Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade defecatoriamente sazonal e constipada


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Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Tico

"Essa criança tinha hérnia abdominal... usa uma sandália havaiana azul e branca até hoje. Só que a vez que eu engrossei com ela para dar banho na criança... Deve ser do mesmo pai da Angélica... eu achei eles completamente loucos... ela sentada naquela escada... e ela puxou o guri pelo tico... ela tu nota que ela tem um distúrbio... é bem animal o troço.. um dia tava olhando lá do consultório.. tinha uma cachorra que tinha dado cria... ficaram ali num, né aí ele se assustou e ficou do lado dela... e já tá com 5 anos... tinha que tirar essa criança dela... depois arranca...é brabo... um cheiro de fumaça, parece que eles dormem do lado do fogão, do fogão a lenha... tu imagina ela ganhando esse guri... uma vez ela veio me dar um beijo.. ela e a mãe dela..."

O que acabaram de ler aí em cima nada mais é do que um exercício de livre ouvir e redigir. Como funciona?

Pegue um pedaço de papel ou qualquer outra superfície na qual possas escrever assim como um objeto com o qual possas registrar, como caneta, lápis & afins.

Sente-se (é mais confortável sentado) em algum lugar que possas ouvir a conversa de alguém que não tem a mínima idéia do que você está fazendo ali (tente não interferir com o que está acontecendo na cena).

Comece a registrar tudo que escutar da forma mais rápida possível. No momento em que sua memória esquecer do que havia sido dito ou acabar o que você estiver conseguindo ouvir e registrar, vá passando adiante e registre o máximo que puder do diálogo.

Podem ser duas, três ou mais pessoas falando (quanto mais pessoas mais difícil é o exercício) ou até mesmo um monólogo (encaminhe o sujeito a um psiquiatra, em não se tratando de um ator ensaiando para uma peça de teatro).

Experimente.

Rafael Luiz Reinehr

 

Digníssimos Simplileitores. Uma notificação: anunciamos nas últimas semanas que estaríamos realizando uma Campanha de Natal para angariar brinquedos para crianças carentes no mês de dezembro. Infelizmente, gostaria de pedir desculpas às crianças mas o site não mais realizará a Campanha de Natal, por absoluta falta de tempo da Equipe de Marketing e Desenvolvimento de Campanhas. Como nossos Simplileitores não estão realizando compras no site da Cultura, não há como pagar o abono de Natal para nossa Equipe e a mesma está fazendo uns bicos extras no Pólo Norte auxiliando o Papai Noel e os duendes a encaixotar os presentes. Quem sabe não realizamos uma campanha "fora de estação" logo mais adiante???

De qualquer forma, como diz uma canção gaudéria, aqui mesmo dos pampas gaúchos:"Não podemos se entregá pros hôme de jeito nenhum, amigo e companheiro; não tá morto quem luta e quem peleia, pois essa é a marca do campeiro".

E que tal mais uma citação?

"Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.."
Samuel Beckett, em "Textos para Nada"

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Samsas
Gabriel Mingo Silveira

Tendo encontrado o amarelo ao sol e o azul ao céu, só lhe faltava o rubro para começar o dia na tonalidade que bem entendesse. Por isso, na esquina da XV com a Júlio, pegou à direita, buscando a padaria que adorava nos fundos da galeria Oscar Niemeyer. "A arquitetura não faz por merecer o nome", pensou. E não fazia mesmo. Era uma destas pequenas galerias que tentam renovar suas faixadas quebrando todo o uniformitarismo e o balanço que o design da metade do século passado prezava tanto. Em passos lentamente medidos chegou até a porta da pequena Padaria Kafka. Este nome, que a tantos já seria razão suficiente para tornarem-se clientes do lugar, a ele nada importava. "Que porra de nome é esse?", foi o que pensou na primeira vez que viu aquela faixada mal pintada em estilo construtivista, coisa que também desconhecia. Mas o que importava realmente para o nosso herói era que ali, naquele café, naquela manhã em que buscava o rubro para completar-lhe a trama colorida, naquela vertente em que despejava sua força decorrente da madrugada silenciosamente bem dormida, veria a deusa que havia transformado suas duas últimas semanas em sonhos constantes de fervor apaixonado; haviam feito do homem cético e frio que sempre fora, um Dom Quixote de carteirinha e militância. No trabalho, restava a ele passar os dias contemplando a janela que lhe mostrava as ruas cheias de sonhadores e céticos, pessoas como ele é e como ele fora. Entrou no café sentindo o piso de lajota vermelha levemente úmido sob seus pés. Olhou o relógio grande e de design moderno atrás dos atendentes no balcão: 7h47, faltando, exatamente como ele prevera, três minutos para que ela viesse buscar seu café levemente mentolado e sem açúcar, os três pequenos biscoitinhos amanteigados, sem esquecer os dois guardanapos dobrados como leques e a bala 7 belos, certamente para tirar o sabor forte que o café deixa na boca dos melancólicos viciados na soturna rotina de cafeinar-se todas as manhãs. Ele sentou-se à mesa do fundo, escondeu-se atrás da fumaça de um cigarro e pôs-se a fitar o relógio que ainda encontrava-se no mesmo lugar mas que olhava-o de um modo diferente, mais nervoso. Colocou o açucareiro para o meio da mesa, como se precisasse de mais um esconderijo. Seus dedos ficaram adoçados, seu olhar também. 7h50. Ele hesitou em sua respiração. Da porta, um vento cheiroso e ludibriante entrou sem esquivar-se à beleza de Picasso e Dali que sentavam, à altura do olho dos mortais, nas paredes de gelo. Gelou a alma. Imagine, prezado leitor, tamanha a muralha de admiração que pode um homem construir, tendo como inspiração somente o superficial de uma mulher explicitamente linda, como a seguir iremos especificar, mas sem ter, ainda, conhecimento de toda a profundidade intelectual e moral que poderiam habitar sob os negros cabelos que lhe brotavam maciamente da cabeça; sem saber, ainda, do puro e adorável coração que o busto, engrandecido pelo grande decote, escondia roubando-lhe a atenção. Nosso herói quase faleceu passionalmente quando ela adentrou o ambiente com suas longas e fortes pernas, a meia-calça valorizando-lhe as formas, a saia valorizando-lhe as nádegas, o delicado cinto valorizando-lhe a mínima cintura, tudo ali era valorizável. Ela postou-se à frente do balcão enquanto ele a seguia harmonicamente com seus olhos arrogantes em desejo. Convenhamos que a tentação que o momento lhe rogava não era das pequenas, ao contrário, era quase surreal. Um momento de tal forma descrito por nosso amigo em seu ambiente de trabalho que, se ele dispende-se algum segundo de sua atenção para algo que não fosse sua Deusa, veria dois ou três novos adeptos frutos de sua apaixonada explanação. Ela virou-se deslizando suavemente o sapato preto, já com seu pedido em mãos, e tomou o caminho da porta. Ele, literalmente um boca-aberta, ousou levantar o traseiro da cadeira como se buscasse segui-la. Faltava-lhe coragem. Depois correu até a porta e fitou-a até que ela parasse na entrada da galeria com seu porte forte e magnífico de rainha absoluta, olhasse para ambos os lados e saísse carregando toda aquela carga sensual que lhe derivava do corpo esbelto. Olhou novamente para o relógio, 7h54. Entrou, tomou o pequeno copo de água que ainda o esperava sobre a mesa e recostou-se na cadeira como se uma ressaca nervosa o invadisse. Então levantou-se, deixou duas ou três moedas sobre o balcão, pensou no trabalho e no inferno que lhe esperava naquele escritório abafado e cheio de vermes prepotentes. Depois saiu com passos rápidos pela porta e foi seguido por seus colegas até entrarem novamente, hesitantes e medrosos, na realidade cruel.

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Hematopoético
Cláudia Sleman (Rahna)

Espremo versos
E rimas...
E sonhos...
Entre meus dedos hirtos
E disformes
E tudo o que brota
É este sangue espesso
Com o qual tinjo
Todas os muros
Que me cercam...
Todos os rostos
Que me fitam...
Todo o dia
Que me envolve...
Todas as flores
Pelo chão...
Tudo se torna rubro, então:
Os versos...
As rimas...
Os sonhos...

(- E este ar quase irrespirável...)

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Elipses

Nesta semana que passou li dois romances que, coincidentemente, têm na narrativa circular o ponto em comum. São duas obras em que os narradores apostam nos fatos que lhe vêm a memória, ainda que não com absoluta precisão, como é comum nas lembranças que afloram em detalhes desordenados e acabam resultando na criação de um tela de cenas do passado não passível de total confiança. Por isso as narrativas se tornam circulares, elípticas. Sem qualquer pudor em contar as memórias de um passado não muito claro, os narradores acabam retornando muitas vezes à narrativa de um mesmo fato para tentar jogar mais luz sobre ele. Este é, aliás, o exercício ao qual os narradores se propõem: voltar sua memória quantas vezes forem necessárias às lembranças não-precisas a fim de extrair o máximo possível de detalhes destituído de emoções, de vislumbres irregulares que as primeiras análises lhes tinham oferecidos. Assim funciona em “Dois Irmãos”, de Miltom Hatoum, bem como em “Música Anterior”, de Michel Laub.

Em “Dois Irmãos”, Hatoum nos apresenta os dramas já tradicionais da casa que se desfaz. Da mesma maneira que Machado de Assis em “Esaú e Jacó” – que, aliás, Milton Hatoum em oficina ministrada em Parati a qual fui seu aluno, confessou ter utilizado-o como “romance base” –, o autor centra seu drama na história de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, descendentes de imigrantes libaneses, desde a infância irreconciliáveis, cujo ódio aumenta conforme os irmãos crescem em idade e se distanciam em ideais. Conforme o narrador faz uso de sua memória para contar as relações dos dois com a mãe, o pai e a irmã, novas luzes vão sendo lançadas sobre a narrativa, descobrindo-se lances que, ou não foram analisados em profundidade primeiramente, ou se mostravam modificados pelo viés emocional com que vinham carregados – ou por descrição de terceiros ou por uma observação comprometida do próprio narrador.

O romance cobre um período que vai da década de 20 até os anos 60, em uma Manaus que vai se modernizando, progredindo social e tecnologicamente, ao passo em que a família vai se desintegrando, caminhando vagarosa e indelevelmente para uma decadência moral que não encontra caminho de retorno, tal qual é impossível estancar o progresso que toma conta da cidade amazonense. Tal jogo de contradições se mostra uma boa maneira de contar o drama que toma conta das vidas dos gêmeos, mais Rânia, sua irmã, e os pais, Halim e Zana.

O narrador, muito próximo a família, narra todo o drama familiar buscando, na realidade, a identidade de seu pai entre os homens da casa. Por isso a sua narrativa em verdade se mostra como uma busca, um exercício de reconstituição do passado que não será possível sem uma observação criteriosa e de julgamento daquela família cujas características parecem sob encomenda para uma vida repleta de percalços no sofrimento e na angústia. Assim, o narrador nos apresenta sem hesitar, ainda que os personagens existam para nós sob o viés comprometido do seu olhar amargurado, os protagonistas de tal drama familiar: Halim, um pai omisso desde o princípio, apaixonado pela mulher Zana, de quem não queria filhos para viver em plenitude uma paixão que o atormenta e lhe faz odiar o filho Omar, o gêmeo mimado doentiamente pela mãe e entregue somente aos folguedos, a uma vida desmesurada de prazer e irresponsabilidades, e que se mostra cada vez mais capaz de atrocidades e crises ilimitadas de ciúmes e egoísmo para com o irmão Yaqub, introvertido e passivo, relegado pela mãe por não ter nascido tão “fraco e necessitado de tantos cuidados” quanto seu irmão, mas que se mostra o único a alçar vôos tão altos quanto o progresso que se instala em Manaus, mas que, para Yaqub mostra o caminho ao se ver livre da família e rumar para São Paulo, tentando se livrar das amarras de ódio que o prendem a Omar. Tentando atar estes nós, fingindo não ver o quanto são irreconciliáveis, está a filha caçula, Rânia, cuja relação amorosa com os irmãos se apresenta em um crescendo de estranheza que nos aponta o incesto, antes da total reclusão e negação a quaisquer pretendentes, vendo somente os irmãos, juntos, como partes separadas de um “homem ideal”. Desta maneira, Rânia se equipara a personagem Flora Batista de “Esaú e Jacó”. No entanto aqui, Rânia não é o objeto de disputa amorosa dos dois irmãos, como Flora é no livro de Machado. É só que, da mesma maneira que Flora, Rânia por vezes parece delirar que os gêmeos se fundam em uma única pessoa, como se um sem o outro não faça sentido.

A outra personagem é Domingas, a empregada da casa, menina índia que não pôde fazer escolhas e cresce naquele cenário agregando-se a família, sem outro destino que não envolver-se por eles.

Quando o romance de Hatoum se faz tão cheio de dramas, de desavenças, de carnalidade, tal qual o narrador nos demonstra, é no não-dito que parece repousar a verdade, as razões que fizeram a família caminhar para tal degradação; é no não-dito que se apega o narrador a fim de centrar-se na casa, uma vez tão corroído por dúvida e por amargura, para encontrar-se ele mesmo, confiando somente em sua memória para buscar a verdade onde ela não parece querer ser encontrada.

Da mesma maneira que o romance de Hatoum, “Música Anterior”, de Michel Laub se concentra mais sobre o não-dito, sobre aquilo o que as lacunas insinuam para contar a sua história. Da mesma forma, o narrador tem consciência da falibilidade da memória, por isso são muitas as voltas, são recorrentes os regressos às cenas que a memória alude com certa dificuldade e as quais é preciso debruçar-se para conseguir algum resultado favorável. Assim, o romance de Laub é todo com um exercício narrativo em que não se tem uma história linear pronta, infalível; desconfia-se do que é dito uma primeira vez, olha-se com atenção uma segunda retomada do narrador, repara-se nas vírgulas, nos tempos verbais hesitantes, nos titubeios. Tudo faz parte do jogo não apresentado, na dificuldade do narrador-protagonista em contar sobre a descoberta da sua esterilidade, do fim de planos tão certos deste narrador que é juiz, junto com a mulher, uma advogada, dos dois que imaginavam um futuro que se mostrava tão seguro, tão concreto. Talvez tanto quanto o do irmão mais moço, um endocrinologista, casado com uma mulher baixinha (secretamente chamada pelo juiz-narrador de Dona Pequeninha), com um sobrinho que, se pelo gosto do pai também deveria se tornar médico escolhe tornar-se odontologista.

A história de Laub é elíptica. Vai e vem para nos contar da infância, do irmão que nasce quando a mãe morre, do levar o irmão ao puteiro, da curiosidade com o que aconteceu lá. E é clara para nos contar que o juiz condenou o personagem Luciano – que passou a infância sendo assombrado por um homem a quem chama O Louro – por estupro de uma criança em uma festa de aniversário, e demora, mas nos conta, da escassez de provas comprobatórias, da dúvida, de uma infância perturbada de Luciano, de problemas pessoais que podem ter comprometido o veredicto do juiz.

Na trama de Laub, silêncios, brechas e acelerações são vitais para criar camadas adicionais à leitura – que não querem nos confundir, no entanto, pois o narrador nos faz cúmplices na sua dificuldade de organizar as memórias, em dar significado à elas. O que somos é acompanhantes de seus volteios, de sua busca de importância nos silêncios e nos instantes – que pareciam – menos importantes. Por isso as vírgulas em demasia, os detalhes das dificuldades para chegar a juiz na capital, depois de passar por muitas cidades do interior. Aquilo o que parece menos necessário vem em uma fôlego só: “Saí e passei novamente na recepção. Tinha deixado a carteira de identidade para que a recepcionista preenchesse uma ficha e ganhasse tempo. Meu plano de saúde cobre exames, todo mês eu pago o carnê, antes eu ia até o banco e fazia isso, agora uso o computador, imprimo o recibo em casa, junto-o a uma pasta onde guardo documentos importantes”. É preciso falar a respeito, mas não estender-se em demasia sobre estes detalhes. Quem sabe eles acabam revelando os passos que acabaram conduzindo o protagonista até a comarca da capital? De criança que não tinha mais o pai para contar a história, que começou a alterar os finais conforme lhe parecia mais conveniente, talvez para chegar à figura do homem que julga – na obra de Laub são todos movimentos que psicologicamente influenciam na formação do narrador, dando-lhe a vida hesitante, não-pronta, trazendo-o a um mundo muito humano nos seus relacionamentos e frustrações.

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Parafernália
Ibbas Filho

A linha

Péricles Raimundo, estudioso e detalhista como só vendo, não pôde deixar de realizar mais uma minuciosa pesquisa antes de ir, pela enésima vez, a um psiquiatra. Suas tentativas anteriores não o haviam frustrado, pelo contrário, reforçavam sua certeza de quão difícil de ser compreendido ele era, o que tomava como seu troféu particular.

A indicação desta vez foi de um amigo da campanha. Aquele com quem brincara enredado nos novelos vivos de lá durante muito tempo de sua infância, juventude e ... opa ... nos dias de hoje também. Sabe como são as paixões antigas, vem e vão, vão e vem.

Abotoou sua camisa branca de colarinho impecavelmente engomado, bateu três vezes na madeira do móvel da cozinha (tinha que ser lá) com o indicador direito (tinha que ser com esse) e partiu em direção ao consultório, desviando as frestas desenhadas naturalmente na calçada pela conformação das pedras.

Na sala de espera, tocou a campainha e estendeu seu lenço branco na poltrona antes de sentar-se. “Nunca se sabe quem sentou aqui antes”, pensou. Não demorou muito para um homem abrir a porta. Estranhou a bombacha e a alpargata. Realmente nada convencional. Estava aí algo de novo, pensou.

Ao lado do divã coberto por um pelego maleado, a térmica, cuia e bomba denunciavam o chimarrão. Detestava essas coisas que passam de mão em mão. Impossível não ter o pensamento remetido ao folclórico Analista de Bagé, dos contos de Luís Fernando Veríssimo. “Seria o próprio?”

_ Já vi que tu gosta de um mate. (diz o doutor na tentativa de quebrar o gelo, batendo-lhe forte às costas). Pois fica à vontade e te abanca!
Nem precisava dizer. O tapa nas costas fora tão forte e o pegou de forma tão desprevenida que subitamente viu-se confortado pelos carrapatos do pelego malhado.
_ Mas e daí, desembucha!
Ainda meio tonto, resolveu ir direto ao assunto:
_ Qual a sua linha doutor?
_ Mas que linha vivente, eu lá tenho cara de vovó tricoteira?
_ Não doutor, a linha, como se comunica ...
_ Ah sim, linha telefônica. Tenho celular também, mas é só pra nêga veia e pros guri lá de casa.
_ Não doutor, linha, entende? Preciso saber da sua opção.
_ Não me venha com frescuras, sou é macho. E se não gostou, a porteira de saída é a mesma da entrada.
_ Eu me refiro à sua corrente, é importante para eu ver se vou me ajustar.
_ Putz, mais um fresco sadomazoquista! Olha aqui ô cidadão, (disse o doutor apontando para um dos cantos da sala) aquele relho é enfeite, mas não te empolga que ele ta loco pra ser inaugurado.
_ O que quero saber é se você segue Freud, Young, Lacan, Winicot, Bion ...
(interrompeu-lhe abruptamente o doutor)
_ Pêra lá! E eu lá sou de seguir homem por aí? (batendo as esporas de brabo)
_ Ah, então você prefere a Melanie!
_ Hmmm, buenas isso depende. (recostando-se novamente na poltrona finamente decorada com uma sela). Como é essa prenda?
_ Não doutor você não está me entendendo. Minha dúvida é sobre sua linha, sua posição ...
_ Nunca fui muito do futebol. Mas no GFC (essa era a abreviação de Guasca Futebol Clube, ainda na época da peleia com bucho de boi) ia pela linha lateral até a linha de fundo. Mas também fazíamos a linha de impedimento ...
_ Vou tentar de outra forma: você é ortodoxo?
_ Católico apostólico romano. Praticante. Todo domingo tô lá no padre Alfredo. Duas óstias por missa pra garantir a benção.
_ Não é a esta linha que me refiro ... Você é biológico ou psicológico?
Era a gota d’água. Sem mais compostura, o doutor perdeu definitivamente a linha (ainda não sabemos qual), arremessando Péricles porta afora, acompanhado de tantos impropérios quanto seu vocabulário alcançava.
E voltando ao consultório, vestiu o lenço chimango no pescoço e colocou seu chapéu de couro legítimo enquanto servia aquele mate ardente falando consigo mesmo:
_ Cada maluco que aparece. Não sei como o patrão agüenta. Ainda bem que amanhã ele já tá de volta ...

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I-racional
Pedro Armando Furtado Volkmann
 

De Ré Na Contra-Mão

Violentos Haikais 23/23

Mendigos usavam
armas de brinquedo
que medo.

Faroeste 10/10

Mil vezes 10
és como és
alguém como você

Josiclelson

Pessoal, o Josiclelson vai nascer dentro de poucas semanas. Assim, quando tiver mais notícias dele, voltarei ao meu habitual espaço no Simplicíssimo.

Muito obrigado simplileitores, ficarei com muitas saudades de vocês e de seus comentários.

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Utopias
Luiz Maia

Nostalgia

As pessoas, quando se sentem nostálgicas, estão expressando gratidão a um instante divino, a um momento findo de um tempo que passou.
Alguém certamente já sentiu saudade do primeiro amor, da adolescência, de uma música romântica que acalentou o coração, das brincadeiras do tempo de criança.
Enfim, saudade de um tempo que deixou eternas e boas recordações.

Ser nostálgico é ser reverente à vida. E ser agradecido a Deus por sua existência;
é ser contemplativo a uma época importante em sua vida.
Momentos que ficaram marcados no passado daquele que não nega seu valor e significado na própria
condução de seu destino.

Nostalgia é instante maior na alma do poeta que sonha transformar
o futuro no passado ameno por ele vivido.
É quimera de quem sonha em viver o amanhã como se fora seus anos áureos, já longe adormecidos.

A nostalgia consegue trazer à mente até os momentos sofridos de pura dor e solidão
sentidos por alguém num remoto passado.
Quando há nostalgia para valer,
todos dariam a vida para retomarem aquela conversa interrompida, aquele namoro fogoso, aquele beijo lembrado, aqueles dias em que tudo era festa e até a dor sentida
tinha, no carinho da mulher amada ou do companheiro querido, a recompensa esperada.

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Como saberia?

Ouvindo o saudoso poeta Raul Seixas cantar a música “How could I know?” ocorreu-me o seguinte: como saberíamos de tantas coisas se não fossem os mestres e os poetas?
Como teríamos vontade de aprender se não houvessem descoberto tanto?
Como saberíamos que caminho seguir se não houvessem desbravado essa trilha antes?
Nos caminhos que seguimos sempre haverá exemplos de pessoas que o trilharam antes de nós, pioneiros e aperfeiçoadores, estudiosos e curiosos, enfim, centenas de seres interessados pelo mesmo assunto.
Nós constituiremos modelos úteis, ainda que não completamente brilhantes, mas exemplos de coragem ou de fracasso.
Por quê mencionar coragem? Porque é preciso vestir a armadura da coragem para encarar o desconhecido, o caminho escolhido, mesmo que ele seja conhecido de uma grande parcela da humanidade, para nós sempre será novo. Novo por não sabermos inteiramente o que ele nos proporcionará de fato. Podemos escolhê-lo e depois não entendê-lo, não nos sentirmos capazes de continuar, por fim abandoná-lo. O medo do fracasso nos faz abandonar os sonhos antes mesmo de completarmos o caminho, então desistimos. Se soubéssemos do final antes do meio escolheríamos o caminho certo sempre? Não seria justo com os que tentaram primeiro, não seríamos capazes de escolher porque sempre verificaríamos todas as possibilidades antes de nos dedicarmos à alguma de fato pois teríamos o poder de enxergar o desfecho.
Então concluo: o que não nos é permitido saber antes de tentar, persistir e lutar, não nos será mostrado, pois tudo aquilo que nos atrai e fascina, todo o conhecimento que buscamos ter, teremos de ser dignos dele, tanto quanto foram todos os outros antes de nós.
Como saberia? Não sei, apenas continuo buscando.

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Musicalidade de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai

A questão é que nunca gostei de Engenheiros do Hawaii, e assim, seria idiota, incoerente e indie falar que agora gosto, e sempre venerei. Calma lá.

Assim como nunca gostei muito (como fã inveterado que todos são) de Elis Regina, Raul Seixas, ou Legião Urbana. Essas instituições nacionais que me dão coceira.

O Engenheiros era (ou é, não sei bem meu tempo e espaço) a instituição do ruim: todo crítico mala tem de escrever um texto falando mal da banda do senhor Gessinger. E todo crítico mala à décima potência tem de falar mal do crítico que fala mal do Engenheiros do Hawaii.

E qual é a moral nisso tudo? Não sei. Mas eu sei do seguinte: desde que li uma entrevista que Humberto Gessinger concedeu à Revista Zero, de repente não existia mais gente chata falando mal, fãs xiitas babando ovo, comentários de que a banda era um Rush ruim: havia simplesmente um homem, vivido, falando sobre sua vida, sua música.

Ou seja, tudo que aprendemos de sensato ou cabecista ou idiota é aplicado à vida e seus apêndices. E é isso que eu vi dele, respostas sensatas a perguntas idiotas.

Respostas despidas de egocentrismos, ou propaganda de disco, ou panfletagem de que somos felizes e tudo mais. Nada. Tudo despido, como se estivesse conversando com um moleque estranho na rua, ou chupando picolé na esquina da Avenida Paulista olhando os carros passarem.

Depois disso, compreendi as letras e o que a banda se tratava. Em tempo, esqueci definitivamente o que havia aprendido sobre o Engenheiros na minha vida que terceiros haviam me dito, e vi que Gessinger não é chato, ele é humano. um humano um pouco mais coerente e aprofundado que os outros, ainda que de forma simples.

Ora, ler as letras que antes eu achava sacais demais, em base no conhecer da pessoa que as escreveu, é muito mais coerente do que querer posar de intelectual aos quinze anos de idade. O de dar tempo ao tempo: eu gostei mais de Nenhum de Nós antes do que Engenheiros, e sou feliz por isso.

Tudo isso para dizer: "shhhh mãe, eu estou ouvindo Engenheiros!..."

Eu nunca tive um cd do Engenheiros do Hawaii na minha vida. Um comentário simples, sem presunção ou orgulho. Mas eu assisto e vejo tudo que passa pela banda. Por muito tempo, eu gostei muito mais das declarações de Humberto Gessinger do que da banda.

Em letra, eu achava chato. Em música, eu achava chato. Em tralalá, eu achava chato. E antes que me digam que fui nessa onda de "fez acústico, todo mundo gosta", espere lá... na época em que eu não gostava de Engenheiros não significava que não ouvia o que eles faziam.

Vá lá, até gostava de "Números", "Eu Que Não Amo Você", aquela da parabólica... achava lindo demais que Gessinger tinha Os Incríveis como uma banda preferida (assim como eu).

Ouvindo todo o histórico dos Engenheiros até aqui, ignorando termos técnicos, e só filtrando o que meus ouvidos sentem, vejo que em formato acústico MTV (e explicito o MTV, já que a banda já gravou discos acústicos antes), os clássicos ficaram mais palatáveis para ouvidos chatos.

Meus ouvidos chatos. Não suportava os seis minutos daquela música que todo insuportável cabeçal idolatrava como a letra da vida, e achava "O Papa É Pop" o sacrilégio sonoro, onde os instrumentos usados na gravação deveriam ser queimados e nunca mais usados.

Mas agora, os versos dessa canção fazem mais sentido, são mais absorvidos. Os Engenheiros, independente do que a crítica falar, não se vendeu ao fazer o acústico. Eles lançam discos ao vivo periodicamente, e não estão sumidos da mídia. Tem os seus fãs fiéis, que sempre vão estar tentando catequizar seu priminho mais novo, e por isso, a banda nunca morrerá de fome.

Uma das coisas mais difíceis de ser no meio pop, é parecer pop, mas com um aprofundamento e sentimento de minoria certa que irrita a maioria do meio musical. Com o acústico, os Engenheiros do Hawaii conseguiram parte disso.

O vocal da filha de Gessinger em "Pose" é agradável, muito mais do que o moleque sem voz de D2, que tem crítica babando ovos com seu acústico miúdo. "Armas Químicas e Poemas" é uma bela canção inédita, muito mais do que "O Girassol" que, mesmo eu sendo grande fã de Ira!, não aturo. Gravar "Era Um Garoto..." novamente, sendo que a mesma acabou de ser lançada em uma coletânea de bregas pelo Ratinho, é muito bom. Exercício de personalidade: fã que nunca vai parar de ser fã, não importa o que.

E assim no final desse texto, entendo os fãs dessa bendita banda que é o Engenheiros do Hawaii, compreendo a estética, compreendo porque os críticos falam tão mal da banda... acho que, no fundo, todas as bandas pop desejavam ser como o Engenheiros, na teoria prática: banda que grava como quer, o que quer, por uma gravadora que distribui seus trabalhos decentemente, para fãs legais para com a banda, que dificilmente vai ver o fim da linha tão cedo.

O Acústico MTV é agradável, com convidados antigos, que tem algo a ver com a banda, com uma orquestra que faz papel de coadjuvante, e não de toda estrutura pomposa que está sendo adotada pela MTV, e com as canções praticamente peladas.

Sendo isso, entendido, sim, eu ouço agora Engenheiros. Com todos os pontos cumpridos. Não sou aquele fã ferrenho, e nem aquele intelectuóide - que até compreende a banda, mas que iniciou a falar que o faz bem antes de o fazer.

E por isso, espero que todos ouçam esse disco simpático. E dêem valor às coisas, quando estas merecem, independente de suas profundidades mesquinhas e ranhetas.

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Suburbanas
Marcos Claudino

Dezoito toques

Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!

Não, não vou atender... Pode ser que seja ela de novo, me pedindo pra voltar...

Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!

Se ela pensa que desta vez eu vou voltar atrás, está muito enganada...

Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiimmmmmmmmmmmmm...!

Sempre a mesma coisa... Me despreza, me maltrata, depois que eu largo, vem me procurar...

Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!

Nas primeiras vezes, ela ainda vinha aqui em casa, olhava nos meus olhos, me pedia perdão pessoalmente...

Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!

Depois, nem isso... Bastavam os telefonemas, e eu perdoava... Não, isso acabou, isso tem que acabar...

Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!

Sei muito bem viver sozinho... Não nasci grudado a ela. Eu vivia muito bem antes, quando não conhecia seus beijos, seu olhar de desejo, suas costas suando, sua respiração ofegante, seus cabelos no meu peito... Ai, que puta saudade!!!

Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm...!

- Alô!!! Oi mãe... Não, tudo bem... Pensei que fosse outra pessoa... Tudo bem, na correria de sempre... E o papai, melhorou? Manda um beijo pra ele... Tchau!!

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Ombudsman
Bernardo W.K.

Que coisa!

Até agora, nada de texto do Senhro Ombudsman...

Parece que está nas Bahamas, mas só ele mesmo poderá dizer...

Falta número 1!

Línques relacionados:
puta / karma / cox / coma
 

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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