Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade alguém me alcança o sal, por favor?


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Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Alguém explica o fenômeno?

Quer ficar famoso? Escreva para o Simplicíssimo, publique algum texto no Simplicíssimo!

Calma! Explico:

Há tempos noto que as pessoas chegam lá no Escrever Por Escrever e aqui no Simplicíssimo através de pesquisas no Google, Cadê, Altavista e assim por diante.

Até aí tudo bem, é para isso mesmo que serve uma ferramenta de buscas. O que acontece, e que não consigo explicar, é como o Simplicíssimo consegue ficar em primeiro lugar na pesquisa no Google das palavras pátina provençal, mesmo tendo um site chamado www.patina.com.br que trata especificamente do assunto.

Outros exemplos engraçados/curiosos:

Primeiro lugar da busca (não paga) para magridiet.

Segundo lugar para a busca de "Metais, Não-Metais, Semi-Metais"

Segundo lugar para a busca por "presente para homem"

Segundo lugar para a busca por fotos de bandas.

Terceiro lugar para a busca como surgiu a sociologia, segundo para como surgiu a engenharia, como surgiu a economia, como surgiu a medicina e primeiro lugar para como surgiu a psicologia.

Mas, o maior achado foi encontrar, o Simplicíssimo em primeiro lugar nas pesquisas no Google para a palavra simplicissimo. Incrível!

Bem, se for enumerar os exemplos, são centenas de palavras-chaves estranhas em que o Simplicíssimo encontra-se entre os 3  primeiros lugares no Google.

Sim, existe o viés de seleção (descobrimos obviamente as palavras-chaves que levaram as pessoas até o site e, logicamente, estas estão entre as primeiras), mas o que mais encuca é esta maluquice (que na verdade é boa para o site) de ser encontrado facilmente em buscas pela Internet.

Convocamos aos Simplileitores que tenham página na Internet a falarem sobre os acessos mais inusitados que tiveram em seus sites ou blógues.

Queremos agradecer também àqueles que votaram no Simplicíssimo para o Melhor Site de Arte e Cultura no Prêmio IBest. Valeu pela força!

Mais uma coisa: LEIAM as citações abaixo! Estão impagáveis!

Rafael Luiz Reinehr

PS: quem perceber as falácias escritas acima, fique quieto por favor!

 

"Quando um crítico deve julgar uma obra pode escolher dois métodos. Ou limitar-se a essa única obra do autor e abstrair das outras; - ou integrar no seu juízo toda a produção do autor. Mas na maior parte das vezes ele emprega um outro método que lhe deveria ser sempre interdito - consiste em integrar no quadro das suas considerações, paralelamente à obra submetida a crítica, outras obras de acordo com o humor da sua escolha, deixando arbitrariamente de lado as outras que, de momento, não servem o objetivo que persegue ou o efeito que pretende obter, outorgando-se assim o direito de fragmentar o autor a seu belo prazer.
Quantas vezes acontece - e não é necessariamente por má vontade - que o crítico projeta na obra de um autor a sua idéia fixa, sem ser já capaz de aí ver outra coisa a não ser essa idéia, que o obceca de modo monomaníaco; - enquanto que para o autor ela é na sua obra apenas um elemento entre dezenas e não necessariamente o mais importante.
Atribui-se ao artista uma intenção artística, ética ou outra que ele nunca teve e critica-se-lhe o fato de não ter atingido aquilo que ele queria.
"

Arthur Schnitzler, em "
Arte e Crítica"

"Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o gênio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles.

Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal."

Giovanni Papini, em "Relatório Sobre os Homens"

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Pressentimento
Luiz Antônio Ribeiro

Verônica acorda assustada. Tivera um sonho ruim. Era supersticiosa, acreditava que tudo acontecia por algum motivo. Já sabia, naquela hora, que teria um dia ruim, que tudo daria errado, e já estaria agradecendo a Deus se ninguém morresse na família, agradeceria mais ainda se não fosse ela a falecida.
Dorme novamente. Tem outros milhares de sonhos legais, mas ao acordar só lembra daquele que não pára de perseguir sua mente. Levanta, toma banho, arruma-se para o trabalho, toma café da manhã, pega a chave do carro e...não, melhor não ir de carro hoje, melhor ir de ônibus, se morrer não será a única.
Saí de casa atabalhoadamente. Olha para os lados, tomando muito cuidado. Entra no ônibus e senta-se ao lado de uma velhinha, se algum bandido entrar terá pena da velhinha, todos têm pena de velhinhas. Ao sentar-se perto da senhora, corre o risco de que esta perturbe sua paciência, velhas adoram isso, falar e falar da vida, do passado, de desgraças e doenças. Mas esta velhinha até que era legal, parecia ser muda.
Salta do ônibus sem nenhum risco. Dirige-se ao trabalho e fica com medo. Será que ao chegar em sua sala verá suas coisas guardadas em caixas? Será seria hoje o dia em que seria despedida? Mas estava indo tão bem. Entra tentando mostrar confiança, dá “bom dia” a todos displicentemente. Estava tudo em ordem na sua sala, graças a Deus, e o melhor, ninguém percebera sua tensão. Só mais tarde que a copeira pergunta: “Verônica, tudo bem com você?” Ela gela, fica fria, rosa, roxa, vermelha, passa por todas as tonalidades possíveis em um camaleão, tenta controlar-se e pergunta: “Porque?” Por nada, diz a outra. Acalma-se e diz: “Tudo bem, e com você?” O pior já tinha passado, ela não percebera também. Mas se nada tinha acontecido até agora, deve estar guardado para a tarde, ou par a a hora do almoço. Almoço? Pediria comida na empresa hoje, para prevenir algo, nunca se sabe.
Cinco da tarde e nada. O que será? Deve ser algo muito grave. Por isso, demora tanto para vir. É morte, com certeza. Só pode. E deve ser por agora, na hora do suicídio, na hora do pôr-do-sol. Que horror esses sentimentos, sempre sentia-se tão segura, nunca mais gostaria de ter um sonho desses.
Até agora tudo na mais perfeita ordem. Já é fim de expediente, só falta à volta para a casa. Nervosismo de novo. Entrar no ônibus com muita calma, pagar o trocador, sentar perto de uma velhinha, torcer para ela ser muda. Olhar pela janela, ou para as mãos, segura-las juntas, para não demonstrar seu interior. Pronto. Puxar a cordinha, a cordinha, será que ela está funcionando? Imagina se está quebrada e não dá tempo de chegar ao motorista? Gritar, jamais, desço no próximo ponto. Levanta, puxa a cordinha, o motorista para e Verônica desce. Olha para sua casa e vê vários eletrodomésticos em casa. Desespero. Será que esquecera o aluguel? Estão lhe levando tudo? Puta que pariu, alguém tinha que lembra-la dessas coisas. É o fim, despejada, na rua. Sabia que algo aconteceria.
Vai devagar em direção de casa. Entra em silêncio, não fala com ninguém. Encontra o marido no sofá sentado. Ele pergunta: “O que houve, meu amor?” “Eu é que pergunto, eu sabia, tive um pressentimento. Para onde vamos agora?” “Para um lugar muito melhor. Nós ganhamos na loteria. Dez Milhões.” “Eu te amo, meu bem. Eu te amo. E, no fundo, já sabia disso.”

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Marfim
Camila Mello

Estou mudando
e meu corpo não se contém.
Há calos novos nos meus pés,
meu jeans reprime minhas carnes,
e enquanto ando sob o Sol
me concentro no som
salgado
das pulseiras sem sentido nem vontade,
inútil vaidade.
Abaixo, meu decote sua;
atrás, cada gota é sua,
sua e sempre,
a mão suja do dia-a-dia desabotoa,
sua filosofia.
Mas há mais...
35 graus centígrados no relógio!
(mas em mim há muito mais).
Há também o sussurro no meu ouvido,
\"está acabando\",
essa tentativa safada de me fazer parar de suar,
e ao suar sem parar,
suavizar-
me.
No meio do meu sorriso forçado,
e cansado que é, acaba calado,
há meu esforço em dentes tão claros,
sorriso cerrado.
Silêncio,
há o meu medo discreto da vida que vai me começar:
"haverá exigências",
digo-me
"e mais suor";
"dentes brancos",
diz-me
"Nudez de Marfim:
estou antropológico por ti,
Sol a pino,
sorte".

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

As nuances mais opacas

Eu tenho material suficiente para duas, três semanas. Eu, assim como Pablo, tenho sujeira para um mês. Eu tenho um espírito encardido para o qual não há esponja alguma que possa limpar. Pablo tem hipocrisia em seus olhos para sorrir com singeleza por mais quatro semanas inteiras, no mínimo. Eu também, tal qual ele. E assim, tenho desculpas colecionáveis que são fáceis de acreditar, tenho talento para embelezar momentos, para encher de romantismo os mais modestos reencontros. Tenho horários convenientes para abandonar a casa e uma história boa para contar. Mas não é bom acreditar em mim: assim como Pablo, sou um mentiroso e tudo me forma uma fachada – tudo é tão sujo em mim como é sujo em Pablo. Pablo observa os namorados refletidos nas paradas de ônibus, namorados que se beijam, que parecem amar-se definitivamente, que não hesitam em se entregar aos beijos enquanto uma platéia por trás do ônibus parado os invade com olhos gigantes e gulosos. Pablo também os engole e se pensa merecedor de momentos como aquele, embora sujo. Eu também, mesmo encardido, anseio tais performances apaixonadas, ósculos realmente repletos de desejo – e então eu poderei estar limpo durante todo o tempo.

Mas eu ainda não estou limpo. Assim como Pablo eu peno, consciente do ato e torno a fazê-lo. E prenuncio a gravidade, adivinho a importância do passo mal dado e caminho, torto, para a imundície. E me regozijo na sordidez, condiciono-me ao prazer vil e encontro na efemeridade aqueles instantes ínfimos que me garantem o riso arreganhado, o suor grosso e o gozo fraco, patético. E sei por antecipação dos engulhos de arrependimento, sei da dificuldade dos passos para o caminho de casa, sei dos olhares que mesmo desconhecidos me culpam, descobrem-me a falsidade, condenam-me, zombeteiros. São todos os cobradores de ônibus, todas as meninas que sentam nos bancos dos velhos, todos os suburbanos de camisetas regatas: todos eles me olham com desprezo, me desvendam as falhas de instantes atrás. As velhas com bolsas, as velhas que não conseguem lugar e se espremem contra mim também me amaldiçoam. Lêem meus pensamentos e querem gritar para o motorista que eu devo descer. As velhas fazem com que eu me vire para a janela e me atormente com o meu reflexo no vidro, por que eu não consigo – bem como Pablo eu não consigo ver os transeuntes caminhando lá fora.

Pablo toma-me pelo braço e me diz que há ducha forte para nos retirar o ranço. Diz que antes de estarmos definitivamente limpos devemos nos sujar à grande para valer a pena o tempo que levaremos para nos limpar. Para que a proporção seja tamanha e significativa, para que o riso seja mais branco e os olhos mais brilhantes, para que o odor se dissipe por completo e para que a carniça se afaste de nossas entranhas é preciso antes uma imersão mais completa na lama. Pablo me diz que isto é preciso – para uma alma mais limpa, é o que me diz Pablo. Eu me enegreço, assim como Pablo, e depois digo que meu espírito é fraco, que as tentações são grandes e que minha resistência é nula. Que sou admirável por não saber resistir. Pablo me faz pensar assim.

É por que eu sei, assim como Pablo, que logo estarei pronto. Logo, o antro me será asqueroso, a zona me será insuficiente e assustadores me serão os caminhos onde eu não veja com clareza. E então eu sei que haverá um instante no qual, se eu resistir por um momento, resistirei para todo o sempre. E este será o tempo em que tudo se tornará mais claro. É por que eu sei disso, assim como Pablo.

Se durante todo este tempo, daqui para diante, eu sentir-me não apodrecido, não envolto em pesada e já ressequida lama, se eu conseguir olhá-la com olhos que não sejam mentirosos, se não mais disser frases com o olhar voltado em outra direção; se eu não sentir-me compelido a confissões, a rasgares de almas para crenças nas quais não creio, se eu não sentir uma culpa infinita e um peso desesperado em cima dos meus ombros – é por que a sujeira terá começado a dissipar-se. E, Pablo, assim como eu, começará a sentir-se outro, após longo tempo, depois de passadas as quedas e os retornos para os erros, eu poderei começar a sentir-me limpo.

E eu verei cair a sujeira de uma vida inteira. E Pablo poderá olhar nos olhos uma noiva virgem que o espera em casa – ainda que haja putas que queiram lhe servir por quinze dinheiros nas noites de domingo.

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Parafernália
Ibbas Filho

E deu Peixe!

A festa do futebol de 2004 estava realmente emocionante. Um ano inteiro de muita bola rolando. Muito embora já há quem fale em mudar a fórmula (ai, ai ai, de novo?), não vejo nela a justificativa para o baixo público. Não faltou emoção para vários clubes até a última rodada e para todos até um pouquinho antes. Já a falta de dinheiro sim. O esporte do povo está com preços de casas de teatro, sem falar no que se gasta com o ônibus ou o estacionamento, nas pilhas do radinho, naquele lanchinho esperto, no amendoim torrado e na cerva gelada.

Mas enfim, teve até emoções trágicas de seqüestro, morte, transações milionárias que levaram nossos craques (deve ser a síndrome do Pau-Brasil), as supostas e as admitidas malas-pretas, aquela pancadaria no aeroporto e até mesmo os incidentes da comemoração.

Sem falar nas fortes emoções de quem esteve perto de descer um degrau. A zona do desespero não teve espaço para os cariocas, mas foi por um triz e Romário ainda é o que mais chama atenção por lá (vê se pode!). E a Bahia, que na música já deu graças a Deus, agora está totalmente em segundo plano. Oxente menino, vai dar uma preguiça ver esse clássico ...

Aqui no extremo sul do Brasil eu explicaria a dupla grenal assim: mais de 1 turno de derrotas versus quase 1 inteiro de vitórias. Deu no que deu, com o Periquito um pouquinho acima do Saci. Ah sim, para este último faltou perna (literalmente) para ir mais longe, mas há quem diga
que sobrou dedo (do Joel)... Ainda bem que o "Lori teve que sair" visto que os outros dois sob seu comando desceram a ladeira.

E a justiça, para variar, foi lenta e pouco justa: tardou e falhou com o pássaro azul. Quem morreu feliz fazendo o que mais gostava não merecia desmedida homenagem. Mas enfim, no final da festa o furacão passou batido (dizem que foi um, dois e três golpes do mosqueteiro azul) e deu mesmo Peixe, que não apenas nada, mas bate aquele bolão com seu consagrado técnico. Chato, arrogante, brigão, mas eficiente. Fazer o que...

Porco, tigre (que parecia de bengala), raposa (que não é mais aquela), macaca, urubu (quase na carniça hein?), periquito do centro, bacalhau do Almirante Eurico, Leão, Galo, Gralha e ainda a Figueira, o Velhinho e o Vovô, o Bugre, o Donald, o Santo Paulo, o outro espadachim, o cartola e até o bicho-papão também foram indispensáveis para a festa ser completa (espero não ter esquecido de ninguém).

Ah sim, se você não gosta de futebol e ficou perdido no meio dessa bicharada toda, volte semana que vem que eu devo estar falando de outra coisa, ou quem sabe ainda sobre peixe, já que emerge um forte lobby contra os saudáveis hábitos de vida, visto que a baleia só come peixe, nada o dia todo e só engorda!

Enfim, desculpem o pequeno atraso de hoje e para todos um belíssimo e feliz Natal!

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Utopias
Luiz Maia

A idade do lobo

Ninguém passa impunemente pela meia-idade, conhecida como a "idade do lobo".
A virada dos 40 anos, pela qual todos passamos, equivale a um novo ciclo de vida,
onde tudo parece ser desconhecido e assustador.

Não há como negar que vários fatores contribuem para isso: a ansiedade, o medo do desconhecido, a insegurança ao avistar a juventude sumindo,
tudo torna a pessoa refém de um tempo que se foi.

Poucas são as que procuram enfrentar a crise com sabedoria.
Ao invés de pensarmos que esta fase indica o ocaso do homem, que tudo acabou, poderiamos imaginar tratar-se de um período rico na fase de mutação do homem e da mulher.
Momento sereno, em meio a naturais questionamentos, de pleno encaminhamento à maturidade,
através das transformações e renovações que modificam a nossa maneira de ser.
O homem deveria aprender mais com a natureza.
Apreciar, por exemplo, as variadas formas de mutação acontecidas a cada dia.

Observar, com extrema naturalidade, o correr manso de um rio, levando suas águas ao oceano;
o pôr-do-sol anunciando o ocaso de mais um dia;
o silêncio da madrugada, à espera de mais um alvorecer,
o engatinhar de uma criança buscando alcançar novos caminhos.
Instantes mágicos que configuram o ciclo da vida.
Quem observa a natureza com paciência e carinho não perde a viagem.

Quem tenta descobrir a importância da ação do tempo em nossa existência, não tem como se preocupar.
Há que se observar também as inúmeras compensações que a idade madura nos proporciona,
inibindo a possível valorização de certos traços indesejáveis que a velhice nos traz.

Não podemos negar que nos tornamos mais experientes, um pouco mais sábios,
mais tolerantes com o próximo,
infinitamente mais preparados para lidarmos com as adversidades,
assim como com as coisas inerentes à afetividade e ao amor.
A meia-idade pode nos conduzir por caminhos mais serenos, que tranqüilizam o nosso ser.

Alarga nossos horizontes e nos faz pessoas melhores, desde que nos quedemos ao natural ciclo da vida.
Possibilita-nos renovar projetos de vida, círculos de amizade,
visão que nos leva a concluir velhos sonhos de ações solidárias.
Isso sem esquecer do tempo disponível que ganhamos para andar à procura de pessoas
que tenham a mesma afinidade nossa,
visando construir projetos que levem o bem-estar e a melhoria de vida às pessoas.
Tudo isso inspirado na sensibilidade que só o tempo pode nos oferecer.

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Silêncio no caminho

Estava atrasada. Desceu do táxi e correu para pegar o ônibus para Porto Alegre. Como não recebeu nenhum número de assento, tratou de sentar-se na janela mais próxima. Pediu licença para a senhora que estava sentada no corredor e começou a mexer na bolsa a fim de concluir a maquiagem às pressas.
- Como você consegue se pintar no ônibus? – foi a primeira fala da senhora até então inofensiva.
- Estou acostumada. Sempre faço isso. – respondeu calmamente e sorriu.
Terminou a maquiagem e olhou para a janela, uma linda tarde de junho brilhava do lado de fora. Seu coração estava suspirando ao imaginar o que lhe aguardava no destino final daquele ônibus. Mas seus pensamentos foram novamente interrompidos por mais um comentário da senhora ao lado.
- Acho que deu acidente na BR. – e começou a se esticar toda para conseguir enxergar melhor o que acontecia mais à frente.
- Pois é, o ônibus está lento. – sorriu novamente.
Calou-se e tentou concentrar-se. Queria planejar suas ações, queria imaginar o que estava por acontecer em poucos instantes, queria ter prazer com seus próprios pensamentos e aproveitar o calor do sol, porém era quase impossível permanecer em silêncio, era como se a tal senhora não conseguisse controlar a própria língua ou sofresse de uma carência muito grande, incurável.
- Você viu como estão acontecendo assaltos nos ônibus pinga e no Trensurb? É um absurdo! Minha amiga estava cochilando e um rapaz roubou-lhe a carteira de dentro da bolsa. Precisamos nos cuidar. Mas este ônibus está tão lento. Acho que é por causa do viaduto novo...
Falava inerruptamente. Era o inferno dentro da linha Novo Hamburgo/ Porto Alegre.
- Sim, está muito perigoso. – olhou para a janela e revirou os olhos, já apresentando sinais de impaciência. Pensou para si: Deus, tenha piedade. Quero ficar calada, quero relaxar, por favor faça com que esta gorda feia cale-se agora!!!
Teve vergonha de seus pensamentos. Como poderia estar sendo tão rude e tão egoísta, afinal aquela senhora poderia estar realmente precisando de um pouco de atenção. Poderia estar sofrendo de uma doença terminal e ter poucos meses de vida. Poderia morrer ao descer do ônibus, poderia morrer ali mesmo de um ataque cardíaco fulminante. Agora já estava pensando em morte. Como seus pensamentos mudaram tão subitamente por causa de uma gorda? Teve mais vergonha e procurou desviar os pensamentos, pensou no rosto dele, nos beijos, conseguiu se distrair.
O engarrafamento estendeu-se até a entrada de Sapucaia. Como o ônibus estava vagaroso, ela reclinou o banco e cobriu-se com a jaqueta. Suspirou ao pensar nos beijos e carícias que a aguardavam e caiu no sono lentamente. Que momento sublime, não ouvia mais a voz da companheira de assento, tudo ficou na paz total.
De repente despertou. Era a mesma voz, a mesma melodia irritante, era a gorda conversando com a passageira ao lado. Olhou rapidamente para fora a fim de identificar o lugar onde estava. Ajeitou-se e percebeu que o ônibus estava bem próximo da parada final. Que alívio, pensou. Finalmente vou me ver livre desta matraca.
Desceu do ônibus e olhou para trás. A senhora atravessou a rua e sumiu em meio aos pedestres. Ela embarcou no primeiro táxi que viu e continuou com seus pensamentos prazerosos. É muito provável que a gorda senhora tenha encontrado outro para atormentar antes de chegar ao seu destino. E é mais provável ainda que atormente todos aqueles com quem convive. Mas isso não era problema seu, não deixaria que nada mais pudesse atrapalhar a sua concentração. Estava livre novamente. Finalmente o silêncio pairava ao seu redor, a alegria invadia a sua mente, enquanto tremores tomavam-lhe o corpo cheio de tesão. Ah se os outros pudessem ouvir.

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Musicalidade de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai

Nervoso - Saudade de Minhas Lembranças

Foi em 2000 quando ouvia a boa surpresa que tinha comprado, o primoroso trabalho Stress, Depressão e Síndrome do Pânico dos Autoramas, e tinha sido logo arrebatado por uma canção de amor sincera, bubblegum e talentosa ao extremo, chamada “Carinha Triste”.

Juras de amor e sacadas geniais, como palavrões e fúria comuns ao sentimento, compostas pelo hitmaker Gabriel Thomaz, guitarrista da banda, em conjunto com um garoto de nome Nervoso.

Nervoso? Quem era esse? Garoto que também havia composto outra boa faixa do disco, de nome “Boa-Fé”, havia me intrigado de forma que qualquer passagem desse nome pela mídia seria meu motivo para acompanhar seu trabalho, até agora, muito satisfatório, pela qualidade das duas canções mostradas na banda dos amigos Gabriel, Simone e Bacalhau.

Corta para 2003, lançamento do primeiro trabalho solo de Nervoso, o EP Personalidade. Como prometido, fui descobrir seu trabalho, suas composições lançadas neste trabalho. Logo grandes canções me arrebataram, assim como haviam me arebatado via “Carinha Triste”. Até então não sabia nada do rapaz, e apenas tinha ciência de que seu talento valia muito a pena de ser descoberto.

Nervoso acaba de lançar seu primeiro disco por completo, Saudade de Minhas Lembranças. Ex-membro da mítica banda Acabou La Tequila, venerado por figuras como os conterrâneos dos Los Hermanos, fez parte por breves períodos também nas bandas Autoramas e Matanza, até surgir em carreira solo.

A primeira afirmação, mais encarada como uma negação, que faço aqui, é derrubar qualquer crítica preguiçosa de que Nervoso apenas soa como Los Hermanos. Me revolta profundamente como ouvinte musical me emocionar com os timbres da canção “Não Quero Dar Explicação”, e pensar que nenhum crítico teve a decência ao menos de calar a boca e ouvir sem pestanejos, ou caso queira ligar obra à influência, lembrar-se de grandes tempos de Odair José ou Paulo Sérgio.

E é exatamente isso que escapa todas as horas, que Nervoso mostra: o garoto tem talento. Foram muitos anos provando isso indiretamente, até finalmente deságuar em seu disco autoral. Saudade de Minhas Lembranças é isso, um disco próprio, sem receios de soar pejorativo aos outros, ora jovem guarda, ora brega, ora samba, ora qualquer coisa, mas sem perder o tal rumo de autor.

Seu primeiro single, “Já Desmanchei Minha Relação”, é jovem guarda no som, e personalidade Nervoso nas letras, letrista de mão cheia para ironias finas (“E nosso olhar não permitiu/Um grande avanço/E é por essas e outras/Que eu não tenho mais saco/Para te servir, meu bem”) e saborosas, que permeiam todo o disco. Outra particularidade do trabalho é a voz de Nervoso, de personalidade forte, e totalmente inconfundível.

Acho mesmo que o garoto não errou ao imprimir o título de seu EP como cartão de visitas, estamos diante de um momento pop quase nunca visto no Brasil, o de caso de música boa, cujo pequenas marcas próprias fazem dela, autêntica e original. Falemos a verdade que para fazer sucesso no meio musical, já há imaginários impressos de certas notas e acordes certeiros, templates musicais, para “como surtir efeitos à primeira ouvida”. Nervoso não segue tal, e acerta como nunca.

Saudade de Minhas Lembranças é disco para se ouvir emocionado, para aqueles que acreditam no amor, mas não são otários, que gostam de pop, mas não são fáceis, que gostam de vocalistas e músicos que realmente gostam e dão a cara à tapa no que fazem. Um garoto inserido na esperteza de ser como é, e nada mais. Um garoto que merece ser ouvido.

*** Ouça o single “Já Desmanchei Meu Coração” aqui.

 

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Bacantes Literárias
Gilson Giuberti Filho

Ensaio nº 11

Internado há três dias; crise de asma. Desde garoto uma rotina; pausa por uns anos e tudo novamente...
- Boa noite Felipe!
- Boa noite enfermeira...Injeção agora?
- É...
Prepara o equipo; começa a injetar.
Olha-me com a piedade e ternura de sempre – conhecia-me há anos...Após segundos, começo a sentir certo desconforto: seu sorriso sempre bondoso, seu semblante de paisagem começa a causar-me espécie. No lugar dele vai surgindo uma expressão estranhamente maliciosa, gradativamente má.
Percebo que seus olhos vão se injetando de vermelho, tomando dimensões assustadoramente maiores. O queixo vai ganhando proporções mais proeminentes e a boca transfigura-se num rostro de inseto carnívoro. A pele vai tingindo-se de pardo ao mesmo tempo em que cresce de tamanho; para o alto. Agiganta-se.
Novos braços multiarticulados vão surgindo de seus flancos, perfurando em frangalhos suas vestes alvas de enfermeira. Começa a subir pela cama.
Entre eu e o teto, neste momento, há uma criatura.
Os olhos vermelhos de fúria, as quelíceras recém-surgidas tremeluziam freneticamente sobre minha cabeça, ante o quebraluz da parede, crepitando como gravetos quebrados.
Estava atônito e paralisado: suas patas impediam-me de mexer sob os lençóis como uma camisa de força.
Ao instante de gritar uma gosma branco-opalescente derrama de sua boca sobre a minha face, esgotando imediatamente a possibilidade de respirar. Tento gritar...Em vão: sufoco-me.
Seu abdome oblongo estende-se solenemente para o alto levantando todo o seu corpo; gira-o então, em direção à minha pelve. Um ferrão se apresenta – enorme como uma espada. Desespero: giro minha cabeça para os lados, aterrorizado. Consigo me libertar da gosma. Grito com todos os meus pulmões.
A porta se abre, num espasmo.
- Rutiléia!
- Sim Dr. George!
- Esta morfina era para o 303!

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Ombudsman
Rafael Luiz Reinehr

O Acidente do Pimpolho

Nosso Ombudsman não poderá escrever sua coluna nesta e possivelmente na próxima semana.

Fomos informados pela mãe  do rapaz que o mesmo sofreu um acidente automobilístico na noite da segunda-feira e encontra-se ainda em estado regular no setor de tratamento semi-intensivo do Hospital Alfredo Dotta, já tendo sido operado por um afundamento craniano leve e possivelmente devendo se submeter a uma cirurgia plástica reconstrutora nos próximos dias.

Em nome dos colunistas e leitores do Simplicíssimo, esperamos que nosso tão recente mas já destacado colunista tenha pronta recuperação e volte a publicar sua coluna neste espaço no mais curto intervalo de tempo possível.

Desta feita, não teremos o Ombudsman de praxe nesta edição.

Serão transmitidas notícias do estado de saúde do colunista tão logo nos sejam fornecidas nos comentários abaixo.

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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