Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade a procurar achar o que se perdeu


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Editorial


Contagem regressiva...

Esta edição tem um "Q" de especial: estamos nos aproximando de dois marcos na história do Simplicíssimo: a data de 2 anos da criação do e-zine Simplicíssimo (25 de outubro de 2002) e a edição de número 100 deste mesmo e-zine.

Nestes momentos, devemos fazer uma espécie de revival dos acontecimentos.

Sim, pois quem não sabe ainda, deve ser informado!

Este site que ora atinge sua retina surgiu como um e-zine e somente em 26 de junho, entre as edições de número 28 e 29 foi devidamente lançado como sítio propriamente dito. E teve até festa de lançamento e tudo, com 3 bandas tocando e o rock n' roll comendo solto! Não acredita? Olha as fotos ali no menu da esquerda e veja a história narrada nas edições antigas.

Bons tempos aqueles... Cerca de 1 comentário por edição inteira, somente 40 visitas ao site por dia... As teias de aranha podiam se multiplicar tranqüilamente, pois os principais visitantes éramos nós escritores, familiares e amigos e um ou outro estranho amigo de amigo ou casual que chegava até nós através do Google e outras ferramentas de busca.

Felizmente, hoje a situação mudou bastante. O número de comentários por edição beira os 100, a participação de novos autores só faz crescer - fazendo com que tenhamos que progressivamente aumentar o número de artigos por edição e, mesmo assim, gerando uma fila de espera para publicação de textos - e até livros temos recebido para apreciação e auxílio na edição e distribuição.

Já se pensa em, nalgum futuro não muito distante, concretizar a idéia de ter o Simplicíssimo na sua forma impressa, escrita, provavelmente mensal. Para tanto, é necessária a busca de patrocínio, sempre retardada pelas outras atividades do corpo editorial o site.

Coroando todo o empenho e dedicação, as horas perdidas de sono madrugadas adentro editando o site, colocando textos enviados de ultima hora ou atrasados por nossos "fiéis" colunistas e tratando de resolver broncas como a queda do nosso servidor norte-americano que ocorreu na semana passada, deixando inabilitado nosso sistema de comentários e também o site por alguns dias, fomos selecionados para concorrer ao Prêmio IBest na categoria Arte e Cultura.

Com certeza este é um prêmio de grande relevância para todo e qualquer site que se preze. A possibilidade de aumentar a visualização do Simplicíssimo com a classificação entre os Top 10 é fabulosa e toda e qualquer ajuda é fundamental.

Se você tem um site ou um blógue ou uma lista de e-mails e puder fazer campanha para ajudar o Simplicíssimo a arregimentar votos, faça isso! Seu auxílio é imprescindível para que consigamos chegar lá!

Mande uma mensagem a seus amigos, familiares, professores, colegas de infância, inimigos, e vendedores de churros preferidos para que façam uma visita ao Simplicíssimo e, se o que virem lhes agradar, que votem no Simplicíssimo para melhor site de Arte e Cultura.

A partir da próxima edição, o e-zine do Simplicíssimo vai voltar à ativa, depois de um período de hibernação. Caso você que ainda não era Simpliassinante do e-zine quiser passar a recebê-lo semanalmente em sua caixa de mensagens gratuitamente, encaminhe um e-mail para simplicissimo@simplicissimo.com.br dizendo em bom português que está interessado em um bom filé ao ponto com ervas finas e molho aos quatro queijos (sem aspargos, por favor).

Lembre-se: auxilie como puder e com vontade e ânimo a divulgar o Simplicíssimo nas próximas semanas! A votação já começou!

A propósito: a edição de número 100 contará com um tema especial e originalíssimo que será revelado somente aos colunistas e a alguns participantes especias a serem convidados a colaborar nesta edição comemorativa!

Você não perde por esperar, digníssimo Simplileitor!

E vamos às turras que sem tranco não se sobre barranco! Boa leitura!

 

Rafael Luiz Reinehr

 

PS:Seja bem-vindo o digníssimo Thiago Gôngora, que estréia nesta edição do Simplicíssimo. A casa é sua! Faça dela sua tela para exercitar sua criatividade e inventividade!

 

"Viver não é necessário. Necessário é criar"
Fernando Pessoa

"Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida"
Johann Goethe

"A cultura, sob todas as formas de arte, de amor e de pensamento, através dos séculos, capacitou o homem a ser menos escravizado"
André Malraux

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...
Thiago Fernando Porto Gôngora

Há muito tempo não escrevia, não pensava, não observava. O quê? As coisas simples da vida, das pessoas, das falsidades, das decepções, das surpresas. Coisas que simplesmente acontecem sem ter um significado claro, evidente.

Esqueci que a vida não é apenas estar vivo; mas sim viver da forma mais proveitosa possível, acrescentar alguma coisa, ser lembrado, respeitado. Às vezes penso se seria possível não magoar alguém, não decepcionar aquele que o ama, penso se seria possível amar alguém que não ama.

Se seria possível viver livre da pressão religiosa. Ser ateu é ofensa; ser protestante é ser ignorante, cego; ser católico é ser tradicional; ser espírita é acreditar no que dizem ser impossível de se ver. Ser de uma religião que não conhecemos é querer ser diferente, demonstrar -se mais espiritualizado que os outros. O que procuramos, necessitamos, exaltamos na verdade não é o auto-conhecer, mas sim cada vez mais encontrar diferenças no próximo. Claro que ser igual é ser monótono, chato; mas criticar diferenças parece ser invejoso, preconceituoso. É possível viver fora disso tudo? Não sei, sei que apenas reparo o quanto estamos alienados, o quanto não damos valor no fato de estar vivo. No poder que temos sobre os outros que nos cercam.

Para quem viu o filme Cazuza " O tempo não para" viu ali tudo o que pode ser abominado e criticado por qualquer um. Uma pessoa sem limites, sem o respeito aparente, sem valorizar a vida que lhe foi dada.

No Oriente, as milhares de filosofias não julgam o ato como fato isolado, mas sim o que representa. Exemplo disso são os milhares de políticos que suicidam com um punhal, pelo fato de terem sido corruptos. Quiseram mostrar que não mereciam a vida, pois fizeram dela um egoísmo, como só eles pudessem ter tudo o que ela nos proporciona. Mas o mesmo suicídio aqui no Ocidente, seria visto como querer fugir dos fatos, significaria ser fraco, achar que a morte seria a solução para os problemas.

Acho que Cazuza valorizou a vida mais que milhares de pessoas, não vendeu religião, não matou, não governou uma nação a seu favor, não acreditou naquilo que todos dizem. Se tivesse acreditado não existiria Cazuza, mas talvez mais um ladrão, ou médico, um simples cidadão.

Incrível como damos valor a Einsten, Leonardo da Vinci, e a tantos outros que na época foram loucos, perturbados, até drogados.

E se Nosso Senhor Jesus Cristo voltasse a terra? Acho que seria crucificado de novo, ou não? Já imaginou um sujeito simples, falando que é filho de Deus e que veio trazer a verdade ao povo. Dizendo que é a reencarnação de Jesus Cristo. E se ele começasse a trazer o povo para si e todos se voltassem contra o governo. Será que matariam ele de novo? Acho que com certeza, e não teria apenas um Judas, mas milhares deles.

E paramos a criticar um rebelde exagerado, aquele que dizia que sua piscina está cheia de ratos, que falava tudo que vinha a sua boca, que tinha uma vida louca. Que vivia na Burguesia, e se tivesse vivo talvez diria: Eu Preciso Dizer Que te Amo, que sou louco, Exagerado, que sou um Maior Abandonado mas tudo isso Faz Parte do Meu Show, por que sou um moleque na Malandragem. E a vida, a vida é sacanagem, é amor, é dor. A vida é o aprender eterno, é evolução, e em certos momentos, revolução. Viver por viver, talvez sim seria o maior dos erros, passar desapercebido, não contribuir para um mundo melhor, mais digno, honesto, honrado, eu não, fui criticado, ameaçado. Estou velho, fraco, sem voz, mas sou cantor, forte e jovem o suficiente para dizer. O importante é ser feliz, o resto é besteira, tradição, preconceito.

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Máscaras
Gabriel Silveira

Desta vez haveria de vencer. Na última, incrédulo de si, desabou, crispou-se à possibilidade de dar um passo a frente. Agora havia destripado o próprio corpo, exposto seu coração ao próprio crivo astral, desvendado seus próprios segredos. Agora acreditava estar pronto, majorado, corajoso.

O sinal do interfone era seco, carcomido pela rotina. Ele cerrou os punhos, sentiu o suor expurgando o medo, detendo a tensão no peito. Ela apareceu à janela, olhou para baixo como quem reclama o passado. Ele contemplou seus negros cabelos a dançar no ar, maquiando-lhe a face como o vale que amansa o rio. Momentos de transe para ele. Sua mente ainda ditava imagens quando ela apareceu à porta, vestindo uma calça de jeans escuro e um moletom branco que lhe destacava os olhos. Há quanto tempo, ela disse e ele Tenho pensado em ti. Ela retraiu-se, seus olhos buscaram refúgios no chão. Ele encheu os olhos de lágrimas e acovardou-se Não, preciso seguir em frente, Quixote, Quixote, Quixote e disse Preciso te ter ao meu lado, por que disfarças a temperatura do teu sangue a quem sabe da tua tormenta Por que procuras na razão o sabor que está na alma, na acidez do espírito, no deslumbre do momento Assassina tua sombra, faz da tua moral um papel de anotações estúpidas, mata tuas virtudes se teu amor elas reprimem.

Ela deu dois passos para a frente e disse-lhe Nada sabes da vida se acreditas que a máscara é mais forte que o personagem; que as palavras valem mais do que a ação; que a razão é dispensável ao amor. Chorou. Então deu-lhe um beijo no rosto, tocou-lhe com os pequenos dedos a nuca sem cabelo e virou as costas para ir embora. Ele a segurou pelos ombros e pensou ah, Compsom fracassado, mostra tua face manchesca ao menos hoje e disse Não esqueças que vida é mais curta que os sonhos, que os sonhos são mais opacos que a poesia e que poesia nada mais é do que amor. Ela vibrou mais baixo, genuflexa ao chão e disse-lhe É isto que queres Que eu me entregue à morte Que eu desista de ser o que sou e ele És o que não sabes, és o que não esperas e o que não compreendes e ela Mentes, esta pessoa que pensas conhecer não sou eu, é outra qualquer de tua mente doentia que sabe triunfar quando nada há e ele retirou os passos, escondeu o rosto novamente na sombra e desistiu de assombrá-la para sempre. Ela rezou, subiu as escadas e não mais teve a companhia do mundo dos mortos.

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Mentiras Brancas
Rafael Tourinho Raymundo

A ninguém confie segredos, pois o medo lhe atormentará. Percorrerá seus sonhos, trazendo culpa, e você não encontrará desculpa nem explicação para seus atos. Certamente, haverá aqueles que, entre eles, trocarão informações secretas, discreta e silenciosamente. Contudo, são ainda poucos os que merecem confiança; lembranças tristes duram mais que uma paixão.

Jamais se entregue por inteiro: troque o ar brejeiro pelo mistério do incompleto. Será secreto tudo que lhe for sagrado, proteja quem lhe ame. E não se engane: passados negros hão de ser mascarados com palavras doces e esquecimentos. Não se torne vulnerável ao expor sua opinião.

Deixe transparecer apenas o essencial - nunca sua essência. Numa conversa trivial, faça soar frugal sua eloqüência. Não faça drama nem exponha sentimentos nas discussões acaloradas, pois pessoas emocionadas, quando não irracionais, fazem sofrer os demais, e você ja sofreu o bastante. Um simples deslize, há tempos distante, e uma vida inteira a ser amaldiçoada. Esqueça quem o chamou de ridículo, esquisito e bobalhão.

Ao deparar com um destes na rua, sorria e siga adiante. Bem-feito para o infante que confiou em quem não devia. Sorria, siga adiante. Eles lembrarão de suas verdades, mas não porão em prática as maldades de tempos atrás. Sorria, siga adiante, ria dos erros cometidos. Entretanto, mantenha contidos os impulsos de raiva e vingança, já que não é mais criança. O tempo lhe alçou ao céu, você não quer voltar ao chão.

Portanto, lembre sempre de tomar cuidado. Para não ser o ridículo, deixe o segredo onde ele está; para ser um bom amigo, ouça tudo sem opinar; para ser cordial e fino, concorde com tudo que alguém lhe disser - se for mulher, elogie sua beleza; se homem, agrade-lhe como puder. São as mentiras brancas, aquelas que não causam mal a ninguém, que o mantêm longe da confusão da verdade, pois, na realidade, ouvir os próprios defeitos ninguém, de fato, quer. Esconda dos superiores seu nojo e reprovação.

À noite, encare o espelho. Mostre a si mesmo sua falsidade e hipocrisia. Arrependa-se. Mas, ainda assim, agradeça às mentiras brancas por mais um dia sem traumas, e por todas as almas que lhe trataram bem. Alegre-se por ser apenas mais um na multidão.

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

A morte como obra-prima

As regras não são muito complicadas, embora estejam se tornando tão banais que é mais fácil que você logo crie as suas próprias para que não o acusem de ser repetitivo, maniqueísta ou qualquer um destes adjetivos não muito elogiosos que poderiam ofender sua recente entrada no já competitivo mundo das grandes produções cinematográficas.

Funciona mais ou menos assim: se você utiliza fotografia granulada, imagens distorcidas, efeitos os mais diversos com a finalidade de parecer descolado em sua incursão dramática que pretenda justificar a sede de vingança de um profissional irado e mais do que meramente cumpridor dos seus deveres, tudo o que poderia se chamar de violência gratuita, doses exageradas de sangue e trucidações as mais diversas, cairá por terra quando você tiver uma destas grandes justificativas artísticas a apresentar. A violência se fará de contornos tão visualmente inovadores que será como um grande clipe musical, uma apoteose visual, uma sensibilidade de imagens que deverá passar incólume a ofensas baixas.

A sua história não precisa ser muito complicada: digamos que você tenha como personagem principal um ex-assassino profissional (de cujo passado você deverá falar o menos possível, mas dando pistas claras de quanto o mesmo o abalou moralmente, tornando-o um sujeito perturbado, infeliz e levando-o a crises existenciais freqüentes, com rompantes de ódio e, não obstante, uma dedicação toda especial ao exercício de enxugamento de garrafas de Jack Daniel’s logo pela manhã) que aceita como emprego ser o guarda-costas de uma linda menininha loira em uma cidade Mexicana com uma média de quatro seqüestros diários. É bom que se deixe bem claro que apesar de sua história se passar em uma cidade mexicana, os seus personagens principais e que importam realmente para a trama (do lado “bom”, digamos assim) não são mexicanos! É, isto mesmo: o guarda-costas, o protagonista de sua história, é americano. A menininha doce e loira é, lógico, americana. A mãe da menininha é uma linda e doce loira americana. Mas o pai, o rico dono da mansão onde as duas moram e onde o guarda-costas abrigar-se-á em um quartinho na parte dos fundos da casa, não é americano! Sim, ele é mexicano. Envolvido em um negócio qualquer que lhe garanta muito dinheiro, doravante denominado “empresário”, com uma vida visivelmente tranqüila e confortável, mas constantemente cercada pelo medo de que alguém seqüestre sua doce filhinha e acabe com a paz reinante. Pois este “empresário” deve andar freqüentemente com o seu advogado, um sujeito estranho e escorregadio com um aspecto nada confiável e que deve ser representado, preferencialmente, por algum ator que tenha feito bastante sucesso nos anos oitenta mas que hoje se contente com papéis secundários em grandes produções.

E agora um dos detalhes mais importantes: todos os mexicanos são imbecis!

Sim, são imbecis, serviçais, trambiqueiros, corruptos, marginais, sujos e safados. Resumindo, a escória da humanidade! Oquei, você será acusado de maniqueísta, mas os dois lados da moeda serão apresentados com tanta clareza, você não terá um daqueles thrillers pretensamente inteligentes em que se exigirá muito pensamento da platéia, não haverá nenhum tipo de obscuridade na trama que não garanta que se saiba quem é quem no lado negro da força. As coisas se tornam simples dramaticamente falando. Deixe que sua complexidade reinante e galopante se manifesta somente na suja fotografia, nos efeitos atordoantes que os tremeliques de câmera, as saturações de luz, os tremores, as repetições de imagens lhe garantirão. Quem precisa mais do que isto? Estamos na geração MTV! Vídeo clipes e imagens atordoantes são o que garantem a boa recepção de sua obra! Se o seu personagem está bêbado, faça com que as imagens do próprio de sobreponham uma a uma como se o próprio cinegrafista estivesse bêbado! Se há ódio envolvido, encha a cena de luz amarelada e dê vazão a uma sonoridade angustiante também. Isto ajudará a irritar a platéia e por conseguinte, perceber a irritação do personagem.

Mas voltemos à nossa trama: o tal guarda-costas será durão o bastante (nas cenas iniciais, lógico) para tentar não se deixar seduzir pelo jeito tão meigo da menininha loira que quererá fazer amizade com ele. Será ríspido quando ela falar coisas bonitinhas dentro do carro no caminho para a escola querendo a sua atenção. E dirá que é pago para cuidar de sua segurança, não ser seu amigo. Em verdade, nos momentos iniciais isto gerará uma certa antipatia pelo protagonista, o que não é algo muito bom de acontecer. No entanto, não se preocupe: nas cenas seguintes ele (e o espectador também não, tenho certeza!) não conseguirá resistir ao doce encanto de tão linda garotinha e começará a ter o sentido de sua vida desperto pelas brincadeiras com a loirinha e pela garra com que a ajudará em algum esporte que a pequena pratique, mas para o qual não tem tanta habilidade... Hum, pode ser natação! Digamos que ela tenha dificuldade de ouvir o estampido do revólver na hora de saltar e sempre faça isto com certo atraso, embora seja ágil o bastante na piscina. Algumas cenas mostrando o nosso protagonista envolvido em ajudar a menininha a resolver o seu pequeno problema e sendo saudado entusiasticamente e amorosamente pela menina que está ajudando e será o bastante para que vejamos o quanto sua relação se estreitou e quanto amor é possível nascer entre um serviçal e sua patroazinha. Desde que os dois sejam americanos, é lógico. A cozinheira (mexicana) e o jardineiro (mexicano) deixe-os batendo palmas em volta da piscina para criar um clima de alegria e integração entre as nações. Coisa que não existirá além disso, pois a cozinheira continuará a ser somente a cozinheira e o jardineiro, somente o jardineiro.

Não esqueçamos de criar um personagem amigo do protagonista, que terá sido colega de trabalho do mesmo nos tempos difíceis e o único que terá conhecimento o bastante de quanto ambos sofreram, no que se meteram e único com quem o protagonista poderá contar nos momentos complicados que virão. E eles virão. Sim, este amigo (americano) também terá ido morar no México e será, inclusive, aquele que conseguirá o emprego para o protagonista.

Com tais princípios inicialmente apresentados, então, já podemos partir para o que o nosso filme se propõe: a doce menina, não obstante os cuidados deste guarda-costas que estava se tornando já o seu grande amigo (coloque cenas ternas, mais convencionais em que a menininha oferecerá flores para o seu herói, dirá coisas meigas e oferecerá presentinhos para ele: precisamos destes flashes de felicidade para que o espectador se torne realmente cúmplice do companheirismo e se sinta indignado com todo o mal que virá para tão doce criatura), sofrerá aquela que é considerada uma das hediondas e violentas ações criminais: será seqüestrada por marginais maus como pica-paus e cujo sotaque (mexicano) será tão carregado de ódio que não haverá espectador que se assombre com qualquer violência que os mesmos possam sofrer como retaliação por seu mau comportamento.

Na cena de seqüestro, o grande ápice do filme, é necessário muito cuidado: nosso protagonista será apresentado como um grande profissional, habilidoso para cumprir todo o cerimonial necessário para proteger a vida da doce menininha – tiros, gritos de dor ao ser acertado por disparos, rolamentos pelo chão e tudo o que garanta uma cena realmente impactante! Detalhe que nosso protagonista quase antecipará o que irá acontecer: deverá estar atento para carros que se aproximam, carros policiais suspeitos (já que no México todos são corruptos) que trancam a rua e outro carro com tipos suspeitos (eles têm cara de mexicanos!) que circula de maneira suspeita pela volta. Depois de uma troca de tiros emocionantes em que nosso protagonista conseguirá matar quatro(!) dos meliantes, de gritos de horror da menininha apavorada com tanta violência a sua volta, tudo terá sido em vão e nada impedirá que o nosso protagonista seja alvejado à quase morte e que a menina seja levada para um cativeiro sinistro, sujo e mexicano!

Ah, e agora, então, temos todo o objetivo do filme traçado: é lógico que mesmo o nosso protagonista tendo sido alvejado tão perigosamente, se recuperará com rapidez impressionante em um clínica para cachorros(!) graças à ajuda do seu amigo, que ainda lhe dará toda a força moral e amparo necessário para ir adiante com aquilo o que nosso protagonista acha mais certo: engendrar uma violenta e sanguinolenta vingança!!

E quem sentirá pena e achará pouco heróico que nosso protagonista faça o tipo vingativo e brutal? Quando tiver a informação de que o resgate, que era assegurado em ser bem sucedido por policiais corruptos, deu errado e que a grande bagunça ocasionou a morte(!) da doce menininha, levantar-se-á da cama com um fator de auto-cura digna de um Wolverine e partirá para o acerto de contas!

Serão todos mexicanos a escória da humanidade! Malditos latinos, marginais sujos e desumanos que, por dinheiro, criam uma indústria do seqüestro do qual somente 20% das vítimas escapam ilesas. São quase animais, corruptos preocupados com o vil metal que não deverão nem ter a nossa complacência, não são dignos de pena. Não há como estar ao seu lado quando o nosso protagonista chegar em cada um deles para vingar no clássico olho por olho a audácia de ter tirado a vida de uma doce loirinha americana! Quando com uma bazuca explodir seus carros em pleno centro da cidade!

Não, não se preocupe com a recepção negativa! O nosso protagonista será representado por um grande ator e isto já equivalerá para a fundamentação de seus gestos. E depois, desde Cidade de Deus, Pulp Fiction e outros quetais, a violência embalada por edição ágil e modernosa já garantiu o seu grande sucesso pop! Ninguém pensará que não faria o mesmo quando o herói (estamos no pós-modernismo) cortar os dedos, um a um, de um dos envolvidos no seqüestro da doce loirinha americana. Quem se importará com o marginal, presidente da “Irmandade” responsável por toda a indústria de seqüestro, quando tiver um explosivo enfiado em seu ânus? Ah, e se toda esta vingança de um homem só for acompanhada por uma grande jornalista mexicana (indignada com os rumos de violência reinantes em seu país e destemida em denunciar tanta corrupção) quase in loco, e todos os atos do protagonista forem aplaudidos, está tudo bem: afinal, um país de terceiro mundo, onde toda a polícia é corrupta, onde não há lei e policiais roubam dinheiro de resgate, merece mesmo a intervenção de um herói americano para salvá-los da definitiva bancarrota! Não há como ser contrário a tal princípio tão básico.

O sucesso será mais garantido ainda se, ao final, tendo feito toda a justiça que era necessária, mesmo crendo que era apenas o comprimento de um dever, nosso herói tiver como presente a notícia de que (sim!) nossa princesinha americana doce e meiga ainda está viva, mas que para tê-la de volta, terá que oferecer a sua vida em troca (além do irmão do seqüestrador-mor que está em poder do nosso protagonista, é lógico). E quem disse que nosso herói hesitará em fazê-lo? Depois de trucidar com uma porção de malditos cucarachos, o que é a sua vida pela vida da doce e americana loirinha? Se mesmo o pai da menina, um maldito mexicano, mostrou-se envolvido em tão sórdida trama, como não oferecer sua própria vida pela vida da menininha?

Hmmm... Não esqueça de convidar algum ator brasileiro para fazer o papel de um dos seqüestradores cucarachos. Não é preciso muito texto para ele, apenas alguma coisa do tipo “Se tiver amor à sua vida, não publique aquelas fotos!” e já teremos um bom papel para um bom ator latino fazendo um maldito sujo latino.

E então, o ápice emocional! Depois de frases tão incríveis que deverão ser proferidas pelos atores do tipo “... é um profissional da morte! E esta será a sua obra-prima!”, de impactantes closes e trocas de lentes, de cores saturadas, de tremores de imagens, relaxemos sob o som de uma música muito calma qualquer, enquanto nosso herói se entrega aos marginais desprezíveis para que a menininha tenha, junto a sua mãe, sua felicidade de volta. E agora que todos os cucarachos corruptos e marginais estão acabados, não há como não aplaudir se, ao final da obra, o diretor colocar uma frase agradecendo ao maravilhoso México pela utilização de suas locações.

E se, depois disto tudo, compararem seu filme a “Chamas da Vingança”, diga que é tudo uma grande coincidência e que falem com os seus advogados.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Ho ho ho

_ Menina você nem sabe o que andam falando por aí?
_ Oba fofoca! Diz aí poderosa, de quem é a vez?
_ Papai Noel!
_ O quê? Aquele pobre velhinho indefeso dos presentes?
_ Aham, senta aí que vou te contar tudinho. Tá dando o maior fusuê. Tudo começou com a história das renas. Sabé né, aqueles bichinhos que puxam o trenó.
_ Sei sei, aquelas do filme do nariz vermelho.
_ Isso mesmo. Tá sabendo hein? Olha só, parece que rena é só um nome fantasia. São veados mesmo, todos eles.
_ Nãoooooo ...
_ Aham, assumidos. Por isso usam uns enfeites brilhosos pela noite. Mas sabe como é, ia ficar meio feio pro lado do Papai Noel, daí criaram esse apelido bobo.
_ Nick.
_ Não, rena.
_ Ai tolinha, nick de nickname, apelido. Tá desatualizada hein?
_ Eu hein?! Mas deixa te contar mais.
_ Tem mais?
_ Ihhh se tem. Toda aquela frescura de decoração. Bolinha prá cá, luzinha prá lá ... Sabia que a roupinha dele era prá ser rosa?
_ Nahhhhhh
_Tô te dizendo. Mas na última hora acabaram com medo da repercussão e carregaram no vermelho. E tudo forradinho de lãzinha, uiuiui!
_ Aí você já está demais. Deve ser para não passar frio, Pólo Norte essas coisas ...
_ Fetiche puro nêga! Isso sem falar naquela estória de pendurar a meia na lareira. Brincando de meia ... M E I A ... “meia”, entende?
_ Menina nunca tinha pensado nisso!!! E os presentes para as criancinhas, onde fica esse outro lado do Natal?
_ Sedução pura! Se comportou direitinho ganha, não se comportou, não ganha. Já tem até quem esteja processando o Noel por pedofilia com esse papinho de “vem aqui sentar no meu colinho” ... Sem falar nos pequeninos ajudantes que esse safado mantém na fábrica de brinquedos.
_ Nem sei o que dizer ...
_ Vamos combinar né, no meio da madrugada, ele todo vermelho querer entrar pela chaminé, um buraco escuro e sujo que serve para os gases saírem ... aí tem coisa!
_ Nooooossssssaa! Fiquei tonta com tudo isso. Quem te contou?
_ Meu namorado novo, você vai conhecer ele hoje à noite. Vocês vão no GBar hoje, não vão?
_ Claro! O Tito adora ir lá. Falando nisso, tenho que ir senão não sobra tempo de me arrumar.
_ Então tá Alfredinho, nos vemos à noite.
_ Tá certo Luizão. Não vejo a hora de conhecer esse teu namorado novo.
_ Você vai gostar dele, não mais do que gosta do seu é claro.

- - -

Texto escrito para e inscrito no concurso de crônicas natalinas da revista Diálogo Médico, cujo resultado deverá sair em breve. Torçam por mim!

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 19/X

Uso o sexo
para dormir em uma cama
me bipa, me usa, me chama

Faroeste 6/X

Carinhos pela manhã
manhas a tarde. A noite
Cobertor de orelha e lã

Josiclelson

A vida nos prega peças desde o nascimento. Vou contar a trajetória de nosso herói, não nascido ainda, Josiclelson. Uma odisséia inesperada, cheia de amor, esperança e prazeres. Afinal de contas, com um nome destes e um apelido “Jota”, o que o mundo lhe reservava?

Para começar, o nome dele é uma homenagem dos pais a terrível mania dos pais não lembrarem do sofrimento das pessoas que ganham estes nomes no colégio.

Pára, Pedro, pára! Diz coisa com coisa. Tudo bem, vocês venceram! Vou contar logo a verdade, o nome Josiclelson foi dado porque o nome de sua mãe começa com J-O. Por isto, segundo a tradição das tribos mark etérias de Porto Alegre, quando nascem gêmeos, um menino e uma menina, os nomes dos filhos deverão ter as iniciais dos pais, sendo que o menino ganha as iniciais do primeiro nome da mãe e a menina ganha as iniciais do nome do pai.

Chega de baboseiras, o nome foi escolhido devido a falta de neurônios de ambos os pais, que após anos e anos de tentativas frustradas de achar um nome adequado para seus filhos acabaram optando por colocar este nome, surgido ao acaso, numa conversa na Cidade Baixa.

Ora bolas, e a história do nosso herói? Será que vamos chegar ao final do texto sem saber o que afinal aconteceu com ele? Que peripécias terá ele enfrentado? Quantas e quantas mazelas passou?

Bom pessoal, vou começar, prestem bem atenção. A história é longa e cheia de surpresas, muito além das viagens paternas em relação ao seu nome. Começa antes do seu nascimento, com as agruras de sua mãe. Veja só o que aconteceu, logo na primeira semana que ela descobriu que estava grávida:

Puxa vida! Gente, acabou o texto! Não vou poder contar a incrível historia de nosso herói. Deixo então um lembrete, uma lição: quantas vezes você faz isto com as pessoas que estão próximas de você? Será que não é possível ser curto, direto e amistoso?

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Utopias
Luiz Maia

Velhice solitária

Velhice e juventude são etapas cronologicamente distintas que movimentam o ciclo da vida.
Nascer, viver e morrer fazem parte do processo natural de crescimento de todas as espécies.
Os jovens carecem de cuidados especias para que venham a se tornar homens responsáveis e competentes e, à medida do possível, possam alcançar uma velhice saudável e tranqüila.
Mas não é a isso que assistimos no cotidiano das pessoas que atingiram à meia-idade.

Há muitos velhos levando uma vida de pleno abandono, alguns descartados do processo da vida, desprovidos de dignidade e vivendo esquecidos em total solidão.
Enquanto os jovens ainda estão plantando as primeiras sementes de esperança, esboçando projetos impelidos pela aventura, têm sonhos e metas a atingir.

Eles mal começaram a descobrir os caminhos da vida, por isso dificilmente se deixam dominar
pela solidão.
Simone de Beauvoir num de seus livros sobre a velhice mostra, entre outras coisas,
que "o inconsciente não tem idade e que temos forte tendência a nos comportar, na velhice, como se jamais fôssemos velhos".
Raramente vemos um sessentão considerando-se nessa condição.
Alguns chegam a passar dos oitenta anos acreditando serem de meia-idade
porque seu inconsciente assim o registra.

Mas por que há tantas pessoas vivendo na solidão?
A solidão às vezes pode ser uma doença social, e as suas maiores vítimas são as pessoas da terceira idade.
Elas já foram felizes, tiveram suas decepções, percorreram muitos caminhos, sofreram adversidades e acordaram de todos os sonhos.

Muitas não encontram mais sentido em sua existência e se encontram no crepúsculo da vida.
Vivendo de um passado remoto, povoado de saudades, elas esperam apenas chegar ao ponto final.

Mas se os velhos mantiverem o espírito jovem, sabendo-se velhos, e encararem a velhice como um estágio natural,
certamente essa velhice tomará outro rumo e a feição será bem outra.
Muita coisa pode ser feita para diminuir ou minorar os efeitos da solidão.
Há que se buscar alternativas interessantes para os idosos poderem se adequar a tarefas que venham preencher seus longos dias.

Assim todos sentir-se-ão úteis e produtivos à medida em que possam oferecer suas experiências e aprendizado, absorvidos ao curso da vida, a serviço dos mais jovens.

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Memórias

Não tenho mais diários.
Não tenho muitas fotos.
Tenho muitas lembranças desagradáveis.
Tenho muitas lembranças saudáveis.
Da infância, bastante restou.
Da adolescência muito se apagou.
Dos sonhos, o mais vivo é o amor.
Das memórias seletas em meu inconsciente,
Relâmpagos surgem no meio das névoas.
Fatos ou ficção?
Tenho mais alguma coisa para lembrar que realmente me acrescente?
O que ficou para trás, não deveria ficar somente lá?
Mas abro e fecho os olhos, e lá vêm elas, as memórias,
da infância, dos sonhos, das tristezas, do amor, dos meus pais, dos meus irmãos,
dos meus melhores amigos, dos meus piores inimigos,
dentre os inimigos, talvez o que mais me atormente seja o esquecimento...
daquilo que eu gostaria de ser na infância,
passando por aquilo que gostaria de ser na adolescência,
finalmente chegando ao que gostaria de ser no presente,
mas esqueço de lembrar.
As minhas melhores memórias serão aquelas que vierem estar sempre presentes,
indo e voltando como a maré no mar, melhores ainda são as memórias do que eu ainda tenho que fazer para me lembrar depois...

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Suburbanas
Marcos Claudino

São Paulo, 18 de outubro de 2004.

Um simples desabafo...

Há pouco tempo, surpreendia-me por ver tantas pessoas desapegadas das questões políticas que giram por nosso meio. Acho que devo-lhes desculpas, ok?

Nojento. Desta vez não está sendo nem mais nem menos feio, apenas o normal de sempre. Os meios escolhidos pelos “eleitos” à disputa do segundo turno continuam sendo os mais baixos possíveis. Acho que desta vez já me cansou. Não consigo eximir nenhum, vejo com asco a todos, sem distinção. É que eu acho tão ruim ter um vice corrupto, quanto receber o apoio de outro com um histórico fedorento. A boa educação que recebi não me permitiria ser apoiado por uma pessoa podre, tampouco ter um vice com um passado tão suspeito. Que triste. Creio que vocês dois perderam... Como sempre...

O que leva uma pessoa normal, geralmente proprietária de uma ou várias empresas a largar tudo, à busca de um posto no comando de uma cidade, um Estado, ou um País? Não dá pra entender essa gana pelo poder. Não dá pra entender como um cidadão, tido como sério, vai se meter com um bando de serpentes venenosas, tornando-se também ele uma, com um veneno até mais forte que os demais... Que nojo...

Eu tenho trinta e cinco anos de idade. Não tenho vergonha de dizer que ainda não descobri o que quero da minha vida. Sei fazer algumas coisinhas, ganho meu sustento com elas. Gosto de meus amigos, conquisto-os naturalmente, tanto quanto inimizades, pois ninguém precisa gostar de mim. Tenho uma vida relativamente confortável, e muito a conquistar para mim e para quem me gosta e eu gosto. Simplifico ao máximo que posso, tudo que aparece de problema a ser resolvido. Mas, tenho uma certeza absoluta, neste momento. Não quero ser político. Não quero gozar de favores que não tenha feito por merecer. Não quero um conforto que eu não tenha trabalhado para conquistar. Não quero ter que usar pessoas para subir em cima de outras, nem quero, pelo amor de Deus, dever favores a outros políticos...

Não quero, nem vou, fugir de minhas responsabilidades de cidadão, mesmo porque sou obrigado a isso. Votarei sim, desta e das próximas vezes. Tentarei, com tristeza, escolher um menos pior para tomar as decisões que eu não teria capacidade de propor-me a tentar resolver, pelo bem coletivo, ou próprio, sei lá...

Não estou desanimado com o ser humano, mas com uma parte de sua espécie, que insiste em voltar no tempo, insiste em não evoluir, insiste em tomar à força de qualquer esforço, o poder das mãos alheias, pelo bem de seus gigantescos egos mal nutridos...
Ainda bem que existem pessoas que dão valor a uma conversa inteligente, a uma manifestação de carinho verdadeiro, e a crescer internamente. Ainda bem que existimos, eu e você...

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Musicalidade de povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai

Televisão de Cachorro

Televisão de Cachorro é o disco mais belo do Pato Fu.
Porque se em Rotomusic De Liquidificapum eles eram uma banda demo sem baterista, que rumava para uma veia meio heavy metal, em Gol De Quem? e Tem Mais Acabou eles encerravam a esquizofrênia musical conhecida deesde então, e em Isopor e Ruído Rosa a banda explorava (e ainda continua explorando) o lado cool-eletrônico-Radiohead de ser, no terceiro trabalho o Pato Fu plantou o legado pop perfeito.
Sem máscaras, sem grandes tecnologias à mostra, com uma grande banda, hits, hits em potencial, versões eficientes, e esquisitices costuradas por pura música chiclete, power pop belo.
Em Televisão de Cachorro, parecia se sentir uma liberdade de todos, exatamente todos em seus instrumentos. Cada um seguia o seu caminho dentro da música, para se encontrarem perfeitamente no final.

Fernanda Takai seguia definitivamente como voz principal do grupo, John ainda explorava seus timbres distintos de guitarra sem soar muito artificial, Ricardo Koctus voava com seu baixo, e Xande espancava feliz sua bateria. Em muitas música isso fica evidente, caso de "Nunca Diga", punk pop vertida de uma balada do pessoal do Graforréia Xilarmônica, que parece dizer "saiam todos, façam o que quiser, eu os liberto".

Acho que nunca mais a banda conseguirá chegar em um pop tão pessoal quanto em "A Necrofilia da Arte", "Boa Noite", "O Mundo Não Mudou", ou "Antes Que Seja Tarde". Hits, hits, não importa os racistas: essa música é muito boa. "Canção Pra Você Viver Mais" é pop com o coração na mão, ainda sem ranços de um Stereolab da vida.

O power pop ataca de vez em "Um Dia, Um Ladrão". É uma pena muita gente não conhecer essa verdadeira pérola, bravamente relembrada no disco ao vivo lançado recentemente. Discos assim existem para corrigir injustiças como essa.

As corajosas versões de "Tempestade", "Eu Sei", a já mencionada "Nunca Diga", "Spaceballs, The Ballad" formam elos interessantes. A primeira, entre a mesma geração que os criou, a segunda, da geração anterior, a terceira, pela geração excluída do meio popular nacional. Sem medo de soarem estranhos.
A quarta, profere aquilo que o Pato Fu iria seguir com ímpeto, a faceta extremamente eletrônica.

Televisão de Cachorro é o balanço perfeito entre o passado e o presente. Não tão debilóide quanto a estréia, e não tão maduro quanto atualmente. O pico, o ápice da bela música do Pato Fu.

É de emocionar cada centímetro quadrado. Como a faixa-título, é coisa de ter o coração na beira do sentimento mesmo, de deixar a ironia um pouco para o lado de vez em quando.

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Ombudsman

E enquanto isso, em algum canto da Galáxia...

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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