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24 /11/2004 - Edição número
103
Ninguém
nunca perguntou sobre o sentido dos títulos
do Simplicíssimo...
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Editorial
Rafael Luiz Reinehr |
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Impossível
É possível racionalizar a fé?
É possível discursar sem ideologia?
É possível rezar em termos numéricos?
É possível amar sem ser amado?
É possível dissolver açúcar
em sal?
E quebrar uma noz de dentro pra fora?
Correr pelado plantando bananeira?
De trás pra frente plantar uma semente?
Conferir o Gre-Nal sem ranger os dentes?
É possível sorrir feliz e contente?
Chorar dormindo na frente da TV?
E tropeçar na rua ao cruzar com você?
É possível cantar estando afônico?
E jogar videogame com olho biônico?
É possível tremer de calor?
Dormir no verão sem ventilador?
Assar um churrasco sem carne?
Morar na cidade e dançar um tango?
É possível viver sem saber porquê?
É possível impor o impossível,
Ver o invisível e sentir o insensível?
Se for possível, derrube o rei.
Rafael Luiz Reinehr
PS: Buenas e me espalho: hoje temos a visita
de um novo escritor, o digníssimo Leonardo
Foletto, que estréia em nossas páginas
com um texto "visualmente sonoro". Leiam
para entender. Temos também a estréia de um
novo colunista, o já querido Ibbas Filho,
que estréia sua coluna Parafernália
e estará conosco semanalmente a incrementar este
timaço de grandes atletas da escrita.
Estamos preparando uma Campanha de
Natal para angariar brinquedos a serem doados para
entidades assistenciais que cuidam de crianças. A
coleta dos brinquedos ocorrerá em todas cidades em
que colaboradores do Simplicíssimo
se dispuserem a fornecer um endereço para que os
presentes sejam entregues. Quem estiver disposto a participar,
entre em contato através do simplicissimo@simplicissimo.com.br
A criançada agradece!
"O sentido da literatura, no meio
dos muitos que tenha ou não tenha, é que ela
mantém, purificadas das ameaças da confusão,
as linhas de força que configuram a equação
da consciência e do ato, com suas tensões e
fraturas, suas ambivalências e ambiguidades, suas
rudes trajetórias de choque e fuga. O autor é
o criador de um símbolo heróico: a sua própria
vida.
Mas, quando cria esse símbolo,
está a elaborar um sistema sensível e sensibilizador,
convicto e convincente, de sinais e apelos destinados a
colocar o símbolo à altura de uma presença
ainda mais viva que aquela matéria desordenada onde
teve origem. O valor da escrita reside no fato de, em si
mesma, tecer-se ela como símbolo, urdir ela própria
a sua dignidade de símbolo. A escrita representa-se
a si, e a sua razão está em que dá
razão às inspirações reais que
evoca.
E produz uma tensão muito mais
fundamental do que a realidade. É nessa tensão
real criada em escrita que a realidade se faz. O ofuscante
poder da escrita é que ela possui uma capacidade
de persuasão e violentação de que a
coisa real se encontra subtraída.
O talento de saber tornar verdadeira a verdade."
Herberto Helder
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Apenas
Digo
Leonardo Feltrin Foletto |
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Fecho os meus olhos.
Eu me sinto tão bem. Vou cada vez mais pra baixo.
E não me importo; sinto-me tão bem.Você
pode achar estranho, que eu estou tentando me esconder,
mas não.Eu não sei. Eu me sinto tão
bem. Aquela música me acompanha, é com ela
que vou cada vez mais pra baixo.
Mas eu não estou me escondendo, você pode me
achar fácil - basta procurar. Quando você despertar,
verá o que estou dizendo.Não demore, por que
eu não vou me sentir tão bem assim pra sempre.
Até pode ser que sim, que eu agüente um tempo,
esperando, escutando aquela musica, indo cada vez mais pra
baixo. Mas prefiro acreditar que não, prefiro que
você veja logo, procure depois, me ache e me acompanhe.
Mas sei lá se você vai conseguir. Não
tenha medo, você poderá voltar – se preferir,
e quiser.
Teus olhos não podem ser obstáculos
para as tuas emoções.
Faça com que eles não existam, e assim você
irá me acompanhar.Feche-os, escute aquela música
e você se sentirá indo cada vez mais pra baixo...
...Oh,isso é tão bom, tão bom...
Pode parecer um esconderijo, mas não...
É apenas um lugar seguro.
Esqueça aqueles que não entendem os motivos,
eles nunca chegarão lá. Fechar os olhos é
demais para eles. Mas para você não.
Ainda estou aqui.
Não pretendo sair enquanto não me vier fazer
companhia.Eu me sinto tão bem e , acredite, não
estou mentindo. Só que não ficará assim
para sempre. Aquela música diz :
“when you wake up, you’ll feel down, but
this is good, don’t worry “.
É o que acho, sinto, espero. Não
demore.
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Borboleta
de Asa Quebrada
Aline Machado Oliveira |
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Borboleta de asa quebrada
Anjo caído,
Passarinho que não voa.
Botão de rosa que murchou,
Sol que não nasceu
Sonho que não durou.
É noite,fria noite de inverno ou verão
Os pássaros dormem,
As borboletas se escondem,
Mas as estrelas brilham no céu.
O amor é vivo no meu coração
A esperança é viva em minh’alma
Meus olhos brilham noite e dia
Como as estrelas que brilham no céu.
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Jogo de espelhos
Ainda que eu ache um tanto exagerado descrever
“Má Educação” como um filme
noir (já que algumas características
deste gênero, apesar de existirem – até
através das homenagens feitas em cartazes de clássicos
que aparecem durante o filme – só começam
a se inserir no filme pela metade), esta é uma obra
em que Pedro Almodóvar definitivamente contrariou
a forma como vinha filmando até então e construindo
sua carreira tão admirada. Indo de encontro ao gênero
das comédias malucas e sem se render ao melodrama
de filmes que mesmo sendo obras-primas como “Fale
com Ela”, reconhecidamente eram, Almodóvar
criou uma obra mais seca e, até por isso, tão
densa no seu modo de ajuste de contas com a Igreja, num
processo de auto-reconhecimento da própria infância
do diretor.
É provável que esta quase impossibilidade
de classificação do filme, que gerou tamanho
estranhamento e fria receptividade, seja a culpada por tão
pouca inflamação da mídia em torno
dele. Fora, é lógico, que lidar com um tema
sempre tão delicado quanto a questão de padres
pedófilos e a conseqüência de uma infância
vivida no ambiente opressor da educação religiosa
sempre equivale a brincar com vespeiro – que, mesmo
cada vez mais inofensivo, até por questões
tradicionais inibem as declarações mais calorosas
quando o que está em jogo é a crítica
à Igreja e suas realidades dissimuladas.
Almodóvar é um caso raro de superação
autoral. É possível perceber com clareza de
detalhes o quanto sua obra veio amadurecendo ao longo dos
anos. E o quanto, mesmo lidando com seu então estilo
de comédia amalucada, tudo o que sempre pareceu estar
em primeiro lugar na narrativa do diretor é a história,
a trajetória de uma vida humana que se está
contando, o quanto nada disto nunca foi abandonado em detrimento
de formas de linguagens ou narrativas mais complexas. Você
sente a vida pulsando imensamente nas obras do diretor.
É óbvio que minha impressão neste sentido
se reforça mais por se tratar de um diretor latino-americano
e, desde sempre, minhas impressões sobre o cinema
latino e o cinema europeu é que são referências
em tramas mais intimistas, no trabalho da obra como conseqüência
de esforço dramático e não como acompanhamento
para delírio visual-tecnológico. E, em Almodóvar,
mesmo quando sua sofisticação narrativa foi
alcançando níveis mais intrincados, tudo sempre
foi em contribuição a uma história
bem contada, a um apego ao drama humano, características
facilmente perceptíveis em filmes como “Tudo
Sobre Minha Mãe” (1999), “Fale com Ela”
(2002).
E esta sofisticação narrativa, juntamente
à crueza sexual de seus primeiros filmes, foram dois
dos ingredientes que Almodóvar mais acentuadamente
utilizou para chegar ao resultado final neste “Má
Educação”. Contrário às
especulações de sensacionalismo de que o filme
foi acusado antes mesmo da estréia, por que diziam
ser um libelo contra a Igreja e por apontar o escândalo
que seria colocar o galã do momento Gael García
Bernal no papel de um travesti, o que se vê nesta
película é uma obra melancólica e em
nenhum momento vingativa. Não se nota qualquer tom
panfletário que poderia ter um ajuste de contas de
um diretor que se diz marcado pelo mesmo abuso de que foi
vítima o personagem Ignacio, papel de Bernal, em
sua infância. Aliás, sobre o papel de Bernal
é bom que se diga já de saída: apesar
de uma das personas do personagem (que se dividem em três)
ser um travesti – o que rendeu comparações
ao personagem de Rodrigo Santoro em “Carandiru”
– é óbvio que, por ser o ótimo
ator que é, em nenhum momento tal caracterização
serviu para corromper a carreira do ator. Pelo contrário:
o que se tem é uma interpretação primorosa,
de extrema sensibilidade e de muita coragem do ator, também,
por que, indo ao encontro da crueza sexual dos filmes anteriores
de Almódovar, Bernal na pele de seu personagem teve
que se expor um bocado em cenas de homossexualismo.
A história poderia ser contada de maneira extremamente
simples: na Espanha dos anos 60, Ignacio e Enrique, alunos
de uma escola católica, se apaixonam, descobrem juntos
o amor e o cinema, mas são separados pelo padre Manolo,
que abusa sexualmente do primeiro. Quando, vinte anos depois,
um homem que se diz Ignacio (Gael García Bernal)
procura o então cineasta Enrique (Fele Martinez),
propõe-lhe a realização de um filme
baseado na história que escreveu contando a infância
dos dois. Conta-lhe que virou ator amador, depois de ser
travesti, pedindo um emprego ao diretor. Ignacio pede a
Enrique para interpretar a si mesmo como travesti e logo
em seguida iniciam um caso, sendo interrompidos já
em meio às filmagens pelo padre Manolo, que surge
para contar detalhes de uma história que não
teria acontecido da mesma maneira como Ignacio contou a
Enrique. O que seria pura metalinguagem nas mãos
de um diretor menos habilidoso, se transforma em um complicado
jogo de espelhos, tão sombrio e que neste momento,
quando a trama se torna mais nebulosa, merece a denominação
de noir.
O que temos ao final de “Má Educação”
é uma metáfora sobre o desejo que teima em
se realizar e do qual só se livra após sua
consumação. A paixão pode ser um sentimento
por demais temido e embaçado através da hipocrisia
das instituições. Por isso, mesmo sendo algoz,
o padre do filme também se torna vítima pela
obsessão que lhe acompanha. É um filme em
que Pedro Almodóvar se mostra extremamente maduro,
propondo uma intrincada trama que se confunde entre realidade
e imaginação, passado e presente, e o quanto
o tempo, o desejo e todos os sentimentos frustrados podem
gerar resultados por demais complexos na vida das pessoas
envolvidas.
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Prá Começar
_ Puta que o pariu!
_ Olha o respeito, não vai falar assim da minha mãe.
_ Até parece que sou homem de ficar colocando a mãe
no meio...
_ No meio? Você disse “pariu”, e isso
quer dizer “no início”!
_ Mas que absurdo, larga do meu pé.
_ Como se eu estivesse rastejando abaixo dos teus joelhos...
_ Como pode alguém ser assim tão chato?
_ Daquele bichinho ou do formato plano?
_ Escolhe ora bolas!
_ “Bolas” ... só pode ser o primeiro
então. Tá coçando é?
_ Não sei como te agüento. Você não
tem nada pra fazer não?
_ Não e nem você.
_ Pois tem sorte de eu não poder levantar daqui.
_ Eu sei.
_ Ia te dar uma bengalada que você ia ver só.
_ Como se você lembrasse onde ela está. Ou
esqueceu que tudo isso afetou tua cabeça?
_ Então batia com qualquer coisa mesmo. Até
quando terei que te agüentar?
_ Não te apressa homem. Deve estar faltando vaga
lá em cima também. Hoje em dia é fila
pra tudo ...
_ Então me vira de lado que tá doendo a bunda.
_ Não, não. Lembra que te ensinei ontem a
pedir “por favor”? A esqueci, você está
gá-gá...
_ Cala a boca e me vira caralho!
_ Olha o nome feio ...
_ Feio nada. Feio é Eduardo e Letícia.
_ Hei, eu gosto do meu nome!
_ Que nada. As pessoas deviam se chamar mesmo é Caralho,
Cú, Boceta e daí por diante.
_ Delirou homem de Deus, vou chamar a enfermeira!
_ Não, não precisa. Basta imaginar. “Sr.
Caralho bateu à porta de dona Boceta. Irritada como
todas as vezes em que vestia vermelho, mandou-o embora.
Inconformado, Sr. Caralho foi direto procurar algum consolo
no Cú”.
_ Mas que coisa escrota! Vamos ter que rezar uns 3 terços
por esta! Uma novena quem sabe! Acho que nem aquele site,
o Simplicíssimo, aceitaria uma estória dessas.
_ Aceitaria sim, as pessoas de lá não são
assim idiotas que nem tu.
_ Olha ...
_ Tá, tá, peguei pesado.
_ Não tem problema não, já estou indo
embora.
_ Volta amanhã?
_ Claro né, sou paga prá isso ...
_ Merda! Quer dizer que só fica aqui do meu lado
pelo dinheiro?
_ Na verdade para enriquecer também meu dicionário
de palavrões.
_ Aiê, larga um pouco do meu pé que tá
até doendo.
_ Não sou eu não, é o gesso.
_ Cacete! Me vira de lado logo!
_ Ah confessa, você não vive sem mim, literalmente
(...) Melhor assim?
_ Sim, bem melhor. Mas desmancha esse sorriso. Um dia você
também vai sentir a minha falta.
_ “Um dia”? Ah sim, um dia. Tudo pode acontecer,
tudo pode ...
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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann |
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De Ré Na Contra-Mão
Violentos Haikais 22/X
Mendigos usavam
armas de brinquedo
que medo.
Faroeste 9/X
Nas aulas de direção, de doce,
finanças ou música
quero alguém como você
Josiclelson - IV
Na edição 98, a mãe do Josiclelson estava
grávida e com apuros na gravidez. O que poderia ser?
Bom, vejamos se consigo usar minha bola de cristal.
A mãe do Josiclelson teve uma gravidez muito tranqüila.
Extremamente regulada, não demorou mais de três
semanas após a última menstruação
para descobrir que estava grávida. Ela estava muito
feliz com isto, finalmente nasceria seu primogênito.
Ela fez uma promessa na Igreja. Se tudo transcorresse sem
maiores preocupações, seu filho teria um nome
especial, com as primeiras letras de seu nome. J-O. Sim, Josicleson,
este seria o nome dele.
Não se pode dizer que enjoar durante a gravidez seja
uma coisa estranha. O que eram estranhos eram os desejos da
futura mãe. Ela pedia para o marido: querido, vá
traga mais um chip de computador par mim. Estou morta de desejo.
Ele, contrariado, achando que ela tinha ficado louca, não
tinha outra escolha senão ir buscar mais outro chip.
Pensando bem, ele até ficava feliz, pois os outros
desejos eram mini-ferramentas e limalha de ferro.
Alguns dias mais tarde, durante uma ecografia, uma surpresa,
um fato inusitado. O feto, sim nosso herói não
nato Josiclelson havia montado um supercomputador para começar
sua vida. Normalmente ele permanecia de costas, teclando na
se sabe o que. A mãe dele sentia que ele se mexia constantemente
dentro do útero. Os médicos constataram que
eram exercícios específicos para combater a
LER.
Inteligente este menino! Com 12 semanas de gestação
já conhecia muitas coisas. Entre as fáceis de
presumir era a eletrônica e a ergonomia fetal. As outras,
poderiam ser apenas viagens de sua mãe. Ela dizia que
era compelida a ler livros de física quântica,
astrologia, medicina interna, arquitetura, tarô, filosofia
e livros sobre gastronomia francesa e tailandesa.
Uma única incidência estranha ocorreu, uma sensação
maluca que se passou pela cabeça da mãe do Josiclelson,
uma mulher cujas iniciais começavam por JO, conforme
você pode ler na edição 98 deste “sítio”
aqui. Ela acha que tem algo errado, que isto pode não
passar de um sonho, pois tem quase certeza de já ter
vivido outra história sobre seu primogênito,
o Josiclelson. Que coisa, que sina. Que destinos a vida reserva
para nosso herói não nato Josiclelson.
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Globalização
As pessoas assistiram há duas décadas
ao fim da guerra fria e ao início de um novo parâmetro
nas relações entre países.
Passado o impacto da derrubada do Muro de Berlim, símbolo
maior do mundo comunista,
todos começam a assimilar o surgimento de um novo
tempo, do mundo globalizado.
O advento da globalização pode ser entendido
ou visto como algo novo e necessário no encaminhamento
do mundo a uma nova era.
Período esse em que cada cidadão pudesse ver
acrescidas suas chances de obter uma vida digna.
Acontece porém que o mundo cansou de ouvir falar
apenas na "globalização da economia",
esquecendo-se por completo da globalização
do bem-estar comum, por meio de ações que
visassem contemplar a área social.
Quando o homem é esquecido qualquer eventual avanço
passa a ser questionado, tornando-se inócuo e sem
o menor sentido.
Esse evento aparentemente econômico e cultural efetivou
mudanças radicais nas relações de cunho
ideológico,
dissolvendo velhas rixas e fronteiras nunca antes imaginadas.
A unificação econômica deve unir-se
agora à justiça social,
à ética e à democracia universal,
para formar uma consciência holística em cada
cidadão, visando ingressar numa
sociedade mais humana e fraterna.
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Conteúdo
No aconchego do ombro...
Na compreensão da carne...
No apego da alma...
Estão contidos os segredos dos amantes!
Na sombra do medo...
Na dança das mágoas...
No frio do desespero...
Estão contidos os demônios dos solitários!
No calor do momento...
No batimento do pulso...
Na incerteza das horas...
Estão contidos os sentimentos dos enamorados!
Na lembrança da presença...
Na redução do prazer...
No eterno pensamento do vulto...
Estão contidos o sofrimento dos cegos abandonados!
Na beleza da aurora...
No despertar da consciência...
No incandescer da vitória...
Estão contidos os momentos de glória daqueles
que esperam com paciência!!!
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Musicalidade
de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
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Tem pessoas que gostam do The Clash pelo simples
fato deles terem sido punks. Tem pessoas que gostam do The
Clash porque virou moda falar que London Calling é
um dos melhores discos de rock do século. E tem gente
que gosta de Libertines porque falam que é o novo
Clash.
Balela, balela, balela... quer dizer, sim,
o Clash é punk, London Calling é um dos melhores
(e um dos mais audaciosos) discos de rock lançado,
e Libertines parece remotamente com Clash.
Mas teríamos aí divergências
de opiniões. A atitude punk do Clash foi anos-luz
mais cabecista do que a de um Sex Pistols, ou um Ramones.
Se com os americanos a atitude punk estava na sonoridade,
enquanto com a trupe de Podrinho tudo havia de ser pela
atitude, a turma de Joe Strummer foi além, e mais
bem resolvido. E ainda que tivesse sido depois (o que nas
rupturas artístiscas perde-se em ousadia), o Clash
andou em passos que não deixa duvidar que caso não
existissem, talvez o punk tivesse ficado com a formação
e moldes que os dois grupos citados cederam, e portanto,
muito mais limitado.
London Calling foi um grande disco, mas para
quem ousar olhar para trás, verá que, oh sim,
houve um disco antes dele. E aliás, crucial para
o crescimento da banda. Assim com no melhor estilo Beatles,
o Clash gravou um disco visceral, quase uma vitrine, para
que assim chamadas as atenções, desferissem
suas idéias com mais clareza em discos posteriores.
Com a vantagem ainda sobre o quarteto de Liverpool:
ao contrário das viagens dos Beatles, que foram surgindo
no decorrer da carreira, as experimentações
do Clash já existiam desde o começo, apenas
omitidas para não chocar repentinamente o público.
Quem critica Mick Jones e cia. por terem gravado
discos como Sandinista ou Combat Rock, pelas suas influências
reggae, é realmente muito míope. Desde seu
disco de estréia, já houve sinais dessa sonoridade,
no meio do punk.
O primeiro disco do The Clash é punk:
coisa que talvez, os Libertines nunca consigam ser. Porque
ao contrário de 1977, 2004 quer ser cool e estático.
O que significa, o pessoal recém-saído do
Tim Festival talvez nunca tenha um impacto visual que o
Clash teve, caso continuem apostando nesse ar blasè.
Portanto, não venham falar que fulano
parece com ciclano apenas porque foi produzido pelo guitarrista.
O Clash era muito esperto. Abaixado o alvoroço
de estréia (perfeita) até seu segundo disco,
era hora de London Calling, duplo e recheado de pérolas.
Um dos atrativos da banda é deixar transparecer seu
sotaque britânico ao cantar (coisa também,
a única característica clashniana nos Libertines),
mas não só isso. Aqui, o Clash pára
de ser só punk.
Então garoto revoltado, se gosta da
banda apenas por isso, não ouça "a melhor
obra do rock neste século". Os roqueiros gostaram,
os punks puristas foram enganados: tinha rockabilly, reggae,
pérolas pop, e tudo mais neste álbum.
A cover de "Brand New Cadillac"
é uma das mais perfeitas resoluções
do rock. E isso adiantava, o universo Clash era grande e
muito maior. As letras não mais abordavam temas políticos,
a vocalização não era mais apenas gritada,
e a sonoridade compassada era criativa. E o choque apenas
começava.
Quem sempre proclama nas rodas de amigo que
Combat Rock, álbum após o choque maior que
foi Sandinista, é ruim por causa dos toques mais
evidentes de reggae e ambient, pode-se lembrar que "Should
I Stay Or Should I Go", um dos clássicos do
rock e preferidos da moçada do karaokê, saiu
desse disco.
Em Combat Rock, ainda havia para essa turma
roqueira ortodoxa, pérolas como "Know Your Rights"
e "Car Jamming". Este disco era uma síntese
do que o público escolheu cuspir em cima, em Sandinista.
Disco triplo, que mostrava que a banda já havia realizado
sua total faceta musical, o que eles almejavam desde o início.
O Clash fez com que todos os ouvissem, de
todos os gêneros, fazendo quem não gosta de
reggae, ou punk, ou rock, gostarem da sonoridade da banda.
Escolheu seu público, mas não apontou necessariamente
o que eles queriam. Soube chamar atenção da
crítica não sendo cópia, mas sim legítimo.
Compor uma maravilha como "This Is Radio Clash",
para mim, é dez mil melhor do que sair em uma turnê
para arrecadar dinheiro: ironia ou não, é
simplesmente idiota mesmo.
É o que eu sempre digo aos punks de
hoje (ou até aos emocores, ou hardcores da vida):
ouçam mais Clash, e revisite suas influências.
Vocês podem ver também que para os Inocentes,
ou para a Plebe Rude, não fizeram mal nenhum.
E para os Libertines, espero que se soltem
desse ranho de ser alternativo, caso não queiram
ser parecidos com outras 898439048 bandas da invasão
novaiorquina da salvação do rock, ou das trupes
brit-franja.
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Bacantes
Literárias
Gilson Giuberti Filho |
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Ensaio nº5
- Estão aqui os documentos. Disse eu
no guichê.
Com impaciência, a atendente vai passando as folhas.
Já envergava uns 40 anos de idade, ostentando um
cabelo loiro de tintura barata; unhas vermelhas já
descascando. Óculos na ponta do nariz preso por uma
correntinha de plástico caramelo.
- Falta a certidão negativa de débito!
.- Está aí depois desta folha...
Silêncio. Olha mais um pouco.
.- É, mas a certidão negativa vintenária...
- A senhora já passou, volta um pouco...
Imediatamente chega por trás uma colega de serviço.
Depois de chamá-la desenrola um tecido de veludo
azul repleto de jóias folhadas a ouro. Conversam
sobre moda, preço, etc. Experimenta algumas, fica
em dúvida; diz que vai esperar o salário sair
e se despede. Aproxima-se do guichê novamente, vindo
ao meu encontro.
- E a certidão de inteiro teor de matrícula?
- Está aí, minha senhora, lá no final...
Atônita, olha paralisada as folhas que lhe entreguei.
Tira os óculos e solta sobre o peito. Então
rói, preocupadamente o que restava do esmalte.
Respirou fundo num misto de fadiga e tédio. Bateu
o carimbo e me entregou o protocolo; ia ter que trabalhar
naquele dia...
|
Eu não existo
Alguns seres humanos pegam morte. Algumas
pessoas doentes: John Lennon, Pablo Picasso, Jucélio,
Vinicius de Moraes, Cleópatra e Lula.
***
Tradutora de realidades, compressora das
cores, mostradora de mundos, visionária secunda,
fecunda em papiro, buraco da vida, quimera querida, enfim
câmera. Eis minha lista de projetos próximos:
letra em liso, som, tinta em tela, texturas e meus poemas
pr’ela. Já ia quase me esquecendo dela, cama
de rei para três, minha pinhole vai dormir comigo!
***
Amados leitores, adoro falar. Ter voz é
um prazer que não nego jamais, perco a conta das
vezes que disse demais. Entendam isso como uma paixão
pela conversa fiada, pelo papo no bar do Mosca. Desde que
estreei aqui como colunista infernal, não ouvi minha
voz, ao invés de falar, fui ouvinte, e ao invés
de dizer, contradisse. Ao publicar o conto O corpo amarelo,
Rafael Reinehr me permitiu ser dois, o escritor e o especulador.
Minha opinião sobre o conteúdo de O corpo
amarelo é totalmente implícita no próprio
conto, como autor, me reservo ao direito de amar tudo o
que escrevo. Falarei sobre a forma, a abordagem e a cor
do deserto.
Não temos tempo para preliminares, a linguagem tem
de ser rápida, o conto não tem espaço
para o antes, é do meio para depois. Considero a
pior postura literária a de querer deixar tudo em
pratos limpos. Usei muitas associações metafóricas,
como: o bruxo das areias, vida dourada, multidão
amarela e vermes do vento, construções essas
que julgo remeterem a qualquer aspecto/atmosfera árabe,
familiarizando o ambiente para um clima mais intimista.
Essas construções não precisam ser
lógicas, pois já são árabes.
Bati forte o amarelo para a poeira subir e tentar passar
um clima sujo e pobre. Os animais inseridos serviram para
isso.
Bom, não sei se alguém identificou essas loucuras
que tentei traduzir dos sentimentos do escrever, mas sinceramente
é o que sinto. Pretensões ao lado, sou um
tentante e não pretendo desistir!
***
Não sei se por viver com a poeta,
mas não consigo ler os poemas d’ella sem pensar
na boca, no falado. Os poemas d’ella são extremamente
falantes, e sozinhos dela, conseguem ter algo próprio
que ignora as vontades. Muitas vezes um poema d’ella
foge e perde o controle, diz coisas que ninguém quer
ouvir... Tampouco ella. Nós e eu tem uma carga calma
e retilínea, mantém as freqüências
poéticas equalizadas no nível do a sangue
frio. É muito evidente que a última palavra
destoa completamente do resto, não pela rima (que
é perfeita), nem pelo senso (que é o que transborda
nas poesias d’ella), mas pelo gesto, a palavra surda
vem como um tapa a contragosto no meio da cara, daqueles
que são dados como lição. Um dia eu
aprendo.
***
Na primeira lida rápida, confesso
que não entendi bulhufas dos poemas do Alessandro,
sumiram as palavras que completariam o senso. Escrevi toda
a coluna e deixei essa por último para facilitar
as coisas. Uma segunda lida e só consegui captar
um pouco de alguma coisa, uma parte d alguma réstia,
fiquei meio na metade, incompreendido pelo poema duplo.
A respiração e a dialética me fizeram
entender que os erros de pontuação me enganaram,
na terceira lida compreendi os fonemas e as falsas gramáticas,
entendi a despretensão comentada, e pude ver com
meus próprios olhos as boas formas de um poeta em
expansão, decidido a mudar, ou simplesmente mudado
pelo tédio. O escritor não sabe fazer outra
coisa.
***
Eis a minha visão e seu limite: sei
tão pouco que sou capaz de me surpreender. Eduardo
Sabbi, que sempre foi uma das peças básicas
do tabuleiro simples, pausa o marcador, mas não passa
a vez. É difícil saber o que se passa na vida
de alguém, principalmente quando esse alguém
é uma outra pessoa. Sabbi, xeque... eu espero.
***
De acordo com o texto de Luiz Maia, o homem
é carente e sem fundo, quando na verdade, o homem
precisa deixar isso pra trás, acredito que a não
cultivação de certos aspectos sociais é
a causa da evolução. Quanto mais dissermos:
o homem é insatisfeito, mais engessamos a natureza
e nos mantemos presos a esses conceitos, cabe ao homem esquecer
o que há de mal e deixar a natureza fazer o seu trabalho,
pois se tem uma coisa que o homem saber ser: é ser
mutante.
***
Descubra-se! Queime o manto em nome do santo
e poeta Neves, que por oficio digníssimo de poema
claro deveria ser chamado Fogo! Perco a conta de tantos
lidos e queimados, inquisidores da inconstância traçam
um padrão de beleza lírica, de poeta Sara.
***
Marcos Claudino conta a história num
flash, um texto perfeito para ser publicado na internet,
mas não falarei sobre isso. O pivete se dá
bem, putas boazinhas, um sujeito tresloucado, pontos da
cidade, fuscas e chevetes, minhocão. Bundas e granas,
pacotes-embrulho... Marcos Fonseca, Rubem Claudino, pátria
sarjeta, eu adoro isso!!!
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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