Simplicíssimo
Jornal Virtual de periodicidade embriagada de champagne


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Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Sonho requentado é igual a carne sem sal

E então, prezados e digníssimos Simplileitores. Que tal sua passagem de ano?

Muita comilança, aposto. Visitaste a familiarada pelo interior ou ficaste na tua toca mesmo?

E aqueles parentes que não vias há um tempão? Estão mais gordos? Chatos do mesmo jeito? Continuam contando piadas sem graça? E aquela esposa nojenta do seu primo, continua esnobe ou já entrou para uma ONG que auxilia crianças com cãncer?

E tu, vivente: quais tuas resoluções para o Ano Bom que entra? Espero que já tenhas feito uma coisa decente e escrito elas uma a uma no papel. Nada de digitar no computador e imprimir depois! Materializar resoluções sempre começa com escrita manual no papel! Anota isso aí!

Bem, seguindo no papo, mas mudando de assunto, todos sabem que, pelo fato desde sítio ser absolutamente eclético, apartidário e, até que se prove o contrário, não tendencioso nem preconceituoso, buscamos não publicar assuntos que possam quebrar esta regra e gerar uma polarização sítio-leitores.

Acontece que, agora há pouco fui ameaçado por uma senhora que entrou aqui na Edição do Simplicíssimo carregando uma cesta de salsinhas, gritando esbaforida que queria porque queria que um texto fosso publicado no Simplicíssimo neste exato instante. Como a referida (perigosa) senhora carregava consigo uma afiada faca (de cortar ramos de salsinha), não tive outra escolha em publicar o texto solicitado, logo a seguir.

APEDIDO

"Calendario 2005 do gremio
Temporada gremista para 2005.
Dá uma olhadinha no REGULAMENTO.

CHAVE 1
1 Gremio
2 Ji-Paraná
3 Íbis
4 Mamoré (MG)
5 Mixto (MT)
6 Ríver (PI)
7 Linhares (ES)
8 São Raimundo (AM)
9 Itabaiana (SE)
10 Tiradentes (DF)

CHAVE 2
1 Caiçara (PI)
2 Ubiratan (MS)
3 CSA (AL)
4 Amapá (AP)
5 União Bandeirante (PR)
6 Kaburé (TO)
7 Operário (MS)
8 Rio Negro (AM)
9 Tuna Luso (PA)
10 Moto Clube

REGULAMENTO

As equipes que não possuírem refletores em seus estádios deverão ter seus jogos realizados à tarde.
Os estádios com capacidade inferior a 1000 lugares deverão iniciar a venda dos ingressos 1 hora antes do início das partidas.

Cada equipe deverá apresentar os jogadorespelo menos com a camiseta da mesma cor, caso contrário o time da casa deverá tirar a camisa para
não confundir o juiz.
Se um jogador for expulso, ele tem que esperar 15min ou até a outra equipe fizer um gol para entrar em campo.

Quando forem expulsos mais que 2 jogadores de cada time, o campo tem que ser reduzido, fazendo a nova demarcação das goleirinhas com chinelo.

Se um time começa a ser pressionado e equipe adversária chutar muito forte, seu goleiro pode botar havaianas nas mãos para não doer.

Se mais da metade do time estiver de pés descalços, os outros jogadores têm que tirar a chuteira. Ou o time pode pedir tempo para ir no
Supermercado comprar KICHUTE pros jogadores descalços.

Caso um time estiver jogand o muito mal, um atleta da outra equipe poderá trocar de time para emparelhar a partida.

OBS.: A equipe "Grêmio" possui refletores em seu estádio, mas em falta de energia usarão lanternas.

- Os preços dos ingressos já estão estipulados:

Sentado - R$ 1,00
Sentado no Chão - R$ 0,50
Em pé escorado - R$ 0,25
Em pé sem escora - R$ 0,10
Agachado - R$ 0,05"

Rafael Luiz Reinehr

PS: a senhora da salsinha pediu desculpas mil às equipes que tiveram que ser comparadas ao Grêmio na lista acima, mas fato é fato e o resto é boato, diz ela...

 

"Se alguém se banha rapidamente, não deverás dizer: «Não se saiu bem.» Melhor será que digas: «Foi rápido de mais.» Se alguém bebe muito vinho, não deverás dizer: «É um erro.» Melhor será que digas: «Bebeu muito vinho.» Antes de teres apurado a razão que levou alguém a proceder daqueles modos, como podes tu saber, em boa verdade, se alguém procedeu bem ou mal? E só deste jeito, ó caro, não correrás o risco de te pronunciar sobre situações falsas tendo-as como situações verdadeiras."

Epíteto, em "Manual"

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Primavera
Wagner Tadeu Matioli

Sinta no fruto da semente plantada,
a força ardente e imantada
de mais uma obra de Deus!

Veja no botão que floresce,
a Luz que resplandece
e que nos é enviada por Deus!

Observe na flor colorida,
o iniciar da estação preferida
dos que acreditam em Deus!

Aproveite esta linda primavera
para cumprir, sem espera,
o que tem prometido a Deus!

Prove ao irmão carente,
em clima de amor envolvente,
a certeza da existência de Deus!

Confirme a todos a esperança
da compaixão e temperança
do julgamento que vem de Deus!

Descubra no jardim florido,
o arco-íris colorido
que nos aproxima de Deus!

E aproveite a oportunidade
para agradecer, de verdade,
por ser um dos filhos de Deus!

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Murmúrio
Cláudia Sleman (Rahna)

Se irei
Muda de versos
E de sonhos...

Se irei
Desnuda de carne
E de véu...

Se irei
Renascida da poeira
De todos os tempos...

Se irei
Despojada das faces
Que vesti um dia...

Se irei
Reerguida da solidão
Fúmida dos sepulcros...

Eu não sei...

O que sei

É que é esta minha paixão
Também louca

Que é tudo o que minh'alma
Cogita...

E que a minha boca
Da tua anda aflita...

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

A não-felicidade

Até onde se lembrava, sua vivência tediosa formava um todo desde sempre e dali para frente, que ousava em pensar na felicidade como não sendo mais do que um real conceito mentiroso, um destes embustes criados pelos bambas do marketing, publicidade para vender produtos para velhas gordas que se iludem em poder comprar a tão dita felicidade em potes nos supermercados. Simplesmente ignorava a existência de tal conceito em sua vida: a felicidade talvez fosse um sentimento (como um daqueles arrepios gostosos que vêm ao pescoço quando ele é beijado em algum ponto mais sensível) que, vez por outra lhe surgia, assim, com um espirro. Uma realidade tão efêmera quanto obscura. Não lhe ia a mente a probabilidade de desejar a si mesmo, a partir do ano que se iniciava, ser feliz. Felicidade, mesmo, sem grandes explicações metafísicas, sem citações a falecidos filósofos; sem nenhum apego à religiosidade, onde, diziam, poderia alcançar a felicidade infinita, a felicidade lhe era esta coisa vaga, esta possibilidade de entretenimento que poderia encontrar na sua coleção de quadrinhos de Robert Crumb, nos passeios nas quartas-feiras quando o sol não está assim, muito forte e aquele vento extremamente controlado lhe faz pensar que o dia pode ter a cor acinzentada que imagina para as quartas-feiras. Vez por outra pode estar nas nádegas balançantes da atendente da sorveteria que lhe estende a casquinha com sorvetes de nozes e chocolate. Em verdade, poderia definir como felicidade aqueles instantes em que sentia com mais intensidade a mistura perfeita do sabor do sorvete de nozes com o de chocolate aguçando-lhe o paladar tão fortemente quando depositados no lugar devido para alimentos doces na sua língua. Assim, felicidade como estes esporádicos momentos de júbilo.

Agora, felicidade, como aquela frase tão enigmática proferida pelas concorrentes de concursos de beleza, aquela vontade tão inclassificável pronunciada através de desejos de “ser feliz” lhe parecia algo tão misterioso quanto impossível. Quedando-se por vezes na tarefa de tentar apreender sensorialmente como se daria tal fato, seus exercícios de prazer mental não conseguiam alcançar nunca a profundidade de tal realidade. “Ser feliz” – o princípio de ter prazeres ininterruptos e infinitos, êxtases violentos de alegria, invariações de humor, encanto total e vital por tudo que o cercava lhe parecia algo demasiadamente esotérico, tarefa para a qual necessitaria do maior dos esclarecimentos mentais, situação para qual lhe seria exigida a escalada definitiva e superior dos degraus de qualquer um destes princípios filosóficos que lhe possibilitassem a percepção de tal realidade.

Acordar sorrindo, encantar-se pelo todo, amar a todos à sua volta, animar-se por todos os atos que comporiam o seu dia, saber de antemão – já no intervalo entre o escovar de dentes e o gole no café que invariavelmente estaria amargo – que se é feliz já lhe parecia verdade assaz cansativa. A certeza ininterrupta desta felicidade lhe parecia tão inalcançável como deficiente.

Nos instantes que complementavam as distrações que conseguia organizar para um dia inteiro – e que quase sempre se resumiam em caminhar um longo percurso entre sua casa e a loja de revistas mais longínqua que conseguia descobrir (mas que ainda assim, não o fosse tanto que pudesse lhe trazer dores aos pés!); circundar a escola municipal e encantar sua visão com as meninas da oitava série que transitavam por ali com suas calças suplex e piercings no umbigo; descobrir se alguma nova variação dos seus sorvetes preferidos havia sido criada na sorveteria onde poderia se encantar também por alguns minutos enquanto a atendente se debruçava por sobre os baldes refrigerados, revelando-lhe o decote por demais profundo e seios cuja pele se arrepiava pelo ar gélido; e tomar o caminho de volta para casa, parando antes no supermercado e se decidindo pela lasanha semi-pronta ou pela sedutora e nova embalagem que lhe prometia uma refeição deliciosa com algum molho à base de frango – procurava para si alguma forma de entretenimento que, ao contrário das distrações que já não mais lhe davam nem o prazer que das primeiras vezes conseguia, pudesse, mais do fazer as horas do seu dia passar, possibilitar-lhe a vaga noção de felicidade.

Então vieram os vídeos. E as incursões demoradas atrás de títulos que lhe pudessem trazer alguma luz sobre o conceito. As comédias românticas, as férias em famílias, as trapalhadas com gordos, as odisséias infantis, as tramas com elfos, fadas e gnomos, as vidas que lhe pareciam sempre tão perfeitas, os romances com idas e vindas tão equilibradas, a ficção tão distante de si. E o mergulho absoluto em vidas que não eram a sua, em histórias de personagens que mesmo quando infelizes lhe deixavam no chinelo. O dia passava quando transcorridas não as horas, mas dois, três, quatro – dez filmes em seqüência. Submersão absoluta na não-realidade, fuga consciente do seu cotidiano de tédio. Sessões diárias que se acompanhavam por doses colossais de comida e olhos vidrados que não queria olhar para fora da área que não fosse a tela da televisão – olhos que não queriam ver a casa vazia, no breu, o cachorro que não tinha, os amigos que não fizera, o amor que não buscou, as contas que se acumulavam junto à pia da cozinha disputando espaço com os pratos engordurados, o telefone que não tocava, os livros que não lera. Os olhos eram para a tela luminosa: a mentira socialmente aceita, os encantos fingidos das tramas açucaradas. A sua vida, a partir dali, delineada pelos encantos que a sua vida não era; sua projeção era o que não era seu nem dos outros. Sua não-felicidade era a omissão completa da busca de uma vida que fosse realmente sua. Sua não-felicidade era a descrença completa na felicidade como mais do que um conceito. Sua não-felicidade era a certeza imutável de não ser possível ser feliz.

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Parafernália
Ibbas Filho

Manchetes de última - I

Extra! Extra! Estas são as últimas notícias que invadiram 2005:

Esoterismo:
Simpatia infalível de ano novo: pular uma seqüência de 7 ondinhas Tsunamis.

Ciência:
Cientistas atribuem a formação dos desertos no Egito ao fato dos camelos beberem até 120 litros de água de uma só vez!

Mundo Virtual:
Menina do nick ‘in love again’ afirma: “Eu nunca deixei de me amar”.

Política:
Presidente Lula responde à acusação de não saber fazer cálculos decimais: “Se eu contar nos dedos vou até nove e meio mais”.

Religião:
Pastores atribuem ao demo e ao pecado as recentes ondas Tsunamis, enquanto o grupo extremista NASI E OS IRMÃOS DO BLUES reivindica para si a autoria do atentado

Seu correspondente volta com mais manchetes de últiima assim que elas acontecerem!

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Utopias
Luiz Maia

Atalhos e caminhos

Agradeçamos àqueles que costumam abrir caminhos para as pessoas temerosas,
que indecisas retardam o inicio de sua caminhada.
Grande é aquele que considera a vida uma viagem e tudo faz para torná-la prazerosa para os outros e para si.
São pessoas que ensinam a não temermos as asperezas do caminho,
que recusam os atalhos mais fáceis por terem os olhos fixos no seu objetivo e no seu destino final.

Nossa caminhada nem sempre acontece por caminhos verdejantes.
Às vezes enveredamos por terrenos arenosos e nos deparamos com inúmeros obstáculos e espinhos,
mas nada que nos faça esmorecer e escolher seguir por atalhos estéreis.
Nada nos impede de avançar quando viajamos em direção a um alvo pré-estabelecido,
quando temos um objetivo certo a alcançar.

É muito importante prestar atenção no caminho.
Nada de nos deixar levar por atalhos que possam reduzir nossa capacidade de sorver a vida,
ou que venham obscurecer as experiências que engrandecem o nosso crescimento interior.

A viagem, quando ocorre por caminhos, nos oferece ensinamentos compensadores
que nos conduzem mais facilmente à estação, sempre nos enriquecendo enquanto o estamos cruzando.

Os atalhos em geral nos enganam e nos levam ao nada.
A experiência nos mostra que, quanto piores forem os obstáculos que encontramos no caminho,
valerá a pena tê-los encontrado e superado um a um.
Eles existem como se fossem aulas para nos tornarmos experientes.

Quanto aos atalhos, ninguém deveria considerá-los.
Eles nada nos ensinam de útil e de prático, geralmente nos levam à acomodação
para buscarmos aquilo que se nos apresenta mais fácil de conseguir.

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Paixão

Paixão, tesão, fixação.
O perigo ronda teu corpo.
Tua mente é tomada pelo desejo.
Sufoca, entrelaça.
Não existem parâmetros para medir a paixão.
Ela é inteira e completa em si.
Um simples olhar.
O corpo dá sinais visíveis.
Que maravilha tocar o corpo do ser desejado, ai como é bom.
Cheiro, gosto, saliva, suspiro, mais e mais...
Compasso ritmado, prazer sincronizado, calculado.
Êxtase e sorrisos.
Arrepios e sensações imprevisíveis.
Céu e inferno em um só ato.
Eterna fábula de prazer.
A paixão é necessária.
Ritual primordial, imutável.
Pessoal e público.
Indescritível, insuperável.

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Bacantes Literárias
Gilson Giuberti Filho

Ensaio Nº 12

Marcelo acordou mais cedo naquele sábado; olhou para Marília, sua esposa – dormia profundamente. Seu coração estava apertado, angustiado. Levantou-se; foi até ao banheiro. Lavou as mãos com sabonete fazendo bastante espuma; esfregou a espuma no rosto limpando a pele (fazia isto todos os dias ao acordar). Enxaguou.
Ao levantar o rosto, ainda molhado, viu-se no espelho. Obviamente que ele se via refletido todos os dias: em casa, nas vitrines, nos banheiros de restaurantes, cafés, etc. Naquele dia foi diferente: olhava para dentro de sua íris – profundamente...Olhou a calvície que se formava, as têmporas grisalhas, a expressão cansada das rugas de seus olhos.
- Estou ficando velho...
Abateu sobre ele uma profunda melancolia. Foi para a varanda de seu apartamento. Teodora já havia aprontado a mesa do café: frutas, café, suco, tudo muito colorido, como sua esposa gostava. Sentou e admirou a nuvem extensa e solene que cobria todo o céu e que se estendia até ao horizonte cinzento. Ventava. O mar batia em ressaca incansavelmente sobre a mesma a costa ornada por um calçadão de pedras portuguesas. Ninguém andava naquela hora; uma vez ou outra uma gaivota voava, como que desavisada, à altura do seu andar.
Apanhou uma ameixa.
- Porquê estou ficando velho? Perguntou-se.
De certo havia uma constatação física: não jogava tênis como a vinte anos atrás, sua barriga vinha se tornando proeminente, a pele vinha perdendo o viço e a rugosidade aumentava a cada ano, mas uma observação era categórica nesse momento: as pessoas haviam mudado a forma de tratá-lo.
Percebeu que não era algo que pudesse ser sentido imediatamente – a mudança veio em gradações crescentes, ao longo das décadas.
No princípio – ainda com seus trinta anos – mais e mais pessoas passaram a chamá-lo de Sr e o Dr. foi se tornando cada vez mais freqüente. Lentamente o olhar reprovação ou surpresa surgiam ante uma frase de espírito ou uma piada, feita em ambiente de trabalho, na rua ou mesmo em casa. Um respeito e distanciamento formal foram, então, dando forma a seus contatos ocasionais. Os jovens passaram a tratá-lo, cada vez mais, com distância e estranhamento refutando qualquer comportamento de camaradagem. O diálogo com seus filhos foi se tornando superficial e mais penoso.
Lentamente uma redoma foi surgindo à sua volta.
Um comentário de desaprovação seu fazia surgir mais desconforto entre as pessoas que quando jovem (ninguém ligava para suas reclamações por aquele tempo...). Quando se deu conta disso tornou-se até mais cauteloso a manifestar um desagrado em relação a qualquer coisa. Sentia que os acompanhantes viam-se impelidos a ter que dar conta de sua insatisfação, o que era profundamente desagradável para todos...Seus filhos viam qualquer crítica sua como um mandato de mudanças, (quando, na maioria das vezes ele só estava expressando sua opinião...) o que gerava alguns desentendimentos banais.
Concluiu que suas mudanças físicas foram gerando, por parte dos que o cercavam, uma expectativa de comportamento sisudo e superior - estereotipado.
Mais e mais havia moldado suas atitudes em função do olhar dos outros, do que esperavam dele. Percebeu que a naturalidade – ou irresponsabilidade – do seu falar teve que dar lugar a um discurso quase diplomático face aos efeitos que porventura poderiam provocar. Havia envelhecido nas atitudes porque esperavam dele atitudes mais geriátricas.
Se sua imagem social passou a envelhecer e ele embarcou numa viagem coletiva de comportamentos estereotipados; o que, de fato havia acontecido com ele? – se perguntou. Era correto afirmar que havia mudanças...
Com relação ao mundo sentia que lidava melhor com as situações por ter acumulado experiências; isso também ocorria no trato com as pessoas.
Tinha se tornado menos apressado, pois entendia que tudo precisava de tempo para se resolver. Lembrou que, se possuía mais conhecimento era afinal por ter mais horas de leitura que as pessoas mais novas.
Quanto aos jovens, a sensação de envelhecimento vinha de sentir que já havia passado por aquelas situações que eles apenas estavam começando a se dar conta. Diante da repetição dos dramas existenciais que chegou a presenciar, chegou até a acreditar, por um tempo, que a vida humana era monótona e sem criatividade.
Mas, apesar de todas estas constatações havia algo nele que permanecia o mesmo. Por mais que tivesse vivido e aprendido, algo inexoravelmente permanecia imutável. Algo de infantil permanecia incólume a qualquer modificação.
De que teria valido todo o esforço de viver para edificar um mundo privado de bem-estar burguês que tanto havia obcecado sua mente por décadas? E toda a avidez por informação onde quer que ela estivesse?
Percebeu, fim das contas, que todas as experiências e leituras não o haviam conduzido a nenhum saber acabado, a nenhuma verdade. Que suas certezas eram todos os dias postas em dúvida face ao fluxo incessante de novidades que abarcavam sua vida de experiências
Essencialmente sentia-se o mesmo ignorante de quatorze anos quando leu seu primeiro livro de filosofia.
Diante da imensidão do universo sequer havia arranhado o plano das aparências; mesmo as pessoas continuavam a lhe surpreender todos os dias. Sua ânsia por uma verdade – uma verdade apenas! – era a mesma: insaciável e frustrada.
Tinha construído um mundo de segurança que lhe garantia uma sensação de controle e posse da realidade, mas honestamente não acreditava na solidez daquele teatro todo: sentia que tudo poderia desmoronar, a qualquer momento como o forte apache que ele - criança - construía e destruía todos os dias, nas eternas encenações de guerras entre brancos e índios.
Por mais que tivesse tentado, ainda era a mesma criança brincando de viver.
Colocou o caroço da ameixa sobre um prato, levantou-se. Acordou sua mulher.Fez sexo com um afeto juvenil que há muito não fazia.
Naquela semana pediu umas férias e viajou com Marília para uma segunda lua de mel – Sant Barth (sempre teve uma vontade de conhecer aquela ilha...).
Naturalmente que acharam que algo de estranho estava acontecendo com ele; mas pela primeira vez na vida, não ligou para o que os outros estavam pensando: fez o que quis...

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Ombudsman
A vendedora de salsinha

O Acidente do Pimpolho (III)

Não sei o que estou fazendo aqui.

Estava lá fora procurando o Pimpolho, aquele safado, que me comprou uma pá de ramos de salsinha e não pagou. Me disseram que ele tava aqui e eu vim ver se era verdade.

Êta homenzinho mais mau pagador esse.

O dotôr disse que era pra eu sentar na frente dessa máquina e escrever o que me desse na telha enquanto que ele via se o Pimpolho já tava acordando da anestesia.

Diz ele que o Pimpolho fez uma cirurgia mas que tudo correu bem. Ainda bem! Senão era minha palavra contra a dos filhos dele pra recuperar meus déis real da venda dos maço de salsinha.

Sabe que eu gostei dessa história de escrever aqui nessa telona?

Vou perguntar pro dotôr se posso vir aqui a fazer isso sempre!

Ai! Ui ! Ai! Que dor de barriga mais chata!

Acho que vou ter que ir no banheiro!

Moço! Ô moço de azul aí com essa coisa estranha na mão! Vem cá me acudí!

-Sim, senhora?

Olha só moço: o dotôr me deu a tarefa de escrever aqui nessa telona até que ele voltasse, mas é que agora surgiu uma emergência e eu vô tê que sair um pouquinho... Será que você pode seguir escrevendo aqui até eu voltar?

- Pode deixar, moça.

- Então, até mais! Vou voando senão volto melecada!

-Até logo senhora...

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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