Sábado, Fevereiro 11, 2012
   
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Filosofia para Rico é Pior que a Filosofia para Pobre

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Todos no Brasil sabem que o produto oferecido para o rico é melhor que o “equivalente” oferecido para o pobre. O modo moderno de produzir as coisas que consumimos aprendeu algo chamado “diversidade”. Tudo que o rico consome de bom em seu supermercado luxuoso existe, como “fake”, na prateleira do supermercado da esquina da favela do pobre. A mesma coisa ocorre com o ensino. Antes o pobre que queria o ensino superior fazia uma faculdade, o rico fazia universidade. Agora ambos fazem universidade, embora a do pobre seja a UNIBAM e similares. Todavia, para espanto meu, eu descobri um produto no Brasil em que ocorre o contrário: filosofia.
 
Vejam só. Caso você não possa pagar, você tem a filosofia da USP. Ela não é mais como antes, pois seus professores são jovens e, enfim, sabemos dos problemas por que passa o ensino público. Mas é algo que ainda fazemos de modo que não é um “fake”. Caso possa pagar você recorre a uma PUC-SP ou um Mackenzie. Não é uma mensalidade absurda, no caso da filosofia. Mas se você pode pagar muito e é rico, você fica com o “fake”. Onde? “DASLUSP”. É um local em que professores aposentados fingem que falam sobre filosofia, e senhoras na faixa dos cinqüenta anos – mas aparentando mais –, imaginam que estão entendendo alguma coisa de filosofia. Esposas de médicos que vão ficar no hospital até mais tarde (com as enfermeiras) e que, enfim, não podem mais ver a cara delas em casa, recomendam: “vai, vai lá na DASLUSP”. Esposas de maridos ricos que já optaram, sabiamente, por suas secretárias mais novas ou coisa parecida, em geral, é o que não falta ali. Elas são ... “estudantes”. Sim! Elas dedicam a vida, agora, à cultura. Elas lêem filosofia. Ou melhor, elas compram livros – mas não lêem. Todavia, todas elas já possuem cadernos e cadernos preenchidos. Copiam falas dos professores que, enfim, já não estudavam mesmo faz tempo e, então, estavam fora do debate filosófico. Restava a eles o quê? Reproduzir, em um nível “fake”, o que fizeram durante 40 anos na universidade, de um modo “semi-fake”.
 
Para as dondocas, eu acho que é um divertimento merecido. Afinal, o que fariam? Ficariam comprando coisas? Elas já empilharam bugigangas em casa – não há mais espaço. Além disso, a maioria delas teria de comprar roupa para neto e não mais para elas próprias, dado que os manequins daquele porte não existem em todos os shoppings. Ora, sair para comprar coisas para netos tem um limite! Mas para os professores que terminaram a vida assim, será que é bom? Creio que é algo deprimente. Mesmo que dê algum dinheiro (dinheiro, outras coisas dariam) deve ser algo bastante frustrante pegar um livro de filosofia, de hoje, não entender absolutamente nada (pois a filosofia contemporânea mudou vertiginosamente), e então ter de ensinar a filosofia que arrumou nas suas fichinhas de mestrado e doutorado, para ir lá, nesse local onde reina a imbecilidade, transformar aquilo que se achava sagrado em pura conversa fiada. É uma dupla derrota. Derrota quando se vai em uma boa livraria. Derrota quando se vai para esse tipo de sala de aula. No final, professor e alunas se igualam: ambos já só compram livros, não podem lê-los. Uns professores ainda tentam se salvar agarrando as tetas do governo ou de velhas ideologias e partidos mortos. Mas percebem que isso também tem vida curta, e começam a olhar para a DASLUSP como “bem, é o menos pior que pode me acontecer”. E quando os cabelos brancos chegam de vez, eis que o local onde há várias esposas de médicos é até interessante, pois há a possibilidade de se conseguir dessas mulheres alguma receita grátis para o anti-depressivo diário.
 
O Brasil gerou isso, esses lugares onde senhoras ricas freqüentam para “aprender” filosofia. Esses lugares em que aqueles que perderam o pé da discussão filosófica internacional ministram aulas “fakes” para tais senhoras, de modo a não se sentirem inúteis. Em ambos os casos, o destino era o chinelo e o roupão caseiro, na TV. Mas conseguiram escapar disso criando esses espaços que, agora, já não é mais novidade em São Paulo somente, mas também no Rio de Janeiro. Em lugar nenhum do mundo eu vi esse fenômeno. É uma criação brasileira. Aqui no Brasil há um produto para o pobre que é melhor e mais barato do que o produto que seria o equivalente, para o rico: filosofia. O Brasil não é realmente fantástico?


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Comentários (2)
  • claudino
    avatar
    Não é só filosofia que eles querem pegar do pobre... Venha à 25 de março e veja com seus próprios
    olhos vermelhos que elas tomaram conta do que era nosso...



    abração,



    Marcos Claudino
  • rodrigomonzani  - rodrigo_monzani@yahoo.com.br
    avatar
    Ensaiar verdades sobre Filosofia é perder a razão, a crítica não tem força quando é inchada em
    espírito absoluto. Sobre Filosofia, é necessário compreender que entender contextos filosóficos é
    conhecer as condições em que os mesmos são verdadeiros. O Mesmo é sempre pensado de Outra Maneira (e
    não seria essa uma das definições da Filosofia?) Eu penso, então, nas afrontas à psicanálise, à
    dialética, à fenomenologia e à metafísica; e em como, destas afrontas, temos gênios tão adoráveis
    quanto contraditórios; como dessas discussões podemos unificar Kant e Darwin; como, do pragmatismo,
    podemos lançar novas luzes sobre a democracia liberal, assim hoje definida, sobre como nossa
    sociedade é líquida e etc.



    O que quero dizer é que, dentre os principais filósofos, Wittgenstein, Heidegger, Nietzsche,
    Bergson, Davidson, Brandom, Gadamer, Platão, Hegel, Deleuze, Schopenhauer, Apel, Kant, Marx,
    Espinosa, Kierkegaard, Maquiavel, Dewey, Quine, Rorty, Habermas, Putnam, Dworkin... talvez nenhum
    tenha demonstrado de uma maneira teórica e verdadeiramente instrumental que toda realidade depende
    de sua essência nociva, e com Filosofia não é diferente. O hedonismo de hoje é envergonhado (cerveja
    sem álcool, café sem cafeína, sexo virtual...) exatamente por causa disso, se perdeu a necessidade
    dos efeitos colaterais da moral e, sem eles, não teríamos, por exemplo, a pornografia, não teríamos
    as cicatrizes na face do paraíso, a necessidade de salvação. Não teríamos objetivo.



    Por exemplo, na modernidade encontramos toda uma série de produtos desprovidos de suas propriedades
    nocivas: creme sem gordura, café sem cafeína, sexo sem a presença do outro, conflitos armados sem
    vítimas como sendo uma guerra sem guerra, a redefinição contemporânea da sociedade, da política, da
    Filosofia como as artes especializadas, com políticas sem política.



    O contexto da educação superior é como esta modernidade: sem ilusões. Não temos perspectivas de
    longa duração, nossas realidades sólidas, as que herdamos do passado, se desmancharam no ar. Com
    Filosofia, tal constatação nunca foi tão verdadeira. Não tentemos criar ou defender valores para
    ela, a ausência de valores é, em si mesma, um valor. Trata-se, da mesma forma, de se remeter ao Nada
    e à morte de uma maneira positiva, não se lançando à destruição, mas enfrentando suas faces
    insuportáveis. Em síntese, se alguém vive resignado a sua grade de ensino Filosófico, matemático,
    médico... é como se vivesse em perpétuo terror de sua morte: esse alguém se torna louco. Mas se
    alguém, por uma crítica absoluta do terror da morte, vive no esquecimento total da idéia de morrer,
    ignorando-a, esse alguém se torna limitado e incapaz.



    O problema é que a sociedade hoje pode tudo, tudo é permitido em termos de educação, consumo, lazer,
    pode-se desfrutar de tudo, porém desprovido daquilo que outrora nos trouxe algum avanço: a
    substância perigosa que tudo costumava ter. Deixemos que os perigos das pseudofilosofias retirem
    nossas almas do lodo da rotina e do marasmo, nos façam pensar novamente e perceber que o maior dos
    crimes é a estagnação mental. Pensar Filosofia sem suas precariedades, em todas as instâncias, é
    oferecer um produto sem sua substância tão nociva quanto essencial, como café sem cafeína, como
    realidade sem realidade.



    Abraço,

    Rodrigo.

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