Sábado, Fevereiro 11, 2012
   
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Para repensar o 31 de Março

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Daqui a pouco será 31 de março. Quem dá importância para isso? Minha filha tem 21 anos e minha esposa também. Ambas já votaram para presidente, e em partidos diferentes. Não sei, mas suponho que minha filha votou em Lula e minha esposa em Serra, quando da eleição que deu vitória a Lula. E minha mãe, que nasceu em 1928, em quem votou nas últimas eleições? Passei anos tentando convencer minha mãe de votar em Lula. Nas últimas duas eleições eu duvido que ela não tenha votado nele. Nessas duas últimas eleições eu não votei. Na anterior, eu votaria em Lula, mas estava nos Estados Unidos. Nesta última eu anulei meu voto. Nós todos estamos lembrando de 31 de março? Que nada! Ninguém mais está interessado nisso. Isso passou. Passou mesmo? Algo ficou, e ninguém se dá conta disso.
Em 31 de março de 1964 uma boa parte dos militares brasileiros e um grupo não pequeno de civis apoiaram um golpe armado contra o Presidente da República, João Goulart. Jango havia sido democrática e legitimamente eleito. Foi um erro dessas pessoas. Algumas delas ainda tentam se justificar: “ah, havia o perigo do comunismo”. Mentira. Não havia. Outras dizem: “havia bagunça e inflação”. Havia inflação, mas não bagunça. Comício e greve não é bagunça. Só senhoras sexualmente impotentes acham que manifestação nas ruas é bagunça. E inflação não é motivo para as pessoas pegarem em armas contra a democracia. Depois dessa “inflação” tivemos algumas bem maiores – e mais devastadoras. Não há desculpa para quem participou do golpe de 1964. Pode haver desculpa moral, mas não há desculpa política e muito menos desculpa intelectual. Foi um erro político levar a nação para o rumo da ditadura. Foi um erro intelectual acreditar que se fecharia o congresso, se faria uma limpeza e, então, poderíamos reabri-lo só com “bons elementos”, ou seja, só com gente da UDN, o partido simpático ao golpe. Nada, nada mesmo veio de produtivo e interessante com a ditadura militar. O que veio de interessante e produtivo teria vindo sem a ditadura, e faria de nós, hoje, um povo bem melhor. Pois o tempo que passamos na “infância política”, sem exercer o voto, sem viver a política, sem decidir por nós mesmos os caminhos da nação, nos fez crianças, nos tornou incapazes. Somos, até hoje, aleijões políticos. Estamos até hoje pagando um preço alto por isso.
Alguns, ainda hoje, tentam justificativas: “ah, havia a guerrilha”. Não havia. A guerrilha só apareceu bem mais tarde, e como reação ao golpe. Além disso, ninguém no Brasil, em termos representativos, foi comunista. Mas nos tornamos imbecis anti-americanistas por causa de nossa ditadura. Ela tanto nos infelicitou que associamos a ela o que não deveríamos nunca ter associado: o poder do primo rico do Norte. Nada disso. O Brasil não estava e nunca esteve na mira da CIA. Kennedy tinha certeza absoluta que Jango era um presidente amigo e um democrata. “Nacionalizações brizolescas”? Talvez isso fosse o maior incômodo. Mas Brizola não era tão poderoso quanto quis parecer. Não ganharia uma eleição para a presidência nunca. Como de fato nunca ganhou. E Brizola não era anti-americano. Ao contrário, Brizola preferia o presidencialismo americano do que o parlamentarismo europeu, e nunca foi, nem na juventude, um comunista. Kennedy estava bem informado sobre isso. Nunca o Brasil foi o Chile. No Brasil, nossa população não iria, pelo voto, e nem mesmo por um “golpe sindicalista”, para um tipo de comunismo pró-soviético. Éramos por demais ocidentais em 1964. Os argentinos, inclusive, nos chamavam de “macaquitos”, por não gostávamos de ostentar nacionalismo bobo. E então, segundo eles, éramos imitadores dos americanos em muita coisa. Imitávamos, sim. Não éramos burros. Queríamos ser iguais aos que eram, no mundo, “os melhores” – os que faziam o mundo acontecer.
Mas a ditadura corroeu nossa amizade com os americanos. Nossa ditadura não tinha relações com os Estados Unidos. Ao contrário, tudo fez para nos afastar da influência americana. Quando apareceram por aqui “técnicos americanos”, eles eram bem menos americanos do que nos foi dito por “comunistas de esquina”. Por uma razão simples a nossa ditadura não queria os americanos: ainda que os Estados Unidos tivessem uma política externa imperialista e anti-socialista, eram e sempre foram, internamente, a maior e mais sólida democracia do mundo – um exemplo que nossos ditadores nunca quiseram que ouvíssemos e víssemos. Não à toa, quando os americanos começaram a querer nos oferecer ajuda educacional e financeira, para além daquela que agências privadas vinham nos dando, por acordos espúrios com gente do nosso governo, corremos para Paris e para organismos internacionais menos americanizados e mais “impessoais”. Delfim Neto, ao inventar o “milagre brasileiro”, não fez isso em New York, mas em Paris. Nossos militares sabiam bem que foram eles que deram o golpe, e não a CIA.Nem “apoio estratégico” da CIA houve. Eles, os militares, sabiam bem que, a qualquer momento, os Estados Unidos poderiam mudar o rumo de seu olhar, e cobrar do Brasil a volta à democracia liberal. E assim foi feito.
Quando Carter chegou à Presidência dos Estados Unidos, não foram só a China, a URSS e satélites, e Cuba, os alvos de suas críticas de desrespeito aos Direitos Humanos. Mas ele voltou seu olhar para o Brasil. Foi quando a Igreja Católica, na figura de D. Helder, o recebeu no Brasil. Carter promoveu uma revolução mundial pelos Direitos Humanos, sem discriminar ideologias. Foi um grande presidente americano para o mundo. Clinton não deixou por menos. Mas o Brasil aproveitou pouco. Pois havíamos abandonado nossa amizade com os parceiros com que lutamos juntos, contra o nazismo, na Itália. Nossa intelectualidade, ressentida com a ditadura militar – não sem razão –, e sob a influência de um pensamento caduco, que era o marxismo-leninismo do século XIX, voltou as costas para os Estados Unidos. Chegamos, inclusive, a ter inúmeros doutores que fizeram exame de inglês para serem doutores e, de fato, não liam em inglês. Inglês? Para quê deveríamos saber a língua do “colonizador”. Sim! Chegamos até a essa barbárie. Isso tudo não foi feito pela nossa mentalidade de esquerda. Isso foi fruto de uma mentalidade anti-americanista alimentada pela nossa ditadura militar, direta e indiretamente. Ora por raiva dos Estados Unidos, que pareciam ter dado apoio à ditadura aqui, ora por incentivo “nacionalista” da própria ditadura, fomos criando pessoas incapazes de notar que todo o mundo estava caminhando na direção de New York. Fomos ficando imbecis.
Dia 31 de março, se formos inteligentes, deveríamos começar a fazer um movimento no sentido contrário do da ditadura militar. Deveríamos começar a reatar nossas relações com os Estados Unidos. Deveríamos começar a pensar de modo a ver o futuro, a ver como os americanos se desenvolveram, como era o modelo de Anísio Teixeira e de Monteiro Lobato, que abandonamos em troca de modelos que nunca vingaram: Chile de Alllende, Chile de Pinochet, Cuba de Fidel, Portugal de Salazar, Capitalismo regido por Partido Comunista Chinês, capitalismo escravizante japonês, ditadura coreana e, para alguns, aquele lixo que foi o comunismo da Albânia. Esses modelos nunca trouxeram riqueza. O “American Way of Life”, com todos os defeitos, fez mais. Tiradentes sabia disso. Mas a ditadura militar no Brasil chegou mesmo a dizer: não vamos mais incentivar a comemoração de Tiradentes. Sim, Tiradentes se inspirou na Revolução Americana, não na Francesa.
Dia 31 de março é o dia de começarmos a pensar com mais clareza. Começarmos a entender a razão de “Arnoldão”, sendo republicano e conservador, está contra Bush, querendo apoiar a “resolução de Kioto”. Devemos começar a perceber como que senadores americanos votaram pela saída do Iraque. Devemos entender quem, nos Estados Unidos, está contra a prisão de Guantânamo. Devemos, em contra partida, ver quem no Brasil fala em democracia, mas que acabar com greves na base da lei. Ou quem ainda queima bandeiras americanas nas ruas para conseguir chegar, com alguns votinhos, a ser reitor ou ter um cargo no congresso. Poderíamos começar a perceber que o anti-americanismo nunca fui uma ideologia, sempre foi uma forma de oportunismo. De vários lados. A reação violenta a este texto – aguardem – mostrará bem isso.


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Comentários (2)
  • claudino
    avatar
    Nenhuma crítica demais efusivamente contrária às suas idéias, companheiro Paulo.



    O 31 de março deve sempre ser lembrado, corretamente como descreveste, como um golpe na evolução
    cultural e intelectual do povo brasileiro.



    Agora, não posso ignorar que há falhas na forma de tratamento e interpretação que muitos governantes
    estadunidenses fazem em relação ao mundo. Não são melhores ao imporem SUAS regras a populações
    culturalmente diferentes das culturas ocidentais. Internamente há falhas, mas bem menores que nas
    demais democracias.



    Mas enfim, qualquer forma de radicalismo não faz bem, e muito pior as generalizações da
    característica das pessoas pelo lugar onde vivem...



    Abração,



    Marcos Claudino
  • rogeriobeier  - http://perfectsense.zip.net
    avatar
    Caro Paulo,



    Parece que sua paixão pelos Estados Unidos e, talvez até mesmo, sua história pessoal de vida naquele
    país, tenham enorme influência no seu pensamento e na sua capacidade de análise histórica e política
    de nosso país. Quem dera os Estados Unidos da América fosse esse irmão bondoso que você pinta com
    tanta vivacidade em seu texto. Quem dera.



    Os democratas Kennedy e Clinton, seus exemplos de presidentes, não são e nem devem ser exemplos de
    líderes políticos para nenhum outro país que não o próprio Estados Unidos. Todos os dois
    responsáveis diretos pela morte de milhares de inocentes de seu próprio país e ao redor deste globo.
    O pior dos dois, Kennedy, ainda quase conseguiu destruir o mundo em um impasse envolvendo mísseis em
    Cuba. Acreditar que ele salvou o mundo naquele contexto, é querer não enxergar a realidade. Ou
    melhor, é querer enxergá-la com a ajuda de lentes estadunidenses.



    Grande Abraço,



    Rogério Beier, que acredita em outros modelos que não o estadunidense para o desenvolvimento de uma
    nação. Sem, é claro, negar as benesses produzidas pelos pensadores deste país.
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