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08/12/2004 - Edição número
105
E quem fiscaliza
o fiscal?
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Editorial
Rafael Luiz Reinehr |
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A Velocidade do Pensamento
Nada temo, não fujo das idéias
Que voam e invadem
Minha mente cansada
Não corro para longe
Pois não adianta fugir
De algo que vai sempre me alcançar:
meu pensamento
As dúvidas das quais fugia
Já não me preocupam
São elas que me inspiram
Me respondem o que quero saber
Da escuridão surge a luz
De um lampejo, o brilho enfim
Um sorriso e a resposta
Ao medo que já não existe
Às vezes encontro estas poesias que
escrevia durante a adolescência e tento relembrar
o que estava a acontecer em minha vida pessoal.
É sempre um bom exercício de
memória.
No caso acima, se estou bem lembrado, o gatilho
para sua confecção foi a perda de um amor
e, em seguida, o surgimento de um novo amor.
Mas, poderia sim - e por que não? -
ser somente um ensaio filosófico acerca da realtividade
de todas as coisas, o pensamento como o mais rápido
dos sentidos humanos concebíveis etecétera
e tal.
Mas e o fim de ano chegando e você aí
parado? Vamos logo ler os outros textos desta edição
de número 105 do Simplicíssimo para depois
tratar de fazer logo a lista de presentes natalinos! Vamos!
Xispa!
Rafael Luiz Reinehr
E que tal mais uma citação?
"Sejam quais forem os sentimentos
e os interesses humanos, o intelecto é, também
ele, uma força. Esta não consegue prevalecer
imediatamente, mas por fim os seus efeitos revelam-se ainda
mais peremptórios. A verdade que mais fere acaba
sempre por ser notada e por se impor, assim que os interesses
que lesa e as emoções que suscita tenham esgotado
a sua virulência."
Sigmund Freud
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Um
Presente
Juliana Robin |
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O Presente é tudo aquilo que o passado
ainda não me tomou. É tudo aquilo que a saudosa
ave do passado ainda não colocou suas garras afiadas
e levou à gaveta onde está escrito "passado"
- em letras caligrafadas. O presente ainda não foi
para a gaveta.
E a gaveta do passado.é saudosa, tem um carinho nostálgico
pelo que guarda e aceita a lembrança que eu quero
lembrar. O que eu não quero lembrar?Fica guardado
numa daquelas gavetas bem do alto. onde não se alcança
direito.ou enfiada entre buraquinhos escondidos da estante.
No instante, imperceptível, em que o agora vira passado,
ele tem um cheiro diferente. Um gosto diferente. Mesmo os
sofrimentos (os que gostei de sofrer) têm esse gosto
doce de passado.gosto de bolinho de vó. E o cheiro?
Têm cheiro de incenso em dia chuvoso, às vezes
têm cheiro de cigarro no outro dia, de fumaça
no cabelo. O presente é tudo aquilo que ainda não
tem cheiro, nem gosto de passado. O presente, não
sei se tem gosto, não sei se tem cheiro.
O presente ainda é vago.e é bom! Mas não
tem, não tem aquela nostalgia comovente, aquela saudade
conformada, aquela beleza.quase melancólica do passado.
Não vem à minha cabeça como frases
de um diário antigo. O presente, está no jornal.e
o passado, o passado só poderia estar no livro.
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Eu sei
O que disse, o que não disse
As mentiras que contei, só eu sei
Eu sei dessa dor que me rasga,
Me transforma em trapos,
Me deixa em pedaços
Eu conheço todos os teus passos,
Ainda caio nos teus laços,
Mas não te pertenço mais
Privada entupida,
Alma perdida,
Te entreguei meu sangue,
Vendi teus jornais.
Só peço de volta meu tempo,
Meu temperamento, e acima de tudo,
Os meus sabiás.
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Subúrbio
Se você não mora por aqui, pode
se incomodar com as dezenas de cachorros que perambulam
por toda a volta. Eles são de todos os tipos possíveis,
todas as raças inclassificáveis, todas as
combinações improváveis, em todas as
cores e tamanhos e aspectos; tomam conta do lugar, caminhando
a esmo, em suas matilhas gigantescas e podem, por vezes,
tornar tudo tão desagradável.
No entanto, se você já é morador destas
bandas, se conhece o lugar como eu conheço, deve
ter se acostumado com a multidão canina a lutar de
maneira selvagem, disputando desesperadamente uma carniça
ou um pedaço de carne encontrado num destes latões
de lixo enormes que têm por aqui, em todas as esquinas,
onde as famílias de negros colocam seus lixos domésticos,
esvaziam sua cota semanal de papel higiênico, cascas
de frutas, sapatos velhos e toda sorte de quinquilharias
– eles são semelhantes àqueles latões
grandes que vemos em filmes passados nos bairros norte-americanos
do Bronx e do Brooklin, que mostram com exagerada freqüência
improváveis negros maltrapilhos em torno do fogo
entoando canções de blues ou protagonizando
perfeitas performances vocais gospel como se fossem
felizes e como se aquilo lhes preenchesse realmente a alma.
Em criança, víamos esta multidão
de cachorros caminhando atrás de uma cadela no cio.
Como que hipnotizados por aquele odor que emanava de suas
entranhas, sinalizando-lhes sua condição de
animal pronto para a cópula, formavam uma aglomeração
gigantesca a perseguir a pobre fêmea. No entanto,
embora fossem quadras e quadras a persegui-la, poucos se
encorajavam a uma investida sexual por cima dela. Quando
um dos pequenos tentava, era repelido pela cadela em seu
comportamento extremamente seletivo. E eram aquelas correrias
de cachorros pelas ruas de areia seca como são sempre
as ruas daqui. Somente quando se aproximava o maior cão,
o mais decidido, aquele que se atrevia a cheirar convenientemente
o ânus da excitada cadelinha antes do bote final,
é que a fêmea se deixava penetrar. E era um
coito muito rápido, o cachorro desferia algumas estocadas
e pretendia seguir o seu rumo, satisfeito. A cachorra não
saciada retinha-lhe, no entanto, ansiando por sua parcela
de prazer não proporcionado. Depois, aquelas cenas
nojentas, os dois cães presos pelas traseiras, a
cachorra não querendo soltar o macho enquanto ele
não a satisfizesse como uma boa cachorra no cio merecia.
Incrivelmente, em nossa perversidade infantil, nos púnhamos
a apedrejá-los, querendo que acabassem com aquele
atrelamento que nos punha cheio de asco. Não adiantava,
não corriam em disparada em sentidos contrários
como esperávamos. Protagonizavam aquelas cenas medonhas,
como carros rebocados. Os cães só se soltavam
quando as mães, cansadas de ver seus filhos presenciarem
aquela putaria os espantava com uma mangueirada d’água.
E o casal era posto para correr. E a cadela, insatisfeita,
seguia o seu rumo. E não, ninguém via a nossa
boa ação. Nossa boa vontade em desatrelar
os rabos daqueles cachorros nojentos, poluindo a visão
da criançada em suas sacanagens pelas ruas. Tentando
impor um pouco de respeito naquele subúrbio. Para
eles, éramos somente uns crioulinhos perversos dados
a maldades. Ainda que nós desde sempre fôssemos
maioria por aqui. Aqueles brancos é que faziam de
conta que não era assim. Diziam que nós perturbávamos
a paz das ruas, que causávamos confusão, que
éramos barulhentos demais. E que complicávamos
suas vidas. Eles que queriam continuar suas vidas azedas
enfiados dentro de suas casas, com medo de sair às
ruas à noite, enquanto nós seríamos
os donos da rua. A rua que sempre foi nossa.
Nós não tínhamos opções
como eles, não tínhamos a televisão
em cores de maior tamanho, o brinquedo que era lançamento,
o lanche no final da tarde, a professora particular a dirimir
as dúvidas que a escola pública plantava.
A nós, eternamente, o resto. A coisa arranjada, mal-ajambrada
que nos cabia sempre. Nossa liberdade absoluta em compor
as coisas a nosso favor, no entanto. Nosso cenário
absolutamente formulado a nosso bel-prazer. Nosso destino
apresentado nas poucas diversões que nos sobravam,
nos facilmente contáveis e pouco atrativos caminhos
que nos restavam. Por isso à noite eram sempre os
postes em frente às escolas, sempre “os crioulos”
– como eles gostavam de encher a boca para falar –
metidos em suas jaquetas e bonés de times de basquete,
botando banca de tal, despertando os olhares das pretinhas
nas escolas noturnas. E sempre a conseqüência
inevitável, os números constantes nas pesquisas
demográficas, as contagens populacionais aumentando
estrondorosamente a cada ano, chamando a atenção
para os filhos que não param de nascer nas zonas
mais pobres.
O que para alguns é burrice, falta de ambição
destes “crioulos burros que tem mais é que
quebrar a cabeça e se embuchar até explodir”,
para nós sempre foi o caminho natural das coisas.
O curto trecho entre as pretinhas seduzidas, os beijos e
agarramentos em frente ao portão que já não
nos são suficientes, o sexo sem maiores preocupações,
os rebentos inevitáveis e um emprego subalterno –
a casa que vai continuar no subúrbio, a família
que vai se formar no subúrbio, os cães que
continuaremos a enxotar no subúrbio, os dias que
nos devorarão no subúrbio.
Houve um tempo em que os negros usavam cabelo black
power. Armavam a coisa com um pente que era chamado
de garfo, pois fazia tornar o penteado o mais simétrico
possível, em sua perfeita esfericidade. E isto acontecia
aos puxões, trazendo o cabelo que se formava em maçarocas
para o que seriam as “paredes”, os limites da
esfera: era para o ar que o cabelo era repuxado, tornando
o poder negro simbolizado por uma esfera capilar que os
enchia de orgulho por sua plenitude e perfeita organização
digna dos mais avançados estudos geométrico-espacial.
Tal penteado era freqüentemente adornado por longas
costeletas que se abriam até debaixo das orelhas,
quase tocando as pontas do inevitável bigode –
outro freqüente recurso que contribuía para
uma imagem pré-concebida, uma noção
mais ou menos igual que todos tinham de si próprio,
portando-se, esteticamente, como esperavam que um negro
se portasse.
Antigamente, todos os negros tinham uma idéia mais
ou menos concebida de até onde deveriam chegar. Era
quase sempre até onde os brancos nos permitiam.
Hoje, dizem que nós já não conhecemos
mais o nosso lugar.
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Eric Fróid
No início tudo parecia mais uma tese de um jovem
talentoso recém-formado e então desacreditado
e semi-desempregado. Mas Eric Fróid tinha idéias
fervilhando pelas suas vastas ramas neuronais. Também
não era de dar muita atenção às
desmotivadoras opiniões alheias, o que talvez explicasse
sua persistência. E foi assim que chegou até
sua mais admirado projeto: o alimento em cápsulas.
Consistente, vitaminado, saudavelmente balanceado nas fibras,
proteínas e tudo mais, demorou muito pouco para ser
comprado pelas grandes multinacionais do ramo alimentício
e então fabricados em grande escala. Não havia
hipermercado ou quitanda que não tivesse trocado
suas prateleiras atrolhadas pelas pílulas saborosas
de Eric Fróid, muito embora os rótulos não
contivesse seu nome. A onda consumista resolvia o problema
do mundo capitalista e criava tempo aos para os mais apressados
incorporarem novas tarefas em suas vidas. Aos poucos os
pratos foram ficando supérfluos e desaparecendo das
mesas dos mais variados restaurantes, o que gerou algum
desconforto na indústria de máquinas de lavar
louça. Já as serviçais tiveram suas
funções ajustadas e passaram a trabalhar até
mais, como sempre acontece nesses casos.
Mas sem dúvida alguma o problema maior foi com a
indústria de medicamentos. Havia quem entrasse na
farmácia achando que era o mercado e vice-versa e
os gordinhos, os compulsivos e mesmo os desatentos passaram
a apresentar sinais de intoxicação medicamentosas
quando trocavam os tabletes da cozinha pelos da farmacinha.
Os pediatras não cansavam de dar conselhos aos pais
e ficavam de cabelo em pé com os casos que atendiam
com freqüência. Boche® e Rayer® moveram
ações contra o alimento encapsulado, mas os
juízes estavam a tal ponto seduzidos pela novidade
que indeferiam de imediato qualquer referência contrária
ao produto. “A se os processos também fossem
em pílulas”, pensavam enquanto folhavam laudas
amareladas pelo tempo em que o processo estava tramitando
sem definições, entre uma pílula alimentícia
e outra que traziam sempre em seus bolsos.
E assim como as empresas de antivírus fazem hoje
com esses espertinhos que criam problemas em nossos computadores,
Boche® e Rayer® contrataram ninguém menos
do que Eric Fróid para resolver o impasse. Não
havia como ter tomado atitude mais certeira. Recluso ao
seu gabinete por semanas, trabalhou com a luz do sol dia
e noite graças aos seus inventos no campo da energia
e entupindo-se com suas pílulas. Cultivou arduamente
suas olheiras e quase explodiu de felicidade com seus promissores
resultados, tirando da cama os donos dos laboratórios
numa reunião emergencial para a revelação
surpreendente à mesa de jantar (e agora de negócios):
“A solução para o nosso problema ...”
- enfatizou aos seus atentos patrocinadores – “acaba
de ser criada ...”. A batida da seqüência
de duas palmas, era o sinal para Walter Fredo, o garçom,
entrar com sua bandeja e servir um suculento prato à
mesa. O sorriso no rosto de Eric Fróid parecia uma
pintura de tão imóvel que se apresentava,
enquanto os chefões aguardavam curiosos pela tão
esperada solução. O silencia foi ficando constrangedor,
menos para o cientista, que mantinha-se com a mesma máscara
risonha. Depois de gastar alguma mínima energia pensando
em como tais criaturas chegaram ao topo de suas empresas,
foi explicando o óbvio. “A resposta para a
comida que virou remédio, senhores, nada mais é
do que o remédio que virou comida!”.
As farmácias ganharam mesas, pratos e máquinas
de lavar (para alegria da Erastemp® e da Bletrolux®),
os médicos saudaram a redução na prática
da auto-medicação demonstrada pelas pesquisas
publicadas nas principais revistas científicas, bem
como a alta na taxa de aderência aos tratamentos.
Pacientes lanchavam seus tratamentos de 6 em 6, 8 em 8,
12 em 12 horas ou como fosse prescrito pelo seu médico.
Os remédios tinham cheiro e sabor jamais vistos antes
e o faturamento da suas multinacionais triplicou. Ah sim,
Eric Fróid, como todo cientista famoso, foi reconhecido
muito tempo depois de sua morte, resultado de uma intoxicação
medicamentosa quando se enganou em suas invenções
e exagerou num calmante de quindim.
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Bacantes
Literárias
Gilson Giuberti Filho |
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Um conto hollywoodiano
Descia do andar superior da cobertura de seu namorado –
tinha ido retocar a maquiagem. Havia uma festa naquela noite:
ele comemorava a compra de uma empresa em Hong-Kong.
A escada fazia uma elipse, lateral à parede do hall
de entrada, que se abria para o imenso salão de festas.
Por um instante percebeu que o lustre de cristal bacarat combinava
com a atmosfera do apartamento naquela noite. Caminhou até
a varanda para vislumbrar a eterna vista para o Central Park.
Estava deslumbrante: havia comprado um Chanel apenas para
estar à altura do sucesso do homem que sonhava dividir
sua mansão em Long Island; em poder passear tranqüilamente
com ele por aquelas praias mergulhadas em constante paisagem
invernal.
Serve-se de uma taça de champanhe e procura por ele
perscrutando o salão – nada...Começa a
caminhar por outros aposentos...Em vão.
De repente encontra-se à frente da porta da biblioteca.
Sem entender, seu coração bate mais forte. Empunha
a fechadura de bronze e a gira lentamente. Sussurros...
Eis que o vê com as calças ao tornozelo cavalgando
sua amiga, com o vestido de brocado prateado até a
cintura. Choca-se. Ambos permanecem paralisados ante o olhar
dela. A taça cai, despedaçando-se num ruído
abafado pelo ambiente.
- Meu amor, por favor, vamos conversar...
Corre em desabalada carreira em direção à
escada, sobe os três andares em direção
ao heliponto. Seu helicóptero aguardava.
Adentra a cabine:
- Mike...Long Island!
A nave levanta vôo ao mesmo tempo em que ele, com o
black tie em desalinho, acena em desespero tentando brecar-lhe
o intento de fuga.
O helicóptero mergulha por entre os corredores de gigantescos
arranha-céus - feéricos naquela noite de outono.
Lentamente ganha o cume do Empire State. Abaixo apenas luzes
e movimentos surdos de carros entulhando a 7ª avenida
numa faixa incandescente de cores.
Encosta a fronte na janela tocando com a mão, de leve,
o vidro. As lágrimas escorrem sobre a pele lívida.
Soluça. Mergulhada na escuridão da noite encimando
um tapete de luz, energia e vida, ela se sente só...
Minutos se passam; dor.
De longe começa a avistar, do chão, movimentos
frenéticos de lanternas vermelhas – sua casa.
Aporta. Desce da nave. O Lincoln já a aguardava de
porta aberta – está a quinhentos metros de casa.
Já não chora mais; apática mergulha em
depressão. Aquela seria a última noite de sua
vida...
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Felicidade
O ser humano tem a felicidade como meta
de vida e aspiração maior. O conceito de felicidade
é muito relativo, variando de pessoa para pessoa.
Há quem pense que ser feliz é ter muito dinheiro,
saúde e paz.
Alguns desejam todos esses ingredientes juntos, outros são
menos exigentes.
Quase ninguém se contenta em ter apenas saúde,
muito menos se lembra de citar o amor e a amizade como símbolos
de verdadeira felicidade.
O filósofo francês André Comte-Sponville
dizia que "estamos separados da felicidade pela própria
esperança que a busca".
Isso implica dizer que imaginamos a felicidade como algo
platônico, talvez inatingível.
Então nos acostumamos a buscá-la aleatoriamente,
nos esquecendo de vivê-la plenamente ao ignorarmos
sua presença tão perto de nós.
É sábio quem vive a felicidade real, por
mais simples e pequena que seja, e não se encanta
com promessas de felicidades outras que viriam pelas asas
da imaginação.
A felicidade não é uma estação
mas o próprio caminho que percorremos durante toda
a nossa existência.
A forma ideal de traduzi-la é sentindo-a a cada amanhecer
em sua vida.
Alguém que valoriza as pequenas conquistas, que se
farta com o pouco do todo possível, que vê
na dádiva da vida um bênção para
si, é uma pessoa que faz a felicidade ser uma constante
no seu dia-a-dia.
Devemos ter consciência de que podemos ser felizes,
desde que procuremos a felicidade no lugar certo.
Se pudéssemos perceber que o reino da felicidade
reside em nós, nos sentiríamos alegres e felizes
no mais das vezes.
Cabe a cada um de nós efetivar a felicidade que podemos
vivenciar, atribuindo felicidade à alegria de estarmos
vivos.
A felicidade pode residir nas coisas mais simples da vida.
Ela vive no coração dos mansos, dos humildes,
independente de serem pobres ou ricos.
Vive no peito daquele que tem o hábito de presentear
com flores, quem costuma fazer do sorriso seu cartão
de visitas.
Sejamos responsáveis pelo nosso próprio viver,
impondo sempre às nossas ações um mínimo
de dignidade que permita nos sentirmos inteiros e felizes.
Tudo que é feito com respeito a si e ao próximo
eleva e engrandece quem o faz.
E o torna feliz!
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Céu
O céu azul me deprime.
Ele está tão lindo, tão sublime.
Não se importa com os meus problemas, com os meus
anseios.
Até poucos dias atrás me inspirava,
me fortalecia.
Sua grandeza me abraçava.
Agora é como se ele me soltasse no ar, me deixando
vagar sem rumo.
O céu me diz que está na hora
de voltar ao meu lugar,
Andar devagarzinho e sempre.
Aqui na terra ficar.
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Musicalidade
de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
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De vez em quando eu pego as demos e raridades
que o Roberto
Panarotto me mandou, felicíssimo e cuspindo gramática
mesmo, e me emociono.
Sempre por aí eu trombo com esse ou
aquele diplomata da música, que teoriza sobre as
maravilhas dos compassos e habilidades gaúchas. Eu
mesmo já fiz isso, muito. Mas passou para uma fase
que não há, não existe mais nada para
falar, realmente. É fazer sentar a pessoa que você
falaria sobre, e dizer: "ouve isso, que lindo".
Nas épocas em que eu nem pensava que
ia ouvir algum dia trabalhos do Marcelo Birck, encontrei
o "Em Amplitude Modulada" no soulseek, coisa de
entidade superior. E de repente, estou ouvindo as demos
desse álbum abençoado.
Birck e Leandro Blessmann (o Benga), dois
únicos seres que me emocionam tocando apenas uma
guitarra-base, e cantando. Não sei se todo mundo
encara a música como produto, coisa para dar uns
tapas nas orelhas, mas é meio que orgânico.
Musicalmente, esses caras já são
canonizados no meu inconsciente. Se um dia eu tiver filhos,
eles vão sentar e o velho deles vai dizer que ouviu
isso na vida,e que acha genial. Até lá, espero
que essas merdas de hypes e tralalás já tenham
acabado, e meus pirralhos dêem ouvido, como eu não
dei aos meus pais quando falavam que ouviam jovem guarda,
e eu dei uma piaba e uma risada (claro, para vomitar no
cuspe que depois comi).
É coisa de influência que não
se tenta alcançar, justamente porque não dá
vontade. Dá vontade de ouvir o que os caras fazem
eles fazendo, e não terceiros. Falam de amor sem
melança nem dose de glicose na veia depois, e sem
rimas de recital infantil da quinta série do primeiro
grau.
Para quem quer ouvir, eu sempre apresento.
Mínimo que eu posso fazer. E nem é para que
todos conheçam e eu me sinta o fodão por conhecer,
mas para espalhar um nome que vale a pena ser espalhado
(em detrimento a tantos outros que estão zanzando
por aí porque sei lá).
A única vontade de ser famoso, acho:
chegar em uma entrevista, rede nacional, e quando perguntaram
aquela perguntinha ingrata, de quem foi minha influência,
responder claro e alto: o Birck.
Conhece? Não? Pois conheça.
Todo mundo.
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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São Paulo, 06 de dezembro de 2004.
Pau que nasce torto...
Cansada da fama e grana, vindas apenas do
traseiro rebolante, Sheila Carvalho resolveu mudar. Começou
a ler Veríssimos, Sabino, Rubens Fonsecas, ouvir
Chico (Science e Buarque), Hermeto, Milton, Clube da Esquina,
etc...
Fugiu da mídia durante longos meses. Ou teriam sido
anos? Cansou da grana, do assédio, da ilha de Caras
e dos passeios da Quem Acontece. Trancada em seu quarto,
lia e relia tudo, buscava informações, crescia
tudo o que jamais conseguiu enquanto rebolava o lindo pandeiro
aos baianos do mundo todo...
Um dia, ou melhor, uma noite, domingo, Fantástico
no ar, a revelação. Zeca Camargo apresenta
incrédulo o lançamento mundial ao vivo do
novo CD da morena do Tchan... Sheila Bossa in Road.
Anhangabaú lotado. Expectativa de mais de quarenta
mil pessoas, fora os milhões de telespectadores,
que só o Fantástico consegue angariar. Ela
entra no palco, vestindo uma túnica preta, que vai
até os pés. Um óculos redondo no rosto.
Senta-se no banquinho, apanha um violão, e começa
a cantarolar uma canção do João Gilberto.
Wave saía fino nos dedilhados espontâneos,
a voz era adocicada, leve...
Três minutos. Foi o que durou a impaciência
do povo. Vaias, e o pedido enlouquecido da multidão:
- Rebola, gostosa!!! Vai Tesão!!! Larga esse violão
e vem rebolar na minha casa
delícia...!!! Ih, fora, ih, fora!!! É na boquinha
da garrafa, Tchutchuca!!!
A deliciosa morena parou, respirou fundo... Não mais
que um minuto. Uma lágrima não foi percebida
nem pelas potentes câmeras platinadas...Sheila, desanimada,
apenas espera o nada, apenas olha, sem ânimo para
qualquer reação...
Sem serem percebidos, sobem ao palco o Jacaré, Cumpadre
Washington, Beto Jamaica e Sheila Mello. Pegam um microfone,
e saem a gritar:
- Pau que nasce torto, nunca se endireita, menina que requebra
mãe, pega na Chupeta... Segura o Tchan, amarra o
Tchan...
A galera enlouquecida delira, a Sheila Loira arrasta a morena
para o centro do palco, a banda começa a acompanhar
a música, e a morena se entrega. Deixa cair a túnica,
mostrando seu bem torneado corpinho, agora emoldurado pelo
sensual biquíni azul, quase mínimo. Festa
geral, o povo pula de emoção, a morena sorri
feliz, dança, rebola e pula no palco, feliz por ser
querida novamente...
...
...
Subindo a Avenida São João, Toquinho acompanha
João Bosco até o carro estacionado...
- Você sabia que seria difícil...
- É, sabia, mas cheguei mesmo a acreditar na moça...
Ai, ai, deixa o Zeca Baleiro saber... Tanto trabalho...
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Ombudsman
Senhor Pimpolho
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Já que ninguém se
apresenta...
Mas que coisa não? Andam colocando
galinha preta no cruzamento para este sítio.
Assumo hoje, interinamente, esta cadeira que
já foi de pessoas ilustres no ideário nacional
e mundial, basta ver as edições anteriores
do site.
Alguns se saíram bem na função,
outros nem tanto. De qualquer forma, as pessoas saem sem
explicação ou com explicações
esdrúxulas, quando mais fácil seria dizer:
não dou conta do recado e portanto estou cedendo
este honroso espaço.
Fui convocado totalmente de última
hora (recebi este convite do editor há cerca de 5
minutos antes de me por a escrever isto que agora estás
a ler) e portanto, obviamente, não li a edição
de número 104 e vou restringir minha crítica
justamente ao fato de que, para que o Simplicíssimo
torne-se um site bem conceituado e seja respeitado pelos
seus irmãos de arte, deve, em primeiro lugar, arrumar
sua cozinha e contar em seu plantel com um grupo de pessoas
COMPROMETIDAS com a idéia, a proposta e o objetivo
do sítio, que é levar SEMANALMENTE, literatura,
conhecimento, entretenimento aos Simplileitores e gerar
discussão e debate em torno das questões levantadas.
Para isso que muitos que aqui já se
encontram há mais de um ano trabalham.
Pela conversa que tive com o editor, está
sendo realizada uma verificação sobre a possibilidade
de indexar o sítio e desta forma, valorizar ainda
mais os escritos aqui contidos.
A partir da próxima edição,
passarei a avaliar a edição anterior semanalmente
e - conforme combinado com o "digníssimo"
editor (como ele mesmo gosta de nos denominar) - sairei
tão logo encontrem um substituto para a função
ou o Bernardo dê sinal de vida...
No mais, vão tomar no cú todos
vocês.
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www.simplicissimo.com.br
Copyright © 2003 - Rafael Luiz Reinehr - Todos os direitos
reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir os
textos do site, mas não esqueça de citar a
fonte e o autor.
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Simplicíssimo está concorrendo ao melhor site de Arte e
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fase desta honrosa peleia!
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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