Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade quase centenária


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Editorial


A importância da nogueira para o ecossistema da Calabria

Esta edição marca o aniversário de 2 anos do surgimento do Simplicíssimo em sua forma virtual, em 25 de outubro de 2002. Para quem quer saber um pouco mais, clica no Como Surgiu, aí do lado.

A nogueira (Carya illinoensis) é a árvore responsável pela produção da noz. Pertence ao família Jungladaceae e gosta de climas temperados, puxando para o frio. Sua origem é o sul dos Estados Unidos. Foi introduzida no Brasil em 1910. A propagação da nogueira pecã pode ser realizada por enxertia de borbulhia, no verão, ou de garfagem, no inverno, sobre porta enxertos oriundos de sementes.

Nestes 2 anos, foram mais de 1000 textos publicados por mais de 50 autores diferentes levando sempre o selo do ecletismo e da liberdade de expressão. O corpo editorial sempre decidiu pela valorização da idéia do escritor, fazendo inexistir a palavra censura em nossos textos publicados. Quem convive com o Simplicíssimo há tempo, sabe do que estou falando.

Quando apresentam mais de 20 anos de vida, geralmente chamam a atenção pelo tamanho de sua copa e pela altura que atingem, por vezes maior que 30 metros.
A madeira de seu tronco, apesar de habitualmente não utilizada para tais fins, é própria para construção de móveis nobres, tendo valor comercial superior ao do mogno e ligeiramente inferior ao do pau-brasil.


Muitos textos aqui publicados poderiam ser classificados como “joio”, como “ruins” ou até como “deploráveis” por um crítico mais revoltado. Outros textos, ao contrário, são de uma qualidade tão primorosa que deveriam ser emoldurados e colocados em exposição pública e lidos em voz alta pelo nosso Presidente da República em sessão solene transmitida ao vivo em Rede Nacional.

A Calábria é a região da Itália de onde se originou a linguiça calabresa.
Situada entre Potenza, Crotone e Catanzaro, a Calábria é habitada por um povo acostumado a festejos e confraternizações.


De qualquer forma, gostaríamos de afirmar que o site não é nada mais do que o reflexo da vida humana, onde momentos de brilhantismo e de pasmaceira se intercalam, dando o sabor que a vida de cada um tem, um ritmo misto de intensidade e tranqüilidade, de freqüências agudas e graves, de grama e terra, de céu e mar.

A característica alegre e expansiva do povo italiano é ainda mais acentuada na Calábria.
Em 1868 um monge calabrês chamado Joaquim de Fiori,místico, profeta e herege, elaborou uma doutrina da Terceira Idade do Espírito (Santo) que teve enorme influência sobre as ideologias modernas, de Hegel ao Marxismo, Nazismo e Terceiro-mundismo.


Esta edição também marca a volta – atendendo a pedidos - do e-zine do Simplicíssimo, sumido do mapa por um bom tempo. Os antigos assinantes já receberam seu “jornal-delícia” em sua caixa de mensagens, ao mesmo tempo em que o site era publicado. Àqueles que ainda não são assinantes e querem receber o e-zine “de grátis”, é só mandar um e-mail para simplicissimo@simplicissimo.com.br dizendo: Eu quero, que quero eu quero!

Nos dias de hoje, apesar de seu glamour ter sido tomado pr Milão e Nápoles, a Calábria ainda mantém um turismo forte, principalmente graças à sua cozinha e sua noite movimentada, repleta de disco bares, disco pubs e comédias teatrais.

A edição de número 100 será uma edição especial com o tema "HUMANISMO, LAICIDADE e FÉ CRISTÃ em 2004: em que ponto estamos e onde vamos parar?" e terá, além dos colunistas de sempre, a participação de convidados especialíssimos que dividirão a sua verdade conosco.

Quanto à importância da nogueira para o ecossistema da Calábria, vou deixar a explicação para outra hora, em primeiro lugar porque nem sei se existem nogueiras por lá e em segundo lugar porque meus médicos já estão vindo com meus remedinhos...

Agora, vamos à leitura desta edição que está supimpa!

OBS: se você conseguiu ler até aqui sem interromper a leitura, meus parabéns! És uma pessoa especial, assim como eu! Conseguir burlar o sistema de defesa aqui do manicômio para publicar um texto não é coisa para qualquer um...

Rafael Luiz Reinehr

 

PS:Seja bem-vindo o digníssimo Marcelo Perez, que estréia nesta edição do Simplicíssimo.

"O amor e a literatura coincidem na procura apaixonada, quase sempre desesperada, da comunicação "
Jorge Duran

"O nosso ridículo cresce na proporção em que nos dependemos dele "
Pierre Laclos

"Nada de regras para as grandes almas; elas são apenas para as pessoas que só têm o talento que se adquire "
Eugène Delacroix

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Quinze minutos de fome, quer dizer de fama..
Marcelo Perez

Todos desejam os seus 15 minutos de fama, ainda mais se estiverem próximos de alguém que já é famoso, digo, famoso por mais de 15 minutos. Estive esses dias em um jantar com amigas, que esperavam ansiosas pela presença de 2 artistas que estavam na nossa Cidade para a realização de um Show de Humor. Chegamos cedo, pois não fazemos parte da produção e não estamos com nenhum vínculo com eles, coisa que me pareceu esquecida pelas minhas amigas. Chegamos ao restaurante e fizemos o nosso pedido e por um momento, o assunto que prevalecia na mesa era "A FOME". Todos estávamos justificando o fato de estarmos famintos e meu argumentou pareceu vitorioso:

- Gente, eu almocei hoje, exatamente, às 11:30 e não comi mais nada...

Preciso acrescentar que quando estou com fome, eu sou uma péssima companhia, um péssimo ouvinte, fico mudo e não consigo rir de nenhum comentário engraçado...sou assim mesmo...ah, fico com raiva também. Fizemos o nosso pedido e como minha fome era gigantesca, eu só conseguia prestar atenção na movimentação do restaurante:

- Olha pessoal, aquele casal já estava aqui quando chegamos e até agora não comeram...
- Olha como o garçon é lento....
- Gente, tá foda! Eu acho melhor irmos pra outro lugar...
De repente, em uníssono, minhas amigas ansiosas pelos seus 15 minutos de fama gritaram:
- NÃO!!!!!
-Calma, pessoal, foi só uma sugestão....

Continuei a verificar a movimentação do restaurante. Minhas amigas começaram a manifestar uma preocupação com a alimentação dos artistas e eu achei aquilo muito estranho...Porra! Será que elas perderam a fome?
- Será que eles vão conseguir comer antes de embarcar?
- Não sei, será que o dono do restaurante sabe que eles estão vindo?
- Sei lá...melhor avisar a eles, senão os meninos vão perder o avião...

Como se os artistas fossem mesmo viajar com ome... Não estava mesmo entendendo os comentários de minhas amigas. Cadê a fome desse povo? Gente, elas nem me fizeram uma perguntinha do tipo:

- Você está bem?
- Olha, já está chegando a comida, consegue esperar?

Minhas costas já estavam até envergadas... nada disso...elas se esqueceram da minha fome, da demora do atendimento no restaurante e principalmente, da fome delas. Minha aventura com elas chegou ao máximo quando uma delas, não lembro qual, sugeriu que deixássemos a nossa comida(pizza, sou louco por pizza) pra eles, os artistas... Vocês acreditam nisso? Eu morrendo de fome, quase tendo alucinações naquele estabelecimento de tortura, pois aquela demora toda só podia ser uma tortura...e minhas amigas inventando moda, logo a minha comida...

- Olha só, me desculpem, eles vão perder o avião, mas a minha comida eu não dou pra ninguém....

Todas me olharam na mesma hora. Olhar de reprovação. Não pensem que eu dei pra trás, nada disso, eu estava decidido a brigar pela minha comida. O garçon colocou o prato e os talheres à mesa e eu segurei logo a faca, mostrei à elas a minha intenção. Elas viraram o rosto, disfarçaram, mas acredito que se sentiram ameaçadas.

Com a chegada da comida, fui logo me servindo e aos poucos as pessoas foram me pedindo para colocar também em seus pratos. Tragédia? Não...eu já havia comido alguns pedaços de pizza, o que foi me trazendo a normalidade. Com calma, fui servindo as pessoas e todos ficaram felizes, alimentados...e lógico, quando chegou a pizza dos artistas, eu também "filei" alguns pedaços deles. Ah, já ia me esquecendo das minhas amigas...a pizza delas veio metade errada e a outra metade, que elas adoravam, todo mundo comeu. Quem mandou demorarem para pegar seus pedaços? Ficaram com fome. Mas o que elas queriam mesmo, elas conseguiram:

Seus 15 minutos de fome, quer dizer, de fama.

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Dona Nina
Sérgio Pires

“Quando submetemos-nos a uma tentação mórbida, criamos um caminho sem volta...”

I


Taubaté amanheceu em meados de 1934 como amanhecera em todos aqueles dias de outono. As ruas tranqüilas inundavam-se por folhagens amareladas e o Sol suave trazia alegria e saudade.
Saudade dos velhos tempos.
Saudade esta que nunca agradou Dona Nina.
Seus olhos lacrimejantes observavam aquelas ruas, através da janela de sua casa, e seu coração parecia ser espremido por garras insensíveis. Olhou a foto que tinha em mãos e o fluxo de lágrimas aumentou, fazendo com que uma gota salgada descesse até seus lábios. Em sua mente, podia ver o garoto correr pelo quarteirão e depois entrar em casa, com os joelhos esfolados e a respiração ofegante como a de um gato assustado.
Mamãe, posso dar-lhe um beijo?” — perguntava ele aninhando-se em seu colo, com os cabelos suados e colados na testa.
Lembrou-se de quando o garoto tornou-se homem. Fora rejeitado pelo exército, mas mesmo assim decidiu ir à São Paulo, almejando ser estudante de Direito. Em 1932 aderiu ao Movimento Revolucionário Paulista, sendo liderado pelo Coronel Euclides de Figueiredo e participando de quase todas as manifestações.
E agora, estava morto.
Fora encontrado sem vida, jogado num canto como algo sem importância, numa estação de trem.
Marcas de espancamento e tortura visíveis por toda parte.
Mamãe, posso...
O sepultamento realizara-se há uma semana, numa cerimônia conduzida pelos amigos estudantes.
... dar-lhe um beijo?”.
Um beijo. Um único beijo. Um simples toque de lábios em seu rosto e tudo seria diferente.
Caminhou até a cozinha, tomou um copo d´água, enxugou as lágrimas e olhou pela janela dos fundos que dava uma ampla visão do quintal. Em meio às folhagens secas, avistou a barraca de lona que o filho ganhara do pai aos doze anos. Estava lá, armada e estufada, num acampamento solitário.
Seu marido tinha sido sua primeira perda. Morrera tuberculoso e a barraca fora montada propositalmente, pelo filho, em sua homenagem.
Dona Nina dirigiu-se até o quintal e observou o azul do céu, tentando compreender o porquê das coisas.
Mamãe, posso dar-lhe um beijo?
Pelo sétimo dia, a revolta tomou conta de seu coração.
Pela sétima manhã, tornara a entrar na barraca de lona, sendo envolvida pelo cheiro úmido e agradável das folhas.
E pela sétima vez, como num ritual, Dona Nina ajoelhou-se ao centro da barraca e chorou, segurando a foto fortemente.
Pedidos impensáveis fluíram de sua mente.
Houve silêncio.
De repente, passos.
Manteve-se imóvel e com os ouvidos atentos. Poderia ter sido o vento. Quando as folhas secas estalaram novamente, os olhos arregalaram-se, apreensivos.
Os passos aproximaram-se lentamente, cada vez mais. Uma agonia crescente invadiu-lhe por completo, quando ela pôde ver a sombra de alguém através das paredes de lona da barraca. Sentiu o coração bater mais forte e um cheiro putrefato penetrou em suas narinas. Quando o vulto tornou-se visível, iluminado pelo sol da manhã, o cheiro pútrido não a incomodou mais, os olhos aliviaram-se daquela tensão e a satisfação estampou-lhe o rosto diante daquele corpo de forma indefinida.
— Mamãe — disse ele — posso dar-lhe um beijo?


II

— Mantenha os olhos fechados — falou ao se aproximar. Sua voz estava rouca, desprovida de vida, mas havia inteligência em sua fala.
Dona Nina fechou os olhos e sentiu os lábios pegajosos encostarem-se a seu rosto, dando um sonoro e lento estalo.
E um pensamento agradável lhe veio à mente, fazendo-a lembrar de que aquele beijo era exatamente como os que ele costumava dar quando criança.
Quando não havia dor. Quando não havia tristeza e saudade.
Quando não havia solidão.
O cheiro apodrecido impregnou sua pele, mas aquilo não importava.
Não agora.
Dona Nina sorriu.
— Vamos? — perguntou ele.
Ela balançou a cabeça positivamente, ainda com os olhos fechados, como ele ordenara. Em seu coração, crescia uma satisfação que só ela entenderia.
Sentiu a mão fria, úmida e escorregadia unir-se à sua. As sensações táteis eram fortes: Pôde-se perceber a epiderme necrosada, em meio a fragmentos lisos de ossos e nervos. Era como passar a mão num pequeno mapa, com algumas ilhotas em relevo. Os dedos de pontas descarnadas espetaram-lhe a pele suavemente.
E a mão cadavérica conduziu-a, lentamente, para o lado de fora da barraca de lona.
Dona Nina sentiu o Sol esquentar o rosto.
— Agora, você já pode abrir os olhos.
Ela obedeceu e seu coração disparou feliz, fazendo novas lágrimas surgirem, em meio a um sorriso, quando avistou seu esposo, logo à frente.
Ele acenou, estendendo-lhe as mãos e o filho afastou-se um pouco, ao vê-lo aproximar-se.
O homem exibiu-lhe a gengiva quase desdentada, coberta por um musgo esverdeado, na tentativa de esboçar um sorriso carinhoso.
— Amo vocês — disse Dona Nina, acariciando o rosto macilento do marido.
Ele aproximou os lábios ressecados até sua boca e a beijou.
Quando ela percebeu a corrente gélida e anestesiante trespassar seu corpo, considerou aquela uma sensação agradável e, se tivesse um espelho naquele instante, teria visto seu próprio rosto empalidecer-se e duas manchas escuras e profundas, feito hematomas, se formando em torno dos olhos, enquanto as retinas branquejavam-se, ausentando-se de vida.
Aquilo foi bom.
— Estão prontos? — perguntou o filho.
O pai encarou Dona Nina.
— Sim — disse ela.
Abraçaram-se todos, num sentimento único: Amor.
O amor tem seus meios...
A morte tem seus meios...
E foi através desses meios que os três cadáveres caminharam, de mãos dadas, sob o Sol daquela manhã de outono, em direção ao norte.
Rumo ao infinito.

PS: Gostaram deste?? Então não deixem de ler o conto “Legião”, publicado na edição n° 92.

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Furtiva
Carlos Róbson Mendonça da Silva

Se me fazes feliz
busca amar
nossas perdidas horas;
do claustro
ressurgem nossas poucas
mas vãs
mal criações;
cria em teu busto
objeto para repousar
tranqüilas
as parcas
e lúgubres
as poucas horas em que
nos fizemos felizes
por que ao leste de nossos
seres
serena
intranqüilidade
solidão.

29/09/04

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Repartição

“Quando Carlos vinha com os jeitos dele, me encantava a coisa toda. Seus cafés, embora fortes demais para o meu gosto. Eu tomava. O que não se faz por amor?”

Nilza Teresinha, “Arroio dos Ratos”.

Tomou o gole do café ali, encostado no balcão da padaria, e sentiu que o líquido lhe desceu pesado como um sapo gordo que não consegue se sustentar em cima de uma daquelas folhas que bóiam e que eu nunca sei o nome. Pagou o velho da padaria amaldiçoando-lhe como se este fosse o responsável por uma úlcera que sentia crescer, mas que continuava a alimentar com cafés pretos junto a padarias sujas. Tentou caminhar até a escadinha que levava à rua, mas sentiu sua pança inchada e uma vontade louca de cagar. Segurou-se até chegar ao escritório, cedo demais para encontrar a Márcia, que não gostava que ele usasse o banheiro das secretárias. Forçou uma evacuação, mas não conseguiu nada mais do que sonoras e fedidas flatulências que o constrangeram mesmo estando sozinho na repartição. Quando ouviu o barulho de uma porta bater, olhou para o relógio e viu que era tarde demais: as secretárias já estavam chegando, e não havia como sair do banheiro sem passar por elas e receber um olhar reprovador pela sua atitude de confrontamento com o que elas haviam estipulado. Sentiu vontade de mandá-las à merda, mas uma fisgada no ânus o fez se concentrar novamente no bolo de fezes que não conseguia libertar. A pança se revolvia como se tivesse vida própria, e os arrotos que agora lhe chegavam, não tinham outro odor senão o de café requentado. Alguém bateu na porta do banheiro e ele fez silêncio, esperando para ver se desistiam. (os tec, tec do sapato de solados de madeira denunciaram Marta, a insuportável responsável pelo setor, que caminhou de volta para a sua mesa e ficou batendo as unhas pontiagudas no tampo de eucatex enquanto a janela do explorer permanecia congelada na sua tela.) Quando sentiu que se afastavam, forçou mais uma vez para ver se conseguia se livrar da bosta ressequida na saída do ânus. Sentiu uma ardência e teve certeza de que foi sangue o que pingou na água do vaso sanitário. Suava em demasia e sua camisa de trabalho não se encontrava mais em condições apresentáveis devido às rodelas de suor embaixo do braço. Maldita hora em que entrei neste banheiro, pensou. Sem conseguir defecar, enrolou uma tira de papel higiênico nas mãos e passou no rabo, sentindo o papel muito áspero machucar-lhe as carnes e voltar sujo de sangue. Atirou o papel na privada, que agora continha pequeninos pedaços de merda que saíram junto com os filetes de sangue. O banheiro fedia terrivelmente e o spray de bom ar não funcionava. Apertou a válvula da descarga que não respondeu senão por pequeninas ondulações na água em volta dos pedacinhos de merda e do papel amarfanhado que lá jogara. Alguém batia na porta novamente. Fez silêncio e ouviu gritarem seu nome. Ainda não tinha levantado as calças, quando se olhou no espelho e se desesperou com as pequenas brotoejas em suas nádegas, como bolhas de desidrose estouradas que umedeciam seu traseiro. O tec tec se aproximava novamente. Perdeu o equilibro quase ao mesmo tempo em que a vista escurecia, batendo com a cabeça forte contra a parede de cerâmica; no entanto, ainda sentiu quando o maxilar se quebrou contra a louça da privada.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

Alta Rotação

Não sabia há quanto tempo estivera dormindo. Nem se fazia alguma diferença. O certo é que não estar só não se tratava apenas de uma sensação, muito embora a escuridão impedia visão maior. O espaço era pequeno para tantos ocupantes e o cheiro não era igualmente dos melhores. Enquanto tentava em vão alguma referência que o auxiliasse em sua orientação, uma chuva torrencial começou a desabar sobre sua cabeça e corpo, que encharcam-se em segundos. “Meus Deus, o que está acontecendo?” questionou-se, mal sabendo que aquilo era apenas o começo. Um estalido e subitamente o chão e as paredes começaram a tremer e tudo passou a balançar, instalando um medo geral. Vozes ecoavam ao redor: “A Simone, a culpa é da Simone!” Mesmo com grande esforço, não se lembra de ninguém com esse nome. Também não consegue raciocinar direito com infernal balbúrdia.

Para sua sorte, uma calmaria abrupta se instalou e deu-se conta que a chuva já havia parado. Sentiu a água escorrer as poucos e fez um grande esforço para recordar alguma Simone que poderia lhe querer mal, mas foi em vão. E quando parecia que tudo havia se resolvido, o retorno da chuva anunciava o contrário. Foi questão de segundos e tudo recomeçou e parou e recomeçou outra vez, como um ciclo. Não pôde contar quantas vezes, da mesma forma que não podia evitar o choque com quem estava ao seu lado e a irritação de tantos encontrões que vinha sofrendo. “O que poderia ser pior?” perguntou-se, sem ter ao menos tempo de se arrepender de não Ter ficado quieto. Como uma grande ciranda, o mundo começou a girar sem parar e uma força sem igual o jogou para a parede lateral. Esforçou-se para respirar. Talvez num parque de diversões tudo isso fosse divertido, mas não era o caso.

A boa notícia era que tal movimento propiciava o escoamento de grande parte da água que se acumulara em si e um perfume de flor tomava conta do espaço. Seria o prenúncio do fim daquele suplício? Ao que tudo indicava sim. Tudo parou e caiu já sem força alguma para tentar ficar noutra posição. Ouviu passos vindos do lado de fora e voltou a ficar angustiado: “É ela! Ela está vindo aí!”, gritam algumas vozes em desespero, outras com tom de alívio. E a porta se abriu, entrando uma forte claridade que o impediu de ver além. E mais uma vez tomado de assalto, foi literalmente puxado pelo colarinho e arrancado para fora, onde dois pedaços de madeira o mantiveram suspenso num fio, onde ficou até secar por completo. Agora sim, seco, limpo e cheiroso, pode ver a bela senhora que antes tivera medo e entendeu que esta teria sido apenas sua primeira vez na máquina de lavar roupas.

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 21/X

Escondo-me!
tenho vergonha de mim
e de ti, um tanto assim.

Faroeste 7/X

Só eu e você
no quarto, no mac
que beleza, nhac

Josiclelson - II

A vida nos prega peças, na semana passada, quando tentei começar a história de nosso herói não nascido, acabou a lauda. Procuro colocar minhas idéias em uma só página. Ser conciso e preciso na medida do possível. Porém, fiquei devendo aos leitores, principalmente às mulheres, pois não consegui escrever sobre o Josiclelson.

Vamos Lá! Quando parei na semana passada, a mãe do Josiclelson estava grávida e com apuros na gravidez. O que poderia ser? Bom, vejamos se consigo usar minha bola de cristal.

A mãe do Josiclelson não sabia que estava grávida e foi passar uma noite na Oktoberfest de Blumenau. Começou a beber, como normalmente fazia, porém com uma diferença. Logo no segundo caneco de chope passou a enjoar. Não queria mais tomar chope! Queria tomar um refrigereco que estavam servindo e comer chucrute. Que coisa! Está certo que ela tinha, pelo menos, meio sangue alemão. Comer chucrute até que poderia fazer parte da sua dieta.

Coitado do Josiclelson, já nas primeiras semanas de formação, foi obrigado a sentir o gosto amargo de chucrute através do cordão umbilical. Vocês poderiam dizer que isto é besteira. Porém, vocês não sabem a origem de nosso herói. Ele, na verdade é um experimento dos arqui-rivais, K-Pax e Tlön, numa tentativa desesperada de apaziguar as diferenças entre os povos. Como nenhuma fêmea destes planetas aceitou servir como mãe de aluguel, os cientistas de K-Pax (em Tlön não existe ciência) fizeram uma inseminação artificial durante uma transa da suposta mãe do Josiclelson no seu período fértil, quando ela queria engravidar. Isto porque há alguns séculos atrás eles tinham tentado fazer o mesmo com uma certa virgem e a experiência foi muito bem sucedida, porém os terráqueos, ao invés de desconfiarem do pai da criança, logo colocaram a culpa em Deus.

Qual o destino de um ser superpoderoso de outro planeta ao receber, logo nas primeiras semanas de gestação, o amargo gosto de chucrute. Iria servir como kriptonita? Aumentaria seus poderes como o espinafre faz com o Popai?

Aguardem os próximos capítulos...

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Utopias
Luiz Maia

Utopias

Quando alguém lhe disser que o seu objetivo nesta vida dificilmente será alcançado, sorria e siga em frente. Se falarem que os seus sonhos não vão se realizar, ignore e continue a caminhada. Não se perturbe se as pessoas passarem a chamá-la de sonhadora, de boba ou de utópica.

A melhor definição para a utopia é aquela que diz: "a utopia é um ideal inatingível." Muito bem. Que seja você utópica, e daí? Melhor que não o ser.
Vamos refletir juntos. Não seria a própria vida uma utopia em si? Quer maior utopia do que estarmos aqui neste mundo desfrutando da dádiva da vida? A importância de nossas existências explica na prática que a utopia pode perfeitamente ser contrariada.

É importante sabermos que inúmeros sonhos nossos, tidos a princípio como "impossíveis", já foram por nós realizados. Quantas vezes já desmascaramos o inatingível ao longo da vida? Inúmeras! As pessoas quando costumam perserverar geralmente conseguem alcançar aquilo a que se propõem.
Os utópicos buscam subir a montanha que há no interior de cada um, até atingir novos patamares de consciência, possibilitando o entendimento de que tudo é possível nesta vida, desde que busquemos incessantemente aquilo que queremos.

São as várias tentativas que irão nos permitir fazer descobertas que estão, por assim dizer, aguardando por nós sem que soubéssemos. A busca de um objetivo pessoal é conseqüência direta das convicções que uma pessoa acolhe, convicções que se intensificam e se fortalecem quando colocadas na prática.
Dessa convicção eu não me afastarei jamais. Dessa intensidade no meu viver é que provém a inspiração que me traz a certeza do quão importante é crermos em nós, sempre!

Essa clareza nas minhas convicções ilumina e alegre o meu viver. Convicção inspiradora que faz eclodir beleza e inteligência naquilo que queremos para cada um de nós: a superação de nossas limitações. Absorver essas convicções requer trabalho, esforço e perseverança. Requer desprendimento para nos afastar de nossas teimosias e crer no inatingível como sendo possível de acontecer.

Quando alguém busca vencer as utopias que moram em seu interior, certamente conseguirá ir mais longe, querendo sempre mais, e logo abandona um comportamento de indiferença e de resignação, passando a exigir muito mais de si. E assim, somente assim, você conseguirá superar-se a cada dia, transformando suas utopias em algo realizável.

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Inércia

Tela em branco
Sufoca meu ser
Minha criatividade se esvai em fragmentos de poeira
Tudo que penso me machuca
Não penso em mim
Penso em me encontrar e por tantas horas me perco em ti
Inércia me assola
Estática me assombra
Imóvel, pensando em ti
Não faço nada, não ouço nada
Minha vida parou depois que te conheci
Nada me resta senão sonhar
Pular do desfiladeiro onde tu estás
Ser nova, completa e recomeçar a pensar
Pensar e agir
Mudar o que me mantém
Reconstruir meu ego
Reagir diante da vida
Encontrar a resposta, uma nova saída
Parar de sonhar
Aprender a viver sem ti

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Suburbanas
Marcos Claudino


Curtas e Loucas - O Retorno

Aquela manhã parecia igual e todas as outras anteriores e próximas. Ultra-man esfregou os olhos, muito vermelhos. Ele dormia, mas não os fechava. Culpa de seu criador. Saiu de casa apressado, pois estava atrasado. Seu chefe lhe encheria de desaforos, que ele, novamente não poderia responder, pois não tem boca, lembram-se? Bons tempos em que matava dinossauros de isopor, destruía bairros inteiros feitos de massinha de modelar. Mas agora não, a tecnologia o ridicularizou, e ele amaldiçoa o idiota que, além de tê-lo feito nessa forma bisonha, o fez imortal... Bom, melhor se apressar. Tóquio não pára, e tem uma porção de correspondências a entregar... Isso, antes daquela irritante luzinha no peito começar a piscar... Que sina...

# # #

Enfim, chegou o seu dia... O velho Ozzy morreu. Chegou ao céu, encontrou o Pedrão folheando a última Playboy...
- Sinto muito, filho, mas o Chefe não perdoou aquelas mordidas nos morcegos. Vai ter de descer...
- Pôxa, barba, quebra essa, vai... Deixa ao menos eu falar com o Patrão...
- Bom, vou tentar.
...
...
- Pode ir, ele tá de bom humor...
...
- Olha aqui, menino,se não tocar Changes, não adianta nem tentar me convencer, falou?
- Tô fora, velho... Fugi do inferno porque o pessoal não pára de pedir pra eu tocar essa merda... Sabe o caminho pro purgatório??

# # #

Num ponto de ônibus-espacial, no meio do espaço sideral, Lili chora, sozinha. Foi abandonada pelo marido, um Netuniano bonitão e garanhão... Acha que nunca mais vai gostar de ninguém, pois o amor só a fez sofrer. Enxuga os três olhos, e entra na condução. No caminho, relembra as juras apaixonadas do tempo de namoro, os desejos incontroláveis sempre satisfeitos, mas resigna-se, recompõe-se, e promete nunca mais chorar por aquele insensível. Chegando em casa, a surpresa. Tudo coberto de flores. Na cama, o maridão, sedutor, já a esperada com um par de taças de champanhe nas mãos. Entregou-se sem freio. Não resistiu ao seu charme, e aos seus três pênis...

# # #

Judite, num acesso de raiva, não resistiu e socou a cara do marido. Ele, imediatamente, procurou a delegacia de homens, e a denunciou. Ficou presa seis dias, até que o marido retirou a queixa. Se tem uma coisa que eu não suporto é homem que não se valoriza, que apenas vive para ter filhos, cuidar da casa, e limpar as botas de suas esposas relaxadas... Por isso que eles nunca conseguirão se equiparar às mulheres em nada... É, homem não tem peito mesmo...

# # #

Mataram o Zéca Pagodinho. A polícia montou um super esquadrão para capturar o meliante, diante da opinião pública pedindo a pena de morte ao malfeitor. Semanas, meses, anos se passaram e nada...

... No meio da praia, cercados de câmeras de TV, a tartaruguinha faz embaixadas com uma latinha de Brahma, enquanto o siri mostra a bundinha bronzeada, rebolando, orgulhosos por terem voltado à mídia E ninguém desconfiava daqueles bichinhos tão simpáticos...
- iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiihhhhhhhhhhhhhhhhh...
- nãnãnããã-nãaaaa...


Abraços...

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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