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10 /11/2004 - Edição número
101
Uma graxa
na bombacha.
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Editorial
Rafael Luiz Reinehr |
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Um vaso de flores
Entro na sala com uma sensação
estranha: parecia estar sendo carregado. Não encontro
nada exceto um galão de vinte litros de água.
Naquela altura, as cadeiras, a pia, o ventilador, a cafeteira
e o pequeno aparelho de som não chamam minha atenção.
Fixo meu olhar naquele curioso galão de água.
Em menos do que um instante, um turbilhão de perguntas
invadiu minha mente cansada e atordoada pelas preocupações
corriqueiras – entretanto volumosas – do dia-a-dia:
- Quem levou aquele galão até lá?
- O que estará ele fazendo naquele canto?
- Para onde ele será levado e utilizado?
- De onde vem a água que nele se encontra?
- Quanto custou e onde foi comprado?
- Poderia ser só um enfeite no canto da sala?
- A cor azul do plástico que envolve a água
é por motivo de legislação específica
ou tão somente por falta de criatividade da empresa
que envasa a água?
- Qual o percentual de cada sal mineral contido na água?
- Quais os caminhos que a água trilhou nos últimos
anos até chegar àquele galão?
- Um galão de vinte litros de água mineral
pesa o mesmo que um galão de vinte litros de água
potável da torneira?
E as perguntas surgiam sem fim, me fazendo esquecer meu
objetivo naquela sala e as cacofonias que produzia. O tempo
passou, a noite caiu. Com ela o silêncio (alguém
havia apagado o rádio, pouco antes da escuridão
tomar conta da sala).
Não mais que de repente, o galão de água
era apenas um corpo pouco nítido, mas claro o bastante
para ver minha própria imagem nele refletida, com
ajuda da parca iluminação vinda do corredor.
Nunca antes havia vislumbrado minhas formas: pernas finas,
assim como os ombros e parte superior do corpo; cintura
e abdômen largos, algo que poder-se-ia chamar de “aspecto
cilíndrico quase-esférico”; do alto
de minha cabeça, lindas extensões filiformes
verdes com corpos multi-petalados coloridos – amarelos,
vermelhos, brancos e cor-de-laranja. Gostei do que vi. Nada
mau para um vaso de flores.
Rafael Luiz Reinehr
PS: Sejam extremamente bem-vindos nossos 2
novíssimos tripulantes da Nau Planetária
Simplicíssimo, o digníssimo colunista
e excelente contista Gilson Giuberti Filho,
que passa a assinar a coluna chamada Bacantes Literárias
e o nosso novo, empolgado (e cheio de alfinetes pontiagudos)poeta
e Ombudsman Bernardo W. K. Sintam-se
como devem: em sua casa!
Estamos preparando uma Campanha de
Natal para angariar brinquedos a serem doados para
entidades assistenciais que cuidam de crianças. A
coleta dos brinquedos ocorrerá em todas cidades em
que colaboradores do Simplicíssimo
se dispuserem a fornecer um endereço para que os
presentes sejam entregues. Quem estiver disposto a participar,
entre em contato através do simplicissimo@simplicissimo.com.br
A criançada agradece!
Leiam as seguintes citações
e reflitam:
"Não posso conceber uma vida
sem trabalho como verdadeiramente aprazível; para
mim, viver através da imaginação e
trabalhar significam a mesma coisa; nada mais me contenta.
Seria a receita da felicidade, se não fosse o pensamento
horrível de que a produtividade depende por completo
de uma disposição aleatória; que poderemos,
com efeito, empreender no decurso de um dia ou de um período
em que as ideias se recusam e as palavras não querem
alinhar-se?"
Sigmund Freud
"À medida que os povos se
tornam melhores, os Deuses melhoram também. Mas como
não se lhes pode eliminar, imediatamente, as particularidades
humanas que tempos mais grosseiros lhes atribuiram, as pessoas
sensatas têm durante um certo tempo ainda, muitas
coisas como incompreensíveis ou explicam-nas por
meio de símbolos."
Georg Lichtenberg
"São complementares, não
a obra e a crítica, mas a obra e o eco da obra. E
o crítico é apenas uma forma de eco entre
outras; certamente é em geral a mais forte, mas raramente
é a mais pura e é sempre aquela que se apaga
mais depressa.
Sobretudo nem uma palavra, caro autor - nenhuma resposta!
A única que podes opor a todos os ataques, já
a pronunciaste: - a tua obra. Se ela perdurar, venceste."
Arthur Schnitzler
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Gringo
no Samba
Conrad Rose |
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Não era alto nem baixo. Feio nem bonito.
Gordo nem magro. Desprovido de qualquer característica
marcante. Passava desapercebido pelas mulheres, pelos ladrões
e pelos pedintes. Quase invisível. No amor, também
encontrava sérios problemas: nem duro nem mole. Um
meão de pouca valia, se bem que seria utilmente empregado
na lavoura ou no cais do porto - mas Alessandro tomou outro
caminho.
Fronteiriço, orgulhava-se de arranhar dois idiomas.
O natural e o hermano. Migrou ainda jovem à Baía
da Guanabara, acompanhando a família - Zona Sul.
Condomínio burguês. Graduou-se jornalista e
encontrou seu verdadeiro amor em Mangueira. O surdo seco
invadiu-lhe as entranhas. Primeiro se constatou sedado,
logo embasbacado e ao sair da quadra da escola, a paixão
pelo compasso já se tornara inerente.
Dali extraiu sua melhor matéria. Sua verve dominou-o
– entumecida pela descoberta. Descreveu o ensaio numa
crônica escandalosa de tão bela. Uma crônica
de amor à primeira vista. Na primeira estação
deste, quando o contraste e a bisbilhotice parecem ter vida
própria.
A repercussão do texto foi gigante. Rendeu-lhe ingresso
livre nos ensaios e abriu-lhe as portas do mundo do samba.
Se não o fizera com chapéu de palha ou caixa
de fósforos, conquistara o acesso via credencial.
Num piscar de olhos – nos pagodes – virou o
do crachá, e por fim apenas Crachá.
Deveras ninguém compreendia o que aquele desengonçado
estava a fazer ali. Ridículo mesmo era quando Alessandro
ousava batucar na credencial: fazia algumas caretas e repicava
sem parar, quebrando nunca. Não saía dum relógio
acelerado e, embora bancasse umas rodadas, pouquíssimos
o viam como chegado.
Os meses correram com muita transcrição. Crachá
ouvia – ora registrando em áudio, ora anotando
aos garranchos - e repassava aos seus leitores as mais bonitas
histórias do ritmo. Ninava nos braços da Velha
Guarda, contudo nem isso o ensinara a sambar.
Acontece que é muito difícil controlar a imaginação.
Como tinha um par de ouvidos sempre à disposição
– e estes não questionavam absolutamente nada,
a rapaziada desandou a inventar, amplificar, distorcer e
até sacanear. Pior que – no dia seguinte –
as histórias, os devaneios e as mentiras estavam
lá no jornal, sem mudança alguma. Piadas publicadas.
Por outro lado, as crônicas fascinavam. Eram sambas
em prosa. E todo dia vinha um da comunidade com uma narrativa
e um novo personagem: o velho sambista manco desaparecido
durante o desfile da escola, aquele que mataram porque pendurou
e não pagou o tamborim, o outro que apanhava da mulher
quando chegava passado, e a recatada senhora que –
tratando-se de sexo, no aconchego do barraco – só
chegava lá ouvindo Máscara Negra, do Zé
Kéti – a música tinha que ficar repetindo
e toda a vizinhança sabia cantarolar, apesar do sambista
pertencer à co-irmã Portela.
Era tão agradável contar-lhe fatos, que começaram
a pipocar autores. Três, quatro por dia. Assim, Alessandro
espaçou suas idas à Mangueira. Colhia o material
duma semana dispondo de apenas uma tarde no botequim –
ou na quadra, e mais meia-dúzia de cervejas distribuídas.
Se aproximava o dia em que haveriam mais bambas que pessoas
nos arredores da escola. O morro estava virando Olimpo.
Tinha até seu Midas, que fazendo treze providenciou
cordas de ouro pro seu cavaquinho.
A diretoria da LIESA depressa alertou prá popularidade
de Crachá. Em tempo, Liga Independente das Escolas
de Samba. Como lá é lugar de meão,
o convite não tardou. Pronto, o cronista metia seu
pitaco no samba – agora já muito além
da conta. E somou uma nova credencial, desta feita pro Sambódromo.
Nestes postos permaneceu por décadas, até
que resolveu parar com tudo na vida – pelo menos no
quesito trabalho. No meio do caminho já se tornara
pragmático; dois passos adiante, autêntico;
quando se aposentou, integrado, pode cair no samba e largar
as credenciais. Todo este tempo, duas certezas: Mangueira
fora sempre dez e só se pode ser feliz de verdade
perto do mar.
Mas o que intriga, em Alessandro, é a destreza com
a qual administrara sua medianidade única, que fica
bem ilustrada no desfecho duma das suas primeiras crônicas:
´...sabe-se lá onde anda Osvaldo Cruz, mas
ainda é Portela.´
Pois é, quando não se sabe como pode se saber
onde.
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Estrela
Infinita (Madrigal)
Cláudia Sleman (Rahna) |
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O meu amor adeja por estes campos,
Qual menino à cata de pirilampos.
Igual a um colibri em busca de flor...
É como linda alvorada o meu amor,
A aquecer estas minhas mãos geladas.
A tudo iluminar em derredor...
O meu amor é como estrela infinita:
Fulge no céu dos meus olhos que o fitam!
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Felicidade então
- Velho... – Me chamou como se alguma
coisa de ternura tivesse ao dizer o que disse. No entanto,
não me enganava ao dissimular por trás de
cada sílaba meigamente pensada todo o ódio
que, na realidade tinha por mim. Chamava-me para perguntar,
provavelmente, alguma das futilidades de sempre, que poderiam
transitar entre o “tu viste o que saiu no jornal,
hoje?”, até o “o que é que tu
queres comer hoje, no jantar?”. Sempre perguntas,
indagações de assuntos que, na realidade,
não tinham uma dose de pessoalidade maior do que
a vontade de trazer fatos tão corriqueiros como que
numa ânsia sôfrega de nos aproximar por trivialidades.
Convenções, não mais do que isto. Enganava-se
se pensava que eu não via por trás daquelas
grossas lentes o tremor das pálpebras enrugadas que
se quedavam contrárias à naturalidade que
procurava dar a cada ato. Eu me fazia bem de louco; ela
que se ferrasse se achava que eu não sabia que, por
trás de cada “Velho...”, - sibilado na
dose exata para parecer natural e carinhoso ao mesmo tempo
– havia, na realidade, um “Velho de merda!”,
resultado de tanto ódio guardado como aquelas suas
compotas antigas no alto do armário da despensa,
sempre à espera de uma visita ilustre que, em mais
de vinte e cinco anos nunca aparecera.
- Fala, velha... – O melhor era simplesmente me comportar
como sempre. Não era chegada a hora, ainda, mas ela
viria, eu tinha cada vez mais certeza. Por enquanto, com
a naturalidade de sempre, corresponder aos seus vazios comportamentais
e me juntar a ela como se cúmplice fôssemos
contra um terceiro que nos atazanasse. O terceiro, na verdade,
era o único elemento a nos unir. O ódio, que
cada vez mais caminhava pesadamente por sobre aquelas velhas
tábuas de madeira do assoalho, era, entre nós,
um ente querido que se deixava ficar sem muita solenidade
a perambular por entre os móveis que a velha já
não mais limpava. A velha não tinha mais tempo
de limpar por que na certa tramava alguma coisa que lhe
impedia de dar tratos à higiene que, antes, tanto
prezava. Antigamente tinha mais facilidade para dissimular,
também, era verdade. Limpava tudo, arrumava a casa,
até cuidava dos nossos filhos e conseguia nutrir
aquele ódio por mim com mais habilidade do que nos
dias de hoje. Se antes havia até mesmo o sexo dissimulado
para tentar impor um amor onde este não existia,
agora, ficava-lhe muito mais difícil, com poucos
artifícios, criar vínculos que não
lhe revelassem a tamanha amargura e rancor que alimentava
por mim. Por isso tinha que recorrer a estratagemas tão
ridículos: apegar-se a palavras, apelidinhos que
se criaram depois de velhos os dois, e gestinhos tão
minimalistas quanto a meiguice que procurava colocar em
cada ato dirigido a mim. Queria fazer-me crer que, de fato
se agradava ao ouvir minha opinião a respeito de
que merda fosse que ela estivesse se referindo que tinha
saído no jornal. Rá!, é lugar-comum
extremo se comportar como a esposa submissa que espera que
o marido expresse sua opinião para que ela possa
tecer a sua em cima desta. Enganava-me tanto quanto nas
todas vezes em que me perguntava o que queria, afinal, para
o jantar, logo mais à noite. Dá-me o que queres
de uma vez! Veneno, chumbinho, merda, o que for. Se for
para ser ao menos mais honesta, é melhor do que agüentar
os pratos bem decorados depositados nas toalhas com seus
crochês de tantos anos.
A porra é manter a atenção desperta,
elevar uma sobrancelha para indicar que estou prestando
atenção ao seu chamado, bem como à
próxima coisa que será dita. Baixar os óculos
também faz parte do ritual engendrado a cada dia,
há muito tempo – mas eu sou mais esperto do
que ela. Se ela tem o plano dela, eu tenho o meu e ela vai
se surpreender mais dia, menos dia, achando que eu sou um
idiota à mercê de seu amargor, cultivado com
o mesmo cuidado desprendido para com as florzinhas idiotas
que adornam a janela grande em frente à pia.
Ela não fala, gosta de fazer suspense, de voltar
a se concentrar no que faz – mais um crochê
imbecil no outro lado da sala, sempre junto do fogo, esta
velha encarangada de merda, sempre friorenta com aquele
cachorro de bosta junto dos pés. Ela faz jeitinho
de quem tem um importante enunciado, e, ao final, acaba
soltando qualquer indagação que eu ponho por
fim com um “É...” ou um “Pode ser”.
Pode ser o que tu quiseres, não me importa nada,
só desfazer tua dissimulação, me armar
dos fatos palpáveis para que todos possam ver quem
tu és e o que é que sempre quiseste, afinal.
Não tenho pressa, sou mais paciente do que tu, sempre
fui. Faço as coisas mais meticulosamente possíveis
e vou te pegar de jeito.
- Eu tava pensando... – Em me matar, provavelmente,
não é velha desgraçada? Com requintes
de crueldade, é certo. Com a modorra com que vem
me entupindo de carne de porco, com prazo de validade sei
lá qual, recheado não sei eu por qual especiaria
envenenante, para minha lenta e inevitável ida desta
para o inferno. Ao menos não tem pressa. Minha companhia
não se mostra, desta forma, tão insuportável
ao que parece. Permitir-me a felicidade de ainda degustar
de tuas comidas – bem sei eu que repletas de algum
formicida, raticida, ou sei lá que veneno for: insípidos,
no entanto. A certeza de estar ingerindo um ingrediente
adicional nesta sua comida, que ao cabo de algum tempo me
fará sufocar e me debater pateticamente pelo chão
da sala, – enquanto ela, com risadas, bem visualizo
eu, vai aguardar até que minhas ridículas
convulsões encomendem minha alma pro diabo, deixando-a
na tranqüilidade que tanto prezará – ah,
esta certeza eu tenho, absolutamente. Vê-la com o
olhar, solícita, a somente me olhar e deter-se exclusivamente
em saladas e mingaus enquanto eu me empanturro das gorduras
que para mim cozinha, é mais do que a prova de que
não quer aproximar-se do risco de também vir
a ingerir um grão de arroz sequer que possa estar
envenenado. Velha safada...
- No quê, minha velha? – Eu sacudo o jornal,
mudando-o de página, cruzo e descruzo as pernas e
continuo a fingir prestar atenção nas notícias
sobre previdência social com tamanha seriedade, que
tal dissimulação chega a surpreender até
mesmo a mim, na minha até então não
conhecida hipocrisia. Ela, mais habilitada do que eu neste
terreno, (tenho observado há tempos) põe a
mão na cintura quando se vira para mim, continuando
a mexer a comida na panela mantendo a mesma tranqüilidade
no olhar e nos gestos. Não fosse, no entanto, a certeza
que eu tenho de já mais conhecer ninguém e,
hoje, saber da impossibilidade total de se chegar a conhecer
alguém a fundo, mesmo após quarenta anos de
casamento, e ainda me espantaria com tamanha falsidade a
que fomos reduzidos.
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
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O Fórum Social Mundial e o PT
Não é apenas boataria não. Por incrível
que pareça, ilustres de todos os lados começam
a pipocar com a idéia de retirar de Porto Alegre
a condição de sede do Fórum Social
Mundial. E parece não haver vermelhidão alguma
em suas faces com tão escandalosa idéia. Pior,
deixam claro que o motivo é não ter mais o
PT como o partido de poder na capital gaúcha. É
por esse caminho que se manifestam as instituições
do MST, CUT e UNE, reforçando assim seu incontestável
vínculo político e toda uma trajetória
de inconcebível parcialidade enquanto movimentos
sociais ou “do povo”. Este tão vergonhoso
posicionamento que atordoa a minha alma apartidária
e desperta minha fúria democrática, sem dúvida
terá como repercussão o aumento da rejeição
nacional a este declarado partido esquerdista. Impossível
considerar de outra forma. Parece que o recado do povo nestas
últimas eleições nas grandes cidades
brasileiras não foi entendido. Se o foi, devo imaginar
que trata-se de algo que gira em torno de prepotência
e arrogância tal postura do PT. Algo que você
já deve ter lido em “A Revolta dos Bichos”
e que impede a visão de um evento de cunho transformador
que também possa ser em si modificável.
E de repente então, essa idéia absurda de
estruturas rígidas e mentes inflexíveis começa
a reavivar certos medos e a nos mostrar que talvez não
o fossem tão descabidos assim. Quem já não
ouviu algo do tipo “se eles assumirem, tomarão
conta do que é seu, terás que repartir com
eles”. Pois o PT parece se adonar indevidamente
do que é meu, seu, nosso. Do que é do povo
e então, em última (ou primeiríssima)
análise, do que é social. Reforça aliás,
a postura dos petistas mais militantes nas rodas em que
discuto política, entre um copo de chopp ou um passeio
pelo verde. “Nós é que somos os bons,
os que se interessam pelas minorias, pelo social, que lemos
livros-cabeça, que passeamos pela Cidade Baixa e
escutamos a música alternativa”. Eles,
somente eles. Não ouse outra sigla apoiar
os movimentos “dos sem” e muito menos ousem
seguir com o orçamento participativo sem pagar os
devidos royalties (se é que me permitem
usar algum americanismo em tempos de globalização)
para a “turma do Lula lá”.
E então a essa altura você já deve
estar com receio de algum regime autoritário ou pensar
que a democracia serve enquanto a eles serve, uma
vez que assumem que o Fórum, não sendo mais
uma vitrine do PT, porque as contingências sociais
(evolutivas ou não) assim o fizeram, não tem
mais sentido em aqui existir. Imagino que deva você
estar pelo menos refletindo a respeito de tudo o que acreditou
até agora, seja para um lado ou para o outro. Ou,
quem sabe, sendo um deles, siga sentindo que está
no seu direito tirar o meu direito, já que não
há contentamento em ser você apenas um esquerdo.
Pois fica assim estabelecido por eles, que o Fórum
Social Mundial de Porto Alegre não é mais
Social, nem Mundial e quizás ainda possa
ser chamado de Fórum, uma vez que terá neste
cantinho do mundo um porto muito triste.
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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 20/X
Desafinados
revólveres disparam
contra a loira do tchan.
Faroeste 8/X
Cada dia diferente,
mesmo doente,
você é linda
Josiclelson - III
Após uma estratégica parada para homenagear
nosso site (ou como diz o digníssimo editor: sítio),
voltamos à sina de nosso herói não nato.
Na semana retrasada, a mãe do Josiclelson estava
grávida e com apuros na gravidez. O que poderia ser?
Bom, vejamos se consigo usar minha bola de cristal.
A mãe do Josiclelson teve uma gravidez das mais normais
possíveis, não fosse o fato de ter descoberto
estar grávida já com quatro meses de gestação.
Ainda bem que ela não bebia ou fumava, assim, a vida
do bebê foi garantida. Ela não enjoava, nem tinha
desejos estranhos. Como não era de fazer muita festa,
nem de comer comidas muito fortes, a alimentação
do feto foi das melhores possíveis, tudo levando a
crer que Josiclelson seria uma criança forte e saudável.
Quando a mãe dele notou que a menstruação
estava muito atrasada, desconfiou que poderia estar grávida,
porém lembrou-se que não transava a mais de
três meses e o pai da criança estava viajando
desde aquele tempo. Era quase impossível.
Quando finalmente saiu o resultado do exame, foi realizada
uma festa em família, pois Josiclelson seria o primeiro
a nascer de uma dinastia que estava por um fio. A família
estaria salva de seu desaparecimento. Logo em seguida, quando
foi descoberto que era um homem, a festa foi dobrada, pois
além de tudo, daqui a alguns anos, o time de futebol
da família estaria completo.
Uma única incidência estranha ocorreu, uma
sensação maluca que se passou pela cabeça
da mãe do Josiclelson, uma mulher cujas iniciais começavam
por JO, conforme você pode ler na edição
98 deste “sítio” aqui. Ela acha que tem
algo errado, que isto pode não passar de um sonho,
pois tem quase certeza de já ter vivido outra história
sobre seu primogênito, o Josiclelson. Que coisa, que
sina. Que destinos a vida reserva para nosso herói
não nato Josiclelson.
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Padrão de Beleza
É possível que ao lermos um
texto possamos interpretá-lo diferentemente de outras
pessoas.
Por isso toda atenção é pouca para
não julgarmos ninguém imerecidamente.
Certa vez o poeta Vinícius de Morais referiu-se às
mulheres assim:
"As feias que me perdoem mas beleza é fundamental".
Passados muitos anos essa frase ainda causa polêmica
entre seus admiradores.
Uns entendem que ele se referiu à beleza interior
das pessoas.
Outros a levam ao pé da letra.
Entendo que o poetinha traduziu um pensamento
seu.
Mas, se buscou com isso estabelecer um padrão de
beleza, foi infeliz pela visão excludente.
A frase a meu ver é imprecisa e não representaria
um bom exemplo a ser difundido, muito menos seguido.
Não é a toa que a mídia apegou-se a
esse conceito deturpado de se apregoar o belo,
fazendo desse filão um meio de ganhar dinheiro e
audiência,
nos impondo a"ditadura da beleza" como padrão
a ser copiado em sua inteireza.
Se formos nos basear pelo já padronizado modelo de
beleza instituído pelos meios de comunicação,
haveremos de nos perguntar: "como seria a vida das pessoas "feias", aquelas
que não têm os atributos físicos que
se enquadram nos estereótipos de modelos e atrizes
que povoam as revistas e as telinhas de tevê deste
País?
O que fazer com essas pessoas comuns, as suburbanas, as
anônimas da periferia,
quando desprovidas de uma plástica admirável?
Qual a parte que cabe àquelas milhares de pessoas
que se alimentam mal,
que sofrem os dissabores de uma vida sem nenhuma perspectiva,
mas que têm como lema a fé na vida e a esperança
no amanhã?"
Ao invés desse desenfreado culto ao corpo, os meios
de comunicação deveriam estimular as pessoas
a se verem
como seres humanos comuns que são, mas capazes de
viver uma vida digna e honrada.
Deveriam fazer apologia à honestidade, ao trabalho
e aos valores realmente nobres.
Deveriam diminuir as diferenças e aumentar o sentimento
em cada um de que a vida foi feita para ser vivida e aproveitada
por todos nós, não havendo espaço para
discriminações nem preconceito.
É tempo de escutar os silêncios
daqueles que clamam pela boca fechada;
o silêncio de homens e mulheres que não têm
corpos esculturais,
mas que trabalham pesado contribuindo para o crescimento
e grandeza deste País.
Pessoas, acima de tudo, dignas! É tempo de escutar o silêncio dos excluídos...
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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Grite
Quando não puder mais suportar a dor,
deixe que a garganta fale.
Fale alto, fale adiante.
Grite se for preciso. Faça com vontade.
Se o coração não puder segurar, não
puder calar.
Com tamanha indiferença, tamanha loucura.
Tamanha intensidade.
Tudo gira, tudo sufoca.
Tente não ser normal, tente não ser quietinho.
Cutuque as feridas, sangre de verdade.
Depois seque tudo com panos limpos.
Deixe que a vontade de sofrer fique um pouco com você.
Pois de nada adianta mascarar a dor com sorrisos desonestos.
De nada adianta fingir que está tudo em seu devido
lugar.
O lugar da dor é do lado de fora. Sangre.
Grite.
A verdadeira expressão da dor é o seu único
remédio.
Seu único refúgio.
Grite bem alto.
Deixe seu coração lhe mostrar onde está
doendo.
Não perca tempo racionalizando.
A razão é inimiga do coração.
È a melhor amiga da dor.
Lute e vença.
Fale alto, cante.
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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Washington, USA, 08/11/2004.
É o orgulho da mamãe
Ok, vocês podem estar estranhando o
fato de eu escrever em português. Mas eu explico.
É que vim passar um carnaval aqui, há alguns
anos, e interessei-me por esse seu idioma...
Bom, eu quero aproveitar essa grande oportunidade, para
falar do meu orgulho. Meu filhinho, lindinho... Estou tão
feliz!!! Eu sempre acreditei que ele teria um grande futuro.
Confesso que não esperava. Aquelas manias esquisitas,
quando criança... Despindo as bonecas da irmã,
colocando bombinhas e morteiros no meu fogão... Achávamos
que ele tinha algum problema. Não trazia nenhum amiguinho
aqui em casa. Muito menos uma namoradinha, ou qualquer paquera...
Ficamos tão preocupados na época, que arrumamos
um intercâmbio pro menino. Mandamo-lo para o velho
continente. Mas, como ele era meio ruim em idiomas, resolvemos
que iria para a Inglaterra mesmo.
Aí sim, as coisas melhoraram. Ele arrumou um amiguinho
muito parecido com ele. O Tony era uma gracinha... Até
as manias de enfiar o dedo no nariz ele tinha... Uma graça
vê-los passeando pelas ruas de mãos dadas.
Meu marido, preconceituoso que só, não gostou
dessa história, e trouxe de volta nosso pimpolho.
Foi uma verdadeira tristeza a separação dos
dois... Eles prometeram voltar a se ver, com lágrima
nos olhos, nem que para isso precisassem matar muita gente...
Não entendemos muito bem, mas enfim, quando meu marido
põe uma coisa na cabeça, não tem jeito...
Temendo dúvidas em sua masculinidade, tratou de levar
o garoto a todos os bordéis da Costa Leste, Oeste,
Norte e Sul. Aí sim, voltou um verdadeiro homem,
confiante, feliz. Até coçava o saco e cuspia
no chão.
Por conta disso, acabou por ter certo sucesso, e se fixou
na idéia de seguir a carreira do pai. Arranjamos
uma namoradinha pra ele, meio esquisita, mas combinava muito
bem com ele. Casaram-se, tiveram filhos, enfim, o sonho
americano se concretizava...
Juntou-se a uns amigos políticos, amigos do meu marido,
e fez sua carreira assim. Hoje, vendo-o sentado lá
na mesa principal da Casa Branca, ainda com aquela carinha
de bobo, não posso deixar de sentir um orgulho enorme...
Ele e o Tony continuam se vendo, falam horas ao telefone,
com tanto carinho, que até me comove...
Enfim, gente, só queria expressar todo o meu orgulho
e felicidade, por ver que meu filhote continuará,
por mais quatro anos, a ser o homem mais poderoso do mundo.
Quem o vê no palanque, tão imponente, nem imagina
que aquela fortaleza ainda usa fraldas, mas isso nem importa,
certo? Ele pode ser cagão, mas a merda cai em muita
gente embaixo dele... hehehe...
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Bacantes
Literárias
Gilson Giuberti Filho |
|
Olga
Eram oito horas e Olga não havia se
levantado. Conferiu o relógio e saiu da cama ainda
sonâmbula.
Já tinha alguns dias que estava desanimada. Aquela
era a quarta falta às aulas de hidroginástica.
Longe de estar sentindo o peso dos sessenta anos, a mudança
de sua única filha para Londres a havia abalado.
Anthero, seu marido, havia falecido de câncer há
oito anos; sentia-se relegada a um ostracismo ocioso.
Os dias vinham se passando estáticos, eternos; apenas
quebrados por finais de semana na casa de campo de Marita,
sua amiga desde o longo internato no colégio de freiras.
Vinha de um casamento feliz, porém conturbado: a
condição de embaixador de Anthero deslocou-a
pelo mundo afora. O gênio tempestuoso do marido nunca
favoreceu ao casal uma estada de trabalho em países
europeus (tão sonhada por ela...). Permaneceram quase
sempre em locais aonde o calor tórrido e a instabilidade
política invadia suas vidas privadas levando-os inexoravelmente
a um novo deslocamento.
Melina havia nascido no Marrocos, mas fora educada na Turquia;
adolesceu no Ceilão onde conheceu um jovem exportador
de folhas de chá que viria a se tornar seu marido.
Sabia que Melina não seria sua desde o princípio:
o mundo sempre fora o verdadeiro lar de sua filha. Mesmo
assim sentia sua falta.
- Elza, você pode ir embora mais cedo hoje. Irei ao
supermercado sozinha
- ‘Tá D. Olga...A senhora é quem sabe...
No supermercado, vagava absorta pelos corredores de gôndolas
sedutoras – quase perdida.
No íntimo sabia ser impossível não
reparar nos homens ao longo do caminho: ainda se sentia
mulher...
Não sabia o que era sexo desde a morte do embaixador.
A solidão e a carência lhe consumia, mas...A
idéia de continuar a embaixatriz viúva lhe
apetecia. Sentia-se sozinha, porém esplêndida
dentro de um mausoléu nacional: a viúva de
Anthero de la Guardia.
Disfarçava com as amigas; buscava a yoga numa saída
para a angústia e o desamparo afetivo. Quase toda
semana participava de cursos sobre práticas e filosofias
transcendentais. Acreditava que a busca espiritual seria
remédio para o seu deserto pessoal. Duas vezes por
ano viajava para um mosteiro de práticas orientais.
A meditação e o convívio faziam o tempo
fluir mais confortável. Sabia que muitas de suas
companheiras “transcendentais” eram aplacadas
pela mesma dor – todas sabiam – mas um acordo
tácito entre elas era coroado por uma nuvem mística
trazida pelo consumo incessante de incensos, estatuetas
de divindades e recitação de mantras diários.
Sessão de queijos. Seu olhar cruza com os de um rapaz.
O corpo esquenta, seu coração bate forte.
- Posso te ajudar?
- Se for do seu agrado...
Ele passa a conduzir o carrinho de compras.
- Eu já estou terminando...
- Não tem problema: o carrinho está pesado
mesmo.
- A senhora gosta muito de queijo...
- É que à noite vou receber algumas amigas.
- Ah...Sei...
- O que você faz?
- Bem...Eu vendo produtos para o supermercado...Eu te vejo
sempre aqui...Sempre bonita...
Enrubesceu-se. Havia anos que não era elogiada como
mulher. A chama de seu coração começou
a se acender.
- Você também é um belo moço.
Arrisca.
- Qual o seu nome?
- Olga, e o seu?
- Luis Paulo.
- Quantos anos você tem?
- Vinte quatro anos.
- Nossa! Sou uma velha perto de você!
- Não acho não! Eu só namoro com mulheres
mais velhas do que eu: são mais experientes... Insinuou.
Chegaram ao caixa. Inicia o quase interminável ritual
de contagem de mercadorias.
- Eu te ajudo até ao carro.
- Claro!
Pensava o que iria fazer agora. Tinha medo de perder a oportunidade.
Sua inibição não permitia um gesto
mais ousado dos que já havia cometido.
As compras já estavam no carro.
- A senhora vai fazer alguma coisa agora?
- Não! E para de me chamar de senhora! Disse num
tom de carinho.
- A gente podia dar uma volta no shopping aqui perto.
Odiava shopping: era gente demais.
- Você está de carro?
- Não, estou a pé...
- Então vamos juntos!
Não acreditava que um homem havia entrado em seu
carro. Seu coração disparava, parecia sair-lhe
pela boca.
- Você conhece algum lugar no shopping?
- Vou sempre lá...
Estacionamento; garagem; elevador. Começam a passear.
O shopping está lotado. Ela vislumbra uma delikatessem.
- Vamos entrar aqui!
Sentam-se. Ele pede uma Coca e ela um café. Resolve
pedir um Brownie.
- Você quer?
- O que é isso?
- Um bolo inglês.
- Então ‘tá...Aceito...
Ele pergunta do que gosta de fazer e ela inicia um longo
monólogo sobre yoga, espíritos telúricos,
metafísica cósmica, etc. Ele ouve...
À dada altura já estão descontraídos.
Ela se vê feliz como nunca. Ele se levanta e vai até
ao caixa. Retorna.
- Vou sair para comprar cigarros ali em frente.
- Tudo bem.
- Você me espera?
- Claro!
Olga está tranqüila, contente no seu íntimo.
Seria ele o homem que sua amiga disse que conheceria quando
jogou Tarot para ela?
O tempo passa o desconforto aumenta.
Meia hora...
Olga levanta-se, olha pelo vidro e ninguém conhecido...
Mantendo o que havia de dignidade, pede a conta ao garçon.
Abre a bolsa, não encontra a carteira...Mil e quinhentos
reais...
Envergonha-se. Duas lágrimas descem do seu rosto;
enxuga-as discretamente com o lenço. Toma o celular;
digita um número.
- Marita! É Olga!
- Querida, você não sabe o que me aconteceu:
perdi minha carteira!
- Estou numa delikatessem no shopping...Isso...Já
vou ligar...Não sei aonde coloco minha cabeça...A
homeopatia? Parei...Pois é...Eu te espero...Obrigada!
Você é um amor!
- Garçon suspenda a conta e me trás outro
café!
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O novo alfaiate
Em 1809, a legislação sueca
criou um novo cargo no parlamento para limitar os poderes
do rei, poderiam ter batizado-o como Agente da justiça
ou Fiscal do universo, mas por ordem maior e vontade do
povo e de deus, esse cargo que mais parece um armário
embutido, ficou conhecido como Ombudsman.
O ser humano é realmente uma comédia,
destinado ao simples fato de existir, ele fica tentando
achar respostas para as perguntas que cria. Quando é
que a humanidade vai entender que a vida deve ser vivida
simplesmente, e não ser recriada com mundos paralelos
e coisas intangíveis, que isso se destine ao indivíduo,
que é livre para mentir o quanto quiser, e não
a sociedade. Todas as perguntas, questões filosóficas,
religiões e histórias infantis são
mera especulação. Toda idéia é
solitária, nasce da cabeça de um só
ser, um ser que se chama humano e só tem a habilidade
de especular, tendo em vista que a certeza das coisas foi
abolida aos homens e reservada ao deus do Ar. Que isso fique
bem claro, pois as palavras que seguirão abaixo,
são puras especulações da minha parte,
é tudo achismo meu, pretensão de quem tem
a cara ao tapa. Nas minhas letras não há crítica
alguma, muito menos palco, entendam como quiserem as minhas
palavras, pois no final das contas, elas de nada te servem.
***
Vejamos aqui...
Deixa-me ver...
Letra R... Rafael Luiz Campos, é esse? Não.
Rafael Luiz Loya? Não.
Rafael Luiz Reinehr... é esse!
O sujeito de jaleco azul que mexia nos arquivos abriu a
pasta com o nome de Reinehr em cima da mesa, tirou de dentro
alguns papéis, e jogou uma espécie de ficha
cadastral com fotinhas 3x4 nos mãos do outro. Você
não queria ver? O cara é esse, só anda
rápido que o chefe foi almoçar e já
deve estar voltando...
Não é isso que eu tô procurando, eu
quero um texto, ele escreveu faz uns trinta dias.
Trinta dias...
Vejamos... trinta dias...
E continuou procurando na pasta de Rafael...
É esse, eu tenho certeza, se está protegido
com selo branco e você está procurando nessa
data, só pode ser esse. E entregou na mão
do outro um texto com um selo branco na ponta do papel.
Muito obrigado, zelador, que o diabo te pague por teus serviços.
E o diabrete voltou ao inferno para queimar o texto de Rafael,
que na opnião do Demônio, traria paz, entendimento
e compaixão a quem lê-se. Só não
mandou queimar o escritor, pois a literatura era um de seus
passatempos prediletos.
O texto tinha um título, e o anjo conseguiu ler antes
do vermelho descer: Introdução à uma
estética anarco-humanista.
***
Ode ao paralelepípedo, ode ao monstro
do lago, ode ao terrorista mexicano (que muitos julgam árabe),
ode ao comentarista machucado, ode ao contrário reversível,
ode ao sem-nexo, ode ao perverso e ao mais simples de todos.
Essa é a lógica da ode. Afinal, você
odeia tudo aquilo que ama, ou não? Te entendo Eduardo,
te entendo...
***
O conto Finados de Alexandre Garcia foi a
melhor coisa que li no simplicíssimo em todas as
minhas contínuas passagens por aqui (Espero dizer
isso de algum texto em todas as edições).
Não tenho muito a falar sobre Marina, ele e a mãe,
parece que foram simplesmente pessoas boas, sem graça,
sem pai e sem macho (nessa ordem, por favor). Quase que
esqueço da chave do conto, do velho que ilumina o
ambiente e para no tempo para que o leitor esqueça
que leu, e tenha somente a imagem. A cláusula 7 do
Manifesto dos sonhos diz que: Tudo se torna verdade, quando
a lembrança não vem em forma veiculada (no
caso: texto), mas vem nos olhos do sonhador, como lembrança
vista.
***
Na boa, o textículo do Adalberto de
Queiroz só me encheu o saco (com trocadilhos, lógico),
um texto que vai entrar pros anais (olha o trocadilho) como
o texto mais chato e arrastado de toda a história
do simpli. No dia em que resolverem organizar um anti-ranking,
favor encabeçar o Cristo.
***
Milton Ribeiro é o nome do altista,
quero dizer artista.
Imaginem que você arruma aquela delicia de mulher
numa noite qualquer e depois de dezoito copos de cachaça
você consegue arrancar um talvez dela e acaba com
ela na porta do quarto. Você abre a porta e a joga
na cama, ela vai abrindo as pernas bem devagar, você
em ponto de ebulição quando... ADREM ATUP!!!
QUE ADREM!!! TÁ TUDO AO CONTRÁRIO, ESSA PORRA
É UM TRAVESTI!!! As grandes idéias podem te
fascinar se você não sabe a procedência
delas, o texto parecia muito legal até que... ADREM
ATUP! O cara é um reescrevente!
***
Rafael T.R. rima em A história da rainha
de Nazaré com uma elegância quase hípica.
O enredo é fraco como uma forte correnteza falsa.
Com belíssimas palavras isoladas, porém unidas,
ele, Rafael T.R., dá força à água
cristalina do texto, que olhando de longe pode parecer puxar
bois e arroios, mas se posta em copo sequer alaga um sonho.
No final de tudo resta um prazer momentâneo parecido
com o da imagem, as rimas são gostosas.
***
Pedro Armando Furtado Volkmann tenta ser algo
maior do que ele é no texto de conteúdo duvidoso.
Sinto que falta maturidade nas letras (que faltam nas minhas),
e que existe uma certa pressão para sair tudo perfeito.
Isso é muito natural na vida de um escritor que pretende
lançar um livro, ou se tornar cronista. Mas pelo
amor de deus, A fé move montanhas é muito
Paulo Coelho, e segundo minha amada, a linha entre o sábio
e o brega é muito tênue, e Pedro me parece
estar em cima dela.
***
Tá, o Yukio Iwai descreveu as passagens
de deus através do som, e ai? Ficou tudo ali, parado
até que eu resolvi ouvir a música do 50/60
que ele recomendara como pano de fundo... Adrem Atup já
diria que aquilo não é música e sim
um conceito qualquer sobre divindades da surf music e os
demônios do reagge. Música conceitual pra mim
é conceito musicado, sem ritmo e desafinado, é
tempo perdido. Eu como músico me reservo ao direito
de ficar mudo e não desferir nenhuma ofensa contra
o japonês... Banzai!
***
Sara Flech fecha a centésima edição
do simplicíssimo com um texto sobre o sentimento
mais escuro do ser humano, o preconceito racial. O povo
preto (digo sem papas pois reconheço as cores quando
as vejo) tem um enorme lugar na minha vida (apesar de não
conviver diretamente com quase nenhum), muitas das coisas
que amo tanto, foram eles que inventaram, principalmente
o Blues, o Jazz e o candomblé, artes tão nobres
quanto escuras. E assino embaixo onde Sara escreve nas entrelinhas
que os mais injustiçados sempre serão os mais
sonhadores. Viva Judah!
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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