Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade tal qual cheiro de zurrilho na beira do asfalto


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Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Um vaso de flores

Entro na sala com uma sensação estranha: parecia estar sendo carregado. Não encontro nada exceto um galão de vinte litros de água.

Naquela altura, as cadeiras, a pia, o ventilador, a cafeteira e o pequeno aparelho de som não chamam minha atenção. Fixo meu olhar naquele curioso galão de água.

Em menos do que um instante, um turbilhão de perguntas invadiu minha mente cansada e atordoada pelas preocupações corriqueiras – entretanto volumosas – do dia-a-dia:

- Quem levou aquele galão até lá?
- O que estará ele fazendo naquele canto?
- Para onde ele será levado e utilizado?
- De onde vem a água que nele se encontra?
- Quanto custou e onde foi comprado?
- Poderia ser só um enfeite no canto da sala?
- A cor azul do plástico que envolve a água é por motivo de legislação específica ou tão somente por falta de criatividade da empresa que envasa a água?
- Qual o percentual de cada sal mineral contido na água?
- Quais os caminhos que a água trilhou nos últimos anos até chegar àquele galão?
- Um galão de vinte litros de água mineral pesa o mesmo que um galão de vinte litros de água potável da torneira?

E as perguntas surgiam sem fim, me fazendo esquecer meu objetivo naquela sala e as cacofonias que produzia. O tempo passou, a noite caiu. Com ela o silêncio (alguém havia apagado o rádio, pouco antes da escuridão tomar conta da sala).

Não mais que de repente, o galão de água era apenas um corpo pouco nítido, mas claro o bastante para ver minha própria imagem nele refletida, com ajuda da parca iluminação vinda do corredor.

Nunca antes havia vislumbrado minhas formas: pernas finas, assim como os ombros e parte superior do corpo; cintura e abdômen largos, algo que poder-se-ia chamar de “aspecto cilíndrico quase-esférico”; do alto de minha cabeça, lindas extensões filiformes verdes com corpos multi-petalados coloridos – amarelos, vermelhos, brancos e cor-de-laranja. Gostei do que vi. Nada mau para um vaso de flores.

Rafael Luiz Reinehr

 

PS: Sejam extremamente bem-vindos nossos 2 novíssimos tripulantes da Nau Planetária Simplicíssimo, o digníssimo colunista e excelente contista Gilson Giuberti Filho, que passa a assinar a coluna chamada Bacantes Literárias e o nosso novo, empolgado (e cheio de alfinetes pontiagudos)poeta e Ombudsman Bernardo W. K. Sintam-se como devem: em sua casa!

Estamos preparando uma Campanha de Natal para angariar brinquedos a serem doados para entidades assistenciais que cuidam de crianças. A coleta dos brinquedos ocorrerá em todas cidades em que colaboradores do Simplicíssimo se dispuserem a fornecer um endereço para que os presentes sejam entregues. Quem estiver disposto a participar, entre em contato através do simplicissimo@simplicissimo.com.br

A criançada agradece!

Leiam as seguintes citações e reflitam:

"Não posso conceber uma vida sem trabalho como verdadeiramente aprazível; para mim, viver através da imaginação e trabalhar significam a mesma coisa; nada mais me contenta. Seria a receita da felicidade, se não fosse o pensamento horrível de que a produtividade depende por completo de uma disposição aleatória; que poderemos, com efeito, empreender no decurso de um dia ou de um período em que as ideias se recusam e as palavras não querem alinhar-se?"
Sigmund Freud

"À medida que os povos se tornam melhores, os Deuses melhoram também. Mas como não se lhes pode eliminar, imediatamente, as particularidades humanas que tempos mais grosseiros lhes atribuiram, as pessoas sensatas têm durante um certo tempo ainda, muitas coisas como incompreensíveis ou explicam-nas por meio de símbolos."
Georg Lichtenberg

"São complementares, não a obra e a crítica, mas a obra e o eco da obra. E o crítico é apenas uma forma de eco entre outras; certamente é em geral a mais forte, mas raramente é a mais pura e é sempre aquela que se apaga mais depressa.
Sobretudo nem uma palavra, caro autor - nenhuma resposta! A única que podes opor a todos os ataques, já a pronunciaste: - a tua obra. Se ela perdurar, venceste."
Arthur Schnitzler

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Gringo no Samba
Conrad Rose

Não era alto nem baixo. Feio nem bonito. Gordo nem magro. Desprovido de qualquer característica marcante. Passava desapercebido pelas mulheres, pelos ladrões e pelos pedintes. Quase invisível. No amor, também encontrava sérios problemas: nem duro nem mole. Um meão de pouca valia, se bem que seria utilmente empregado na lavoura ou no cais do porto - mas Alessandro tomou outro caminho.

Fronteiriço, orgulhava-se de arranhar dois idiomas. O natural e o hermano. Migrou ainda jovem à Baía da Guanabara, acompanhando a família - Zona Sul. Condomínio burguês. Graduou-se jornalista e encontrou seu verdadeiro amor em Mangueira. O surdo seco invadiu-lhe as entranhas. Primeiro se constatou sedado, logo embasbacado e ao sair da quadra da escola, a paixão pelo compasso já se tornara inerente.

Dali extraiu sua melhor matéria. Sua verve dominou-o – entumecida pela descoberta. Descreveu o ensaio numa crônica escandalosa de tão bela. Uma crônica de amor à primeira vista. Na primeira estação deste, quando o contraste e a bisbilhotice parecem ter vida própria.
A repercussão do texto foi gigante. Rendeu-lhe ingresso livre nos ensaios e abriu-lhe as portas do mundo do samba. Se não o fizera com chapéu de palha ou caixa de fósforos, conquistara o acesso via credencial. Num piscar de olhos – nos pagodes – virou o do crachá, e por fim apenas Crachá.

Deveras ninguém compreendia o que aquele desengonçado estava a fazer ali. Ridículo mesmo era quando Alessandro ousava batucar na credencial: fazia algumas caretas e repicava sem parar, quebrando nunca. Não saía dum relógio acelerado e, embora bancasse umas rodadas, pouquíssimos o viam como chegado.

Os meses correram com muita transcrição. Crachá ouvia – ora registrando em áudio, ora anotando aos garranchos - e repassava aos seus leitores as mais bonitas histórias do ritmo. Ninava nos braços da Velha Guarda, contudo nem isso o ensinara a sambar.

Acontece que é muito difícil controlar a imaginação. Como tinha um par de ouvidos sempre à disposição – e estes não questionavam absolutamente nada, a rapaziada desandou a inventar, amplificar, distorcer e até sacanear. Pior que – no dia seguinte – as histórias, os devaneios e as mentiras estavam lá no jornal, sem mudança alguma. Piadas publicadas.

Por outro lado, as crônicas fascinavam. Eram sambas em prosa. E todo dia vinha um da comunidade com uma narrativa e um novo personagem: o velho sambista manco desaparecido durante o desfile da escola, aquele que mataram porque pendurou e não pagou o tamborim, o outro que apanhava da mulher quando chegava passado, e a recatada senhora que – tratando-se de sexo, no aconchego do barraco – só chegava lá ouvindo Máscara Negra, do Zé Kéti – a música tinha que ficar repetindo e toda a vizinhança sabia cantarolar, apesar do sambista pertencer à co-irmã Portela.

Era tão agradável contar-lhe fatos, que começaram a pipocar autores. Três, quatro por dia. Assim, Alessandro espaçou suas idas à Mangueira. Colhia o material duma semana dispondo de apenas uma tarde no botequim – ou na quadra, e mais meia-dúzia de cervejas distribuídas.
Se aproximava o dia em que haveriam mais bambas que pessoas nos arredores da escola. O morro estava virando Olimpo. Tinha até seu Midas, que fazendo treze providenciou cordas de ouro pro seu cavaquinho.

A diretoria da LIESA depressa alertou prá popularidade de Crachá. Em tempo, Liga Independente das Escolas de Samba. Como lá é lugar de meão, o convite não tardou. Pronto, o cronista metia seu pitaco no samba – agora já muito além da conta. E somou uma nova credencial, desta feita pro Sambódromo.

Nestes postos permaneceu por décadas, até que resolveu parar com tudo na vida – pelo menos no quesito trabalho. No meio do caminho já se tornara pragmático; dois passos adiante, autêntico; quando se aposentou, integrado, pode cair no samba e largar as credenciais. Todo este tempo, duas certezas: Mangueira fora sempre dez e só se pode ser feliz de verdade perto do mar.

Mas o que intriga, em Alessandro, é a destreza com a qual administrara sua medianidade única, que fica bem ilustrada no desfecho duma das suas primeiras crônicas: ´...sabe-se lá onde anda Osvaldo Cruz, mas ainda é Portela.´

Pois é, quando não se sabe como pode se saber onde.

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Estrela Infinita (Madrigal)
Cláudia Sleman (Rahna)

O meu amor adeja por estes campos,
Qual menino à cata de pirilampos.
Igual a um colibri em busca de flor...

É como linda alvorada o meu amor,
A aquecer estas minhas mãos geladas.
A tudo iluminar em derredor...

O meu amor é como estrela infinita:
Fulge no céu dos meus olhos que o fitam!

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Felicidade então

- Velho... – Me chamou como se alguma coisa de ternura tivesse ao dizer o que disse. No entanto, não me enganava ao dissimular por trás de cada sílaba meigamente pensada todo o ódio que, na realidade tinha por mim. Chamava-me para perguntar, provavelmente, alguma das futilidades de sempre, que poderiam transitar entre o “tu viste o que saiu no jornal, hoje?”, até o “o que é que tu queres comer hoje, no jantar?”. Sempre perguntas, indagações de assuntos que, na realidade, não tinham uma dose de pessoalidade maior do que a vontade de trazer fatos tão corriqueiros como que numa ânsia sôfrega de nos aproximar por trivialidades. Convenções, não mais do que isto. Enganava-se se pensava que eu não via por trás daquelas grossas lentes o tremor das pálpebras enrugadas que se quedavam contrárias à naturalidade que procurava dar a cada ato. Eu me fazia bem de louco; ela que se ferrasse se achava que eu não sabia que, por trás de cada “Velho...”, - sibilado na dose exata para parecer natural e carinhoso ao mesmo tempo – havia, na realidade, um “Velho de merda!”, resultado de tanto ódio guardado como aquelas suas compotas antigas no alto do armário da despensa, sempre à espera de uma visita ilustre que, em mais de vinte e cinco anos nunca aparecera.

- Fala, velha... – O melhor era simplesmente me comportar como sempre. Não era chegada a hora, ainda, mas ela viria, eu tinha cada vez mais certeza. Por enquanto, com a naturalidade de sempre, corresponder aos seus vazios comportamentais e me juntar a ela como se cúmplice fôssemos contra um terceiro que nos atazanasse. O terceiro, na verdade, era o único elemento a nos unir. O ódio, que cada vez mais caminhava pesadamente por sobre aquelas velhas tábuas de madeira do assoalho, era, entre nós, um ente querido que se deixava ficar sem muita solenidade a perambular por entre os móveis que a velha já não mais limpava. A velha não tinha mais tempo de limpar por que na certa tramava alguma coisa que lhe impedia de dar tratos à higiene que, antes, tanto prezava. Antigamente tinha mais facilidade para dissimular, também, era verdade. Limpava tudo, arrumava a casa, até cuidava dos nossos filhos e conseguia nutrir aquele ódio por mim com mais habilidade do que nos dias de hoje. Se antes havia até mesmo o sexo dissimulado para tentar impor um amor onde este não existia, agora, ficava-lhe muito mais difícil, com poucos artifícios, criar vínculos que não lhe revelassem a tamanha amargura e rancor que alimentava por mim. Por isso tinha que recorrer a estratagemas tão ridículos: apegar-se a palavras, apelidinhos que se criaram depois de velhos os dois, e gestinhos tão minimalistas quanto a meiguice que procurava colocar em cada ato dirigido a mim. Queria fazer-me crer que, de fato se agradava ao ouvir minha opinião a respeito de que merda fosse que ela estivesse se referindo que tinha saído no jornal. Rá!, é lugar-comum extremo se comportar como a esposa submissa que espera que o marido expresse sua opinião para que ela possa tecer a sua em cima desta. Enganava-me tanto quanto nas todas vezes em que me perguntava o que queria, afinal, para o jantar, logo mais à noite. Dá-me o que queres de uma vez! Veneno, chumbinho, merda, o que for. Se for para ser ao menos mais honesta, é melhor do que agüentar os pratos bem decorados depositados nas toalhas com seus crochês de tantos anos.

A porra é manter a atenção desperta, elevar uma sobrancelha para indicar que estou prestando atenção ao seu chamado, bem como à próxima coisa que será dita. Baixar os óculos também faz parte do ritual engendrado a cada dia, há muito tempo – mas eu sou mais esperto do que ela. Se ela tem o plano dela, eu tenho o meu e ela vai se surpreender mais dia, menos dia, achando que eu sou um idiota à mercê de seu amargor, cultivado com o mesmo cuidado desprendido para com as florzinhas idiotas que adornam a janela grande em frente à pia.

Ela não fala, gosta de fazer suspense, de voltar a se concentrar no que faz – mais um crochê imbecil no outro lado da sala, sempre junto do fogo, esta velha encarangada de merda, sempre friorenta com aquele cachorro de bosta junto dos pés. Ela faz jeitinho de quem tem um importante enunciado, e, ao final, acaba soltando qualquer indagação que eu ponho por fim com um “É...” ou um “Pode ser”. Pode ser o que tu quiseres, não me importa nada, só desfazer tua dissimulação, me armar dos fatos palpáveis para que todos possam ver quem tu és e o que é que sempre quiseste, afinal. Não tenho pressa, sou mais paciente do que tu, sempre fui. Faço as coisas mais meticulosamente possíveis e vou te pegar de jeito.

- Eu tava pensando... – Em me matar, provavelmente, não é velha desgraçada? Com requintes de crueldade, é certo. Com a modorra com que vem me entupindo de carne de porco, com prazo de validade sei lá qual, recheado não sei eu por qual especiaria envenenante, para minha lenta e inevitável ida desta para o inferno. Ao menos não tem pressa. Minha companhia não se mostra, desta forma, tão insuportável ao que parece. Permitir-me a felicidade de ainda degustar de tuas comidas – bem sei eu que repletas de algum formicida, raticida, ou sei lá que veneno for: insípidos, no entanto. A certeza de estar ingerindo um ingrediente adicional nesta sua comida, que ao cabo de algum tempo me fará sufocar e me debater pateticamente pelo chão da sala, – enquanto ela, com risadas, bem visualizo eu, vai aguardar até que minhas ridículas convulsões encomendem minha alma pro diabo, deixando-a na tranqüilidade que tanto prezará – ah, esta certeza eu tenho, absolutamente. Vê-la com o olhar, solícita, a somente me olhar e deter-se exclusivamente em saladas e mingaus enquanto eu me empanturro das gorduras que para mim cozinha, é mais do que a prova de que não quer aproximar-se do risco de também vir a ingerir um grão de arroz sequer que possa estar envenenado. Velha safada...

- No quê, minha velha? – Eu sacudo o jornal, mudando-o de página, cruzo e descruzo as pernas e continuo a fingir prestar atenção nas notícias sobre previdência social com tamanha seriedade, que tal dissimulação chega a surpreender até mesmo a mim, na minha até então não conhecida hipocrisia. Ela, mais habilitada do que eu neste terreno, (tenho observado há tempos) põe a mão na cintura quando se vira para mim, continuando a mexer a comida na panela mantendo a mesma tranqüilidade no olhar e nos gestos. Não fosse, no entanto, a certeza que eu tenho de já mais conhecer ninguém e, hoje, saber da impossibilidade total de se chegar a conhecer alguém a fundo, mesmo após quarenta anos de casamento, e ainda me espantaria com tamanha falsidade a que fomos reduzidos.

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en passant
Eduardo Hostyn Sabbi

O Fórum Social Mundial e o PT

Não é apenas boataria não. Por incrível que pareça, ilustres de todos os lados começam a pipocar com a idéia de retirar de Porto Alegre a condição de sede do Fórum Social Mundial. E parece não haver vermelhidão alguma em suas faces com tão escandalosa idéia. Pior, deixam claro que o motivo é não ter mais o PT como o partido de poder na capital gaúcha. É por esse caminho que se manifestam as instituições do MST, CUT e UNE, reforçando assim seu incontestável vínculo político e toda uma trajetória de inconcebível parcialidade enquanto movimentos sociais ou “do povo”. Este tão vergonhoso posicionamento que atordoa a minha alma apartidária e desperta minha fúria democrática, sem dúvida terá como repercussão o aumento da rejeição nacional a este declarado partido esquerdista. Impossível considerar de outra forma. Parece que o recado do povo nestas últimas eleições nas grandes cidades brasileiras não foi entendido. Se o foi, devo imaginar que trata-se de algo que gira em torno de prepotência e arrogância tal postura do PT. Algo que você já deve ter lido em “A Revolta dos Bichos” e que impede a visão de um evento de cunho transformador que também possa ser em si modificável.

E de repente então, essa idéia absurda de estruturas rígidas e mentes inflexíveis começa a reavivar certos medos e a nos mostrar que talvez não o fossem tão descabidos assim. Quem já não ouviu algo do tipo “se eles assumirem, tomarão conta do que é seu, terás que repartir com eles”. Pois o PT parece se adonar indevidamente do que é meu, seu, nosso. Do que é do povo e então, em última (ou primeiríssima) análise, do que é social. Reforça aliás, a postura dos petistas mais militantes nas rodas em que discuto política, entre um copo de chopp ou um passeio pelo verde. “Nós é que somos os bons, os que se interessam pelas minorias, pelo social, que lemos livros-cabeça, que passeamos pela Cidade Baixa e escutamos a música alternativa”. Eles, somente eles. Não ouse outra sigla apoiar os movimentos “dos sem” e muito menos ousem seguir com o orçamento participativo sem pagar os devidos royalties (se é que me permitem usar algum americanismo em tempos de globalização) para a “turma do Lula lá”.

E então a essa altura você já deve estar com receio de algum regime autoritário ou pensar que a democracia serve enquanto a eles serve, uma vez que assumem que o Fórum, não sendo mais uma vitrine do PT, porque as contingências sociais (evolutivas ou não) assim o fizeram, não tem mais sentido em aqui existir. Imagino que deva você estar pelo menos refletindo a respeito de tudo o que acreditou até agora, seja para um lado ou para o outro. Ou, quem sabe, sendo um deles, siga sentindo que está no seu direito tirar o meu direito, já que não há contentamento em ser você apenas um esquerdo. Pois fica assim estabelecido por eles, que o Fórum Social Mundial de Porto Alegre não é mais Social, nem Mundial e quizás ainda possa ser chamado de Fórum, uma vez que terá neste cantinho do mundo um porto muito triste.

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 20/X

Desafinados
revólveres disparam
contra a loira do tchan.

Faroeste 8/X

Cada dia diferente,
mesmo doente,
você é linda

Josiclelson - III

Após uma estratégica parada para homenagear nosso site (ou como diz o digníssimo editor: sítio), voltamos à sina de nosso herói não nato.

Na semana retrasada, a mãe do Josiclelson estava grávida e com apuros na gravidez. O que poderia ser? Bom, vejamos se consigo usar minha bola de cristal.

A mãe do Josiclelson teve uma gravidez das mais normais possíveis, não fosse o fato de ter descoberto estar grávida já com quatro meses de gestação. Ainda bem que ela não bebia ou fumava, assim, a vida do bebê foi garantida. Ela não enjoava, nem tinha desejos estranhos. Como não era de fazer muita festa, nem de comer comidas muito fortes, a alimentação do feto foi das melhores possíveis, tudo levando a crer que Josiclelson seria uma criança forte e saudável.

Quando a mãe dele notou que a menstruação estava muito atrasada, desconfiou que poderia estar grávida, porém lembrou-se que não transava a mais de três meses e o pai da criança estava viajando desde aquele tempo. Era quase impossível.

Quando finalmente saiu o resultado do exame, foi realizada uma festa em família, pois Josiclelson seria o primeiro a nascer de uma dinastia que estava por um fio. A família estaria salva de seu desaparecimento. Logo em seguida, quando foi descoberto que era um homem, a festa foi dobrada, pois além de tudo, daqui a alguns anos, o time de futebol da família estaria completo.

Uma única incidência estranha ocorreu, uma sensação maluca que se passou pela cabeça da mãe do Josiclelson, uma mulher cujas iniciais começavam por JO, conforme você pode ler na edição 98 deste “sítio” aqui. Ela acha que tem algo errado, que isto pode não passar de um sonho, pois tem quase certeza de já ter vivido outra história sobre seu primogênito, o Josiclelson. Que coisa, que sina. Que destinos a vida reserva para nosso herói não nato Josiclelson.

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Utopias
Luiz Maia

Padrão de Beleza

É possível que ao lermos um texto possamos interpretá-lo diferentemente de outras pessoas.
Por isso toda atenção é pouca para não julgarmos ninguém imerecidamente.
Certa vez o poeta Vinícius de Morais referiu-se às mulheres assim:
"As feias que me perdoem mas beleza é fundamental".
Passados muitos anos essa frase ainda causa polêmica entre seus admiradores.
Uns entendem que ele se referiu à beleza interior das pessoas.
Outros a levam ao pé da letra.

Entendo que o poetinha traduziu um pensamento seu. Mas, se buscou com isso estabelecer um padrão de beleza, foi infeliz pela visão excludente. A frase a meu ver é imprecisa e não representaria um bom exemplo a ser difundido, muito menos seguido. Não é a toa que a mídia apegou-se a esse conceito deturpado de se apregoar o belo, fazendo desse filão um meio de ganhar dinheiro e audiência, nos impondo a"ditadura da beleza" como padrão a ser copiado em sua inteireza.

Se formos nos basear pelo já padronizado modelo de beleza instituído pelos meios de comunicação, haveremos de nos perguntar: "como seria a vida das pessoas "feias", aquelas que não têm os atributos físicos que se enquadram nos estereótipos de modelos e atrizes que povoam as revistas e as telinhas de tevê deste País?

O que fazer com essas pessoas comuns, as suburbanas, as anônimas da periferia, quando desprovidas de uma plástica admirável? Qual a parte que cabe àquelas milhares de pessoas que se alimentam mal, que sofrem os dissabores de uma vida sem nenhuma perspectiva, mas que têm como lema a fé na vida e a esperança no amanhã?"

Ao invés desse desenfreado culto ao corpo, os meios de comunicação deveriam estimular as pessoas a se verem como seres humanos comuns que são, mas capazes de viver uma vida digna e honrada. Deveriam fazer apologia à honestidade, ao trabalho e aos valores realmente nobres.
Deveriam diminuir as diferenças e aumentar o sentimento em cada um de que a vida foi feita para ser vivida e aproveitada por todos nós, não havendo espaço para discriminações nem preconceito.

É tempo de escutar os silêncios daqueles que clamam pela boca fechada; o silêncio de homens e mulheres que não têm corpos esculturais, mas que trabalham pesado contribuindo para o crescimento e grandeza deste País. Pessoas, acima de tudo, dignas! É tempo de escutar o silêncio dos excluídos...

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Grite

Quando não puder mais suportar a dor, deixe que a garganta fale.
Fale alto, fale adiante.
Grite se for preciso. Faça com vontade.
Se o coração não puder segurar, não puder calar.
Com tamanha indiferença, tamanha loucura.
Tamanha intensidade.
Tudo gira, tudo sufoca.
Tente não ser normal, tente não ser quietinho.
Cutuque as feridas, sangre de verdade.
Depois seque tudo com panos limpos.
Deixe que a vontade de sofrer fique um pouco com você.
Pois de nada adianta mascarar a dor com sorrisos desonestos.
De nada adianta fingir que está tudo em seu devido lugar.
O lugar da dor é do lado de fora. Sangre.
Grite.
A verdadeira expressão da dor é o seu único remédio.
Seu único refúgio.
Grite bem alto.
Deixe seu coração lhe mostrar onde está doendo.
Não perca tempo racionalizando.
A razão é inimiga do coração.
È a melhor amiga da dor.
Lute e vença.
Fale alto, cante.

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Suburbanas
Marcos Claudino

Washington, USA, 08/11/2004.

É o orgulho da mamãe

Ok, vocês podem estar estranhando o fato de eu escrever em português. Mas eu explico. É que vim passar um carnaval aqui, há alguns anos, e interessei-me por esse seu idioma...
Bom, eu quero aproveitar essa grande oportunidade, para falar do meu orgulho. Meu filhinho, lindinho... Estou tão feliz!!! Eu sempre acreditei que ele teria um grande futuro.
Confesso que não esperava. Aquelas manias esquisitas, quando criança... Despindo as bonecas da irmã, colocando bombinhas e morteiros no meu fogão... Achávamos que ele tinha algum problema. Não trazia nenhum amiguinho aqui em casa. Muito menos uma namoradinha, ou qualquer paquera... Ficamos tão preocupados na época, que arrumamos um intercâmbio pro menino. Mandamo-lo para o velho continente. Mas, como ele era meio ruim em idiomas, resolvemos que iria para a Inglaterra mesmo.
Aí sim, as coisas melhoraram. Ele arrumou um amiguinho muito parecido com ele. O Tony era uma gracinha... Até as manias de enfiar o dedo no nariz ele tinha... Uma graça vê-los passeando pelas ruas de mãos dadas. Meu marido, preconceituoso que só, não gostou dessa história, e trouxe de volta nosso pimpolho. Foi uma verdadeira tristeza a separação dos dois... Eles prometeram voltar a se ver, com lágrima nos olhos, nem que para isso precisassem matar muita gente... Não entendemos muito bem, mas enfim, quando meu marido põe uma coisa na cabeça, não tem jeito... Temendo dúvidas em sua masculinidade, tratou de levar o garoto a todos os bordéis da Costa Leste, Oeste, Norte e Sul. Aí sim, voltou um verdadeiro homem, confiante, feliz. Até coçava o saco e cuspia no chão.
Por conta disso, acabou por ter certo sucesso, e se fixou na idéia de seguir a carreira do pai. Arranjamos uma namoradinha pra ele, meio esquisita, mas combinava muito bem com ele. Casaram-se, tiveram filhos, enfim, o sonho americano se concretizava...
Juntou-se a uns amigos políticos, amigos do meu marido, e fez sua carreira assim. Hoje, vendo-o sentado lá na mesa principal da Casa Branca, ainda com aquela carinha de bobo, não posso deixar de sentir um orgulho enorme...
Ele e o Tony continuam se vendo, falam horas ao telefone, com tanto carinho, que até me comove...
Enfim, gente, só queria expressar todo o meu orgulho e felicidade, por ver que meu filhote continuará, por mais quatro anos, a ser o homem mais poderoso do mundo. Quem o vê no palanque, tão imponente, nem imagina que aquela fortaleza ainda usa fraldas, mas isso nem importa, certo? Ele pode ser cagão, mas a merda cai em muita gente embaixo dele... hehehe...

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Bacantes Literárias
Gilson Giuberti Filho

Olga

Eram oito horas e Olga não havia se levantado. Conferiu o relógio e saiu da cama ainda sonâmbula.
Já tinha alguns dias que estava desanimada. Aquela era a quarta falta às aulas de hidroginástica.
Longe de estar sentindo o peso dos sessenta anos, a mudança de sua única filha para Londres a havia abalado. Anthero, seu marido, havia falecido de câncer há oito anos; sentia-se relegada a um ostracismo ocioso.
Os dias vinham se passando estáticos, eternos; apenas quebrados por finais de semana na casa de campo de Marita, sua amiga desde o longo internato no colégio de freiras.
Vinha de um casamento feliz, porém conturbado: a condição de embaixador de Anthero deslocou-a pelo mundo afora. O gênio tempestuoso do marido nunca favoreceu ao casal uma estada de trabalho em países europeus (tão sonhada por ela...). Permaneceram quase sempre em locais aonde o calor tórrido e a instabilidade política invadia suas vidas privadas levando-os inexoravelmente a um novo deslocamento.
Melina havia nascido no Marrocos, mas fora educada na Turquia; adolesceu no Ceilão onde conheceu um jovem exportador de folhas de chá que viria a se tornar seu marido.
Sabia que Melina não seria sua desde o princípio: o mundo sempre fora o verdadeiro lar de sua filha. Mesmo assim sentia sua falta.
- Elza, você pode ir embora mais cedo hoje. Irei ao supermercado sozinha
- ‘Tá D. Olga...A senhora é quem sabe...
No supermercado, vagava absorta pelos corredores de gôndolas sedutoras – quase perdida.
No íntimo sabia ser impossível não reparar nos homens ao longo do caminho: ainda se sentia mulher...
Não sabia o que era sexo desde a morte do embaixador. A solidão e a carência lhe consumia, mas...A idéia de continuar a embaixatriz viúva lhe apetecia. Sentia-se sozinha, porém esplêndida dentro de um mausoléu nacional: a viúva de Anthero de la Guardia.
Disfarçava com as amigas; buscava a yoga numa saída para a angústia e o desamparo afetivo. Quase toda semana participava de cursos sobre práticas e filosofias transcendentais. Acreditava que a busca espiritual seria remédio para o seu deserto pessoal. Duas vezes por ano viajava para um mosteiro de práticas orientais. A meditação e o convívio faziam o tempo fluir mais confortável. Sabia que muitas de suas companheiras “transcendentais” eram aplacadas pela mesma dor – todas sabiam – mas um acordo tácito entre elas era coroado por uma nuvem mística trazida pelo consumo incessante de incensos, estatuetas de divindades e recitação de mantras diários.
Sessão de queijos. Seu olhar cruza com os de um rapaz. O corpo esquenta, seu coração bate forte.
- Posso te ajudar?
- Se for do seu agrado...
Ele passa a conduzir o carrinho de compras.
- Eu já estou terminando...
- Não tem problema: o carrinho está pesado mesmo.
- A senhora gosta muito de queijo...
- É que à noite vou receber algumas amigas.
- Ah...Sei...
- O que você faz?
- Bem...Eu vendo produtos para o supermercado...Eu te vejo sempre aqui...Sempre bonita...
Enrubesceu-se. Havia anos que não era elogiada como mulher. A chama de seu coração começou a se acender.
- Você também é um belo moço. Arrisca.
- Qual o seu nome?
- Olga, e o seu?
- Luis Paulo.
- Quantos anos você tem?
- Vinte quatro anos.
- Nossa! Sou uma velha perto de você!
- Não acho não! Eu só namoro com mulheres mais velhas do que eu: são mais experientes... Insinuou.
Chegaram ao caixa. Inicia o quase interminável ritual de contagem de mercadorias.
- Eu te ajudo até ao carro.
- Claro!
Pensava o que iria fazer agora. Tinha medo de perder a oportunidade. Sua inibição não permitia um gesto mais ousado dos que já havia cometido.
As compras já estavam no carro.
- A senhora vai fazer alguma coisa agora?
- Não! E para de me chamar de senhora! Disse num tom de carinho.
- A gente podia dar uma volta no shopping aqui perto.
Odiava shopping: era gente demais.
- Você está de carro?
- Não, estou a pé...
- Então vamos juntos!
Não acreditava que um homem havia entrado em seu carro. Seu coração disparava, parecia sair-lhe pela boca.
- Você conhece algum lugar no shopping?
- Vou sempre lá...
Estacionamento; garagem; elevador. Começam a passear. O shopping está lotado. Ela vislumbra uma delikatessem.
- Vamos entrar aqui!
Sentam-se. Ele pede uma Coca e ela um café. Resolve pedir um Brownie.
- Você quer?
- O que é isso?
- Um bolo inglês.
- Então ‘tá...Aceito...
Ele pergunta do que gosta de fazer e ela inicia um longo monólogo sobre yoga, espíritos telúricos, metafísica cósmica, etc. Ele ouve...
À dada altura já estão descontraídos. Ela se vê feliz como nunca. Ele se levanta e vai até ao caixa. Retorna.
- Vou sair para comprar cigarros ali em frente.
- Tudo bem.
- Você me espera?
- Claro!
Olga está tranqüila, contente no seu íntimo. Seria ele o homem que sua amiga disse que conheceria quando jogou Tarot para ela?
O tempo passa o desconforto aumenta.
Meia hora...
Olga levanta-se, olha pelo vidro e ninguém conhecido...
Mantendo o que havia de dignidade, pede a conta ao garçon. Abre a bolsa, não encontra a carteira...Mil e quinhentos reais...
Envergonha-se. Duas lágrimas descem do seu rosto; enxuga-as discretamente com o lenço. Toma o celular; digita um número.
- Marita! É Olga!
- Querida, você não sabe o que me aconteceu: perdi minha carteira!
- Estou numa delikatessem no shopping...Isso...Já vou ligar...Não sei aonde coloco minha cabeça...A homeopatia? Parei...Pois é...Eu te espero...Obrigada! Você é um amor!
- Garçon suspenda a conta e me trás outro café!

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Ombudsman
Bernardo W.K.

O novo alfaiate

Em 1809, a legislação sueca criou um novo cargo no parlamento para limitar os poderes do rei, poderiam ter batizado-o como Agente da justiça ou Fiscal do universo, mas por ordem maior e vontade do povo e de deus, esse cargo que mais parece um armário embutido, ficou conhecido como Ombudsman.

O ser humano é realmente uma comédia, destinado ao simples fato de existir, ele fica tentando achar respostas para as perguntas que cria. Quando é que a humanidade vai entender que a vida deve ser vivida simplesmente, e não ser recriada com mundos paralelos e coisas intangíveis, que isso se destine ao indivíduo, que é livre para mentir o quanto quiser, e não a sociedade. Todas as perguntas, questões filosóficas, religiões e histórias infantis são mera especulação. Toda idéia é solitária, nasce da cabeça de um só ser, um ser que se chama humano e só tem a habilidade de especular, tendo em vista que a certeza das coisas foi abolida aos homens e reservada ao deus do Ar. Que isso fique bem claro, pois as palavras que seguirão abaixo, são puras especulações da minha parte, é tudo achismo meu, pretensão de quem tem a cara ao tapa. Nas minhas letras não há crítica alguma, muito menos palco, entendam como quiserem as minhas palavras, pois no final das contas, elas de nada te servem.

***

Vejamos aqui...
Deixa-me ver...
Letra R... Rafael Luiz Campos, é esse? Não.
Rafael Luiz Loya? Não.
Rafael Luiz Reinehr... é esse!
O sujeito de jaleco azul que mexia nos arquivos abriu a pasta com o nome de Reinehr em cima da mesa, tirou de dentro alguns papéis, e jogou uma espécie de ficha cadastral com fotinhas 3x4 nos mãos do outro. Você não queria ver? O cara é esse, só anda rápido que o chefe foi almoçar e já deve estar voltando...
Não é isso que eu tô procurando, eu quero um texto, ele escreveu faz uns trinta dias.
Trinta dias...
Vejamos... trinta dias...
E continuou procurando na pasta de Rafael...
É esse, eu tenho certeza, se está protegido com selo branco e você está procurando nessa data, só pode ser esse. E entregou na mão do outro um texto com um selo branco na ponta do papel.
Muito obrigado, zelador, que o diabo te pague por teus serviços.
E o diabrete voltou ao inferno para queimar o texto de Rafael, que na opnião do Demônio, traria paz, entendimento e compaixão a quem lê-se. Só não mandou queimar o escritor, pois a literatura era um de seus passatempos prediletos.
O texto tinha um título, e o anjo conseguiu ler antes do vermelho descer: Introdução à uma estética anarco-humanista.

***

Ode ao paralelepípedo, ode ao monstro do lago, ode ao terrorista mexicano (que muitos julgam árabe), ode ao comentarista machucado, ode ao contrário reversível, ode ao sem-nexo, ode ao perverso e ao mais simples de todos. Essa é a lógica da ode. Afinal, você odeia tudo aquilo que ama, ou não? Te entendo Eduardo, te entendo...

***

O conto Finados de Alexandre Garcia foi a melhor coisa que li no simplicíssimo em todas as minhas contínuas passagens por aqui (Espero dizer isso de algum texto em todas as edições).
Não tenho muito a falar sobre Marina, ele e a mãe, parece que foram simplesmente pessoas boas, sem graça, sem pai e sem macho (nessa ordem, por favor). Quase que esqueço da chave do conto, do velho que ilumina o ambiente e para no tempo para que o leitor esqueça que leu, e tenha somente a imagem. A cláusula 7 do Manifesto dos sonhos diz que: Tudo se torna verdade, quando a lembrança não vem em forma veiculada (no caso: texto), mas vem nos olhos do sonhador, como lembrança vista.

***

Na boa, o textículo do Adalberto de Queiroz só me encheu o saco (com trocadilhos, lógico), um texto que vai entrar pros anais (olha o trocadilho) como o texto mais chato e arrastado de toda a história do simpli. No dia em que resolverem organizar um anti-ranking, favor encabeçar o Cristo.

***

Milton Ribeiro é o nome do altista, quero dizer artista.
Imaginem que você arruma aquela delicia de mulher numa noite qualquer e depois de dezoito copos de cachaça você consegue arrancar um talvez dela e acaba com ela na porta do quarto. Você abre a porta e a joga na cama, ela vai abrindo as pernas bem devagar, você em ponto de ebulição quando... ADREM ATUP!!! QUE ADREM!!! TÁ TUDO AO CONTRÁRIO, ESSA PORRA É UM TRAVESTI!!! As grandes idéias podem te fascinar se você não sabe a procedência delas, o texto parecia muito legal até que... ADREM ATUP! O cara é um reescrevente!

***

Rafael T.R. rima em A história da rainha de Nazaré com uma elegância quase hípica. O enredo é fraco como uma forte correnteza falsa. Com belíssimas palavras isoladas, porém unidas, ele, Rafael T.R., dá força à água cristalina do texto, que olhando de longe pode parecer puxar bois e arroios, mas se posta em copo sequer alaga um sonho. No final de tudo resta um prazer momentâneo parecido com o da imagem, as rimas são gostosas.

***

Pedro Armando Furtado Volkmann tenta ser algo maior do que ele é no texto de conteúdo duvidoso. Sinto que falta maturidade nas letras (que faltam nas minhas), e que existe uma certa pressão para sair tudo perfeito. Isso é muito natural na vida de um escritor que pretende lançar um livro, ou se tornar cronista. Mas pelo amor de deus, A fé move montanhas é muito Paulo Coelho, e segundo minha amada, a linha entre o sábio e o brega é muito tênue, e Pedro me parece estar em cima dela.

***

Tá, o Yukio Iwai descreveu as passagens de deus através do som, e ai? Ficou tudo ali, parado até que eu resolvi ouvir a música do 50/60 que ele recomendara como pano de fundo... Adrem Atup já diria que aquilo não é música e sim um conceito qualquer sobre divindades da surf music e os demônios do reagge. Música conceitual pra mim é conceito musicado, sem ritmo e desafinado, é tempo perdido. Eu como músico me reservo ao direito de ficar mudo e não desferir nenhuma ofensa contra o japonês... Banzai!

***

Sara Flech fecha a centésima edição do simplicíssimo com um texto sobre o sentimento mais escuro do ser humano, o preconceito racial. O povo preto (digo sem papas pois reconheço as cores quando as vejo) tem um enorme lugar na minha vida (apesar de não conviver diretamente com quase nenhum), muitas das coisas que amo tanto, foram eles que inventaram, principalmente o Blues, o Jazz e o candomblé, artes tão nobres quanto escuras. E assino embaixo onde Sara escreve nas entrelinhas que os mais injustiçados sempre serão os mais sonhadores. Viva Judah!

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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