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17 /11/2004 - Edição número
102
Afe! Ira
do Livro!
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Editorial
Rafael Luiz Reinehr |
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Fotos pinhole






Quer saber de onde são essas fotos?
Galeria
de Fotos Pinhole
Para quem não sabe o que são
fotos pinhole, explico: a máquina fotográfica
pinhole (do inglês "pin hole" = furo de
alfinete) não possui objetivas, ou seja, não
possui lentes, tendo em lugar delas um minúsculo
orifício (pinhole) por onde a luz é captada
para dentro. O resultado são imagens únicas,
características próprias de uma pinhole e
bastante diferentes de fotos de máquinas convencionais.
Podem ser feitas com latas de leite em pó, caixas
de chá ou até com o próprio recipiente
que envolve o filme das máquinas comuns.
Não é só de literatura que vive o mundo!
Precisamos de arroz, feijão, paz e fotografia também!
Rafael Luiz Reinehr
Estamos preparando uma Campanha de
Natal para angariar brinquedos a serem doados para
entidades assistenciais que cuidam de crianças. A
coleta dos brinquedos ocorrerá em todas cidades em
que colaboradores do Simplicíssimo
se dispuserem a fornecer um endereço para que os
presentes sejam entregues. Quem estiver disposto a participar,
entre em contato através do simplicissimo@simplicissimo.com.br
A criançada agradece!
Ambas citações podem ser lidas
à luz das fotografias acima apresentadas:
"O extremo poder dos símbolos
reside em que eles, além de concentrarem maior energia
que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem
a força expansiva suficiente para captar tão
vasto espaço da realidade que a significação
a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora
da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos,
com a devida atenção à subtileza e
a certo rigor que pertence à imaginação
de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete
do pequeno movimentador de correntes de ar."
Herberto Helder
"A memória é essa claridade
fictícia das sobreposições que se anulam.
O significado é essa espécie de mapa das interpretações
que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os
nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável.
Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta
é impacto que substitui impacto - eis a invenção."
Ana Haterly
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O
corpo amarelo
Bernardo W.K. |
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Hamed não quis acreditar nos olhos
quando a multidão se aglomerou na frente de sua casa.
O povo berrava cobras e percevejos para ele e sua família,
o bruxo das areias e seus amados não mereciam a vida
dourada do deserto. A porta já era preparada para
possíveis arrombamentos com dois grandes pedaços
de madeira, as janelas tinham trancas de ferro soldadas
vindas da índia a cavalo. Estava tudo trancado e
fechado, portas, cortinas, baús... Hamed ordenou
a Samira e as crianças que ficassem no porão,
pois a porta não agüentaria mais tempo.
No mesmo barulho que fez a porta do porão no chão,
a da frente se arrebentou em farpas e cobras para todo lado,
e o suposto bruxo se viu na frente da multidão amarela
com labaredas cegas para queimar o que fosse vivo e pedras
para matar o que devia ser morto. Hamed se ajoelhou ante
a morte presente e pediu perdão pelos pecados que
não cometeu em vida, pediu perdão pelas maldições
do Egito e pelos carneiros assassinados. O profeta tomou
a primeira pedrada na cabeça e caiu sangrando lesmas,
o povo se afastou enquanto Hamed agonizava de olho invertido
e coração virado.
Abaixo do agonizante, a família olhava pelas frestas
do teto tentando ouvir algo com os olhos, mas só
ouviram a pedrada e a poeira que caiu com a queda.
O povo voltou a apedrejar Hamed depois de segundos de admiração,
cuspiram e mijaram em cima do bruxo negro. O povo, sábio,
se dizia alerta para esse tipo de bruxaria antiga, nunca
mais cairiam nas obras do Diabo, bicho que ficara conhecido
devido a um inglês que trouxera um livro há
uns dois anos.
O defunto ficou rodeado de gente trabalhadora e corajosa,
gente com sede e vergonha, gente que matou e amanhã
quando a fome bater vai ter que almoçar, gente com
família, gente homem. A família de Hamed foi
procurada para que o serviço ficasse completo, não
acharam ninguém graças ao tapete que decorava
a sala e escondia o porão. Deixaram a casa nua, levaram
as jóias e os potes de barro, as roupas e os livros
sobre o nada e as maldições de outra língua,
só não levaram o tapete da sala. Deixaram
o corpo de Hamed padecer meio aos vermes do vento.
Dois dias depois o porão já estava vazio,
e Samira tinha que recomeçar a vida pelo amor, pelas
crianças. A multidão enlouquecida já
havia esquecido do bruxo e de sua prole. O corpo de Hamed,
samira deixou no porão, semi enterrado.
Podia controlar a força do fogo dizia o poeta da
esquina, e enganar o prefeito regente dizia a mulher do
ferreiro, podia até comer sem usar a boca. Simples
lendas que rodeavam a morte de um homem justo e injustiçado.
Samira não ouviu ninguém, não acreditou
em nada do que lhe foi dito, até que Ashik, assassino,
ladrão, bandido e corruptor jurou já ter matado
Hamed duas vezes.
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Ao existir e pensar muitos gastam-se nas páginas
discrentes de vários livros.
Eu não tracei objetivo para isto,
eu não quis pensar em nada antes de escrever,
apenas senti o tom do meu corpo agora,
que foi como o de Mozart, Caravaggio ou Gonzaguinha em seu
leito de morte.
Eu não sei sentir
se não fechar os olhos,
e eu não sei amar
se não for como só eu sei.
Tudo pela música e pelas letras,
e algumas rimas falidas minhas.
Eu não sei desenhar teu rosto
se não for com o meu;
eu gosto de respirar puro e sempre,
e o me inspira é uma estrofe tão minha
que às vezes eu não sei compartilhar.
Acho que nasci para ter uma língua
própria,
aquela nossa,
tão sonora, tão vazia, inexistente, absurda.
Nossa língua quando se toca é quase surda.
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Nossa melodia
Acabaram-se os brigadeiros e as risadas também
Enquanto o velho asmático a tossir no andar de cima,
(completamente abandonado - sem ninguém)
assistindo programas de auditório a madrugada inteira
Lembra que em nosso repertório findaram-se as fronteiras,
e, o que era ditado antigo,
fundimos,
em palavras
- oportunistas e rasteiras
para inventar nossas próprias canções
feitas dos restos dos escombros
e pingos de velhas torneiras
Cansados os nossos ombros,
onde apoiamos besteiras,
sobras dos quartos fechados
das velhas avós rezadeiras,
no ritmo devocional
do qual queria ter metade
"Mas ainda há tempo, nunca é tarde",
diria em tom casual, entre risos e fungadas,
nosso primo doente mental, fã incondicional
de torta de goiabada,
cansado da rejeição
de toda uma população
que se diz civilizada
e impõe constantemente,
quase que irracionalmente,
sua filosofia engomada e
sua lista de modismos
"E que se dane esta corja safada
e viva o pluripartidarismo!"
gritará, quem sabe, um dia,
(onde ele estiver),
aquele tio engraçado,
que morreu de anemia,
e se chamava Xavier.
Fundamental
Fundamental é pensar no que existe
do outro lado da porta que ninguém abriu.
O que se esconde sob a tênue máscara
do bêbado insano que te olhou por engano e,
ainda por cima,
riu.
O que se oculta sob o misterioso
sorriso franco daquela menina que,
em uma noite estranha,
parada ali na esquina,
resolveu te olhar.
Enquanto você se enganava
e mais e mais garrafas entornava,
perdido entre pensamentos loucos.
Do seu lado, o seu amigo rouco,
berrando que o armazém já vai fechar.
Por que o importante é saber porque
toda tarde de domingo é tão igual
E que se danem os gringos interessados
em te convencer da importância e da finalidade
da paz mundial.
Que seis minutos sejam o tempo necessário
para que você descubra o itinerário do que
é
fundamental.
Que as noites de escuridão sirvam para te
libertar desta procura incessante de motivos tolos
para justificar teus anseios bobos
sem explicação.
Que a vida seja o bastante para poder contar
que tudo o que é atemorizante
São peças pregadas,
no devido instante,
por sua imaginação.
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en
passant
Eduardo Hostyn Sabbi |
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A primeira volta
Bem no início eu me perguntava “Por que escrever”
e já saia escrevendo em resposta. Algum tempo e muitos
textos se passaram e é assombrosa a relação
que se estabelece com o texto de estréia. E da mesma
forma que comuniquei o começo, parece-me conveniente
seguir a linha. Enfim, a vida é feita de momentos
e como já dizia s Mutantes e seus cometas, “há
sempre um tempo no tempo” e o momento atual é
propício para uma pausa. Muito embora eu me sinta
tentado a justificar reclamando da falta de tempo, como
fiz há muito quando comprei o obsessivo livro “Socorro,
não tenho tempo!”, que obviamente não
terminei de ler por falta do dito cujo, tenho minha consciência
reprimida (ou libertada) no insatisfeito Papalagi que serve
de exemplo na introdução de Domenico De Masi.
De qualquer forma, peço a licença de todos
os SimpliLeitores para um recesso durante o qual a coluna
en passant repousará em alguma casa do seu virtual
tabuleiro a reorganizar suas peças. Tempo para as
Torres recomporem seus muros enquanto os Cavalos saciam-se
no cocho e os Bispos celebram alguma missa ou dão
uma passadinha no confessionário. Tempo para a vaidosa
Dama escolher um novo sapato ou um belo vestido no shopping
center da capital e tempo para o Rei ajeitar sua coroa (foi
o que lhe restou). Os Peões? Ah sim, claro. Liberdade,
ainda que tardia e até virem a servir sua majestade
novamente, quando um novo jogo venha a começar. E
então, talvez se faça claro à nossa
sabedoria que esta foi apenas uma primeira volta.
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Incompletude Humana
O destino de cada ser humano é a
incompletude essencial.
Há dentro de todos nós uma eterna insatisfação
com aquilo que temos, com tudo o que somos.
E assim o homem segue sua existência amealhando desejos
que não se realizam, expectativas não satisfeitas,
aspirações difíceis de serem alcançadas,
fatores que o farão sentir-se frustrado.
O homem comum, na sua ânsia de "ter", geralmente
esquece que o "ser" é que o conduzirá
por caminhos que contribuirão para o seu crescimento
moral e espiritual.
Enquanto buscamos apenas o "ter", fazemo-nos seres
menores do que já somos.
Queremos saúde.
Todos nós necessitamos de muita saúde para
viver.
Mas aí entendemos de querer muito mais.
Queremos um corpo saudável, aparentando menos que
a idade real.
Se possível bronzeado, bem torneado, modelado, nem
que para isso percamos dias e horas nas academias e clínicas
de massagens.
Às vezes recorremos às cirurgias estéticas
por não estarmos satisfeitos conosco.
Descobrimos, então, que só saúde apenas
não basta.
Queremos dinheiro.
Todo ser humano carece de dinheiro para suprir as suas necessidades
básicas diárias.
Mas aí entendemos de querer muito mais.
Queremos aquele dinheirinho que não sirva apenas
para a sobrevivência, mas que dê para comprar
aquela casa de praia, um belo sítio no campo, o carro
esporte último modelo, as roupas de grife, que possam
realçar a nossa aparência, além de termos
sempre à mão passagens aéreas, visando
nossas sagradas viagens de férias.
Tudo isso, claro, sem esquecer de privilegiar aquela poupança,
pensando no dia de amanhã.
Descobrimos, então, que só dinheiro apenas
não basta.
Queremos amar.
Sem amor é impossível sobreviver neste mundo.
Todo ser humano precisa dar e receber amor.
O mais insensível dos homens almeja ser amado um
dia.
Somos todos carentes desse sentimento nobre.
Mas aí entendemos de querer muito mais.
E buscamos uma mulher que nos entenda, que nos ofereça
incansáveis carinhos e sempre que quisermos faça
amor conosco.
E, nos seus dias de exaustão, que ela possa igualmente
fazer sexo sem amor, por ser uma forma generosa de amar
também.
E queremos amar muito mais.
Já que é preciso e necessário amar
a vida, amar as pessoas, a humanidade e todas as formas
de vida.
Queremos, sobretudo, nos sentir plenamente amados.
Descobrimos, então, que só amar apenas não
basta.
Queremos ser felizes.
O ser humano veio ao mundo para ser feliz, pois essa é
a sua realização maior.
O homem que vem ao mundo e não é feliz não
merecia ter vindo.
E o homem que busca ser bom, solidário e ama ao próximo
passa a ser feliz.
Muitas vezes é preciso ver a felicidade estampada
na face do outro para nos sentirmos felizes.
Mas aí entendemos de querer muito mais.
Então o homem tenta, desesperadamente, sentir-se
feliz mergulhando na escuridão das drogas, buscando
nas amizades fúteis algo que lhe dê a tão
propalada felicidade plena.
Em busca da felicidade, o homem fraco começa a apostar
em valores duvidosos, e já não crê que
possa ser feliz.
A partir daí, a possível felicidade tende
a fugir-lhe por entre os dedos.
Então o homem encontra-se envolvido num emaranhado
de erros e de fartas ilusões, caminho largo para
inúmeras reflexões.
Descobrimos, então, que ser só feliz apenas
não basta.
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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Descubra-se
Receba-me em teus braços.
Pare o tempo para eu descer.
Diga-me que estou no lugar certo.
Diga-me que não irei morrer.
Trate-me com ternura.
Ame tudo que eu trouxer dentro de mim.
Escolha a palavra certa para dizer o que sou
para ti:
Amante, amiga ou princesa?
Rainha seria mais digno de tua beleza!
Mostre-me teus encantos.
Desfaça o véu que encobre o meu rosto.
Destrua a armadura que trago em meu corpo.
Roube o meu tempo, penetre em meus desejos.
Conheça-me, descubra-se em mim.
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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São Paulo, 16/11/2004.
Filho do Mundo
Vagas lembranças é o que tenho.
Alguns flashes de um sujeito com a barba por fazer, dando
uns sopapos numa moça que eu gostava muito. Acho
que era minha mãe. Não sei quanto tempo isso
durou. Quando me dei por mim, estava na rua, precisamente
embaixo do Minhocão, na Amaral Gurgel. Confesso que
foi uma infância diferente. As putas eram minhas mães.
Então eu, como um bom filho da puta, tinha que sacanear
pra sobreviver. Aos sete anos já era respeitado pela
minha habilidade em levar carteiras de paletós bem
cuidados. Olhava carros também. Comia o que minhas
mães davam. Minha virgindade eu perdi com uma delas,
aos 11 anos, de graça... Enfim, os amigos de boteco,
quando me vêem chegando de carro do ano, sempre esperam
que eu conte novamente a história, mas não
tem muito o que contar.
Tava lá eu, cuidando de uns carros na General Jardim.
O ponto não era meu, mas uma boa surra foi suficiente
pra comprar o direito aos rendimentos. Almocei na Shirley,
e voltei ao lugar. Sol escaldante, nenhum carro de marca
boa. Só fuscas e chevettes, pode? Então o
cara chegou. Sinistro. Olhando desconfiado pra todos os
lados, se esgueirando pelas paredes. Aquele calor, e o nego
de sobretudo. Nós que somos da rua já sacamos
qual é a desses sujeitos... Me chamou de canto. Fui.
Me ofereceu uma boa nota pra levar uma essência de
perfume pra uma mina. Me deu um pacotinho branco, e pediu
pra não abrir. Levei, na boa, dentro do tênis
fedorento. A mina que recebeu ficou tão agradecida,
que chegava a tremer as mãos. Voltei e continuei
a fazer nada ao lado daqueles carrinhos velhos. No dia seguinte,
outra vez o camarada sinistro. Outro pacote, desta vez maior,
para um endereço mais longe. Deu até a grana
da condução... Isso se repetiu por vários
meses. Nunca abri o embrulhinho. Tornou-se meu amigo, me
ofereceu umas putas pra comer, mas eu nem precisava disso.
E eu não entendia como é que essência
de perfume pode dar tanta grana. O que sei é que
tornei-me empregado de confiança, sem sequer saber
seu nome. Salário mensal, previdência privada,
e, duvida só, pagou uns supletivos pra eu tirar diploma.
Sete anos depois, eu com meus 24 anos, me formei na GV,
com méritos. Hoje, o Sinistro morreu, eu já
sei o que tinha nos pacotinhos, pois tornei-me sócio
no negócio. Alavanquei a empresa na faculdade. Vendia
muito, montei uns serviços delivery, disk-embrulho,
vai na pizza, sabe. Tenho casa na praia pra ir todo final
de semana, por conta dos filhinhos de deputado que eu abasteço
regularmente.
Casar não casei não, tenho umas bundas aqui
e ali. Não tenho do que me queixar. Volta e meia
tenho aquele sonho, com o cara batendo na mina. Acordo assustado,
mas esqueço logo... Sei lá, deve ser assombração
trazida pelo Sinistro. Tem gente que acha que eu é
que matei o cara. Logo eu, tão bem criado pelas minhas
mães?
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O novo alfaiate
Minha liberdade de expressão não
passa por pessoas antes de passar pelas minhas cordas vocais.
***
“Um Vaso de Flores” é
um excelente conto; ser um vaso de flores, uma excelente
idéia. O fim da estória é valioso,
mas não foi valorizado. É uma questão
de escolha de palavras e uso de imagens: o gran finale poderia
ter recebido uma roupagem lingüística mais rica.
Mas isso é uma questão de prática de
escrita, de exercitar e experimentar. Rafael Reinehr continua
sendo o carro-chefe de outro do Simplicíssimo.
***
“Um gringo no samba” é
o texto invisível desta edição, a começar
pelo protagonista que jura ser um fantasma meia-bomba. O
texto relata uma série de fatos não fantásticos,
que são contados como se fossem, a atmosfera tenta
seduzir o tempo inteiro, mas falta um sensacionalismo comercial.
Os pontos mais interessantes do conto são deixados
de lado, e é dada importância suprema para
imagens pouco atraentes. Garcia Marquéz já
avisava: contos são mais complicados que romances,
é como ter a mão para cozinhar, tem um ponto
exato. O texto guarda seu maior mérito no nome do
autor, um nome tão bonito que fica difícil
desvincula-lo da beleza da favela...
***
O poema de Claudia é uma coisinha tão
miúda em tamanho e exercício que mal terminei
de ler obtive a máxima que costumo buscar: esse poema
é um comercial de margarina! Tentarei traduzir minha
decisão antecipadamente precipitada. “O meu
amor adeja por estes campos” é a cena clássica
da câmera dando aquele rasante num campo de trigo
todo amarelo e o sol ofuscando a lente antes de fechar,
“Qual a menino à cata de pirilampos”
é o segundo take, um guri (AHA!) correndo com aquela
redinha de caçar bichinhos. “Igual a um colibri
em busca de flor...” é aquele zoom no passarinho
buscando a flor desfocada em segundo plano. O spot segue
com uma alvorada ao fundo, duas mãos brancas se sobrepõem
a linda luz e tudo se ilumina ao branco. A tela volta em
preto noite e aos poucos o céu vai se enchendo de
estrelas, a câmera desce um pouco e pega Cláudia
Sleman admirando-as boquiaberta. A logo aparece no canto
da tela e em off a voz de deus contempla: Estrela Infinita,
Margarina Madrigal.
***
Acho que desta vez, o conto de Alessandro
Garcia emperrou, a tentativa de enriquecer o texto com belas
construções, tornou o texto áspero
e sem fluência. Conturbados sejam os diálogos
internos desse velho, que alem de covarde é medroso.
A velha, em seu estado sem voz, resume-se a espectadora.
O enredo não é dos melhores, e não
há surpresas. O texto apesar de toda a riqueza detalhista
é monótono e me doeram os ombros. Esse tipo
de conto tem o rosto de alguém que escreve muito,
muito bem na maioria das vezes, e algumas vezes assim, apenas
bem...
***
Sinto uma tremenda vergonha pelo Lula, realmente
esse pobre cidadão é desprovido de qualquer
inteligência, e isso é provado no fato de que
o cú-de-cana consegue dormir! Ele, sua comissão
de coelhinhos da páscoa, e o seu partido estão
direcionados a falência. Eduardo não precisava
ter escrito nada quando diz “... sentindo que está
no seu direito tirar o meu direito...”. É diarréico
pensar que enquanto a gente perde os nossos direitos, Lula
brinca de presidente. Só mesmo muito passeio pelo
verde e ministro da cultura na mente pra agüentar esse
atraso sul-americano.
***
Josiclelson que me perdoe, mas esse texto
é horrível. Qual é o objetivo? Entreter
alguém em especial? É uma piada interna do
teu trabalho? Já sei, é uma promessa para
santa coruja de Harry Porter? Sinceramente não vejo
sentido em ler esse teu conto, não sei com quais
qualidades você seria anunciado como escritor, nem
sarcástico, nem bonito, nem poético, nem conciso...
Meu deus... Você deve ser o gringo do samba.
***
É... Luiz Maia veio com o manifesto
do feioso dizer a mais boba verdade: a mídia é
podre. É... Sinto te informar Luiz, que a mídia
não é o que você pensa, uma entidade
controladora e formadora de padrões... Quem forma
as coisas no mundo é a sociedade, somente ela é
responsável por essa supervalorização
do corpo e da beleza plástica. O povo só quer
ver o que ele não tem... O triste mesmo, é
o povo ser burro, e isso a televisão também
não pode mudar.
***
A poeta sozinha à beira do precipício
berra por liberdade. Essa é a imagem que tenho de
Sara e seus poemas. Ficou impossível desvincular
seus poemas da imagem da mulher sem rosto, da mulher que
não é mais feminista, que já superou
esse problema. Os poemas de Sara tem um poder todo especial,
uma energia quase elétrica que me rói os ossos
quando chove... Minhas imagens favoritas estão sempre
inseridas nas poesias, perdão poemas, de Sara: o
reflexo, o grito e o suor.
***
Marcos Claudino foi o poeta da edição,
imaginei (desejei) George lendo (ouvindo) e chorando (de
saudades)... Será que Colheum Pau pediu demissão
por não gostar de certas brincadeiras reservadas
a sala oval? Será que a referência ovo, do
saco escrotal, tem algo a ver com a saleta presidencial
americana? Certamente Comdorlisa Arroz deve esconder um
trabucão preto debaixo do terninho para ter aceitado
o encargo... hehehe
Lembranças!
***
Olga é mais um dos textos que narram
situações cotidiotas, apáticas e similares
a vida real. Com um humor muito sutil (tão sutil
que enjoa), Gilson leva o leitor ao derradeiro fim da velha,
o fim da edição 101.
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prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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