Quinta, Maio 17, 2012
   
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Borat!

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O Brasil vai mal. Saímos do filme Borat, hilariante, e percebemos que só nós, eu e Fran, estávamos achando o filme engraçado para valer. Fran foi ao toalete e lá escutou de uma mulher da classe média paulistana, que falava sem graves erros de português: “eu pensei que fosse uma comédia”. A outra respondeu: “ah, é válido, é um filme diferente, não é?” Contei isso a amigos de outras capitais e eles disseram que tiveram a mesma impressão. Há vinte anos ou trinta, esse tipo de filme era amado e entendido pela classe média. O que ocorreu no Brasil? Isso já é um índice educacional de nosso povo?
 
E a reação do público que sobrou? O público que conseguiu apreciar o filme, o que achou? Não sei ao certo, mas já tenho alguns elementos para comentar, não propriamente a reação do público, mas o sentido do filme enquanto filme do humor que ainda deve muito aos anos noventa, no estilo de “Seinfield”. E faço isso pela via da filosofia – a filosofia do humor. Há quem tenha considerado o filme como um “escracho” contra o “American Way of Life”. Não vejo assim. Vivi e trabalhei nos Estados Unidos. Estudei a cultura americana por ter me tornado, em parte, um scholar de filosofia americana. Creio que por isso minha reação ao filme foi diferente. O que exponho abaixo é uma visão do filme, é claro, apenas uma. Mas é aquela que a filosofia do humor que desenvolvo tem alguns indicadores já prontos para serem oferecidos ao público. É o que faço nesse pequeno texto abaixo.
 
O “American Way of Life” (AWL) não é lembrado no filme, e isso garantiu o sucesso dele nos Estados Unidos. Pode-se tocar de fato no “American Way of Life”? Não! Ele um tabu nos Estados Unidos, mesmo depois de todo o cinema crítico e mesmo depois de toda a boa leva de professores de esquerda dos departamentos de Letras das universidades americanas. Deitar uma crítica demolidora do AWL é impensável. É aquilo que ninguém ousa fazer, de verdade, se quer vender algo nos Estados Unidos – ao menos é o que se pensa; e o que se pensa, pesa. E nos Estados Unidos, tudo que se faz é para vender, pois não há como atingir nem mesmo o vizinho mais próximo com algo puramente gratuito. É claro que há muita coisa gratuita em termos culturais nos Estados Unidos. Mas o público sabe a razão pela qual aquilo é gratuito ou, ao menos, parece ser gratuito, e isso vai para o mercado. Então, para passar uma mensagem, é preciso colocá-la no mercado. Fora disso, não há o que fazer. E o mercado pode reagir mal se o produto desmentir o AWL frontalmente. Ninguém sabe se isso é verdade, é um presságio. Mas ninguém é louco o suficiente de pagar para ver. Ninguém tentou isso para ver o resultado? Talvez tenha tentado. Mas a história o enterrou. Mesmo os filmes altamente críticos em relação ao AWL – o sonho de vida da classe média americana nos anos cinqüenta – sempre são bastante cuidadosos no sentido de manter como válido o seu núcleo: a família de três filhos que pode viver mais ou menos unida, mesmo que os tempos mudem e algum filho tenha caído nas drogas ou na cadeia; os pais que constroem a nação mesmo que venham a se divorciar; e o ideal – correto – de não deixar a nação se dividir, uma vez que agora um novo tipo de movimento como aqueles que ocorreram no passado (o filme “Gangs de Nova York” descreve bem isso, e “Crash” o complementa a partir de outra época e outra visão) destruiria de vez os Estados Unidos. Destruiria? Não se sabe. Sabe-se apenas que há o temor disso no ar. O temor de uma nova forma de Guerra Civil, separatista, nunca foi superado. Kennedy favorecendo os negros, Johnson favorecendo as crianças pobres e Clinton favorecendo o multiculturalismo foram facetas desse medo. No limite, é necessário manter a chama acesa: “América, terra de liberdade e de oportunidades – para todos”. Sem isso, não há a “América”. Sem a “América”, não há a América.
 
Dito isso, tenho o pano de fundo para falar do humor de Borat – o genial Borat.
 
O filme, até o ponto que sabemos no momento – nós e a imprensa mundial – , é feito na base do “reality show”. Onde tudo é real e ao mesmo tempo pode ser um “fake” – é um “fake”! Em geral, é o “fake” do “fake”. É o tipo de filme inteligente em que o “não é o que parece” funciona em vários planos, indo e voltando na memória de quem sai do cinema e apreciou a história. E o que é mais inteligente na produção do filme é que ele foi feito tendo como garantia de seu sucesso, desde o início, a idéia de que se trata de uma crítica à vida americana, mas que, na verdade, em nada critica a vida americana que já não tenha sido altamente criticado pelos americanos. Tudo que ele apresenta como sendo a vida americana é aquilo que o americano médio escolarizado ridiculariza em sua própria cultura, como sendo o que um “loutish man” faz. Em nenhum momento Borat arranha o AWL porque este não tem nada a ver com o que ele apresenta no filme – e os americanos sabem disso. Todavia, ao retratar o “lautish” americano, Borat está criando, sim, uma profunda crítica ao europeu – e outros – no que eles imaginam que seja a América. É uma forma eficiente de fazer o público americano rir daquilo que ele já ri – e esta é uma boa fórmula do humor no mundo todo atualmente. Mas é, também, uma forma sutil de chamar os europeus e outros povos, que tentam se americanizar, de incapazes de assim fazer pois, de fato, não compreendem a América. O filme é isto: tudo que existe de estúpido nos Estados Unidos – e que é o ponto de ridicularização, por exemplo, por gente que tem uma cultura universitária na sociedade americana – é colocado como o que é absorvido facilmente pelo “europeu” Borat. E o “europeu” Borat representa um homem culto do seu país, é um homem da TV estatal de seu país (disse e repito: pode ser o Brasil, o país de Borat). Não é pouca coisa.
 
Uma só questão que eu lembre já mostrará o que quero dizer. Borat chega a New York e se apaixona por Pamela Lee. Ela foi a “prostituta do mundo”. O consumo dos seus vídeos foi grande nos Estados Unidos. Mas foi grande no mundo todo. Nos Estados Unidos, era o consumo normal de vídeos pornôs, nem mais nem menos do que é o comum em um país industrial daquele tamanho. No resto do mundo, era o consumo em busca da “mulher americana”. Essa é a diferença. No resto do mundo, Pamela Lee foi realmente tomada como mulher – como mulher americana! E Borat captou isso e levou tal sentimento ao exagero: o estúpido do filme não é o americano estúpido somente, mas sim o homem escolarizado da Europa (ou qualquer outro lugar), que age diante do lixo americano de um modo a tomá-lo como o que é a vida americana na sua totalidade – para amá-la (ou para fingir odiá-la). Esse é o verdadeiro estúpido que Borat ridiculariza ao ridicularizar-se. Borat, o repórter, é o verdadeiro estúpido do filme. Ele mostra-se estúpido diante de tudo que é estúpido e ridicularizado pelo americano não estúpido, e ele absorve aquilo ao seu modo, e transporta tudo para seu modo “europeu” (ou brasileiro) de ver as coisas. Com essa fórmula, que penetra o subconsciente até mesmo do estúpido que age como o repórter Borat, ele garantiu o êxito do filme.
 
O episódio do rodeio mostra bem isso. Ele entra em um rodeio e, para agradar, começa a falar frases a favor da guerra contra o Terror. Mas vai ampliando as frases de modo que elas começam a mostrar um sentimento cru, rude e cruel em relação ao “inimigo”. A idéia que se faz do Texas, na Europa (e principalmente em lugares rudes mesmo, como o Brasil), é de que o Texas é um lugar rude. Um lugar conservador ao extremo. Mas a idéia que o europeu (ou o brasileiro) tem do conservadorismo do texano é, não raro, imbecil. E ela aparece em Borat, no discurso dele. Ele começa falando de seu apoio à guerra e é aplaudido. Mas na medida em que ele vai colocando palavras selvagens na boca dos americanos, que é o que um europeu (ou brasileiro), muitas vezes culto, pensa a respeito dos americanos, ele vai caindo em desgraça diante do público, e vai deixando de ser aplaudido. Alguém pode pensar: ele está sendo sincero demais, e os americanos que estão assistindo são hipócritas. Fazem mas não possuem a coragem de falar que fazem: matam mas não podem dizer que matam. Essa forma de ler o episódio do filme só em parte é válida. Isso é apenas uma forma de leitura, também permitida, por Borat. Mas não é a questão de Borat e não é o ponto que ele quer atingir, pois, de fato, essa hipocrisia não é o traço marcante do americano, ao menos não maior do que seria entre nós, brasileiros – é a hipocrisia comum e normal a que existe lá. A questão de Borat é outra. E por ser outra é que o filme é notável. Pois se a questão fosse a hipocrisia, o filme seria a repetição de tantos outros que já puseram no cinema e na literatura mil vezes essa forma de denúncia – desde o Cartas persas, de Montesquieu, que se faz isso bem feito.
 
Na cena do rodeio Borat novamente se mostra ele próprio como o palhaço. Ele, aliás, ocupa o lugar literal do palhaço no rodeio – perceberam? Ele é de fato o palhaço – é o “europeu” (ou o brasileiro!) escolarizado. Ele não é o europeu estúpido que está se relacionando com o americano estúpido. Ele é alguém que pode, sim, ser tomado como o intelectual europeu médio, ou seja, o homem de televisão, que está se relacionando com o estúpido americano, um estúpido que às vezes existe e às vezes não existe. Existirá o “europeu” de Borat? Eis aí a interrogação que o próprio Borat deixa no filme, e isso faz da película algo ainda mais inteligente. Podemos transportar a questão: haverá o brasileiro culto que age e pensa como o repórter Borat? Não é engraçado? Sim! Nós conhecemos algum professor universitário brasileiro que imaginaria ser verdade aquilo que Borat mostra na hora que ele quis se identificar (com fracasso) com o público do rodeio e, então, elogiando a guerra, disse que queria, junto com os americanos, “beber o sangue do inimigo”? Podemos lembrar de professores à direita e à esquerda pensando assim, no Brasil? Não podemos? Se eles existem, eles são o repórter Borat, lá do país X. São esses os verdadeiros alvos da crítica hilariante do filme “Borat”.
 
As cenas de “Borat”, durante a filmagem, fizeram a polícia aparecer inúmeras vezes. Houve reclamações de todo tipo. Ele enganou muita gente, para filmar as pessoas. Mentiu e prometeu. E mais: sobre seu ataque em cima de Pamela Anderson, ninguém sabe se foi combinado ou não.
 
De fato, Borat quer atingir o público usando o que hoje está na forma mais corriqueira de fazer TV. Por exemplo, você assiste algo como o Big Brother (não o brasileiro, que é muito mal feito e chega a ser coisa para débil mental) e não sabe até que ponto há “combinação por detrás das câmeras ou não”. Esse tipo de dúvida é o que Borat explora. Quem é o idiota de Borat? Sim, os estudantes que ele encontra são perfeitos idiotas, mas ele, aprendendo lições deles, é o maior idiota. A diferença é que aqueles estudantes são os idiotas da universidade dos filmes americanos quando tais filmes querem tratar de idiotas. Todavia, aqueles ali eram reais? Mas e Borat? Borat é a ficção do jornalista europeu (ou brasileiro). Mas ele é o mais real ali, mesmo sendo ficção: pois ele é o jornalista europeu ou brasileiro ou de qualquer outro lugar que, ao captar a idiotice, acha que captou realmente “o que é a América”. E o que faz daí em diante? Ora, leva o seu filme para sua terra e, então, ela se “americaniza”. A tentativa de implementação disso, que ele capta na América, na Europa ou em qualquer outro lugar é que é o verdadeiro pastiche (algo como a “americanização” de Barretos, entenderam?). No final do filme, na cena de canto do hino da terra de Borat e do suposto término do documentário, ele mistura cenas típicas da Rússia estalinista com práticas idiotas ou obcenas americanas, explicitando então, de uma vez por todas, o alvo do filme.
 
O filme é sensacional e há mil coisas ainda para se falar dele, do mesmo modo que há ainda curiosidades que vão ser descobertas.


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Comentários (2)
  • rogeriobeier  - http://perfectsense.zip.net
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    Excelente leitura do filme. Saí com uma impressão ligeiramente diferente, muito embora tenha
    percebido a crítica contra a idéia preconcebida do que é um americano médio.



    Apesar disso, ainda acredito que o maior alvo de Borat é a hipocrisia estadunidense. Não digo que
    ele mirou o elefante e acertou a mosca, porque as referências que você elencou em seu artigo estão
    perfeitas. Todavia, é impossível não sair do cinema com a questão proposta no título do filme: o que
    os EUA tem a ensinar aos outros países do mundo?



    Aqueles que assistiram o filme devem ter percebido que, tendo cruzado o país de leste a oeste, Borat
    foi buscando o caricato para ilustrar a hipocrisia deste povo, que não é diferente da de outros
    povos, mas que, diferentemente da hipocrisia dos outros, a estadunidense é exportada a todo mundo
    através da indústria cultural do cinema, tv, internet e demais mídias. Não me parece ser
    coincidência o fato de Borat utilizar-se do próprio cinema para fazer esta crítica.



    No fim, fiquei com a nítida sensação de que uma das mensagens do filme é de que, apesar da imagem
    que eles criam e passam ao mundo através de sua indústria cultural, os EUA não diferem muito das
    próprias mazelas que temos em nossos países. O agravante é que eles não gostam de admitir o quão
    hipócritas eles são. Dizem ser a terra dos livres, e têm milhares de homofóbicos como aquele
    velhinho cowboy no rodeio. Pregam a tolerância racial, mas não suportam jantar com uma prostituta
    negra de rua, muito embora peçam autógrafos a uma prostituta branca e loura da TV. Dizem respeitar
    as mulheres, como aquelas feministas que conversavam com ele no início do filme, ou o instrutor de
    direção, enquanto sabemos não serem poucos os estadunidenses que pensam como os rapazes daquele
    trailler que diziam não respeitarem as mulheres.



    Enfim, acho que ele também mirou a hipocrisia de como os americanos se vêem e como eles se mostram
    ao mundo.



    Parabéns pelo texto e desculpe o comentário enorme!
  • claudino
    avatar
    Interessei-me. Lendo e mensurando, entendo que o que realmente chega ao mundo sobre os pensamentos e
    idéias dos estadunidenses é a parte idiota, fácil, comercial. Esta, em sua enorme maioria, é ruim,
    como tudo que é massificado e entregue ao público em geral. O assunto é extenso. Idiotas existem no
    mundo todo. Nós, brasileiros, gostamos da ridicularização do argentino, eles, vice-versa, e
    continuamos com nosso bairrismo...



    Não há nada demais em mostrar ao mundo traços de sua cultura, desde que os receptores tenham
    capacidade de entender, gostar ou não... Aqui, sul do sul, também americanos, parece que criticamos
    tanto as terras do Bush porque nunca conseguimos ser mais que uma caricatura delas...



    Parabéns!!



    Marcos Claudino
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