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27 /10/2004 - Edição número
99
Mardito fiapo
de manga...
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A importância da nogueira para o ecossistema da Calabria
Esta edição marca o aniversário
de 2 anos do surgimento do Simplicíssimo
em sua forma virtual, em 25 de outubro de 2002.
Para quem quer saber um pouco mais, clica no Como
Surgiu, aí do lado.
A nogueira (Carya illinoensis) é
a árvore responsável pela produção
da noz. Pertence ao família Jungladaceae
e gosta de climas temperados, puxando para o frio. Sua origem
é o sul dos Estados Unidos. Foi introduzida no Brasil
em 1910. A propagação da nogueira pecã
pode ser realizada por enxertia de borbulhia, no verão,
ou de garfagem, no inverno, sobre porta enxertos oriundos
de sementes.
Nestes 2 anos, foram mais de 1000
textos publicados por mais de 50 autores
diferentes levando sempre o selo do ecletismo e da liberdade
de expressão. O corpo editorial sempre decidiu pela
valorização da idéia do escritor, fazendo
inexistir a palavra censura em nossos textos publicados.
Quem convive com o Simplicíssimo
há tempo, sabe do que estou falando.
Quando apresentam mais de 20 anos de vida,
geralmente chamam a atenção pelo tamanho de
sua copa e pela altura que atingem, por vezes maior que
30 metros.
A madeira de seu tronco, apesar de habitualmente não
utilizada para tais fins, é própria para construção
de móveis nobres, tendo valor comercial superior
ao do mogno e ligeiramente inferior ao do pau-brasil.
Muitos textos aqui publicados poderiam ser classificados
como “joio”, como “ruins” ou até
como “deploráveis” por um crítico
mais revoltado. Outros textos, ao contrário, são
de uma qualidade tão primorosa que deveriam ser emoldurados
e colocados em exposição pública e
lidos em voz alta pelo nosso Presidente da República
em sessão solene transmitida ao vivo em Rede Nacional.
A Calábria é a região
da Itália de onde se originou a linguiça calabresa.
Situada entre Potenza, Crotone e Catanzaro, a Calábria
é habitada por um povo acostumado a festejos e confraternizações.
De qualquer forma, gostaríamos de afirmar que o site
não é nada mais do que o reflexo da vida humana,
onde momentos de brilhantismo e de pasmaceira se intercalam,
dando o sabor que a vida de cada um tem, um ritmo misto
de intensidade e tranqüilidade, de freqüências
agudas e graves, de grama e terra, de céu e mar.
A característica alegre e expansiva
do povo italiano é ainda mais acentuada na Calábria.
Em 1868 um monge calabrês chamado Joaquim de Fiori,místico,
profeta e herege, elaborou uma doutrina da Terceira Idade
do Espírito (Santo) que teve enorme influência
sobre as ideologias modernas, de Hegel ao Marxismo, Nazismo
e Terceiro-mundismo.
Esta edição também marca a volta –
atendendo a pedidos - do e-zine do Simplicíssimo,
sumido do mapa por um bom tempo. Os antigos assinantes já
receberam seu “jornal-delícia” em sua
caixa de mensagens, ao mesmo tempo em que o site era publicado.
Àqueles que ainda não são assinantes
e querem receber o e-zine “de grátis”,
é só mandar um e-mail para simplicissimo@simplicissimo.com.br
dizendo: Eu quero, que quero eu quero!
Nos dias de hoje, apesar de seu glamour ter
sido tomado pr Milão e Nápoles, a Calábria
ainda mantém um turismo forte, principalmente graças
à sua cozinha e sua noite movimentada, repleta de
disco bares, disco pubs e comédias teatrais.
A edição de número 100
será uma edição especial com o tema
"HUMANISMO, LAICIDADE e FÉ CRISTÃ
em 2004: em que ponto estamos e onde vamos parar?"
e terá, além dos colunistas de sempre, a participação
de convidados especialíssimos que dividirão
a sua verdade conosco.
Quanto à importância da nogueira
para o ecossistema da Calábria, vou deixar a explicação
para outra hora, em primeiro lugar porque nem sei se existem
nogueiras por lá e em segundo lugar porque meus médicos
já estão vindo com meus remedinhos...
Agora, vamos à leitura desta edição
que está supimpa!
OBS: se você conseguiu ler até
aqui sem interromper a leitura, meus parabéns! És
uma pessoa especial, assim como eu! Conseguir burlar o sistema
de defesa aqui do manicômio para publicar um texto
não é coisa para qualquer um...
Rafael Luiz Reinehr
PS:Seja bem-vindo o digníssimo Marcelo
Perez, que estréia nesta edição do
Simplicíssimo.
"O amor e a literatura coincidem
na procura apaixonada, quase sempre desesperada, da comunicação
"
Jorge Duran
"O nosso ridículo cresce na
proporção em que nos dependemos dele "
Pierre Laclos
"Nada de regras para as grandes almas;
elas são apenas para as pessoas que só têm
o talento que se adquire "
Eugène Delacroix
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Quinze
minutos de fome, quer dizer de fama..
Marcelo Perez |
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Todos desejam os seus 15 minutos de fama,
ainda mais se estiverem próximos de
alguém que já é famoso, digo, famoso
por mais de 15 minutos. Estive esses dias
em um jantar com amigas, que esperavam ansiosas pela presença
de 2 artistas que
estavam na nossa Cidade para a realização
de um Show de Humor. Chegamos cedo,
pois não fazemos parte da produção
e não estamos com nenhum vínculo com eles,
coisa que me pareceu esquecida pelas minhas amigas. Chegamos
ao restaurante e
fizemos o nosso pedido e por um momento, o assunto que prevalecia
na mesa era "A FOME". Todos estávamos justificando
o fato de estarmos famintos e meu
argumentou pareceu vitorioso:
- Gente, eu almocei hoje, exatamente, às 11:30 e
não comi mais nada...
Preciso acrescentar que quando estou com fome, eu sou uma
péssima companhia, um
péssimo ouvinte, fico mudo e não consigo rir
de nenhum comentário engraçado...sou assim
mesmo...ah, fico com raiva também. Fizemos o nosso
pedido e como minha fome era gigantesca, eu só conseguia
prestar atenção na movimentação
do restaurante:
- Olha pessoal, aquele casal já estava aqui quando
chegamos e até agora não
comeram...
- Olha como o garçon é lento....
- Gente, tá foda! Eu acho melhor irmos pra outro
lugar...
De repente, em uníssono, minhas amigas ansiosas pelos
seus 15 minutos de fama
gritaram:
- NÃO!!!!!
-Calma, pessoal, foi só uma sugestão....
Continuei a verificar a movimentação do restaurante.
Minhas amigas começaram a
manifestar uma preocupação com a alimentação
dos artistas e eu achei aquilo
muito estranho...Porra! Será que elas perderam a
fome?
- Será que eles vão conseguir comer antes
de embarcar?
- Não sei, será que o dono do restaurante
sabe que eles estão vindo?
- Sei lá...melhor avisar a eles, senão os
meninos vão perder o avião...
Como se os artistas fossem mesmo viajar com ome... Não
estava mesmo entendendo
os comentários de minhas amigas. Cadê a fome
desse povo? Gente, elas nem me
fizeram uma perguntinha do tipo:
- Você está bem?
- Olha, já está chegando a comida, consegue
esperar?
Minhas costas já estavam até envergadas...
nada disso...elas se esqueceram da
minha fome, da demora do atendimento no restaurante e principalmente,
da fome
delas. Minha aventura com elas chegou ao máximo quando
uma delas, não lembro
qual, sugeriu que deixássemos a nossa comida(pizza,
sou louco por pizza) pra
eles, os artistas... Vocês acreditam nisso? Eu morrendo
de fome, quase tendo
alucinações naquele estabelecimento de tortura,
pois aquela demora toda só podia ser uma tortura...e minhas amigas inventando moda,
logo a minha comida...
- Olha só, me desculpem, eles vão perder o
avião, mas a minha comida eu não dou
pra ninguém....
Todas me olharam na mesma hora. Olhar de reprovação.
Não pensem que eu dei pra
trás, nada disso, eu estava decidido a brigar pela
minha comida. O garçon
colocou o prato e os talheres à mesa e eu segurei
logo a faca, mostrei à elas a
minha intenção. Elas viraram o rosto, disfarçaram,
mas acredito que se sentiram
ameaçadas.
Com a chegada da comida, fui logo me servindo e aos poucos
as pessoas foram me
pedindo para colocar também em seus pratos. Tragédia?
Não...eu já havia comido
alguns pedaços de pizza, o que foi me trazendo a
normalidade. Com calma, fui
servindo as pessoas e todos ficaram felizes, alimentados...e
lógico, quando
chegou a pizza dos artistas, eu também "filei"
alguns pedaços deles. Ah, já
ia me esquecendo das minhas amigas...a pizza delas veio
metade errada e a outra
metade, que elas adoravam, todo mundo comeu. Quem mandou
demorarem para pegar
seus pedaços? Ficaram com fome. Mas o que elas queriam
mesmo, elas conseguiram:
Seus 15 minutos de fome, quer dizer, de fama.
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“Quando submetemos-nos a uma tentação
mórbida, criamos um caminho sem volta...”
I
Taubaté amanheceu em meados de 1934 como amanhecera
em todos aqueles dias de outono. As ruas tranqüilas
inundavam-se por folhagens amareladas e o Sol suave trazia
alegria e saudade.
Saudade dos velhos tempos.
Saudade esta que nunca agradou Dona Nina.
Seus olhos lacrimejantes observavam aquelas ruas, através
da janela de sua casa, e seu coração parecia
ser espremido por garras insensíveis. Olhou a foto
que tinha em mãos e o fluxo de lágrimas aumentou,
fazendo com que uma gota salgada descesse até seus
lábios. Em sua mente, podia ver o garoto correr pelo
quarteirão e depois entrar em casa, com os joelhos
esfolados e a respiração ofegante como a de
um gato assustado.
“Mamãe, posso dar-lhe um beijo?”
— perguntava ele aninhando-se em seu colo, com os
cabelos suados e colados na testa.
Lembrou-se de quando o garoto tornou-se homem. Fora rejeitado
pelo exército, mas mesmo assim decidiu ir à
São Paulo, almejando ser estudante de Direito. Em
1932 aderiu ao Movimento Revolucionário Paulista,
sendo liderado pelo Coronel Euclides de Figueiredo e participando
de quase todas as manifestações.
E agora, estava morto.
Fora encontrado sem vida, jogado num canto como algo sem
importância, numa estação de trem.
Marcas de espancamento e tortura visíveis por toda
parte.
“Mamãe, posso...
O sepultamento realizara-se há uma semana, numa cerimônia
conduzida pelos amigos estudantes.
... dar-lhe um beijo?”.
Um beijo. Um único beijo. Um simples toque de lábios
em seu rosto e tudo seria diferente.
Caminhou até a cozinha, tomou um copo d´água,
enxugou as lágrimas e olhou pela janela dos fundos
que dava uma ampla visão do quintal. Em meio às
folhagens secas, avistou a barraca de lona que o filho ganhara
do pai aos doze anos. Estava lá, armada e estufada,
num acampamento solitário.
Seu marido tinha sido sua primeira perda. Morrera tuberculoso
e a barraca fora montada propositalmente, pelo filho, em
sua homenagem.
Dona Nina dirigiu-se até o quintal e observou o azul
do céu, tentando compreender o porquê das coisas.
“Mamãe, posso dar-lhe um beijo?”
Pelo sétimo dia, a revolta tomou conta de seu coração.
Pela sétima manhã, tornara a entrar na barraca
de lona, sendo envolvida pelo cheiro úmido e agradável
das folhas.
E pela sétima vez, como num ritual, Dona Nina ajoelhou-se
ao centro da barraca e chorou, segurando a foto fortemente.
Pedidos impensáveis fluíram de sua mente.
Houve silêncio.
De repente, passos.
Manteve-se imóvel e com os ouvidos atentos. Poderia
ter sido o vento. Quando as folhas secas estalaram novamente,
os olhos arregalaram-se, apreensivos.
Os passos aproximaram-se lentamente, cada vez mais. Uma
agonia crescente invadiu-lhe por completo, quando ela pôde
ver a sombra de alguém através das paredes
de lona da barraca. Sentiu o coração bater
mais forte e um cheiro putrefato penetrou em suas narinas.
Quando o vulto tornou-se visível, iluminado pelo
sol da manhã, o cheiro pútrido não
a incomodou mais, os olhos aliviaram-se daquela tensão
e a satisfação estampou-lhe o rosto diante
daquele corpo de forma indefinida.
— Mamãe — disse ele — posso dar-lhe
um beijo?
II
— Mantenha os olhos fechados —
falou ao se aproximar. Sua voz estava rouca, desprovida
de vida, mas havia inteligência em sua fala.
Dona Nina fechou os olhos e sentiu os lábios pegajosos
encostarem-se a seu rosto, dando um sonoro e lento estalo.
E um pensamento agradável lhe veio à mente,
fazendo-a lembrar de que aquele beijo era exatamente como
os que ele costumava dar quando criança.
Quando não havia dor. Quando não havia tristeza
e saudade.
Quando não havia solidão.
O cheiro apodrecido impregnou sua pele, mas aquilo não
importava.
Não agora.
Dona Nina sorriu.
— Vamos? — perguntou ele.
Ela balançou a cabeça positivamente, ainda
com os olhos fechados, como ele ordenara. Em seu coração,
crescia uma satisfação que só ela entenderia.
Sentiu a mão fria, úmida e escorregadia unir-se
à sua. As sensações táteis eram
fortes: Pôde-se perceber a epiderme necrosada, em
meio a fragmentos lisos de ossos e nervos. Era como passar
a mão num pequeno mapa, com algumas ilhotas em relevo.
Os dedos de pontas descarnadas espetaram-lhe a pele suavemente.
E a mão cadavérica conduziu-a, lentamente,
para o lado de fora da barraca de lona.
Dona Nina sentiu o Sol esquentar o rosto.
— Agora, você já pode abrir os olhos.
Ela obedeceu e seu coração disparou feliz,
fazendo novas lágrimas surgirem, em meio a um sorriso,
quando avistou seu esposo, logo à frente.
Ele acenou, estendendo-lhe as mãos e o filho afastou-se
um pouco, ao vê-lo aproximar-se.
O homem exibiu-lhe a gengiva quase desdentada, coberta por
um musgo esverdeado, na tentativa de esboçar um sorriso
carinhoso.
— Amo vocês — disse Dona Nina, acariciando
o rosto macilento do marido.
Ele aproximou os lábios ressecados até sua
boca e a beijou.
Quando ela percebeu a corrente gélida e anestesiante
trespassar seu corpo, considerou aquela uma sensação
agradável e, se tivesse um espelho naquele instante,
teria visto seu próprio rosto empalidecer-se e duas
manchas escuras e profundas, feito hematomas, se formando
em torno dos olhos, enquanto as retinas branquejavam-se,
ausentando-se de vida.
Aquilo foi bom.
— Estão prontos? — perguntou o filho.
O pai encarou Dona Nina.
— Sim — disse ela.
Abraçaram-se todos, num sentimento único:
Amor.
O amor tem seus meios...
A morte tem seus meios...
E foi através desses meios que os três cadáveres
caminharam, de mãos dadas, sob o Sol daquela manhã
de outono, em direção ao norte.
Rumo ao infinito.
PS: Gostaram deste?? Então
não deixem de ler o conto “Legião”,
publicado na edição n° 92.
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Furtiva
Carlos Róbson Mendonça
da Silva |
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Se me fazes feliz
busca amar
nossas perdidas horas;
do claustro
ressurgem nossas poucas
mas vãs
mal criações;
cria em teu busto
objeto para repousar
tranqüilas
as parcas
e lúgubres
as poucas horas em que
nos fizemos felizes
por que ao leste de nossos
seres
serena
intranqüilidade
solidão.
29/09/04
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Repartição
“Quando Carlos vinha com os jeitos
dele, me encantava a coisa toda. Seus cafés, embora
fortes demais para o meu gosto. Eu tomava. O que não
se faz por amor?”
Nilza Teresinha, “Arroio dos Ratos”.
Tomou o gole do café ali, encostado no balcão
da padaria, e sentiu que o líquido lhe desceu pesado
como um sapo gordo que não consegue se sustentar
em cima de uma daquelas folhas que bóiam e que eu
nunca sei o nome. Pagou o velho da padaria amaldiçoando-lhe
como se este fosse o responsável por uma úlcera
que sentia crescer, mas que continuava a alimentar com cafés
pretos junto a padarias sujas. Tentou caminhar até
a escadinha que levava à rua, mas sentiu sua pança
inchada e uma vontade louca de cagar. Segurou-se até
chegar ao escritório, cedo demais para encontrar
a Márcia, que não gostava que ele usasse o
banheiro das secretárias. Forçou uma evacuação,
mas não conseguiu nada mais do que sonoras e fedidas
flatulências que o constrangeram mesmo estando sozinho
na repartição. Quando ouviu o barulho de uma
porta bater, olhou para o relógio e viu que era tarde
demais: as secretárias já estavam chegando,
e não havia como sair do banheiro sem passar por
elas e receber um olhar reprovador pela sua atitude de confrontamento
com o que elas haviam estipulado. Sentiu vontade de mandá-las
à merda, mas uma fisgada no ânus o fez se concentrar
novamente no bolo de fezes que não conseguia libertar.
A pança se revolvia como se tivesse vida própria,
e os arrotos que agora lhe chegavam, não tinham outro
odor senão o de café requentado. Alguém
bateu na porta do banheiro e ele fez silêncio, esperando
para ver se desistiam. (os tec, tec do sapato de solados
de madeira denunciaram Marta, a insuportável responsável
pelo setor, que caminhou de volta para a sua mesa e ficou
batendo as unhas pontiagudas no tampo de eucatex enquanto
a janela do explorer permanecia congelada na sua tela.)
Quando sentiu que se afastavam, forçou mais uma vez
para ver se conseguia se livrar da bosta ressequida na saída
do ânus. Sentiu uma ardência e teve certeza
de que foi sangue o que pingou na água do vaso sanitário.
Suava em demasia e sua camisa de trabalho não se
encontrava mais em condições apresentáveis
devido às rodelas de suor embaixo do braço.
Maldita hora em que entrei neste banheiro, pensou. Sem conseguir
defecar, enrolou uma tira de papel higiênico nas mãos
e passou no rabo, sentindo o papel muito áspero machucar-lhe
as carnes e voltar sujo de sangue. Atirou o papel na privada,
que agora continha pequeninos pedaços de merda que
saíram junto com os filetes de sangue. O banheiro
fedia terrivelmente e o spray de bom ar não funcionava.
Apertou a válvula da descarga que não respondeu
senão por pequeninas ondulações na
água em volta dos pedacinhos de merda e do papel
amarfanhado que lá jogara. Alguém batia na
porta novamente. Fez silêncio e ouviu gritarem seu
nome. Ainda não tinha levantado as calças,
quando se olhou no espelho e se desesperou com as pequenas
brotoejas em suas nádegas, como bolhas de desidrose
estouradas que umedeciam seu traseiro. O tec tec se aproximava
novamente. Perdeu o equilibro quase ao mesmo tempo em que
a vista escurecia, batendo com a cabeça forte contra
a parede de cerâmica; no entanto, ainda sentiu quando
o maxilar se quebrou contra a louça da privada.
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
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Alta Rotação
Não sabia há quanto tempo estivera
dormindo. Nem se fazia alguma diferença. O certo
é que não estar só não se tratava
apenas de uma sensação, muito embora a escuridão
impedia visão maior. O espaço era pequeno
para tantos ocupantes e o cheiro não era igualmente
dos melhores. Enquanto tentava em vão alguma referência
que o auxiliasse em sua orientação, uma chuva
torrencial começou a desabar sobre sua cabeça
e corpo, que encharcam-se em segundos. “Meus Deus,
o que está acontecendo?” questionou-se, mal
sabendo que aquilo era apenas o começo. Um estalido
e subitamente o chão e as paredes começaram
a tremer e tudo passou a balançar, instalando um
medo geral. Vozes ecoavam ao redor: “A Simone, a culpa
é da Simone!” Mesmo com grande esforço,
não se lembra de ninguém com esse nome. Também
não consegue raciocinar direito com infernal balbúrdia.
Para sua sorte, uma calmaria abrupta se instalou e deu-se
conta que a chuva já havia parado. Sentiu a água
escorrer as poucos e fez um grande esforço para recordar
alguma Simone que poderia lhe querer mal, mas foi em vão.
E quando parecia que tudo havia se resolvido, o retorno
da chuva anunciava o contrário. Foi questão
de segundos e tudo recomeçou e parou e recomeçou
outra vez, como um ciclo. Não pôde contar quantas
vezes, da mesma forma que não podia evitar o choque
com quem estava ao seu lado e a irritação
de tantos encontrões que vinha sofrendo. “O
que poderia ser pior?” perguntou-se, sem ter ao menos
tempo de se arrepender de não Ter ficado quieto.
Como uma grande ciranda, o mundo começou a girar
sem parar e uma força sem igual o jogou para a parede
lateral. Esforçou-se para respirar. Talvez num parque
de diversões tudo isso fosse divertido, mas não
era o caso.
A boa notícia era que tal movimento propiciava o
escoamento de grande parte da água que se acumulara
em si e um perfume de flor tomava conta do espaço.
Seria o prenúncio do fim daquele suplício?
Ao que tudo indicava sim. Tudo parou e caiu já sem
força alguma para tentar ficar noutra posição.
Ouviu passos vindos do lado de fora e voltou a ficar angustiado:
“É ela! Ela está vindo aí!”,
gritam algumas vozes em desespero, outras com tom de alívio.
E a porta se abriu, entrando uma forte claridade que o impediu
de ver além. E mais uma vez tomado de assalto, foi
literalmente puxado pelo colarinho e arrancado para fora,
onde dois pedaços de madeira o mantiveram suspenso
num fio, onde ficou até secar por completo. Agora
sim, seco, limpo e cheiroso, pode ver a bela senhora que
antes tivera medo e entendeu que esta teria sido apenas
sua primeira vez na máquina de lavar roupas.
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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 21/X
Escondo-me!
tenho vergonha de mim
e de ti, um tanto assim.
Faroeste 7/X
Só eu e você
no quarto, no mac
que beleza, nhac
Josiclelson - II
A vida nos prega peças, na semana passada,
quando tentei começar a história de nosso herói
não nascido, acabou a lauda. Procuro colocar minhas
idéias em uma só página. Ser conciso
e preciso na medida do possível. Porém, fiquei
devendo aos leitores, principalmente às mulheres, pois
não consegui escrever sobre o Josiclelson.
Vamos Lá! Quando parei na semana passada,
a mãe do Josiclelson estava grávida e com apuros
na gravidez. O que poderia ser? Bom, vejamos se consigo usar
minha bola de cristal.
A mãe do Josiclelson não sabia
que estava grávida e foi passar uma noite na Oktoberfest
de Blumenau. Começou a beber, como normalmente fazia,
porém com uma diferença. Logo no segundo caneco
de chope passou a enjoar. Não queria mais tomar chope!
Queria tomar um refrigereco que estavam servindo e comer chucrute.
Que coisa! Está certo que ela tinha, pelo menos, meio
sangue alemão. Comer chucrute até que poderia
fazer parte da sua dieta.
Coitado do Josiclelson, já nas primeiras
semanas de formação, foi obrigado a sentir o
gosto amargo de chucrute através do cordão umbilical.
Vocês poderiam dizer que isto é besteira. Porém,
vocês não sabem a origem de nosso herói.
Ele, na verdade é um experimento dos arqui-rivais,
K-Pax e Tlön, numa tentativa desesperada de apaziguar
as diferenças entre os povos. Como nenhuma fêmea
destes planetas aceitou servir como mãe de aluguel,
os cientistas de K-Pax (em Tlön não existe ciência)
fizeram uma inseminação artificial durante uma
transa da suposta mãe do Josiclelson no seu período
fértil, quando ela queria engravidar. Isto porque há
alguns séculos atrás eles tinham tentado fazer
o mesmo com uma certa virgem e a experiência foi muito
bem sucedida, porém os terráqueos, ao invés
de desconfiarem do pai da criança, logo colocaram a
culpa em Deus.
Qual o destino de um ser superpoderoso de outro planeta ao
receber, logo nas primeiras semanas de gestação,
o amargo gosto de chucrute. Iria servir como kriptonita? Aumentaria
seus poderes como o espinafre faz com o Popai?
Aguardem os próximos capítulos...
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Utopias
Quando alguém lhe disser que o seu objetivo nesta
vida dificilmente será alcançado, sorria e
siga em frente. Se falarem que os seus sonhos não
vão se realizar, ignore e continue a caminhada. Não
se perturbe se as pessoas passarem a chamá-la de
sonhadora, de boba ou de utópica.
A melhor definição para a utopia é
aquela que diz: "a utopia é um ideal inatingível."
Muito bem. Que seja você utópica, e daí?
Melhor que não o ser.
Vamos refletir juntos. Não seria a própria
vida uma utopia em si? Quer maior utopia do que estarmos
aqui neste mundo desfrutando da dádiva da vida? A
importância de nossas existências explica na
prática que a utopia pode perfeitamente ser contrariada.
É importante sabermos que inúmeros sonhos
nossos, tidos a princípio como "impossíveis",
já foram por nós realizados. Quantas vezes
já desmascaramos o inatingível ao longo da
vida? Inúmeras! As pessoas quando costumam perserverar
geralmente conseguem alcançar aquilo a que se propõem.
Os utópicos buscam subir a montanha que há
no interior de cada um, até atingir novos patamares
de consciência, possibilitando o entendimento de que
tudo é possível nesta vida, desde que busquemos
incessantemente aquilo que queremos.
São as várias tentativas que irão
nos permitir fazer descobertas que estão, por assim
dizer, aguardando por nós sem que soubéssemos.
A busca de um objetivo pessoal é conseqüência
direta das convicções que uma pessoa acolhe,
convicções que se intensificam e se fortalecem
quando colocadas na prática.
Dessa convicção eu não me afastarei
jamais. Dessa intensidade no meu viver é que provém
a inspiração que me traz a certeza do quão
importante é crermos em nós, sempre!
Essa clareza nas minhas convicções ilumina
e alegre o meu viver. Convicção inspiradora
que faz eclodir beleza e inteligência naquilo que
queremos para cada um de nós: a superação
de nossas limitações. Absorver essas convicções
requer trabalho, esforço e perseverança. Requer
desprendimento para nos afastar de nossas teimosias e crer
no inatingível como sendo possível de acontecer.
Quando alguém busca vencer as utopias que moram
em seu interior, certamente conseguirá ir mais longe,
querendo sempre mais, e logo abandona um comportamento de
indiferença e de resignação, passando
a exigir muito mais de si. E assim, somente assim, você
conseguirá superar-se a cada dia, transformando suas
utopias em algo realizável.
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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Inércia
Tela em branco
Sufoca meu ser
Minha criatividade se esvai em fragmentos de poeira
Tudo que penso me machuca
Não penso em mim
Penso em me encontrar e por tantas horas me perco em ti
Inércia me assola
Estática me assombra
Imóvel, pensando em ti
Não faço nada, não ouço nada
Minha vida parou depois que te conheci
Nada me resta senão sonhar
Pular do desfiladeiro onde tu estás
Ser nova, completa e recomeçar a pensar
Pensar e agir
Mudar o que me mantém
Reconstruir meu ego
Reagir diante da vida
Encontrar a resposta, uma nova saída
Parar de sonhar
Aprender a viver sem ti
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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Curtas e Loucas - O Retorno
Aquela manhã parecia igual e todas
as outras anteriores e próximas. Ultra-man esfregou
os olhos, muito vermelhos. Ele dormia, mas não os
fechava. Culpa de seu criador. Saiu de casa apressado, pois
estava atrasado. Seu chefe lhe encheria de desaforos, que
ele, novamente não poderia responder, pois não
tem boca, lembram-se? Bons tempos em que matava dinossauros
de isopor, destruía bairros inteiros feitos de massinha
de modelar. Mas agora não, a tecnologia o ridicularizou,
e ele amaldiçoa o idiota que, além de tê-lo
feito nessa forma bisonha, o fez imortal... Bom, melhor
se apressar. Tóquio não pára, e tem
uma porção de correspondências a entregar...
Isso, antes daquela irritante luzinha no peito começar
a piscar... Que sina...
# # #
Enfim, chegou o seu dia... O velho Ozzy morreu. Chegou ao
céu, encontrou o Pedrão folheando a última
Playboy...
- Sinto muito, filho, mas o Chefe não perdoou aquelas
mordidas nos morcegos. Vai ter de descer...
- Pôxa, barba, quebra essa, vai... Deixa ao menos
eu falar com o Patrão...
- Bom, vou tentar.
...
...
- Pode ir, ele tá de bom humor...
...
- Olha aqui, menino,se não tocar Changes, não
adianta nem tentar me convencer, falou?
- Tô fora, velho... Fugi do inferno porque o pessoal
não pára de pedir pra eu tocar essa merda...
Sabe o caminho pro purgatório??
# # #
Num ponto de ônibus-espacial, no meio do espaço
sideral, Lili chora, sozinha. Foi abandonada pelo marido,
um Netuniano bonitão e garanhão... Acha que
nunca mais vai gostar de ninguém, pois o amor só
a fez sofrer. Enxuga os três olhos, e entra na condução.
No caminho, relembra as juras apaixonadas do tempo de namoro,
os desejos incontroláveis sempre satisfeitos, mas
resigna-se, recompõe-se, e promete nunca mais chorar
por aquele insensível. Chegando em casa, a surpresa.
Tudo coberto de flores. Na cama, o maridão, sedutor,
já a esperada com um par de taças de champanhe
nas mãos. Entregou-se sem freio. Não resistiu
ao seu charme, e aos seus três pênis...
# # #
Judite, num acesso de raiva, não resistiu e socou
a cara do marido. Ele, imediatamente, procurou a delegacia
de homens, e a denunciou. Ficou presa seis dias, até
que o marido retirou a queixa. Se tem uma coisa que eu não
suporto é homem que não se valoriza, que apenas
vive para ter filhos, cuidar da casa, e limpar as botas
de suas esposas relaxadas... Por isso que eles nunca conseguirão
se equiparar às mulheres em nada... É, homem
não tem peito mesmo...
# # #
Mataram o Zéca Pagodinho. A polícia montou
um super esquadrão para capturar o meliante, diante
da opinião pública pedindo a pena de morte
ao malfeitor. Semanas, meses, anos se passaram e nada...
... No meio da praia, cercados de câmeras
de TV, a tartaruguinha faz embaixadas com uma latinha de
Brahma, enquanto o siri mostra a bundinha bronzeada, rebolando,
orgulhosos por terem voltado à mídia E ninguém
desconfiava daqueles bichinhos tão simpáticos...
- iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiihhhhhhhhhhhhhhhhh...
- nãnãnããã-nãaaaa...
Abraços...
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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