Simplicíssimo
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Introdução à uma Estética Anarco-Humanista

Por terem crescido em mundos diferentes, sofrido estímulos diferentes, raramente uma discussão entre cristãos e humanistas é proveitosa. Razão primordial para aproveitar uma oportunidade como esta proporcionada pelo Simplicíssimo em que alguns cristãos e humanistas (entremeados com um ou outro não tão convicto de sua posição) se dispuseram a encarar, com extrema sinceridade e criatividade, o tema em questão.

Começo este brevíssimo ensaio com uma visão particular de cunho humanista, inspirada em textos de H.J.Blackham, Kathleen Nott e de Kingsley Martin, constantes em uma obra chamada “Objeções ao Humanismo”. Certo da impossibilidade de extinguir a discussão sobre o assunto nas linhas que se segue, fica o convite à reflexão e ao debate do tema proposto. Segue-se o emaranhado de meus pensamentos com as idéias propostas pelos pensadores acima citados, sempre com a consciência de que somos os quatro muito mais do que a individualidade que representamos.

O Humanismo pode ser visto como uma preocupação íntima e profunda com o completo desenvolvimento da potencialidade e da personalidade humana que só pode ser a experiência de indivíduos reais. É pouco provável que existam muitas pessoas assim em cada geração. O tornar-se humano dependem de um discernimento e visão imaginativa – artística, filosófica, pessoal e de relação – que devem ser excepcionais para sua plena realização.

Como diz H. J. Blackham, talvez a nota característica do Humanismo seja um materialismo altruístico, terreno e apaixonado.
O humanismo aspira ser simples com os mais simples e a ser mais filosófico do que as escolas e mais religioso do que as seitas e mais político do que os políticos.
Fé sem obras não é Cristianismo e o ateísmo que não faz esforço algum para ajudar a humanidade a arcar com suas conseqüências não é Humanismo.
Se alguém desperta de um sentido de ilimitada dependência para uma suposta independência ao invés de para uma ilimitada interdependência está operando uma troca de ilusões, para pior.
A responsabilidade ilimitada e compartilhada na criação das condições de toda uma vida merece ser chamada de humana, eis o colossal empreendimento a ser assumido pelo homem sem Deus.

Os filósofos, inevitavelmente, são cerebrais e na atualidade com freqüência agnósticos. O mesmo acontece com os cientistas. No entanto, não apenas os filósofos e os cientistas mas também os matemáticos têm um interesse real e penetrante pelas artes. Em alguns, este interesse justifica uma necessidade terapêutica mas, também, pode ser nada mais que o reconhecimento de que toda a inteligência humana deve aprender a se equilibrar.
Somos ainda, em grande parte, como humanidade, altamente desaparelhados para satisfazer a um desenvolvimento satisfatório equilibrado e harmonioso entre lógica e análise de um lado e imaginação e intuição de outro, em uma só mente e personalidade.

O que propomos aqui é um exercício de pensar. Sabemos que para a grande maioridade das pessoas o pensamento é um esforço doloroso e preferem passar sem experimentar. Se for o seu caso, para a leitura neste ponto.
Não estou atribuindo nenhuma superioridade àquele seleto e estranho bando de pessoas que tem uma inclinação para o raciocínio abstrato quando digo que, neste sentido, a maioria das pessoas não pensa. Em um sentido prático, obviamente, todos pensamos quando temos que resolver este ou aquele problema, mas não é disso que falaremos.

A linguagem dos homens e das mulheres comuns é muito mais parecida à dos poetas ou mesmo à dos namorados do que à dos filósofos. Estão sempre dizendo “o que eu gosto, o que me desagrada, o que me interessa, o que me aborrece”. Dizer o que se vê pela janela do ego é construir uma ponte entre um suposto mundo interior e o exterior. Dizer é presumir que há, em um mundo externo, algo sobre o quê algo possa ser dito. Significa uma fé animal sobre a existência do mundo e das coisas.

O problema histórico do Humanismo foi negar esta fé essencial materialista e aceitar, durante algum tempo, o racionalismo radical de alguns filósofos e outros intelectuais ocidentais. Deixou de acreditar em tudo aquilo no qual não se via a razão.

Hoje, minha crença se baseia no fato de que, ser analítico demais, pedir explicações, razões e justificações morais e lógicas pode acabar por destruir as relações humanas. Entretanto, não há como negar que, tanto entre os racionalistas quanto entre os religiosos uma certa ânsia por uma certeza final caracteriza a todos.

O problema pode estar justamente no fato de que se criou uma polarização do tipo “ou isto ou aquilo” em que ambos lados polemizadores tentam achar provas de que a sua verdade é a verdadeira. Cria-se uma guerra em que, na realidade, a verdade é a primeira vítima.

Pensar ou raciocinar é aprender a ver o que tem para ser visto. Isto implica em aprender a ver por si próprio e sustentar e arcar com a responsabilidade das conclusões tiradas. Isto não significa que uma pessoa tem que ter “razão”. Existe um padrão de pensamento que é válido aos seres humanos que se preocupam com suas próprias vidas qualquer que seja ela em um determinado momento. Pensamos corretamente quando pensamos com uma finalidade real em um campo real. Este parece ser o único método de realizar uma adaptação criadora ou uma fecunda transformação em nosso meio-ambiente – que aqui podemos chamar de Progresso, em um sentido amplo.

Acontece que, justamente esta ênfase na capacidade da ciência como criadora de progresso tornou-se alvo de crítica aos combatentes do Humanismo oitocentista, já que, ao que parece, por onde quer que se olhe, o evangelho do progresso nos está conduzindo não à Utopia prometida mas a uma maior miséria social e até quem sabe – já se falou mais sobre isso – a uma solução final através de uma guerra nuclear.

Essa visão humanista é, hoje, obsoleta. Continua-se a ter o direito de pretender que o Humanismo possa apresentar o caminho para uma sociedade melhor e para formar melhores seres humanos, desde que não comenta o erro de prometer ilimitados desenvolvimento e progresso ininterrupto – mais característicos hoje de uma ciência irracional e sem rumos definidos.

É importante perceber também que vivemos em um mundo dividido em que a elite instruída rejeita a religião revelada pois a mesma carece de verdades objetivas. Pode-se dizer até que, entre cardeais, bispos, ministros e governantes que pregam a fé que se empenham em manter através da propaganda, da censura e do controle através da educação não existe mais a crença absoluta no que é pregado, exceto talvez ainda sob um aspecto simbólico.

A fé humanista consiste em que a razão pode desempenhar um papel decisivo e que as doutrinas religiosas podem ser, na maior parte, obstrutivas. Vide o exemplo do Oriente Médio e das contínuas guerras santas entre judeus e palestinos.

Tornou-se um dever, e não apenas uma linha sensata de conduta, trabalhar em prol de uma sociedade universal. O futuro depende de nós e não de qualquer doutrina. Devemos acreditar que os homens progridem não para a Utopia ou para a perfeição e sim para uma sociedade mais feliz e mais razoável.

Este ensaio tem a notável pretensão de, utilizando críticas ao Humanismo, mostrar quem sabe, uma visão alternativa às críticas feitas. Uma das mais drásticas críticas feitas ao Humanismo é a de que ele é ruim demais para ser verdade. O mundo é uma vasta tumba, as vidas humanas são efêmeras e a própria vida humana está fadada à extinção final . Todas as religiões evoluídas fazem frontal oposição a tudo isto, dizendo “o eterno apenas”, “o temporal redimido pelo eterno”, nunca “o temporal apenas”.

Nas palavras de Bertrand Russel, ateu de carteirinha: “O Homem é o produto de causas cujas finalidades a alcançar não são previsíveis; a origem, o desenvolvimento, esperanças e temores, amores e crenças humanas nada mais são do que uma acidental disposição dos átomos; nem o ardor, o heroísmo ou um pensamento ou emoção intensos pode preservar a vida individual além do túmulo; todo o trabalho das gerações, toda a inspiração, todo o resplendor do gênio humano está destinado à extinção na vasta morte do sistema solar e todo o templo das realizações do Homem deverá ser, inevitavelmente, sepultado sob os escombros de um universo em ruínas”.

Explica-se através de uma metáfora, que o Humanismo veria a vida como uma ponte sobre um desfiladeiro que se estende apenas até a metade da distância e acaba no ar. Esta ponte estaria abarrotada de seres humanos que se empurram um após o outro caindo no abismo. Não importa que, ao subir na ponte, eles pensem que estão indo a alguma parte, nem os preparativos para a viagem que possam ter feito, nem o quanto possam apreciá-la. A visão resultante desta crítica representa a vida como um modelo de futilidade.

Tal exemplo se presta a uma interessante perspectiva, que é a que pessoalmente levo comigo há algum tempo, que chamo de Mudança Radical da Imortalidade, e serve de crítica à crítica acima apresentada.

A busca da imortalidade cristão se dá através da crença na permanência da individualidade da alma em um paraíso além, prometido pela religião revelada através das Sagradas Escrituras.
Não sei bem ao certo quando, mas meu coração rejeitou e deixou de aceitar esta crença há um bom tempo atrás. Ao mesmo tempo em que esta crença foi destruída, surgiu em seu lugar uma outra, mistura de vários estímulos recebidos em essência de leituras e experiências pessoais, em que a noção de individualidade foi deixando lugar para a noção de impermanência e de União e interdependência constante com o Universo, características da crença budista. Como não pratico os hábitos, não posso me considerar nem de longe um budista.
Mas, voltando à minha noção de Imortalidade, acredito que devemos mudar o foco de nossa preocupação de enfrentar nossa extinção e de um desejo desesperado de reencontrar aqueles que perdemos para uma preocupação em como levar nossos filhos e sucessores a terem uma vida mais feliz aqui, nesta existência, aprendendo (e ensinando) a praticar as leis do bem-estar.
Uma vez que tenhamos aceito o fato de que o mundo aqui pe como nós o fazemos, nosso problema se transformará em um problema de comportamento humano, passaremos a viver com uma preocupação ecológica, nos tornaremos verdadeiros humanistas e poderemos deixar de lado as crenças religiosas de busca após a Morte de uma religação a uma entidade superior, tendo em vista que já estamos ligados a esta entidade superior que é a própria Natureza em toda sua imponência e majestade, em todas suas instâncias físicas, químicas e transcendentais.

De qualquer maneira, não sabemos ainda o quanto podemos mudar da natureza humana, mas temos muitas evidências de como podemos mudar o comportamento humano para melhor, mesmo se o processo for menos simples e depender de menos melhorias óbvias na situação física do que imaginávamos há tempos atrás. Este é o limiar para um novo conhecimento. O futuro da humanidade depende mais do nosso conhecimento da mente humana do que do sucesso que podemos ter com as viagens espaciais ou quem sabe até em atingir as estrelas longínquas.

A fé cristã tenta evidenciar como seu principal mote, uma finalidade cósmica para a individualidade humana. A promessa da vida no além como justificativa para o bom comportamento na vida terrena. Qualquer tipo de moral ou ética sem esta finalidade cósmica não poderia se manter e se perpetuar através das gerações.

O Humanismo propõe um desafio que resolvi aceitar. Proponho aqui a valorização das finalidades individuais e coletivas como um fim em si mesmas. A Vida como fim da Vida ao contrário da Morte como fim da Vida, como quer o cristianismo.

Se assim for, não é a reflexão sobre a experiência mas a experiência em si o fim último da Vida. E, chegando a essa conclusão, nos damos conta de que, viver é, na realidade, um churrasco com os amigos no fim-de-semana, onde se contam piadas e nos divertimos, em um mundo sensual e finito. Mas não só isto: é necessária a percepção consciente destes fatos, que muda totalmente nossa vivência de uma simples rotina de repetição animal das ocorrências do dia-a-dia para uma vivência baseada em escolhas verdadeiras e tranqüilas do nosso próprio destino.

Com a percepção de que sou autor de minha própria existência, vivendo em uma dimensão individualmente mortal, esta experiência (a Vida) pode tanto ser um relato triste e trivial do que acontece comigo ou pode ser uma experiência que valha a pena ser compartilhada por outros, através da arte, ciência, política ou qualquer atividade que eu escolha exercer.

O Humanismo é justamente a aspiração a aumentar esta confiança enraizada nos recursos disponíveis e criar uma arte atingível e, desta forma, reduzir a inutilidade das vidas individuais e torná-las a essência de um mundo pleno e verdadeiramente humano, como jamais existiu.

Rafael Luiz Reinehr

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Uma Homenagem aos Cem
Eduardo Hostyn Sabbi

Cem edições se passaram e não posso deixar de aqui registrar minha satisfação de acompanhar meu amigo Rafael e em fazer parte de muitas delas, desde meu início com um poema na edição 08, um comprometimento com artigos isolados a partir da edição 18, até chegar às atuais colaborações semanais com a coluna en passant, iniciada na edição 64.

Cem-dobraram os textos e os participantes, Simplileitores, Simplicomentaristas, Simplivisitantes vindos de toda parte para prestigiar e celebrar as viagens etéreas impressas no éter universal, materializando e compartilhando o melhor produto da mente humana (ou por vezes o pior, ou qualquer um que fosse).

Cemenelenses e cempsos ainda hão de conhecer o que há pouco se internacionalizou, fruto ou vítima da globalização das idéias, mas que ainda esbarra na barreira da língua e seus amargos e pouco se pode saber do ponto onde estamos para onde vamos.

Cementado pela junta do conhecimento e viabilizado pela perda da vergonha ou pela audácia, nada me impede de dizer que completamos apenas um décimo das mil edições que estão por vir antes de percorrermos o caminho das próximas duas décadas nesses “passos ritmados do iê-iê-iê bem dançado” (Hey Boy!).

Cem-folhas embelezam e perfumam um salão de muitos cempassos nesta festa regada a cem-virtudes que torporeiam os mais afoitos, enquanto cêmbalos incansáveis reproduzem cemeses que embalam o sono daqueles que ousam reconfortar-se nas palavras e desnudam-se das armaduras produzidas com cementita.

Cemitério talvez me desejem os que esperavam aqui algo sobre o tema proposto pelo nosso editor e que eu, ao melhor estilo Frankjorgiano (toda terça à noite no Bar Ocidente em Porto Alegre-RS, imperdível), espero ter conseguido descumprir usando a também sugestão editorial com as citações do Houaiss.

Cem maravilhosas contribuições do livre-pensar impressas em diferentes pixels luminosos, dignas de leitura e do agrado de qualquer indivíduo, humanista, laico ou cristão (óoooo), tema que aliás complementa-se com o artigo de Bertrand Russel que recebi coincidente esta semana do meu melhor amigo (sem saber se há, talvez, alguma lógica nisso tudo), em “A Crise do Conhecimento do Homem Sobre Si Mesmo, de Ernst Cassirer, no “Ponto de Mutação” de Fritjof Capra (a mim presenteado recentemente pelo meu grande amigo e nosso simplicíssimo editor - e quem sabe ele já estava então mal intencionado) e até mesmo em “A Assustadora História do Sexo”, de Richard Gordon, entre tantos outros e inclusive em cada um de nós, que graficamente ou não, existimos e pensamos, não necessariamente nessa ordem.

Cem vivas ao Simplicíssimo!!!

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Finados
Alessandro Garcia

A mãe pedia que rezássemos pelo pai. Nós não sabíamos onde o pai tinha ido, mas rezávamos, a mãe pedia e nós rezávamos. Nos dias em que tínhamos que acompanhá-la até o cemitério era pior. Tínhamos que comprar juntos as flores, ajudá-la a limpar a sua sepultura, sempre tão cheia de inços e nos púnhamos graves, tão sérios como seria estranho ser para a idade que tínhamos. Os anos de falta do pai já tinham passado. Nos primeiros tempos doía tanto que chegávamos a passar mal. A Marina ficou dias sem ir ao colégio, chorava noite e dia, chorava tanto que eu achava que ela ia morrer também. Como eu era o único homem da família então, devia me manter mais duro, ao mesmo tentar parecer mais sério, mesmo que me doesse até os ossos fingir retidão na frente da mãe e da mana e de noite chorar como um condenado a falta do pai. O bom é que éramos pequenos o suficiente na época, se fosse hoje talvez fosse mais dolorido, se o pai desaparecesse assim, e a mãe chegasse e nos dissesse que ele tinha morrido. Como não víamos corpo, não choramos o defunto, ficava ainda mais difícil se dar conta que o pai tinha mesmo morrido. Para a mãe, eu não sei bem como foi toda a função de provar que o pai morreu, éramos tão pequenos e ela tão só, correndo de um lado para o outro, toda a burocracia e a papelada para mostrar que sim, seu marido tinha morrido, mesmo não tendo corpo para enterrar ela queria uma cerimônia religiosa, e padre, e toda a gente chorando em volta de um caixão que não tinha defunto dentro. Suas roupas, somente, acho que tinha umas roupas suas que a mãe colocou ali dentro, dizendo que eram parte do pai e que devíamos chorar também por que o pai tinha morrido e devíamos sentir a sua falta e agora eu era o homem da casa.

Depois, mesmo como toda a catequese e a crisma e comunhão e tudo aquilo o que a mãe fazia questão que fizéssemos, por que se apegava demais a Deus e dizia que era devota de Virgem Maria, nem Marina e nem eu fazíamos de coração. Não queríamos aborrecer a mãe, então não tinha cabimento que nos colocássemos como um destes moleques mimados que tinha no colégio que recebiam tudo de mão beijada e ainda reclamavam para a mãe se ela não lhes dava a marca do tênis que haviam pedido. Eu nem conhecia as marcas de tênis. Vestia o que a mãe podia comprar para mim, da mesma maneira Marina e, hoje, pensando bem, até me surpreendo que fôssemos tão boas crianças, éramos sim. Somente quando eu cresci um pouco mais e comecei a trabalhar e pude comprar as coisas pra casa e continuar a pagar o aluguel da sepultura que era cara pra danar lá no cemitério do centro é que pude também comprar uns agrados pra Marina, pobre de Marina, sempre com seus vestidinhos remendados que herdava da mãe, e umas coisas pra mim, e então comprei um destes tênis bonitos por que as moças no baile gostavam, mas nem importa, por que no final das contas também não olhavam pra mim por que diziam que eu era filho do finado que não tinha.

Finado que não tinha, por que não tinha o corpo, todos da cidade sabiam que enterramos o pai em espírito, que era como a mãe falava. Um enterro digno como bom cristão que era para ter um lugar no céu, e onde estivesse seu corpo, estaria na paz do Nosso Senhor. A mãe dizia paz do Nosso Senhor, e eu me lembro de Marina e eu repetindo ajoelhados ao seu lado, em suas orações compridas, especialmente no dia de Finados. Eu não sei lá por que inventaram um dia pros mortos, estes mortos que sempre é preciso acalmá-los, parece que sempre querem um agrado, que rezem por eles, senão se põem aborrecidos e acabam atazanando a paciência dos vivos aqui, mas se tem o dia dos Finados que seja, que façamos o que se tem que fazer, então, por que eu não discuto muito estas coisas de convenção que as pessoas inventam e se inventaram temos mais é que respeitar e cumprir. E que mal há de num dia só rezar por eles se eles ficam mais calmos assim?

Depois, não custava nada, mesmo estando já mais velho, ainda que não quisesse sair de casa e me juntar com Dora, por que a mãe já estava velhinha e queria ficar e cuidar dela antes que se fosse pra junto do pai. Podia ajudá-la a ir até o cemitério, limpar os inços com ela e deixar a sepultura do pai tão bonita, lustrar o vidro da foto dele já tão embaçada e trocar as flores com a mãe por que era o que ela mais gostava de fazer. E mesmo que eu já grande, agora sim que não acreditava mais nestas coisas da igreja e que as almas vão pra um lugar tão bom, eu acho que quando a gente morre já era e pronto, fazia o que a mãe queria por que ela ficava feliz, e se ela dizia que o pai tava nos olhando, tava num lugar melhor e ficava mais contente da gente limpar sua sepultura, eu fazia, o que é que eu não fazia para deixar a mãe feliz?

Quando a mãe já na beirinha da morte, juntou um monte de gente por que a mãe era boa e todo o mundo gostava dela ali em volta e mesmo que falassem pelas costas que era viúva do finado que não tinha. Mas as gentes são tudo assim, o povo fala mesmo e que se há de fazer, se depois quando precisam da mãe pedem ajuda e fazem de conta que não falaram nada? Como a mãe era tão boa, fazia que não escutava, por isso ela nem gritou com ninguém quando ficaram tudo a sua volta rezando por ela, nem o turco que lhe cobrava o olho por qualquer fazenda que ela precisasse pras suas costuras, até ele tava ali, rezando, sei lá de que religião são os turcos, e se eles acreditam em Deus, ou ele só estava ali para fazer fita. E nesta hora era todo mundo amigo, mas só eu e a Marina que segurávamos a mão da mãe como ela queria, por que era só isso que ela precisava para morrer em paz, ela disse, de nós dois, os seus filhos, e que bom seria se nosso pai estivesse lhe esperando para recebê-la e ficarem juntos para sempre. Por isso é que eu não sei, não sei por que ele depois foi embora, se ela estava falando do pai que ia recebê-la lá no céu ou se ela começou a delirar e fitar o homem que entrava lá em casa, que nem eu nem Marina conhecíamos, mas que a mãe começou a chamar pelo nome do nosso pai, e como a mãe já estava delirando, nem ligamos, nem nós nem o homem também, devia ser um amigo de longe, já velhinho como a mãe, embora todo o mundo tenha achado tão estranho, e eu também, é verdade, que ele se parecesse tanto comigo.

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A Conversão
Adalberto de Queiroz

Antes que a alvorada de sexta-feira, dia 29 de outubro, bata à minha janela e encontre-me sorrindo, ao lado dos meus entes queridos, despedindo-me do sono devo fazer o sinal da cruz e rezar, agradecido por ter chegado aos 49 anos com a consciência de um convertido.

É emblemático que minha confirmação aconteça aos 49 anos de idade - um renascer na mesma idade cronológica com que faleceu um dos mais importantes Santos da Igreja de Cristo - Santo Tomás de Aquino. A insígnia numérica aqui é simples e forte para este convertido porque aquele Servo de Deus, Santo Tomás, tem ocupado muito das minhas leituras noturnas, principalmente com as Summas, que são o desafio do entendimento, na busca entre unir Fé e Razão e mostram o tanto que, em tão curta vida, realizou o Doutor Angélico.

E, na véspera desse 29 de outubro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2004 (como dizem ainda em boa tradição lusitana, quase todos os nossos cartórios), digo-vos algumas palavras: as mesmas - pelo menos no sentido - que gostaria de dizer, amanhã, aos meus irmãos e irmãs, que compartilharem comigo minha Confirmação e primeira comunhão como católico apostólico romano.

(Claro está que, diante desse segundo parágrafo, os que acham este cronista "católico demais" ou "carola" terão clicado o botão de off de sua atenção ou mudado de página, então, resolvi ir lá em cima e adicionar alguma coisa mais à alvorada...).

Mas aprendi desde logo nessa estrada que "a condição indispensável para a transmissão de uma palavra cristã é o desejo verdadeiro de ouvir", portanto, de nada valerão as palavras, se o leitor não tiver ouvidos para ouvi-las.

Há algum tempo atrás, quando comecei a caminhada que me trouxe ao dia de hoje e a esta decisão, algumas perguntas me eram sistematicamente feitas, quando eu comunicava a minha Conversão:
- Você está doente, rapaz. Ou, mais grave ainda, você tem alguma doença grave e por isso se converteu?
- Está com medo da Morte, por isso procurou a Igreja?
- Você está se vendo obrigado por causa de um emprego, a se tornar católico?
- Ah! Já sei, você está apaixonado e a família da namorada é católica?

A todos, dizia e digo, sorrindo: NÃO!

Uma vez, li uma entrevista de um velho católico brasileiro e escritor de nome que tentava explicar a um jovem repórter de inclinação marxista, como era possível ter-se tornado católico. A resposta singela cabe em uma curta solução do inquérito: "Recebi a Graça da Conversão". A graça é um dom de Deus, logo, inexplicável de pronto, aos ateus e agnósticos. No máximo, aquela resposta deve ter deixado aturdidos muitos leitores, que passar a cogitar sobre as razões profundas da Conversão.

Há na conversão do Apóstolo São Paulo as palavras apropriadas ao convertido: o fariseu Saulo de Tarso, que recebe a Graça da conversão, sob o efeito do extraordinário, se transforma no Apóstolo. Nos nossos dias, às vezes, o efeito extraordinário está em descobrir uma luz nas coisas mais simples, pois a verdadeira revolução em nossas vidas está em descobrir as pequenas coisas intensas e absolutas no que mais próximo está de nós, no menos inovador, às vezes, mesmo o mais tradicional.

A minha estrada de Damasco está em algum ponto de minhas freqüentes viagens como empresário, em que cansado da vida desregrada que o materialismo pode por vezes nos impor, trafeguei no fio da navalha da concessão ao cinismo que parece, freqüentemente, ser a opção única de quem começa a chegar aos cinqüenta anos nesta sociedade brasileira deste início de século XXI. E seja bem dito: nada tenho eu, nem tampouco o cristianismo com o conforto de uma vida de trabalho e de recompensas terrenas...

Lembro-me com alegria de um de meus mestres nessa caminhada: Gustavo Corção, que também adulto se converteu ao Catolicismo nos anos 40 do século passado e sorria diante de perguntas dessa natureza, quando escreveu "A Descoberta do Outro", relatando sua conversão.

Nesse livro, Gustavo Corção relata que recebera no início de sua caminhada no Catolicismo a recomendação de um amigo: "Você precisa conhecer o Alceu (Amoroso Lima)" e, de presente, caíra-lhe nas mãos dois livros, enquanto fazia seu próprio estudo do Catecismo. Também ele se deparava com indagações similares, passava por dúvidas similares, há contados 61 anos atrás, enquanto se instruía (e se divertia com os mestres convertidos no século XX - G.K. Chesterton e Jacques Maritain). Tenho comigo esses livros: os do Gustavo, os do G.K. Chesterton e alguns do mestre francês Jacques Maritain, também convertido na idade adulta, junto com a esposa Raïssa. O casal Maritain transformou-se no exemplo de casal católico que honra o matrimônio e a vida religiosa a dois.

A mesma indagação - posta em termos mais ou menos agressivos, que dirigiam a Gustavo Corção está descrita em "A Descoberta do Outro" (no capítulo Nas Portas de um Reino). Ao amigo que lhe pedia a história e o porquê da conversão, GC responde com um livro, e uma pergunta socrática:

- "Este livro não responde, mas em compensação devolve o inquérito, perguntando-lhe:
- “E você? Diga-me você os fatos que o levaram a não se converter".

E prossegue: "Esta parece-me ser a posição correta do problema. Uma conversão não é um episódio; antes o fato de não se converterem todos é que constitui um imenso episódio. Acho hoje extremamente bizarro um inquérito sobre a normalidade. As coisas verdadeiramente positivas, verdadeiramente normais, resistem à narração. Ninguém, por exemplo, irá perguntar com urbanidade ao cavalheiro que vê na rua a sacudir a poeira das calças, entre quatro embrulhos esparsos no chão, por que diacho, e em virtude de que misterioso propósito, ele se levantara."

Sabe-se que uma certa literatura e o jornalismo em geral prezam o indivíduo que "escorrega" - e eis a vida deste pecador: de escorregão, em escorregão, a tombos homéricos... "Mas, depois da Conversão, descobrimos que não há nada de tão aventuroso e tão fascinante como a volta à casa". É a descoberta do Outro, do Cristo que nos induz a isso.

Cito tudo isso, com a gratidão da convivência com os novos irmãos católicos que conheci durante o Catecismo, dos padres estigmatinos que me orientaram espiritualmente, na sua humildade e trabalho missionário, do meu confessor, dos amigos com quem convivo na internet – espaço onde não hesitei em testemunhar minha Fé. Sou grato no meu próprio bairro, onde vivo, desde 1981, às pessoas com quem passei a conviver em outra dimensão como cristão. A todos, enfim, que me receberam com singela alegria, dirijo, agradecido essas linhas, como um testemunho, no intuito de dizer-lhes o mesmo que este mestre da crônica dissera, referindo-se ao Mestre dos mestres, Jesus:

- "O romance cristão só pode ser contado a partir de um Personagem central que é, Ele mesmo, todo o romance. Não é possível falar em cristianismo sem começar dizendo o que o Cristo é. Muitas vezes já ouvi falar na doutrina cristã em função dos interesses intelectuais e das vantagens morais, sem que o fundamento fosse um fundamento. Esse processo parece-me pouco razoável."

Uma vez que não desejo, como Gustavo Corção também não o desejava, aplicar-lhe uma rasteira, desavisado leitor (e ouvinte), aproveito a celebração da Crisma, em que me ponho ao lado dos meus companheiros recém-convertidos e crismandos, a quem me uno com alegria, em torno do banquete do Senhor - nessa nossa Primeira Comunhão, para alertá-los que o centro deste testemunho está bem traçado com o grafite dos meus dias.

Sou católico apostólico romano porque o catolicismo é o lar do Cristianismo, porque eu pude sentir isso sem discussões, sem debates acalorados, mas na solidão de muitas noites, de muitas angústias resolvidas com o rosário em minhas mãos, com as leituras das catequeses do Papa João Paulo, com as palavras inolvidáveis que a Comunhão dos Santos muitas vezes trouxeram sobre a forma de perguntas, ou das respostas apropriadas à hora e ao problema.

Não sou católico apenas pela enorme tradição que tem a Igreja de Cristo - una, santa, católica, apostólica e romana - transcende, como sabemos, a seus membros, nós pecadores, atuando na igreja peregrina, esta que é testemunha de Cristo no mundo, em nosso dia-a-dia de criaturas em caminhada. Tornei-me católico porque como São Paulo, um dia atônito, me ocorreu perguntar no meio do caminho de minha vida:

- "Senhor, que queres que eu faça". (Atos 9,6)

E muitas vozes ouvi, nas noites de dúvidas atrozes sobre o legado de meu cristianismo protestante, onde nasci e fui criado. E as resposta foram chegando, no entendimento do culto completo, do que não foi decepado por Lutero no ritual e na tradição. Respostas como a de São Lucas e São Luís de Monfort na orientação espiritual da devoção à Virgem Maria, que passei a trazer sempre próxima de mim, como um conforto nas horas mais difíceis desses dois anos como neófito católico.

Sou católico não porque a Igreja esteja numa disputa em que carregasse o galardão de ter para si mérito maior e eu, neste grêmio, lucrasse com isso. Sou católico não porque apenas é meritória a ação da Igreja Católica na Idade Média, período no qual frutificou o ambiente exato de educação e trabalho que nos legou a beleza das catedrais - representativas da maior construção humana e da centralidade do Cristianismo.

Não. Eu vos afirmo que não sou católico apenas por isso, apesar de sentir-me feliz com tais realizações, como também fico feliz ouvindo os cantos gregorianos e apreciando a rica iconografia da pintura de inspiração religiosa - que são pontos altos da passagem humana na terra. Não. Não é tampouco apenas pela incrível sonoridade das missas de Bach, de Monteverdi ou de Mozart, não é a apenas a Comunhão dos Santos - maravilhosa conquista que, em síntese, bastam se resumidas em quatro nomes emblemáticos.
Ah! A comunhão dos Santos, para mim, uma parte inolvidável do Credo: Santo Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, Santa Tereza d´Ávila e São Gaspar Bertoni...

Não. Nada disso nos serviria, nem serve, como nenhuma outra mágica, ou poder encantatório qualquer como "o fato decisivo". O fato decisivo, o fato mais histórico, repito o Cardeal Cantalamessa: "é a Páscoa de Cristo". Nada desse mundo deve iludir-nos e nada pode negar ao Ser Humano o efeito da Beleza do Cristo em nossas vidas. Aí está a Graça, que é a única modificadora de nossa humanidade, pela elevação a Deus: Cristo como a Graça Divina - "modalidade nova da presença de Deus em nossas vidas de pecadores" - como se depreende dos ensinos de Santo Tomás, na interpretação do Pai Nosso.

Só a Graça pode nos fazer dar um salto ontológico, fazendo-nos seres melhores, transformando-nos, como fez do fariseu Saulo de Tarso o Apóstolo São Paulo, como faz de cada Crismando hoje um membro da Igreja de Cristo, um Soldado de Cristo.

O apelo que fizeram há 61 anos, àquele católico que me inspira hoje, salta naturalmente à memória e relembro a intimação fraterna que lhe fizeram, consolidando o ato decisivo da conversão de Gustavo Corção:

- Você precisa conhecer o Alceu. Eu diria e o Corção! E a esse convite, adiciono:
- Você precisa conhecer o Cristo!

E com isso, finalizo meu testemunho, de olho no Altar em que, silenciosa e humildemente, repito o Nome do que devemos, efetivamente, conhecer - o nome de Cristo, repetindo interiormente: Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Viva o Cristo-Rei!

 

À sombra das lições do ser

Ah! Ler e reler o mesmo Livro
Vehementius et profundius
- A metáfora como um crivo
Ao todo cresce e aprofunda.

Em um só sou três sedentos:
É do primeiro a lança funda
De um problema e seu rebento
Eis a resposta que não finda...

Nessas águas, a ciência amarga,
Assim se mostra intempestiva.
- "Águas da ciência, úteis e amargas"(1) .

Ora, na segunda o mistério dita:
Como sede d´água criada e ativa.

- "Os que de mim bebem, ainda têm sede..."(2).

No caso terceiro, o Verbo eterno
É outra sede, das três a mais linda
Se de tal Beleza bebe o hodierno
Ser, água jorrando pra toda Vida...

- "Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a Vida Eterna..."(3)

+++++
© *Adalberto de Queiroz, d´après "Sete Lições sobre o Ser", de Jacques Maritain, Ed. Loyola, S. Paulo, 2001.
Fonte: (1) J.Maritain, "Sete Lições...", p.18. (2) Eclesiástico, 24:21.(3) João 4:13-14.

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Adrem Atup e o Mundo da Razão
Milton Ribeiro

Adrem Atup nasceu na Finlândia em 1958. Seu pai, Neila Atup, era um simpático hippie, um andarilho que apaixonou-se pela paisagem do litoral de Parati nos anos 70 e por lá decidiu assentar-se. Extremamente inteligente, Adrem aprendeu no Brasil o sexto idioma de sua vida nômade e ali começou finalmente sua formação regular. Nunca antes tinha freqüentado salas de aulas com a finalidade de receber uma educação formal, e, apesar de interessar-se muito mais pela educação cabal que recebia de seu pai e amigos, foi um excelente aluno.

Nem ele, nem papai Neila tinham vivência anterior de como era a vida sob uma ditadura militar, mas não era muito difícil viver para os obscuros pintores, artesãos, bichos-grilos e assemelhados da cidade histórica. A dupla finlandesa logo confirmou a suspeita de que todas as pessoas decentes eram contra  aquilo. Conviviam com artistas de esquerda e comunistas que combatiam preguiçosamente os militares discutindo política, bebendo as maravilhosas cachaças de Parati e pintando quadros rústicos. Estaria enganado quem pensasse tratar-se de um bloco monolítico, pois eles dividiam-se em infinitesimais tendências, todas com princípios muito claros e impermeáveis a quaisquer influências que as maculassem. A inteligência de Adrem, tal como a de seu pai, nunca serviu para o entendimento da política; eram antes dois sonhadores que passavam seus dias pintando quadros para os rarefeitos turistas que vinham à cidade naqueles anos. Vendiam principalmente aquarelas representando a antiga igreja da cidade vista do litoral e pequenos quadros, cartões e broches com a figura de Che Guevara.

Quando terminou o curso secundário, Adrem prestou vestibular e passou facilmente em Artes Plásticas na USP. Lá, entranhou-se-lhe a certeza de que todas as pessoas confiáveis eram de esquerda e mais, eram atéias. Enquanto apaixonava-se pelas milhares de reticências coloridas contidas nos quadros de Seurat, observava vagamente a cena militar ou política, o que parecia-lhe ser a mesma coisa. Via os eventos e ações governamentais e registrava a presença lado a lado de autoridades militares e religiosas prestando apoio ao governo. Sabia, pois, que aquelas instituições estavam juntas e continuava a ver o mundo como você lê estas palavras, da esquerda para a direita. Aliás, quase todos os artistas e pessoas que admirava eram de esquerda e quem não era tornava-se instaneamente tão deplorável quanto um leproso. O mundo, então, era de fácil interpretação, tal como alguns faroestes: the good and the evil, os bons e os maus, os cronópios e os famas, os legais e os caretas, os da esquerda e os da direita, os intelectuais e os militares, a cultura e a religião, a luz e as trevas.

Então, nos anos 80, o mundo tornou-se mais complexo para o quase-apolítico Adrem. Foi uma enorme euforia e os dois grupos da época de ditadura espraiaram-se num complicado "espectro político". A esquerda foi invadida pelos cristãos, alguns intelectuais foram para a direita e o mundo começou a dividir-se, segundo Adrem, em reformistas e continuístas. Ele tentou ver o que aqueles intelectuais viam de sedutor na direita e até procurou ler seu nome da direita para a esquerda, mas não gostou do resultado. Assim, permaneceu entrincheirado na sua vaga esquerda artística, humanista e solidária. A nova mania de ver o mundo sob outra ordem, deixou-o viciado em palíndromos, tendo composto verdadeiros clássicos no gênero, tais como "Ame o Poema", "Ata-nos, sonata" e "Metáfora, farofa tem".

Como sói acontecer, o mundo seguiu dando seus giros e Adrem fez-se um respeitado artista gráfico trabalhando em uma agência de publicidade paulista. Casou-se com uma ex-militante comunista com sobrenome cheio de flores, tiveram um filho e ele começou a ser cooptado por cristãos. Um deles, grande e querido amigo, tomara a si a missão de torná-lo cristão. Nada mais natural: mesmo sendo Adrem um talentoso, ocupado e bem pago artista gráfico, mesmo e apesar disto, ele preocupava-se em reservar parte de seu tempo para trabalhar voluntariamente junto a uma associação de caridade que, como sói acontecer, repito, era ligada a uma instituição religiosa congregada ao Vaticano. Tinha, pois, contatos semanais com pessoas que achavam incompreensível que alguém tão ético, humano e solidário fosse um ateu. Elas falavam na palavra "ateu" como se pronunciassem uma palavra feia, como se fossem crianças de 5 anos dizendo o nome de Adrem Atup de trás para diante perto de seus pais. Ele achava engraçado e não pensava muito no assunto. Comentou sobre isto com sua mulher e, sendo ela uma intelectual cultíssima politicamente, citou-lhe Marx, Gramsci, Arendt, Adorno, Luckács e outros, procurando explicar-lhe o que estava acontecendo - coisas que ele ouvia desatento.

Numa bela manhã de novembro, sua esposa pediu a separação. Em depressão, Adrem despojou-se de todo seu pequeno patrimônio. Surpreendeu-se com a voracidade que a ex-comunista revelou ao procurar assenhorar-se de tudo o que fosse possível, no que ele cedeu. Com a mesma sem-cerimônia com que aplicava Botox em seu rosto, ela procurava cristalizar para si tudo o que pudesse passar perto de ter algum valor monetário. Em contrapartida, o desinteresse de Adrem sobre seu futuro era completo. Após a separação, ela passou a provocar contatos mais longos somente se quisesse examinar mais de perto a possibilidade de ele pagar um pouco mais para ela e o filho.

Sem dúvida, o mundo ficara ainda mais complexo. Havia cristãos amigos procurando salvar-lhe a alma, falando-lhe em conversão e emocionando-o com histórias de perdão de São Francisco de Assis; havia ex-comunistas ensinando-lhe a como ser pragmático, focado e açambarcante num cesto de ofídios; havia um governo de esquerda em quase tudo semelhante ao anterior e havia alguém que girava a uma velocidade inferior a do mundo e que permanecia quieto, observando tudo passivamente, não aderindo a nada e com um pouco de medo.

Observações: antes que me acusem de plágio, tenho que que dizer que:
(1) O título desta crônica foi adaptado de um romance (é isto mesmo) de Tennessee Williams;
(2) Seurat é um pintor francês que pintava pontilhando seus quadros com cores. A analogia com reticências foi feita pelo escritor Louis-Ferdinand Céline, o rei das reticências;
(3) A "enorme euforia" veio, evidentemente, da letra de Apesar de Você, de Chico Buarque;
(4) O verbo "espraiar" veio dos discursos de Olívio Dutra;
(5) A idéia de fazer o leitor conferir o nome de Adrem Atup de trás para diante veio da leitura dos geniais, verdadeiramente extraordinários e poéticos palíndromos de César Miranda, que é o autor de "Ame o Poema", "Ata-nos, Sonata" e "Metáfora, farofa tem", é claro;
(6) A comparação - tão a propósito! - feita com o comportamento dos ofídios veio através de um e-mail de uma amiga.

Esta crônica é respeitosa e envergonhadamente dedicada a Adalberto Queiróz e César Miranda.

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A história da rainha de Nazaré
Rafael Tourinho Raymundo

(uma alegoria para a influência da Igreja nas pessoas sem iniciativa)

Pudesse ela voltar a ser o que fora e sua vida seria mais pura. Por vaidade, seus semelhantes traíram-lhe, mas não por frescura. Nunca houve loucura no peso de sua idade, nem insanidade que lhe trouxesse agrura. A usurpadora indigna de um trono, mantenedora de um oprimido povo, agora definhava sob a tortura da verdade, pois perdera a coragem para enfrentar seus demônios de novo.

Disseram ser seu reino um castelo de incertezas. Porém, seu fiel povo, nele, combatia sua fraqueza. Tristeza dissipava-se num poço de amor e compaixão e, tarde ou não, o perdão era concedido pela simples beleza duma flor em suas mãos entregue. Jamais haveria de ocorrer temor entre as paredes de sua fortaleza. Por momento nenhum a dor abalaria sua fé. Seu nome, Nazaré, e sua figura, eram a personificação da ventura de ser mulher entre crentes, assim como ter o poder era a fonte de sua riqueza.

Entrementes, num principado não muito distante, brlhava não mais o semblante dum jovem de vestes surradas. Minguante era seu rosto, madeixas louras mal-tratadas. E manchas secas de lágrimas, derramadas por causa de uma farsante. Tivessem suas idéias não sido caladas, quiçá seus sonhos fossem, então, reais: pessoas em busca de ideais, potenciais e talentos aproveitados, homens honrados tornando-se marechais. Contudo, tal brilhante cruzada por conhecimento nunca haveria de ser executada, devido a uma ganância ofuscante e uma vida, por pecados, maculada. Vibrante, agora, encontrava-se uma mulher que, de tempo em tempo, trocava moedas de cobre por silêncio. Dita tão nobre que, penso, seu nome deveríeis saber qual é: Nazaré.

Calavam-se bocas e desfaziam-se ilusões, porém as legiões de mentes ocas cresciam. Pouquíssimo sabia o povo sobre sua rainha – era fada-madrinha que os amparava, isto já lhes bastava. Anulavam sua infância simplória, seu passado sem glória, sua quase ruína e desgraça. Farsas e mentiras não tinham lugar na História. Pelo contrário, viravam chalaça nas alcovas da sociedade real. Natural, entre a realeza e as famílias de nobres brasões.

Até que um dia voltara Duílio. Acabara seu exílio em terras do norte. A sorte dera a uma de suas amantes um filho; a sua esposa, Nazaré, coube o idílio de ser governante. Não fosse a morte da verdadeira família real – misterioso veneno nas louças e pratarias – pouco provável seria que o reino estivesse àquela senhora curvado. Por outro lado, para o povo fora bom, uma vez que o dom de Sua Majestade em acalentar suas duras penas tornava amenas as dificuldades. Tão suave era a vida agora, muitos rejeitaram o retorno do rei, temendo a volta dos entraves e problemas descomunais, que então não pareciam tão banais.

Ademais, Duílio nunca fora governante sério. Sua vida,
inclusive, era envolta em intrigante mistério. Por razão desconhecida fora afastado de seu cargo – quão amargo era o sabor da rejeição! Desilusão que o afastou de seu terreno largo, o qual sonhava transformar em império. O gosto da vingança seria mais doce, demorasse o tempo que necessário fosse.

Um armário repleto de esmeraldas, topázios, jóias e outras relíquias: seria isto mais que suficiente para que a tramóia fosse executada. Bastaria um bando de cunhados safados, sedentos por rubis em ouro encrustados. Bastaria acessores ávidos por poder, e amas mal-tratadas. Um complicado estratagema e um grande problema solucionado. Uma cilada para a rainha, que não se fez adivinha a tempo de camuflar suas verdades. Em todas as cidades se falaria sobre como a população fora enganada, como, desmascarada, sucumbira a senhora do povo. Fora capaz de amar cada súdito, é fato, porém num súbito seu segredo fora contado, num ato. Só não vos explico cada detalhe por falta de tempo e ordenado.

Ao fim de tudo, o rei voltara ao seu devido posto. A esposa, seu escosto, fora poupada, mas nunca haveria de recuperar seu prestígio. Temia não receber perdão divino, mas acreditava ter feito o bem para os seus. Nenhum deus decera ao palácio e explicara-lhe a penitência. Entretanto, com veemência, rezaria por anos, em remissão.

E um prodigioso rapaz de cabelos louros, agora, bradava alegremente seus pensamentos de liberdade, ainda que sua felicidade não fosse completa, uma vez que sua meta não fora devidamente alcançada. Muitos cidadãos tomaram Nazaré como santa – o que me espanta, pois sei de suas maldades. Na realidade, temeram enfrentar mais uma vez obstáculos. Adotaram oráculos e montaram altares onde o corpo dum padre repousa; nunca fora a mesma cousa, sempre houve do que reclamar. Não mais havia rainha para adorar.

Alguns jogaram-se ao mar, outros esperaram resposta. Fui um dos que ouviram o rapaz e foram atrás de uma vida interessante. Hoje sou comerciante. E sempre há quem bata em minha porta a pedir auxílio, pois Duílio não acalenta. E eu respondo que quem tenta chega aonde quer.

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A fé move montanhas
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

A FÉ MOVE MONTANHAS

Guindastes e pás também!

TUA FÉ TE SALVOU

Os remédios ajudaram um pouquinho!

TENHA FÉ E NADA DE MAL VAI TE ACONTECER

Desde que você se cuide, tenha sorte, etc, etc.

A grande desculpa religiosa para as mazelas ocorridas com quem tem fé é que Deus escreve certo por linhas tortas, porém a gente que faz a própria história de vida. Talvez seja chover no molhado, falar de destino e coisas assim. O que posso dizer é que sou uma prova viva que coincidências podem ser muito mais que meras casualidades, já que está escrito que Deus não joga dados. Tenho que acreditar que o dia 11 de maio (não 11 de setembro) estabeleceu uma grande mudança na minha vida. Eu, que já estava acomodado, achando que minha vida estava ganha, mudei radicalmente. Passei a cuidar mais de mim e preciso cuidar mais e mais. Sempre recomendo que as pessoas vejam o filme Dom Juan de Marco. Ele mostra claramente a mudança daquele psiquiatra, que, ao conviver com alguém que busca tornar cada momento da vida inesquecível.
Para mim, isto que se chama ter fé, buscar cada dia, dentro de si mesmo, forças para ser melhor.

UMA ESMOLINHA, POR FAVOR!

É PRECISO SER HUMANO.

Bela frase. Não sei se tem alguma autoria ou se quem a criou é um Zé Ninguém.

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO.

Bela frase. Não sei se realmente conseguimos ser humanos, deste jeito.

Restam-me poucas linhas para tentar explicar o que sinto cada vez que um suposto mendigo me pede uma moeda. O que faz uma pessoa chegar a este ponto. Será que ele não teve fé ou não tiveram fé por ele?
Estamos diante de um dilema, criamos este mundo onde é necessário ter fé para que nada aconteça conosco por meio de ações maldosas de outros seres humanos. Será que não fomos nós os primeiros maldosos? Bom de nada adianta melhorar os sistemas, não quero mendigos melhores, ou melhores formas de distribuir dinheiro pela janela do carro. Tenhamos fé, de um jeito ou de outro, vamos ser mais humanos. Nem que seja, de ré na contra-mão.

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Do 100.
Roberto Yukio Iwai

Primeiramente peço, caso queiram e muito obrigado, ouvir uma canção que faz parte do repertório de meu projeto musical, o 50/60. Se chama “O Tempo Infinito”, e serve como ilustração para o pouco que tenho a dizer. Espero que ouçam, e fico feliz caso o façam.

A concepção dos termos musicais dessa música casa perfeitamente com o que tenho a dizer sobre a questão religiosa na música. Quando tomei as minhas influências fiz uso de um tal “som dos anjos”, de uma banda bastante conhecida chamada Beach Boys. Esse som, nomeado assim por conter harmonias e climas sonoros que remetiam a uma visão divina da ascensão do céu, teve como uso da religião metáfora para as viagens comuns naquela década, a de 60. Na visão do idealizador Brian Wilson, no trabalho Pet Sounds, o som daquele modo se fundia às visões realistas de ser humano como ser de carne e osso junto à referência de viagem, que em termos lisérgicos e químicos, era um universo que não pertencia em um mesmo plano metafísico comum.

No caso não musical, as letras não se encaixavam em nenhum assunto que fosse ligado ao divino. Sempre eram sobre relacionamentos, uma vida mais pacífica, mas tudo dentro de nossa mente e vida, que não interligamos necessariamente com a temática religiosa. Ao ouvir tais músicas, estávamos em outro tipo de céu, onde não havia Deus presidindo, mas sim cada um de nós em estado pleno de espírito, corpo, alma, humor, sorrisos. O verdadeiro paraíso. Mas não um paraíso pejorativo, mas sim um paraíso de acordo com as nossas capacidades e desejos gerais de criação.

Na música, quando determinado ser humano tenta alcançar o céu ou o inferno, não é feito da mesma forma que fazemos quando interpretamos isso de maneira real, comprometedora. Salvo raras exceções, como no mundo da música segmentada onde há divisões tais como “som do Satã” ou “música gospel”, o céu e o inferno nos pertence assim como alegria e tristeza, medo e confiança. Nos pertence dentro de nossa mente, e não abaixo ou acima de nossos pés.

Brian Wilson como exemplo, tentou fazer com que os Beach Boys soassem realmente como anjos, isso como os anjos residem no imaginário de nossa mente: seres sublimes, de voz harmoniosa, que não apenas cantavam surf music, mas também som para alcançar algo. E esse algo, o céu, não foi discurso que Wilson de repente descobriu em uma Igreja Universal do Reino de Deus, mas sim a metáfora para as distorções que estava passando dentro de sua mente. Assim, o significado de céu é muito mais coerente da forma como foi expressada, na música, do que se fosse explicada verbalmente pelo próprio Brian. No mínimo, interpretariam como algum lunático que se converteu a Jesus Criso de maneira fanática.

Nos anos 60, a abordagem desse céu, desse inferno, era constantemente usada pelas bandas que seguiam o que viria a se chamar “música psicodélica”. Os extremos pertencem muito ao mundo das drogas, e este contacta imediatamente o cérebro humano. o céu era explicado como uma lisergia que fazia bem à mente, uma fuga da realidade que não causasse seqüelas no final. O inferno era a mente entrando em transe de quantidades enormes de químicos. Quando muitas vezes, não havia volta. Mas tudo isso é relativo, tendo em vista que depende muito da mente de cada um, e do uso de cada um.

Na década de 70, houve ainda essa abordagem com as bandas da sonoridade progressiva. Pink Floyd, após as viagens conturbadas de seu primeiro líder Syd Barrett, tentava alcançar sempre uma sonoridade que te fizesse planar na imensidão, pensar com as frases que para a mente comum de muitas pessoas simplesmente não fazia sentido algum. Perigava a nós cair dessa imensidão a cada final imenso de solos de órgão, passagens de guitarra ou vocais melodiosos e macios, o Floyd é um exemplo básicos desse alcance mental.

Mas o fato é que essas duas décadas giraram em torno dessa temática. Já nas décadas seguintes, o tema de religião passou a ser descrito em letras, atitudes e posicionamento. “Lúcifer Now!”, ou “Jesus Nos Salvará”, essas questões.

Até esse ponto, eu espero que tenham ouvido tal música de minha autoria que eu citei acima, mas caso não, para ilustrar musicalmente e finalizar, deixo um apanhado de canções que tornam claras essa abordagem, mais do que eu ao tentar explicar esse ponto-de-vista musical.

um apanhado de canções sobre ascensão sonora

01 - The Polyphonic Spree “Light and Day / Reach For The Sun” [2002]
02 - Brian Wilson “Surf’s Up” [2004]
03 - Elliott Smith “Everything Means Nothing To Me” [2000]
04 - Ronnie Von “Espelhos Quebrados” [1968]
05 - The Beach Boys “Wouldn’t It Be Nice” [1967]
06 - Beachwood Sparks “The Sun Sorrounds Me” [2001]
07 - Pipodélica “João Ninguém e o Quadro Novo” [2000]
08 - The Zombies “A Rose For Emily” [1967]
09 - Wondermints “Shine On Me” [2000]
10 - David Bowie “Space Oddity” [1969]

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Pensamentos Destoados Pela Antítese

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Liberdade, Igualdade, Fraternidade
Sara Flech Neves

Você deve saber de onde vêm estas três palavras: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Sim, isso mesmo, França, lindo país, local de origem da primeira Declaração do Direitos do Homem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789. Meu texto não tem nada a ver com a França, mas estas são palavras inspiradoras, não são?

Você é livre? Pare e pense por alguns minutos, se precisar, algumas horas. Seus ancestrais eram livres? Tome algum tempo e vá fundo em sua árvore genealógica, seja qual for a sua nacionalidade ou a de seus antepassados. Todos nascemos livres. Mas somos de fato livres? Em toda a magnitude possível desta tão almejada condição chamada liberdade? A resposta é triste. Aquela menina que lhe ofereceu chicletes no sinal hoje de manhã é livre? Os milhares de trabalhadores que ganham R$ 260,00 por mês são livres? Não. Nem você.

O sonho de liberdade custa caro, não só dinheiro, mas custa tempo, eras inteiras, muitas vidas sucumbiram ao longo dos séculos atrás deste sonho. Refleti muito sobre o que deveria escrever para esta edição especial, busquei alguns fatos na história, pesquisei sobre alguns temas com pontos em comum: a liberdade, a igualdade, os direitos humanos acima dos valores estéticos e religiosos, a educação e a capacidade humana de não perder jamais a esperança.

Escravidão. Que palavra horrível, em qualquer idioma, ela dá arrepios. Seja ela física ou mental, causa danos irreversíveis. Seja ela cometida contra homens, mulheres ou crianças, seja por necessidade (riqueza) ou por diferenças. É inaceitável. De todas atrocidades cometidas na Terra, tem uma que me choca diariamente: o preconceito contra os negros, na mídia é descarado, nas universidades, nos locais de trabalho, nas ruas, e o pior local de todos: em nossas próprias mentes.

Sou descendente de negros e, de acordo com pesquisas científicas recentes, toda a humanidade é também e está indiretamente ligada por mães mitocondriais, característica passada de mãe para filha (os homens não carregam esta herança), ou seja, a as fêmeas que se espalharam pelos continentes e deram à luz por várias gerações, estão ligadas por esta característica, portanto somos todos parte de uma gigante família. Palmas para a ciência. As diferenças raciais por assim dizer foram formadas a partir da necessidade de adaptação em regiões diferentes do planeta. Após milhares de anos de evolução, nenhum louro de olhos azuis poderia admitir que era descendente de africanos.

O ato de escravizar não foi única e exclusivamente feito com os negros, mas, com certeza deixou maiores cicatrizes no povo africano do que em qualquer parte do mundo. O negro africano era mercadoria, não era gente. Era escolhido pela beleza física, força e capacidade de trabalho. Não era considerado como ser humano, era um animal selvagem. A África sofreu calada por séculos. A riqueza de toda nossa sociedade moderna está estabelecida em cima de corpos negros.

A “abolição da escravatura” aconteceu aos poucos e em diferentes países desde o inicio do século XVIII, não somente por causas humanitárias, mas também por interesses políticos e econômicos. Em 1776 o economista Adam Smith incentivou a abolição da escravatura pois a considerava prejudicial à economia. Declarou que ter escravos era mais caro do que ter trabalhadores livres. A Dinamarca aboliu o comércio de escravos em 1792.
A Grã-Bretanha em 1807 e os EUA em 1808. No Congresso de Viena, em 1814, praticamente quase todos os países europeus fizeram leis ou assinaram tratados proibindo o comércio de escravos.
Em 1815 Portugal aboliu a escravatura no Brasil. A França aboliu somente em 1818, quase cem anos após a revolução pela igualdade, irônico. A partir de 1824 o comércio de escravos era considerado pirataria e, depois de 1837, quem o praticasse era condenado à morte.
No Tratado de Ashburton de 1842, a Grã-Bretanha e os EUA concordaram em manter esquadrilhas na Costa Africana para reforçar a proibição do comércio de escravos e, em 1845, as marinhas francesa e inglesa juntaram-se num esforço para controlar este comércio.
Os Franceses libertaram os seus escravos em 1848 e os Holandeses em 1863.
Nos EUA, em 1865, foi ratificada a 13ª Amenda à Constituição, abolindo a escravatura em todo o país. No Brasil a escravatura só foi abolida em 1888 com a Lei Áurea.
Mas a abolição da escravatura moderna está longe de acontecer de verdade. Veja os fatos da história mundial após 1888, veja as estatísticas apresentadas na mídia, negros ganham menos, perdem vagas para brancos, morrem mais, não tem acesso a cultura, ao estudo, são descriminados de várias formas possíveis, inclusive quando estão em papéis de destaque na sociedade, a cor negra é associada ao ruim, ao sujo, ao maligno. Você nunca disse em um momento crítico algo como “a situação está preta”? Disse sim.

Entre 1899 e 1902, na África do Sul, ocorreu a famosa guerra dos Boers, luta entre colonizadores britânicos/holandeses e nativos. Motivo: jazidas de diamante, ouro e ferro. Após 1902 passaram a definir a política de segregação racial como uma das fórmulas para manterem o domínio sobre a população nativa. Esse regime de segregação racial - conhecido como apartheid - começou a ficar definido com a decretação do Ato de Terras Nativas e as Leis do Passe. O Ato de Terras Nativas forçou o negro a viver em reservas especiais. Vinte e três milhões de nativos ocupavam 13% do território enquanto que os outros 87% eram ocupados pelos quatro milhões e meio de brancos. Negros não podiam comprar terras fora da área delimitada.

As “Leis do Passe” obrigava os negros a apresentarem o passaporte para poderem se locomover dentro do território, para obter emprego. A partir de 1948, quando os Afrikaaners (brancos de origem holandesa) através do Partido Nacional assumiram o controle hegemônico da política do país, a segregação consolidou-se com a catalogação racial de toda criança recém nascida, com a Lei de Repressão ao Comunismo e com a formação dos Bantustões em 1951, que eram uma forma de dividir os negros em comunidades independentes, ao mesmo tempo em que se estimulava a divisão tribal, enfraquecia-se a possibilidade de guerras contra o domínio da elite branca.
Mesmo assim a organização de mobilizações das populações negras cresceu. Em 1960 cerca de dez mil negros queimaram seus passaportes no gueto de Sharpeville e foram violentamente reprimidos. Greves e manifestações aconteciam em todo o país, combatidas pelo exército nas ruas. Em 1961 houve a ruptura com a Comunidade Britânica e foi fundada a Lança da Nação, braço armado do CNA. Em 1963 Nelson Mandela foi preso e condenado a prisão perpétua por sabotagem e conspiração contra o regime da minoria branca. Nelson Mandela, entre outros líderes negros, foi inspirado pelo Imperador Haile Selassie da Etiópia, outro lutador contra o preconceito. No ano em que Nelson foi preso, Selassie participou de uma Assembléia das Nações Unidas em Nova York no dia 04 de Outubro, seu discurso, anos mais tarde viria a inspirar Bob Marley na famosa canção “War”. Segue trecho abaixo:

“Até que a filosofia que torna uma raça superior e a outra inferior for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada: e até que não existam mais cidadãos de primeiras e segundas classes em nenhuma nação; até que a cor da pele de um homem seja tão insignificante quanto a cor de seus olhos; até que os direitos humanos básicos forem igualmente garantidos a todos sem distinção de raça; até este dia, o sonho da paz duradoura, de uma cidadania mundial e da soberania da moralidade internacional, permanecerá uma mera ilusão a ser perseguida, mas nunca alcançada; e até que os regimes ignorantes e infelizes que mantém nossos irmãos em Angola, em Moçambique e na África do Sul em escravidão sub-humana forem destruídos e vierem a cair; até que a intolerância, o preconceito, a malícia e o egoísmo desumanos forem substituídos por compreensão, tolerância e boa vontade; até que todos os africanos se levantem e falem como seres livres, iguais perante os olhos de todos os homens, e eles estão nos olhos do céu; até este dia, o continente Africano não conhecerá a paz. Nós africanos lutaremos, se necessário, e sabemos que iremos ganhar, pois estamos confiantes da vitória do bem sobre o mal...”
Nelson Mandela saiu da cadeia em 11 de Fevereiro de 1990, vinte e sete anos após sua prisão. Em 1993 ganhou o Prêmio Nobel da Paz ao lado do também sul africano Frederik Wellem de Klerk pelo trabalho contra a segregação racial e o processo de democratização do país.

Em 10 de Dezembro de 1948 na Assembléia Geral das Nações Unidas foi estabelecida a Declaração Universal dos Direitos Humanos. No Artigo 1 está escrito: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. No Artigo 2: Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. Quem quiser conferir na íntegra, acesse www.unicef.org/brazil/dir_huma.htm
A luta continua até hoje. Somos todos “livres” e iguais perante os olhos de Deus. Então lute pelos seus direitos. Busque a sua liberdade.

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