Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade embriagada de champagne


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Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Que venha 2005!

Dureza pessoal... Esse ano que passou foi "boca braba" para nós aqui no Simplicíssimo. Só sabe o que foi manter este site atualizado semanalmente quem estava navegando  de dentro, remando, dando braçadas e, de quando em vez, tirando a água que insistia em molhar o convés.

Depois de uma ingrata surpresa no começo deste ano, em que este Editor que vos fala foi convocado a prestar serviço militar obrigatório em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, tendo que levar de mala e cuia todas suas tralhas para um local distante 300 km de sua morada usual, enfrentamos altos e baixos com "inadimplência texticular" de alguns colunistas, quedas de servidores, "paus" nos computadores da equipe que confecciona o site e outros percalços (é assim que se escreve?) mais, chegamos aqui, firmes, fortes e informais, prontos para mandar lenha em 2005.

E haja caldeira, pois as idéias são muitas.

O primeiro plano já para os primeiros meses do ano é transformar em realidade a nova plataforma em que o Simplicíssimo irá se basear: Mambo. Trata-se de um sistema de gerenciamento em php (linguagem de sites) que tornará o Simplicíssimo muito mais rápido de navegar, extremamente dinâmico e fácil de se gerenciar e publicar. Até quem tem um 486 com conexão a 28.800 poderá acessar o Simplex a mil por hora!

Já estamos à cata de colunistas para versarem sobre sexo e teatro (as seções mais votadas até agora em nossa enquete) mas queremos expandir nossa área de abrangência para as outras zonas do conhecimento citadas na pesquisa (economia, gastronomia, cinema, política, esportes, artes plásticas, fotografia, religião, qualidade de vida, saúde, humor) e outras mais que nos forem sugeridas ou se apresentarem.

No decorrer do ano, os acessos ao site aumentaram gradativamente de cerca de 2.000 acessos por mês para mais de 5.200 até agora, em dezembro, perfazendo um total de mais de 180.000 hits somente neste mês. Ainda são números humildes se comparados com sites editados por jornalistas, publicitários e afins sediados no Rio ou em São Paulo, mas estamos, mordida a mordida, conquistando nosso lugar.

Isso, não poderia deixar de dizer, graças à cada um de nossos Simplileitores, uns mais outros menos fiéis mas, de qualquer forma, sempre muito empolgados em seus comentários, participações e sugestões.

Vez ou outra, noticiamos um aquecimento exagerado em uma ou outra discussão, defesas e ataques a colunistas, ora ocasionados por Ombudsmen do lado de cá, ora por falta (ou excesso) de Tato do lado de lá e assim a embarcação foi seguindo seu rumo.

Como timoneiro orgulhoso que sou, sei que me falta muito a aprender para levar esta Nau sempre em frente ao seu destino incerto. Sonho com um número 500 daqui a alguns anos, assim como com um número 1.000 e, porque não, um histórico número 10.000 que nossos filhos e netos poderão presenciar.

Mas para isso, estou certo de que não há caminho outro senão contar sempre, eu disse contar SEMPRE com a ajuda - inestimável - de cada um de vocês, leitores, amigos e participantes de valor incalculável deste sonho que é realidade chamado Simplicíssimo.

Um ótimo começo de 2005 para todos e perseverança no caminho que cada um escolher para si na longa jornada da vida, são os sinceros desejos do seu editor,

Rafael Luiz Reinehr

 

"Diz-se que quem modifica de tempos a tempos as suas idéias não merece qualquer confiança, porque faz supor que as suas últimas afirmações são tão erroneas como as anteriores. E, por outro lado, quem mantém as suas primeiras idéias e não as abandona facilmente, passa por teimoso e iludido. Perante estes dois juízos opostos da crítica, há só uma opção a fazer: permanecer-se aquilo que se é, e seguir-se apenas o próprio juízo."

Sigmund Freud, em "As Palavras de Freud"

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Sentimentos em Estação
Caio Marcelo de Albuquerque Cardoso

Por onde ando, caem flores como se fosse outono,
por onde eu olho tudo parece florescer como se fosse primavera,
por quem meu coração se apaixona, se estremece e fico frio de nervoso como se
fosse o inverno,
mas meus sentimentos ficam acesos e quentes dentro de meu sofrido corpo como se
fosse o verão e minha vida passa tão rápido quanto as estações,
e quase ninguém a percebe, apenas eu sinto-a com tanto fervor

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

Antes da noite chegar

Passadas as dezenove horas e o papel prendido à maquina ainda é uma pergunta em branco que insiste em perturbá-lo, a lembrá-lo de sua necessidade de preenchimento. O escritor faz uso de suas memórias mais recentes, recorre aos livros que estão ao alcance de suas mãos logo ali, na estante e sabe que percorrer suas páginas é mais que um convite à inspiração – inevitavelmente fará sua alguma trama que lhe entrará à memória, mesmo que travestida de novo argumento, como se vivenciada em nova situação fosse. Para o escritor, as dezenove horas passadas são mais que horas de desespero: entrando as vinte horas, sabe que inexistência de palavras marcadas nas folhas de papel ofício serão mais do que a certeza de sua ineficiência momentânea, de sua falta parcial do que escrever; será, no seu desespero absurdo, a concretização de sua incompetência, a prova de seu erro em querer aventurar-se pelas letras para dar algum sentido que insiste ser mais do que mera vaidade, que faz questão de justificar como a sua expressão artística. Ao final do dia, não preenchida a página, ao escritor não restará senão a amargura de mais uma noite pronta e mais um dia inutilizado. Se cada dia é a possibilidade para se preencher de maneira fundamental o papel, seu inapelável instrumento de trabalho, o dia perdido à contemplação do tema, à procura da criação da história, à fundamentação de suas memórias é como um tapa seco e indiscutível, o veredito que não precisa ser-lhe informado por outrem – é o escritor próprio quem percebe que findo um dia inteiro a observar o papel preso à Facit, a procurar pequenas ocupações que lhe sirvam como alívio de pensamento: o cigarro que não fuma, o café que não bebe por que está quente demais e o quarto por demais abafado e ainda sem ventilador, terá a resposta que nem tem coragem de perguntar em voz alta a si mesmo por temer a confirmação de sua resposta. Uma página em branco no fim do dia do escritor é o fim do dia do escritor.

Não obstante, o telefonema que não flui como a maioria das vezes, já foi a resposta à incapacidade do escritor em fazer-se ao menos eficiente nas coisas do relacionamento. Nem nisso o é. O monólogo que lhe chega pelo fone, os argumentos imbatíveis que a outra lhe apresenta, o choro que não tem palavras para controlar, as ofensas que lhe são jogadas sem que tenha justificativas para amenizar, empurrariam o escritor no fosso mais profundo de tristeza, não tivesse o escritor pretensão de transformar mesmo as mais doídas experiências de vida em material para seus escritos.

Mas nem isso o escritor consegue. Ao fim do telefonema que não tem forças para retornar, ditas as barbaridades que não tem razão para contestar, machucado o seu coração que não tem maneiras de curar, o escritor nem isso consegue transformar em ficção. O medo que lhe toma é de quedar-se na confissão banal e abominável. Para o escritor, cento e cinqüenta laudas não preenchidas a uma página que seja de confissão gratuita e adocicada de sentimentos magoados. Prestes a findar o dia a contemplar paredes brancas, a folhear livros cujas frases já lhe são memória e a acariciar com os dedos dos pés os cachorros que insistem em rodeá-lo, o ofício do escritor é nulo como a parede que o pedreiro não levantou – a página em branco a fitar o escritor, pedindo-lhe providências é um som de alarme tão exasperante que o escritor nem tem coragem de abandonar o local do incêndio: sente pena de si mesmo quando a água de emergência molha seu terno amarfanhado, embaça seus óculos grossos demais e não lhe é fria o suficiente para fazê-lo mover-se um triz sequer da cadeira em que continua prostrado para continuar fitando (ensandecido seria se não fosse triste pela constatação) o papel que em empáfia lhe inquire sobre o porquê de seus dedos tão crispados, seus argumentos tão pobres e sua mente tão embotada.

A página em branco à frente do escritor é o seu desafio de todos os dias. O som do tipo a preenchê-la com palavras que se vão concatenando é a realização de sua vida. A história que se vai revelando através da tinta invisível que se mostra conforme as teclas são pressionadas pelo escritor é o pagamento pelo dia inteiro de sofrimento mental, não pelo branco, mas pela confusão que se lhe forma em mente e o impede de discernir o que é necessário, o que é propriedade de outrem e o que é inadmissível que lhe ronde os pensamentos.

As teclas compondo sinfonia aos seus escritos é mais do que toda a música que o escritor desejou ouvir em um só dia. Passado todo um dia em que a mediocridade do escritor foi tamanha, que se tornou um diletante do ofício à mercê de sentimentos românticos de inspiração e seus métodos foram ineficazes para conseguir fazer de um dia, um dia de trabalho, ainda assim ter certeza de que a história que começa a compor é uma história que, antes da noite chegar, terá valido todo o dia de inexatidão, já lhe é a recompensa mais do que merecida, o alívio que o faz sentir-se merecedor realmente deste título tão inebriante quanto vaidoso, mas tão simples quanto necessário. O escritor se reconhecesse em seu ofício e sabe que a noite pode vir, definitivamente.

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Parafernália
Ibbas Filho

ZzZzZzZz

Acordou num sobressalto: Meus Deus, dormi na sessão! Pensou consigo, bem baixinho, mas bem baixinho mesmo. Certa vez teve a impressão de que ela poderia ler seus pensamentos e era bom não vacilar. Mas havia vacilado e que tremenda mancada. Também pudera, trabalhara demais ao longo de toda aquela semana e a festa de comemoração do lançamento do novo produto varou a madrugada.

O pavor começa a tomar conta do seu ser interior e se perguntava: Por quanto tempo teria eu dormido? Será que a doutora percebeu? O que faço agora? Com o coração pulando enquanto seus braços e pernas faziam um enorme esforço para despertar, matutava a melhor resposta à indagação que estava por vir. Diria: Isso nunca aconteceu antes ... Mas recuou. Pareceria meio romântico e ela não lhe pouparia de uma resposta bem psicanalítica. Aliás, por alguns longos minutos parecia que qualquer que fosse sua fala, seria metralhado com alguma de suas interpretações. Pior que ela sempre acertava. Já imaginava ela falando da sua dificuldade em priorizar o tratamento, que eu não deveria ter se excedido no trabalho, na festa, em ambos.

Ficarei quieto esperando. Mas seus botões o fizeram repensar. Poderia ser pior, ela ia dizer que ele era tímido, que tentava esconder o que lhe assustava. que não estava muito disposto a lhe contar seus segredos, que tinha medo de compartilhar, etc. Já sei, vou falar a verdade. Ela sempre lhe disse que a verdade é o melhor caminho e isso lhe pareceu de fato a melhor opção. Encheu o peito de ar, tomou coragem, ajeitou-se novamente no confortável e acolchoado divã. É agora, vou ...

Um barulho interrompe seu devaneio. Do outro lado do divã, a queda de um livro acordou igualmente de sobressalto a terapeuta. Aliás, a sessão já deveria ter terminado há meia hora. Novo silêncio. Ficaria difícil saber em que criatura daquela sala a angústia teria sido maior. Ela tomou a iniciativa. Colocou a mão no ombro dele e disse:

_ Nos vemos na próxima sessão. Era a frase que usava costumeiramente ao final de cada consulta, embora desta vez com uma voz típica dos melhores taquarais da região. Mas nada que ele tivesse percebido. Não estava em condições de prestar atenção em algo além do que se passava dentro dele.

Levantaram-se e foram em direção à porta. Quase que ele cai. O pé direito ainda não firmava, o corpo todo não firmava. Ela se perguntava o que teria acontecido e imaginava ter perdido toda a história de um pé machucado ou algum acidente enquanto dormia (ele sempre estava metido em confusão). Ele não lhe dirigia o olhar, envergonhado que estava. O aperto de mão selou de vez o pacto. Deram as costas e a porta fechou. Só não ouviram o suspiro de alívio um do outro porque soaram no mesmo instante. E não se falou mais nisso.

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Utopias
Luiz Maia

Alma feminina

Com a exaustão do modelo masculino de sociedade, fica cada vez mais evidente a ascensão das mulheres.
Homens e mulheres começam a se acostumar ao seu novo papel social, adaptando-se
às mudanças no relacionamento com o sexo oposto.

A nova mulher, que hoje atua e interage de forma inteira e responsável em todos os setores da sociedade,
vê no homem não mais um "protetor" ou "dono",
mas um aliado com quem sente prazer de partilhar a vida de forma plena.

Os casais modernos assumem posturas antes jamais imaginadas ao estabelecerem padrões de comportamento que valorizam a unidade e a igualdade nas relações,
onde a mulher abandona sua condição de mera coadjuvante e
passa a compartilhar de todas as atividades na condução da vida do casal,
enquanto os homens começam a desenvolver qualidades e virtudes
só encontradas no interior da alma feminina.

Tudo faz crer que estamos diante da reabilitação do culto da feminilidade,
algo que vai além do estereótipo feminista.
Se por um lado a mulher adquiriu maior expressão e liberdade de ação,
participando mais ativamente no seio da sociedade,
é verdade também que o homem absorveu essas mudanças de bom grado
e começa a se libertar da couraça patriarcal que o reduziu, muitas vezes,
à simples condição de machão insensível,
passando a assimilar mais para si a energia feminina que há anos repousa inerte em seu âmago,
impedida que foi de prevalecer por fatores meramente culturais.

Interessante é imaginar o novo homem e a nova mulher construindo
uma relação prazerosa baseada no respeito e na cooperação mútua.
Dentro dessa ótica, aos poucos o mundo vai de fato mudando.
Passamos a ver homens e mulheres lutando para transformar em realidade
atitudes comportamentais que só vêm valorizar a espécie humana.

Benditas são as mulheres que refizeram valores e convocaram o homem
a exercer outros aspectos ocultos em sua sensibilidade reprimida,
como chorar e dizer "te amo" sem constrangimentos, como exemplos.

E benditos os homens que souberam entender a grandeza da mulher em sua essência,
aceitando-a como co-autora na construção de seus destinos,
sendo ambos responsáveis pelo equilíbrio entre os sexos
e da condução de um novo alvorecer em suas vidas.

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Procurar

Alguém me viu por aí?
Eu não estava em mim.
Pensei que era eu, mas era outra pessoa!
Se tu me encontrares, que por favor me dizer para voltar?
Seu eu não quiser retornar, me puxe, me arraste, me obrigue a acordar.
Porque eu adoro passear, adoro fugir daqui!
Às vezes encontro algo do lado de fora que parece reluzir, não me deixa voltar.
Mas se tu tentares me mostrar que precisas de mim, vou entender que vós sois eu e que finalmente vamos nos unir.
Seremos completas.
Cabeça e alma, amigas até que a vida nos ensine que não devemos jamais nos separar, devemos evoluir juntas.
Achaste?
Eu estou aqui!

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Musicalidade de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai

Deerhoof - Bibidi Babidi Boo

Por mais democrata que o Brasil possa ser, caso existisse uma banda como o Deerhoof por aqui, ela certamente seria esmagada por opiniões de críticos ou infiltrados no meio musical, que iriam desmoralizar a imagem de banda como algo sem talento, sem seguir algo linear, sem ter algo a dizer.

O Deerhoof faz parte das bandas dementes que alguns lugares do mundo felizmente ousam em soltar. Se a arte usou das pinturas e quadros formas de estudos para determinado efeito visual, porque não a música fazer de canções laboratórios sonoros? Não ter de acertar sempre, ou ainda, ter sempre que estar certo, dentro dos parâmetros de correto da sociedade?

Bibidi Babidi Boo mostra uma banda que acredita nisso, e ainda, faz de forma não-convencional porque pode, porque quer, e ainda, porque não quer possuir porquês. Por que a vocalista canta apenas algumas palavras com uma voz de criança, ou o guitarrista não acerta o andamento 4x4 de determinada música?

Eu, para atingir certas camadas do popular, tenho que teorizar algo que simplesmente não me é estranho porque é normal para a minha pessoa. Apesar de muitos dos andamentos soar excêntrico ou particular para alguns, vezes saídos de um acaso de notas, Bibidi Babidi Boo traz a banda em um estado aonde se pode provar que nada é muito acaso, nem os erros: em ambiente ao vivo, todos os andamentos são reproduzidos como estão em seus álbuns de estúdio. Basta ouvir a clássica “Dummy Discards a Heart”, primeira faixa do disco, um dos riffs mais poderosos que eu já ouvi na vida, ou “Panda Panda Panda”, cujo andamento voz-guitarra-bateria dá um nó no cérebro, não sabendo muito quem seguir.

A criatividade da banda beira à perfeição: “Flower” é uma verdadeira declamação dos infernos, e “Milking” é pop (uau!), o que prova mais uma teoria: que a banda consegue ser pop. Não quer? Não quer.

Em www.deerhoof.killrockstars.com vocês podem comprovar tudo isso, fazendo download do disco inteiro. Para a próxima vez que tropeçarem no palco e errarem alguma nota de sua guitarra, faça com Pollock e use o erro como acaso. Ou use Deerhoof para acordar de manhã.

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Suburbanas
Marcos Claudino

Duas Histórias de Amor

João amava José. José amava João. João tinha poucos amigos. José tinha muitos. João só tinha amigos que o aceitavam como ele era. Nenhum dos amigos de José desconfiava que ele tinha um “defeito”. João era muito sincero. José só era sincero com João. José fingia. João vivia suas escolhas plenamente.
Acontece que um dia, José e João estavam passeando no parque de mãos dadas. José avistou uns amigos do trabalho, e largou a mão de João. Cumprimentou os amigos, e apresentou João como um “colega”. João compreendeu a “vergonha” do amado, e interagiu com as conversas. Só se chateou quando José mexeu com uma garota volumosa de calças apertadas. Voltaram pra casa e não se falaram. No dia seguinte as roupas de José estavam arrumadas dentro da mala, na entrada da casa de João.

Ana amava Maria. Maria amava Ana. Ana tinha poucos amigos. Maria tinha muitos. Ana só tinha amigos que a aceitavam como ele era. Nenhum dos amigos de Maria desconfiava que ela tinha um “defeito”. Ana era muito sincera. Maria só era sincera com Ana. Maria fingia. Ana vivia suas escolhas plenamente.
Acontece que um dia, Maria e Ana estavam passeando no shopping de mãos dadas. Maria avistou uns primos distantes, e largou a mão de Ana. Cumprimentou os primos, e apresentou Ana como uma “colega”. Ana compreendeu a “vergonha” da amada, e interagiu com as conversas. Só se chateou quando Maria olhou para um garoto sarado de músculos volumosos. Voltaram pra casa e não se falaram. No dia seguinte as roupas de Maria estavam arrumadas dentro da mala, na entrada da casa de Ana.

Muito tempo se passou, e a vida encaminhou João à vida de Ana. Casaram-se e são muito felizes, cúmplices da necessidade de se completarem. Ana sabe que o grande amor da vida de João foi José, e João sabe que Maria foi o grande amor de Ana.

José encontrou Maria numa dessas fugas pelo bem da imagem que achava que a sociedade exigia. Fingiu gostar de Maria, e esta retribuiu o fingimento. Casaram-se na semana passada, mas parece que não estão muito bem não, só brigam, e saem de casa no meio da noite em busca de uma felicidade ilusória que só o sexo consegue passar...

Que em 2005 tenhamos aprendido um pouco mais sobre o sentido de felicidade. Que o novo ano traga uma evolução moral nas pessoas, elimine conceitos e pré-conceitos antigos e sem sentido, que Joões, Josés, Anas e Marias sejam decentes e felizes.

Essa foi a única maneira que eu encontrei para te desejar um feliz ano novo!!!

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O Anestesista do Sr. Pimpolho

O Acidente do Pimpolho (II)

Bem, como vocês sabem o Sr. Pimpolho sofreu um grave acidente. Ele até vinha se recuperando bem, mas devo informá-los que neste exato momento ele passa por uma delicada cirurgia. Ah, sim, deixa eu me apresentar. Sou o anestesista da sala. Entre um palavrão e outro (já mandou alguns por aqui “olhar urubú” – assim com acento mesmo), me me pediu para escrever algumas palavras para vocês. Por sorte nosso hospital conta com um alto aparato tecnológico e temos computador com acesso à internet em todas as salas do bloco cirúrgico. Isto é ótimo inclusive para transmitirmos as cirurgias via webcam para especialistas do outro lado do mundo opinarem. Também é bom porque eu adoro ficar jogando paciência até esse cirurgião mala terminar o trabalho dele. Eu conversava com o Sr. Pimpolho sobre tudo isto e surgiu até a possibilidade de colocarmos toda a operação online, mas daí eu me empolguei e injetei anestésico demais e ele está roncando mais que porco gripado.

Ah sim, ele também ia me dizer o que escrever para vocês e agora estou nesse aperto e não tenho a mínima idéia do que falar. Me dêem só um minutinho que o doutor ali tá me chamando. (...) Diminuir o ronco? Ora diminuir o ronco. Ele pensa que os pacientes têm um botão de volume. Mas não se preocupem que esse cirurgião apesar de chato é fera no trabalho e sabe operar como ninguém. O Sr. Pimpolho está em boas mãos. E isso deve ser o mais importante que eu tenho a lhes dizer, até mesmo porque não joguei nem uma partida ainda e tenho que aproveitar o tempo daqui. Em casa minha mulher fica uma arara se eu não dou atenção pra ela. É outra que reclama do volume do ronco. Não os do Sr. Pimpolho logicamente. Ai meu Deus o cara de novo perai. (...)

Olha só que coisa, tem uma mulher gritando histericamente pelo Sr. Pimpolho lá na sala de espera do bloco cirúrgico. Esse cara é famoso ou do meio artístico? Nunca vi, mesmo porque eu só assisto televisão de vez em quando para agradar a nega veia lá de casa. Meu monitor é mesmo o do computador com aquelas cartas todas hmmmmmmm. São elas que me chamam agora. Já sei! Como muito provavelmente o Sr. Pimpolho não estará recuperado ainda na semana que vem, vou passar a bola de escrever aqui para essa fiasquenta ali de fora que já está me dando nos nervos. Quem sabe assim ela se acalma, não é?

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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