Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade igual à raiz hexagonal da freqüência sonora ouvida por um golfinho


melhor visualizado
em 800 x 600 pixels

 
Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Impossível

É possível racionalizar a fé?
É possível discursar sem ideologia?
É possível rezar em termos numéricos?
É possível amar sem ser amado?
É possível dissolver açúcar em sal?
E quebrar uma noz de dentro pra fora?
Correr pelado plantando bananeira?
De trás pra frente plantar uma semente?
Conferir o Gre-Nal sem ranger os dentes?
É possível sorrir feliz e contente?
Chorar dormindo na frente da TV?
E tropeçar na rua ao cruzar com você?
É possível cantar estando afônico?
E jogar videogame com olho biônico?
É possível tremer de calor?
Dormir no verão sem ventilador?
Assar um churrasco sem carne?
Morar na cidade e dançar um tango?
É possível viver sem saber porquê?
É possível impor o impossível,
Ver o invisível e sentir o insensível?
Se for possível, derrube o rei.

Rafael Luiz Reinehr

 

PS: Buenas e me espalho: hoje temos a visita de um novo escritor, o digníssimo Leonardo Foletto, que estréia em nossas páginas com um texto "visualmente sonoro". Leiam para entender. Temos também a estréia de um novo colunista, o já querido Ibbas Filho, que estréia sua coluna Parafernália e estará conosco semanalmente a incrementar este timaço de grandes atletas da escrita.

Estamos preparando uma Campanha de Natal para angariar brinquedos a serem doados para entidades assistenciais que cuidam de crianças. A coleta dos brinquedos ocorrerá em todas cidades em que colaboradores do Simplicíssimo se dispuserem a fornecer um endereço para que os presentes sejam entregues. Quem estiver disposto a participar, entre em contato através do simplicissimo@simplicissimo.com.br

A criançada agradece!

"O sentido da literatura, no meio dos muitos que tenha ou não tenha, é que ela mantém, purificadas das ameaças da confusão, as linhas de força que configuram a equação da consciência e do ato, com suas tensões e fraturas, suas ambivalências e ambiguidades, suas rudes trajetórias de choque e fuga. O autor é o criador de um símbolo heróico: a sua própria vida.

Mas, quando cria esse símbolo, está a elaborar um sistema sensível e sensibilizador, convicto e convincente, de sinais e apelos destinados a colocar o símbolo à altura de uma presença ainda mais viva que aquela matéria desordenada onde teve origem. O valor da escrita reside no fato de, em si mesma, tecer-se ela como símbolo, urdir ela própria a sua dignidade de símbolo. A escrita representa-se a si, e a sua razão está em que dá razão às inspirações reais que evoca.

E produz uma tensão muito mais fundamental do que a realidade. É nessa tensão real criada em escrita que a realidade se faz. O ofuscante poder da escrita é que ela possui uma capacidade de persuasão e violentação de que a coisa real se encontra subtraída.
O talento de saber tornar verdadeira a verdade.
"
Herberto Helder

Línques relacionados:
Escrever Por Escrever
 

Comente este texto - 013 leitores comentaram.

subir


Apenas Digo
Leonardo Feltrin Foletto

Fecho os meus olhos.
Eu me sinto tão bem. Vou cada vez mais pra baixo. E não me importo; sinto-me tão bem.Você pode achar estranho, que eu estou tentando me esconder, mas não.Eu não sei. Eu me sinto tão bem. Aquela música me acompanha, é com ela que vou cada vez mais pra baixo.
Mas eu não estou me escondendo, você pode me achar fácil - basta procurar. Quando você despertar, verá o que estou dizendo.Não demore, por que eu não vou me sentir tão bem assim pra sempre. Até pode ser que sim, que eu agüente um tempo, esperando, escutando aquela musica, indo cada vez mais pra baixo. Mas prefiro acreditar que não, prefiro que você veja logo, procure depois, me ache e me acompanhe. Mas sei lá se você vai conseguir. Não tenha medo, você poderá voltar – se preferir, e quiser.

Teus olhos não podem ser obstáculos para as tuas emoções.
Faça com que eles não existam, e assim você irá me acompanhar.Feche-os, escute aquela música e você se sentirá indo cada vez mais pra baixo...
...Oh,isso é tão bom, tão bom...
Pode parecer um esconderijo, mas não...
É apenas um lugar seguro.
Esqueça aqueles que não entendem os motivos, eles nunca chegarão lá. Fechar os olhos é demais para eles. Mas para você não.

Ainda estou aqui.
Não pretendo sair enquanto não me vier fazer companhia.Eu me sinto tão bem e , acredite, não estou mentindo. Só que não ficará assim para sempre. Aquela música diz :

“when you wake up, you’ll feel down, but this is good, don’t worry “.

É o que acho, sinto, espero. Não demore.

Comente este texto - 0 leitores comentaram.

 

Borboleta de Asa Quebrada
Aline Machado Oliveira

Borboleta de asa quebrada
Anjo caído,
Passarinho que não voa.

Botão de rosa que murchou,
Sol que não nasceu
Sonho que não durou.

É noite,fria noite de inverno ou verão
Os pássaros dormem,
As borboletas se escondem,
Mas as estrelas brilham no céu.

O amor é vivo no meu coração
A esperança é viva em minh’alma
Meus olhos brilham noite e dia
Como as estrelas que brilham no céu.

Comente este texto - 0 leitores comentaram.

subir

 

Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Jogo de espelhos

Ainda que eu ache um tanto exagerado descrever “Má Educação” como um filme noir (já que algumas características deste gênero, apesar de existirem – até através das homenagens feitas em cartazes de clássicos que aparecem durante o filme – só começam a se inserir no filme pela metade), esta é uma obra em que Pedro Almodóvar definitivamente contrariou a forma como vinha filmando até então e construindo sua carreira tão admirada. Indo de encontro ao gênero das comédias malucas e sem se render ao melodrama de filmes que mesmo sendo obras-primas como “Fale com Ela”, reconhecidamente eram, Almodóvar criou uma obra mais seca e, até por isso, tão densa no seu modo de ajuste de contas com a Igreja, num processo de auto-reconhecimento da própria infância do diretor.

É provável que esta quase impossibilidade de classificação do filme, que gerou tamanho estranhamento e fria receptividade, seja a culpada por tão pouca inflamação da mídia em torno dele. Fora, é lógico, que lidar com um tema sempre tão delicado quanto a questão de padres pedófilos e a conseqüência de uma infância vivida no ambiente opressor da educação religiosa sempre equivale a brincar com vespeiro – que, mesmo cada vez mais inofensivo, até por questões tradicionais inibem as declarações mais calorosas quando o que está em jogo é a crítica à Igreja e suas realidades dissimuladas.

Almodóvar é um caso raro de superação autoral. É possível perceber com clareza de detalhes o quanto sua obra veio amadurecendo ao longo dos anos. E o quanto, mesmo lidando com seu então estilo de comédia amalucada, tudo o que sempre pareceu estar em primeiro lugar na narrativa do diretor é a história, a trajetória de uma vida humana que se está contando, o quanto nada disto nunca foi abandonado em detrimento de formas de linguagens ou narrativas mais complexas. Você sente a vida pulsando imensamente nas obras do diretor. É óbvio que minha impressão neste sentido se reforça mais por se tratar de um diretor latino-americano e, desde sempre, minhas impressões sobre o cinema latino e o cinema europeu é que são referências em tramas mais intimistas, no trabalho da obra como conseqüência de esforço dramático e não como acompanhamento para delírio visual-tecnológico. E, em Almodóvar, mesmo quando sua sofisticação narrativa foi alcançando níveis mais intrincados, tudo sempre foi em contribuição a uma história bem contada, a um apego ao drama humano, características facilmente perceptíveis em filmes como “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), “Fale com Ela” (2002).

E esta sofisticação narrativa, juntamente à crueza sexual de seus primeiros filmes, foram dois dos ingredientes que Almodóvar mais acentuadamente utilizou para chegar ao resultado final neste “Má Educação”. Contrário às especulações de sensacionalismo de que o filme foi acusado antes mesmo da estréia, por que diziam ser um libelo contra a Igreja e por apontar o escândalo que seria colocar o galã do momento Gael García Bernal no papel de um travesti, o que se vê nesta película é uma obra melancólica e em nenhum momento vingativa. Não se nota qualquer tom panfletário que poderia ter um ajuste de contas de um diretor que se diz marcado pelo mesmo abuso de que foi vítima o personagem Ignacio, papel de Bernal, em sua infância. Aliás, sobre o papel de Bernal é bom que se diga já de saída: apesar de uma das personas do personagem (que se dividem em três) ser um travesti – o que rendeu comparações ao personagem de Rodrigo Santoro em “Carandiru” – é óbvio que, por ser o ótimo ator que é, em nenhum momento tal caracterização serviu para corromper a carreira do ator. Pelo contrário: o que se tem é uma interpretação primorosa, de extrema sensibilidade e de muita coragem do ator, também, por que, indo ao encontro da crueza sexual dos filmes anteriores de Almódovar, Bernal na pele de seu personagem teve que se expor um bocado em cenas de homossexualismo.

A história poderia ser contada de maneira extremamente simples: na Espanha dos anos 60, Ignacio e Enrique, alunos de uma escola católica, se apaixonam, descobrem juntos o amor e o cinema, mas são separados pelo padre Manolo, que abusa sexualmente do primeiro. Quando, vinte anos depois, um homem que se diz Ignacio (Gael García Bernal) procura o então cineasta Enrique (Fele Martinez), propõe-lhe a realização de um filme baseado na história que escreveu contando a infância dos dois. Conta-lhe que virou ator amador, depois de ser travesti, pedindo um emprego ao diretor. Ignacio pede a Enrique para interpretar a si mesmo como travesti e logo em seguida iniciam um caso, sendo interrompidos já em meio às filmagens pelo padre Manolo, que surge para contar detalhes de uma história que não teria acontecido da mesma maneira como Ignacio contou a Enrique. O que seria pura metalinguagem nas mãos de um diretor menos habilidoso, se transforma em um complicado jogo de espelhos, tão sombrio e que neste momento, quando a trama se torna mais nebulosa, merece a denominação de noir.

O que temos ao final de “Má Educação” é uma metáfora sobre o desejo que teima em se realizar e do qual só se livra após sua consumação. A paixão pode ser um sentimento por demais temido e embaçado através da hipocrisia das instituições. Por isso, mesmo sendo algoz, o padre do filme também se torna vítima pela obsessão que lhe acompanha. É um filme em que Pedro Almodóvar se mostra extremamente maduro, propondo uma intrincada trama que se confunde entre realidade e imaginação, passado e presente, e o quanto o tempo, o desejo e todos os sentimentos frustrados podem gerar resultados por demais complexos na vida das pessoas envolvidas.

Línques relacionados:
Suburbana
 

subir


Parafernália
Ibbas Filho

Prá Começar

_ Puta que o pariu!
_ Olha o respeito, não vai falar assim da minha mãe.
_ Até parece que sou homem de ficar colocando a mãe no meio...
_ No meio? Você disse “pariu”, e isso quer dizer “no início”!
_ Mas que absurdo, larga do meu pé.
_ Como se eu estivesse rastejando abaixo dos teus joelhos...
_ Como pode alguém ser assim tão chato?
_ Daquele bichinho ou do formato plano?
_ Escolhe ora bolas!
_ “Bolas” ... só pode ser o primeiro então. Tá coçando é?
_ Não sei como te agüento. Você não tem nada pra fazer não?
_ Não e nem você.
_ Pois tem sorte de eu não poder levantar daqui.
_ Eu sei.
_ Ia te dar uma bengalada que você ia ver só.
_ Como se você lembrasse onde ela está. Ou esqueceu que tudo isso afetou tua cabeça?
_ Então batia com qualquer coisa mesmo. Até quando terei que te agüentar?
_ Não te apressa homem. Deve estar faltando vaga lá em cima também. Hoje em dia é fila pra tudo ...
_ Então me vira de lado que tá doendo a bunda.
_ Não, não. Lembra que te ensinei ontem a pedir “por favor”? A esqueci, você está gá-gá...
_ Cala a boca e me vira caralho!
_ Olha o nome feio ...
_ Feio nada. Feio é Eduardo e Letícia.
_ Hei, eu gosto do meu nome!
_ Que nada. As pessoas deviam se chamar mesmo é Caralho, Cú, Boceta e daí por diante.
_ Delirou homem de Deus, vou chamar a enfermeira!
_ Não, não precisa. Basta imaginar. “Sr. Caralho bateu à porta de dona Boceta. Irritada como todas as vezes em que vestia vermelho, mandou-o embora. Inconformado, Sr. Caralho foi direto procurar algum consolo no Cú”.
_ Mas que coisa escrota! Vamos ter que rezar uns 3 terços por esta! Uma novena quem sabe! Acho que nem aquele site, o Simplicíssimo, aceitaria uma estória dessas.
_ Aceitaria sim, as pessoas de lá não são assim idiotas que nem tu.
_ Olha ...
_ Tá, tá, peguei pesado.
_ Não tem problema não, já estou indo embora.
_ Volta amanhã?
_ Claro né, sou paga prá isso ...
_ Merda! Quer dizer que só fica aqui do meu lado pelo dinheiro?
_ Na verdade para enriquecer também meu dicionário de palavrões.
_ Aiê, larga um pouco do meu pé que tá até doendo.
_ Não sou eu não, é o gesso.
_ Cacete! Me vira de lado logo!
_ Ah confessa, você não vive sem mim, literalmente (...) Melhor assim?
_ Sim, bem melhor. Mas desmancha esse sorriso. Um dia você também vai sentir a minha falta.
_ “Um dia”? Ah sim, um dia. Tudo pode acontecer, tudo pode ...

subir

 

I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 22/X

Mendigos usavam
armas de brinquedo
que medo.

Faroeste 9/X

Nas aulas de direção, de doce,
finanças ou música
quero alguém como você

Josiclelson - IV

Na edição 98, a mãe do Josiclelson estava grávida e com apuros na gravidez. O que poderia ser? Bom, vejamos se consigo usar minha bola de cristal.
A mãe do Josiclelson teve uma gravidez muito tranqüila. Extremamente regulada, não demorou mais de três semanas após a última menstruação para descobrir que estava grávida. Ela estava muito feliz com isto, finalmente nasceria seu primogênito. Ela fez uma promessa na Igreja. Se tudo transcorresse sem maiores preocupações, seu filho teria um nome especial, com as primeiras letras de seu nome. J-O. Sim, Josicleson, este seria o nome dele.
Não se pode dizer que enjoar durante a gravidez seja uma coisa estranha. O que eram estranhos eram os desejos da futura mãe. Ela pedia para o marido: querido, vá traga mais um chip de computador par mim. Estou morta de desejo. Ele, contrariado, achando que ela tinha ficado louca, não tinha outra escolha senão ir buscar mais outro chip. Pensando bem, ele até ficava feliz, pois os outros desejos eram mini-ferramentas e limalha de ferro.
Alguns dias mais tarde, durante uma ecografia, uma surpresa, um fato inusitado. O feto, sim nosso herói não nato Josiclelson havia montado um supercomputador para começar sua vida. Normalmente ele permanecia de costas, teclando na se sabe o que. A mãe dele sentia que ele se mexia constantemente dentro do útero. Os médicos constataram que eram exercícios específicos para combater a LER.
Inteligente este menino! Com 12 semanas de gestação já conhecia muitas coisas. Entre as fáceis de presumir era a eletrônica e a ergonomia fetal. As outras, poderiam ser apenas viagens de sua mãe. Ela dizia que era compelida a ler livros de física quântica, astrologia, medicina interna, arquitetura, tarô, filosofia e livros sobre gastronomia francesa e tailandesa.
Uma única incidência estranha ocorreu, uma sensação maluca que se passou pela cabeça da mãe do Josiclelson, uma mulher cujas iniciais começavam por JO, conforme você pode ler na edição 98 deste “sítio” aqui. Ela acha que tem algo errado, que isto pode não passar de um sonho, pois tem quase certeza de já ter vivido outra história sobre seu primogênito, o Josiclelson. Que coisa, que sina. Que destinos a vida reserva para nosso herói não nato Josiclelson.

Comente este texto - 01 leitores comentaram.

subir

 

 

Utopias
Luiz Maia

Globalização

As pessoas assistiram há duas décadas ao fim da guerra fria e ao início de um novo parâmetro nas relações entre países.
Passado o impacto da derrubada do Muro de Berlim, símbolo maior do mundo comunista,
todos começam a assimilar o surgimento de um novo tempo, do mundo globalizado.

O advento da globalização pode ser entendido ou visto como algo novo e necessário no encaminhamento do mundo a uma nova era.
Período esse em que cada cidadão pudesse ver acrescidas suas chances de obter uma vida digna.

Acontece porém que o mundo cansou de ouvir falar apenas na "globalização da economia",
esquecendo-se por completo da globalização do bem-estar comum, por meio de ações que visassem contemplar a área social.

Quando o homem é esquecido qualquer eventual avanço passa a ser questionado, tornando-se inócuo e sem o menor sentido.

Esse evento aparentemente econômico e cultural efetivou mudanças radicais nas relações de cunho ideológico,
dissolvendo velhas rixas e fronteiras nunca antes imaginadas.
A unificação econômica deve unir-se agora à justiça social,
à ética e à democracia universal,
para formar uma consciência holística em cada cidadão, visando ingressar numa
sociedade mais humana e fraterna.

Línques relacionados:
Luiz Maia

Comente este texto - 01 leitores comentaram.

subir

 

Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Conteúdo

No aconchego do ombro...
Na compreensão da carne...
No apego da alma...
Estão contidos os segredos dos amantes!

Na sombra do medo...
Na dança das mágoas...
No frio do desespero...
Estão contidos os demônios dos solitários!

No calor do momento...
No batimento do pulso...
Na incerteza das horas...
Estão contidos os sentimentos dos enamorados!

Na lembrança da presença...
Na redução do prazer...
No eterno pensamento do vulto...
Estão contidos o sofrimento dos cegos abandonados!

Na beleza da aurora...
No despertar da consciência...
No incandescer da vitória...
Estão contidos os momentos de glória daqueles que esperam com paciência!!!

Comente este texto - 01 leitores comentaram.

subir

Musicalidade de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai

Tem pessoas que gostam do The Clash pelo simples fato deles terem sido punks. Tem pessoas que gostam do The Clash porque virou moda falar que London Calling é um dos melhores discos de rock do século. E tem gente que gosta de Libertines porque falam que é o novo Clash.

Balela, balela, balela... quer dizer, sim, o Clash é punk, London Calling é um dos melhores (e um dos mais audaciosos) discos de rock lançado, e Libertines parece remotamente com Clash.

Mas teríamos aí divergências de opiniões. A atitude punk do Clash foi anos-luz mais cabecista do que a de um Sex Pistols, ou um Ramones. Se com os americanos a atitude punk estava na sonoridade, enquanto com a trupe de Podrinho tudo havia de ser pela atitude, a turma de Joe Strummer foi além, e mais bem resolvido. E ainda que tivesse sido depois (o que nas rupturas artístiscas perde-se em ousadia), o Clash andou em passos que não deixa duvidar que caso não existissem, talvez o punk tivesse ficado com a formação e moldes que os dois grupos citados cederam, e portanto, muito mais limitado.

London Calling foi um grande disco, mas para quem ousar olhar para trás, verá que, oh sim, houve um disco antes dele. E aliás, crucial para o crescimento da banda. Assim com no melhor estilo Beatles, o Clash gravou um disco visceral, quase uma vitrine, para que assim chamadas as atenções, desferissem suas idéias com mais clareza em discos posteriores.

Com a vantagem ainda sobre o quarteto de Liverpool: ao contrário das viagens dos Beatles, que foram surgindo no decorrer da carreira, as experimentações do Clash já existiam desde o começo, apenas omitidas para não chocar repentinamente o público.

Quem critica Mick Jones e cia. por terem gravado discos como Sandinista ou Combat Rock, pelas suas influências reggae, é realmente muito míope. Desde seu disco de estréia, já houve sinais dessa sonoridade, no meio do punk.

O primeiro disco do The Clash é punk: coisa que talvez, os Libertines nunca consigam ser. Porque ao contrário de 1977, 2004 quer ser cool e estático. O que significa, o pessoal recém-saído do Tim Festival talvez nunca tenha um impacto visual que o Clash teve, caso continuem apostando nesse ar blasè.

Portanto, não venham falar que fulano parece com ciclano apenas porque foi produzido pelo guitarrista.

O Clash era muito esperto. Abaixado o alvoroço de estréia (perfeita) até seu segundo disco, era hora de London Calling, duplo e recheado de pérolas. Um dos atrativos da banda é deixar transparecer seu sotaque britânico ao cantar (coisa também, a única característica clashniana nos Libertines), mas não só isso. Aqui, o Clash pára de ser só punk.

Então garoto revoltado, se gosta da banda apenas por isso, não ouça "a melhor obra do rock neste século". Os roqueiros gostaram, os punks puristas foram enganados: tinha rockabilly, reggae, pérolas pop, e tudo mais neste álbum.

A cover de "Brand New Cadillac" é uma das mais perfeitas resoluções do rock. E isso adiantava, o universo Clash era grande e muito maior. As letras não mais abordavam temas políticos, a vocalização não era mais apenas gritada, e a sonoridade compassada era criativa. E o choque apenas começava.

Quem sempre proclama nas rodas de amigo que Combat Rock, álbum após o choque maior que foi Sandinista, é ruim por causa dos toques mais evidentes de reggae e ambient, pode-se lembrar que "Should I Stay Or Should I Go", um dos clássicos do rock e preferidos da moçada do karaokê, saiu desse disco.

Em Combat Rock, ainda havia para essa turma roqueira ortodoxa, pérolas como "Know Your Rights" e "Car Jamming". Este disco era uma síntese do que o público escolheu cuspir em cima, em Sandinista. Disco triplo, que mostrava que a banda já havia realizado sua total faceta musical, o que eles almejavam desde o início.

O Clash fez com que todos os ouvissem, de todos os gêneros, fazendo quem não gosta de reggae, ou punk, ou rock, gostarem da sonoridade da banda. Escolheu seu público, mas não apontou necessariamente o que eles queriam. Soube chamar atenção da crítica não sendo cópia, mas sim legítimo.

Compor uma maravilha como "This Is Radio Clash", para mim, é dez mil melhor do que sair em uma turnê para arrecadar dinheiro: ironia ou não, é simplesmente idiota mesmo.

É o que eu sempre digo aos punks de hoje (ou até aos emocores, ou hardcores da vida): ouçam mais Clash, e revisite suas influências. Vocês podem ver também que para os Inocentes, ou para a Plebe Rude, não fizeram mal nenhum.

E para os Libertines, espero que se soltem desse ranho de ser alternativo, caso não queiram ser parecidos com outras 898439048 bandas da invasão novaiorquina da salvação do rock, ou das trupes brit-franja.

Línques relacionados:
Pensamentos Destoados Pela Antítese
 

Comente este texto - 03 leitores comentaram.

subir


Bacantes Literárias
Gilson Giuberti Filho

Ensaio nº5

- Estão aqui os documentos. Disse eu no guichê.
Com impaciência, a atendente vai passando as folhas. Já envergava uns 40 anos de idade, ostentando um cabelo loiro de tintura barata; unhas vermelhas já descascando. Óculos na ponta do nariz preso por uma correntinha de plástico caramelo.
- Falta a certidão negativa de débito!
.- Está aí depois desta folha...
Silêncio. Olha mais um pouco.
.- É, mas a certidão negativa vintenária...
- A senhora já passou, volta um pouco...
Imediatamente chega por trás uma colega de serviço. Depois de chamá-la desenrola um tecido de veludo azul repleto de jóias folhadas a ouro. Conversam sobre moda, preço, etc. Experimenta algumas, fica em dúvida; diz que vai esperar o salário sair e se despede. Aproxima-se do guichê novamente, vindo ao meu encontro.
- E a certidão de inteiro teor de matrícula?
- Está aí, minha senhora, lá no final...
Atônita, olha paralisada as folhas que lhe entreguei. Tira os óculos e solta sobre o peito. Então rói, preocupadamente o que restava do esmalte.
Respirou fundo num misto de fadiga e tédio. Bateu o carimbo e me entregou o protocolo; ia ter que trabalhar naquele dia...

Línques relacionados:
A Vingança de Prometeu II
 

Comente este texto - 01 leitores comentaram.

 

Ombudsman
Bernardo W.K.

Eu não existo

Alguns seres humanos pegam morte. Algumas pessoas doentes: John Lennon, Pablo Picasso, Jucélio, Vinicius de Moraes, Cleópatra e Lula.

***

Tradutora de realidades, compressora das cores, mostradora de mundos, visionária secunda, fecunda em papiro, buraco da vida, quimera querida, enfim câmera. Eis minha lista de projetos próximos: letra em liso, som, tinta em tela, texturas e meus poemas pr’ela. Já ia quase me esquecendo dela, cama de rei para três, minha pinhole vai dormir comigo!

***

Amados leitores, adoro falar. Ter voz é um prazer que não nego jamais, perco a conta das vezes que disse demais. Entendam isso como uma paixão pela conversa fiada, pelo papo no bar do Mosca. Desde que estreei aqui como colunista infernal, não ouvi minha voz, ao invés de falar, fui ouvinte, e ao invés de dizer, contradisse. Ao publicar o conto O corpo amarelo, Rafael Reinehr me permitiu ser dois, o escritor e o especulador.
Minha opinião sobre o conteúdo de O corpo amarelo é totalmente implícita no próprio conto, como autor, me reservo ao direito de amar tudo o que escrevo. Falarei sobre a forma, a abordagem e a cor do deserto.
Não temos tempo para preliminares, a linguagem tem de ser rápida, o conto não tem espaço para o antes, é do meio para depois. Considero a pior postura literária a de querer deixar tudo em pratos limpos. Usei muitas associações metafóricas, como: o bruxo das areias, vida dourada, multidão amarela e vermes do vento, construções essas que julgo remeterem a qualquer aspecto/atmosfera árabe, familiarizando o ambiente para um clima mais intimista. Essas construções não precisam ser lógicas, pois já são árabes. Bati forte o amarelo para a poeira subir e tentar passar um clima sujo e pobre. Os animais inseridos serviram para isso.
Bom, não sei se alguém identificou essas loucuras que tentei traduzir dos sentimentos do escrever, mas sinceramente é o que sinto. Pretensões ao lado, sou um tentante e não pretendo desistir!

***

Não sei se por viver com a poeta, mas não consigo ler os poemas d’ella sem pensar na boca, no falado. Os poemas d’ella são extremamente falantes, e sozinhos dela, conseguem ter algo próprio que ignora as vontades. Muitas vezes um poema d’ella foge e perde o controle, diz coisas que ninguém quer ouvir... Tampouco ella. Nós e eu tem uma carga calma e retilínea, mantém as freqüências poéticas equalizadas no nível do a sangue frio. É muito evidente que a última palavra destoa completamente do resto, não pela rima (que é perfeita), nem pelo senso (que é o que transborda nas poesias d’ella), mas pelo gesto, a palavra surda vem como um tapa a contragosto no meio da cara, daqueles que são dados como lição. Um dia eu aprendo.

***

Na primeira lida rápida, confesso que não entendi bulhufas dos poemas do Alessandro, sumiram as palavras que completariam o senso. Escrevi toda a coluna e deixei essa por último para facilitar as coisas. Uma segunda lida e só consegui captar um pouco de alguma coisa, uma parte d alguma réstia, fiquei meio na metade, incompreendido pelo poema duplo. A respiração e a dialética me fizeram entender que os erros de pontuação me enganaram, na terceira lida compreendi os fonemas e as falsas gramáticas, entendi a despretensão comentada, e pude ver com meus próprios olhos as boas formas de um poeta em expansão, decidido a mudar, ou simplesmente mudado pelo tédio. O escritor não sabe fazer outra coisa.

***

Eis a minha visão e seu limite: sei tão pouco que sou capaz de me surpreender. Eduardo Sabbi, que sempre foi uma das peças básicas do tabuleiro simples, pausa o marcador, mas não passa a vez. É difícil saber o que se passa na vida de alguém, principalmente quando esse alguém é uma outra pessoa. Sabbi, xeque... eu espero.

***

De acordo com o texto de Luiz Maia, o homem é carente e sem fundo, quando na verdade, o homem precisa deixar isso pra trás, acredito que a não cultivação de certos aspectos sociais é a causa da evolução. Quanto mais dissermos: o homem é insatisfeito, mais engessamos a natureza e nos mantemos presos a esses conceitos, cabe ao homem esquecer o que há de mal e deixar a natureza fazer o seu trabalho, pois se tem uma coisa que o homem saber ser: é ser mutante.

***

Descubra-se! Queime o manto em nome do santo e poeta Neves, que por oficio digníssimo de poema claro deveria ser chamado Fogo! Perco a conta de tantos lidos e queimados, inquisidores da inconstância traçam um padrão de beleza lírica, de poeta Sara.

***

Marcos Claudino conta a história num flash, um texto perfeito para ser publicado na internet, mas não falarei sobre isso. O pivete se dá bem, putas boazinhas, um sujeito tresloucado, pontos da cidade, fuscas e chevetes, minhocão. Bundas e granas, pacotes-embrulho... Marcos Fonseca, Rubem Claudino, pátria sarjeta, eu adoro isso!!!

Línques relacionados:
puta / karma / cox / coma
 

Comente este texto - 06 leitores comentaram.

subir


O Simplicíssimo está concorrendo ao melhor site de Arte e Cultura no Prêmio Ibest!

Não deixe de ir votar e ajudar o Simplicíssimo a ir para a segunda fase desta honrosa peleia!

Clica no bagulho aí embaixo e manda ver vivente!

Agora você pode comprar seus livros preferidos aqui mesmo pelo Simplicíssimo e, ainda por cima, ajudar a manter o site funcionando!

Compra através do banner aí embaixo que estarás doando 4% do valor de suas compras ao Simplicíssimo!

Pegue o banner
do Simplicíssimo
e divulgue em seu
sítio ou blógue!


Línque para
http://www.simplicissimo.com.br
e depois nos avise!

 


Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

Copyright © 2003-2009 - Rafael Luiz Reinehr - Todos os direitos reservados.
Sinta-se à vontade para reproduzir os textos do site, mas não esqueça de citar a fonte e o autor.