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22 /12/2004 - Edição número 107
Para contradizer os antônimos...
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Editorial
Rafael Luiz Reinehr |
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Alguém explica o fenômeno?
Quer ficar famoso? Escreva para o Simplicíssimo,
publique algum texto no Simplicíssimo!
Calma! Explico:
Há tempos noto que as pessoas chegam
lá no Escrever Por Escrever e aqui no Simplicíssimo
através de pesquisas no Google, Cadê, Altavista
e assim por diante.
Até aí tudo bem, é para
isso mesmo que serve uma ferramenta de buscas. O que acontece,
e que não consigo explicar, é como o Simplicíssimo
consegue ficar em primeiro lugar na pesquisa no Google das
palavras pátina provençal,
mesmo tendo um site chamado www.patina.com.br
que trata especificamente do assunto.
Outros exemplos engraçados/curiosos:
Primeiro lugar da busca (não paga)
para magridiet.
Segundo lugar para a busca de "Metais,
Não-Metais, Semi-Metais"
Segundo lugar para a busca por "presente
para homem"
Segundo lugar para a busca por fotos
de bandas.
Terceiro lugar para a busca como surgiu
a sociologia, segundo para como surgiu
a engenharia, como surgiu a economia,
como surgiu a medicina e primeiro lugar
para como surgiu a psicologia.
Mas, o maior achado foi encontrar, o Simplicíssimo
em primeiro lugar nas pesquisas no Google para a palavra
simplicissimo. Incrível!
Bem, se for enumerar os exemplos, são
centenas de palavras-chaves estranhas em que o Simplicíssimo
encontra-se entre os 3 primeiros lugares no Google.
Sim, existe o viés de seleção
(descobrimos obviamente as palavras-chaves que levaram as
pessoas até o site e, logicamente, estas estão
entre as primeiras), mas o que mais encuca é esta
maluquice (que na verdade é boa para o site) de ser
encontrado facilmente em buscas pela Internet.
Convocamos aos Simplileitores que tenham página
na Internet a falarem sobre os acessos mais inusitados que
tiveram em seus sites ou blógues.
Queremos agradecer também àqueles
que votaram no Simplicíssimo para o Melhor Site de
Arte e Cultura no Prêmio IBest. Valeu pela força!
Mais uma coisa: LEIAM as
citações abaixo! Estão impagáveis!
Rafael Luiz Reinehr
PS: quem perceber as falácias escritas
acima, fique quieto por favor!
"Quando um crítico deve julgar
uma obra pode escolher dois métodos. Ou limitar-se
a essa única obra do autor e abstrair das outras;
- ou integrar no seu juízo toda a produção
do autor. Mas na maior parte das vezes ele emprega um outro
método que lhe deveria ser sempre interdito - consiste
em integrar no quadro das suas considerações,
paralelamente à obra submetida a crítica,
outras obras de acordo com o humor da sua escolha, deixando
arbitrariamente de lado as outras que, de momento, não
servem o objetivo que persegue ou o efeito que pretende
obter, outorgando-se assim o direito de fragmentar o autor
a seu belo prazer.
Quantas vezes acontece - e não é necessariamente
por má vontade - que o crítico projeta na
obra de um autor a sua idéia fixa, sem ser já
capaz de aí ver outra coisa a não ser essa
idéia, que o obceca de modo monomaníaco; -
enquanto que para o autor ela é na sua obra apenas
um elemento entre dezenas e não necessariamente o
mais importante.
Atribui-se ao artista uma intenção artística,
ética ou outra que ele nunca teve e critica-se-lhe
o fato de não ter atingido aquilo que ele queria."
Arthur Schnitzler, em "Arte
e Crítica"
"Não nos deve surpreender
que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no
mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm
por vezes de lutar contra si próprios e, como se
isso não bastasse, contra todos os medíocres
que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil,
onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares,
entre companheiros e irmãos e é, por espírito
de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido
só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo
que é imediatamente entendido e aprovado por todos,
ao passo que o gênio tem o vício terrível
de se contrapor às opiniões dominantes e querer
subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria
dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos
imbecis são tão abundante e solicitamente
louvadas - os juízes são, quase na totalidade,
do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam
com entusiasmo as ideias e paixões medíocres,
expressas por alguém um pouco menos medíocre
do que eles.
Este favor quase universal que acolhe
os frutos da imbecilidade instruída e temerária
aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande,
ao invés, só pode ser entendida e admirada
pelos seus pares, que são, em todas as gerações,
muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem
impô-la à apreciação idiota e
ovina da maioria. A maior vitória dos néscios
consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios
a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma,
quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura
universal."
Giovanni Papini, em "Relatório
Sobre os Homens"
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Pressentimento
Luiz Antônio Ribeiro |
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Verônica acorda assustada. Tivera um
sonho ruim. Era supersticiosa, acreditava que tudo acontecia
por algum motivo. Já sabia, naquela hora, que teria
um dia ruim, que tudo daria errado, e já estaria
agradecendo a Deus se ninguém morresse na família,
agradeceria mais ainda se não fosse ela a falecida.
Dorme novamente. Tem outros milhares de sonhos legais, mas
ao acordar só lembra daquele que não pára
de perseguir sua mente. Levanta, toma banho, arruma-se para
o trabalho, toma café da manhã, pega a chave
do carro e...não, melhor não ir de carro hoje,
melhor ir de ônibus, se morrer não será
a única.
Saí de casa atabalhoadamente. Olha para os lados,
tomando muito cuidado. Entra no ônibus e senta-se
ao lado de uma velhinha, se algum bandido entrar terá
pena da velhinha, todos têm pena de velhinhas. Ao
sentar-se perto da senhora, corre o risco de que esta perturbe
sua paciência, velhas adoram isso, falar e falar da
vida, do passado, de desgraças e doenças.
Mas esta velhinha até que era legal, parecia ser
muda.
Salta do ônibus sem nenhum risco. Dirige-se ao trabalho
e fica com medo. Será que ao chegar em sua sala verá
suas coisas guardadas em caixas? Será seria hoje
o dia em que seria despedida? Mas estava indo tão
bem. Entra tentando mostrar confiança, dá
“bom dia” a todos displicentemente. Estava tudo
em ordem na sua sala, graças a Deus, e o melhor,
ninguém percebera sua tensão. Só mais
tarde que a copeira pergunta: “Verônica, tudo
bem com você?” Ela gela, fica fria, rosa, roxa,
vermelha, passa por todas as tonalidades possíveis
em um camaleão, tenta controlar-se e pergunta: “Porque?”
Por nada, diz a outra. Acalma-se e diz: “Tudo bem,
e com você?” O pior já tinha passado,
ela não percebera também. Mas se nada tinha
acontecido até agora, deve estar guardado para a
tarde, ou par a a hora do almoço. Almoço?
Pediria comida na empresa hoje, para prevenir algo, nunca
se sabe.
Cinco da tarde e nada. O que será? Deve ser algo
muito grave. Por isso, demora tanto para vir. É morte,
com certeza. Só pode. E deve ser por agora, na hora
do suicídio, na hora do pôr-do-sol. Que horror
esses sentimentos, sempre sentia-se tão segura, nunca
mais gostaria de ter um sonho desses.
Até agora tudo na mais perfeita ordem. Já
é fim de expediente, só falta à volta
para a casa. Nervosismo de novo. Entrar no ônibus
com muita calma, pagar o trocador, sentar perto de uma velhinha,
torcer para ela ser muda. Olhar pela janela, ou para as
mãos, segura-las juntas, para não demonstrar
seu interior. Pronto. Puxar a cordinha, a cordinha, será
que ela está funcionando? Imagina se está
quebrada e não dá tempo de chegar ao motorista?
Gritar, jamais, desço no próximo ponto. Levanta,
puxa a cordinha, o motorista para e Verônica desce.
Olha para sua casa e vê vários eletrodomésticos
em casa. Desespero. Será que esquecera o aluguel?
Estão lhe levando tudo? Puta que pariu, alguém
tinha que lembra-la dessas coisas. É o fim, despejada,
na rua. Sabia que algo aconteceria.
Vai devagar em direção de casa. Entra em silêncio,
não fala com ninguém. Encontra o marido no
sofá sentado. Ele pergunta: “O que houve, meu
amor?” “Eu é que pergunto, eu sabia,
tive um pressentimento. Para onde vamos agora?” “Para
um lugar muito melhor. Nós ganhamos na loteria. Dez
Milhões.” “Eu te amo, meu bem. Eu te
amo. E, no fundo, já sabia disso.”
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Estou mudando
e meu corpo não se contém.
Há calos novos nos meus pés,
meu jeans reprime minhas carnes,
e enquanto ando sob o Sol
me concentro no som
salgado
das pulseiras sem sentido nem vontade,
inútil vaidade.
Abaixo, meu decote sua;
atrás, cada gota é sua,
sua e sempre,
a mão suja do dia-a-dia desabotoa,
sua filosofia.
Mas há mais...
35 graus centígrados no relógio!
(mas em mim há muito mais).
Há também o sussurro no meu ouvido,
\"está acabando\",
essa tentativa safada de me fazer parar de suar,
e ao suar sem parar,
suavizar-
me.
No meio do meu sorriso forçado,
e cansado que é, acaba calado,
há meu esforço em dentes tão claros,
sorriso cerrado.
Silêncio,
há o meu medo discreto da vida que vai me começar:
"haverá exigências",
digo-me
"e mais suor";
"dentes brancos",
diz-me
"Nudez de Marfim:
estou antropológico por ti,
Sol a pino,
sorte".
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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As nuances mais opacas
Eu tenho material suficiente para duas, três
semanas. Eu, assim como Pablo, tenho sujeira para um mês.
Eu tenho um espírito encardido para o qual não
há esponja alguma que possa limpar. Pablo tem hipocrisia
em seus olhos para sorrir com singeleza por mais quatro
semanas inteiras, no mínimo. Eu também, tal
qual ele. E assim, tenho desculpas colecionáveis
que são fáceis de acreditar, tenho talento
para embelezar momentos, para encher de romantismo os mais
modestos reencontros. Tenho horários convenientes
para abandonar a casa e uma história boa para contar.
Mas não é bom acreditar em mim: assim como
Pablo, sou um mentiroso e tudo me forma uma fachada –
tudo é tão sujo em mim como é sujo
em Pablo. Pablo observa os namorados refletidos nas paradas
de ônibus, namorados que se beijam, que parecem amar-se
definitivamente, que não hesitam em se entregar aos
beijos enquanto uma platéia por trás do ônibus
parado os invade com olhos gigantes e gulosos. Pablo também
os engole e se pensa merecedor de momentos como aquele,
embora sujo. Eu também, mesmo encardido, anseio tais
performances apaixonadas, ósculos realmente repletos
de desejo – e então eu poderei estar limpo
durante todo o tempo.
Mas eu ainda não estou limpo. Assim como Pablo
eu peno, consciente do ato e torno a fazê-lo. E prenuncio
a gravidade, adivinho a importância do passo mal dado
e caminho, torto, para a imundície. E me regozijo
na sordidez, condiciono-me ao prazer vil e encontro na efemeridade
aqueles instantes ínfimos que me garantem o riso
arreganhado, o suor grosso e o gozo fraco, patético.
E sei por antecipação dos engulhos de arrependimento,
sei da dificuldade dos passos para o caminho de casa, sei
dos olhares que mesmo desconhecidos me culpam, descobrem-me
a falsidade, condenam-me, zombeteiros. São todos
os cobradores de ônibus, todas as meninas que sentam
nos bancos dos velhos, todos os suburbanos de camisetas
regatas: todos eles me olham com desprezo, me desvendam
as falhas de instantes atrás. As velhas com bolsas,
as velhas que não conseguem lugar e se espremem contra
mim também me amaldiçoam. Lêem meus
pensamentos e querem gritar para o motorista que eu devo
descer. As velhas fazem com que eu me vire para a janela
e me atormente com o meu reflexo no vidro, por que eu não
consigo – bem como Pablo eu não consigo ver
os transeuntes caminhando lá fora.
Pablo toma-me pelo braço e me diz que há
ducha forte para nos retirar o ranço. Diz que antes
de estarmos definitivamente limpos devemos nos sujar à
grande para valer a pena o tempo que levaremos para nos
limpar. Para que a proporção seja tamanha
e significativa, para que o riso seja mais branco e os olhos
mais brilhantes, para que o odor se dissipe por completo
e para que a carniça se afaste de nossas entranhas
é preciso antes uma imersão mais completa
na lama. Pablo me diz que isto é preciso –
para uma alma mais limpa, é o que me diz Pablo. Eu
me enegreço, assim como Pablo, e depois digo que
meu espírito é fraco, que as tentações
são grandes e que minha resistência é
nula. Que sou admirável por não saber resistir.
Pablo me faz pensar assim.
É por que eu sei, assim como Pablo, que logo estarei
pronto. Logo, o antro me será asqueroso, a zona me
será insuficiente e assustadores me serão
os caminhos onde eu não veja com clareza. E então
eu sei que haverá um instante no qual, se eu resistir
por um momento, resistirei para todo o sempre. E este será
o tempo em que tudo se tornará mais claro. É
por que eu sei disso, assim como Pablo.
Se durante todo este tempo, daqui para diante, eu sentir-me
não apodrecido, não envolto em pesada e já
ressequida lama, se eu conseguir olhá-la com olhos
que não sejam mentirosos, se não mais disser
frases com o olhar voltado em outra direção;
se eu não sentir-me compelido a confissões,
a rasgares de almas para crenças nas quais não
creio, se eu não sentir uma culpa infinita e um peso
desesperado em cima dos meus ombros – é por
que a sujeira terá começado a dissipar-se.
E, Pablo, assim como eu, começará a sentir-se
outro, após longo tempo, depois de passadas as quedas
e os retornos para os erros, eu poderei começar a
sentir-me limpo.
E eu verei cair a sujeira de uma vida inteira. E Pablo
poderá olhar nos olhos uma noiva virgem que o espera
em casa – ainda que haja putas que queiram lhe servir
por quinze dinheiros nas noites de domingo.
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E deu Peixe!
A festa do futebol de 2004 estava realmente emocionante. Um ano inteiro
de muita bola rolando. Muito embora já há quem fale em mudar a fórmula
(ai, ai ai, de novo?), não vejo nela a justificativa para o baixo
público. Não faltou emoção para vários clubes até a última rodada e para
todos até um pouquinho antes. Já a falta de dinheiro sim. O esporte do
povo está com preços de casas de teatro, sem falar no que se gasta com o ônibus ou o estacionamento, nas pilhas do radinho, naquele lanchinho
esperto, no amendoim torrado e na cerva gelada.
Mas enfim, teve até emoções trágicas de seqüestro, morte, transações
milionárias que levaram nossos craques (deve ser a síndrome do
Pau-Brasil), as supostas e as admitidas malas-pretas, aquela pancadaria
no aeroporto e até mesmo os incidentes da comemoração.
Sem falar nas fortes emoções de quem esteve perto de descer um degrau. A
zona do desespero não teve espaço para os cariocas, mas foi por um triz
e Romário ainda é o que mais chama atenção por lá (vê se pode!). E a
Bahia, que na música já deu graças a Deus, agora está totalmente em
segundo plano. Oxente menino, vai dar uma preguiça ver esse clássico ...
Aqui no extremo sul do Brasil eu explicaria a dupla grenal assim: mais
de 1 turno de derrotas versus quase 1 inteiro de vitórias. Deu no que
deu, com o Periquito um pouquinho acima do Saci. Ah sim, para este último faltou perna (literalmente) para ir mais longe, mas há quem diga
que sobrou dedo (do Joel)... Ainda bem que o "Lori teve que sair" visto
que os outros dois sob seu comando desceram a ladeira.
E a justiça, para variar, foi lenta e pouco justa: tardou e falhou com o
pássaro azul. Quem morreu feliz fazendo o que mais gostava não merecia
desmedida homenagem. Mas enfim, no final da festa o furacão passou
batido (dizem que foi um, dois e três golpes do mosqueteiro azul) e deu
mesmo Peixe, que não apenas nada, mas bate aquele bolão com seu
consagrado técnico. Chato, arrogante, brigão, mas eficiente. Fazer o que...
Porco, tigre (que parecia de bengala), raposa (que não é mais aquela),
macaca, urubu (quase na carniça hein?), periquito do centro, bacalhau do
Almirante Eurico, Leão, Galo, Gralha e ainda a Figueira, o Velhinho e o
Vovô, o Bugre, o Donald, o Santo Paulo, o outro espadachim, o cartola e
até o bicho-papão também foram indispensáveis para a festa ser completa
(espero não ter esquecido de ninguém).
Ah sim, se você não gosta de futebol e ficou perdido no meio dessa
bicharada toda, volte semana que vem que eu devo estar falando de outra
coisa, ou quem sabe ainda sobre peixe, já que emerge um forte lobby
contra os saudáveis hábitos de vida, visto que a baleia só come peixe,
nada o dia todo e só engorda!
Enfim, desculpem o pequeno atraso de hoje e para todos um belíssimo e
feliz Natal!
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A idade do lobo
Ninguém passa impunemente pela meia-idade,
conhecida como a "idade do lobo".
A virada dos 40 anos, pela qual todos passamos, equivale
a um novo ciclo de vida,
onde tudo parece ser desconhecido e assustador.
Não há como negar que vários
fatores contribuem para isso: a ansiedade, o medo do desconhecido,
a insegurança ao avistar a juventude sumindo,
tudo torna a pessoa refém de um tempo que se foi.
Poucas são as que procuram enfrentar
a crise com sabedoria.
Ao invés de pensarmos que esta fase indica o ocaso
do homem, que tudo acabou, poderiamos imaginar tratar-se
de um período rico na fase de mutação
do homem e da mulher.
Momento sereno, em meio a naturais questionamentos, de pleno
encaminhamento à maturidade,
através das transformações e renovações
que modificam a nossa maneira de ser.
O homem deveria aprender mais com a natureza.
Apreciar, por exemplo, as variadas formas de mutação
acontecidas a cada dia.
Observar, com extrema naturalidade, o correr
manso de um rio, levando suas águas ao oceano;
o pôr-do-sol anunciando o ocaso de mais um dia;
o silêncio da madrugada, à espera de mais um
alvorecer,
o engatinhar de uma criança buscando alcançar
novos caminhos.
Instantes mágicos que configuram o ciclo da vida.
Quem observa a natureza com paciência e carinho não
perde a viagem.
Quem tenta descobrir a importância
da ação do tempo em nossa existência,
não tem como se preocupar.
Há que se observar também as inúmeras
compensações que a idade madura nos proporciona,
inibindo a possível valorização de
certos traços indesejáveis que a velhice nos
traz.
Não podemos negar que nos tornamos
mais experientes, um pouco mais sábios,
mais tolerantes com o próximo,
infinitamente mais preparados para lidarmos com as adversidades,
assim como com as coisas inerentes à afetividade
e ao amor.
A meia-idade pode nos conduzir por caminhos mais serenos,
que tranqüilizam o nosso ser.
Alarga nossos horizontes e nos faz pessoas melhores, desde
que nos quedemos ao natural ciclo da vida.
Possibilita-nos renovar projetos de vida, círculos
de amizade,
visão que nos leva a concluir velhos sonhos de ações
solidárias.
Isso sem esquecer do tempo disponível que ganhamos
para andar à procura de pessoas
que tenham a mesma afinidade nossa,
visando construir projetos que levem o bem-estar e a melhoria
de vida às pessoas.
Tudo isso inspirado na sensibilidade que só o tempo
pode nos oferecer.
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Silêncio no caminho
Estava atrasada. Desceu do táxi e correu
para pegar o ônibus para Porto Alegre. Como não
recebeu nenhum número de assento, tratou de sentar-se
na janela mais próxima. Pediu licença para
a senhora que estava sentada no corredor e começou
a mexer na bolsa a fim de concluir a maquiagem às
pressas.
- Como você consegue se pintar no ônibus? –
foi a primeira fala da senhora até então inofensiva.
- Estou acostumada. Sempre faço isso. – respondeu
calmamente e sorriu.
Terminou a maquiagem e olhou para a janela, uma linda tarde
de junho brilhava do lado de fora. Seu coração
estava suspirando ao imaginar o que lhe aguardava no destino
final daquele ônibus. Mas seus pensamentos foram novamente
interrompidos por mais um comentário da senhora ao
lado.
- Acho que deu acidente na BR. – e começou
a se esticar toda para conseguir enxergar melhor o que acontecia
mais à frente.
- Pois é, o ônibus está lento. –
sorriu novamente.
Calou-se e tentou concentrar-se. Queria planejar suas ações,
queria imaginar o que estava por acontecer em poucos instantes,
queria ter prazer com seus próprios pensamentos e
aproveitar o calor do sol, porém era quase impossível
permanecer em silêncio, era como se a tal senhora
não conseguisse controlar a própria língua
ou sofresse de uma carência muito grande, incurável.
- Você viu como estão acontecendo assaltos
nos ônibus pinga e no Trensurb? É um absurdo!
Minha amiga estava cochilando e um rapaz roubou-lhe a carteira
de dentro da bolsa. Precisamos nos cuidar. Mas este ônibus
está tão lento. Acho que é por causa
do viaduto novo...
Falava inerruptamente. Era o inferno dentro da linha Novo
Hamburgo/ Porto Alegre.
- Sim, está muito perigoso. – olhou para a
janela e revirou os olhos, já apresentando sinais
de impaciência. Pensou para si: Deus, tenha piedade.
Quero ficar calada, quero relaxar, por favor faça
com que esta gorda feia cale-se agora!!!
Teve vergonha de seus pensamentos. Como poderia estar sendo
tão rude e tão egoísta, afinal aquela
senhora poderia estar realmente precisando de um pouco de
atenção. Poderia estar sofrendo de uma doença
terminal e ter poucos meses de vida. Poderia morrer ao descer
do ônibus, poderia morrer ali mesmo de um ataque cardíaco
fulminante. Agora já estava pensando em morte. Como
seus pensamentos mudaram tão subitamente por causa
de uma gorda? Teve mais vergonha e procurou desviar os pensamentos,
pensou no rosto dele, nos beijos, conseguiu se distrair.
O engarrafamento estendeu-se até a entrada de Sapucaia.
Como o ônibus estava vagaroso, ela reclinou o banco
e cobriu-se com a jaqueta. Suspirou ao pensar nos beijos
e carícias que a aguardavam e caiu no sono lentamente.
Que momento sublime, não ouvia mais a voz da companheira
de assento, tudo ficou na paz total.
De repente despertou. Era a mesma voz, a mesma melodia irritante,
era a gorda conversando com a passageira ao lado. Olhou
rapidamente para fora a fim de identificar o lugar onde
estava. Ajeitou-se e percebeu que o ônibus estava
bem próximo da parada final. Que alívio, pensou.
Finalmente vou me ver livre desta matraca.
Desceu do ônibus e olhou para trás. A senhora
atravessou a rua e sumiu em meio aos pedestres. Ela embarcou
no primeiro táxi que viu e continuou com seus pensamentos
prazerosos. É muito provável que a gorda senhora
tenha encontrado outro para atormentar antes de chegar ao
seu destino. E é mais provável ainda que atormente
todos aqueles com quem convive. Mas isso não era
problema seu, não deixaria que nada mais pudesse
atrapalhar a sua concentração. Estava livre
novamente. Finalmente o silêncio pairava ao seu redor,
a alegria invadia a sua mente, enquanto tremores tomavam-lhe
o corpo cheio de tesão. Ah se os outros pudessem
ouvir.
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Musicalidade
de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
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Nervoso - Saudade de Minhas Lembranças
Foi em 2000 quando ouvia a boa surpresa
que tinha comprado, o primoroso trabalho Stress,
Depressão e Síndrome do Pânico
dos Autoramas, e tinha sido logo arrebatado por uma
canção de amor sincera, bubblegum e talentosa
ao extremo, chamada “Carinha Triste”.
Juras de amor e sacadas geniais, como
palavrões e fúria comuns ao sentimento,
compostas pelo hitmaker Gabriel Thomaz, guitarrista
da banda, em conjunto com um garoto de nome Nervoso.
Nervoso? Quem era esse? Garoto que também
havia composto outra boa faixa do disco, de nome “Boa-Fé”,
havia me intrigado de forma que qualquer passagem desse
nome pela mídia seria meu motivo para acompanhar
seu trabalho, até agora, muito satisfatório,
pela qualidade das duas canções mostradas
na banda dos amigos Gabriel, Simone e Bacalhau.
Corta para 2003, lançamento do
primeiro trabalho solo de Nervoso, o EP Personalidade.
Como prometido, fui descobrir seu trabalho, suas composições
lançadas neste trabalho. Logo grandes canções
me arrebataram, assim como haviam me arebatado via “Carinha
Triste”. Até então não sabia
nada do rapaz, e apenas tinha ciência de que seu
talento valia muito a pena de ser descoberto.
Nervoso acaba de lançar seu primeiro
disco por completo, Saudade de Minhas Lembranças.
Ex-membro da mítica banda Acabou La Tequila,
venerado por figuras como os conterrâneos dos
Los Hermanos, fez parte por breves períodos também
nas bandas Autoramas e Matanza, até surgir em
carreira solo.
A primeira afirmação, mais
encarada como uma negação, que faço
aqui, é derrubar qualquer crítica preguiçosa
de que Nervoso apenas soa como Los Hermanos. Me revolta
profundamente como ouvinte musical me emocionar com
os timbres da canção “Não
Quero Dar Explicação”, e pensar
que nenhum crítico teve a decência ao menos
de calar a boca e ouvir sem pestanejos, ou caso queira
ligar obra à influência, lembrar-se de
grandes tempos de Odair José ou Paulo Sérgio.
E é exatamente isso que escapa
todas as horas, que Nervoso mostra: o garoto tem talento.
Foram muitos anos provando isso indiretamente, até
finalmente deságuar em seu disco autoral. Saudade
de Minhas Lembranças é isso, um disco
próprio, sem receios de soar pejorativo aos outros,
ora jovem guarda, ora brega, ora samba, ora qualquer
coisa, mas sem perder o tal rumo de autor.
Seu primeiro single, “Já
Desmanchei Minha Relação”, é
jovem guarda no som, e personalidade Nervoso nas letras,
letrista de mão cheia para ironias finas (“E
nosso olhar não permitiu/Um grande avanço/E
é por essas e outras/Que eu não tenho
mais saco/Para te servir, meu bem”) e saborosas,
que permeiam todo o disco. Outra particularidade do
trabalho é a voz de Nervoso, de personalidade
forte, e totalmente inconfundível.
Acho mesmo que o garoto não errou
ao imprimir o título de seu EP como cartão
de visitas, estamos diante de um momento pop quase nunca
visto no Brasil, o de caso de música boa, cujo
pequenas marcas próprias fazem dela, autêntica
e original. Falemos a verdade que para fazer sucesso
no meio musical, já há imaginários
impressos de certas notas e acordes certeiros, templates
musicais, para “como surtir efeitos à primeira
ouvida”. Nervoso não segue tal, e acerta
como nunca.
Saudade de Minhas Lembranças
é disco para se ouvir emocionado, para aqueles
que acreditam no amor, mas não são otários,
que gostam de pop, mas não são fáceis,
que gostam de vocalistas e músicos que realmente
gostam e dão a cara à tapa no que fazem.
Um garoto inserido na esperteza de ser como é,
e nada mais. Um garoto que merece ser ouvido.
*** Ouça o single “Já
Desmanchei Meu Coração” aqui.
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Bacantes
Literárias
Gilson Giuberti Filho |
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Ensaio nº 11
Internado há três dias; crise
de asma. Desde garoto uma rotina; pausa por uns anos e tudo
novamente...
- Boa noite Felipe!
- Boa noite enfermeira...Injeção agora?
- É...
Prepara o equipo; começa a injetar.
Olha-me com a piedade e ternura de sempre – conhecia-me
há anos...Após segundos, começo a sentir
certo desconforto: seu sorriso sempre bondoso, seu semblante
de paisagem começa a causar-me espécie. No
lugar dele vai surgindo uma expressão estranhamente
maliciosa, gradativamente má.
Percebo que seus olhos vão se injetando de vermelho,
tomando dimensões assustadoramente maiores. O queixo
vai ganhando proporções mais proeminentes
e a boca transfigura-se num rostro de inseto carnívoro.
A pele vai tingindo-se de pardo ao mesmo tempo em que cresce
de tamanho; para o alto. Agiganta-se.
Novos braços multiarticulados vão surgindo
de seus flancos, perfurando em frangalhos suas vestes alvas
de enfermeira. Começa a subir pela cama.
Entre eu e o teto, neste momento, há uma criatura.
Os olhos vermelhos de fúria, as quelíceras
recém-surgidas tremeluziam freneticamente sobre minha
cabeça, ante o quebraluz da parede, crepitando como
gravetos quebrados.
Estava atônito e paralisado: suas patas impediam-me
de mexer sob os lençóis como uma camisa de
força.
Ao instante de gritar uma gosma branco-opalescente derrama
de sua boca sobre a minha face, esgotando imediatamente
a possibilidade de respirar. Tento gritar...Em vão:
sufoco-me.
Seu abdome oblongo estende-se solenemente para o alto levantando
todo o seu corpo; gira-o então, em direção
à minha pelve. Um ferrão se apresenta –
enorme como uma espada. Desespero: giro minha cabeça
para os lados, aterrorizado. Consigo me libertar da gosma.
Grito com todos os meus pulmões.
A porta se abre, num espasmo.
- Rutiléia!
- Sim Dr. George!
- Esta morfina era para o 303!
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Ombudsman
Rafael Luiz Reinehr
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O Acidente do Pimpolho
Nosso Ombudsman não poderá escrever
sua coluna nesta e possivelmente na próxima semana.
Fomos informados pela mãe do
rapaz que o mesmo sofreu um acidente automobilístico
na noite da segunda-feira e encontra-se ainda em estado
regular no setor de tratamento semi-intensivo do Hospital
Alfredo Dotta, já tendo sido operado por um afundamento
craniano leve e possivelmente devendo se submeter a uma
cirurgia plástica reconstrutora nos próximos
dias.
Em nome dos colunistas e leitores do Simplicíssimo,
esperamos que nosso tão recente mas já destacado
colunista tenha pronta recuperação e volte
a publicar sua coluna neste espaço no mais curto
intervalo de tempo possível.
Desta feita, não teremos o Ombudsman
de praxe nesta edição.
Serão transmitidas notícias
do estado de saúde do colunista tão logo nos
sejam fornecidas nos comentários abaixo.
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reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir os
textos do site, mas não esqueça de citar a
fonte e o autor.
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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