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29/12/2004 - Edição número
108
Horizontes
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Editorial
Rafael Luiz Reinehr |
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Que venha 2005!
Dureza pessoal... Esse ano que passou foi
"boca braba" para nós aqui no Simplicíssimo.
Só sabe o que foi manter este site atualizado semanalmente
quem estava navegando de dentro, remando, dando braçadas
e, de quando em vez, tirando a água que insistia
em molhar o convés.
Depois de uma ingrata surpresa no começo
deste ano, em que este Editor que vos fala foi convocado
a prestar serviço militar obrigatório
em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, tendo
que levar de mala e cuia todas suas tralhas para um local
distante 300 km de sua morada usual, enfrentamos altos e
baixos com "inadimplência texticular" de
alguns colunistas, quedas de servidores, "paus"
nos computadores da equipe que confecciona o site e outros
percalços (é assim que se escreve?) mais,
chegamos aqui, firmes, fortes e informais, prontos para
mandar lenha em 2005.
E haja caldeira, pois as idéias são
muitas.
O primeiro plano já para os primeiros
meses do ano é transformar em realidade a nova plataforma
em que o Simplicíssimo irá
se basear: Mambo. Trata-se de um sistema
de gerenciamento em php (linguagem de sites) que tornará
o Simplicíssimo muito
mais rápido de navegar, extremamente dinâmico
e fácil de se gerenciar e publicar. Até quem
tem um 486 com conexão a 28.800 poderá acessar
o Simplex a mil por hora!
Já estamos à cata de colunistas
para versarem sobre sexo e teatro (as seções
mais votadas até agora em nossa enquete) mas queremos
expandir nossa área de abrangência para as
outras zonas do conhecimento citadas na pesquisa (economia,
gastronomia, cinema, política, esportes, artes plásticas,
fotografia, religião, qualidade de vida, saúde,
humor) e outras mais que nos forem sugeridas ou se apresentarem.
No decorrer do ano, os acessos ao site aumentaram
gradativamente de cerca de 2.000 acessos
por mês para mais de 5.200 até
agora, em dezembro, perfazendo um total de mais de 180.000
hits somente neste mês. Ainda são números
humildes se comparados com sites editados por jornalistas,
publicitários e afins sediados no Rio ou em São
Paulo, mas estamos, mordida a mordida, conquistando nosso
lugar.
Isso, não poderia deixar de dizer,
graças à cada um de nossos Simplileitores,
uns mais outros menos fiéis mas, de qualquer forma,
sempre muito empolgados em seus comentários, participações
e sugestões.
Vez ou outra, noticiamos um aquecimento exagerado
em uma ou outra discussão, defesas e ataques a colunistas,
ora ocasionados por Ombudsmen do lado de cá, ora
por falta (ou excesso) de Tato do lado de lá e assim
a embarcação foi seguindo seu rumo.
Como timoneiro orgulhoso que sou, sei que
me falta muito a aprender para levar esta Nau sempre em
frente ao seu destino incerto. Sonho com um número
500 daqui a alguns anos, assim como com
um número 1.000 e, porque não,
um histórico número 10.000
que nossos filhos e netos poderão presenciar.
Mas para isso, estou certo de que não
há caminho outro senão contar sempre, eu disse
contar SEMPRE com a ajuda - inestimável
- de cada um de vocês, leitores, amigos e participantes
de valor incalculável deste sonho que é realidade
chamado Simplicíssimo.
Um ótimo começo de 2005
para todos e perseverança no caminho que cada um
escolher para si na longa jornada da vida, são os
sinceros desejos do seu editor,
Rafael Luiz Reinehr
"Diz-se que quem modifica de tempos
a tempos as suas idéias não merece qualquer
confiança, porque faz supor que as suas últimas
afirmações são tão erroneas
como as anteriores. E, por outro lado, quem mantém
as suas primeiras idéias e não as abandona
facilmente, passa por teimoso e iludido. Perante estes dois
juízos opostos da crítica, há só
uma opção a fazer: permanecer-se aquilo que
se é, e seguir-se apenas o próprio juízo."
Sigmund Freud, em "As
Palavras de Freud"
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Sentimentos
em Estação
Caio Marcelo de Albuquerque Cardoso |
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Por onde ando, caem flores como se fosse outono,
por onde eu olho tudo parece florescer como se fosse primavera,
por quem meu coração se apaixona, se estremece
e fico frio de nervoso como se
fosse o inverno,
mas meus sentimentos ficam acesos e quentes dentro de meu
sofrido corpo como se
fosse o verão e minha vida passa tão rápido
quanto as estações,
e quase ninguém a percebe, apenas eu sinto-a com
tanto fervor
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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Antes da noite chegar
Passadas as dezenove horas e o papel prendido
à maquina ainda é uma pergunta em branco que
insiste em perturbá-lo, a lembrá-lo de sua
necessidade de preenchimento. O escritor faz uso de suas
memórias mais recentes, recorre aos livros que estão
ao alcance de suas mãos logo ali, na estante e sabe
que percorrer suas páginas é mais que um convite
à inspiração – inevitavelmente
fará sua alguma trama que lhe entrará à
memória, mesmo que travestida de novo argumento,
como se vivenciada em nova situação fosse.
Para o escritor, as dezenove horas passadas são mais
que horas de desespero: entrando as vinte horas, sabe que
inexistência de palavras marcadas nas folhas de papel
ofício serão mais do que a certeza de sua
ineficiência momentânea, de sua falta parcial
do que escrever; será, no seu desespero absurdo,
a concretização de sua incompetência,
a prova de seu erro em querer aventurar-se pelas letras
para dar algum sentido que insiste ser mais do que mera
vaidade, que faz questão de justificar como a sua
expressão artística. Ao final do dia, não
preenchida a página, ao escritor não restará
senão a amargura de mais uma noite pronta e mais
um dia inutilizado. Se cada dia é a possibilidade
para se preencher de maneira fundamental o papel, seu inapelável
instrumento de trabalho, o dia perdido à contemplação
do tema, à procura da criação da história,
à fundamentação de suas memórias
é como um tapa seco e indiscutível, o veredito
que não precisa ser-lhe informado por outrem –
é o escritor próprio quem percebe que findo
um dia inteiro a observar o papel preso à Facit,
a procurar pequenas ocupações que lhe sirvam
como alívio de pensamento: o cigarro que não
fuma, o café que não bebe por que está
quente demais e o quarto por demais abafado e ainda sem
ventilador, terá a resposta que nem tem coragem de
perguntar em voz alta a si mesmo por temer a confirmação
de sua resposta. Uma página em branco no fim do dia
do escritor é o fim do dia do escritor.
Não obstante, o telefonema que não flui
como a maioria das vezes, já foi a resposta à
incapacidade do escritor em fazer-se ao menos eficiente
nas coisas do relacionamento. Nem nisso o é. O monólogo
que lhe chega pelo fone, os argumentos imbatíveis
que a outra lhe apresenta, o choro que não tem palavras
para controlar, as ofensas que lhe são jogadas sem
que tenha justificativas para amenizar, empurrariam o escritor
no fosso mais profundo de tristeza, não tivesse o
escritor pretensão de transformar mesmo as mais doídas
experiências de vida em material para seus escritos.
Mas nem isso o escritor consegue. Ao fim do telefonema
que não tem forças para retornar, ditas as
barbaridades que não tem razão para contestar,
machucado o seu coração que não tem
maneiras de curar, o escritor nem isso consegue transformar
em ficção. O medo que lhe toma é de
quedar-se na confissão banal e abominável.
Para o escritor, cento e cinqüenta laudas não
preenchidas a uma página que seja de confissão
gratuita e adocicada de sentimentos magoados. Prestes a
findar o dia a contemplar paredes brancas, a folhear livros
cujas frases já lhe são memória e a
acariciar com os dedos dos pés os cachorros que insistem
em rodeá-lo, o ofício do escritor é
nulo como a parede que o pedreiro não levantou –
a página em branco a fitar o escritor, pedindo-lhe
providências é um som de alarme tão
exasperante que o escritor nem tem coragem de abandonar
o local do incêndio: sente pena de si mesmo quando
a água de emergência molha seu terno amarfanhado,
embaça seus óculos grossos demais e não
lhe é fria o suficiente para fazê-lo mover-se
um triz sequer da cadeira em que continua prostrado para
continuar fitando (ensandecido seria se não fosse
triste pela constatação) o papel que em empáfia
lhe inquire sobre o porquê de seus dedos tão
crispados, seus argumentos tão pobres e sua mente
tão embotada.
A página em branco à frente do escritor
é o seu desafio de todos os dias. O som do tipo a
preenchê-la com palavras que se vão concatenando
é a realização de sua vida. A história
que se vai revelando através da tinta invisível
que se mostra conforme as teclas são pressionadas
pelo escritor é o pagamento pelo dia inteiro de sofrimento
mental, não pelo branco, mas pela confusão
que se lhe forma em mente e o impede de discernir o que
é necessário, o que é propriedade de
outrem e o que é inadmissível que lhe ronde
os pensamentos.
As teclas compondo sinfonia aos seus escritos é
mais do que toda a música que o escritor desejou
ouvir em um só dia. Passado todo um dia em que a
mediocridade do escritor foi tamanha, que se tornou um diletante
do ofício à mercê de sentimentos românticos
de inspiração e seus métodos foram
ineficazes para conseguir fazer de um dia, um dia de trabalho,
ainda assim ter certeza de que a história que começa
a compor é uma história que, antes da noite
chegar, terá valido todo o dia de inexatidão,
já lhe é a recompensa mais do que merecida,
o alívio que o faz sentir-se merecedor realmente
deste título tão inebriante quanto vaidoso,
mas tão simples quanto necessário. O escritor
se reconhecesse em seu ofício e sabe que a noite
pode vir, definitivamente.
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ZzZzZzZz
Acordou num sobressalto: Meus Deus, dormi
na sessão! Pensou consigo, bem baixinho, mas bem
baixinho mesmo. Certa vez teve a impressão de que ela
poderia ler seus pensamentos e era bom não vacilar.
Mas havia vacilado e que tremenda mancada. Também pudera,
trabalhara demais ao longo de toda aquela semana e a festa
de comemoração do lançamento do novo
produto varou a madrugada.
O pavor começa a tomar conta do seu ser interior e
se perguntava: Por quanto tempo teria eu dormido? Será
que a doutora percebeu? O que faço agora? Com
o coração pulando enquanto seus braços
e pernas faziam um enorme esforço para despertar, matutava
a melhor resposta à indagação que estava
por vir. Diria: Isso nunca aconteceu antes ... Mas
recuou. Pareceria meio romântico e ela não lhe
pouparia de uma resposta bem psicanalítica. Aliás,
por alguns longos minutos parecia que qualquer que fosse sua
fala, seria metralhado com alguma de suas interpretações.
Pior que ela sempre acertava. Já imaginava ela falando
da sua dificuldade em priorizar o tratamento, que eu não
deveria ter se excedido no trabalho, na festa, em ambos.
Ficarei quieto esperando. Mas seus botões
o fizeram repensar. Poderia ser pior, ela ia dizer que ele
era tímido, que tentava esconder o que lhe assustava.
que não estava muito disposto a lhe contar seus segredos,
que tinha medo de compartilhar, etc. Já sei, vou
falar a verdade. Ela sempre lhe disse que a verdade é
o melhor caminho e isso lhe pareceu de fato a melhor opção.
Encheu o peito de ar, tomou coragem, ajeitou-se novamente
no confortável e acolchoado divã. É
agora, vou ...
Um barulho interrompe seu devaneio. Do outro lado do divã,
a queda de um livro acordou igualmente de sobressalto a terapeuta.
Aliás, a sessão já deveria ter terminado
há meia hora. Novo silêncio. Ficaria difícil
saber em que criatura daquela sala a angústia teria
sido maior. Ela tomou a iniciativa. Colocou a mão no
ombro dele e disse:
_ Nos vemos na próxima sessão. Era
a frase que usava costumeiramente ao final de cada consulta,
embora desta vez com uma voz típica dos melhores taquarais
da região. Mas nada que ele tivesse percebido. Não
estava em condições de prestar atenção
em algo além do que se passava dentro dele.
Levantaram-se e foram em direção à porta.
Quase que ele cai. O pé direito ainda não firmava,
o corpo todo não firmava. Ela se perguntava o que teria
acontecido e imaginava ter perdido toda a história
de um pé machucado ou algum acidente enquanto dormia
(ele sempre estava metido em confusão). Ele não
lhe dirigia o olhar, envergonhado que estava. O aperto de
mão selou de vez o pacto. Deram as costas e a porta
fechou. Só não ouviram o suspiro de alívio
um do outro porque soaram no mesmo instante. E não
se falou mais nisso.
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Alma feminina
Com a exaustão do modelo masculino
de sociedade, fica cada vez mais evidente a ascensão
das mulheres.
Homens e mulheres começam a se acostumar ao seu novo
papel social, adaptando-se
às mudanças no relacionamento com o sexo oposto.
A nova mulher, que hoje atua e interage de forma inteira
e responsável em todos os setores da sociedade,
vê no homem não mais um "protetor"
ou "dono",
mas um aliado com quem sente prazer de partilhar a vida
de forma plena.
Os casais modernos assumem posturas antes jamais imaginadas
ao estabelecerem padrões de comportamento que valorizam
a unidade e a igualdade nas relações,
onde a mulher abandona sua condição de mera
coadjuvante e
passa a compartilhar de todas as atividades na condução
da vida do casal,
enquanto os homens começam a desenvolver qualidades
e virtudes
só encontradas no interior da alma feminina.
Tudo faz crer que estamos diante da reabilitação
do culto da feminilidade,
algo que vai além do estereótipo feminista.
Se por um lado a mulher adquiriu maior expressão
e liberdade de ação,
participando mais ativamente no seio da sociedade,
é verdade também que o homem absorveu essas
mudanças de bom grado
e começa a se libertar da couraça patriarcal
que o reduziu, muitas vezes,
à simples condição de machão
insensível,
passando a assimilar mais para si a energia feminina que
há anos repousa inerte em seu âmago,
impedida que foi de prevalecer por fatores meramente culturais.
Interessante é imaginar o novo homem e a nova mulher
construindo
uma relação prazerosa baseada no respeito
e na cooperação mútua.
Dentro dessa ótica, aos poucos o mundo vai de fato
mudando.
Passamos a ver homens e mulheres lutando para transformar
em realidade
atitudes comportamentais que só vêm valorizar
a espécie humana.
Benditas são as mulheres que refizeram valores e
convocaram o homem
a exercer outros aspectos ocultos em sua sensibilidade reprimida,
como chorar e dizer "te amo" sem constrangimentos,
como exemplos.
E benditos os homens que souberam entender a grandeza da
mulher em sua essência,
aceitando-a como co-autora na construção de
seus destinos,
sendo ambos responsáveis pelo equilíbrio entre
os sexos
e da condução de um novo alvorecer em suas
vidas.
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Procurar
Alguém me viu por aí?
Eu não estava em mim.
Pensei que era eu, mas era outra pessoa!
Se tu me encontrares, que por favor me dizer para voltar?
Seu eu não quiser retornar, me puxe, me arraste,
me obrigue a acordar.
Porque eu adoro passear, adoro fugir daqui!
Às vezes encontro algo do lado de fora que parece
reluzir, não me deixa voltar.
Mas se tu tentares me mostrar que precisas de mim, vou entender
que vós sois eu e que finalmente vamos nos unir.
Seremos completas.
Cabeça e alma, amigas até que a vida nos ensine
que não devemos jamais nos separar, devemos evoluir
juntas.
Achaste?
Eu estou aqui!
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Musicalidade
de Povinilpirrolidona
Roberto Yukio Iwai |
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Deerhoof - Bibidi Babidi Boo
Por mais democrata que o Brasil possa ser,
caso existisse uma banda como o Deerhoof por aqui, ela
certamente seria esmagada por opiniões de críticos
ou infiltrados no meio musical, que iriam desmoralizar
a imagem de banda como algo sem talento, sem seguir algo
linear, sem ter algo a dizer.
O Deerhoof faz parte das bandas dementes
que alguns lugares do mundo felizmente ousam em soltar.
Se a arte usou das pinturas e quadros formas de estudos
para determinado efeito visual, porque não a música
fazer de canções laboratórios sonoros?
Não ter de acertar sempre, ou ainda, ter sempre
que estar certo, dentro dos parâmetros de correto
da sociedade?
Bibidi Babidi Boo mostra uma banda
que acredita nisso, e ainda, faz de forma não-convencional
porque pode, porque quer, e ainda, porque não quer
possuir porquês. Por que a vocalista canta apenas
algumas palavras com uma voz de criança, ou o guitarrista
não acerta o andamento 4x4 de determinada música?
Eu, para atingir certas camadas do popular,
tenho que teorizar algo que simplesmente não me
é estranho porque é normal para a minha
pessoa. Apesar de muitos dos andamentos soar excêntrico
ou particular para alguns, vezes saídos de um acaso
de notas, Bibidi Babidi Boo traz a banda em um
estado aonde se pode provar que nada é muito acaso,
nem os erros: em ambiente ao vivo, todos os andamentos
são reproduzidos como estão em seus álbuns
de estúdio. Basta ouvir a clássica “Dummy
Discards a Heart”, primeira faixa do disco, um dos
riffs mais poderosos que eu já ouvi na vida, ou
“Panda Panda Panda”, cujo andamento voz-guitarra-bateria
dá um nó no cérebro, não sabendo
muito quem seguir.
A criatividade da banda beira à perfeição:
“Flower” é uma verdadeira declamação
dos infernos, e “Milking” é pop (uau!),
o que prova mais uma teoria: que a banda consegue ser
pop. Não quer? Não quer.
Em www.deerhoof.killrockstars.com
vocês podem comprovar tudo isso, fazendo download
do disco inteiro. Para a próxima vez que tropeçarem
no palco e errarem alguma nota de sua guitarra, faça
com Pollock e use o erro como acaso. Ou use Deerhoof para
acordar de manhã.
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Suburbanas
Marcos Claudino |
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Duas Histórias de Amor
João amava José. José
amava João. João tinha poucos amigos. José
tinha muitos. João só tinha amigos que o aceitavam
como ele era. Nenhum dos amigos de José desconfiava
que ele tinha um “defeito”. João era
muito sincero. José só era sincero com João.
José fingia. João vivia suas escolhas plenamente.
Acontece que um dia, José e João estavam passeando
no parque de mãos dadas. José avistou uns
amigos do trabalho, e largou a mão de João.
Cumprimentou os amigos, e apresentou João como um
“colega”. João compreendeu a “vergonha”
do amado, e interagiu com as conversas. Só se chateou
quando José mexeu com uma garota volumosa de calças
apertadas. Voltaram pra casa e não se falaram. No
dia seguinte as roupas de José estavam arrumadas
dentro da mala, na entrada da casa de João.
Ana amava Maria. Maria amava Ana. Ana tinha
poucos amigos. Maria tinha muitos. Ana só tinha amigos
que a aceitavam como ele era. Nenhum dos amigos de Maria
desconfiava que ela tinha um “defeito”. Ana
era muito sincera. Maria só era sincera com Ana.
Maria fingia. Ana vivia suas escolhas plenamente.
Acontece que um dia, Maria e Ana estavam passeando no shopping
de mãos dadas. Maria avistou uns primos distantes,
e largou a mão de Ana. Cumprimentou os primos, e
apresentou Ana como uma “colega”. Ana compreendeu
a “vergonha” da amada, e interagiu com as conversas.
Só se chateou quando Maria olhou para um garoto sarado
de músculos volumosos. Voltaram pra casa e não
se falaram. No dia seguinte as roupas de Maria estavam arrumadas
dentro da mala, na entrada da casa de Ana.
Muito tempo se passou, e a vida encaminhou João à
vida de Ana. Casaram-se e são muito felizes, cúmplices
da necessidade de se completarem. Ana sabe que o grande
amor da vida de João foi José, e João
sabe que Maria foi o grande amor de Ana.
José encontrou Maria numa dessas fugas
pelo bem da imagem que achava que a sociedade exigia. Fingiu
gostar de Maria, e esta retribuiu o fingimento. Casaram-se
na semana passada, mas parece que não estão
muito bem não, só brigam, e saem de casa no
meio da noite em busca de uma felicidade ilusória
que só o sexo consegue passar...
Que em 2005 tenhamos aprendido um pouco mais
sobre o sentido de felicidade. Que o novo ano traga uma
evolução moral nas pessoas, elimine conceitos
e pré-conceitos antigos e sem sentido, que Joões,
Josés, Anas e Marias sejam decentes e felizes.
Essa foi a única maneira que eu encontrei
para te desejar um feliz ano novo!!!
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Ombudsman
O Anestesista do Sr. Pimpolho
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O Acidente do Pimpolho (II)
Bem, como vocês sabem o Sr. Pimpolho
sofreu um grave acidente. Ele até vinha se recuperando
bem, mas devo informá-los que neste exato momento
ele passa por uma delicada cirurgia. Ah, sim, deixa eu me
apresentar. Sou o anestesista da sala. Entre um palavrão
e outro (já mandou alguns por aqui “olhar urubú”
– assim com acento mesmo), me me pediu para escrever
algumas palavras para vocês. Por sorte nosso hospital
conta com um alto aparato tecnológico e temos computador
com acesso à internet em todas as salas do bloco
cirúrgico. Isto é ótimo inclusive para
transmitirmos as cirurgias via webcam para especialistas
do outro lado do mundo opinarem. Também é
bom porque eu adoro ficar jogando paciência até
esse cirurgião mala terminar o trabalho dele. Eu
conversava com o Sr. Pimpolho sobre tudo isto e surgiu até
a possibilidade de colocarmos toda a operação
online, mas daí eu me empolguei e injetei anestésico
demais e ele está roncando mais que porco gripado.
Ah sim, ele também ia me dizer o que
escrever para vocês e agora estou nesse aperto e não
tenho a mínima idéia do que falar. Me dêem
só um minutinho que o doutor ali tá me chamando.
(...) Diminuir o ronco? Ora diminuir o ronco. Ele pensa
que os pacientes têm um botão de volume. Mas
não se preocupem que esse cirurgião apesar
de chato é fera no trabalho e sabe operar como ninguém.
O Sr. Pimpolho está em boas mãos. E isso deve
ser o mais importante que eu tenho a lhes dizer, até
mesmo porque não joguei nem uma partida ainda e tenho
que aproveitar o tempo daqui. Em casa minha mulher fica
uma arara se eu não dou atenção pra
ela. É outra que reclama do volume do ronco. Não
os do Sr. Pimpolho logicamente. Ai meu Deus o cara de novo
perai. (...)
Olha só que coisa, tem uma mulher gritando
histericamente pelo Sr. Pimpolho lá na sala de espera
do bloco cirúrgico. Esse cara é famoso ou
do meio artístico? Nunca vi, mesmo porque eu só
assisto televisão de vez em quando para agradar a
nega veia lá de casa. Meu monitor é mesmo
o do computador com aquelas cartas todas hmmmmmmm. São
elas que me chamam agora. Já sei! Como muito provavelmente
o Sr. Pimpolho não estará recuperado ainda
na semana que vem, vou passar a bola de escrever aqui para
essa fiasquenta ali de fora que já está me
dando nos nervos. Quem sabe assim ela se acalma, não
é?
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reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir os
textos do site, mas não esqueça de citar a
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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