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20 /10/2004 - Edição número
98
The Final
Countdown...
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Contagem regressiva...
Esta edição tem um "Q"
de especial: estamos nos aproximando de dois marcos na história
do Simplicíssimo: a data
de 2 anos da criação do e-zine Simplicíssimo
(25 de outubro de 2002) e a edição de número
100 deste mesmo e-zine.
Nestes momentos, devemos fazer uma espécie
de revival dos acontecimentos.
Sim, pois quem não sabe ainda, deve
ser informado!
Este site que ora atinge sua retina surgiu
como um e-zine e somente em 26 de junho,
entre as edições de número 28 e 29
foi devidamente lançado como sítio propriamente
dito. E teve até festa de lançamento e tudo,
com 3 bandas tocando e o rock n' roll comendo solto! Não
acredita? Olha as fotos ali no menu da esquerda e veja a
história narrada nas edições antigas.
Bons tempos aqueles... Cerca de 1 comentário
por edição inteira, somente 40 visitas ao
site por dia... As teias de aranha podiam se multiplicar
tranqüilamente, pois os principais visitantes éramos
nós escritores, familiares e amigos e um ou outro
estranho amigo de amigo ou casual que chegava até
nós através do Google e outras ferramentas
de busca.
Felizmente, hoje a situação
mudou bastante. O número de comentários por
edição beira os 100, a participação
de novos autores só faz crescer - fazendo com que
tenhamos que progressivamente aumentar o número de
artigos por edição e, mesmo assim, gerando
uma fila de espera para publicação de textos
- e até livros temos recebido para apreciação
e auxílio na edição e distribuição.
Já se pensa em, nalgum futuro não
muito distante, concretizar a idéia de ter o Simplicíssimo
na sua forma impressa, escrita, provavelmente mensal. Para
tanto, é necessária a busca de patrocínio,
sempre retardada pelas outras atividades do corpo editorial
o site.
Coroando todo o empenho e dedicação,
as horas perdidas de sono madrugadas adentro editando o
site, colocando textos enviados de ultima hora ou atrasados
por nossos "fiéis" colunistas e tratando
de resolver broncas como a queda do nosso servidor norte-americano
que ocorreu na semana passada, deixando inabilitado nosso
sistema de comentários e também o site por
alguns dias, fomos selecionados para concorrer ao Prêmio
IBest na categoria Arte e Cultura.
Com certeza este é um prêmio
de grande relevância para todo e qualquer site que
se preze. A possibilidade de aumentar a visualização
do Simplicíssimo com a classificação
entre os Top 10 é fabulosa e toda
e qualquer ajuda é fundamental.
Se você tem um site ou um blógue
ou uma lista de e-mails e puder fazer campanha para ajudar
o Simplicíssimo a arregimentar votos,
faça isso! Seu auxílio é imprescindível
para que consigamos chegar lá!
Mande uma mensagem a seus amigos, familiares,
professores, colegas de infância, inimigos, e vendedores
de churros preferidos para que façam uma visita ao
Simplicíssimo e, se o que virem lhes agradar, que
votem no Simplicíssimo para melhor
site de Arte e Cultura.
A partir da próxima edição,
o e-zine do Simplicíssimo vai voltar
à ativa, depois de um período de hibernação.
Caso você que ainda não era Simpliassinante
do e-zine quiser passar a recebê-lo semanalmente em
sua caixa de mensagens gratuitamente, encaminhe um e-mail
para simplicissimo@simplicissimo.com.br
dizendo em bom português que está interessado
em um bom filé ao ponto com ervas finas e molho aos
quatro queijos (sem aspargos, por favor).
Lembre-se: auxilie como puder e com vontade
e ânimo a divulgar o Simplicíssimo
nas próximas semanas! A votação
já começou!
A propósito: a edição
de número 100 contará com
um tema especial e originalíssimo que será
revelado somente aos colunistas e a alguns participantes
especias a serem convidados a colaborar nesta edição
comemorativa!
Você não perde por esperar, digníssimo
Simplileitor!
E vamos às turras que sem tranco não
se sobre barranco! Boa leitura!
Rafael Luiz Reinehr
PS:Seja bem-vindo o digníssimo Thiago
Gôngora, que estréia nesta edição
do Simplicíssimo. A casa é sua! Faça
dela sua tela para exercitar sua criatividade e inventividade!
"Viver não é necessário.
Necessário é criar"
Fernando Pessoa
"Só sabemos com exatidão
quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo
conhecimentos, instala-se a dúvida"
Johann Goethe
"A cultura, sob todas as formas de
arte, de amor e de pensamento, através dos séculos,
capacitou o homem a ser menos escravizado"
André Malraux
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...
Thiago Fernando Porto Gôngora |
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Há muito tempo não escrevia,
não pensava, não observava. O quê? As
coisas simples da vida, das pessoas, das falsidades, das
decepções, das surpresas. Coisas que simplesmente
acontecem sem ter um significado claro, evidente.
Esqueci que a vida não é apenas
estar vivo; mas sim viver da forma mais proveitosa possível,
acrescentar alguma coisa, ser lembrado, respeitado. Às
vezes penso se seria possível não magoar alguém,
não decepcionar aquele que o ama, penso se seria
possível amar alguém que não ama.
Se seria possível viver livre da pressão
religiosa. Ser ateu é ofensa; ser protestante é
ser ignorante, cego; ser católico é ser tradicional;
ser espírita é acreditar no que dizem ser
impossível de se ver. Ser de uma religião
que não conhecemos é querer ser diferente,
demonstrar -se mais espiritualizado que os outros. O que
procuramos, necessitamos, exaltamos na verdade não
é o auto-conhecer, mas sim cada vez mais encontrar
diferenças no próximo. Claro que ser igual
é ser monótono, chato; mas criticar diferenças
parece ser invejoso,
preconceituoso. É possível viver fora disso
tudo? Não sei, sei que apenas reparo o quanto estamos
alienados, o quanto não damos valor no fato de estar
vivo. No poder que temos sobre os outros que nos cercam.
Para quem viu o filme Cazuza " O tempo
não para" viu ali tudo o que pode ser abominado
e criticado por qualquer um. Uma pessoa sem limites, sem
o respeito aparente, sem valorizar a vida que lhe foi dada.
No Oriente, as milhares de filosofias não
julgam o ato como fato isolado, mas
sim o que representa. Exemplo disso são os milhares
de políticos que suicidam
com um punhal, pelo fato de terem sido corruptos. Quiseram
mostrar que não
mereciam a vida, pois fizeram dela um egoísmo, como
só eles pudessem ter tudo o
que ela nos proporciona. Mas o mesmo suicídio aqui
no Ocidente, seria visto
como querer fugir dos fatos, significaria ser fraco, achar
que a morte seria a solução para os problemas.
Acho que Cazuza valorizou a vida mais que
milhares de pessoas, não vendeu
religião, não matou, não governou uma
nação a seu favor, não acreditou naquilo
que todos dizem. Se tivesse acreditado não existiria
Cazuza, mas talvez mais um
ladrão, ou médico, um simples cidadão.
Incrível como damos valor a Einsten,
Leonardo da Vinci, e a tantos outros que na época foram loucos, perturbados, até drogados.
E se Nosso Senhor Jesus Cristo voltasse a
terra? Acho que seria crucificado de
novo, ou não? Já imaginou um sujeito simples,
falando que é filho de Deus e que
veio trazer a verdade ao povo. Dizendo que é a reencarnação
de Jesus Cristo. E
se ele começasse a trazer o povo para si e todos
se voltassem contra o governo.
Será que matariam ele de novo? Acho que com certeza,
e não teria apenas um
Judas, mas milhares deles.
E paramos a criticar um rebelde exagerado,
aquele que dizia que sua piscina está
cheia de ratos, que falava tudo que vinha a sua boca, que
tinha uma vida louca.
Que vivia na Burguesia, e se tivesse vivo talvez diria:
Eu Preciso Dizer Que te
Amo, que sou louco, Exagerado, que sou um Maior Abandonado
mas tudo isso Faz
Parte do Meu Show, por que sou um moleque na Malandragem.
E a vida, a vida é
sacanagem, é amor, é dor. A vida é
o aprender eterno, é evolução, e em
certos
momentos, revolução. Viver por viver, talvez
sim seria o maior dos erros,
passar desapercebido, não contribuir para um mundo
melhor, mais digno, honesto,
honrado, eu não, fui criticado, ameaçado.
Estou velho, fraco, sem voz, mas sou
cantor, forte e jovem o suficiente para dizer. O importante
é ser feliz, o
resto é besteira, tradição, preconceito.
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Máscaras
Gabriel Silveira |
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Desta vez haveria de vencer. Na última,
incrédulo de si, desabou, crispou-se à
possibilidade de dar um passo a frente. Agora havia destripado
o próprio corpo,
exposto seu coração ao próprio crivo
astral, desvendado seus próprios segredos.
Agora acreditava estar pronto, majorado, corajoso.
O sinal do interfone era seco, carcomido pela
rotina. Ele cerrou os punhos,
sentiu o suor expurgando o medo, detendo a tensão
no peito. Ela apareceu à
janela, olhou para baixo como quem reclama o passado. Ele
contemplou seus
negros cabelos a dançar no ar, maquiando-lhe a face
como o vale que amansa o
rio. Momentos de transe para ele. Sua mente ainda ditava
imagens quando ela
apareceu à porta, vestindo uma calça de jeans
escuro e um moletom branco que
lhe destacava os olhos. Há quanto tempo, ela disse
e ele Tenho pensado em ti.
Ela retraiu-se, seus olhos buscaram refúgios no chão.
Ele encheu os olhos de
lágrimas e acovardou-se Não, preciso seguir
em frente, Quixote, Quixote,
Quixote e disse Preciso te ter ao meu lado, por que disfarças
a temperatura do
teu sangue a quem sabe da tua tormenta Por que procuras
na razão o sabor que
está na alma, na acidez do espírito, no deslumbre
do momento Assassina tua
sombra, faz da tua moral um papel de anotações
estúpidas, mata tuas virtudes se
teu amor elas reprimem.
Ela deu dois passos para a frente e disse-lhe
Nada sabes da vida se acreditas
que a máscara é mais forte que o personagem;
que as palavras valem mais do que a ação;
que a razão é dispensável ao amor.
Chorou. Então deu-lhe um beijo no
rosto, tocou-lhe com os pequenos dedos a nuca sem cabelo
e virou as costas para
ir embora. Ele a segurou pelos ombros e pensou ah, Compsom
fracassado, mostra
tua face manchesca ao menos hoje e disse Não esqueças
que vida é mais curta que
os sonhos, que os sonhos são mais opacos que a poesia
e que poesia nada mais é
do que amor. Ela vibrou mais baixo, genuflexa ao chão
e disse-lhe É isto que
queres Que eu me entregue à morte Que eu desista
de ser o que sou e ele És o
que não sabes, és o que não esperas
e o que não compreendes e ela Mentes, esta
pessoa que pensas conhecer não sou eu, é outra
qualquer de tua mente doentia
que sabe triunfar quando nada há e ele retirou os
passos, escondeu o rosto
novamente na sombra e desistiu de assombrá-la para
sempre. Ela rezou, subiu as
escadas e não mais teve a companhia do mundo dos
mortos.
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Mentiras
Brancas
Rafael Tourinho Raymundo |
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A ninguém confie segredos, pois o medo
lhe atormentará. Percorrerá seus sonhos,
trazendo culpa, e você não encontrará
desculpa nem explicação para seus atos.
Certamente, haverá aqueles que, entre eles, trocarão
informações secretas,
discreta e silenciosamente. Contudo, são ainda poucos
os que merecem confiança;
lembranças tristes duram mais que uma paixão.
Jamais se entregue por inteiro: troque o ar
brejeiro pelo mistério do
incompleto. Será secreto tudo que lhe for sagrado,
proteja quem lhe ame. E não
se engane: passados negros hão de ser mascarados
com palavras doces e
esquecimentos. Não se torne vulnerável ao
expor sua opinião.
Deixe transparecer apenas o essencial - nunca
sua essência. Numa conversa
trivial, faça soar frugal sua eloqüência.
Não faça drama nem exponha
sentimentos nas discussões acaloradas, pois pessoas
emocionadas, quando não
irracionais, fazem sofrer os demais, e você ja sofreu
o bastante. Um simples
deslize, há tempos distante, e uma vida inteira a
ser amaldiçoada. Esqueça quem
o chamou de ridículo, esquisito e bobalhão.
Ao deparar com um destes na rua, sorria e
siga adiante. Bem-feito para o infante
que confiou em quem não devia. Sorria, siga adiante.
Eles lembrarão de suas
verdades, mas não porão em prática
as maldades de tempos atrás. Sorria, siga
adiante, ria dos erros cometidos. Entretanto, mantenha contidos
os impulsos de
raiva e vingança, já que não é
mais criança. O tempo lhe alçou ao céu,
você não
quer voltar ao chão.
Portanto, lembre sempre de tomar cuidado.
Para não ser o ridículo, deixe o
segredo onde ele está; para ser um bom amigo, ouça
tudo sem opinar; para ser
cordial e fino, concorde com tudo que alguém lhe
disser - se for mulher, elogie
sua beleza; se homem, agrade-lhe como puder. São
as mentiras brancas, aquelas
que não causam mal a ninguém, que o mantêm
longe da confusão da verdade, pois,
na realidade, ouvir os próprios defeitos ninguém,
de fato, quer. Esconda dos
superiores seu nojo e reprovação.
À noite, encare o espelho. Mostre a
si mesmo sua falsidade e hipocrisia.
Arrependa-se. Mas, ainda assim, agradeça às
mentiras brancas por mais um dia
sem traumas, e por todas as almas que lhe trataram bem.
Alegre-se por ser
apenas mais um na multidão.
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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A morte como obra-prima
As regras não são muito complicadas,
embora estejam se tornando tão banais que é
mais fácil que você logo crie as suas próprias
para que não o acusem de ser repetitivo, maniqueísta
ou qualquer um destes adjetivos não muito elogiosos
que poderiam ofender sua recente entrada no já competitivo
mundo das grandes produções cinematográficas.
Funciona mais ou menos assim: se você utiliza fotografia
granulada, imagens distorcidas, efeitos os mais diversos
com a finalidade de parecer descolado em sua incursão
dramática que pretenda justificar a sede de vingança
de um profissional irado e mais do que meramente cumpridor
dos seus deveres, tudo o que poderia se chamar de violência
gratuita, doses exageradas de sangue e trucidações
as mais diversas, cairá por terra quando você
tiver uma destas grandes justificativas artísticas
a apresentar. A violência se fará de contornos
tão visualmente inovadores que será como um
grande clipe musical, uma apoteose visual, uma sensibilidade
de imagens que deverá passar incólume a ofensas
baixas.
A sua história não precisa ser muito complicada:
digamos que você tenha como personagem principal um
ex-assassino profissional (de cujo passado você deverá
falar o menos possível, mas dando pistas claras de
quanto o mesmo o abalou moralmente, tornando-o um sujeito
perturbado, infeliz e levando-o a crises existenciais freqüentes,
com rompantes de ódio e, não obstante, uma
dedicação toda especial ao exercício
de enxugamento de garrafas de Jack Daniel’s logo pela
manhã) que aceita como emprego ser o guarda-costas
de uma linda menininha loira em uma cidade Mexicana com
uma média de quatro seqüestros diários.
É bom que se deixe bem claro que apesar de sua história
se passar em uma cidade mexicana, os seus personagens principais
e que importam realmente para a trama (do lado “bom”,
digamos assim) não são mexicanos! É,
isto mesmo: o guarda-costas, o protagonista de sua história,
é americano. A menininha doce e loira é, lógico,
americana. A mãe da menininha é uma linda
e doce loira americana. Mas o pai, o rico dono da mansão
onde as duas moram e onde o guarda-costas abrigar-se-á
em um quartinho na parte dos fundos da casa, não
é americano! Sim, ele é mexicano. Envolvido
em um negócio qualquer que lhe garanta muito dinheiro,
doravante denominado “empresário”, com
uma vida visivelmente tranqüila e confortável,
mas constantemente cercada pelo medo de que alguém
seqüestre sua doce filhinha e acabe com a paz reinante.
Pois este “empresário” deve andar freqüentemente
com o seu advogado, um sujeito estranho e escorregadio com
um aspecto nada confiável e que deve ser representado,
preferencialmente, por algum ator que tenha feito bastante
sucesso nos anos oitenta mas que hoje se contente com papéis
secundários em grandes produções.
E agora um dos detalhes mais importantes: todos os mexicanos
são imbecis!
Sim, são imbecis, serviçais, trambiqueiros,
corruptos, marginais, sujos e safados. Resumindo, a escória
da humanidade! Oquei, você será acusado de
maniqueísta, mas os dois lados da moeda serão
apresentados com tanta clareza, você não terá um daqueles thrillers pretensamente inteligentes
em que se exigirá muito pensamento da platéia,
não haverá nenhum tipo de obscuridade na trama
que não garanta que se saiba quem é quem no
lado negro da força. As coisas se tornam simples
dramaticamente falando. Deixe que sua complexidade reinante
e galopante se manifesta somente na suja fotografia, nos
efeitos atordoantes que os tremeliques de câmera,
as saturações de luz, os tremores, as repetições
de imagens lhe garantirão. Quem precisa mais do que
isto? Estamos na geração MTV! Vídeo
clipes e imagens atordoantes são o que garantem a
boa recepção de sua obra! Se o seu personagem
está bêbado, faça com que as imagens
do próprio de sobreponham uma a uma como se o próprio
cinegrafista estivesse bêbado! Se há ódio
envolvido, encha a cena de luz amarelada e dê vazão
a uma sonoridade angustiante também. Isto ajudará
a irritar a platéia e por conseguinte, perceber a
irritação do personagem.
Mas voltemos à nossa trama: o tal guarda-costas
será durão o bastante (nas cenas iniciais,
lógico) para tentar não se deixar seduzir
pelo jeito tão meigo da menininha loira que quererá
fazer amizade com ele. Será ríspido quando
ela falar coisas bonitinhas dentro do carro no caminho para
a escola querendo a sua atenção. E dirá
que é pago para cuidar de sua segurança, não
ser seu amigo. Em verdade, nos momentos iniciais isto gerará
uma certa antipatia pelo protagonista, o que não
é algo muito bom de acontecer. No entanto, não
se preocupe: nas cenas seguintes ele (e o espectador também
não, tenho certeza!) não conseguirá
resistir ao doce encanto de tão linda garotinha e
começará a ter o sentido de sua vida desperto
pelas brincadeiras com a loirinha e pela garra com que a
ajudará em algum esporte que a pequena pratique,
mas para o qual não tem tanta habilidade... Hum,
pode ser natação! Digamos que ela tenha dificuldade
de ouvir o estampido do revólver na hora de saltar
e sempre faça isto com certo atraso, embora seja
ágil o bastante na piscina. Algumas cenas mostrando
o nosso protagonista envolvido em ajudar a menininha a resolver
o seu pequeno problema e sendo saudado entusiasticamente
e amorosamente pela menina que está ajudando e será
o bastante para que vejamos o quanto sua relação
se estreitou e quanto amor é possível nascer
entre um serviçal e sua patroazinha. Desde que os
dois sejam americanos, é lógico. A cozinheira
(mexicana) e o jardineiro (mexicano) deixe-os batendo palmas
em volta da piscina para criar um clima de alegria e integração
entre as nações. Coisa que não existirá
além disso, pois a cozinheira continuará a
ser somente a cozinheira e o jardineiro, somente o jardineiro.
Não esqueçamos de criar um personagem amigo
do protagonista, que terá sido colega de trabalho
do mesmo nos tempos difíceis e o único que
terá conhecimento o bastante de quanto ambos sofreram,
no que se meteram e único com quem o protagonista
poderá contar nos momentos complicados que virão.
E eles virão. Sim, este amigo (americano) também
terá ido morar no México e será, inclusive,
aquele que conseguirá o emprego para o protagonista.
Com tais princípios inicialmente apresentados,
então, já podemos partir para o que o nosso
filme se propõe: a doce menina, não obstante
os cuidados deste guarda-costas que estava se tornando já
o seu grande amigo (coloque cenas ternas, mais convencionais
em que a menininha oferecerá flores para o seu herói,
dirá coisas meigas e oferecerá presentinhos
para ele: precisamos destes flashes de felicidade para que
o espectador se torne realmente cúmplice do companheirismo
e se sinta indignado com todo o mal que virá para
tão doce criatura), sofrerá aquela que é
considerada uma das hediondas e violentas ações
criminais: será seqüestrada por marginais maus
como pica-paus e cujo sotaque (mexicano) será tão
carregado de ódio que não haverá espectador
que se assombre com qualquer violência que os mesmos
possam sofrer como retaliação por seu mau
comportamento.
Na cena de seqüestro, o grande ápice do filme,
é necessário muito cuidado: nosso protagonista
será apresentado como um grande profissional, habilidoso
para cumprir todo o cerimonial necessário para proteger
a vida da doce menininha – tiros, gritos de dor ao
ser acertado por disparos, rolamentos pelo chão e
tudo o que garanta uma cena realmente impactante! Detalhe
que nosso protagonista quase antecipará o que irá
acontecer: deverá estar atento para carros que se
aproximam, carros policiais suspeitos (já que no
México todos são corruptos) que trancam a
rua e outro carro com tipos suspeitos (eles têm cara
de mexicanos!) que circula de maneira suspeita pela volta.
Depois de uma troca de tiros emocionantes em que nosso protagonista
conseguirá matar quatro(!) dos meliantes, de gritos
de horror da menininha apavorada com tanta violência
a sua volta, tudo terá sido em vão e nada
impedirá que o nosso protagonista seja alvejado à quase morte e que a menina seja levada para um cativeiro
sinistro, sujo e mexicano!
Ah, e agora, então, temos todo o objetivo do filme
traçado: é lógico que mesmo o nosso
protagonista tendo sido alvejado tão perigosamente,
se recuperará com rapidez impressionante em um clínica
para cachorros(!) graças à ajuda do seu amigo,
que ainda lhe dará toda a força moral e amparo
necessário para ir adiante com aquilo o que nosso
protagonista acha mais certo: engendrar uma violenta e sanguinolenta
vingança!!
E quem sentirá pena e achará pouco heróico
que nosso protagonista faça o tipo vingativo e brutal?
Quando tiver a informação de que o resgate,
que era assegurado em ser bem sucedido por policiais corruptos,
deu errado e que a grande bagunça ocasionou a morte(!)
da doce menininha, levantar-se-á da cama com um fator
de auto-cura digna de um Wolverine e partirá para
o acerto de contas!
Serão todos mexicanos a escória da humanidade!
Malditos latinos, marginais sujos e desumanos que, por dinheiro,
criam uma indústria do seqüestro do qual somente
20% das vítimas escapam ilesas. São quase
animais, corruptos preocupados com o vil metal que não
deverão nem ter a nossa complacência, não
são dignos de pena. Não há como estar
ao seu lado quando o nosso protagonista chegar em cada um
deles para vingar no clássico olho por olho a audácia
de ter tirado a vida de uma doce loirinha americana! Quando
com uma bazuca explodir seus carros em pleno centro da cidade!
Não, não se preocupe com a recepção
negativa! O nosso protagonista será representado
por um grande ator e isto já equivalerá para
a fundamentação de seus gestos. E depois,
desde Cidade de Deus, Pulp Fiction e outros quetais, a violência
embalada por edição ágil e modernosa
já garantiu o seu grande sucesso pop! Ninguém
pensará que não faria o mesmo quando o herói
(estamos no pós-modernismo) cortar os dedos, um a
um, de um dos envolvidos no seqüestro da doce loirinha
americana. Quem se importará com o marginal, presidente
da “Irmandade” responsável por toda a
indústria de seqüestro, quando tiver um explosivo
enfiado em seu ânus? Ah, e se toda esta vingança
de um homem só for acompanhada por uma grande jornalista
mexicana (indignada com os rumos de violência reinantes
em seu país e destemida em denunciar tanta corrupção)
quase in loco, e todos os atos do protagonista
forem aplaudidos, está tudo bem: afinal, um país
de terceiro mundo, onde toda a polícia é corrupta,
onde não há lei e policiais roubam dinheiro
de resgate, merece mesmo a intervenção de
um herói americano para salvá-los da definitiva
bancarrota! Não há como ser contrário
a tal princípio tão básico.
O sucesso será mais garantido ainda se, ao final,
tendo feito toda a justiça que era necessária,
mesmo crendo que era apenas o comprimento de um dever, nosso
herói tiver como presente a notícia de que
(sim!) nossa princesinha americana doce e meiga ainda está
viva, mas que para tê-la de volta, terá que
oferecer a sua vida em troca (além do irmão
do seqüestrador-mor que está em poder do nosso
protagonista, é lógico). E quem disse que
nosso herói hesitará em fazê-lo? Depois
de trucidar com uma porção de malditos cucarachos,
o que é a sua vida pela vida da doce e americana
loirinha? Se mesmo o pai da menina, um maldito mexicano,
mostrou-se envolvido em tão sórdida trama,
como não oferecer sua própria vida pela vida
da menininha?
Hmmm... Não esqueça de convidar algum ator
brasileiro para fazer o papel de um dos seqüestradores
cucarachos. Não é preciso muito texto para
ele, apenas alguma coisa do tipo “Se tiver amor à
sua vida, não publique aquelas fotos!” e já teremos um bom papel para um bom ator latino fazendo um
maldito sujo latino.
E então, o ápice emocional! Depois de frases
tão incríveis que deverão ser proferidas
pelos atores do tipo “... é um profissional
da morte! E esta será a sua obra-prima!”, de
impactantes closes e trocas de lentes, de cores saturadas,
de tremores de imagens, relaxemos sob o som de uma música
muito calma qualquer, enquanto nosso herói se entrega
aos marginais desprezíveis para que a menininha tenha,
junto a sua mãe, sua felicidade de volta. E agora
que todos os cucarachos corruptos e marginais estão
acabados, não há como não aplaudir
se, ao final da obra, o diretor colocar uma frase agradecendo
ao maravilhoso México pela utilização
de suas locações.
E se, depois disto tudo, compararem seu filme a “Chamas
da Vingança”, diga que é tudo uma grande
coincidência e que falem com os seus advogados.
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
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Ho ho ho
_ Menina você nem sabe o que andam falando por aí?
_ Oba fofoca! Diz aí poderosa, de quem é a
vez?
_ Papai Noel!
_ O quê? Aquele pobre velhinho indefeso dos presentes?
_ Aham, senta aí que vou te contar tudinho. Tá
dando o maior fusuê. Tudo começou com a história
das renas. Sabé né, aqueles bichinhos que
puxam o trenó.
_ Sei sei, aquelas do filme do nariz vermelho.
_ Isso mesmo. Tá sabendo hein? Olha só, parece
que rena é só um nome fantasia. São
veados mesmo, todos eles.
_ Nãoooooo ...
_ Aham, assumidos. Por isso usam uns enfeites brilhosos
pela noite. Mas sabe como é, ia ficar meio feio pro
lado do Papai Noel, daí criaram esse apelido bobo.
_ Nick.
_ Não, rena.
_ Ai tolinha, nick de nickname, apelido. Tá desatualizada
hein?
_ Eu hein?! Mas deixa te contar mais.
_ Tem mais?
_ Ihhh se tem. Toda aquela frescura de decoração.
Bolinha prá cá, luzinha prá lá
... Sabia que a roupinha dele era prá ser rosa?
_ Nahhhhhh
_Tô te dizendo. Mas na última hora acabaram
com medo da repercussão e carregaram no vermelho.
E tudo forradinho de lãzinha, uiuiui!
_ Aí você já está demais. Deve
ser para não passar frio, Pólo Norte essas
coisas ...
_ Fetiche puro nêga! Isso sem falar naquela estória
de pendurar a meia na lareira. Brincando de meia ... M E
I A ... “meia”, entende?
_ Menina nunca tinha pensado nisso!!! E os presentes para
as criancinhas, onde fica esse outro lado do Natal?
_ Sedução pura! Se comportou direitinho ganha,
não se comportou, não ganha. Já tem
até quem esteja processando o Noel por pedofilia
com esse papinho de “vem aqui sentar no meu colinho”
... Sem falar nos pequeninos ajudantes que esse safado mantém
na fábrica de brinquedos.
_ Nem sei o que dizer ...
_ Vamos combinar né, no meio da madrugada, ele todo
vermelho querer entrar pela chaminé, um buraco escuro
e sujo que serve para os gases saírem ... aí
tem coisa!
_ Nooooossssssaa! Fiquei tonta com tudo isso. Quem te contou?
_ Meu namorado novo, você vai conhecer ele hoje à
noite. Vocês vão no GBar hoje, não vão?
_ Claro! O Tito adora ir lá. Falando nisso, tenho
que ir senão não sobra tempo de me arrumar.
_ Então tá Alfredinho, nos vemos à
noite.
_ Tá certo Luizão. Não vejo a hora
de conhecer esse teu namorado novo.
_ Você vai gostar dele, não mais do que gosta
do seu é claro.
- - -
Texto escrito para e inscrito no concurso de crônicas
natalinas da revista
Diálogo Médico, cujo resultado deverá
sair em breve. Torçam por mim!
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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 19/X
Uso o sexo
para dormir em uma cama
me bipa, me usa, me chama
Faroeste 6/X
Carinhos pela manhã
manhas a tarde. A noite
Cobertor de orelha e lã
Josiclelson
A vida nos prega peças desde o nascimento. Vou contar
a trajetória de nosso herói, não nascido
ainda, Josiclelson. Uma odisséia inesperada, cheia
de amor, esperança e prazeres. Afinal de contas, com
um nome destes e um apelido “Jota”, o que o mundo
lhe reservava?
Para começar, o nome dele é uma homenagem dos
pais a terrível mania dos pais não lembrarem
do sofrimento das pessoas que ganham estes nomes no colégio.
Pára, Pedro, pára! Diz coisa com coisa. Tudo
bem, vocês venceram! Vou contar logo a verdade, o nome
Josiclelson foi dado porque o nome de sua mãe começa
com J-O. Por isto, segundo a tradição das tribos
mark etérias de Porto Alegre, quando nascem gêmeos,
um menino e uma menina, os nomes dos filhos deverão
ter as iniciais dos pais, sendo que o menino ganha as iniciais
do primeiro nome da mãe e a menina ganha as iniciais
do nome do pai.
Chega de baboseiras, o nome foi escolhido devido a falta
de neurônios de ambos os pais, que após anos
e anos de tentativas frustradas de achar um nome adequado
para seus filhos acabaram optando por colocar este nome, surgido
ao acaso, numa conversa na Cidade Baixa.
Ora bolas, e a história do nosso herói? Será
que vamos chegar ao final do texto sem saber o que afinal
aconteceu com ele? Que peripécias terá ele enfrentado?
Quantas e quantas mazelas passou?
Bom pessoal, vou começar, prestem bem atenção.
A história é longa e cheia de surpresas, muito
além das viagens paternas em relação
ao seu nome. Começa antes do seu nascimento, com as
agruras de sua mãe. Veja só o que aconteceu,
logo na primeira semana que ela descobriu que estava grávida:
Puxa vida! Gente, acabou o texto! Não vou poder contar
a incrível historia de nosso herói. Deixo então
um lembrete, uma lição: quantas vezes você
faz isto com as pessoas que estão próximas de
você? Será que não é possível
ser curto, direto e amistoso?
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Velhice solitária
Velhice e juventude são etapas cronologicamente
distintas que movimentam o ciclo da vida.
Nascer, viver e morrer fazem parte do processo natural de
crescimento de todas as espécies.
Os jovens carecem de cuidados especias para que venham a
se tornar homens responsáveis e competentes e, à
medida do possível, possam alcançar uma velhice
saudável e tranqüila.
Mas não é a isso que assistimos no cotidiano
das pessoas que atingiram à meia-idade.
Há muitos velhos levando uma vida de pleno abandono,
alguns descartados do processo da vida, desprovidos de dignidade
e vivendo esquecidos em total solidão.
Enquanto os jovens ainda estão plantando as primeiras
sementes de esperança, esboçando projetos
impelidos pela aventura, têm sonhos e metas a atingir.
Eles mal começaram a descobrir os caminhos da vida,
por isso dificilmente se deixam dominar
pela solidão.
Simone de Beauvoir num de seus livros sobre a velhice mostra,
entre outras coisas,
que "o inconsciente não tem idade e que temos
forte tendência a nos comportar, na velhice, como
se jamais fôssemos velhos".
Raramente vemos um sessentão considerando-se nessa
condição.
Alguns chegam a passar dos oitenta anos acreditando serem
de meia-idade
porque seu inconsciente assim o registra.
Mas por que há tantas pessoas vivendo na solidão?
A solidão às vezes pode ser uma doença
social, e as suas maiores vítimas são as pessoas
da terceira idade.
Elas já foram felizes, tiveram suas decepções,
percorreram muitos caminhos, sofreram adversidades e acordaram
de todos os sonhos.
Muitas não encontram mais sentido em sua existência
e se encontram no crepúsculo da vida.
Vivendo de um passado remoto, povoado de saudades, elas
esperam apenas chegar ao ponto final.
Mas se os velhos mantiverem o espírito jovem, sabendo-se
velhos, e encararem a velhice como um estágio natural,
certamente essa velhice tomará outro rumo e a feição
será bem outra.
Muita coisa pode ser feita para diminuir ou minorar os efeitos
da solidão.
Há que se buscar alternativas interessantes para
os idosos poderem se adequar a tarefas que venham preencher
seus longos dias.
Assim todos sentir-se-ão úteis e produtivos
à medida em que possam oferecer suas experiências
e aprendizado, absorvidos ao curso da vida, a serviço
dos mais jovens.
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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Memórias
Não tenho mais diários.
Não tenho muitas fotos.
Tenho muitas lembranças desagradáveis.
Tenho muitas lembranças saudáveis.
Da infância, bastante restou.
Da adolescência muito se apagou.
Dos sonhos, o mais vivo é o amor.
Das memórias seletas em meu inconsciente,
Relâmpagos surgem no meio das névoas.
Fatos ou ficção?
Tenho mais alguma coisa para lembrar que realmente me acrescente?
O que ficou para trás, não deveria ficar somente
lá?
Mas abro e fecho os olhos, e lá vêm elas, as
memórias,
da infância, dos sonhos, das tristezas, do amor, dos
meus pais, dos meus irmãos,
dos meus melhores amigos, dos meus piores inimigos,
dentre os inimigos, talvez o que mais me atormente seja
o esquecimento...
daquilo que eu gostaria de ser na infância,
passando por aquilo que gostaria de ser na adolescência,
finalmente chegando ao que gostaria de ser no presente,
mas esqueço de lembrar.
As minhas melhores memórias serão aquelas
que vierem estar sempre presentes,
indo e voltando como a maré no mar, melhores ainda
são as memórias do que eu ainda tenho que
fazer para me lembrar depois...
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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São Paulo, 18 de outubro de 2004.
Um simples desabafo...
Há pouco tempo, surpreendia-me por
ver tantas pessoas desapegadas das questões políticas
que giram por nosso meio. Acho que devo-lhes desculpas,
ok?
Nojento. Desta vez não está sendo nem mais
nem menos feio, apenas o normal de sempre. Os meios escolhidos
pelos “eleitos” à disputa do segundo
turno continuam sendo os mais baixos possíveis. Acho
que desta vez já me cansou. Não consigo eximir
nenhum, vejo com asco a todos, sem distinção.
É que eu acho tão ruim ter um vice corrupto,
quanto receber o apoio de outro com um histórico
fedorento. A boa educação que recebi não
me permitiria ser apoiado por uma pessoa podre, tampouco
ter um vice com um passado tão suspeito. Que triste.
Creio que vocês dois perderam... Como sempre...
O que leva uma pessoa normal, geralmente proprietária
de uma ou várias empresas a largar tudo, à
busca de um posto no comando de uma cidade, um Estado, ou
um País? Não dá pra entender essa gana
pelo poder. Não dá pra entender como um cidadão,
tido como sério, vai se meter com um bando de serpentes
venenosas, tornando-se também ele uma, com um veneno
até mais forte que os demais... Que nojo...
Eu tenho trinta e cinco anos de idade. Não tenho
vergonha de dizer que ainda não descobri o que quero
da minha vida. Sei fazer algumas coisinhas, ganho meu sustento
com elas. Gosto de meus amigos, conquisto-os naturalmente,
tanto quanto inimizades, pois ninguém precisa gostar
de mim. Tenho uma vida relativamente confortável,
e muito a conquistar para mim e para quem me gosta e eu
gosto. Simplifico ao máximo que posso, tudo que aparece
de problema a ser resolvido. Mas, tenho uma certeza absoluta,
neste momento. Não quero ser político. Não
quero gozar de favores que não tenha feito por merecer.
Não quero um conforto que eu não tenha trabalhado
para conquistar. Não quero ter que usar pessoas para
subir em cima de outras, nem quero, pelo amor de Deus, dever
favores a outros políticos...
Não quero, nem vou, fugir de minhas responsabilidades
de cidadão, mesmo porque sou obrigado a isso. Votarei
sim, desta e das próximas vezes. Tentarei, com tristeza,
escolher um menos pior para tomar as decisões que
eu não teria capacidade de propor-me a tentar resolver,
pelo bem coletivo, ou próprio, sei lá...
Não estou desanimado com o ser humano, mas com uma
parte de sua espécie, que insiste em voltar no tempo,
insiste em não evoluir, insiste em tomar à
força de qualquer esforço, o poder das mãos
alheias, pelo bem de seus gigantescos egos mal nutridos...
Ainda bem que existem pessoas que dão valor a uma
conversa inteligente, a uma manifestação de
carinho verdadeiro, e a crescer internamente. Ainda bem
que existimos, eu e você...
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Musicalidade
de povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
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Televisão de Cachorro
Televisão de Cachorro é
o disco mais belo do Pato Fu.
Porque se em Rotomusic De Liquidificapum eles eram
uma banda demo sem baterista, que rumava para uma veia meio
heavy metal, em Gol De Quem? e Tem Mais Acabou
eles encerravam a esquizofrênia musical conhecida
deesde então, e em Isopor e Ruído
Rosa a banda explorava (e ainda continua explorando)
o lado cool-eletrônico-Radiohead de ser, no terceiro
trabalho o Pato Fu plantou o legado pop perfeito.
Sem máscaras, sem grandes tecnologias à mostra,
com uma grande banda, hits, hits em potencial, versões
eficientes, e esquisitices costuradas por pura música
chiclete, power pop belo.
Em Televisão de Cachorro, parecia se sentir
uma liberdade de todos, exatamente todos em seus instrumentos.
Cada um seguia o seu caminho dentro da música, para
se encontrarem perfeitamente no final.
Fernanda Takai seguia definitivamente como
voz principal do grupo, John ainda explorava seus timbres
distintos de guitarra sem soar muito artificial, Ricardo
Koctus voava com seu baixo, e Xande espancava feliz sua
bateria. Em muitas música isso fica evidente, caso
de "Nunca Diga", punk pop vertida de uma balada
do pessoal do Graforréia Xilarmônica, que parece
dizer "saiam todos, façam o que quiser, eu os
liberto".
Acho que nunca mais a banda conseguirá
chegar em um pop tão pessoal quanto em "A Necrofilia
da Arte", "Boa Noite", "O Mundo Não
Mudou", ou "Antes Que Seja Tarde". Hits,
hits, não importa os racistas: essa música
é muito boa. "Canção Pra Você
Viver Mais" é pop com o coração
na mão, ainda sem ranços de um Stereolab da
vida.
O power pop ataca de vez em "Um Dia,
Um Ladrão". É uma pena muita gente não
conhecer essa verdadeira pérola, bravamente relembrada
no disco ao vivo lançado recentemente. Discos assim
existem para corrigir injustiças como essa.
As corajosas versões de "Tempestade",
"Eu Sei", a já mencionada "Nunca Diga",
"Spaceballs, The Ballad" formam elos interessantes.
A primeira, entre a mesma geração que os criou,
a segunda, da geração anterior, a terceira,
pela geração excluída do meio popular
nacional. Sem medo de soarem estranhos.
A quarta, profere aquilo que o Pato Fu iria seguir com ímpeto,
a faceta extremamente eletrônica.
Televisão de Cachorro é
o balanço perfeito entre o passado e o presente.
Não tão debilóide quanto a estréia,
e não tão maduro quanto atualmente. O pico,
o ápice da bela música do Pato Fu.
É de emocionar cada centímetro
quadrado. Como a faixa-título, é coisa de
ter o coração na beira do sentimento mesmo,
de deixar a ironia um pouco para o lado de vez em quando.
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E enquanto isso, em algum canto
da Galáxia...
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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