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03 /11/2004 - Edição número
100
Humanismo,
Laicidade e Fé Cristã em 2004: em
que ponto estamos e onde vamos parar?
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| Introdução
à uma Estética Anarco-Humanista |
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Por terem crescido em mundos diferentes, sofrido
estímulos diferentes, raramente uma discussão
entre cristãos e humanistas é proveitosa.
Razão primordial para aproveitar uma oportunidade
como esta proporcionada pelo Simplicíssimo em que
alguns cristãos e humanistas (entremeados com um
ou outro não tão convicto de sua posição)
se dispuseram a encarar, com extrema sinceridade e criatividade,
o tema em questão.
Começo este brevíssimo ensaio
com uma visão particular de cunho humanista, inspirada
em textos de H.J.Blackham, Kathleen Nott e de Kingsley Martin,
constantes em uma obra chamada “Objeções
ao Humanismo”. Certo da impossibilidade de extinguir
a discussão sobre o assunto nas linhas que se segue,
fica o convite à reflexão e ao debate do tema
proposto. Segue-se o emaranhado de meus pensamentos com
as idéias propostas pelos pensadores acima citados,
sempre com a consciência de que somos os quatro muito
mais do que a individualidade que representamos.
O Humanismo pode ser visto como uma preocupação
íntima e profunda com o completo desenvolvimento
da potencialidade e da personalidade humana que só
pode ser a experiência de indivíduos reais.
É pouco provável que existam muitas pessoas
assim em cada geração. O tornar-se humano
dependem de um discernimento e visão imaginativa
– artística, filosófica, pessoal e de
relação – que devem ser excepcionais
para sua plena realização.
Como diz H. J. Blackham, talvez a nota característica
do Humanismo seja um materialismo altruístico, terreno
e apaixonado.
O humanismo aspira ser simples com os mais simples e a ser
mais filosófico do que as escolas e mais religioso
do que as seitas e mais político do que os políticos.
Fé sem obras não é Cristianismo e o
ateísmo que não faz esforço algum para
ajudar a humanidade a arcar com suas conseqüências
não é Humanismo.
Se alguém desperta de um sentido de ilimitada dependência
para uma suposta independência ao invés de
para uma ilimitada interdependência está operando
uma troca de ilusões, para pior.
A responsabilidade ilimitada e compartilhada na criação
das condições de toda uma vida merece ser
chamada de humana, eis o colossal empreendimento a ser assumido
pelo homem sem Deus.
Os filósofos, inevitavelmente, são
cerebrais e na atualidade com freqüência agnósticos.
O mesmo acontece com os cientistas. No entanto, não
apenas os filósofos e os cientistas mas também
os matemáticos têm um interesse real e penetrante
pelas artes. Em alguns, este interesse justifica uma necessidade
terapêutica mas, também, pode ser nada mais
que o reconhecimento de que toda a inteligência humana
deve aprender a se equilibrar.
Somos ainda, em grande parte, como humanidade, altamente
desaparelhados para satisfazer a um desenvolvimento satisfatório
equilibrado e harmonioso entre lógica e análise
de um lado e imaginação e intuição
de outro, em uma só mente e personalidade.
O que propomos aqui é um exercício
de pensar. Sabemos que para a grande maioridade das pessoas
o pensamento é um esforço doloroso e preferem
passar sem experimentar. Se for o seu caso, para a leitura
neste ponto.
Não estou atribuindo nenhuma superioridade àquele
seleto e estranho bando de pessoas que tem uma inclinação
para o raciocínio abstrato quando digo que, neste
sentido, a maioria das pessoas não pensa. Em um sentido
prático, obviamente, todos pensamos quando temos
que resolver este ou aquele problema, mas não é
disso que falaremos.
A linguagem dos homens e das mulheres comuns
é muito mais parecida à dos poetas ou mesmo
à dos namorados do que à dos filósofos.
Estão sempre dizendo “o que eu gosto, o que
me desagrada, o que me interessa, o que me aborrece”.
Dizer o que se vê pela janela do ego é construir
uma ponte entre um suposto mundo interior e o exterior.
Dizer é presumir que há, em um mundo externo,
algo sobre o quê algo possa ser dito. Significa uma
fé animal sobre a existência do mundo e das
coisas.
O problema histórico do Humanismo
foi negar esta fé essencial materialista e aceitar,
durante algum tempo, o racionalismo radical de alguns filósofos
e outros intelectuais ocidentais. Deixou de acreditar em
tudo aquilo no qual não se via a razão.
Hoje, minha crença se baseia no fato
de que, ser analítico demais, pedir explicações,
razões e justificações morais e lógicas
pode acabar por destruir as relações humanas.
Entretanto, não há como negar que, tanto entre
os racionalistas quanto entre os religiosos uma certa ânsia
por uma certeza final caracteriza a todos.
O problema pode estar justamente no fato
de que se criou uma polarização do tipo “ou
isto ou aquilo” em que ambos lados polemizadores tentam
achar provas de que a sua verdade é a verdadeira.
Cria-se uma guerra em que, na realidade, a verdade é
a primeira vítima.
Pensar ou raciocinar é aprender a
ver o que tem para ser visto. Isto implica em aprender a
ver por si próprio e sustentar e arcar com a responsabilidade
das conclusões tiradas. Isto não significa
que uma pessoa tem que ter “razão”. Existe
um padrão de pensamento que é válido
aos seres humanos que se preocupam com suas próprias
vidas qualquer que seja ela em um determinado momento. Pensamos
corretamente quando pensamos com uma finalidade real em
um campo real. Este parece ser o único método
de realizar uma adaptação criadora ou uma
fecunda transformação em nosso meio-ambiente
– que aqui podemos chamar de Progresso, em um sentido
amplo.
Acontece que, justamente esta ênfase
na capacidade da ciência como criadora de progresso
tornou-se alvo de crítica aos combatentes do Humanismo
oitocentista, já que, ao que parece, por onde quer
que se olhe, o evangelho do progresso nos está conduzindo
não à Utopia prometida mas a uma maior miséria
social e até quem sabe – já se falou
mais sobre isso – a uma solução final
através de uma guerra nuclear.
Essa visão humanista é, hoje,
obsoleta. Continua-se a ter o direito de pretender que o
Humanismo possa apresentar o caminho para uma sociedade
melhor e para formar melhores seres humanos, desde que não
comenta o erro de prometer ilimitados desenvolvimento e
progresso ininterrupto – mais característicos
hoje de uma ciência irracional e sem rumos definidos.
É importante perceber também
que vivemos em um mundo dividido em que a elite instruída
rejeita a religião revelada pois a mesma carece de
verdades objetivas. Pode-se dizer até que, entre
cardeais, bispos, ministros e governantes que pregam a fé
que se empenham em manter através da propaganda,
da censura e do controle através da educação
não existe mais a crença absoluta no que é
pregado, exceto talvez ainda sob um aspecto simbólico.
A fé humanista consiste em que a razão
pode desempenhar um papel decisivo e que as doutrinas religiosas
podem ser, na maior parte, obstrutivas. Vide o exemplo do
Oriente Médio e das contínuas guerras santas
entre judeus e palestinos.
Tornou-se um dever, e não apenas uma
linha sensata de conduta, trabalhar em prol de uma sociedade
universal. O futuro depende de nós e não de
qualquer doutrina. Devemos acreditar que os homens progridem
não para a Utopia ou para a perfeição
e sim para uma sociedade mais feliz e mais razoável.
Este ensaio tem a notável pretensão
de, utilizando críticas ao Humanismo, mostrar quem
sabe, uma visão alternativa às críticas
feitas. Uma das mais drásticas críticas feitas
ao Humanismo é a de que ele é ruim demais
para ser verdade. O mundo é uma vasta tumba, as vidas
humanas são efêmeras e a própria vida
humana está fadada à extinção
final . Todas as religiões evoluídas fazem
frontal oposição a tudo isto, dizendo “o
eterno apenas”, “o temporal redimido pelo eterno”,
nunca “o temporal apenas”.
Nas palavras de Bertrand Russel, ateu de
carteirinha: “O Homem é o produto de causas
cujas finalidades a alcançar não são
previsíveis; a origem, o desenvolvimento, esperanças
e temores, amores e crenças humanas nada mais são
do que uma acidental disposição dos átomos;
nem o ardor, o heroísmo ou um pensamento ou emoção
intensos pode preservar a vida individual além do
túmulo; todo o trabalho das gerações,
toda a inspiração, todo o resplendor do gênio
humano está destinado à extinção
na vasta morte do sistema solar e todo o templo das realizações
do Homem deverá ser, inevitavelmente, sepultado sob
os escombros de um universo em ruínas”.
Explica-se através de uma metáfora,
que o Humanismo veria a vida como uma ponte sobre um desfiladeiro
que se estende apenas até a metade da distância
e acaba no ar. Esta ponte estaria abarrotada de seres humanos
que se empurram um após o outro caindo no abismo.
Não importa que, ao subir na ponte, eles pensem que
estão indo a alguma parte, nem os preparativos para
a viagem que possam ter feito, nem o quanto possam apreciá-la.
A visão resultante desta crítica representa
a vida como um modelo de futilidade.
Tal exemplo se presta a uma interessante
perspectiva, que é a que pessoalmente levo comigo
há algum tempo, que chamo de Mudança Radical
da Imortalidade, e serve de crítica à crítica
acima apresentada.
A busca da imortalidade cristão se
dá através da crença na permanência
da individualidade da alma em um paraíso além,
prometido pela religião revelada através das
Sagradas Escrituras.
Não sei bem ao certo quando, mas meu coração
rejeitou e deixou de aceitar esta crença há
um bom tempo atrás. Ao mesmo tempo em que esta crença
foi destruída, surgiu em seu lugar uma outra, mistura
de vários estímulos recebidos em essência
de leituras e experiências pessoais, em que a noção
de individualidade foi deixando lugar para a noção
de impermanência e de União e interdependência
constante com o Universo, características da crença
budista. Como não pratico os hábitos, não
posso me considerar nem de longe um budista.
Mas, voltando à minha noção de Imortalidade,
acredito que devemos mudar o foco de nossa preocupação
de enfrentar nossa extinção e de um desejo
desesperado de reencontrar aqueles que perdemos para uma
preocupação em como levar nossos filhos e
sucessores a terem uma vida mais feliz aqui, nesta existência,
aprendendo (e ensinando) a praticar as leis do bem-estar.
Uma vez que tenhamos aceito o fato de que o mundo aqui pe
como nós o fazemos, nosso problema se transformará
em um problema de comportamento humano, passaremos a viver
com uma preocupação ecológica, nos
tornaremos verdadeiros humanistas e poderemos deixar de
lado as crenças religiosas de busca após a
Morte de uma religação a uma entidade superior,
tendo em vista que já estamos ligados a esta entidade
superior que é a própria Natureza em toda
sua imponência e majestade, em todas suas instâncias
físicas, químicas e transcendentais.
De qualquer maneira, não sabemos ainda
o quanto podemos mudar da natureza humana, mas temos muitas
evidências de como podemos mudar o comportamento humano
para melhor, mesmo se o processo for menos simples e depender
de menos melhorias óbvias na situação
física do que imaginávamos há tempos
atrás. Este é o limiar para um novo conhecimento.
O futuro da humanidade depende mais do nosso conhecimento
da mente humana do que do sucesso que podemos ter com as
viagens espaciais ou quem sabe até em atingir as
estrelas longínquas.
A fé cristã tenta evidenciar
como seu principal mote, uma finalidade cósmica para
a individualidade humana. A promessa da vida no além
como justificativa para o bom comportamento na vida terrena.
Qualquer tipo de moral ou ética sem esta finalidade
cósmica não poderia se manter e se perpetuar
através das gerações.
O Humanismo propõe um desafio que
resolvi aceitar. Proponho aqui a valorização
das finalidades individuais e coletivas como um fim em si
mesmas. A Vida como fim da Vida ao contrário da Morte
como fim da Vida, como quer o cristianismo.
Se assim for, não é a reflexão
sobre a experiência mas a experiência em si
o fim último da Vida. E, chegando a essa conclusão,
nos damos conta de que, viver é, na realidade, um
churrasco com os amigos no fim-de-semana, onde se contam
piadas e nos divertimos, em um mundo sensual e finito. Mas
não só isto: é necessária a
percepção consciente destes fatos, que muda
totalmente nossa vivência de uma simples rotina de
repetição animal das ocorrências do
dia-a-dia para uma vivência baseada em escolhas verdadeiras
e tranqüilas do nosso próprio destino.
Com a percepção de que sou
autor de minha própria existência, vivendo
em uma dimensão individualmente mortal, esta experiência
(a Vida) pode tanto ser um relato triste e trivial do que
acontece comigo ou pode ser uma experiência que valha
a pena ser compartilhada por outros, através da arte,
ciência, política ou qualquer atividade que
eu escolha exercer.
O Humanismo é justamente a aspiração
a aumentar esta confiança enraizada nos recursos
disponíveis e criar uma arte atingível e,
desta forma, reduzir a inutilidade das vidas individuais
e torná-las a essência de um mundo pleno e
verdadeiramente humano, como jamais existiu.
Rafael Luiz Reinehr
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Uma
Homenagem aos Cem
Eduardo Hostyn Sabbi |
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Cem edições
se passaram e não posso deixar de aqui registrar
minha satisfação de acompanhar meu amigo Rafael
e em fazer parte de muitas delas, desde meu início
com um poema na edição 08, um comprometimento
com artigos isolados a partir da edição 18,
até chegar às atuais colaborações
semanais com a coluna en passant, iniciada na edição
64.
Cem-dobraram os textos e
os participantes, Simplileitores, Simplicomentaristas, Simplivisitantes
vindos de toda parte para prestigiar e celebrar as viagens
etéreas impressas no éter universal, materializando
e compartilhando o melhor produto da mente humana (ou por
vezes o pior, ou qualquer um que fosse).
Cemenelenses e cempsos
ainda hão de conhecer o que há pouco se internacionalizou,
fruto ou vítima da globalização das
idéias, mas que ainda esbarra na barreira da língua
e seus amargos e pouco se pode saber do ponto onde estamos
para onde vamos.
Cementado pela junta do conhecimento
e viabilizado pela perda da vergonha ou pela audácia,
nada me impede de dizer que completamos apenas um décimo
das mil edições que estão por vir antes
de percorrermos o caminho das próximas duas décadas
nesses “passos ritmados do iê-iê-iê
bem dançado” (Hey Boy!).
Cem-folhas embelezam e perfumam
um salão de muitos cempassos nesta
festa regada a cem-virtudes que torporeiam
os mais afoitos, enquanto cêmbalos
incansáveis reproduzem cemeses que
embalam o sono daqueles que ousam reconfortar-se nas palavras
e desnudam-se das armaduras produzidas com cementita.
Cemitério talvez me
desejem os que esperavam aqui algo sobre o tema proposto
pelo nosso editor e que eu, ao melhor estilo Frankjorgiano
(toda terça à noite no Bar Ocidente em Porto
Alegre-RS, imperdível), espero ter conseguido descumprir
usando a também sugestão editorial com as
citações do Houaiss.
Cem maravilhosas contribuições
do livre-pensar impressas em diferentes pixels luminosos,
dignas de leitura e do agrado de qualquer indivíduo,
humanista, laico ou cristão (óoooo),
tema que aliás complementa-se com o artigo de Bertrand
Russel que recebi coincidente esta semana do meu melhor
amigo (sem saber se há, talvez, alguma lógica
nisso tudo), em “A Crise do Conhecimento do Homem
Sobre Si Mesmo, de Ernst Cassirer, no “Ponto de Mutação”
de Fritjof Capra (a mim presenteado recentemente pelo meu
grande amigo e nosso simplicíssimo editor - e quem
sabe ele já estava então mal intencionado)
e até mesmo em “A Assustadora História
do Sexo”, de Richard Gordon, entre tantos outros e
inclusive em cada um de nós, que graficamente ou
não, existimos e pensamos, não necessariamente
nessa ordem.
Cem vivas ao Simplicíssimo!!!
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Finados
Alessandro Garcia |
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A mãe pedia que rezássemos pelo
pai. Nós não sabíamos onde o pai tinha
ido, mas rezávamos, a mãe pedia e nós
rezávamos. Nos dias em que tínhamos que acompanhá-la
até o cemitério era pior. Tínhamos
que comprar juntos as flores, ajudá-la a limpar a
sua sepultura, sempre tão cheia de inços e
nos púnhamos graves, tão sérios como
seria estranho ser para a idade que tínhamos. Os
anos de falta do pai já tinham passado. Nos primeiros
tempos doía tanto que chegávamos a passar
mal. A Marina ficou dias sem ir ao colégio, chorava
noite e dia, chorava tanto que eu achava que ela ia morrer
também. Como eu era o único homem da família
então, devia me manter mais duro, ao mesmo tentar
parecer mais sério, mesmo que me doesse até
os ossos fingir retidão na frente da mãe e
da mana e de noite chorar como um condenado a falta do pai.
O bom é que éramos pequenos o suficiente na
época, se fosse hoje talvez fosse mais dolorido,
se o pai desaparecesse assim, e a mãe chegasse e
nos dissesse que ele tinha morrido. Como não víamos
corpo, não choramos o defunto, ficava ainda mais
difícil se dar conta que o pai tinha mesmo morrido.
Para a mãe, eu não sei bem como foi toda a
função de provar que o pai morreu, éramos
tão pequenos e ela tão só, correndo
de um lado para o outro, toda a burocracia e a papelada
para mostrar que sim, seu marido tinha morrido, mesmo não
tendo corpo para enterrar ela queria uma cerimônia
religiosa, e padre, e toda a gente chorando em volta de
um caixão que não tinha defunto dentro. Suas
roupas, somente, acho que tinha umas roupas suas que a mãe
colocou ali dentro, dizendo que eram parte do pai e que
devíamos chorar também por que o pai tinha
morrido e devíamos sentir a sua falta e agora eu
era o homem da casa.
Depois, mesmo como toda a catequese e a crisma
e comunhão e tudo aquilo o que a mãe fazia
questão que fizéssemos, por que se apegava
demais a Deus e dizia que era devota de Virgem Maria, nem
Marina e nem eu fazíamos de coração.
Não queríamos aborrecer a mãe, então
não tinha cabimento que nos colocássemos como
um destes moleques mimados que tinha no colégio que
recebiam tudo de mão beijada e ainda reclamavam para
a mãe se ela não lhes dava a marca do tênis
que haviam pedido. Eu nem conhecia as marcas de tênis.
Vestia o que a mãe podia comprar para mim, da mesma
maneira Marina e, hoje, pensando bem, até me surpreendo
que fôssemos tão boas crianças, éramos
sim. Somente quando eu cresci um pouco mais e comecei a
trabalhar e pude comprar as coisas pra casa e continuar
a pagar o aluguel da sepultura que era cara pra danar lá
no cemitério do centro é que pude também
comprar uns agrados pra Marina, pobre de Marina, sempre
com seus vestidinhos remendados que herdava da mãe,
e umas coisas pra mim, e então comprei um destes
tênis bonitos por que as moças no baile gostavam,
mas nem importa, por que no final das contas também
não olhavam pra mim por que diziam que eu era filho
do finado que não tinha.
Finado que não tinha, por que não
tinha o corpo, todos da cidade sabiam que enterramos o pai
em espírito, que era como a mãe falava. Um
enterro digno como bom cristão que era para ter um
lugar no céu, e onde estivesse seu corpo, estaria
na paz do Nosso Senhor. A mãe dizia paz do Nosso
Senhor, e eu me lembro de Marina e eu repetindo ajoelhados
ao seu lado, em suas orações compridas, especialmente
no dia de Finados. Eu não sei lá por que inventaram
um dia pros mortos, estes mortos que sempre é preciso
acalmá-los, parece que sempre querem um agrado, que
rezem por eles, senão se põem aborrecidos
e acabam atazanando a paciência dos vivos aqui, mas
se tem o dia dos Finados que seja, que façamos o
que se tem que fazer, então, por que eu não
discuto muito estas coisas de convenção que
as pessoas inventam e se inventaram temos mais é
que respeitar e cumprir. E que mal há de num dia
só rezar por eles se eles ficam mais calmos assim?
Depois, não custava nada, mesmo estando
já mais velho, ainda que não quisesse sair
de casa e me juntar com Dora, por que a mãe já
estava velhinha e queria ficar e cuidar dela antes que se
fosse pra junto do pai. Podia ajudá-la a ir até
o cemitério, limpar os inços com ela e deixar
a sepultura do pai tão bonita, lustrar o vidro da
foto dele já tão embaçada e trocar
as flores com a mãe por que era o que ela mais gostava
de fazer. E mesmo que eu já grande, agora sim que
não acreditava mais nestas coisas da igreja e que
as almas vão pra um lugar tão bom, eu acho
que quando a gente morre já era e pronto, fazia o
que a mãe queria por que ela ficava feliz, e se ela
dizia que o pai tava nos olhando, tava num lugar melhor
e ficava mais contente da gente limpar sua sepultura, eu
fazia, o que é que eu não fazia para deixar
a mãe feliz?
Quando a mãe já na beirinha
da morte, juntou um monte de gente por que a mãe
era boa e todo o mundo gostava dela ali em volta e mesmo
que falassem pelas costas que era viúva do finado
que não tinha. Mas as gentes são tudo assim,
o povo fala mesmo e que se há de fazer, se depois
quando precisam da mãe pedem ajuda e fazem de conta
que não falaram nada? Como a mãe era tão
boa, fazia que não escutava, por isso ela nem gritou
com ninguém quando ficaram tudo a sua volta rezando
por ela, nem o turco que lhe cobrava o olho por qualquer
fazenda que ela precisasse pras suas costuras, até
ele tava ali, rezando, sei lá de que religião
são os turcos, e se eles acreditam em Deus, ou ele
só estava ali para fazer fita. E nesta hora era todo
mundo amigo, mas só eu e a Marina que segurávamos
a mão da mãe como ela queria, por que era
só isso que ela precisava para morrer em paz, ela
disse, de nós dois, os seus filhos, e que bom seria
se nosso pai estivesse lhe esperando para recebê-la
e ficarem juntos para sempre. Por isso é que eu não
sei, não sei por que ele depois foi embora, se ela
estava falando do pai que ia recebê-la lá no
céu ou se ela começou a delirar e fitar o
homem que entrava lá em casa, que nem eu nem Marina
conhecíamos, mas que a mãe começou
a chamar pelo nome do nosso pai, e como a mãe já
estava delirando, nem ligamos, nem nós nem o homem
também, devia ser um amigo de longe, já velhinho
como a mãe, embora todo o mundo tenha achado tão
estranho, e eu também, é verdade, que ele
se parecesse tanto comigo.
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A Conversão
Adalberto de Queiroz |
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Antes que a alvorada de sexta-feira, dia 29
de outubro, bata à minha janela e encontre-me sorrindo,
ao lado dos meus entes queridos, despedindo-me do sono devo
fazer o sinal da cruz e rezar, agradecido por ter chegado
aos 49 anos com a consciência de um convertido.
É emblemático que minha confirmação
aconteça aos 49 anos de idade - um renascer na mesma
idade cronológica com que faleceu um dos mais importantes
Santos da Igreja de Cristo - Santo Tomás de Aquino.
A insígnia numérica aqui é simples
e forte para este convertido porque aquele Servo de Deus,
Santo Tomás, tem ocupado muito das minhas leituras
noturnas, principalmente com as Summas, que são o
desafio do entendimento, na busca entre unir Fé e
Razão e mostram o tanto que, em tão curta
vida, realizou o Doutor Angélico.
E, na véspera desse 29 de outubro do
ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2004
(como dizem ainda em boa tradição lusitana,
quase todos os nossos cartórios), digo-vos algumas
palavras: as mesmas - pelo menos no sentido - que gostaria
de dizer, amanhã, aos meus irmãos e irmãs,
que compartilharem comigo minha Confirmação
e primeira comunhão como católico apostólico
romano.
(Claro está que, diante desse segundo
parágrafo, os que acham este cronista "católico
demais" ou "carola" terão clicado
o botão de off de sua atenção ou mudado
de página, então, resolvi ir lá em
cima e adicionar alguma coisa mais à alvorada...).
Mas aprendi desde logo nessa estrada que "a
condição indispensável para a transmissão
de uma palavra cristã é o desejo verdadeiro
de ouvir", portanto, de nada valerão as palavras,
se o leitor não tiver ouvidos para ouvi-las.
Há algum tempo atrás, quando
comecei a caminhada que me trouxe ao dia de hoje e a esta
decisão, algumas perguntas me eram sistematicamente
feitas, quando eu comunicava a minha Conversão:
- Você está doente, rapaz. Ou, mais grave ainda,
você tem alguma doença grave e por isso se
converteu?
- Está com medo da Morte, por isso procurou a Igreja?
- Você está se vendo obrigado por causa de
um emprego, a se tornar católico?
- Ah! Já sei, você está apaixonado e
a família da namorada é católica?
A todos, dizia e digo, sorrindo: NÃO!
Uma vez, li uma entrevista de um velho católico
brasileiro e escritor de nome que tentava explicar a um
jovem repórter de inclinação marxista,
como era possível ter-se tornado católico.
A resposta singela cabe em uma curta solução
do inquérito: "Recebi a Graça da Conversão".
A graça é um dom de Deus, logo, inexplicável
de pronto, aos ateus e agnósticos. No máximo,
aquela resposta deve ter deixado aturdidos muitos leitores,
que passar a cogitar sobre as razões profundas da
Conversão.
Há na conversão do Apóstolo
São Paulo as palavras apropriadas ao convertido:
o fariseu Saulo de Tarso, que recebe a Graça da conversão,
sob o efeito do extraordinário, se transforma no
Apóstolo. Nos nossos dias, às vezes, o efeito
extraordinário está em descobrir uma luz nas
coisas mais simples, pois a verdadeira revolução
em nossas vidas está em descobrir as pequenas coisas
intensas e absolutas no que mais próximo está
de nós, no menos inovador, às vezes, mesmo
o mais tradicional.
A minha estrada de Damasco está em
algum ponto de minhas freqüentes viagens como empresário,
em que cansado da vida desregrada que o materialismo pode
por vezes nos impor, trafeguei no fio da navalha da concessão
ao cinismo que parece, freqüentemente, ser a opção
única de quem começa a chegar aos cinqüenta
anos nesta sociedade brasileira deste início de século
XXI. E seja bem dito: nada tenho eu, nem tampouco o cristianismo
com o conforto de uma vida de trabalho e de recompensas
terrenas...
Lembro-me com alegria de um de meus mestres
nessa caminhada: Gustavo Corção, que também
adulto se converteu ao Catolicismo nos anos 40 do século
passado e sorria diante de perguntas dessa natureza, quando
escreveu "A Descoberta do Outro", relatando sua
conversão.
Nesse livro, Gustavo Corção
relata que recebera no início de sua caminhada no
Catolicismo a recomendação de um amigo: "Você
precisa conhecer o Alceu (Amoroso Lima)" e, de presente,
caíra-lhe nas mãos dois livros, enquanto fazia
seu próprio estudo do Catecismo. Também ele
se deparava com indagações similares, passava
por dúvidas similares, há contados 61 anos
atrás, enquanto se instruía (e se divertia
com os mestres convertidos no século XX - G.K. Chesterton
e Jacques Maritain). Tenho comigo esses livros: os do Gustavo,
os do G.K. Chesterton e alguns do mestre francês Jacques
Maritain, também convertido na idade adulta, junto
com a esposa Raïssa. O casal Maritain transformou-se
no exemplo de casal católico que honra o matrimônio
e a vida religiosa a dois.
A mesma indagação - posta em
termos mais ou menos agressivos, que dirigiam a Gustavo
Corção está descrita em "A Descoberta
do Outro" (no capítulo Nas Portas de um Reino).
Ao amigo que lhe pedia a história e o porquê
da conversão, GC responde com um livro, e uma pergunta
socrática:
- "Este livro não responde, mas
em compensação devolve o inquérito,
perguntando-lhe:
- “E você? Diga-me você os fatos que o
levaram a não se converter".
E prossegue: "Esta parece-me ser a posição
correta do problema. Uma conversão não é
um episódio; antes o fato de não se converterem
todos é que constitui um imenso episódio.
Acho hoje extremamente bizarro um inquérito sobre
a normalidade. As coisas verdadeiramente positivas, verdadeiramente
normais, resistem à narração. Ninguém,
por exemplo, irá perguntar com urbanidade ao cavalheiro
que vê na rua a sacudir a poeira das calças,
entre quatro embrulhos esparsos no chão, por que
diacho, e em virtude de que misterioso propósito,
ele se levantara."
Sabe-se que uma certa literatura e o jornalismo
em geral prezam o indivíduo que "escorrega"
- e eis a vida deste pecador: de escorregão, em escorregão,
a tombos homéricos... "Mas, depois da Conversão,
descobrimos que não há nada de tão
aventuroso e tão fascinante como a volta à
casa". É a descoberta do Outro, do Cristo que
nos induz a isso.
Cito tudo isso, com a gratidão da convivência
com os novos irmãos católicos que conheci
durante o Catecismo, dos padres estigmatinos que me orientaram
espiritualmente, na sua humildade e trabalho missionário,
do meu confessor, dos amigos com quem convivo na internet
– espaço onde não hesitei em testemunhar
minha Fé. Sou grato no meu próprio bairro,
onde vivo, desde 1981, às pessoas com quem passei
a conviver em outra dimensão como cristão.
A todos, enfim, que me receberam com singela alegria, dirijo,
agradecido essas linhas, como um testemunho, no intuito
de dizer-lhes o mesmo que este mestre da crônica dissera,
referindo-se ao Mestre dos mestres, Jesus:
- "O romance cristão só
pode ser contado a partir de um Personagem central que é,
Ele mesmo, todo o romance. Não é possível
falar em cristianismo sem começar dizendo o que o
Cristo é. Muitas vezes já ouvi falar na doutrina
cristã em função dos interesses intelectuais
e das vantagens morais, sem que o fundamento fosse um fundamento.
Esse processo parece-me pouco razoável."
Uma vez que não desejo, como Gustavo
Corção também não o desejava,
aplicar-lhe uma rasteira, desavisado leitor (e ouvinte),
aproveito a celebração da Crisma, em que me
ponho ao lado dos meus companheiros recém-convertidos
e crismandos, a quem me uno com alegria, em torno do banquete
do Senhor - nessa nossa Primeira Comunhão, para alertá-los
que o centro deste testemunho está bem traçado
com o grafite dos meus dias.
Sou católico apostólico romano
porque o catolicismo é o lar do Cristianismo, porque
eu pude sentir isso sem discussões, sem debates acalorados,
mas na solidão de muitas noites, de muitas angústias
resolvidas com o rosário em minhas mãos, com
as leituras das catequeses do Papa João Paulo, com
as palavras inolvidáveis que a Comunhão dos
Santos muitas vezes trouxeram sobre a forma de perguntas,
ou das respostas apropriadas à hora e ao problema.
Não sou católico apenas pela
enorme tradição que tem a Igreja de Cristo
- una, santa, católica, apostólica e romana
- transcende, como sabemos, a seus membros, nós pecadores,
atuando na igreja peregrina, esta que é testemunha
de Cristo no mundo, em nosso dia-a-dia de criaturas em caminhada.
Tornei-me católico porque como São Paulo,
um dia atônito, me ocorreu perguntar no meio do caminho
de minha vida:
- "Senhor, que queres que eu faça".
(Atos 9,6)
E muitas vozes ouvi, nas noites de dúvidas
atrozes sobre o legado de meu cristianismo protestante,
onde nasci e fui criado. E as resposta foram chegando, no
entendimento do culto completo, do que não foi decepado
por Lutero no ritual e na tradição. Respostas
como a de São Lucas e São Luís de Monfort
na orientação espiritual da devoção
à Virgem Maria, que passei a trazer sempre próxima
de mim, como um conforto nas horas mais difíceis
desses dois anos como neófito católico.
Sou católico não porque a Igreja
esteja numa disputa em que carregasse o galardão
de ter para si mérito maior e eu, neste grêmio,
lucrasse com isso. Sou católico não porque
apenas é meritória a ação da
Igreja Católica na Idade Média, período
no qual frutificou o ambiente exato de educação
e trabalho que nos legou a beleza das catedrais - representativas
da maior construção humana e da centralidade
do Cristianismo.
Não. Eu vos afirmo que não sou
católico apenas por isso, apesar de sentir-me feliz
com tais realizações, como também fico
feliz ouvindo os cantos gregorianos e apreciando a rica
iconografia da pintura de inspiração religiosa
- que são pontos altos da passagem humana na terra.
Não. Não é tampouco apenas pela incrível
sonoridade das missas de Bach, de Monteverdi ou de Mozart,
não é a apenas a Comunhão dos Santos
- maravilhosa conquista que, em síntese, bastam se
resumidas em quatro nomes emblemáticos.
Ah! A comunhão dos Santos, para mim, uma parte inolvidável
do Credo: Santo Tomás de Aquino, São Francisco
de Assis, Santa Tereza d´Ávila e São
Gaspar Bertoni...
Não. Nada disso nos serviria, nem serve,
como nenhuma outra mágica, ou poder encantatório
qualquer como "o fato decisivo". O fato decisivo,
o fato mais histórico, repito o Cardeal Cantalamessa:
"é a Páscoa de Cristo". Nada desse
mundo deve iludir-nos e nada pode negar ao Ser Humano o
efeito da Beleza do Cristo em nossas vidas. Aí está
a Graça, que é a única modificadora
de nossa humanidade, pela elevação a Deus:
Cristo como a Graça Divina - "modalidade nova
da presença de Deus em nossas vidas de pecadores"
- como se depreende dos ensinos de Santo Tomás, na
interpretação do Pai Nosso.
Só a Graça pode nos fazer dar
um salto ontológico, fazendo-nos seres melhores,
transformando-nos, como fez do fariseu Saulo de Tarso o
Apóstolo São Paulo, como faz de cada Crismando
hoje um membro da Igreja de Cristo, um Soldado de Cristo.
O apelo que fizeram há 61 anos, àquele
católico que me inspira hoje, salta naturalmente
à memória e relembro a intimação
fraterna que lhe fizeram, consolidando o ato decisivo da
conversão de Gustavo Corção:
- Você precisa conhecer o Alceu. Eu
diria e o Corção! E a esse convite, adiciono:
- Você precisa conhecer o Cristo!
E com isso, finalizo meu testemunho, de olho
no Altar em que, silenciosa e humildemente, repito o Nome
do que devemos, efetivamente, conhecer - o nome de Cristo,
repetindo interiormente: Louvado Seja Nosso Senhor Jesus
Cristo. Viva o Cristo-Rei!
À sombra das lições
do ser
Ah! Ler e reler o mesmo Livro
Vehementius et profundius
- A metáfora como um crivo
Ao todo cresce e aprofunda.
Em um só sou três sedentos:
É do primeiro a lança funda
De um problema e seu rebento
Eis a resposta que não finda...
Nessas águas, a ciência amarga,
Assim se mostra intempestiva.
- "Águas da ciência, úteis
e amargas"(1) .
Ora, na segunda o mistério dita:
Como sede d´água criada e ativa.
- "Os que de mim bebem, ainda têm
sede..."(2).
No caso terceiro, o Verbo eterno
É outra sede, das três a mais linda
Se de tal Beleza bebe o hodierno
Ser, água jorrando pra toda Vida...
- "Pois a água que eu lhe
der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando
para a Vida Eterna..."(3)
+++++
© *Adalberto de Queiroz, d´après "Sete
Lições sobre o Ser", de Jacques Maritain,
Ed. Loyola, S. Paulo, 2001.
Fonte: (1) J.Maritain, "Sete Lições...",
p.18. (2) Eclesiástico, 24:21.(3) João 4:13-14.
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Adrem
Atup e o Mundo da Razão
Milton Ribeiro |
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Adrem Atup nasceu na Finlândia em 1958.
Seu pai, Neila Atup, era um simpático hippie, um
andarilho que apaixonou-se pela paisagem do litoral de Parati
nos anos 70 e por lá decidiu assentar-se. Extremamente
inteligente, Adrem aprendeu no Brasil o sexto idioma de
sua vida nômade e ali começou finalmente sua
formação regular. Nunca antes tinha freqüentado
salas de aulas com a finalidade de receber uma educação
formal, e, apesar de interessar-se muito mais pela educação
cabal que recebia de seu pai e amigos, foi um excelente
aluno.
Nem ele, nem papai Neila tinham vivência anterior
de como era a vida sob uma ditadura militar, mas não
era muito difícil viver para os obscuros pintores,
artesãos, bichos-grilos e assemelhados da cidade
histórica. A dupla finlandesa logo confirmou a suspeita
de que todas as pessoas decentes eram contra aquilo.
Conviviam com artistas de esquerda e comunistas que combatiam
preguiçosamente os militares discutindo política,
bebendo as maravilhosas cachaças de Parati e pintando
quadros rústicos. Estaria enganado quem pensasse
tratar-se de um bloco monolítico, pois eles dividiam-se
em infinitesimais tendências, todas com princípios
muito claros e impermeáveis a quaisquer influências
que as maculassem. A inteligência de Adrem, tal como
a de seu pai, nunca serviu para o entendimento da política;
eram antes dois sonhadores que passavam seus dias pintando
quadros para os rarefeitos turistas que vinham à
cidade naqueles anos. Vendiam principalmente aquarelas representando
a antiga igreja da cidade vista do litoral e pequenos quadros,
cartões e broches com a figura de Che Guevara.
Quando terminou o curso secundário, Adrem prestou
vestibular e passou facilmente em Artes Plásticas
na USP. Lá, entranhou-se-lhe a certeza de que todas
as pessoas confiáveis eram de esquerda e mais, eram
atéias. Enquanto apaixonava-se pelas milhares de
reticências coloridas contidas nos quadros de Seurat,
observava vagamente a cena militar ou política, o
que parecia-lhe ser a mesma coisa. Via os eventos e ações
governamentais e registrava a presença lado a lado
de autoridades militares e religiosas prestando apoio ao
governo. Sabia, pois, que aquelas instituições
estavam juntas e continuava a ver o mundo como você
lê estas palavras, da esquerda para a direita. Aliás,
quase todos os artistas e pessoas que admirava eram de esquerda
e quem não era tornava-se instaneamente tão
deplorável quanto um leproso. O mundo, então,
era de fácil interpretação, tal como
alguns faroestes: the good and the evil, os bons
e os maus, os cronópios e os famas, os legais e os
caretas, os da esquerda e os da direita, os intelectuais
e os militares, a cultura e a religião, a luz e as
trevas.
Então, nos anos 80, o mundo tornou-se mais complexo
para o quase-apolítico Adrem. Foi uma enorme euforia
e os dois grupos da época de ditadura espraiaram-se
num complicado "espectro político". A esquerda
foi invadida pelos cristãos, alguns intelectuais
foram para a direita e o mundo começou a dividir-se,
segundo Adrem, em reformistas e continuístas. Ele
tentou ver o que aqueles intelectuais viam de sedutor na
direita e até procurou ler seu nome da direita para
a esquerda, mas não gostou do resultado. Assim, permaneceu
entrincheirado na sua vaga esquerda artística, humanista
e solidária. A nova mania de ver o mundo sob outra
ordem, deixou-o viciado em palíndromos, tendo composto
verdadeiros clássicos no gênero, tais como
"Ame o Poema", "Ata-nos, sonata" e "Metáfora,
farofa tem".
Como sói acontecer, o mundo seguiu dando seus giros
e Adrem fez-se um respeitado artista gráfico trabalhando
em uma agência de publicidade paulista. Casou-se com
uma ex-militante comunista com sobrenome cheio de flores,
tiveram um filho e ele começou a ser cooptado por
cristãos. Um deles, grande e querido amigo, tomara
a si a missão de torná-lo cristão.
Nada mais natural: mesmo sendo Adrem um talentoso, ocupado
e bem pago artista gráfico, mesmo e apesar disto,
ele preocupava-se em reservar parte de seu tempo para trabalhar
voluntariamente junto a uma associação de
caridade que, como sói acontecer, repito, era ligada
a uma instituição religiosa congregada ao
Vaticano. Tinha, pois, contatos semanais com pessoas que
achavam incompreensível que alguém tão
ético, humano e solidário fosse um ateu. Elas
falavam na palavra "ateu" como se pronunciassem
uma palavra feia, como se fossem crianças de 5 anos
dizendo o nome de Adrem Atup de trás para diante
perto de seus pais. Ele achava engraçado e não
pensava muito no assunto. Comentou sobre isto com sua mulher
e, sendo ela uma intelectual cultíssima politicamente,
citou-lhe Marx, Gramsci, Arendt, Adorno, Luckács
e outros, procurando explicar-lhe o que estava acontecendo
- coisas que ele ouvia desatento.
Numa bela manhã de novembro, sua esposa pediu a
separação. Em depressão, Adrem despojou-se
de todo seu pequeno patrimônio. Surpreendeu-se com
a voracidade que a ex-comunista revelou ao procurar assenhorar-se
de tudo o que fosse possível, no que ele cedeu. Com
a mesma sem-cerimônia com que aplicava Botox em seu
rosto, ela procurava cristalizar para si tudo o que pudesse
passar perto de ter algum valor monetário. Em contrapartida,
o desinteresse de Adrem sobre seu futuro era completo. Após
a separação, ela passou a provocar contatos
mais longos somente se quisesse examinar mais de perto a
possibilidade de ele pagar um pouco mais para ela e o filho.
Sem dúvida, o mundo ficara ainda mais complexo.
Havia cristãos amigos procurando salvar-lhe a alma,
falando-lhe em conversão e emocionando-o com histórias
de perdão de São Francisco de Assis; havia
ex-comunistas ensinando-lhe a como ser pragmático,
focado e açambarcante num cesto de ofídios;
havia um governo de esquerda em quase tudo semelhante ao
anterior e havia alguém que girava a uma velocidade
inferior a do mundo e que permanecia quieto, observando
tudo passivamente, não aderindo a nada e com um pouco
de medo.
Observações: antes que me acusem de plágio,
tenho que que dizer que:
(1) O título desta crônica foi adaptado de
um romance (é isto mesmo) de Tennessee Williams;
(2) Seurat é um pintor francês que pintava
pontilhando seus quadros com cores. A analogia com reticências
foi feita pelo escritor Louis-Ferdinand Céline, o
rei das reticências;
(3) A "enorme euforia" veio, evidentemente, da
letra de Apesar de Você, de Chico Buarque;
(4) O verbo "espraiar" veio dos discursos de Olívio
Dutra;
(5) A idéia de fazer o leitor conferir o nome de
Adrem Atup de trás para diante veio da leitura dos
geniais, verdadeiramente extraordinários e poéticos
palíndromos de César Miranda, que é
o autor de "Ame o Poema", "Ata-nos, Sonata"
e "Metáfora, farofa tem", é claro;
(6) A comparação - tão a propósito!
- feita com o comportamento dos ofídios veio através
de um e-mail de uma amiga.
Esta crônica é respeitosa e envergonhadamente
dedicada a Adalberto Queiróz e César Miranda.
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A
história da rainha de Nazaré
Rafael Tourinho Raymundo |
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(uma alegoria para a influência da Igreja
nas pessoas sem iniciativa)
Pudesse ela voltar a ser o que fora e sua vida seria mais
pura. Por vaidade,
seus semelhantes traíram-lhe, mas não por
frescura. Nunca houve loucura no
peso de sua idade, nem insanidade que lhe trouxesse agrura.
A usurpadora
indigna de um trono, mantenedora de um oprimido povo, agora
definhava sob a
tortura da verdade, pois perdera a coragem para enfrentar
seus demônios de
novo.
Disseram ser seu reino um castelo de incertezas. Porém,
seu fiel povo, nele,
combatia sua fraqueza. Tristeza dissipava-se num poço
de amor e compaixão e,
tarde ou não, o perdão era concedido pela
simples beleza duma flor em suas
mãos entregue. Jamais haveria de ocorrer temor entre
as paredes de sua
fortaleza. Por momento nenhum a dor abalaria sua fé.
Seu nome, Nazaré, e sua
figura, eram a personificação da ventura de
ser mulher entre crentes, assim
como ter o poder era a fonte de sua riqueza.
Entrementes, num principado não muito distante,
brlhava não mais o semblante
dum jovem de vestes surradas. Minguante era seu rosto, madeixas
louras
mal-tratadas. E manchas secas de lágrimas, derramadas
por causa de uma
farsante. Tivessem suas idéias não sido caladas,
quiçá seus sonhos fossem,
então, reais: pessoas em busca de ideais, potenciais
e talentos
aproveitados, homens honrados tornando-se marechais. Contudo,
tal brilhante
cruzada por conhecimento nunca haveria de ser executada,
devido a uma
ganância ofuscante e uma vida, por pecados, maculada.
Vibrante, agora,
encontrava-se uma mulher que, de tempo em tempo, trocava
moedas de cobre por
silêncio. Dita tão nobre que, penso, seu nome
deveríeis saber qual é:
Nazaré.
Calavam-se bocas e desfaziam-se ilusões, porém
as legiões de mentes ocas
cresciam. Pouquíssimo sabia o povo sobre sua rainha
– era fada-madrinha que
os amparava, isto já lhes bastava. Anulavam sua infância
simplória, seu
passado sem glória, sua quase ruína e desgraça.
Farsas e mentiras não tinham
lugar na História. Pelo contrário, viravam
chalaça nas alcovas da sociedade
real. Natural, entre a realeza e as famílias de nobres
brasões.
Até que um dia voltara Duílio. Acabara seu
exílio em terras do
norte. A sorte dera a uma de suas amantes um filho; a sua
esposa, Nazaré,
coube o idílio de ser governante. Não fosse
a morte da verdadeira família
real – misterioso veneno nas louças e pratarias
– pouco provável seria que o
reino estivesse àquela senhora curvado. Por outro
lado, para o povo fora
bom, uma vez que o dom de Sua Majestade em acalentar suas
duras penas
tornava amenas as dificuldades. Tão suave era a vida
agora, muitos
rejeitaram o retorno do rei, temendo a volta dos entraves
e problemas
descomunais, que então não pareciam tão
banais.
Ademais, Duílio nunca fora governante sério.
Sua vida,
inclusive, era envolta em intrigante mistério. Por
razão desconhecida fora
afastado de seu cargo – quão amargo era o sabor
da rejeição! Desilusão que o
afastou de seu terreno largo, o qual sonhava transformar
em império. O gosto
da vingança seria mais doce, demorasse o tempo que
necessário fosse.
Um armário repleto de esmeraldas, topázios,
jóias e outras
relíquias: seria isto mais que suficiente para que
a tramóia fosse
executada. Bastaria um bando de cunhados safados, sedentos
por rubis em ouro
encrustados. Bastaria acessores ávidos por poder,
e amas mal-tratadas. Um
complicado estratagema e um grande problema solucionado.
Uma cilada para a
rainha, que não se fez adivinha a tempo de camuflar
suas verdades. Em todas
as cidades se falaria sobre como a população
fora enganada, como,
desmascarada, sucumbira a senhora do povo. Fora capaz de
amar cada súdito, é
fato, porém num súbito seu segredo fora contado,
num ato. Só não vos explico
cada detalhe por falta de tempo e ordenado.
Ao fim de tudo, o rei voltara ao seu devido posto. A esposa,
seu
escosto, fora poupada, mas nunca haveria de recuperar seu
prestígio. Temia
não receber perdão divino, mas acreditava
ter feito o bem para os seus.
Nenhum deus decera ao palácio e explicara-lhe a penitência.
Entretanto, com
veemência, rezaria por anos, em remissão.
E um prodigioso rapaz de cabelos louros, agora, bradava
alegremente seus
pensamentos de liberdade, ainda que sua felicidade não
fosse completa, uma
vez que sua meta não fora devidamente alcançada.
Muitos cidadãos tomaram
Nazaré como santa – o que me espanta, pois
sei de suas maldades. Na
realidade, temeram enfrentar mais uma vez obstáculos.
Adotaram oráculos e
montaram altares onde o corpo dum padre repousa; nunca fora
a mesma cousa,
sempre houve do que reclamar. Não mais havia rainha
para adorar.
Alguns jogaram-se ao mar, outros esperaram resposta. Fui
um dos que ouviram
o rapaz e foram atrás de uma vida interessante. Hoje
sou comerciante. E
sempre há quem bata em minha porta a pedir auxílio,
pois Duílio não
acalenta. E eu respondo que quem tenta chega aonde quer.
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A fé
move montanhas
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
A FÉ MOVE MONTANHAS
Guindastes e pás também!
TUA FÉ TE SALVOU
Os remédios ajudaram um pouquinho!
TENHA FÉ E NADA DE MAL VAI TE ACONTECER
Desde que você se cuide, tenha sorte,
etc, etc.
A grande desculpa religiosa para as mazelas
ocorridas com quem tem fé é que Deus escreve
certo por linhas tortas, porém a gente que faz a própria
história de vida. Talvez seja chover no molhado, falar
de destino e coisas assim. O que posso dizer é que
sou uma prova viva que coincidências podem ser muito
mais que meras casualidades, já que está escrito
que Deus não joga dados. Tenho que acreditar que o
dia 11 de maio (não 11 de setembro) estabeleceu uma
grande mudança na minha vida. Eu, que já estava
acomodado, achando que minha vida estava ganha, mudei radicalmente.
Passei a cuidar mais de mim e preciso cuidar mais e mais.
Sempre recomendo que as pessoas vejam o filme Dom Juan de
Marco. Ele mostra claramente a mudança daquele psiquiatra,
que, ao conviver com alguém que busca tornar cada momento
da vida inesquecível.
Para mim, isto que se chama ter fé, buscar cada dia,
dentro de si mesmo, forças para ser melhor.
UMA ESMOLINHA, POR FAVOR!
É PRECISO SER HUMANO.
Bela frase. Não sei se tem alguma autoria
ou se quem a criou é um Zé Ninguém.
A OCASIÃO FAZ O LADRÃO.
Bela frase. Não sei se realmente conseguimos
ser humanos, deste jeito.
Restam-me poucas linhas para tentar explicar
o que sinto cada vez que um suposto mendigo me pede uma moeda.
O que faz uma pessoa chegar a este ponto. Será que
ele não teve fé ou não tiveram fé
por ele?
Estamos diante de um dilema, criamos este mundo onde é
necessário ter fé para que nada aconteça
conosco por meio de ações maldosas de outros
seres humanos. Será que não fomos nós
os primeiros maldosos? Bom de nada adianta melhorar os sistemas,
não quero mendigos melhores, ou melhores formas de
distribuir dinheiro pela janela do carro. Tenhamos fé,
de um jeito ou de outro, vamos ser mais humanos. Nem que seja,
de ré na contra-mão.
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Do
100.
Roberto Yukio Iwai |
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Primeiramente peço, caso queiram e
muito obrigado, ouvir uma canção que faz parte
do repertório de meu projeto musical, o 50/60.
Se chama “O Tempo Infinito”, e serve como ilustração
para o pouco que tenho a dizer. Espero que ouçam,
e fico feliz caso o façam.
A concepção dos termos musicais
dessa música casa perfeitamente com o que tenho a
dizer sobre a questão religiosa na música.
Quando tomei as minhas influências fiz uso de um tal
“som dos anjos”, de uma banda bastante conhecida
chamada Beach Boys. Esse som, nomeado assim por conter harmonias
e climas sonoros que remetiam a uma visão divina
da ascensão do céu, teve como uso da religião
metáfora para as viagens comuns naquela década,
a de 60. Na visão do idealizador Brian Wilson, no
trabalho Pet Sounds, o som daquele modo se fundia
às visões realistas de ser humano como ser
de carne e osso junto à referência de viagem,
que em termos lisérgicos e químicos, era um
universo que não pertencia em um mesmo plano metafísico
comum.
No caso não musical, as letras não
se encaixavam em nenhum assunto que fosse ligado ao divino.
Sempre eram sobre relacionamentos, uma vida mais pacífica,
mas tudo dentro de nossa mente e vida, que não interligamos
necessariamente com a temática religiosa. Ao ouvir
tais músicas, estávamos em outro tipo de céu,
onde não havia Deus presidindo, mas sim cada um de
nós em estado pleno de espírito, corpo, alma,
humor, sorrisos. O verdadeiro paraíso. Mas não
um paraíso pejorativo, mas sim um paraíso
de acordo com as nossas capacidades e desejos gerais de
criação.
Na música, quando determinado ser humano
tenta alcançar o céu ou o inferno, não
é feito da mesma forma que fazemos quando interpretamos
isso de maneira real, comprometedora. Salvo raras exceções,
como no mundo da música segmentada onde há
divisões tais como “som do Satã”
ou “música gospel”, o céu e o
inferno nos pertence assim como alegria e tristeza, medo
e confiança. Nos pertence dentro de nossa mente,
e não abaixo ou acima de nossos pés.
Brian Wilson como exemplo, tentou fazer com
que os Beach Boys soassem realmente como anjos, isso como
os anjos residem no imaginário de nossa mente: seres
sublimes, de voz harmoniosa, que não apenas cantavam
surf music, mas também som para alcançar algo.
E esse algo, o céu, não foi discurso que Wilson
de repente descobriu em uma Igreja Universal do Reino de
Deus, mas sim a metáfora para as distorções
que estava passando dentro de sua mente. Assim, o significado
de céu é muito mais coerente da forma como
foi expressada, na música, do que se fosse explicada
verbalmente pelo próprio Brian. No mínimo,
interpretariam como algum lunático que se converteu
a Jesus Criso de maneira fanática.
Nos anos 60, a abordagem desse céu,
desse inferno, era constantemente usada pelas bandas que
seguiam o que viria a se chamar “música psicodélica”.
Os extremos pertencem muito ao mundo das drogas, e este
contacta imediatamente o cérebro humano. o céu
era explicado como uma lisergia que fazia bem à mente,
uma fuga da realidade que não causasse seqüelas
no final. O inferno era a mente entrando em transe de quantidades
enormes de químicos. Quando muitas vezes, não
havia volta. Mas tudo isso é relativo, tendo em vista
que depende muito da mente de cada um, e do uso de cada
um.
Na década de 70, houve ainda essa abordagem
com as bandas da sonoridade progressiva. Pink Floyd, após
as viagens conturbadas de seu primeiro líder Syd
Barrett, tentava alcançar sempre uma sonoridade que
te fizesse planar na imensidão, pensar com as frases
que para a mente comum de muitas pessoas simplesmente não
fazia sentido algum. Perigava a nós cair dessa imensidão
a cada final imenso de solos de órgão, passagens
de guitarra ou vocais melodiosos e macios, o Floyd é
um exemplo básicos desse alcance mental.
Mas o fato é que essas duas décadas
giraram em torno dessa temática. Já nas décadas
seguintes, o tema de religião passou a ser descrito
em letras, atitudes e posicionamento. “Lúcifer
Now!”, ou “Jesus Nos Salvará”,
essas questões.
Até esse ponto, eu espero que tenham
ouvido tal música de minha autoria que eu citei acima,
mas caso não, para ilustrar musicalmente e finalizar,
deixo um apanhado de canções que tornam claras
essa abordagem, mais do que eu ao tentar explicar esse ponto-de-vista
musical.
um apanhado de canções
sobre ascensão sonora
01 - The Polyphonic Spree “Light and
Day / Reach For The Sun” [2002]
02 - Brian Wilson “Surf’s Up” [2004]
03 - Elliott Smith “Everything Means Nothing To Me”
[2000]
04 - Ronnie Von “Espelhos Quebrados” [1968]
05 - The Beach Boys “Wouldn’t It Be Nice”
[1967]
06 - Beachwood Sparks “The Sun Sorrounds Me”
[2001]
07 - Pipodélica “João Ninguém
e o Quadro Novo” [2000]
08 - The Zombies “A Rose For Emily” [1967]
09 - Wondermints “Shine On Me” [2000]
10 - David Bowie “Space Oddity” [1969]
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Liberdade,
Igualdade, Fraternidade
Sara Flech Neves |
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Você deve saber de onde vêm estas
três palavras: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.
Sim, isso mesmo, França, lindo país, local
de origem da primeira Declaração do Direitos
do Homem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789. Meu
texto não tem nada a ver com a França, mas
estas são palavras inspiradoras, não são?
Você é livre? Pare e pense por
alguns minutos, se precisar, algumas horas. Seus ancestrais
eram livres? Tome algum tempo e vá fundo em sua árvore
genealógica, seja qual for a sua nacionalidade ou
a de seus antepassados. Todos nascemos livres. Mas somos
de fato livres? Em toda a magnitude possível desta
tão almejada condição chamada liberdade?
A resposta é triste. Aquela menina que lhe ofereceu
chicletes no sinal hoje de manhã é livre?
Os milhares de trabalhadores que ganham R$ 260,00 por mês
são livres? Não. Nem você.
O sonho de liberdade custa caro, não
só dinheiro, mas custa tempo, eras inteiras, muitas
vidas sucumbiram ao longo dos séculos atrás
deste sonho. Refleti muito sobre o que deveria escrever
para esta edição especial, busquei alguns
fatos na história, pesquisei sobre alguns temas com
pontos em comum: a liberdade, a igualdade, os direitos humanos
acima dos valores estéticos e religiosos, a educação
e a capacidade humana de não perder jamais a esperança.
Escravidão. Que palavra horrível,
em qualquer idioma, ela dá arrepios. Seja ela física
ou mental, causa danos irreversíveis. Seja ela cometida
contra homens, mulheres ou crianças, seja por necessidade
(riqueza) ou por diferenças. É inaceitável.
De todas atrocidades cometidas na Terra, tem uma que me
choca diariamente: o preconceito contra os negros, na mídia
é descarado, nas universidades, nos locais de trabalho,
nas ruas, e o pior local de todos: em nossas próprias
mentes.
Sou descendente de negros e, de acordo com
pesquisas científicas recentes, toda a humanidade
é também e está indiretamente ligada
por mães mitocondriais, característica passada
de mãe para filha (os homens não carregam
esta herança), ou seja, a as fêmeas que se
espalharam pelos continentes e deram à luz por várias
gerações, estão ligadas por esta característica,
portanto somos todos parte de uma gigante família.
Palmas para a ciência. As diferenças raciais
por assim dizer foram formadas a partir da necessidade de
adaptação em regiões diferentes do
planeta. Após milhares de anos de evolução,
nenhum louro de olhos azuis poderia admitir que era descendente
de africanos.
O ato de escravizar não foi única e exclusivamente
feito com os negros, mas, com certeza deixou maiores cicatrizes
no povo africano do que em qualquer parte do mundo. O negro
africano era mercadoria, não era gente. Era escolhido
pela beleza física, força e capacidade de
trabalho. Não era considerado como ser humano, era
um animal selvagem. A África sofreu calada por séculos. A riqueza de toda nossa sociedade moderna está
estabelecida em cima de corpos negros.
A “abolição da escravatura” aconteceu
aos poucos e em diferentes países desde o inicio
do século XVIII, não somente por causas humanitárias,
mas também por interesses políticos e econômicos.
Em 1776 o economista Adam Smith incentivou a abolição
da escravatura pois a considerava prejudicial à economia.
Declarou que ter escravos era mais caro do que ter trabalhadores
livres. A Dinamarca aboliu o comércio de escravos
em 1792.
A Grã-Bretanha em 1807 e os EUA em 1808. No Congresso
de Viena, em 1814, praticamente quase todos os países
europeus fizeram leis ou assinaram tratados proibindo o
comércio de escravos.
Em 1815 Portugal aboliu a escravatura no Brasil. A França
aboliu somente em 1818, quase cem anos após a revolução
pela igualdade, irônico. A partir de 1824 o comércio
de escravos era considerado pirataria e, depois de 1837,
quem o praticasse era condenado à morte.
No Tratado de Ashburton de 1842, a Grã-Bretanha e
os EUA concordaram em manter esquadrilhas na Costa Africana
para reforçar a proibição do comércio
de escravos e, em 1845, as marinhas francesa e inglesa juntaram-se
num esforço para controlar este comércio.
Os Franceses libertaram os seus escravos em 1848 e os Holandeses
em 1863.
Nos EUA, em 1865, foi ratificada a 13ª Amenda à
Constituição, abolindo a escravatura em todo
o país. No Brasil a escravatura só foi abolida
em 1888 com a Lei Áurea.
Mas a abolição da escravatura moderna está
longe de acontecer de verdade. Veja os fatos da história
mundial após 1888, veja as estatísticas apresentadas
na mídia, negros ganham menos, perdem vagas para
brancos, morrem mais, não tem acesso a cultura, ao
estudo, são descriminados de várias formas
possíveis, inclusive quando estão em papéis
de destaque na sociedade, a cor negra é associada
ao ruim, ao sujo, ao maligno. Você nunca disse em
um momento crítico algo como “a situação
está preta”? Disse sim.
Entre 1899 e 1902, na África do Sul,
ocorreu a famosa guerra dos Boers, luta entre colonizadores
britânicos/holandeses e nativos. Motivo: jazidas de
diamante, ouro e ferro. Após 1902 passaram a definir
a política de segregação racial como
uma das fórmulas para manterem o domínio sobre
a população nativa. Esse regime de segregação
racial - conhecido como apartheid - começou a ficar
definido com a decretação do Ato de Terras
Nativas e as Leis do Passe. O Ato de Terras Nativas forçou
o negro a viver em reservas especiais. Vinte e três
milhões de nativos ocupavam 13% do território
enquanto que os outros 87% eram ocupados pelos quatro milhões
e meio de brancos. Negros não podiam comprar terras
fora da área delimitada.
As “Leis do Passe” obrigava os negros a apresentarem
o passaporte para poderem se locomover dentro do território,
para obter emprego. A partir de 1948, quando os Afrikaaners
(brancos de origem holandesa) através do Partido
Nacional assumiram o controle hegemônico da política
do país, a segregação consolidou-se
com a catalogação racial de toda criança
recém nascida, com a Lei de Repressão ao Comunismo
e com a formação dos Bantustões em
1951, que eram uma forma de dividir os negros em comunidades
independentes, ao mesmo tempo em que se estimulava a divisão
tribal, enfraquecia-se a possibilidade de guerras contra
o domínio da elite branca.
Mesmo assim a organização de mobilizações
das populações negras cresceu. Em 1960 cerca
de dez mil negros queimaram seus passaportes no gueto de
Sharpeville e foram violentamente reprimidos. Greves e manifestações
aconteciam em todo o país, combatidas pelo exército
nas ruas. Em 1961 houve a ruptura com a Comunidade Britânica
e foi fundada a Lança da Nação, braço
armado do CNA. Em 1963 Nelson Mandela foi preso e condenado
a prisão perpétua por sabotagem e conspiração
contra o regime da minoria branca. Nelson Mandela, entre
outros líderes negros, foi inspirado pelo Imperador
Haile Selassie da Etiópia, outro lutador contra o
preconceito. No ano em que Nelson foi preso, Selassie participou
de uma Assembléia das Nações Unidas
em Nova York no dia 04 de Outubro, seu discurso, anos mais
tarde viria a inspirar Bob Marley na famosa canção
“War”. Segue trecho abaixo:
“Até que a filosofia que torna uma raça
superior e a outra inferior for finalmente e permanentemente
desacreditada e abandonada: e até que não
existam mais cidadãos de primeiras e segundas classes
em nenhuma nação; até que a cor da
pele de um homem seja tão insignificante quanto a
cor de seus olhos; até que os direitos humanos básicos
forem igualmente garantidos a todos sem distinção
de raça; até este dia, o sonho da paz duradoura,
de uma cidadania mundial e da soberania da moralidade internacional,
permanecerá uma mera ilusão a ser perseguida,
mas nunca alcançada; e até que os regimes
ignorantes e infelizes que mantém nossos irmãos
em Angola, em Moçambique e na África do Sul
em escravidão sub-humana forem destruídos
e vierem a cair; até que a intolerância, o
preconceito, a malícia e o egoísmo desumanos
forem substituídos por compreensão, tolerância
e boa vontade; até que todos os africanos se levantem
e falem como seres livres, iguais perante os olhos de todos
os homens, e eles estão nos olhos do céu;
até este dia, o continente Africano não conhecerá
a paz. Nós africanos lutaremos, se necessário,
e sabemos que iremos ganhar, pois estamos confiantes da
vitória do bem sobre o mal...”
Nelson Mandela saiu da cadeia em 11 de Fevereiro de 1990,
vinte e sete anos após sua prisão. Em 1993
ganhou o Prêmio Nobel da Paz ao lado do também
sul africano Frederik Wellem de Klerk pelo trabalho contra
a segregação racial e o processo de democratização
do país.
Em 10 de Dezembro de 1948 na Assembléia Geral das
Nações Unidas foi estabelecida a Declaração
Universal dos Direitos Humanos. No Artigo 1 está
escrito: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade
e direitos. São dotadas de razão e consciência
e devem agir em relação umas às outras
com espírito de fraternidade. No Artigo 2: Toda pessoa
tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos
nesta Declaração, sem distinção
de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo,
língua, religião, opinião política
ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza,
nascimento, ou qualquer outra condição. Quem
quiser conferir na íntegra, acesse www.unicef.org/brazil/dir_huma.htm
A luta continua até hoje. Somos todos “livres”
e iguais perante os olhos de Deus. Então lute pelos
seus direitos. Busque a sua liberdade.
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comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
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