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12 /01/2005 - Edição número 110

Quê qui tua rôpa tá aqui nu chão?


 
Editorial
Editorial
Rafael Luiz Reinehr
Poesia

Primeira Conversa
Marcelo Adifa

A diversificação da poesia das flores
João Marcelo Pacheco

Ombudsman

Ombudsman
O cara de azul com uma coisa na mão

Colunistas
Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia
Parafernália
Ibbas Filho
Utopias
Luiz Maia
Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Fleck Neves
Bacantes Literárias
Gilson Giuberti Filho

 

Editorial
Rafael Luiz Reinehr

Trufas ao molho de mel

Estava eu em um elevador (fato nada singular em uma cidade repleta de prédios com mais de 3 andares) quando, não mais que num repente, presenciei um fato curioso que me acendeu um clique. Deixe-me contar a história:

Entrei no elevador que estava no térreo e apertei o oitavo andar, acendendo a respectiva luzinha no botão referente ao oitavo andar. Em suguida, entrou uma senhora que apertou o botão referente ao sexto andar e a luzinha respectiva também acendeu. Seguindo-se à senhora, entrou um cavalheiro que parou em frente à caixa de comando e também apertou o botão do oitavo andar.

O elevador começou a subir. parou no terceiro andar, onde mais uma senhora entrou e, pedindo licença ao senhor, apertou o botão (que já estava com a luzinha acesa) do oitavo andar.

Então, surgiu a inquietante pergunta:

O que todos vão fazer no oitavo andar? Nãããããããão idiotas!

Por que afinal de contas, mesmo percebendo que o botão já havia sido apertado e, como resultado dobotão apertado a luzinha correspondente havia se acendido, as pessoas seguiram apertando o botão assim mesmo?

Alguém sabe me dizer?

Rafael Luiz Reinehr

"Platão comparava a vida a um jogo de dados, no qual devêssemos fazer um lance vantajoso e, depois, bom uso dos pontos obtidos, quaisquer que fossem. O primeiro item, o lance vantajoso, não depende do nosso arbítrio; mas receber de maneira apropriada o que a sorte nos conceder, assinalando a cada coisa um lugar tal que o que mais apreciamos nos cause o maior bem e o que mais aborrecemos o menor mal - isso nos incumbe, se formos sensatos. Os homens que defrontam a vida sem habilidade ou inteligência são como enfermos que não podem tolerar nem o calor nem o frio; a prosperidade exalta-os e a adversidade desalenta-os. São perturbados por uma e por outra, ou melhor, por si próprios, numa ou noutra, não menos na prosperidade que na adversidade.

Teodoro, chamado o Ateu, costumava dizer que oferecia os seus discursos com a mão direita, mas os seus ouvintes recebiam-nos com a esquerda; os ignaros frequentemente dão mostras da sua inépcia oferecendo à Fortuna uma recepção canhestra quando ela se apresenta de modo destro. Mas as pessoas sensatas agem como as abelhas, que extraem mel do tomilho, planta muito seca e azeda; similarmente, as pessoas sensatas muitas vezes obtêm para si algo de útil e aprazível das mais adversas situações."

Plutarco, em "Do Contentamento"

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Primeira Conversa
Marcelo Adifa

I.
Morte:

Poeta...
E tu, poeta
que do lodo ao escárnio já se forma
tua vida de intrigas e derradeira morte
que ao primeiro vento já retorna
ao frio e incômodo barro que te envolve
Que farás agora?
Donde tirarás tua arte
e com quem discutirás tua poesia?
Será que conhecem versos
seus novos companheiros
que á revelia
dividem-lhe no subsolo o já apertado e fétido leito?
Este frondoso manto de terra
que alimenta-se hoje de sua picardia
farejando-lhe os trapos e carnes
em busca de um resto de boemia
revolvendo-lhe a face e cuspindo-o aos vermes
em branda azia

E tu, poeta...
Que farás que agora finda
a chama que lhe deste vida
erguendo copos
amando corpos
e escrevendo a vida?
(tua vida
que lhe finda)

II.
Poeta:

Que ao menos minha mortalha
seja dourada e rubra
e traga assim bordada
a insígnia áurea de minha turba
Envolva-me ao corpo
como cingiu-me em luta
e aqueça-me em nova e qualquer batalha

Que abram-se filas e avenidas
empurrem-se corpos e ossos
cedendo espaço à minha passagem
Reúnam-se os mortos e contem-me suas vidas
Detalhem letárgicos como viveram
e de que morte morreram
Falem-me de chagas e de lutas vencidas
Quantas histórias aqui reunidas
forjadas na tristeza da vida
e contadas na melancolia
das noites frias

III.

Aos vermes nús
que me encontrarem estático
que me roam a face
deslizem ávidos pelo meu corpo
inanimado e plácido
e quando, por fim
findar-se
a carne que devorem-me
os trapos e ossos
deixem-me apenas a poesia
que como as unhas e o cabelo
crescem em mim
até depois da morte
(ou após esta vida
de pouca sorte)

IV.

Sentemo-nos novos amigos
e desta existência em comum
desatemos em riso fácil
a aprumarmo-nos em galhofa
E que da nossa história
se faça o fogo ácido da noite
na poesia declamada
em côro
no piar
das corujas
Escrita nos contornos dolosos
de nossos jazigos de almas torrentes
que ainda esquálidas
anacrônicas e dolentes
cantam o viver...

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A diversificação da poesia das flores
João Marcelo Pacheco

Comecei pelas pétalas do girasol
iluminando o vaso desenhado de camomilas
estas pequenas margaridas dos campos
que tem um aroma doce como o acordar da criança, um sabor feminino!

Dancei os tangos da vitrola de minha vó que escutara um tão sensual jazz ,
dancei sonhando que a prórpria vitrola era um grande botão de rosas , um gosto
feminino!

Pensei, - a que flor darei teu nome se tu me lembras quase todos os nomes , e
este perfume que enobrace tua alma são essência das mais lindas entre as
flores, um tom feminimo!

Criei bálsamos dos teus lábios , oh! mulher , alma de tudo que é florde lótus e
flor por si só , tenta sempre me conduzir a escravidão do teu ser, a vitória
feminina!

Pintei no caule tuas pernas delicadas , mulher.
Tua boca de mãe , jasmim que poleniza vidas, mulher.
Teu toque amante e macio, pétalas de bem-te-quer....

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Instruções para dar corda no relógio
Alessandro Garcia

A rebelião

Eu logo suspeitei de que a horda ensandecida ansiava pela rebelião. Mesmo analisando a situação com o distanciamento crítico que o dia de hoje me possibilita – e mesmo considerando que o calor pudesse ser mais um elemento a ser utilizado como pretexto para as ações que então se sucederam, posso crer que havia mais que desespero nos corpos e mentes daquele bando desvairado que tomou o controle do coletivo na sexta-feira à noite. Havia o puro desejo maléfico da baderna, o gosto pelo descontrole, o ensejo pela anarquia completa. Que veio se concretizando com a sutileza que somente os mais ardilosos planos são capazes. Como que ensaiados por um cântico obscuro, embalados por um descompasso emocional, mas devidamente unidos na sua ilógica racionalidade, o ônibus contava dez minutos ou mais sem deslocar-se do ponto da João Pessoa, a recolher como que infinitamente dezenas de pessoas que insistiam em se socar para dentro do veículo, ansiosos pelo contato puro e suarento de seus corpos junto aos corpos de outros. A massa que lá dentro já se espremia de maneira pouco confortável começou os gritos de protesto – e aqui cabe bem fazer uma observação que logo me ocorreu, tão bem olhei para a figura que se colocava prostrada junto ao meu banco, cavando um dos poucos espaços disponíveis e que poderiam, enjambradamente, sustentar sua pesada sacola com seus elementos metálicos barulhentos: foi esta gorda de bigode a primeira a dar início ao ódio espasmódico que de todos começou a tomar conta – reclamando pela demora do ônibus em manter-se parado, recolhendo os desejosos passageiros acima da sua capacidade física. Alheios a qualquer sentimento de solidariedade, os poucos sortudos que já se apertavam dentro do coletivo manifestavam-se acintosamente contra a presença de qualquer corpo a mais a dividir o – segundo eles – ínfimo espaço que lhes restava. Então daí, e sendo perfeitamente inevitável e previsível, surgiu a manifestação de ambos os lados. E cada um, segundo suas próprias razões, entoavam reclamações, defendendo, respectivamente, seu desejo de entrar e, ao extremo, seu desejo de que não se forçasse mais nenhum corpo ao já combalido veículo.

A gorda suava aos cântaros e ainda assim se embalava ruidosamente, destilando tanta ira que temi pelo banco de fibra onde ela se agarrava sofregamente a cada vez que parecia crer que seus gritos serviriam para engrossar o cordão dos desejosos de que o ônibus seguisse seu rumo. Um homenzinho de camisa regata gritava que aquilo era uma “pouca vergonha” e marcava compassadamente seu protesto com batidas no vidro da porta de trás, fazendo com o que o cobrador ameaçasse se levantar para acabar com seu manifesto. Tanto barulho se fez do lado de dentro que o motorista – embora não verbalizando tal decisão – achou por bem tocar o carro, deixando plantados e esperando desanimadamente o próximo veículo, que com esperança viria, as dezenas de pessoas prostradas no ponto.

Com os ânimos já devidamente acirrados, via-se que a viagem não poderia seguir de maneira calma, uma vez que se iniciava um incensado debate sobre os rumos do transporte coletivo na capital e a desconsideração dos governantes com a população de baixo poder aquisitivo. Era como uma panela de pressão, um vulcão se preparando para entrar em erupção, a certeza de que ninguém se dava por satisfeito, o desejo borbulhante de externar a indignação através de manifestos físicos, gritos de ódio, ecos comunitário de desagrado. Foi mais ou menos próximo à Cavalhada que começaram os grunhidos, os gritos de insatisfação pelo calor que se fazia demasiado intenso entre os passageiros. Um grupo se encarregava de elaborar a trilha sonora daquele cenário de fatídico embate: a batucada, um grande partido-alto executado ao vivo era com certeza um dos elementos a rechear os ânimos de entusiasmo, a evocar a violenta manifestação popular física como único e inevitável meio de expressão da insatisfação coletiva. Sob os gritos pouco inspirados e, confesso, de uma musicalidade parca, a frase “ão, ão, ão/com calor não dá não!” formava o cântico de guerra daquele povo, seu convite ao embate. Como o ônibus se tratava de um modelo que, em prioridade, deveria oferecer – como explicitado em inscrições claras e propagandísticas no seu exterior – ar condicionado ao seu público pagante e como, sob a constatação de mais de um conviva, o aparelho não estava cumprindo com sua utilidade (já que um vento morno era a única coisa emitida pelos seus orifícios), criou-se uma situação de incontestável desagrado. As janelas previamente trancadas com um dispositivo que impedia sua abertura facilitada começaram a se tornar baças, os suores empapavam as camisas, os passageiros resvalavam uns nos outros pelo óleo que tomava conta de suas peles e já não se respirava direito com o ar que era trocado irmamente entre os presentes daquele forçado e pouco ortodoxo spa, vamos assim dizer.

Um estupor de ódio tomou conta primeiramente dos passageiros que se mantinham mais ao fundo. Não sei se pela proximidade com o grupo musical improvisado que começava a compor letras de cada vez menos intricada inventividade (pérolas do tipo “ão, ão, ão/motorista é barrão!”, “o calor é desgraçado/liga o ar condicionado!”, “posso ser chinelo e feio/mas pego as mina de recheio!” – esta, admito, completamente alheia a manifestação genuína até então iniciada – e baixando o nível em demasia em “uh, uh, uh/tá suando o meu c*!”, mesmo considerando o fato deste último ter sido entoado em ritmo de afoxé), estes foram os primeiros a usar da força física para fazer valer os seus direitos. Como a abertura da clarabóia, que deveria trazer um tanto de frescor para os passageiros, não se mostrou suficiente para aplacar o quentume epidérmico de todos, um anão foi devidamente alçado por um senhor de porte avantajado e com seus pequeninos, porém potentes braços, arrancou a tampa com um forte empurrão, fazendo com que a mesma voasse por cima do ônibus e acertasse o táxi-lotação que vinha logo atrás de nós. Embora o ônibus estivesse já a um tempo considerável oscilando nervosamente para os lados, deve ter sido exatamente neste momento – quando a tampa da clarabóia voou, atingindo o vidro da lotação, cegando o motorista que foi obrigado a desviar furiosamente para a calçada atropelando uma senhora que se equilibrava com dificuldade em um andador – que os motoristas que vinham atrás se deram conta de que algo inusitado e potencialmente perigoso se passava no interior daquele coletivo. Considerando – não sei sob que parâmetros – uma espécie de vitória alcançada o arremesso daquela tampa de clarabóia e o conseqüente banzé que se instalou no trânsito parcialmente congestionado atrás de nós, os passageiros da área mais suscetível ao agitamento nervoso se tomaram de ainda mais ânimo e começaram a fazer uso de objetos contundentes para forçar a abertura da porta traseira do veículo. O entusiasmado conjunto musical, com os dotes vocais renovados, era como um coro grego, um narrador melódico a entoar a epopéia de suor, ódio e gritaria que se aglutinava dentro daquele ônibus.

A esta altura dos acontecimentos, o mesmo anão que havia se empoleirado nos ombros do avantajado senhor para romper com a clarabóia, já havia se deslocado – como um símio, usando somente de suas mãos para percorrer através das barras superiores e por cima das cabeças dos outros viajantes, o caminho que o separava do cobrador. Este, que tentava discar d seu telefone celular um número que imaginei ser de emergência, foi devidamente inibido em seu intento quando o anão utilizou-se do conhecimento de alguma arte marcial e imobilizou-o com suas curtas perninhas, fazendo com que o pobre cobrador desabasse por cima da idosa que se mantinha apavorada no banco da frente. O grupo de trás já havia conseguido emanar seu descontentamento e violência para vários outros passageiros, que se uniram para o tumulto generalizado. Descoberta de maneira forçada a maneira para destrancar os dispositivos de segurança que mantinham as janelas trancadas, as mesmas se viram arregaçadas e alguns viajantes mais esbaforidos fizeram uso das saídas de emergências, fazendo com que as janelas fossem abertas violentamente, sendo arremessadas sob os outros veículos que transitavam ao lado do nosso. Uma trilha de horror se fazia pela terceira perimetral: cacos de vidro, estilhaços plásticos e suor transbordante mostravam o caminho que levava ao inferno.

O inferno era o ônibus lotado, com suas janelas arrancadas, suas clarabóias reduzidas a nada, uma horda ensandecida e de sovaco molhado bradando impropérios contra os dias quentes e pulando sobre o piso do ônibus como que possuídos por um espírito maligno. O motorista já não parava mais e não tinha como sequer pedir ajuda, coagido por uma velha com uma sombrinha pontiaguda a ameaçá-lo de morte. Um senhor engravatado começou a gritar por calma, alguém berrou “tira este paletó, tá um calor dos inferno!” e arremessaram-lhe uma bergamota na cabeça. Ele ainda ensaiou um discurso pomponiano, mas foi interceptado em seu intento por uma caixa de panela de pressão que o fez desabar sobre uma senhora que amamentava, enquanto a gorda de bigode se agitava, em êxtase frenético. As crianças gritavam em horror e deslizavam por baixo das pernas dos passageiros, aturdidas pela velocidade com que o ônibus seguia. Um velho cego no banco ao lado do motorista berrava, ensandecido “o horror! o horror!”, enquanto o motorista realizava manobras cada vez mais labirínticas por entre os carros que formavam obstáculos à sua frente. Uma massa disforme era o que formava o bando de passageiros que pulava em ritmos aleatórios, bradando em fúria, como torcidas de times de futebol, batendo-se uns nos outros e derramando em si mesmos todos os líquidos que tinham em seu poder. Assim, o suor misturava-se a suco de laranja, água, café frio e coca-cola morna e civilidade era um conceito que não devia passar pela cabeça de ninguém àquela hora.

Sei que foi na hora em que o cobrador conseguiu se livrar da chave de perna do anão, foi exatamente nesta hora, em que ele se revestiu de força e arremessou o anão contra o pára-brisa do ônibus e este ricocheteou contra o motorista que perdeu o controle do veículo (e o improvisado conjunto musical ao fundo entôou “deu, deu, deu/o anãozinho se fodeu!”), foi aí que eu vi que a baderna realmente iria começar.

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Parafernália
Ibbas Filho

A conspiração (mais uma)

_ Senhores membros deste comitê. Nós do Pentágono realizamos esta urgente reunião para debater o futuro do mundo.

_ Do nosso mundo ou do resto do mundo senhor presidente?

_ Boa pergunta agente da CIA. Mas precisamos do resto do mundo para jogar os nossos restos. Então vamos falar pelo mundo todo.

_ E nós temos esse poder senhor presidente?

_ Me admira um general fazer tal pergunta. É claro que sim. Temos todos os poderes. Você não assiste televisão? E mais uma intervenção dessas e vou pedir para o senhor se retirar.

_ Claro senhor presidente, desculpa.

_ O fato é que andei lendo este livro.

_ Ensaio Sobre a População? De quem é senhor presidente?

_ De um tal de Thomas Malthus senhor secretário de forças armadas. Meu filho está lendo na escola e veio me perguntar algumas coisas. O livro fala que a população está crescendo descontroladamente e isso vai repercutir em falta de comida e condições aceitáveis no planeta.

_ E para nós também senhor presidente?

_ Não sei ao certo eminentíssimo representante da NASA. Como bem sabes estamos a um passo de construir as torres trigêmeas em Marte, mas até lá vamos ter que nos considerar parte do planeta. A melhor parte dele diga-se de passagem.

_ E o que vamos fazer senhor presidente?

_ Bom senhor diretor das companhias petrolíferas. É por isso que estamos aqui. Eu tive uma idéia.

_ óhhhhhhhhhhhhhhh (em coro)

_ Obrigado, obrigado senhores. Pelo que meu filho entendeu e me explicou, Malthus diz que deveríamos fazer duas coisas: primeiro cortar as verbas para os projetos assistenciais, mas isso a gente já faz há tempos. E segundo, baixar uma lei proibindo as relações sexuais para os pobres.

_ Mas senhor presidente, seria o fim das nossas festas nos puteiros!

(todos concordam e protestam com veemência)

_ Calma senhores, calma. O nosso excelentíssimo chefe das operações militares especiais tem toda a razão e minha idéia não é essa.

_ Ahhhhhhhh, ufa! (em coro novamente).

_ Vamos patrocinar e promover uma série de eventos pelo mundo que matarão milhares de pessoas e o problema estará resolvido.

_ Mas vão nos chamar de assassinos senhor presidente!

_ Faremos em nome de deus meu caro chefe de estado para assuntos religiosos. Isso sempre funciona.

_ Não entendi senhor presidente.

_ Vou lhe explicar senhor mister em assuntos estratégicos. Por favor não me interrompam agora. Primeiro vamos jogar um avião contra nossas torres gêmeas. Mesmo porque já estamos construindo as trigêmeas em Marte como eu lhes falei antes. Isso causará uma porção de mortes de muitos estrangeiros que trabalham lá e uma compaixão mundial que nos autorizará a retaliar os autores do que chamaremos de atentado. Culparemos Bin Laden e o Islã pelas mortes e mandaremos tropas para liquidar as pessoas no Afeganistão e depois no Iraque. Essa gente só nos complica com sua religião anti-americana e com o controle do petróleo. Alistaremos nossos soldados mais pobres, porque se morrerem já nos ajudam com o problema levantado por Malthus.

_ Fantástico senhor presidente, mas e se por acaso se repetir o que passamos na guerra do Vietnã?

_ Eu já pensei nisso também meu amigo criador do cartoon Lippy e Hardy. Meu filho também tem aulas de geografia e esses dias me contou que existem falhas geológicas na crosta terrestre. Uma delas fica na Indonésia, onde vive muita gente pobre. Vamos mandar uma sonda marítima que se explodirá na fenda causando um leve terremoto e ondas gigantes que inundarão regiões asiáticas e teremos conseguido eliminar mais gentalhas e resolveremos a questão. O que acham?

_ De acordo senhor presidente (em coro).

_ Muito bem, então está aprovado. E para encerrar eu trouxe um filme do Hitler para assistirmos. Tragam a pipoca e o guaraná. Ah, a propósito. Vamos poupar o Brasil até descobrirmos a fórmula desse refrigerante ok?

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Utopias
Luiz Maia

Adiando a vida

Há pessoas que vivem permanentemente adiando decisões. Não são capazes de ousar.
Muitas estão acostumadas a se refugiarem por trás do medo,
outras acomodam-se pela inércia.
Assim todas passam a negar a vida que clama no âmago de cada uma.
Por que seguir adubando suas existências medíocres
a troco de nada?

Fica difícil de explicar, caso a caso, as razões que levam essas pessoas a trancarem suas vidas,
como se, escolhendo levar uma vida insípida, sem horizonte algum, ficassem imunes aos eventuais dissabores
que a vida nos impõe.
Ledo engano.

Não tem sentido nenhum adiar a vida,
imaginando ser o amanhã o depositário fiel de suas esperanças.
Afinal de contas, o momento presente foi o "amanhã do ontem que passou".

Ousar é fundamental para que as pessoas vejam seus sonhos se concretizarem,
suas esperanças satisfeitas, suas metas realizadas.
E mesmo que não atinjam seus objetivos de pronto, é certo que terá valido a pena
ter ousado e desafiado o destino. Nunca é demais saber que o tempo urge e o amanhã é incerto.
Adiar a vida, jamais!

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Luiz Maia

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Um pouco de cada: luz e trevas
Sara Flech Neves

Oi amor

Oi amor.
Não sinto mais dor.
Não lembro do desamor.
Não guardo rancor.
Oi amor.
Estava esperando.
Aguardando você chegar.
Apenas para falar das coisas que senti enquanto você não estava aqui.
Tanto tempo passou desde a nossa última aurora.
Tantas horas de agonia para se desmancharem todas agora.
Tantas despedidas em ritmo de bossa nova.
Oi amor.
Está tão lindo. Continua sempre deste jeito.
Pois enquanto não o via, imaginava você assim.
Belo sujeito.
Oi amor.
Que bonita nossa história.
Que exemplo de amor verdadeiro.
Nem o tempo pôde nos separar.
Nosso templo é indestrutível.
O contruímos sobre pilares de séculos passados.
Oi de novo.
Fica agora. Nunca mais viaje para longe.
Não arranque mais nada de mim.
Não quero mais me despedir.
Nem esperar.
Oi amor. Fica aqui.

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Bacantes Literárias
Gilson Giuberti Filho

Ensaio Nº 13

Estava rodando há horas pelas ruas da cidade. Tinha saído mais cedo do jantar onde estava. Não causou estranheza já que era conhecido por ir embora sem despedir-se.
As ruas passavam uma após outra bombardeando intermitentemente seu rosto com luzes, ora amarelas, ora brancas ofuscantes...Carros em profusão no caos de uma noite de sábado; faróis, buzinas, velocidades. Efervecência. No carro, Flaming Lips fazia uma trilha sonora que apenas aumentava seu vazio.
De forma nostálgica seu casamento vai passando como um filme em sua mente...Não conseguia esquecer aquele rosto que ainda lhe era meigo; seu sorriso como que pedindo e injetando felicidade numa mente sempre taciturna. Helena tinha sido sua única razão de viver...
As mesas dos bares, nas calçadas...Milhares de vidas acontecendo num torvelinho de situações, se sucedendo diante de sua vista: inícios de namoro, brigas conjugais, piadas que faziam a mesa ir abaixo, em exaltação. Mais à frente uma discussão – dois rapazes tirando satisfação, uma moça em desespero. A realidade passava como que num caleidoscópio dentro de uma mente vazia de emoção – estava só...
Vê-la feliz ao lado de outro tinha sido uma facada para ele; logo ele que de nada sua vida havia resultado desde quando ela pediu a separação:
- Não vejo mais futuro na minha vida com você!
Uma semana antes do seu aniversário...
Pelas ruas os travestis exibiam decotes, pernas, seios fartos numa apoteose de exibicionismo artificial em meio a clientes sedentos de sexo em perversão. Um deles manda-lhe um beijo obsceno de uma boca túrgida de silicone barato sob uma cascata de cabelos loiros oxigenados.
Um segundo e já tinha passado - era apenas mais um evento em meio à sucessão de fatos que sua vida tinha se reduzido; ele, aturdido, apenas assistia.
- Você é um fantasma dentro dessa casa, Carlos! Você acha que está vivo; para mim você já morreu! Gritava, aos prantos.
A frase ainda ecoava pela sua cabeça. Naquele dia ela o ferira mortalmente.
Uma blitz; sirenes, luzes vermelhas; pára o carro. O de praxe: documentos e algumas perguntas. Sem expressar alguma emoção, apenas obedeceu.
Vira uma rua, um calçadão. Na parede um rapaz segura a mão de uma menina que, à sua frente, coloca a mão em seu rosto – amor...
Sem suportar muito, seus olhos enchem de lágrimas. A felicidade no amor era algo raro em sua vida. A solidão assolava sua existência sentindo viver num deserto de experiências.
Mais uma rua e as putas mais caras das ruas se ofereciam pelas calçadas encobertas pela meia-luz constante.
Encontra uma bonitinha; estaciona. Chama e confere seu corpo escaneando com o olhar. Servia. Combina o preço e manda entrar.
A rota agora era o motel de sempre...
Sentia-se como uma hiena vivendo de detritos alheios; migalhas de nada numa vida devastada pelo egoísmo e desesperança...

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Ombudsman
O cara de azul com uma coisa na mão

O Acidente do Pimpolho (IV)

Como assim? Só ir escrevendo aqui .. assim? Alguém está lendo? Alo-oooo. Mas que mulher mais estranha, parece ligada em 220V. Se a minha lanterna tivesse essa pilha ... Se bem que esse ano ela funcionou por semanas. Bom vou deixar ela aqui no lado para seguir escrevendo. Não gostei das cores disso aqui. Será que dá para mudar para as cores do meu time? Ihhh ninguém responde. Então acho que posso escrever o que quiser mesmo.

Será que posso falar aqui do Bili que encontrei no ônibus quando estava vindo pra cá? Melhor não né, de repente o pessoa por aqui é preconceituoso. Vão ficar cobrando que eu devia jogar melhor. Como jogar bem com esse monte de homem de perna de fora em campo? E quando nosso cabeludinho começa a chorar emabixo das traves ... que vontade de dar um colinho para ele. Ih eu disse que não ia falar e acabei falando.

Acho que vou mudar de assunto. Vou falar de site, isso eles vão entender. Está uma pintura. AH e por falar em pintura, quem for lá no estádio vai ver. Está maravilhooooso. Pena que o mastro da bandeira está penhorado. É um mastrão ... EU não me seguro mesmo. Melhor eu ir lá visitar o Pimpolho que eu vim mesmo aqui foi pra isso. Coloquei até essa minha camisa do Grêmio de quando a gente foi campeão do mundo. Eu nem tinha nascido, mas meu pai só fala nisso ... Vamos ver se hoje em consigo ver ele. Ontem o segurança safado me disse que com essa camisa só depois de domingo. Não entendi. Por que só na segunda?

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Gentileza prestada pelo digníssimo Alvesto, do blógue Abstracto Concreto ao Simplicíssimo. "Riscador" de mão-cheia, criou esta obra de arte que pode ser vista em tamanho maior no blógue do amigo.

 


Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)

 


 

 

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