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13 /10/2004 - Edição número
97
Gabriel,
foi pro céu...
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Clonagem Terapêutica: Mito ou Realidade?
A clonagem terapêutica envolve a criação
de um embrião através da transferência
do núcleo da célula adulta de um paciente
em um óvulo humano cujo núcleo foi retirado.
Após crescer em um meio de cultura por vários
dias, este clone gera várias células-tronco,
capazes de se diferenciarem em qualquer tecido do organismo.
Pelo fato de terem o mesmo código genético
das próprias células do paciente, não
existiriam problemas de rejeição ao serem
usadas para tratar doenças ou tecidos danificados.
Sua promessa de acabar com doenças como o diabetes,
a Doença de Parkinson e mesmo restabelecer o movimento
em pessoas com lesões da medula espinhal tem sido
a força motriz de uma parcela da população
científica. Do outro lado, existem aqueles que condenam
a produção de um embrião que teria
sua assim chamada “vida” encerrada após
poucos dias.
Toda esta discussão se acentuou em Fevereiro, após
uma publicação na revista Science de um artigo
de W. S. Hwang, médico veterinário sul-coreano
da Universidade de Seul onde o mesmo demonstrava pela primeira
vez a cultura efetiva de células tronco a partir
de óvulos femininos clonados.
Deixando de lado toda aquela história dos Raelianos,
para os quais a clonagem é o caminho para a imortalidade,
que bradavam ter criado o primeiro clone humano –
o que jamais foi provado – esta seria a primeira prova
científica de uma clonagem realizada com sucesso
na raça humana.
Para conseguirem criar uma única linha de células-tronco,
foram necessários 242 óvulos oriundos de 16
mulheres, que voluntariamente submeteram-se ao tratamento
hormonal necessário à produção
de 12 a 20 óvulos por ciclo menstrual ao invés
de um, que seria o normal. É importante dizer que
tal tratamento pode causar às mulheres desde desconforto
e estresse emocional até trombose venosa e um acidente
vascular isquêmico (derrame cerebral).
Em conclusão, antes que a clonagem terapêutica
se torne uma realidade, a produção de células-tronco
deverá se tornar mais eficiente, assim como as técnicas
que as fazem transformar nos tecidos esperados. Até
lá muita discussão nos campos da Ética
devem servir para guiar a Ciência no caminho que a
humanidade como um todo espera.
Rafael Luiz Reinehr
Sejam bem-vindas o Marko Ajdaric e o Carlos
Róbson que estréiam sensacionalmente nesta
edição do Simplicíssimo e também
o Conrad Rose, que retorna com sua Cozinha da Mãe
Rosa em sua segunda parte.
Ficamos sem Ombudsman por mais esta edição,
pois o digníssimo Alessandro Sachetti encontra-se
atulhado de trabalho e não encontrou tempo para ler
todos artigos do site e nos enviar sua crítica. Torçamos
para que tudo entre nos conformes e que o tenhamos em breve
ocupando seu cargo.
Ótima leitura a todos e uma próspera
Simpli-semana!
PS: Depois do pedido encarecido, vários
Simplileitores entraram em contato perguntando como comprar
através do site na Livraria Cultura e auxiliar o
Simplicíssimo. Respondo: É simples: basta
clicar no banner aí em cima na direita! O resto é
automático!
"Há pessoas que vêem
as coisas como elas são e que perguntam a si mesmas:
''Porquê?'' e há pessoas que sonham as coisas
como elas jamais foram e que perguntam a si mesmas: ''Por
que não?"
G. Bernard Shaw
"Aquilo que hoje está provado
não foi outrora mais do que imaginado "
William Blake
"A obra que trazemos em nós
parece-nos sempre mais bela do que aquela que fizemos"
Alphonse Daudet
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Como
triunfar no jornalismo pós-moderno?
Marko Ajdaric |
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1) Qualquer notícia é qualquer
notícia.
2) Os fatos não tem história.
3) O auê é mais importante do
que o por que.
4) Não se ligue em essências.
A aparência é o que vale.
5) Não há versões, nem
análises. Só os mesmos fatos de sempre.
6) Mentir não é um problema.
Desde que seja a mentira da moda.
7) Não deixe as pessoas descobrirem
o que você não possa dominar.
8) Fale sempre dos mesmos assuntos.
9) Elogie sempre o que já está
em evidência.
10) Fale mal de um cara na página 2
e de outro na página 4 e venda seu jornal
para ambos.
11) Nunca trate nada com profundidade. Assim,
quando você descartar um assunto,
ninguém vai perceber.
12) Nunca mostre a essência de um governo.
Siga o factóide do dia.
13) Ponha bastante expressões estrangeiras.
Assim, vão acreditar que você é
inteirado.
14) Não mostre outras fontes. Não
corra o risco de fugirem de sua verdade.
15) Caso você tenha opinião,
não deixe que percebam.
16) Se a notícia não agrada
seu anunciante -ou o dono do grupo que controla seu
jornal - você não a viu.
17) Não existem outras versões
de um fato além da nossa.
18) Se o citado é um ícone nosso,
destaque-o no título (Ex: O New York
Times), se não, oclua (Ex: jornal).
19) Não importa o que aconteça
na economia real: a manchete sempre tem que ser
sobre bolsas de valores.
20) Não estude. Basta seguir esta cartilha.
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A
Cozinha da Mãe Rosa (II)
Conrad Rose |
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Na véspera, Mãe Rosa conversava
com a caçula – única filha que viera
para o final de semana, enquanto trocava a água do
bacalhau (1200 gramas) – pela quinta e última
vez(!), e coava café. Propôs à filha
a companhia de Seu Onofre, homem solitário e de origem
lusitana. A filha ainda incentivou e percebeu um intrigante
brilho no sorriso de Mãe Rosa.
Cozeu feijão fradinho e – bem quente –
acrescentou cebola e cheiro-verde picados. Assou na chapa
dois pimentões vermelhos e após descascá-los
e picá-los, juntou ao feijão já frio
e temperou com azeite de oliva, vinagre de vinho branco,
sal e pimenta - tudo ao som de Elis Regina. Refrigerou o
feijão e reservou o bacalhau. Foi para a cama cedo,
evitando olheiras. A caçula também, com Nirvana
no fone e desenhando corações aos dezesseis.
Mãe Rosa retardou preguiçosamente o levantar.
Após o café – ouvindo Pixinguinha –
colheu uma chicória italiana e com louro, cheiro-verde
e coentro fez um amarrado. Ferveu o bacalhau por cinco minutos,
retirou-lhe os espinhos, partindo-o em lascas. Esquentou
300 mililitros de azeite de oliva; ali refogou seis cebolas
grandes e dois pimentões verdes em rodelas, seis
dentes de alho picados e cheiro-verde a gosto. Cozeu um
quilo de batata e cinco ovos.
Quando o sol transpôs os montes, ela já havia
fritado o bacalhau e as batatas no refogado por dez minutos
e assim que as batatas começaram a fritar, montou
o prato. Mãe Rosa providenciou um grande refratário
e dispôs: lascas de bacalhau, ovos cozidos cortados
ao meio, cebolas, pimentões e batatas em rodelas
e azeitonas pretas. Antes porém, verificou o sal.
O amarrado soltou ao arroz depois de usá-lo para
mexer meia cebola ralada no óleo de milho, com sal
a gosto. Orientou a filha no tempo e na intensidade do fogo.
O arroz solto. Quinze minutos de forno máximo para
o bacalhau. A chicória cortada como dedos mínimos
com o feijão acima. Mãe Rosa liberou-se para
um demorado banho e muitos aprumos. Escolheu um vestido
florido onde predominava o vermelho que se encontrava guardado
há anos. Água de cheiro.
Seu Onofre retirou de sua adega um vinho do Porto e um branco
seco de suas parreiras, completamente orgânico. Paletó
e a melhor de suas violetas, num belo vaso de barro pintado.
A moça tirou de letra e ainda fervera um quilo de
açúcar, 600 mililitros de água, um
pau de canela e quatro cravos. Acrescentara dois quilos
de goiabas vermelhas – sem cascas ou sementes, para
cozer.
Anunciando-se a chegada de Seu Onofre – precisamente
ao meio-dia como marcado, Mãe Rosa mantinha os quentes
na chapa do fogão à lenha e tratou de postar
a mesa: bacalhau ao forno, arroz e salada de feijão
fradinho com chicória. A goiabada em calda da caçula
ao canto. Azeite de oliva, vinagre de vinho branco, sal
e molho de pimenta caseiro. Amália Rodrigues trilhou
o vinho do porto e também o almoço.
Mas Seu Onofre sofreu com sua timidez diante da adolescente.
Já Mãe Rosa era só sorrisos.
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Réstia
Carlos Róbson Mendonça
da Silva |
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Pela ausência do medo
Procuro medos
Verbos que atravessem
A garganta
Escorram amargura
Pelos tímpanos
Agudos
Como a gravidade
Da fala do moribundo
Da pele emergir
Rápida palidez
Retorcer pêlos e cabelos
Afogar gritos com a nudez
Do desespero
Arrasta minha mão em desatino
Ensangüentada
Pelas paredes
Criando um novo corpo
Distribuído
Em dor
Medo
Agonizando
Junta o sangue e o medo
Para me calar.
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Depois
Madrugada, algum lugar.
Estou escrevendo o texto ou somente continuo puxando o
novelo de mil pontas que, em verdade, não me levará
a lugar algum? É melhor que o faço antes do
conhaque, do contrário, somado à já
natural nebulosidade com que comumente escrevo, terei ainda
a volatilidade traiçoeira a açoitar-me as
vistas e os sentidos e a fazer-me crer que tudo o que vem
é claro é coerente. E este é o pior
dos enganos. Se já me confunde os sentidos não
saber onde começo e quando começo isto, pior
é a incerteza de não saber se, afinal, você
me ajuda mais do que confunde. A ponta do começo
da tarde de ontem tinha Eliana, como é bastante usual.
De amarelo, como gosto e como poucas vezes digo que gosto.
É problema e tempo perdido não te elogiar
o bastante, Eliana. Tempo perdido por que o elogio me vem
à boca e não abri-la para que as frases saiam
assim, naturais, correspondendo à sua vontade, é
como selar um instante do nosso tempo em maldita coisa não-dita.
Podia te dizer assim, como tu estás linda, que tão
bonita tu ficas de amarelo, e neste instante, é óbvio,
você só me beijaria a boca – não
sabe reagir a elogios de outra maneira, e é modo
teu, somente teu, não afetação –
e riria, me beijando com dentes. E tomaríamos o café
e diríamos coisas quaisquer sobre o cotidiano comentando
como o garçom se demora com a conta. Nossas próprias
piadas, nossas frases entrecortadas, nossos olhares que
se complementam. Bem verdade que, por vezes, parece mais
fácil tecer críticas do que os elogios nos
momentos em que estes deveriam ser feitos. Dizer-te que
a foto não ficou bonita, mais uma vez. Tu não
sorris, te pões casmurra, tão séria
e mais uma vez as olheiras te saltam no rosto tão
branco, e não foi por que não dormiste o bastante
ontem à noite. Ainda mais ontem à noite, Eliana.
Ontem à noite não fizemos o amor. Adormecestes
com o rosto no meu braço, outra vez. E notou como
o meu braço anda rijo? Levantei um daqueles pesos
pequenos que teu irmão comprou e mais o vício
solitário que, nem percebemos, é exercício
para a musculatura também. Mas eu não devia
ter te dito que não ia querer guardar este teu retrato
em minha carteira. Ficar esperando o próximo, por
que sei que no próximo sairás tão bonita!
À não capacidade de elogio é melhor
o silêncio.
Seria elogio te dizer que prefiro você, sempre você,
a todas as imaginárias outras, que, ao certo fariam
tão melhor? Que não se poriam tão quieta,
que tratariam de participar mais, propondo outras coisas
loucas? Que, ainda na tua timidez, prefiro tua quietude,
e saber quando tu gozaste, por que gemeste do teu jeito?
E sabes que gosto do teu jeito?
Novelo de mil pontas... À noite é sempre
tão melhor, quando tudo o que foi dito no dia pode
ser contemplado com a distância como em um filme,
o distanciamento que me permite ver as bobagens que fiz,
tudo tão bom enquanto sei que posso abrir o conhaque
e servir somente uma dose, não embaralhar os sentidos.
Ao final dos telefonemas, sempre um eu te amo tão
mecânico quanto verdadeiro, e como a mecânica,
o automatismo dos nossos dias podem ser encher de tamanha
verdade? Se não vem, eu sinto falta, penso que falta
algo, somente o tchau, beijo. E sabemos que estamos de mal,
que estamos brigados, que não vou passar o dia bem.
Depois, sabemos o que vem, e o que vem é sempre
melhor. Você bem que podia me ajudar para que eu não
confundisse tanto as coisas, hein, Eliana? Sei, sei que
tu dás risada, me comporto como velho às vezes,
tenho manias de velho, estas coisas e este casaco vermelho
sempre para escrever, mesmo quando não está
frio. Melhor que seja depois o conhaque. Por enquanto, concatenar
algumas idéias, nem sei se estou escrevendo o conto,
Eliana. Talvez puxando somente algumas pontas do novelo.
Levando-te para concertos de bandas que não gostas,
pagando caro para ouvir cópias ruins de bandas que
nem podemos dançar, Eliana. Depois poderemos dizer
que estivemos lá, e abraçar os integrantes
e achar que foi tudo bom, uau. Mas poderíamos ter
ficado em casa e dormido somente. E poderíamos ter
visto um filme, o filme que tu quiseste olhar no cinema
outro dia e dormir com a televisão ligada e acordar
excitados no meio da noite e fazer amor. E poderíamos
ter feito tanta coisa, eu sei Eliana. E eu poderia me espantar
em saber que tu ainda estás comigo, ainda depois
de tantas contas e eu saber que fiquei em débito,
eternamente em débito contigo. E saber que meu crédito
é um sorriso teu, e a certeza de que o saldo voltou
à minha conta e podemos começar tudo de novo,
e mais um dia, e outro dia, ainda que tão pouco tempo
agora tenhamos, nossos fins de semana já não
mais nos pertencem. Somente estes poucos instantes roubados
de outras horas, e bem que poderíamos nos casar para
termos todo o tempo só nosso, então.
Depois o conhaque. Agora o conto, por que preciso saber
se escrevo o conto ou puxo mais um dos fios do novelo, Eliana.
É preciso escrever o conto. Depois. Agora, o conhaque.
Depois o conto.
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
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Aqui está
De tudo existe nesse mundo
Não sou eu apenas quem digo
Do magnata ao vagabundo
Desde o novo ao mais antigo
Mas nem sabes o que procuro
E não poderás assim achar
Nem no claro, nem no escuro
Por se acender e se apagar
A menos que eu lhe diga
E você se deixe escutar
A minha mais doce cantiga
Ao céu de estrelas, ao luar
Resolve tudo que me intriga
Quando vens me encontrar
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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 17/X
Fulminou o cara
e, como um raio,
fugiu usando máscara
Faroeste 5/X
Amar não tem nexo
Carinhos e caretas
o melhor do sexo
FERIADO I
No meio do feriado tinha uma aula, tinha uma aula no meio do feriado.
Pois é, todos somos filhos de Deus. Com a exigência cada vez maior das empresas por produtividade e a grana cada vez mais curta, as pessoas usam os feriados como férias.
No meu caso, ficou ruim, pois tinha uma pedra no meio do caminho, ops, uma aula.
Também tinha que escrever este texto, mas esta "obrigação" é prazerosa para mim, pois tenho como extravasar meus pensamentos da semana, não os colocando em forma de textos acadêmicos ou de me cuidar para não dizer coisas que alguns podem concordar ou não. É um dos melhores momentos da semana.
Gosto de viajar nos feriados, porém não gosto de ir e voltar em congestionamentos. Prefiro ir antes e voltar depois. Tranqüilo. Sem stress.
Porém, tem alguns lugares que procuro evitar em feriados. Se for para enfrentar um trânsito igual ao de Porto Alegre na noite ou de dia, prefiro ficar aqui, já que nestes dias, é como se estivéssemos no interior. Garopaba e Tramandaí, por exemplo.
Uma cidade legal para visitar nos feriados é São Paulo, as filas diminuem consideravelmente e os espetáculos continuam lá. Muito bom.
Tem gente que sai de casa para ir para casa. Não sou destes. Saio de casa para ir para o diferente, para o novo, para o inusitado. Está certo que, às vezes, estamos presos na nossa rotina e na nossa grana.
Veja bem: a natureza é de graça, assim como a paz e a tranqüilidade. Nós mesmos pagamos caro para ter um mundo artificial e atribulado perto de nós.
Só resta terminar com uma frase de uma música: "até quando esperar..."
Não espere, faça seu mundo diferente, mesmo quando você estiver de folga dele.
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Viver ou Existir
Um dia eu pude perceber que existe uma enorme diferença
entre ver e enxergar, ter e ser, ouvir e escutar, andar
e caminhar, desejar e querer. Descobri também que
viver e existir são coisas inteiramente distintas.
Algumas palavras podem ter o mesmo sentido ou finalidade
quando incluídas em uma oração qualquer,
parecendo a muitos uma questão de semântica
ou de palavras afins.
Mas de fato há uma sutil distância entre entender
e captar a essência daquilo que nos foi mostrado.
Os fatores subjetivos, aquilo que está subliminarmente
compreendido,
precisam ser melhor interpretados por quem não consegue
enxergar o âmago daquilo que foi exposto.
Ninguém menospreze a força do "oculto"
que reside nas "entrelinhas", por exemplo.
Portanto, quando alguém fala que viu não
significa dizer que enxergou o que deveria.
Há distâncias infindas aí.
Quando andamos não quer dizer, necessariamente, que
caminhamos.
Andamos às vezes sem ter o menor objetivo traçado,
sem nenhuma meta a ser atingida.
E ao ouvirmos um som qualquer não implica jamais
em afirmarmos que escutamos.
Escuta aquele que sente, aquele que busca ouvir o que não
foi dito; o que ficou implícito.
Há muita gente ouvindo por aí sem escutar
absolutamente nada.
Esses pequenos exemplos nos remetem à seguinte reflexão:
Viver e Existir são fatores completamente opostos.
Existir é o mesmo que passar pela vida sem tê-la
vivido de forma correta e intensa.
Aquele que apenas existiu esqueceu de se fazer presente
no livro da história, digna e plenamente.
Simplesmente passou despercebido.
É lamentável vir ao mundo e ter perdido a
chance de ter vivido satisfatoriamente.
Viver é realizar-se plenamente, sempre voltado às
ações que engrandeçam o ser humano.
Vive aquele que se sente parte integrante do Universo.
Vive quem faz de tudo para ver a alegria estampada na face
do outro.
Viver é sentir prazer em amar a Deus acima de todas
as coisas.
Vive quem ama e respeita a natureza e todas as formas de
vida.
Vive quem pratica só o bem.
Viver é amar sempre, sempre!
Vive aquele que estende a mão ao amigo que necessita.
E é certo que quando estendemos a mão ao nosso
irmão, Deus nos estende a d'Ele de imediato.
Viver e Existir são diferentes em essência.
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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Mulher maravilha
Sente as rugas em tuas mãos.
Olha os calos em teus pés.
Lembra-te dos teus dias de menina.
Sempre a dançar na rua, fosse noite, fosse dia.
Sempre alegre e satisfeita.
Nunca triste e rancorosa.
Tenta lembrar como era sentir o vento em teus cabelos.
Roubar frutas na vizinha e comer com as mãos.
Limpar o rosto suado na camiseta.
Esquecer do tema por causa do futebol dos meninos.
Sente o peso em tuas pernas.
Olha para teus seios, note como caíram.
Agora sorri. Já não é mais menina.
É mulher.
Mulher perfeita.
Mulher crescida.
Mas mantém teu espírito de menina, apenas agrega à sabedoria dos novos dias.
Sente o filho que se alimenta de ti.
Olha os seios, como são lindos.
Põe a mão em teu ventre, sente como é macio.
Aprecia a face amadurecida e note a beleza contida em teus olhos generosos.
Nunca pense em como seria se fosse homem. Ame ser mulher.
Agradeça a tua feminilidade, todos os dias.
Lembra-te que Deus é Pai e Mãe.
Mais Mãe do que Pai.
Lembra-te de que o amor que sente pelos teus filhos deves antes sentir por ti mesma.
Agora dança como mulher. Sorri como menina.
Veja como tudo podes mudar com o movimento dos teus quadris.
Sente o poder. Sente a magia.
Limpa tuas lágrimas na camiseta.
Esquece a roupa que tens de lavar e mergulha em teus pensamentos.
Concentre toda a tua força.
Viva com energia.
Alegre e satisfeita.
Olha-te no espelho, linda mulher maravilha.
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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São Paulo, 12 de outubro de 2004.
Aqui na Terra tão jogando
futebol, lá no céu...
Dizem que Gonzaguinha estava batendo um papo
com Vinicius sobre as questões culturais rolando
lá pelas bandas do céu. Achavam que as coisas
estavam meio paradas, que não havia muita manifestação
por lá nos últimos tempos. Isso porque o presidente
da casa maior da cultura, o querido poetinha Drumond, andava
meio apático. Parece que havia perdido a alegria
de escrever. Pois aquelas tão lindas poesias e contos
que circulavam pelo paraíso já não
eram mais as mesmas. Tão aguardadas por todos, até
o arredio Renatinho Russo as esperava ansiosamente. Ele,
tão quieto, tão tímido, só abria
um sorriso na chegada da edição semanal do
ilustre cronista maior... Mas, nos últimos números,
suas obras denotavam um qualquer de insegurança,
pois traziam muita desilusão e incerteza.
Até que um dia, sem muita explicação
aparente, as obras voltaram a trazer ternura, voltaram a
trazer alegria pura, aquela mania de deixar as pessoas de
bem consigo mesmas. Pois o que faltava mesmo, não
era a alegria, mas alguém para compartilhar as idéias.
Descobriu-se então que a volta da alegria às
obras do poetinha, era de inteira responsabilidade da chegada
de um habitante ilustre. Fernando Sabino apareceu, meio
sem entender bem, e já puxou uma cadeira ao lado
do mestre. Um bom papo, algumas contemplações
à paisagem celestial, e a alegria, naturalmente,
voltou pra ficar. Ainda bem que ele chegou... Dá pra imaginar Drumond sem alegria e ternura?
Se existe uma forma de fantasiar, de acreditar
na existência de um céu, de um paraíso,
a mim, só pensando que ele é habitado por
figuras mágicas e inesquecíveis... Bem vindo
ao paraíso, Mestre Fernando Sabino, obrigado por
ter existido... Dá pra imaginar um céu, sem
o talento de Fernando Sabino?
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Musicalidade
de povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
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Imagino o que Gilberto Gil pensou em fazer ao entrar em estúdio e gravar seu segundo disco. Oriundo de um passado bossa nova, de música popular brasileira tradicional, só mesmo as vestes tropicalistas para fazer gravá-lo um disco como esse. "Vamos chamar Serginho, Arnaldo e Rita!", afinal, o ajudou tanto no Festival da TV Record, em "Domingo No Parque", onde o tropicalismo ainda não era o movimento que seria execrado por todos, e sim, uma ruptura rara, uma ruptura que era aceita por grande parte do público.
Gil já devia era estar cheio. Já havia apoiado seus amigos na passeata contra a guitarra elétrica, gravara discos que ainda seguiam uma estética de música com violão brasileira, e se encontrava em 1968, ano de grandes mudanças. De suas grandes mudanças, das mudanças que causava.
Como irritar os puristas? Não, acho que não. Acho que Gil, ao contrário de Caetano Veloso, tinha os pensamentos mais voltados para maravilhar as pessoas no sentido de choque, e não propriamente chocar e causar taquicardia. Achava que sua "Domingo No Parque" havia se saído muito bem. Creio eu, já tinha arquitetado que antes de soltar um disco calcado no acid rock em 69, precisaria amansar a platéia com ousadias (com o perdão da redundância) mais ousadas, mas mais amenas.
Recrutou Os Mutantes. E em 1968, gravava seu álbum que melhor sintetizava seu espírito tropicalista. Se Veloso tinha o disco do ano futuro, Tom Zé seu disco de estréia, e Gal seu começo de carreira inteira, Gilberto Gil abordava a Tropicália em cantigas alegres, brasileiras mesmo.
Gilberto Gil tinha uma grande vantagem acima da maioria de seus colegas músicos: era talentoso na hora de compor melodias e letras. Não embromava com discursos panfletários, não precisava apenas teorizar seu trabalho em algum mestrado de cancioneiro doido, e nem precisava exercer seu lado intérprete. Se virava com o estúdio - neste disco, com quatro canais disponíveis para ele e a banda - e com seus amigos.
Com amigos, defina Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Rita Lee, Rogério Duprat e Manoel Barenbein. O mito brasileiro que deve cair a todo custo é que todos os músicos daquela época nunca causaram uma revolução sozinhos. E no caso dos tropicalistas, os maestros e músicos de apoio foram essenciais para tornar aquela anarquia uma coisa real e palpável. Neste caso, Gil era um dos poucos músicos humildes que não tirava mérito de nenhum de seus companheiros.
Isso é bem expresso em "Pega a Voga, Cabeludo". É lindo pensar que em um dia Gil chegou no estúdio e disse: "ah, vamos gravar em um take só... vamos ver no que dá...", e lá soltavam Os Mutantes fazendo uma base que, mais espontâneo impossível. As intervenções de melodia de "Hang On Sloopy", o convite de Sérgio Dias para soltar um solo transloucado, a frase "esse som psicodélico é redondo que uma gota" de Dirceu no meio da música, menção de Barenbein ("Manoel, pára de encher!") e o coro mais feliz que Os Mutantes já fizeram em sua vida. De soltar os pulmões e ver no que dava. E o "já deu" de Gil ao final da música, lindo.
No mais, o album era uma mescla das idéias musicais geniais do quarteto Mutantes-Gil, com música brasileira. Tinha a influência da garotada em "Procissão", no coro tchubi-tchuba, junto a levada nordestina, e timbres de guitarras e baixo inconfundíveis. Imagine isso. Maior complicação gostosa de melodia, só em "Domingou", quase uma ode perfeita à felicidade e à peraltice. Um coro que não chegava a ser de anjos ou coral de igreja, mas que exaltava uma criancice repleta de alegria juvenil.
Qualquer levada brasileira junto ao trio virava algo inusitado. Até em "Pé da Roseira", totalmente tradicional, mas que vez e outra, destoava entre passagens e slides de guitarra e baixo.
E havia "Domingo No Parque", clássico da época, e da música brasileira. Aqui, assim como em todos os arranjos de Duprat ao longo do disco, é evidente a vontade do maestro em criar rupturas melódicas e harmônicas, criando verdadeiros cenários, quase como em teatro ou cinema.
Continuando em 1968, para os agraciados que tem a versão em cd dessa obra, há dois momentos em compacto que falam mais para que Gilberto Gil existiu nos anos 60.
"Questão de Ordem" já indicava para onde Gil iria em 1969. Com o apoio dos Beat Boys, é um dos rocks mais ácidos da década, com quase seis minutos de duração, a guitarra fuzz gritando em quase toda a faixa, e gritando ainda mais ao final, quando Gil se cala para ela terminar de vez aquela fuzarca sonora psicodélica.
Com participação também d'Os Mutantes, havia "A Luta Contra a Lata ou a Falência do Café", quase um teatro sonoro, com latas, voz e um violão. Ousadia em lançar em compacto, assim como querer lançar a já citada "Pega a Voga, Cabeludo", algo altamente simbólico.
Tantas pérolas pop a serviço, e querer lançar justo a menos certeira do disco.
"Você também põe droga no seu café?", pergunta-se, seguido de várias risadas, ao final da música.
Acredito mesmo na autenticidade de Gil em querer romper com estigmas e tradição. Não era algo forçado ou planejado a fim de querer impressionar a namorada do portão da frente. Era simplesmente uma marcha, um câmbio automático que havia na mente, que indicava aquilo como completamente normal, somado à vontade de mostrar aos outros que aquilo também havia de ser normal, era apenas paciência.
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Ombudsman
Alessandro Sachetti |
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Crise nas infinitas terras...
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prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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