

Última atualização em Qui, 29 de Novembro de 2007 04:01
Escrito por Eduardo Hostyn Sabbi
Qui, 26 de Junho de 2003 21:00

Uma das grandes características do ser humano é a possibilidade de
utilizar-se da linguagem falada para expressar e comunicar aos demais
de sua espécie o que desenvolve nas profundezas do pensamento e da
emoção.
Entretanto, nem sempre nos é possível tal façanha. Limitações culturais
ou conflitos pessoais muitas vezes interferem neste processo.
Historicamente, ao lado da morte, o sexo sempre foi um grande tabu para
o homem. Para ambos, sempre nos é mais fácil falar de forma indireta ou
figurada. Um exemplo disso são as expressões "bater as botas" ou
"empacotar", relacionadas à morte e outras do tipo "afogar o ganso" ou
"trocar o óleo" para o ato sexual. Assim, sem nos darmos conta, criamos
novos nomes, apelidos e eufemismos para driblar ou nos adaptarmos aos
tabus e preconceitos sociais. Aqui, se torna de extrema valia a ajuda
do dicionário:
• Nome: "palavra que designa pessoa, coisa ou animal, qualificação;
título, honra, reputação, fama; Dar nome a: apelidar, tornar famoso." •
Apelido: "denominação ou título distintivo, que designa alguma
qualidade notável ou característica; nome particular que se dá a alguma
coisa; designação alusiva a algum defeito da pessoa." • Eufemismo: "ato
de suavizar a expressão de uma idéia, substituindo a palavra por outra
mais agradável, suave, delicada ou polida".
E as palavras pênis e vagina? o Pênis vem de phallus (falo), palavra
latina derivada do grego, muito utilizada simbolicamente para expressar
força, poder e agressão, que culturalmente estão muito relacionados à
visão de masculinidade. o Vagina vem do latim vaginae, significando
bainha da espada, invólucro, casca. Nota-se uma função protetora e
aconchegante, culturalmente muito relacionada à visão de feminilidade.
Curiosamente, vários estudiosos apontam também para a lenda da vagina
denteada onde, como o próprio nome diz, ela teria dentes que poderiam
agredir o pênis durante a relação sexual. De posse destes conceitos,
podemos então agrupar os nomes dados ao pênis e vagina em dois grandes
grupos, de acordo com o objetivo (inconsciente na maioria das vezes) a
que se propõe:
1. Pela necessidade de reduzir o impacto ou esconder o sentido do nome real (o próprio conceito de eufemismo);
2. Pela necessidade de expressar, qualificar ou ressaltar características de órgão (o próprio conceito de nome ou apelido).
Vamos ver mais a fundo estas dois grupos:
1. Pela necessidade de reduzir o impacto ou esconder o sentido do nome
real (o próprio conceito de eufemismo) Imagine aquela sala de bate-papo
de sexo na internet. Quem entra com seu verdadeiro nome? O "nick" serve
de proteção para que os outros não associem as falas (tidas como
socialmente feias, erradas, imorais) à pessoa real. Da mesma forma,
falar abertamente em pênis e vagina pode despertar muita vergonha e
ansiedade ao evocar a própria função sensual em que estão envolvidos
(tida como socialmente feia, errada, imoral). Cobra e Maçã, por
exemplo, são os personagem do maior pecado bíblico, quando certamente o
proibido não era uma fruta. Assim, reduz-se o impacto dos termos, numa
forma de dessexualização dos mesmos. Um bom exemplo disto podemos ouvir
das crianças (e muitas vezes dos papais) com o rótulo de Pipi, Xixi,
etc. que referem-se ao ato de urinar. O mesmo pode ocorrer sob a forma
de animais, idêntico aos personagens das estorinhas infantis (lobo,
porquinhos, ...). Neste grupo estão o Passarinho, Peru, Pinto, Minhoca,
Perereca, Periquita, Pomba. Para minimizar ainda mais o efeito, o
diminutivo também é comum: Pipizinho, Peruzinho, etc. Ainda neste
sentido também é interessante o uso de nomes próprios para pênis e
vagina, como se fosse uma outra pessoa. Assim, quem está com aqueles
impulsos "imorais, sexuais, agressivos" não é o indivíduo, mas o
Braúlio, o Zezinho, a Ritinha e a Greta Garbo lá de baixo. E, mediante
à tão temível situação de falha masculina na hora H, fica fácil então
dizer: "não sei o que está acontecendo com ele". Alguns nomes
aparentemente não nos diriam nada (e o objetivo é justamente esse) se
usados em outras situações, como por exemplo Bilau, Piça, Xana, Xota,
Xoxota, Xexeca.
2. Pela necessidade de expressar, qualificar ou ressaltar
características de órgão (o próprio conceito de nome ou apelido). Pau,
Espada, Mastro, Pistola, Ferro, Pino, Pica, representam objetos duros
(o pênis em sua atividade fisiológica) e dotados de potencial
agressivo, diferentes do mole e frágil Pintinho da criança e muito
próximo da etimologia da palavra pênis. Aranha e Perseguida, nos
remetem igualmente à agressividade e às fantasias de medo (da própria
aranha ou do perseguidor), talvez ligados à figura histórica da vagina
denteada. Concha, Gaveta, Gruta-do-amor, Mantegueira, demonstram a
mesma fisiologia da mulher, igualmente relacionado à própria etimologia
da palavra vagina. Já a expressão de desejos de que a relação sexual
seja prazeirosa, gostosa, pode ser encontrada no Biscoito, no Pirulito,
no Picolé, na Banana, Lingüiça e, pelo lado feminino, no Bacalhau, na
Batata e na Maçã.
Assim, pênis e vagina recebem as mais variadas denominações por mera
necessidade! Necessidade do ser humano expressar de forma mais suave ou
escondida dos tabus de cada cultura e em função do que representam,
simbolizam e até das fantasias que despertam em cada indivíduo. Vale
ainda lembrar, que isto não é uma exclusividade destes dois nomes, mas
de tudo aquilo que gera preconceito e desconforto na sociedade e que,
sem eufemismos, ficaria "exposto à mais pura nudez". Basta para isso
focarmos desde os complexos tabus como o ato sexual e a morte,
comentadas no início deste texto, passando pela prostituta (Vadia,
Mulher da Vida, ...), às manifestações musicais nas letras dos Mamonas
Assassinas ou Raimundos e nas coreografias dos pagodes (que todas as
idades cantam e dançam sem maiores problemas) e chegando ao simples
peido (carinhosamente chamado de Pum) Alguns nomes e apelidos para
pênis e vagina
- Pênis - alavanca-de-arquimedes, aparelho, arame, arma,
badalhoco, badalo, bagre, banana, barbarroxa, bicho, bimba, bordão,
brachola, caceta, cacete, cahado, caibro, camandro, cambanje, cambão,
canivete, caralho, careca, carimbo, catano, catatau, catso, cazzo,
chouriço, cobra, espada, espeto, espiga, estaca, estrovenga,
ferramenta, ferro, fumo fuso, ganso, instrumento, jeba, judas, lascão,
lenha, lingüiça, madeira, mala, malho, mangalho, mango, manjuba,
manzape, manzapo, marsapa, marsapo, marzapo, mastro, mastruço, membro,
minhoca, minhocão, minhocuçu, nabo, negócio, nervo, parte, parte
central, passarinho, pau, pau-barbado, pau-barbudo, pau-de-cabeleira,
pau-de-fumo, pau-de-sebo, pé-de-mesa, peça, peia, peru, pica, piça,
picha, pichuleta, picirica, piciroca, picolé, picolé-quente, pila,
pimba, pingola, pinguelo, pingulin, pino, pinto, piroca, piru,
pirulito, pissa, pistola, pito, piu-piuporraz, porrete, prativai, pua,
reta, robalo, rola, sarrafo, seringa, tora, trolha, vara, verga,
vergalho
- Vagina - aranha, babaca, bacalhau, barata, bichochota,
bixoxota, bombril, boceta, buceta, brecha, buça, buraco, caranguejeira,
carne-mijada, chana, chavasca, chibiu, chincha, chochota, chota, cona,
cono, concha, crica, gaveta, greta, greta-garbo, grota, gruta,
gruta-do-amor, inhanha, lacraia, lasca, manteigueira, negócio, nhanha,
nica, pachacha, pachocho, pachoucho, pachucha, parte, parte central,
passarinha, perereca, periquita, periquito, perseguida, pito, pixana,
pomba, pombinha, precheca, quirica, racha, tabaca, tabaco, xana,
xereca, xibiu, xinxa, xota, xoxota, xuxa.