Sexta, Setembro 10, 2010
   
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As Celas de Produção

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Existiu um mundo onde todos, com exceção de poucos, tinham suas vidas cerceadas e limitadas, seu terreno curto e sua sobrevivência dependente do esforço coletivo, em sua totalidade. Todos viviam em celas, estilo prisão perpétua, separados em alas, por função, com esteiras carregando tudo entre as alas. Com funções bem definidas, cada indivíduo ficava responsável por uma tarefa de sobrevivência da coletividade. Assim, todos os agricultores, por exemplo, estavam juntos e realizavam especificamente sua função, sem interrupções, até terem colhido sua produção. Então colocam na esteira o excesso produtivo e enquanto pegam os bens de consumo que estão chegando por esta. Sua colheita enviada chegaria primeiro em celas de manufatura onde seria manipulada e transformada. Cada operário dessas celas realizava uma função específica: uns separavam os grãos da esteira, outros trituravam ou misturavam, enquanto mais alguns recolocavam os novos produtos em excesso na esteira e pegavam outros que chegavam para seu consumo.

Esta sociedade, onde viviam, tinha harmonia, equilíbrio e funcionalidade. Mas um dia alguém parou sua atividade... Olhou para o lado e procurou motivos para o que fazia, perguntou-se por que fazia aquilo e de onde vinham as matérias primas para sua atividade... O tempo em que ficou parado produziu algo desconhecido até então, a ociosidade. O trabalho de sua equipe não acabou no tempo certo ocasionando acúmulo demasiado de matéria prima para sua atividade antes de sua cela e falta de matéria prima para as celas seguintes, que, por ficarem paradas, praticaram a ociosidade mesmo sem sabê-la ou senti-la. Assim a ociosidade começou a espalhar-se, o tempo não era apenas ocupado com atividades manuais, descanso e alimentação; criou-se o pensamento e a imaginação. Logo descobrem que algo inusitado está acontecendo: a esteira por vezes carregada em excesso e outras vezes vazia vai passando a sua frente. Os produtos vão se perdendo e caindo da esteira. Então alguém foge da cela. Fora de sua atividade por todo o tempo, num mundo novo e único, apavora-se; mas logo consegue alimento e tudo o mais que tinha na cela com as sobras que caem da esteira e vislumbrando uma vastidão inexplorada.

Ao verificar-se sem atividades ou obrigações descobre outro bem para sua vivência: a liberdade. E seguem-se descobertas, pois parte em exploração ao novo mundo e percebe que existem muitas outras pessoas vivendo nesse mundo, assim como muitas outras celas espalhadas por ele onde cada um tem uma função ininterrupta, como era a sua. Descobre que no fim da esteira existem pessoas desregradas, sem capacidade para qualquer atividade, função ou mesmo exploração do que os cerca. Vivem dos restos e dejetos que passam e chegam pela esteira; é como se fosse uma cela sem fronteiras, limites ou tarefas, mas os mantém tão presos quanto aqueles que tem ocupação e função ininterrupta nas outras.


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Comentários (3)
  • Marcos Claudino
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    Acho que no fundo ficou tudo igual, apenas em cenários diferentes.



    Excelente paradoxo.



    Abração,



    Mc
  • Terezinha Pasqualotto
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    Interessante o conto! Parece que de uma forma ou de outra todos somos escravos das necessidades
    básicas.produzindo, ou não.Interdependentes uns dos outros. Dá para "viajar"em vários
    sentimentos. Muito legal. Parabéns!!! Um abração, Terezinha
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Selo comemorativo alusivo ao centenário de Salvador Dali (em 2004), gentilmente criado pelo César Schirmer, do Animot, baseado na célebre pintura surrealista-simbolista "The Burning Giraffe", 1937 (serve como um minibanner do Simplicíssimo! É só pegar!)