Quarta, Maio 22, 2013
   
Text Size

O anjo

Avatar

O grito. Novamente a mulher urrava. Um som estridente e com um timbre que mesmo em baixo volume não passaria despercebido. No entanto apenas eu aguardava a polícia chegar no prédio e as grades que me seguravam em frente ao elevador eram fortes o suficiente para não ficar tentando alguma idiotice. O corredor semi-escurecido tornava o ambiente ainda mais sombrio e ameaçador. Num vão de cerca de 15 metros aquele casal tinha se mudado após a compra dos quatro apartamentos do andar, onde três já estavam vazios e sem morador há vários anos. Antes de chegarem instalaram as grades que deixaram o andar isolado do resto do prédio. Somente as escadas e o elevador eram livres para trafegar.

Nada que fosse fora do comum numa sociedade que se coloca atrás das grades para fugir da violência urbana crescente. Hoje, porém, os gritos tornaram a noite insuportável e a ligação para a polícia inevitável. Os bombeiros também vinham. Já podia escutar a sirene soando alto pela janela. O medo que senti no início sumiu após tocar inúmeras vezes à campainha e ninguém sair do apartamento ou sequer emitir algum som de comunicação aos meus apelos. Só os gritos, os gritos...

Os bombeiros trouxeram um pé de cabra que não arromba o tipo de construção implantada na porta. O jeito foi usar uma serra elétrica que possuem. Saio enquanto eles trabalham. O grito vem novamente... Mesmo sob o ruído da serra, retalhando o aço da grade, o silêncio imperou por alguns instantes mesmo entre aqueles homens acostumados ao perigo.

Um deles pegou o celular e teclou freneticamente. Após algumas palavras emitiu o anúncio: "Ele está vindo!" e todos continuaram o trabalho mais aliviados. Após alguns minutos de contratempos o arrombamento foi efetuado e as luzes do corredor foram completamente desligadas. A pouca iluminação, proveniente da janela ao final do corredor, criava espectros, vultos de pessoas que se moviam em câmara lenta pelos poucos metros que poderiam ser varridos em segundos, se quisessem. Fui movendo meu corpo entre os seus, na onda de homens que invadiam o local até ultrapassarmos a porta da esquerda, de onde provinham os gritos. Um dos guardas arrastou-me para alguns metros adiante da porta, enquanto seus companheiros arrombavam mais esta. Porta aberta, som seco de madeira estilhaçada ecoando no ar e um vulto sobressai-se entre os demais como em revoada para dentro do cômodo. Enquanto pisquei os olhos, tentando forçá-los a acostumarem-se com a escuridão, o mesmo vulto saiu com uma mulher nua em seus braços. Devia ter mais de dois metros de altura e providenciava algumas roupas para cobri-la. Parecia corcunda e deslizou por entre a multidão de policiais e bombeiros até alcançar as escadas. Poucos o seguiram, incluindo eu.

Ao chegar no acesso ao teto encontrou-o fechado e quando ia forçá-lo para arrombar ofereci a chave que possuía. Lançou-me um olhar e pude perceber sua idade superior aos 40 anos com certeza, e um semblante marcado que poderia aparentar ainda mais, com rugas profundas na testa e na face.

Largou a mulher no chão. Começou a rezar ajoelhado ao seu lado e os outros três policiais que o seguiam fizeram o mesmo. Instintivamente fiquei na mesma posição que eles, mas não entendia uma só palavra do que rezava aquele homem. Devia ser em latim, deduzi pelas liturgias da igreja católica.

A mulher dormia profundamente e dava sobressaltos vez por outra e tentava em vão gritar. Inchava seu peito de ar mas sua voz era abafada. Perdi a conta do número de vezes que repetiu esse gesto e do ar quente que brotava de seus pulmões e inundava o ambiente gélido da madrugada sem nem um som associado.

O tempo jorrou por entre meus dedos entrelaçados àquela fé que nem lembrava mais como senti-la. Percebia o quão tensa era a situação de tal forma que não podia ignorar e abandonar o local. De repente, o que parecia mais uma tentativa de grito com o proposital erguimento do quadril à frente como se fizesse abdominais com as pernas presas, foi surpreendente. A moça saltou sobre o círculo que fazíamos ao seu redor, sem que tivéssemos notado e jogou-se do prédio.

Sete andares mais abaixo havia um corpo estatelado no meio da rua e nada fiz para impedir, pensei naquele momento.

Os demais levantaram-se vagarosamente e resignados com o ocorrido. Eu tentava indignar-me, mas sequer conseguia ficar de pé, meus joelhos doíam e as pernas tinham perdido todo o vigor necessário para tal. Apoiado por amigos fortuitos, de atividades duvidosas, comecei a duvidar dos profissionais que me cercavam e de todos os acontecimentos que presenciara.

- Anjo, é assim que me chamam.

Estendeu-me a mão e mais uma vez agi instintivamente apertando a mão daquele homem que confirmei ter mais de 2 metros de altura. Convidou-me a acompanhá-los até o andar de baixo onde poucos policiais vigiavam o corredor e mantinham o local intocável. Poucas palavras e muitos olhares e estávamos dentro do apartamento.

O cheiro forte que preencheu meus pulmões somado ao efeito visual de um homem enforcado com as mãos agarradas a uma espada que rasgava sua barriga fazendo seus órgãos internos saltarem para fora jogou-me contra o chão e a sensação de vômito não se concretizou pelo desgaste que já me consumira por inteiro.

- Aqui a moça estava deitada na mesma posição que você a viu lá encima. Emitia os chamados, drogada e seduzida pelas obscenidades humanas levadas ao extremo do outro mundo.

Sua voz solene, não permitiu qualquer interrupção. Continuou.

- Quando meus colegas chegaram e escutaram o grito me deram a confirmação pelo telefone e rumei para cá o mais rápido que pude. Tínhamos certeza do que se tratava e as confirmações vieram ao entrarmos no apartamento e encontrar a cena conforme você a vê. Meu novo amigo, digo-lhe com certeza. Não existem coincidências. Se você aqui está é porque era uma força necessária para conseguirmos o êxito aqui alcançado.

- Mas que êxito? Um homem morto sabe-se lá como e uma mulher suicida que salta de um prédio de sete andares? Retruquei em seguida. Ele continuou.

- Amigo, esse casal buscava comunhão com o demônio, diabo, coisa-ruim ou seja o nome que você quiser dar ao mal. Só que te digo: não existe essa figura macabra a qual chamam de Satanás. Todo o mal vem de Deus. Ao criar o mundo Ele gerou a harmonia completa, que hoje chamam de Ecologia. Todos os seres viviam em comunhão e tinham tudo do que precisavam. No entanto, Deus permitiu que um casal saísse de seus domínios celestiais e viesse à Terra dos homens plantar as sementes do desejo, discórdia, vingança e fizessem dos homens os senhores desse mundo, desequilibrando as forças que mantinham a harmonia. Ele não interviu e permitiu que o homem usasse e abusasse do seu livre arbítrio sobre si e os demais seres desse mundo fazendo progressos e descobertas sobre o próprio cosmo.

- Mas do que você está falando?

- Hoje os homens afastaram-se tanto de Deus que crêem ainda mais em sua existência, seja como bem ou como mal. Buscam encarná-lo e querem sê-lo em corpo e espírito. Isso é o que presenciamos aqui. Eu já fui padre católico, mas as revelações que tive na minha vida de meditação e trabalho litúrgico me trouxeram a esta encruzilhada onde meus conhecimentos não são úteis a nenhuma religião, somente à polícia em casos como este. Seja bem vindo ao nosso grupo. Diga-nos seu nome, quando quiser.



Adicione este artigo à sua Rede Social favorita
Digg! Reddit! Del.icio.us! Google! Live! Facebook! StumbleUpon! Yahoo! Joomla Portal
Comentários (3)
  • Virginia
    avatar
    Mauro,

    dificil falar sobre o bem e o mal,ambos tão misturados...

    Dizem o antigos que quem acredita no mal comunga com ele e que o mal seria o resultado da percepção
    distorcida que o homem possui das emanações divinas, que é puro bem...

    Não posso ir além, o dia a dia nos traz as trágicas confirmações, que nos deixam tristes e
    frustrados, contaminados, enquanto, por outro lado, deixamos passar ao largo a alegria das boas
    noticias e ações. O negativo, embora pequenino e feio, é de um poder avassalador, poder este que nós
    lhe confiamos e é com ele que alimentamos o nosso abominável Satã.



    Um abraço

    Virginia
  • Mauro Rodrigues  - Valeu
    avatar
    Pois é, Virginia! O bem e o mal estão encravados na nossa vida. Mas será que são tão diferentes?



    Abração
  • Eduardo Hostyn Sabbi  - Putz
    avatar
    Mas quanta coisa nesse texto hein Mauro? Eu já me dava por sstisfeito na frase \" - Anjo, é assim que me chamam. \". Parando por ali já teríamos um belo texto.



    Mas o seguimento foi igualmente rico e detalhado. Já falei isso noutro comentário, mas volto a
    recomendar a leitura da fábula introdutória no livro \"A Assustadora História do
    Sexo\". É sobre esse momento de \"expulsão\" de Adão e Eva do paraíso.



    Uma única sugestão Mauro: trocar \"desapercebido\" por \"despercebido\". Faz uma diferença ... Aprendi nas leituras rápidas naquela posição de pensador com o
    livro Escreva Certo.



    Grande abraço!
Escrever um comentário
Your Contact Details:
Gravatar enabled
Comentário:
[b] [i] [u] [url] [quote] [code] [img]   
Security
Por favor coloque o código anti-spam que você lê na imagem.

Viagens Etéreas e Psicodélicas Impressas no Éter Universal

Líricas BulhufasCATEDRAL SUBMERSA
25/09/2012 | Marcelo Sguassabia

 Devaneio ao som de La Cathédrale Engloutie, de Claude Debussy.
  A verdade é que a lenda de lenda não tinha nada, pois juro sobre a Bíblia que vi a catedral engolida pelas águas, com suas ogivas gó [ ... ]


Líricas BulhufasMC LUA INFELIZ
18/09/2012 | Marcelo Sguassabia

   - Sabe de uma coisa, Ray, você até que é um cara esperto. O seu defeito é pensar pequeno, e um sujeito com 52 anos não tem mais tempo de errar na vida. Aonde pensa que vai chegar com esse sanduichinho  [ ... ]


Líricas BulhufasLIQUIDIFICADOR JETMASTER SUPERTURBO 3 VELICIDADES
08/09/2012 | Marcelo Sguassabia

   O fato é que John Boy Walton mal conseguia disfarçar seu entusiasmo com algumas das partes palpáveis de Tetê, aquela que sabia demais e não viu que o tempo passou, ainda que continuasse em ótima forma [ ... ]


Líricas BulhufasO MELHOR DA FILA É ESPERAR POR ELA
04/09/2012 | Marcelo Sguassabia

 Deu na "Folha": paulistano às vezes passa mais tempo na fila do que no programa que a originou. É tanto tempo que ela própria virou o passeio. As duas horas em média de fila no restaurante acabam send [ ... ]


Líricas BulhufasPOR ONDE ANDARÁ?
28/08/2012 | Marcelo Sguassabia

 Rara é a semana em que não me abordam na rua para perguntar sobre o paradeiro de Ditinho Puxa-Uma-Perna, figura que já foi assunto de crônica minha no final de 2009.   Levando em conta o apelido do Dito  [ ... ]


Poesia a Toda ProsaSorriso de Verdade
22/08/2012 | Frank Santos

A frente do brilho do mar
originado pelo sol
num reflexo que se espalhava
em cada gota, numa imensidao


Líricas BulhufasUNIVERSO PARALELO
21/08/2012 | Marcelo Sguassabia

 Naqueles dias, o fake do Todo-Poderoso botou as manguinhas de fora e resolveu criar seu universo genérico, plano que acalentava há tempos. Pode-se argumentar que o termo "Universo", significando "t [ ... ]


Poesia a Toda ProsaA bela, a flor e o sol.
15/08/2012 | Frank Santos

No crespúculo do dia se deu o reencontro mágico de uma flor e o sol. Ela linda, deixando toda luz navegar sobre suas pétalas se confundia com uma lindíssima jovem que ao abrir os braços se entregava aquele momento.  [ ... ]


Líricas BulhufasLIÇÕES DE SATURNO
14/08/2012 | Marcelo Sguassabia

 Há muito mais para se ver em Saturno além de seus estonteantes anéis. Tudo bem que flanar por eles, admirando seu colorido e sua plasticidade cósmica, é passeio obrigatório de qualquer ser humano em sua prime [ ... ]


Contos MissioneirosO Brasil e o Complexo de Pelé
08/08/2012 | Mauro Rodrigues

     Nesta Olimpíada, quando o Brasil supera o "Complexo de Viralata", do Nelson Rodrigues, surge o Complexo de Pelé para nos complicar.


Poesia a Toda ProsaPaixão X Rivalidade
08/08/2012 | Frank Santos

Todos nós respiramos, mas somos diferentes. Existem parâmetros a serem seguidos: como o bom senso, que para muitos é uma das coisas mais subjetivas do mundo e como a ética, que é mais bem definida mas que nem sempre [ ... ]


Líricas BulhufasÊNIO
24/07/2012 | Marcelo Sguassabia

 Arrimo de família, o Ênio luta com dificuldade de dar pena. Esfola-se, o pobre, pra conseguir levar pra casa um quilo de acém ou de fraldinha de quando em quando pra misturar com a farofa. Mas nem sempre foi ass [ ... ]


Contos MissioneirosA greve está na moda
23/07/2012 | Mauro Rodrigues

    A greve é uma moda... Se o vizinho faz, eu também quero fazer. Até jogador de futebol faz. E por quê?


Líricas BulhufasME DÁ UM AUTÓGRAFO?
17/07/2012 | Marcelo Sguassabia

O maior colecionador de autógrafos da cidade de Antuérpia vivia, estranhamente para alguém de quem se esperaria hábitos de paparazzo, como um ermitão em sua casa de 4 cômodos - um deles reservado exclusivamente ao  [ ... ]


Daqui & De LáMandala das Lendas
11/07/2012 | Clarice Villac

mandala das lendas –
poções encantadas
de sabedoria ancestral...


Líricas BulhufasAMANTE MANTIQUEIRA
10/07/2012 | Marcelo Sguassabia

 Do meio da escada rolante, na grande cidade cinza, galopo mentalmente nesse azul esverdeado que é todo teu, Mantiqueira. Vou me encardindo em teu musgo, devasso tua vastidão, perdidamente me encontro em teus cip [ ... ]


Líricas BulhufasNO CENTER DO SHOPPING
03/07/2012 | Marcelo Sguassabia

Meus irmãos, as negociações da venda da fazenda para a construção do shopping entraram num impasse sem solução à vista. Ainda que a gente tenha metade da propriedade, o pai é dono dos outros 50%, e pra complicar [ ... ]


Líricas Bulhufas31 DE DEZEMBRO DE 1999 (EPISÓDIO QUASE AUTOBIOGRÁFICO)
26/06/2012 | Marcelo Sguassabia

 Um dia de outono de 1981, último ano do colégio. Estava sentado na minha carteira, fingindo que não prestava atenção no pacto que ali, ao meu lado, se selava. Lá na frente, o professor de matemática falava p [ ... ]


Poesia a Toda ProsaO Rumo
20/06/2012 | Frank Santos

Fui andar, caminhei sem rumo até me deparar com o mar que de sua mais distante beleza me disse:
Tem paciência moço, não vê como eu fico aqui jogando minhas ondas indefinidamente?


Líricas BulhufasPEQUENO STEVE
19/06/2012 | Marcelo Sguassabia

 Eram sempre graúdas, doces, se possível geladinhas. Tenras maçãs desde tenra idade. - Incrível, Steve. Você nunca esquece. Um dia sem suas maçãs na minha mesa e meu ânimo não seria mais o mesmo. Mal devo [ ... ]


Daqui & De Lá13 de Junho – Dia de Santo Antonio
13/06/2012 | Clarice Villac

Então, Viva Santo Antonio,
mas que viva por inteiro!
Livre, solto em sua memória
de ser o casamenteiro!


Líricas BulhufasO CESSAR DAS SESSÕES
12/06/2012 | Marcelo Sguassabia

 Fiz análise durante um certo tempo, por motivo que não vem ao caso expor aqui. Esse certo tempo na verdade não chegou a 3 meses, o suficiente para que eu me desse alta – embora estivesse pior que no iníci [ ... ]


Contos MissioneirosJornal de segunda na sexta-feira
11/06/2012 | Mauro Rodrigues

     O que está acontecendo quando você se pega lendo o jornal de segunda-feira na sexta-feira à noite?


Poesia a Toda ProsaNas veias e no coração
06/06/2012 | Frank Santos

Nas veias, nos olhos, no coração, eu sinto, respiro e peço: Que seja para sempre, até o ultimo segundo.


Contos MissioneirosMuitas ideias
29/05/2012 | Mauro Rodrigues

     Ter muitas ideias às vezes é ruim. Qual desenvolver? Sobre o que dedicar mais tempo? Qual vale mais a pena? Não pode é ficar pensando sem agir.  


Líricas BulhufasREVANCHE DOS SUICIDAS
29/05/2012 | Marcelo Sguassabia

Assis Valente, aquele gênio nem sempre lembrado da MPB, era o ídolo e a inspiração deles. Tinha um quadro em lugar de destaque na sede da associação, da qual era patrono oficial.   Para quem não sabe, A [ ... ]


Poesia a Toda ProsaPor dentro e por fora
23/05/2012 | Frank Santos

A vida é como surf
altos, baixos,
tudo ondulado
e o que mais importa?
aquilo que passa
ou aquilo que fica?


Líricas BulhufasINVENTÁRIO DE WANDU
22/05/2012 | Marcelo Sguassabia




Passada a consternação que assolou o país com o desaparecimento de um dos maiores nomes de nossa música, a família de Wandu deu entrada na tarde de ontem ao processo de inventário, para a partilha do pa [ ... ]


Divulgue o Simplicíssimo

 
 

(by Carla)

Login

Restore Default Settings