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05 /01/2005 - Edição número
109
Oi Peladona!
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Editorial
Rafael Luiz Reinehr |
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Sonho requentado é igual
a carne sem sal
E então, prezados e digníssimos
Simplileitores. Que tal sua passagem de ano?
Muita comilança, aposto. Visitaste
a familiarada pelo interior ou ficaste na tua toca mesmo?
E aqueles parentes que não vias há
um tempão? Estão mais gordos? Chatos do mesmo
jeito? Continuam contando piadas sem graça? E aquela
esposa nojenta do seu primo, continua esnobe ou já
entrou para uma ONG que auxilia crianças com cãncer?
E tu, vivente: quais tuas resoluções
para o Ano Bom que entra? Espero que já tenhas feito
uma coisa decente e escrito elas uma a uma no papel. Nada
de digitar no computador e imprimir depois! Materializar
resoluções sempre começa com escrita
manual no papel! Anota isso aí!
Bem, seguindo no papo, mas mudando de assunto,
todos sabem que, pelo fato desde sítio ser absolutamente
eclético, apartidário e, até que se
prove o contrário, não tendencioso nem preconceituoso,
buscamos não publicar assuntos que possam quebrar
esta regra e gerar uma polarização sítio-leitores.
Acontece que, agora há pouco fui ameaçado
por uma senhora que entrou aqui na Edição
do Simplicíssimo carregando uma cesta de salsinhas,
gritando esbaforida que queria porque queria que um texto
fosso publicado no Simplicíssimo neste exato instante.
Como a referida (perigosa) senhora carregava consigo uma
afiada faca (de cortar ramos de salsinha), não tive
outra escolha em publicar o texto solicitado, logo a seguir.
APEDIDO
"Calendario 2005 do gremio
Temporada gremista para 2005.
Dá uma olhadinha no REGULAMENTO.
CHAVE 1
1 Gremio
2 Ji-Paraná
3 Íbis
4 Mamoré (MG)
5 Mixto (MT)
6 Ríver (PI)
7 Linhares (ES)
8 São Raimundo (AM)
9 Itabaiana (SE)
10 Tiradentes (DF)
CHAVE 2
1 Caiçara (PI)
2 Ubiratan (MS)
3 CSA (AL)
4 Amapá (AP)
5 União Bandeirante (PR)
6 Kaburé (TO)
7 Operário (MS)
8 Rio Negro (AM)
9 Tuna Luso (PA)
10 Moto Clube
REGULAMENTO
As equipes que não possuírem
refletores em seus estádios deverão ter seus
jogos realizados à tarde.
Os estádios com capacidade inferior a 1000 lugares
deverão iniciar a venda dos ingressos 1 hora antes
do início das partidas.
Cada equipe deverá apresentar os jogadorespelo
menos com a camiseta da mesma cor, caso contrário
o time da casa deverá tirar a camisa para
não confundir o juiz.
Se um jogador for expulso, ele tem que esperar 15min ou
até a outra equipe fizer um gol para entrar em campo.
Quando forem expulsos mais que 2 jogadores
de cada time, o campo tem que ser reduzido, fazendo a nova
demarcação das goleirinhas com chinelo.
Se um time começa a ser pressionado
e equipe adversária chutar muito forte, seu goleiro
pode botar havaianas nas mãos para não doer.
Se mais da metade do time estiver de pés
descalços, os outros jogadores têm que tirar
a chuteira. Ou o time pode pedir tempo para ir no
Supermercado comprar KICHUTE pros jogadores descalços.
Caso um time estiver jogand o muito mal, um
atleta da outra equipe poderá trocar de time para
emparelhar a partida.
OBS.: A equipe "Grêmio" possui
refletores em seu estádio, mas em falta de energia
usarão lanternas.
- Os preços dos ingressos já
estão estipulados:
Sentado - R$ 1,00
Sentado no Chão - R$ 0,50
Em pé escorado - R$ 0,25
Em pé sem escora - R$ 0,10
Agachado - R$ 0,05"
Rafael Luiz Reinehr
PS: a senhora da salsinha
pediu desculpas mil às equipes que tiveram que ser
comparadas ao Grêmio na lista acima, mas fato é
fato e o resto é boato, diz ela...
"Se alguém se banha rapidamente,
não deverás dizer: «Não se saiu
bem.» Melhor será que digas: «Foi rápido
de mais.» Se alguém bebe muito vinho, não
deverás dizer: «É um erro.» Melhor
será que digas: «Bebeu muito vinho.»
Antes de teres apurado a razão que levou alguém
a proceder daqueles modos, como podes tu saber, em boa verdade,
se alguém procedeu bem ou mal? E só deste
jeito, ó caro, não correrás o risco
de te pronunciar sobre situações falsas tendo-as
como situações verdadeiras."
Epíteto, em "Manual"
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Primavera
Wagner Tadeu Matioli |
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Sinta no fruto da semente plantada,
a força ardente e imantada
de mais uma obra de Deus!
Veja no botão que floresce,
a Luz que resplandece
e que nos é enviada por Deus!
Observe na flor colorida,
o iniciar da estação preferida
dos que acreditam em Deus!
Aproveite esta linda primavera
para cumprir, sem espera,
o que tem prometido a Deus!
Prove ao irmão carente,
em clima de amor envolvente,
a certeza da existência de Deus!
Confirme a todos a esperança
da compaixão e temperança
do julgamento que vem de Deus!
Descubra no jardim florido,
o arco-íris colorido
que nos aproxima de Deus!
E aproveite a oportunidade
para agradecer, de verdade,
por ser um dos filhos de Deus!
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Murmúrio
Cláudia Sleman (Rahna) |
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Se irei
Muda de versos
E de sonhos...
Se irei
Desnuda de carne
E de véu...
Se irei
Renascida da poeira
De todos os tempos...
Se irei
Despojada das faces
Que vesti um dia...
Se irei
Reerguida da solidão
Fúmida dos sepulcros...
Eu não sei...
O que sei
É que é esta minha paixão
Também louca
Que é tudo o que minh'alma
Cogita...
E que a minha boca
Da tua anda aflita...
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Instruções
para dar corda no relógio
Alessandro Garcia |
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A não-felicidade
Até onde se lembrava, sua vivência
tediosa formava um todo desde sempre e dali para frente,
que ousava em pensar na felicidade como não sendo
mais do que um real conceito mentiroso, um destes embustes
criados pelos bambas do marketing, publicidade para vender
produtos para velhas gordas que se iludem em poder comprar
a tão dita felicidade em potes nos supermercados.
Simplesmente ignorava a existência de tal conceito
em sua vida: a felicidade talvez fosse um sentimento (como
um daqueles arrepios gostosos que vêm ao pescoço
quando ele é beijado em algum ponto mais sensível)
que, vez por outra lhe surgia, assim, com um espirro. Uma
realidade tão efêmera quanto obscura. Não
lhe ia a mente a probabilidade de desejar a si mesmo, a
partir do ano que se iniciava, ser feliz. Felicidade, mesmo,
sem grandes explicações metafísicas,
sem citações a falecidos filósofos;
sem nenhum apego à religiosidade, onde, diziam, poderia
alcançar a felicidade infinita, a felicidade lhe
era esta coisa vaga, esta possibilidade de entretenimento
que poderia encontrar na sua coleção de quadrinhos
de Robert Crumb, nos passeios nas quartas-feiras quando
o sol não está assim, muito forte e aquele
vento extremamente controlado lhe faz pensar que o dia pode
ter a cor acinzentada que imagina para as quartas-feiras.
Vez por outra pode estar nas nádegas balançantes
da atendente da sorveteria que lhe estende a casquinha com
sorvetes de nozes e chocolate. Em verdade, poderia definir
como felicidade aqueles instantes em que sentia com mais
intensidade a mistura perfeita do sabor do sorvete de nozes
com o de chocolate aguçando-lhe o paladar tão
fortemente quando depositados no lugar devido para alimentos
doces na sua língua. Assim, felicidade como estes
esporádicos momentos de júbilo.
Agora, felicidade, como aquela frase tão enigmática
proferida pelas concorrentes de concursos de beleza, aquela
vontade tão inclassificável pronunciada através
de desejos de “ser feliz” lhe parecia algo tão
misterioso quanto impossível. Quedando-se por vezes
na tarefa de tentar apreender sensorialmente como se daria
tal fato, seus exercícios de prazer mental não
conseguiam alcançar nunca a profundidade de tal realidade.
“Ser feliz” – o princípio de ter
prazeres ininterruptos e infinitos, êxtases violentos
de alegria, invariações de humor, encanto
total e vital por tudo que o cercava lhe parecia algo demasiadamente
esotérico, tarefa para a qual necessitaria do maior
dos esclarecimentos mentais, situação para
qual lhe seria exigida a escalada definitiva e superior
dos degraus de qualquer um destes princípios filosóficos
que lhe possibilitassem a percepção de tal
realidade.
Acordar sorrindo, encantar-se pelo todo, amar a todos
à sua volta, animar-se por todos os atos que comporiam
o seu dia, saber de antemão – já no
intervalo entre o escovar de dentes e o gole no café
que invariavelmente estaria amargo – que se é
feliz já lhe parecia verdade assaz cansativa. A certeza
ininterrupta desta felicidade lhe parecia tão inalcançável
como deficiente.
Nos instantes que complementavam as distrações
que conseguia organizar para um dia inteiro – e que
quase sempre se resumiam em caminhar um longo percurso entre
sua casa e a loja de revistas mais longínqua que
conseguia descobrir (mas que ainda assim, não o fosse
tanto que pudesse lhe trazer dores aos pés!); circundar
a escola municipal e encantar sua visão com as meninas
da oitava série que transitavam por ali com suas
calças suplex e piercings no umbigo; descobrir
se alguma nova variação dos seus sorvetes
preferidos havia sido criada na sorveteria onde poderia
se encantar também por alguns minutos enquanto a
atendente se debruçava por sobre os baldes refrigerados,
revelando-lhe o decote por demais profundo e seios cuja
pele se arrepiava pelo ar gélido; e tomar o caminho
de volta para casa, parando antes no supermercado e se decidindo
pela lasanha semi-pronta ou pela sedutora e nova embalagem
que lhe prometia uma refeição deliciosa com
algum molho à base de frango – procurava para
si alguma forma de entretenimento que, ao contrário
das distrações que já não mais
lhe davam nem o prazer que das primeiras vezes conseguia,
pudesse, mais do fazer as horas do seu dia passar, possibilitar-lhe
a vaga noção de felicidade.
Então vieram os vídeos. E as incursões
demoradas atrás de títulos que lhe pudessem
trazer alguma luz sobre o conceito. As comédias românticas,
as férias em famílias, as trapalhadas com
gordos, as odisséias infantis, as tramas com elfos,
fadas e gnomos, as vidas que lhe pareciam sempre tão
perfeitas, os romances com idas e vindas tão equilibradas,
a ficção tão distante de si. E o mergulho
absoluto em vidas que não eram a sua, em histórias
de personagens que mesmo quando infelizes lhe deixavam no
chinelo. O dia passava quando transcorridas não as
horas, mas dois, três, quatro – dez filmes em
seqüência. Submersão absoluta na não-realidade,
fuga consciente do seu cotidiano de tédio. Sessões
diárias que se acompanhavam por doses colossais de
comida e olhos vidrados que não queria olhar para
fora da área que não fosse a tela da televisão
– olhos que não queriam ver a casa vazia, no
breu, o cachorro que não tinha, os amigos que não
fizera, o amor que não buscou, as contas que se acumulavam
junto à pia da cozinha disputando espaço com
os pratos engordurados, o telefone que não tocava,
os livros que não lera. Os olhos eram para a tela
luminosa: a mentira socialmente aceita, os encantos fingidos
das tramas açucaradas. A sua vida, a partir dali,
delineada pelos encantos que a sua vida não era;
sua projeção era o que não era seu
nem dos outros. Sua não-felicidade era a omissão
completa da busca de uma vida que fosse realmente sua. Sua
não-felicidade era a descrença completa na
felicidade como mais do que um conceito. Sua não-felicidade
era a certeza imutável de não ser possível
ser feliz.
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Manchetes de última - I
Extra! Extra! Estas são as últimas notícias
que invadiram 2005:
Esoterismo:
Simpatia infalível de ano novo: pular uma seqüência
de 7 ondinhas Tsunamis.
Ciência:
Cientistas atribuem a formação dos desertos
no Egito ao fato dos camelos beberem até 120 litros
de água de uma só vez!
Mundo Virtual:
Menina do nick ‘in love again’ afirma:
“Eu nunca deixei de me amar”.
Política:
Presidente Lula responde à acusação de
não saber fazer cálculos decimais: “Se
eu contar nos dedos vou até nove e meio mais”.
Religião:
Pastores atribuem ao demo e ao pecado as recentes ondas Tsunamis,
enquanto o grupo extremista NASI E OS IRMÃOS DO BLUES
reivindica para si a autoria do atentado
Seu correspondente volta com mais manchetes de últiima
assim que elas acontecerem!
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Atalhos e caminhos
Agradeçamos àqueles que costumam
abrir caminhos para as pessoas temerosas,
que indecisas retardam o inicio de sua caminhada.
Grande é aquele que considera a vida uma viagem e
tudo faz para torná-la prazerosa para os outros e
para si.
São pessoas que ensinam a não temermos as
asperezas do caminho,
que recusam os atalhos mais fáceis por terem os olhos
fixos no seu objetivo e no seu destino final.
Nossa caminhada nem sempre acontece por caminhos verdejantes.
Às vezes enveredamos por terrenos arenosos e nos
deparamos com inúmeros obstáculos e espinhos,
mas nada que nos faça esmorecer e escolher seguir
por atalhos estéreis.
Nada nos impede de avançar quando viajamos em direção
a um alvo pré-estabelecido,
quando temos um objetivo certo a alcançar.
É muito importante prestar atenção
no caminho.
Nada de nos deixar levar por atalhos que possam reduzir
nossa capacidade de sorver a vida,
ou que venham obscurecer as experiências que engrandecem
o nosso crescimento interior.
A viagem, quando ocorre por caminhos, nos oferece ensinamentos
compensadores
que nos conduzem mais facilmente à estação,
sempre nos enriquecendo enquanto o estamos cruzando.
Os atalhos em geral nos enganam e nos levam ao nada.
A experiência nos mostra que, quanto piores forem
os obstáculos que encontramos no caminho,
valerá a pena tê-los encontrado e superado
um a um.
Eles existem como se fossem aulas para nos tornarmos experientes.
Quanto aos atalhos, ninguém deveria considerá-los.
Eles nada nos ensinam de útil e de prático,
geralmente nos levam à acomodação
para buscarmos aquilo que se nos apresenta mais fácil
de conseguir.
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Um
pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves |
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Paixão
Paixão, tesão, fixação.
O perigo ronda teu corpo.
Tua mente é tomada pelo desejo.
Sufoca, entrelaça.
Não existem parâmetros para medir a paixão.
Ela é inteira e completa em si.
Um simples olhar.
O corpo dá sinais visíveis.
Que maravilha tocar o corpo do ser desejado, ai como é
bom.
Cheiro, gosto, saliva, suspiro, mais e mais...
Compasso ritmado, prazer sincronizado, calculado.
Êxtase e sorrisos.
Arrepios e sensações imprevisíveis.
Céu e inferno em um só ato.
Eterna fábula de prazer.
A paixão é necessária.
Ritual primordial, imutável.
Pessoal e público.
Indescritível, insuperável.
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Bacantes
Literárias
Gilson Giuberti Filho |
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Ensaio Nº 12
Marcelo acordou mais cedo naquele sábado;
olhou para Marília, sua esposa – dormia profundamente.
Seu coração estava apertado, angustiado.
Levantou-se; foi até ao banheiro. Lavou as mãos
com sabonete fazendo bastante espuma; esfregou a espuma
no rosto limpando a pele (fazia isto todos os dias ao
acordar). Enxaguou.
Ao levantar o rosto, ainda molhado, viu-se no espelho.
Obviamente que ele se via refletido todos os dias: em
casa, nas vitrines, nos banheiros de restaurantes, cafés,
etc. Naquele dia foi diferente: olhava para dentro de
sua íris – profundamente...Olhou a calvície
que se formava, as têmporas grisalhas, a expressão
cansada das rugas de seus olhos.
- Estou ficando velho...
Abateu sobre ele uma profunda melancolia. Foi para a varanda
de seu apartamento. Teodora já havia aprontado
a mesa do café: frutas, café, suco, tudo
muito colorido, como sua esposa gostava. Sentou e admirou
a nuvem extensa e solene que cobria todo o céu
e que se estendia até ao horizonte cinzento. Ventava.
O mar batia em ressaca incansavelmente sobre a mesma a
costa ornada por um calçadão de pedras portuguesas.
Ninguém andava naquela hora; uma vez ou outra uma
gaivota voava, como que desavisada, à altura do
seu andar.
Apanhou uma ameixa.
- Porquê estou ficando velho? Perguntou-se.
De certo havia uma constatação física:
não jogava tênis como a vinte anos atrás,
sua barriga vinha se tornando proeminente, a pele vinha
perdendo o viço e a rugosidade aumentava a cada
ano, mas uma observação era categórica
nesse momento: as pessoas haviam mudado a forma de tratá-lo.
Percebeu que não era algo que pudesse ser sentido
imediatamente – a mudança veio em gradações
crescentes, ao longo das décadas.
No princípio – ainda com seus trinta anos
– mais e mais pessoas passaram a chamá-lo
de Sr e o Dr. foi se tornando cada vez mais freqüente.
Lentamente o olhar reprovação ou surpresa
surgiam ante uma frase de espírito ou uma piada,
feita em ambiente de trabalho, na rua ou mesmo em casa.
Um respeito e distanciamento formal foram, então,
dando forma a seus contatos ocasionais. Os jovens passaram
a tratá-lo, cada vez mais, com distância
e estranhamento refutando qualquer comportamento de camaradagem.
O diálogo com seus filhos foi se tornando superficial
e mais penoso.
Lentamente uma redoma foi surgindo à sua volta.
Um comentário de desaprovação seu
fazia surgir mais desconforto entre as pessoas que quando
jovem (ninguém ligava para suas reclamações
por aquele tempo...). Quando se deu conta disso tornou-se
até mais cauteloso a manifestar um desagrado em
relação a qualquer coisa. Sentia que os
acompanhantes viam-se impelidos a ter que dar conta de
sua insatisfação, o que era profundamente
desagradável para todos...Seus filhos viam qualquer
crítica sua como um mandato de mudanças,
(quando, na maioria das vezes ele só estava expressando
sua opinião...) o que gerava alguns desentendimentos
banais.
Concluiu que suas mudanças físicas foram
gerando, por parte dos que o cercavam, uma expectativa
de comportamento sisudo e superior - estereotipado.
Mais e mais havia moldado suas atitudes em função
do olhar dos outros, do que esperavam dele. Percebeu que
a naturalidade – ou irresponsabilidade – do
seu falar teve que dar lugar a um discurso quase diplomático
face aos efeitos que porventura poderiam provocar. Havia
envelhecido nas atitudes porque esperavam dele atitudes
mais geriátricas.
Se sua imagem social passou a envelhecer e ele embarcou
numa viagem coletiva de comportamentos estereotipados;
o que, de fato havia acontecido com ele? – se perguntou.
Era correto afirmar que havia mudanças...
Com relação ao mundo sentia que lidava melhor
com as situações por ter acumulado experiências;
isso também ocorria no trato com as pessoas.
Tinha se tornado menos apressado, pois entendia que tudo
precisava de tempo para se resolver. Lembrou que, se possuía
mais conhecimento era afinal por ter mais horas de leitura
que as pessoas mais novas.
Quanto aos jovens, a sensação de envelhecimento
vinha de sentir que já havia passado por aquelas
situações que eles apenas estavam começando
a se dar conta. Diante da repetição dos
dramas existenciais que chegou a presenciar, chegou até
a acreditar, por um tempo, que a vida humana era monótona
e sem criatividade.
Mas, apesar de todas estas constatações
havia algo nele que permanecia o mesmo. Por mais que tivesse
vivido e aprendido, algo inexoravelmente permanecia imutável.
Algo de infantil permanecia incólume a qualquer
modificação.
De que teria valido todo o esforço de viver para
edificar um mundo privado de bem-estar burguês que
tanto havia obcecado sua mente por décadas? E toda
a avidez por informação onde quer que ela
estivesse?
Percebeu, fim das contas, que todas as experiências
e leituras não o haviam conduzido a nenhum saber
acabado, a nenhuma verdade. Que suas certezas eram todos
os dias postas em dúvida face ao fluxo incessante
de novidades que abarcavam sua vida de experiências
Essencialmente sentia-se o mesmo ignorante de quatorze
anos quando leu seu primeiro livro de filosofia.
Diante da imensidão do universo sequer havia arranhado
o plano das aparências; mesmo as pessoas continuavam
a lhe surpreender todos os dias. Sua ânsia por uma
verdade – uma verdade apenas! – era a mesma:
insaciável e frustrada.
Tinha construído um mundo de segurança que
lhe garantia uma sensação de controle e
posse da realidade, mas honestamente não acreditava
na solidez daquele teatro todo: sentia que tudo poderia
desmoronar, a qualquer momento como o forte apache que
ele - criança - construía e destruía
todos os dias, nas eternas encenações de
guerras entre brancos e índios.
Por mais que tivesse tentado, ainda era a mesma criança
brincando de viver.
Colocou o caroço da ameixa sobre um prato, levantou-se.
Acordou sua mulher.Fez sexo com um afeto juvenil que há
muito não fazia.
Naquela semana pediu umas férias e viajou com Marília
para uma segunda lua de mel – Sant Barth (sempre
teve uma vontade de conhecer aquela ilha...).
Naturalmente que acharam que algo de estranho estava acontecendo
com ele; mas pela primeira vez na vida, não ligou
para o que os outros estavam pensando: fez o que quis...
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Ombudsman
A vendedora de salsinha
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O Acidente do Pimpolho (III)
Não sei o que estou fazendo aqui.
Estava lá fora procurando o Pimpolho,
aquele safado, que me comprou uma pá de ramos de
salsinha e não pagou. Me disseram que ele tava aqui
e eu vim ver se era verdade.
Êta homenzinho mais mau pagador esse.
O dotôr disse que era pra eu sentar
na frente dessa máquina e escrever o que me desse
na telha enquanto que ele via se o Pimpolho já tava
acordando da anestesia.
Diz ele que o Pimpolho fez uma cirurgia mas
que tudo correu bem. Ainda bem! Senão era minha palavra
contra a dos filhos dele pra recuperar meus déis
real da venda dos maço de salsinha.
Sabe que eu gostei dessa história de
escrever aqui nessa telona?
Vou perguntar pro dotôr se posso vir
aqui a fazer isso sempre!
Ai! Ui ! Ai! Que dor de barriga mais chata!
Acho que vou ter que ir no banheiro!
Moço! Ô moço de azul aí
com essa coisa estranha na mão! Vem cá me
acudí!
-Sim, senhora?
Olha só moço: o dotôr
me deu a tarefa de escrever aqui nessa telona até
que ele voltasse, mas é que agora surgiu uma emergência
e eu vô tê que sair um pouquinho... Será
que você pode seguir escrevendo aqui até eu
voltar?
- Pode deixar, moça.
- Então, até mais! Vou voando
senão volto melecada!
-Até logo senhora...
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Copyright © 2003-2005 - Rafael Luiz Reinehr - Todos
os direitos reservados. Sinta-se à vontade para reproduzir
os textos do site, mas não esqueça de citar
a fonte e o autor.
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Gentileza
prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto
Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de
mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em
tamanho maior no blógue do amigo.
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Selo
comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em
2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot,
baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The
Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo!
É só pegar!)
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