Quinta, Maio 17, 2012
   
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A BÍBLIA DEMON’S [TRADA] -Versão do Diretor-

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PRÓLOGO NO ÉDEN

 

 
 
"O Diabo tem pelo menos uma desculpa. A de que só ouvimos um lado da história, afinal Deus escreveu todos os livros".
Samuel Butler
 
Jardim: relva, flores, água corrente e alguns animais.
Em um dia em que o sol era ameno e nenhuma nuvem pairava sobre o abismo, Deus está recostado sem nada prá fazer. Entra o Diabo visivelmente alegre e animado.
Aproxima-se de Deus e a ele se dirige nestes termos:
Achei!
— Que há contigo cramulhão? Porque tanta euforia, sua besta?
— Sim eu estou eufórico, radiante, e, sinceramente emocionado, pois nessas nossas experiências de criação de inúmeras coisas e de seres animados e inanimados, como estes que estamos criando por este Éden a fora, temos definitivamente descoberto inúmeras novidades, e a cada dia é uma nova aventura a tentativa de fazer aparecer por aqui algumas espécies mais interessantes que as que trouxemos à existência anteriormente, é realmente extraordinário podermos inventar animais que voam, que mergulham na água, plantas comestíveis e ornamentais. Devo mesmo lhe confessar que até ontem eu estava perturbado e com o zelo se apoderando de mim desde que vi aqueles lagartos gigantes que criastes, pois eles são realmente fascinantes! Mas... 'cesse tudo que a antiga musa canta', mestre e amigo, pois nada se compara ao que descobri hoje!
— Ai... ai..ai...ai, Canhoto, você não tem conserto mesmo, hem? Vive me enfadando, não seja tão prolixo, vamos, vê se não enche o meu saco e desembucha logo, antes que eu...
— Está bem, mas tem que me prometer que vai me dar uma parte nos créditos nesta história toda, está bem?
— Está bem, está bem, eu prometo tudo o que você quiser, Nossa-Mãe-de- Deus, esta conversa está mais tediosa do que quando não tínhamos nem esta terra aqui e ficávamos sentados no nada fazendo coisa nenhuma, fala logo Coisa-Ruim!
— Lá vai prepare-se. Eu sei agora, através de muitos cálculos e experimentos variados, que podemos criar sabe o quê?...Sabe o quê? Aposto que não adivinhas nem com sua mente divina!
— O que, Cão?!
— Podemos criar seres como nós! Seres à nossa imagem e à nossa semelhança! À nossa imagem e semelhança, trá, lá, lá, rá, lá! Pensa que estás sonhando? Quer que eu o belisque?
— Ahhh, vá-de-retro!
— Juro por ti e por mim!
— Ta bom. Suponhamos que fosse possível, que fosse verdade. De que nos serviriam tais criaturas? Seriam por acaso... uhummm... Deixe-me ver... nossos escravos?
— Cruz Credo! Mas será o benedictus? Vai me desculpar a franqueza viu Javé, mas tu és um megalomaníaco mesmo, ou sei lá o que! Mas qual escravos qual nada!
— Pois então aí está. Não vejo utilidade em suas intenções.
— Deus... deus...deus....pense um pouco. Use só um pouquinho "assim" da sua onisciência. Não vê como pode ser legal? Não percebe que nós já não estaríamos mais tão solitários neste imenso e magnífico jardim? Os animais são até divertidos e as plantas agradáveis aos olhos e às narinas, mas acaba cansando ficar olhando prá eles, fica só nisso. Passarinhos fazendo ninhos, leões comendo gazelas, formigas cortando folhas e carregando, ah... parece até um documentário eterno. Não acha isso tudo um pouco chato não?
 — Quer saber? Não acho não. Acho que os incomodados é que devem se mudar. Eu to achando muito bonito tudo isso aqui.
— É, mas que de vez em quando o amigo aí pisa num monte de bosta de um destes bichos aí e sai soltando raio prá tudo quanto é lado, isso sai porque eu já vi!
— Puxa, mas que merda! Com todos os diabos, não tem nada prá fazer além de me encher?
— Perdão, perdão meu caro, não me leve a mal não, é que eu tenho muitas idéias boas, e acho que se você pensasse um pouquinho, veria que existem inúmeras vantagens no que estou propondo, pois nós poderíamos inventar jogos, organizar festas, conversar até altas horas...
— Ora, ora, já basta destas tolices, desapareça da minha frente Satanás!
—!?
—Você é mesmo uma besta inconseqüente, não percebe que se fizéssemos isso, se é que é possível, e eu não estou dizendo que é, não imaginou que estas novas criaturas poderiam se tornar ambiciosas por se parecerem conosco e depois querer nos espionar para descobrir como criar coisas do nada, hã, hã!?
— Mas Javé, compadre, eu jamais pensei que precisaríamos ocultar-lhes estes poderes. O universo é infinito, e criar 'do nada' não gasta matéria-prima. Que mal existe então que qualquer um possa criar uns patos aqui e uns cangurus acolá?
— Aí, ai, ai, ai, ai!
— Veja, vou lhe explicar o procedimento: pegamos uma forma que deve medir três côvados de comprimento por um côvado e meio de largura de ombro a ombro, e ainda zero oitenta côvados de profundidade. Besuntamos a forma com azeite para que a massa não grude no fundo, derramamos então dentro dela argila úmida e pastosa com um pouco de palha de mistura para dar liga e...
— Não estou ouvindo, não estou ouvindo, não estou ouvindo! [dizia Deus tapando os ouvidos].
— E eu ainda não falei o melhor! Depois que estes primeiros exemplares estivessem prontos, tenho quase certeza que se tomarmos uma parte deles podemos fazer outros de um tipo diferente, sabe? Algo com mais beleza, com formas mais arredondadas, mais agradáveis ao tato que a argila e que cheire melhor também que a lama. Com certeza cheirará melhor que nós mesmos. O amigo aí cheira uma coisa esquisita que é uma mistura de cera de vela, incenso e carne queimada. Quanto a mim, mal consigo agüentar este fedor de enxofre que sai das minhas axilas... arrgh [dizia cheirando as axilas].
— Olha, já basta. Estou cansado deste assunto. Não aprovo suas idéias, não quero mais ouvir nada sobre isso. Vou dormir.
Então o pobre Diabo, um tanto quanto chateado, calou-se.
Os dois seguiram cada um para um lado do jardim e foram dormir em tendas separadas.
Houve tarde, manhã e noite daquele dia.
Deus, todavia, não pegou logo no sono, pois trazia os seus pensamentos turvados pela sombra do medo de perder a autoridade que impunha sobre todas as coisas. Seu cenho se perturbou de forma severa e amedrontadora. Levantou-se então sorrateiramente, armou-se com um porrete enorme, e de maneira furtiva penetrou na tenda do Diabo enquanto este dormia a sono solto. Deitou-lhe então duas porretadas na cabeça, que o fizeram perder totalmente os sentidos e ainda lhe criaram para sempre dois galos pontiagudos na testa. Arrastou então a sua vítima para o jardim, onde depois de transformá-lo em serpente, depositou-o dentro do galho mais grosso da mais grossa árvore que pôde encontrar, fechando o tronco pelo lado de fora, não a sete, mas a setenta vezes sete chaves. Porém, na pressa de não ser apanhado por alguma criatura sua em atitudes pouco ortodoxas, não reparou em um pequeno orifício no alto do caule da árvore, por onde o Diabo viria a escapar mais tarde.
Considerou Deus, no entanto, que a idéia do Diabo não era de todo má, desde que redundasse em benefícios para si, e apoderando-se das minuciosas fórmulas que o Diabo havia anotado, daria início mais tarde, ele mesmo, sozinho e "poderosamente", à criação de um povo inteiro de indivíduos semelhantes aos que o Diabo lhe havia descrito, para que este povo o servisse por toda a eternidade.
 
Fim do Prólogo no Éden
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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