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15 /12/2004 - Edição número
106
Para contradizer
os antônimos...
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Editorial
Rafael Luiz Reinehr |
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Tralaquilhas de sentalhortidão
O que será que um título assim
poderia fazer pelo texto qe agora escrevo. Será que
seria ele um astuto chamariz por aguçar a curiosidade
de quem o lê para seguir adiante no texto e verificar
o que porventura poderia ele significar ou, pelo contrário,
seria um entrave ao entendimento e à objetividade
e espantaria leitores?
Responda-me você!
A construção de um texto deve
levar em conta todos estes aspectos, desde que não
estejamos escrevendo um simples diário para ser escondido
e guardado a sete chaves, mas sim para que seja lido por
outros, comentado e gerar conhecimento ou diálogo
entre escritor e leitor ou entre leitores.
Se eu quisesse falar por exemplo acerca de
um tema específico como, digamos, "Será
que podemos considerar uma tradução como um
texto original"?, provavelmente um título mais
adequado seria "O Tradutor e seu dilema" ou coisa
que o valha.
Mas afinal, pode uma tradução
de uma obra de Dostoiewski por Boris Schnaiderman ser considerada
uma nova obra, uma obra original? E quem sabe uma tradução
de Finnegans Wake (Finicius Revém) de James Joyce
por Donaldo Schüler?
A favor? Contra? Argumentos, por favor...
Rafael Luiz Reinehr
E que tal mais uma citação?
"As necessidades do corpo são
a justa medida do que cada um de nós deve possuir.
Exemplo: o pé só exige um sapato à
sua medida. Se assim considerares as coisas, respeitarás
em tudo quanto faças as devidas proporções.
Se ultrapassares estas proporções, serás,
por tal maneira de agir, necessariamente desregrado como
se um precipício te seduzisse. O sapato é
exemplo ainda deste estado de coisas: se fores para além
do que o teu pé necessita, não tardará
muito que anseies por um sapato dourado, por um sapato de
púrpura depois, finalmente por um sapato bordado.
Uma vez que se menospreze a justa medida, deixa de haver
qualquer limite que justos torne os nossos propósitos.."
Epíteto, em "Manual"
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O
Problema é o Tempo?
João Marcelo Pacheco |
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...ao passar pelo tempo não tenho noção
de quem é , por que passa por mim mudo e
sem graça , não tem cor ou forma , mas tem
nome e isso é engraçado, alguns dizem
que controlam , outros que tem "ele" no pulso
, alguns mais "loucos" falam
que - Não há tempo prá mais nada vamos!!
, e existe tempo para alguma coisa ,
aliás o tempo existe? tempo é documento que
se despacha , é o sol que põe , ou
a lua que chega o que é esse tempo? Mas ele passa
por mim sem dizer nada , penso
que está tão tranqüilo que deve sorrir
quando o ser humano diz depender dele
para viver... Como assim , hora bolas??? e a água
, ela está bem ali , poluída , mas não
pelo tempo . E o alimento? Ah! dizem que este precisa do
tal tempo para florir e produzir frutos, mas através
de nós é claro , pois, ele também está
ali . Bom não sei o que é o tempo, talvez
seje mais uma invenção humana
assim como seus valores morais e tudo mais que enjoa , por
que é a mais densa
ilusão , se pararmos um tempo para pensar acabamos
rindo de nossos absurdos ,
viveríamos muito mais felizes sem se dar conta que
o "cidadão" tempo , anda
por ai passando por nós sem se preocupar que ele
preocupa-nos, e como diz um
filósofo amigo meu " ...imaginar se nesse dia
não podemos dar alegria a pelo
menos uma pessoa. Se isso pudesse valer como substituto
do hábito religioso da
oração , nossos semelhantes lucrariam com
tal mudança." e não perderíamos
tanto o tal "tempo" , em esperançar nossa
compaixão ao NADA
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No
interminável
José Mattos |
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No inacabável fastio da tarde
Arrastam-se meus pés sobre a incerteza
Ramagens ressequidas, no caminho
Agarram-me as pernas esfarrapadas
Parece agitar-se o bosque inteiro
Ouço o longo murmurar dos seres mudos
A incerteza do fadário a fronte arde,
E a alma é estocada por espadas
Daqui, só vejo o fim; não sei
o meio
Por isso ando em círculos fugindo
Das armadilhas sorrateiras do destino
Mais logo deverá morrer a lua
A noite soturnal já se prepara
Com armas, armadilhas e mistérios
E, eu preparando cá meu epitáfio
Riscando a talhos de canivete:
Dês-existiu cá um poeta - sem
amores
Que sonhou a vida inteira com a lua
Foi plantado entre as Palmeiras do Jardim
E o outono todo ano por caridade
Enfeita seu túmulo com lindas flores
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Passagem
Certo é que por vezes as coisas parecem
entrar por um sistema assimétrico qualquer que nos
escapa à ordem que gostamos de dar – e
pode ser tão sutil, nem nos damos conta de quantas
alternativas nos são dadas e enveredamos por uma
delas qualquer. Se com Ana as coisas não se davam
da maneira como gostaria, também é verdade
que não chegavam a ser desagradáveis. Por
mais de uma vez quis que tudo fosse tão fácil,
parecesse tão inesperado e surpreendentemente bom
como
sempre parece que é bom quando se olha uma relação
de fora. O que lhe sobrava, no entanto, era a sensação
pesada de que não fazia a coisa
direito, que Ana não se lhe dava por que ele não
dissera a palavra adequada, seu toque não foi suave
como deveria ou esquecera de um
agrado qualquer que poria Ana tão louca como esperava
que loucas fossem todas elas. Não que Ana não
gostasse de se dar a ele: dava-se.
No entanto, com uma freqüência menor do que a
que gostaria, com estipulações tão
entremeadas de ais e assim todas as condições
acabavam pondo-o um tanto irritadiço. Se havia o
noivado também, como a impor um tabu que achava que
o noivado, justamente, sepultaria, havia também toda
a necessidade de parecer tão casta o tempo inteiro,
e se forem se amar a toda hora não parecerá
novidade quando vierem os enxovais, e as tias presentearem
sempre com enxovais tão bonitos, e tanta renda, e
tudo tão branco e para Renato já não
é mais preciso tantos enxovais. Para Renato bastaria
Ana dar-se mais a toda hora, não envolver-se em muxoxos
em frente à casa e perturbar-se sempre com a mãe
perto da janela e negar-lhe tanto os beijos que já nem tinha.
Certo é que todo o processo é demorado, mas
Renato preparara-se para aquilo, suportara as novelas, as
conversas que não lhe dizem bem a que vem, os cochichos
como se houvesse coisa muito importante a se falar e a necessidade
de se dar extrema importância para aquilo o que já
nem importa tanto assim. Mas certo também foram as
saídas no final de tarde, e como as ambrosias parecem
estender-se quando se planeja um destino já tão
ansiado. Mas logo foram os cinemas, as mãos e arrepios
a elevar-lhe os poros na altura do pescoço –
um compasso tão desejado quanto meticuloso, os beijos
demoram-se mais, atreve-se a colocar mãos onde na
claridade não deveriam estar e a aguardar com elas
naquele lugar macio, procurar a profundeza dos seus decotes
e achar-lhe os bicos, os bicos dos seios, tão cheios,
tão quentes. Um caminho como
que não arranjado os põe à porta de
um hotel qualquer, um canto que lhes dê tempo para
o amor e que tudo possa parecer tão natural como
natural não é; não com os medos de
Ana, as aflições de Ana, o desejo mas a quase
negação de Ana. Se Renato não lhe põe
segura, se não lhe garante que tudo está sob
controle, para Ana não parece estar tudo sob controle
em território tão hostil, em quarto tão
iluminado, com lençóis que parecem sempre
tão sujos, tão amarelados. Mas se Renato
garante estar sob controle, quem é Ana para dizer
que não, se Renato sabe os caminhos por onde se deve
ir, se sua mão parece tão suave
quando se conduz para os meios de Ana.
E a Ana não cabe perguntar, é
óbvio, não tem cabimento, os gestos de Renato
são arrebatados, os caminhos como se ele tivesse
um mapa para decidir o toque, achar-lhe o ponto em que se
põe tão relaxada – como
suas pernas se abrem com tanta facilidade com Renato lhe
tocando com tanta docilidade! Há as pressões
que não gosta, a força que denota que Renato,
ora, é claro que Renato... Não cabe perguntar,
Renato é instruído, não é Ana
sua primeira... Não esperava que fosse também.
Não alimentava tamanhos romantismos, somente que
Renato fizesse direito, lhe pegasse com carinho, lhe fosse
paciente, não a ferisse, não a pegasse com
tamanha sofreguidão. Não entendia a necessidade
de
Renato de se por tão violento, de vir com práticas
que não lhe agradavam. A insistência em enfiar-lhe
a língua, a camisola tão nova e
já longe do corpo: o que entendia por preliminares
julgava demorar mais, estender-se como um carinho sem fim.
Em Renato, agora, a impaciência, o desejo que fizesse
coisas que não queria, não lhe agradavam,
aquele quarto também já não lhe agradava,
tudo tão claro, malditas cortinas que não
lhes garante nenhuma privacidade. Lógico que
não esperava aquilo, ao menos o breu, que tudo fosse
mais aconchegante, e não lhe parecesse tão
apressado, Renato tão apressado, pegando-a daquele
jeito, querendo arrumar-lhe as coxas de um jeito que não
entendia, não sabia como fazer, e não havia
como ficar à vontade como lhe pedia, sussurrando-lhe
coisas no ouvido como se pudesse excitá-la, queria
que tudo se acabasse de uma vez, e teria Renato novamente
como o conhecia, e teriam então os cinemas, e somente
os passeios e sorvetes, e todos veriam que eram noivos e
se amavam, mas para Renato aquilo tinha tanta importância,
e se lhe era assim, concordava, queria ser de Renato é
certo, mas que a primeira vez se mostrasse tão demorada
e se sentisse tão constrangida, e Renato parecia
tão fatigado, insistindo e insistindo e por fim,
ah, quem lhe disse que doía tanto assim, Renato feliz
conseguira rompê-la, investindo mais e mais em cima
de Ana, se não tivesse tão quente e não
suassem tanto e Renato não chega nunca ao fim e tudo
o que poderia fazer era esperar, aguardar somente, não
iludir-se que seria a coisa
mais linda do mundo por que não seria, já
não estava sendo, não poderia sê-lo.
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Paradinha I
O texto abaixo faz parte de uma série que estava aguardando pela presença de um desenhista que os formatasse em tirinha. Como ele ainda não apareceu, resolvi começar a publicação. Quem sabe alguém por aqui se habilite, não é mesmo? São brincadeiras em forma de propaganda e até mesmo uma paródia de algum comercial, como é o caso deste primeiro. OS demais seguirão em intervalos periódicos (isso não é uma redundância?) semelhante aos próprios reclames do dia-a-dia.
I - Rei Pelé
Num luxuoso ambiente hospitalar,
Pelé aparece deitado ao leito com uma bata branca típica (daquelas
com ventinho nas costas) e fala para a câmera:
_ Com esse convênio você é tratado como um Rei, entende? Ao seu lado, dois súditos balançam de forma ritmada enormes plumas com penugens braço-acinzentadas. _ Acomodações privativas, entende? - diz nosso atleta abrindo uma porta que revela um espaço com varal onde suas roupas íntimas estão a secar. _ Você pode contar com todos os exames, entende? Ao fundo, vê-se as pernas agitadas e ouve-se os gritos de um sujeito tentando escapar de ser sugado por uma máquina de tomografia. _ A assistência é personalizada, entende? Duas enfermeiras boazudas e insinuantes, uma mulata e uma loira de xuquinhas (assim mesmo) ajudam-no a vestir a camisa da seleção e a calçar as chuteiras. _ Bom, mas também tem outra forma de você ser tratado como rei, entende? - diz ele mostrando um comprimidinho azul em meio a um sorriso imensurável e abrindo a porta que leva ao corredor. O ídolo é imediatamente cercado, apalpado e esmagado por uma multidão de mulheres na maior tietagem. Mulheres de todo o tipo, assim como num buffet de sorvete. Com o uniforme desfigurado, chuteiras em punho e marcas de batom por todo seu rosto,, tomado agora por uma expressão de pavor, Pelé consegue livrar-se do bolo e sai em disparada, voltando-se para a câmera e perguntando: _ Alguém aí sabe um atalho pro Maracanã? ... Entende?
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Crescimento
Será que nos acostumamos de vez com
a idéia de que só crescemos pelo sofrimento?
Apenas a dor da perda, a dorida experiência advinda
de conflitos existenciais ou as inúmeras vicissitudes
acumuladas no transcorrer de nossa existência podem
nos fazer crescer?
É bom examinarmos melhor essa premissa e mudar de
conceito.
Há que se investigar o porquê de não
dizermos que é possível crescer, também,
quando adotamos uma postura mais humana diante da vida.
Passamos a crescer, como pessoa e cidadão que somos,
quando, por exemplo, buscamos ser solidários com
o próximo,
interferimos a favor do bem-estar comum ou deixamos o egoísmo
de lado
para partilhar a alegria com a pessoa mais próxima
a nós.
Se utilizarmos melhor o tempo de que dispomos, colocando-o
sempre a serviço do bem,
estaremos crescendo e fazendo com que outros cresçam
na mesma proporção.
Ninguém precisa provar do jiló para conhecer
o seu amargor.
Antes ofereça-lhe um fruto doce.
Claro que é possível!
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Tudo passa
Tudo passa.
Passa por mim e por você.
Passa por nós e faz a volta.
Chega de repente.
Passa silenciosamente.
Derruba tudo e voa novamente.
Tudo muda.
Muda a mim e muda a você.
Muda a todos e traz revolta.
Chega de repente.
Muda sorrateiramente.
Contorna tudo e sorri delicadamente.
Tudo fica.
Fica em mim e fica em você.
Fica em nós e não informa.
Chega de repente.
Fica eternamente.
Revela tudo e dança loucamente.
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Musicalidade
de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
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É meio impossível falar de Continental Combo sem mencionar Momento 68.
O primeiro, com nome inspirado em Momento 68, um dos festivais
de moda no Brasil dos anos 60, foi fundada por Plato Dvorak
e Sandro Garcia, sendo que as misturas heterogêneas de mentes
tão voláteis só poderiam causar estardalhaço psicodélico.
Plato, conhecido desbravador dos sons lisérgicos do sul
do Brasil, tem em sua natureza o DNA de Syd Barrett e outros
malucos geniais. Por caras como esse a música no Brasil
ainda não sucumbiu a desesperos. Sandro, grande companheiro
e fio condutor das estripulias de Plato. Deixaram para o
futuro ótimos registros demo, e Tecnologia, álbum
definitivo desse hibridismo 60's que assolou o cenário independente
brasileiro, e que trazia Gregor Izidro, atual Fuzzfaces,
na bateria. * sobre o Fuzzfaces, terei de começar uma verdadeira
árvore genealógica sobre o independente em São Paulo. Várias
bandas existentes tem em comum membros de banda que participam
ou participaram entre si, e nisso, uma temática inédita
para a cidade. Muitas dessas bandas vão ser citadas no decorrer
do correr dos textos. Já sem Plato desde Tecnologia,
Sandro formou o Continental Combo, com Carlos Rodrigues
no baixo - que já fazia parte do Momento 68 - e Rogério
Meni na bateria. O Continental Combo traz uma saudável natureza
de lançamentos esporádicos de singles. O que significa,
a herança de um grande tempo onde se lançavam sucessos em
formato compacto, e após isso, algum álbum inteiro. Vezes
ou outra, o tal compacto nem chegava a fazer parte da tracklist
do disco, sendo praticamente um bônus para quem o comprava,
ou os chamados "itens de colecionador". Sandro Garcia é
responsável pelas letras que mais primam pela beleza e pela
obra aberta da arte. Arte mesmo, música composta para status
magnífico e enigmático. Com certeza, já com sua curta existência,
os singles de "Nova Manhã" e "O Homem Retalho" já fazem
parte dos clássicos do cancioneiro metrópole-urbano, e o
Continental Combo a sempre soltar pérolas vez e outra. Essas
duas citadas podem ser conferidas aqui.
E mencionado Momento 68, procurem por Tecnologia,
e ouçam o que se conveciona chamar de clássico. Clássico
não é e nunca foi o álbum que mais vendeu, o artista que
mais chamou atenção na mídia, ou a exposição matemática
de uma série de fatores. Clássico é aquilo que existiu,
e já nasceu espetacular.
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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São Paulo, 13 de dezembro de 2004.
Um pouco de blasfêmia
O Pai estava triste. Tanto trabalho, tanto
tempo no comando, e de nada parecia estar valendo. Das brumas
do Monte Sinai ele observava tudo, e não gostava
do que via. O dinheiro parecia estar vencendo. A busca pelo
poder era maior que a vontade de viver. Os filhos, quase
em totalidade, só lutavam entre si, e por motivos
idiotas. Os mais fracos ficavam cada dia mais fracos. Eram
exterminados, como que culpados pela própria fraqueza.
Quem podia ajudar, não o fazia. Quem queria ajudar,
juntava-se aos fracos, e desmoronava, ante a massa mentecapta
de egoístas, dando amplos méritos ao opositor...
A vida eterna não parecia oferecer qualquer atrativo...
Nem mesmo o filho enviado, torturado e indefeso, valeu como
exemplo...Sem saber bem que caminho dar à sua grandiosa
obra, resolve bater um papo com alguém que não
o idolatraria facilmente. Chama pelo interfone:
- Madalena, peça pra chamar o Lúcifer aqui,
sim?
- Pode deixar, Senhor Deus Onipotente, Onipresente, Radiante...
- Tá legal, Madá, já entendi. Chama
logo o garoto, sim?
Alguns minutos, e a porta se abre. Um anjo de asas vermelhas,
longa capa preta, celular de última geração,
lap-top a tiracolo, um terno Armani de primeira linha, lentes
de contato azuis claras, sapatos envernizados, impecáveis,
um olhar encantador e cativante, e a clara expressão
no rosto de um típico vitorioso. O oposto do Pai...
- Mandou chamar-me, Big Deady?
- Já pedi pra não me chamar por essas expressões
estrangeiras...
- Seu maior problema é negar-se a incrementar seus
métodos aos tempos modernos... Olha à sua
volta, Great Cheff... Tudo está mudando, as cabeças
pensam mais, exigem mais, e eu sou a melhor opção
pra esses seres tão carentes de novidades...
- Você pode até ter certa razão, garoto,
mas o poder maior ainda está comigo, certo?
- Certíssimo, Old Super Man... Mas quem disse que
eu quero? Quem disse que alguém o quer?
- Mas, não é por isso que você os atormenta?
Não seria por acaso em busca do meu poder? Em busca
da minha luz, do caminho, da verdade e da vida?
- Xiiiiii, já vi onde você errou... Esses meninos
só querem um pouco de conforto no presente, eternidade
é muito longe, martírios, jejuns, sofrimentos
gratuitos não empolgam muito as pessoas, Lindão...
- Olha, filho, eu te deixei seguir seu caminho, sem interferir,
agora vejo que você tem ampla vantagem sobre mim.
Vamos fazer uma troca...
- Opa, tá começando a ficar do jeito que o
Diabo gosta...
- Olha os modos...
- Ops, desculpa velho...
- Eu quero um artifício bom pra arrebanhar uma parcela
que você me roubou. Pode me dar alguma dica? Em troca,
te dou... Hum, deixa ver... Sei lá, pede alguma coisa,
vejamos...
- Olha, pra não dizer que uma boa aposta não
me atrai, pelo simples prazer do jogo, que é um dos
meus vícios preferidos, não te peço
nada em troca.
- Ok, seja feita a sua vontade filho. Manda lá a
dica...
- Hum, não se zangue, mas é uma cartada de
mestre. Olha, Big Ben, deixa eles usarem camisinha. Você
vai ver como vai ajudar muito...
- O que??? Já me vem você também com
essa história? Onde já se viu? Já te
disse que sexo é só pra procriação.
Nada de prazer, entendeu? Nada de prazer!!! Saia já
daqui, antes que eu transforme o inferno em cinzas...
- Ok, eu bem que tentei... Depois não diga que eu
não avisei...
Lúcifer desce as nuvens em direção
ao inferno. Assobia uma canção do Rolling
Stones (Lady Jane), rodopia a bengada bem ornamentada. Chega
às portas do inferno, uma última olhada para
o céu.
- Ô velho teimoso... Assim vai ficar fácil...
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Ombudsman
Senhor Pimpolho
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Já que ninguém se
apresenta... (II)
Revisando o capítulo anterior: depois
do sumiço sem "aviso prévio" de
mais um Ombudsman, fui convidado nos descontos da prorrogação
para escrever este Ombudsman.
Com minha cachola acarpetada com afazeres
mil, desembuchei qualquer coisa para fazer uma espécie
de introdução ao meu trabalho vindouro. Usei
termos pouco convencionais para cumprimentar os lustrosos
leitores deste sítio e fui acachalhoado por Miltons
e Silvias. Delícia.
Hoje parto do princípio de que o fim
sucede o meio que, por sua vez vem logo em seguida ao próprio
princípio do qual estava falando (no princípio)
e de forma verborragicamente sucinta vos digo, sem medo
de errar, já que opiniões são só
isso mesmo:
1. O Editorial parece que foi feito de última
hora. Tipo, de qualquer jeito mesmo. Parece que o Rafael
estava sem tempo e pegou uma poesia guardada em um canto
e colou ali e depois juntou uma ou duas palavras e uma citação.
Me corrija se estiver errado.
2. O texto da Juliana chama atenção
pelas passagens pontuadas do tipo "E a gaveta do passado.é
saudosa", "Mesmo os sofrimentos (os que gostei
de sofrer) têm esse gosto doce de passado.gosto de
bolinho de vó." e "O presente ainda é
vago.e é bom!". Fiquei encucado: o que significariam?
Erro de redação? Erro de edição?
Erro de revisão? Erro de pontuação?
Ah!, não! Essa última de jeito algum! Deve
ser um novo estilo sendo lançado.
3. Dois e cincoenta de Raquel Rodrigues chama
atenção pelo título e também
pelo fato de, pelo que eu entendi, a menina ter vendido
seu sangue por meros dois reais e concoenta centavos (provavelmente
o preço dos jornais pelos quais ela trocou o sangue).
Te aviso: num banco de sangue privado te pagam mais.
4. O Alessandro foi o destaque da edição.
Em um texto supimpamente brilhante, conduziu com maestria
através de descrições de coitos caninos
a vida com poucas opções de um grupo de crianças
negras excluídas das periferias das cidades. Sem
nada a apontar. Delícia.
5. Ah! Sim! Dá pra mudar meu voto?
O texto do Ibbas sobre Eric Fróid e a inversão
dos medicamentos e alimentos também foi genialmente
elaborada. Quanta criatividade! Permaneça sempre,
Ibbas!
6. Ufa! Bacantes chocantes literárias!
Já achamos quem vai falar sobre sexo no Simplicíssimo
(sim, pois está ganhando de forma disparada as eleições
populares lá na Enquete)! Cavalgando na amiga e depois
sou eu que levo as patadas! Pôxa! Que injustiça!
Vão ler este conto se ainda não leram puta
vida!
7. Me digam uma coisa: o Luiz Maia é
autor daquelas "Gotas de Sabedoria"? Pois poderia
ser! Apesar de falar sobre coisas complexas como Amor, Felicidade
e Deus, ele quase sempre se sai bem (exceto neste último
caso, diria eu). Bonitas lições seu Luiz.
8. O poema da Sara não comento. Já
o foi suficientemente pro que oferece.
9. O Roberto é o cara mais injustiçado
do Simplicíssimo! O cara escreve sobre música
da forma mais bacana-delícia que já vi alguém
fazer, com despreendimento e envolvimento síncronos,
com propriedade sobre o underground (propriedade sobre o
underground !) da música e ninguém dá
bola pro cara! Vamos dar uma força para o rapaz people!
10. O Marcos ganha o Laurel Dentifrício
de Ouro, prêmio que este Ombudsman concede ao texto
mais comico-hilário de cada Simplicíssimo.
Imaginar a situação já uma belezura.
O fim então, é de sacar a rolha da champanhe
e ir pra galera!
Deu. Acabei. Mas não sem antes dizer
que, pessoas, simplicíssimos e simplicíssimas
(ao som de Ana, de Cassiano) leitores, colunistas e colaboradores,
ajudem este humilde e cada vez melhor ombudsman a fazer
esta coluna. Quaisquer sugestões podem ser encaminhadas
para o e-mail do site (simplicissimo@simplicissimo.com.br)
com o título Ombudsman que o famigerado
e temido editor encaminha para mim.
Outra, desta vez para os Editores (ou para
O Editor, como preferir(em): dêem um jeito de manter
a regularidade dos colunistas! Isso dá nos nervos!
Mais uma: o site demora muito para abrir em
conexão discada. Creio que isso diminua em muito
o acesso pela população sem acesso à
banda larga.
Outra: mais campanhas do Simplicíssimo
e mais edições especiais. Outras sugestões?
Mandem para o e-mail acima.
Vão lamber urtiga todos vocês,
amigos insondáveis, e até a próxima,
quem sabe.
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www.simplicissimo.com.br
Copyright © 2003 - Rafael Luiz Reinehr - Todos os direitos
reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir os
textos do site, mas não esqueça de citar a
fonte e o autor.
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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