiabada em calda da caçula ao canto. Azeite de oliva, vinagre de vinho branco, sal e molho de pimenta caseiro. Amália Rodrigues trilhou o vinho do porto e também o almoço.

Mas Seu Onofre sofreu com sua timidez diante da adolescente. Já Mãe Rosa era só sorrisos.

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Réstia
Carlos Róbson Mendonça da Silva

Pela ausência do medo
Procuro medos
Verbos que atravessem
A garganta
Escorram amargura
Pelos tímpanos
Agudos
Como a gravidade
Da fala do moribundo
Da pele emergir
Rápida palidez
Retorcer pêlos e cabelos
Afogar gritos com a nudez
Do desespero
Arrasta minha mão em desatino
Ensangüentada
Pelas paredes
Criando um novo corpo
Distribuído
Em dor
Medo
Agonizando
Junta o sangue e o medo
Para me calar.

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Depois

Madrugada, algum lugar.

Estou escrevendo o texto ou somente continuo puxando o novelo de mil pontas que, em verdade, não me levará a lugar algum? É melhor que o faço antes do conhaque, do contrário, somado à já natural nebulosidade com que comumente escrevo, terei ainda a volatilidade traiçoeira a açoitar-me as vistas e os sentidos e a fazer-me crer que tudo o que vem é claro é coerente. E este é o pior dos enganos. Se já me confunde os sentidos não saber onde começo e quando começo isto, pior é a incerteza de não saber se, afinal, você me ajuda mais do que confunde. A ponta do começo da tarde de ontem tinha Eliana, como é bastante usual. De amarelo, como gosto e como poucas vezes digo que gosto. É problema e tempo perdido não te elogiar o bastante, Eliana. Tempo perdido por que o elogio me vem à boca e não abri-la para que as frases saiam assim, naturais, correspondendo à sua vontade, é como selar um instante do nosso tempo em maldita coisa não-dita. Podia te dizer assim, como tu estás linda, que tão bonita tu ficas de amarelo, e neste instante, é óbvio, você só me beijaria a boca – não sabe reagir a elogios de outra maneira, e é modo teu, somente teu, não afetação – e riria, me beijando com dentes. E tomaríamos o café e diríamos coisas quaisquer sobre o cotidiano comentando como o garçom se demora com a conta. Nossas próprias piadas, nossas frases entrecortadas, nossos olhares que se complementam. Bem verdade que, por vezes, parece mais fácil tecer críticas do que os elogios nos momentos em que estes deveriam ser feitos. Dizer-te que a foto não ficou bonita, mais uma vez. Tu não sorris, te pões casmurra, tão séria e mais uma vez as olheiras te saltam no rosto tão branco, e não foi por que não dormiste o bastante ontem à noite. Ainda mais ontem à noite, Eliana. Ontem à noite não fizemos o amor. Adormecestes com o rosto no meu braço, outra vez. E notou como o meu braço anda rijo? Levantei um daqueles pesos pequenos que teu irmão comprou e mais o vício solitário que, nem percebemos, é exercício para a musculatura também. Mas eu não devia ter te dito que não ia querer guardar este teu retrato em minha carteira. Ficar esperando o próximo, por que sei que no próximo sairás tão bonita! À não capacidade de elogio é melhor o silêncio.

Seria elogio te dizer que prefiro você, sempre você, a todas as imaginárias outras, que, ao certo fariam tão melhor? Que não se poriam tão quieta, que tratariam de participar mais, propondo outras coisas loucas? Que, ainda na tua timidez, prefiro tua quietude, e saber quando tu gozaste, por que gemeste do teu jeito? E sabes que gosto do teu jeito?

Novelo de mil pontas... À noite é sempre tão melhor, quando tudo o que foi dito no dia pode ser contemplado com a distância como em um filme, o distanciamento que me permite ver as bobagens que fiz, tudo tão bom enquanto sei que posso abrir o conhaque e servir somente uma dose, não embaralhar os sentidos.

Ao final dos telefonemas, sempre um eu te amo tão mecânico quanto verdadeiro, e como a mecânica, o automatismo dos nossos dias podem ser encher de tamanha verdade? Se não vem, eu sinto falta, penso que falta algo, somente o tchau, beijo. E sabemos que estamos de mal, que estamos brigados, que não vou passar o dia bem.

Depois, sabemos o que vem, e o que vem é sempre melhor. Você bem que podia me ajudar para que eu não confundisse tanto as coisas, hein, Eliana? Sei, sei que tu dás risada, me comporto como velho às vezes, tenho manias de velho, estas coisas e este casaco vermelho sempre para escrever, mesmo quando não está frio. Melhor que seja depois o conhaque. Por enquanto, concatenar algumas idéias, nem sei se estou escrevendo o conto, Eliana. Talvez puxando somente algumas pontas do novelo. Levando-te para concertos de bandas que não gostas, pagando caro para ouvir cópias ruins de bandas que nem podemos dançar, Eliana. Depois poderemos dizer que estivemos lá, e abraçar os integrantes e achar que foi tudo bom, uau. Mas poderíamos ter ficado em casa e dormido somente. E poderíamos ter visto um filme, o filme que tu quiseste olhar no cinema outro dia e dormir com a televisão ligada e acordar excitados no meio da noite e fazer amor. E poderíamos ter feito tanta coisa, eu sei Eliana. E eu poderia me espantar em saber que tu ainda estás comigo, ainda depois de tantas contas e eu saber que fiquei em débito, eternamente em débito contigo. E saber que meu crédito é um sorriso teu, e a certeza de que o saldo voltou à minha conta e podemos começar tudo de novo, e mais um dia, e outro dia, ainda que tão pouco tempo agora tenhamos, nossos fins de semana já não mais nos pertencem. Somente estes poucos instantes roubados de outras horas, e bem que poderíamos nos casar para termos todo o tempo só nosso, então.

Depois o conhaque. Agora o conto, por que preciso saber se escrevo o conto ou puxo mais um dos fios do novelo, Eliana. É preciso escrever o conto. Depois. Agora, o conhaque. Depois o conto.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Aqui está

De tudo existe nesse mundo
Não sou eu apenas quem digo
Do magnata ao vagabundo
Desde o novo ao mais antigo

Mas nem sabes o que procuro
E não poderás assim achar
Nem no claro, nem no escuro
Por se acender e se apagar

A menos que eu lhe diga
E você se deixe escutar
A minha mais doce cantiga

Ao céu de estrelas, ao luar
Resolve tudo que me intriga
Quando vens me encontrar

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 17/X

Fulminou o cara
e, como um raio,
fugiu usando máscara

Faroeste 5/X

Amar não tem nexo
Carinhos e caretas
o melhor do sexo

FERIADO I

No meio do feriado tinha uma aula, tinha uma aula no meio do feriado.

Pois é, todos somos filhos de Deus. Com a exigência cada vez maior das empresas por produtividade e a grana cada vez mais curta, as pessoas usam os feriados como férias.

No meu caso, ficou ruim, pois tinha uma pedra no meio do caminho, ops, uma aula.

Também tinha que escrever este texto, mas esta "obrigação" é prazerosa para mim, pois tenho como extravasar meus pensamentos da semana, não os colocando em forma de textos acadêmicos ou de me cuidar para não dizer coisas que alguns podem concordar ou não. É um dos melhores momentos da semana.

Gosto de viajar nos feriados, porém não gosto de ir e voltar em congestionamentos. Prefiro ir antes e voltar depois. Tranqüilo. Sem stress.

Porém, tem alguns lugares que procuro evitar em feriados. Se for para enfrentar um trânsito igual ao de Porto Alegre na noite ou de dia, prefiro ficar aqui, já que nestes dias, é como se estivéssemos no interior. Garopaba e Tramandaí, por exemplo.

Uma cidade legal para visitar nos feriados é São Paulo, as filas diminuem consideravelmente e os espetáculos continuam lá. Muito bom.

Tem gente que sai de casa para ir para casa. Não sou destes. Saio de casa para ir para o diferente, para o novo, para o inusitado. Está certo que, às vezes, estamos presos na nossa rotina e na nossa grana.

Veja bem: a natureza é de graça, assim como a paz e a tranqüilidade. Nós mesmos pagamos caro para ter um mundo artificial e atribulado perto de nós.

Só resta terminar com uma frase de uma música: "até quando esperar..."

Não espere, faça seu mundo diferente, mesmo quando você estiver de folga dele.

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Utopias
Luiz Maia

Viver ou Existir

Um dia eu pude perceber que existe uma enorme diferença entre ver e enxergar, ter e ser, ouvir e escutar, andar e caminhar, desejar e querer. Descobri também que viver e existir são coisas inteiramente distintas.

Algumas palavras podem ter o mesmo sentido ou finalidade quando incluídas em uma oração qualquer, parecendo a muitos uma questão de semântica ou de palavras afins.
Mas de fato há uma sutil distância entre entender e captar a essência daquilo que nos foi mostrado.

Os fatores subjetivos, aquilo que está subliminarmente compreendido,
precisam ser melhor interpretados por quem não consegue enxergar o âmago daquilo que foi exposto.
Ninguém menospreze a força do "oculto" que reside nas "entrelinhas", por exemplo.

Portanto, quando alguém fala que viu não significa dizer que enxergou o que deveria.
Há distâncias infindas aí.
Quando andamos não quer dizer, necessariamente, que caminhamos.

Andamos às vezes sem ter o menor objetivo traçado, sem nenhuma meta a ser atingida.
E ao ouvirmos um som qualquer não implica jamais em afirmarmos que escutamos.
Escuta aquele que sente, aquele que busca ouvir o que não foi dito; o que ficou implícito.
Há muita gente ouvindo por aí sem escutar absolutamente nada.

Esses pequenos exemplos nos remetem à seguinte reflexão:
Viver e Existir são fatores completamente opostos.
Existir é o mesmo que passar pela vida sem tê-la vivido de forma correta e intensa.
Aquele que apenas existiu esqueceu de se fazer presente no livro da história, digna e plenamente.
Simplesmente passou despercebido.
É lamentável vir ao mundo e ter perdido a chance de ter vivido satisfatoriamente.

Viver é realizar-se plenamente, sempre voltado às ações que engrandeçam o ser humano.
Vive aquele que se sente parte integrante do Universo.
Vive quem faz de tudo para ver a alegria estampada na face do outro.
Viver é sentir prazer em amar a Deus acima de todas as coisas.
Vive quem ama e respeita a natureza e todas as formas de vida.
Vive quem pratica só o bem.
Viver é amar sempre, sempre!
Vive aquele que estende a mão ao amigo que necessita.
E é certo que quando estendemos a mão ao nosso irmão, Deus nos estende a d'Ele de imediato.

Viver e Existir são diferentes em essência.

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Mulher maravilha

Sente as rugas em tuas mãos.
Olha os calos em teus pés.
Lembra-te dos teus dias de menina.
Sempre a dançar na rua, fosse noite, fosse dia.
Sempre alegre e satisfeita.
Nunca triste e rancorosa.
Tenta lembrar como era sentir o vento em teus cabelos.
Roubar frutas na vizinha e comer com as mãos.
Limpar o rosto suado na camiseta.
Esquecer do tema por causa do futebol dos meninos.
Sente o peso em tuas pernas.
Olha para teus seios, note como caíram.
Agora sorri. Já não é mais menina.
É mulher.
Mulher perfeita.
Mulher crescida.
Mas mantém teu espírito de menina, apenas agrega à sabedoria dos novos dias.
Sente o filho que se alimenta de ti.
Olha os seios, como são lindos.
Põe a mão em teu ventre, sente como é macio.
Aprecia a face amadurecida e note a beleza contida em teus olhos generosos.
Nunca pense em como seria se fosse homem. Ame ser mulher.
Agradeça a tua feminilidade, todos os dias.
Lembra-te que Deus é Pai e Mãe.
Mais Mãe do que Pai.
Lembra-te de que o amor que sente pelos teus filhos deves antes sentir por ti mesma.
Agora dança como mulher. Sorri como menina.
Veja como tudo podes mudar com o movimento dos teus quadris.
Sente o poder. Sente a magia.
Limpa tuas lágrimas na camiseta.
Esquece a roupa que tens de lavar e mergulha em teus pensamentos.
Concentre toda a tua força.
Viva com energia.
Alegre e satisfeita.
Olha-te no espelho, linda mulher maravilha.

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Suburbanas
Marcos Claudino

São Paulo, 12 de outubro de 2004.

Aqui na Terra tão jogando futebol, lá no céu...

Dizem que Gonzaguinha estava batendo um papo com Vinicius sobre as questões culturais rolando lá pelas bandas do céu. Achavam que as coisas estavam meio paradas, que não havia muita manifestação por lá nos últimos tempos. Isso porque o presidente da casa maior da cultura, o querido poetinha Drumond, andava meio apático. Parece que havia perdido a alegria de escrever. Pois aquelas tão lindas poesias e contos que circulavam pelo paraíso já não eram mais as mesmas. Tão aguardadas por todos, até o arredio Renatinho Russo as esperava ansiosamente. Ele, tão quieto, tão tímido, só abria um sorriso na chegada da edição semanal do ilustre cronista maior... Mas, nos últimos números, suas obras denotavam um qualquer de insegurança, pois traziam muita desilusão e incerteza.

Até que um dia, sem muita explicação aparente, as obras voltaram a trazer ternura, voltaram a trazer alegria pura, aquela mania de deixar as pessoas de bem consigo mesmas. Pois o que faltava mesmo, não era a alegria, mas alguém para compartilhar as idéias. Descobriu-se então que a volta da alegria às obras do poetinha, era de inteira responsabilidade da chegada de um habitante ilustre. Fernando Sabino apareceu, meio sem entender bem, e já puxou uma cadeira ao lado do mestre. Um bom papo, algumas contemplações à paisagem celestial, e a alegria, naturalmente, voltou pra ficar. Ainda bem que ele chegou... Dá pra imaginar Drumond sem alegria e ternura?

Se existe uma forma de fantasiar, de acreditar na existência de um céu, de um paraíso, a mim, só pensando que ele é habitado por figuras mágicas e inesquecíveis... Bem vindo ao paraíso, Mestre Fernando Sabino, obrigado por ter existido... Dá pra imaginar um céu, sem o talento de Fernando Sabino?

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Musicalidade de povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai

Imagino o que Gilberto Gil pensou em fazer ao entrar em estúdio e gravar seu segundo disco. Oriundo de um passado bossa nova, de música popular brasileira tradicional, só mesmo as vestes tropicalistas para fazer gravá-lo um disco como esse. "Vamos chamar Serginho, Arnaldo e Rita!", afinal, o ajudou tanto no Festival da TV Record, em "Domingo No Parque", onde o tropicalismo ainda não era o movimento que seria execrado por todos, e sim, uma ruptura rara, uma ruptura que era aceita por grande parte do público.

Gil já devia era estar cheio. Já havia apoiado seus amigos na passeata contra a guitarra elétrica, gravara discos que ainda seguiam uma estética de música com violão brasileira, e se encontrava em 1968, ano de grandes mudanças. De suas grandes mudanças, das mudanças que causava.

Como irritar os puristas? Não, acho que não. Acho que Gil, ao contrário de Caetano Veloso, tinha os pensamentos mais voltados para maravilhar as pessoas no sentido de choque, e não propriamente chocar e causar taquicardia. Achava que sua "Domingo No Parque" havia se saído muito bem. Creio eu, já tinha arquitetado que antes de soltar um disco calcado no acid rock em 69, precisaria amansar a platéia com ousadias (com o perdão da redundância) mais ousadas, mas mais amenas.

Recrutou Os Mutantes. E em 1968, gravava seu álbum que melhor sintetizava seu espírito tropicalista. Se Veloso tinha o disco do ano futuro, Tom Zé seu disco de estréia, e Gal seu começo de carreira inteira, Gilberto Gil abordava a Tropicália em cantigas alegres, brasileiras mesmo.

Gilberto Gil tinha uma grande vantagem acima da maioria de seus colegas músicos: era talentoso na hora de compor melodias e letras. Não embromava com discursos panfletários, não precisava apenas teorizar seu trabalho em algum mestrado de cancioneiro doido, e nem precisava exercer seu lado intérprete. Se virava com o estúdio - neste disco, com quatro canais disponíveis para ele e a banda - e com seus amigos.

Com amigos, defina Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Rita Lee, Rogério Duprat e Manoel Barenbein. O mito brasileiro que deve cair a todo custo é que todos os músicos daquela época nunca causaram uma revolução sozinhos. E no caso dos tropicalistas, os maestros e músicos de apoio foram essenciais para tornar aquela anarquia uma coisa real e palpável. Neste caso, Gil era um dos poucos músicos humildes que não tirava mérito de nenhum de seus companheiros.

Isso é bem expresso em "Pega a Voga, Cabeludo". É lindo pensar que em um dia Gil chegou no estúdio e disse: "ah, vamos gravar em um take só... vamos ver no que dá...", e lá soltavam Os Mutantes fazendo uma base que, mais espontâneo impossível. As intervenções de melodia de "Hang On Sloopy", o convite de Sérgio Dias para soltar um solo transloucado, a frase "esse som psicodélico é redondo que uma gota" de Dirceu no meio da música, menção de Barenbein ("Manoel, pára de encher!") e o coro mais feliz que Os Mutantes já fizeram em sua vida. De soltar os pulmões e ver no que dava. E o "já deu" de Gil ao final da música, lindo.

No mais, o album era uma mescla das idéias musicais geniais do quarteto Mutantes-Gil, com música brasileira. Tinha a influência da garotada em "Procissão", no coro tchubi-tchuba, junto a levada nordestina, e timbres de guitarras e baixo inconfundíveis. Imagine isso. Maior complicação gostosa de melodia, só em "Domingou", quase uma ode perfeita à felicidade e à peraltice. Um coro que não chegava a ser de anjos ou coral de igreja, mas que exaltava uma criancice repleta de alegria juvenil.

Qualquer levada brasileira junto ao trio virava algo inusitado. Até em "Pé da Roseira", totalmente tradicional, mas que vez e outra, destoava entre passagens e slides de guitarra e baixo.

E havia "Domingo No Parque", clássico da época, e da música brasileira. Aqui, assim como em todos os arranjos de Duprat ao longo do disco, é evidente a vontade do maestro em criar rupturas melódicas e harmônicas, criando verdadeiros cenários, quase como em teatro ou cinema.

Continuando em 1968, para os agraciados que tem a versão em cd dessa obra, há dois momentos em compacto que falam mais para que Gilberto Gil existiu nos anos 60.

"Questão de Ordem" já indicava para onde Gil iria em 1969. Com o apoio dos Beat Boys, é um dos rocks mais ácidos da década, com quase seis minutos de duração, a guitarra fuzz gritando em quase toda a faixa, e gritando ainda mais ao final, quando Gil se cala para ela terminar de vez aquela fuzarca sonora psicodélica.

Com participação também d'Os Mutantes, havia "A Luta Contra a Lata ou a Falência do Café", quase um teatro sonoro, com latas, voz e um violão. Ousadia em lançar em compacto, assim como querer lançar a já citada "Pega a Voga, Cabeludo", algo altamente simbólico.
Tantas pérolas pop a serviço, e querer lançar justo a menos certeira do disco.

"Você também põe droga no seu café?", pergunta-se, seguido de várias risadas, ao final da música.

Acredito mesmo na autenticidade de Gil em querer romper com estigmas e tradição. Não era algo forçado ou planejado a fim de querer impressionar a namorada do portão da frente. Era simplesmente uma marcha, um câmbio automático que havia na mente, que indicava aquilo como completamente normal, somado à vontade de mostrar aos outros que aquilo também havia de ser normal, era apenas paciência.

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Ombudsman
Alessandro Sachetti

Crise nas infinitas terras...

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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