Quarta, Maio 23, 2012
   
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Ensaio I - O Caso Francisco Buarque

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Villemark, Severino Villemark é meu nome. Investigador particular, a seu dispor. Tenho um escritório na Avenida do Estado. Não sei se posso chamar a sala de dois e meio por três metros, uma escrivaninha, um ventilador à pilha, duas canetas bic (uma não funciona), um bloco de anotação, um rádio que só funciona o AM e uma caixa de papelão que serve de arquivo, de escritório, mas é aqui que eu desenho as técnicas de investigação que garantem meu sustento nesses dias difíceis. Na porta você apenas lê Ville, pois a tinta não era boa, e os recursos atuais não permitem gastos supérfluos. Gertrudes é minha assistente, e toma conta de tudo na minha ausência. Uma senhora muito educada, que fala muito pouco, ou quase nada, acredito eu que pelo fato de que baratas não conseguem se comunicar com seres humanos. Ela vive aqui com Francisco Buarque, o rato albino, e ambos se respeitam muito.

Acordei naquela manhã ensolarada um pouco enjoado. Henry Stuwart, o mendigo da esquina da Rua Cruzeiro me chamou para tomar uns tragos, e rachamos a garrafa de Pitu em poucas horas da madrugada. Desci para meu desjejum no buffet Rockfeller, um boteco que coleciona ovos vermelhos cozidos no colorau, de mais de cem anos de idade. Há três anos não pago a conta, e por isso não posso reclamar da fatia de pizza estragada e do café mais claro que chá. Cheguei ao escritório e encontrei Dona Gertrudes chorando sobre o corpo de Francisco Buarque. Realizei algumas das técnicas de ressuscitação aprendidas no Quartel de Quitaúna há mais de trinta anos, mas já era tarde. No desespero de não poder ajudar o amigo companheiro, pisei sem querer em Dona Gertrudes. Desta forma, estava sozinho no mundo, pois o mendigo Stuwart havia arrumado emprego em Brasília. Tratava-se de questão de honra capturar o facínora que me levara o ente querido, e iria até as últimas conseqüências em busca da vingança merecida.

Usando de refinados métodos investigativos, coletei todas as informações que meus informantes conseguiram em troca de um ovo vermelho do Buffet Rockfeller a cada nova pista, e finalmente, depois de quatro horas de árduo esforço contemplativo, cheguei ao encalço do inimigo. Ele estava acompanhado de uma senhora mais velha, e eu não queria causar mal estar a outra possível futura vítima da maldade gratuita do meliante. A praça mal cuidada era o cenário. O indivíduo sem coração distraía-se tranqüilamente num poço de areia cheio de bitucas de cigarro. Na distração da senhora, abordei-o, sem deixar espaço para a reação. Encurralado junto a uma árvore, ele me olhava apavorado, ainda mais porque eu, sem dizer palavras, mostrava numa das mãos o cadáver de Francisco Buarque, devidamente enrolado em plástico magipack... Uma dor forte na nuca, uma pancada vinda de objeto desconhecido nocauteava-me neste instante, e eu caído via que a senhora era cúmplice das atividades criminosas do jovem meliante... A criança de cinco anos era arrastada pela mão da vilã, quem sabe mentora de toda a sagaz e cruel atividade de colocar veneno contra ratos em todo o corredor, financiando e monitorando toda a operação.

Chego ao escritório ainda tonto e encontro uma sensual jovem sentada em minha cadeira de apenas três pernas. Um olhar malicioso, corpo escultural, conjunto perfeito, não fosse o momento em que sorriu, e mostrou a presença de apenas dois dentes, pensadamente com as funções de doer e abrir garrafas, respectivamente. Sorri satisfeito, pois meus quatro dentes demonstravam superioridade.

- Meu nome é Celestina. Sou a empregada da família do Juninho. Foi um acidente. O menino está traumatizado, e diz que nunca mais vai espalhar veneno de ratos pelo corredor. Quanto você quer para esquecermos isso?

Uma discreta observada no decote sensual da moça desdentada, apalpo os bolsos e descubro que acabou meu cigarro paraguaio.

- Não pense que facilmente serei comprado. A morte de meu amigo e da barata não ficará impune diante de uma vil proposta de suborno. Irei até as últimas conseqüências.

- Mas o veneno matou a barata também?

- Bem, isso foi conseqüência, baby...

- Proponho trinta reais, um pacote de cigarro paraguaio, e uma limpeza completa no escritório.

- Fechado...

Villemark, Severino Villemark é meu nome. Investigador particular, a seu dispor. Paguei cinco reais ao Buffet Rockfeller, comprei duas caixas de fósforo, o escritório está limpo. Há alguns dias conheci Vinícius Cantuária, um rato vermelho e azul, que racha as despesas do local, e não se ofende com o cadáver de Francisco Buarque sobre a mesa. Não me inveje, amigo, trabalhei muito apurando minhas técnicas, delineando todos os aspectos de minha personalidade e astúcia investigativa, para chegar onde estou...


Fim...



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Comentários (5)
  • Eduardo Sabbi  - www.vitalis.com.br
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    Olá Marcos,



    Gostei muito deste teu texto, a começar pela atmosfera e linguagens típicas dos textos de detetives.
    Depois os carismáticos personagens amigos do Ville, a garrafa de Pitu (?) e ovos no colorau (?). Por
    sinal, estes e outros termos pouco usuais (facínora, meliante, ...) me levaram correndo ao
    dicionário para acalmar minha burrice.



    Ah, não dá para deixar de fora a sensacional e inusitada pisada na barata, a cena sensual que nunca
    falta e a negociação que nos leva a um final feliz. Aliás, feliz fiquei eu ao terminar a leitura,
    parabéns!
  • claudino
    avatar
    Valeu, Edu. Está muito plágio do Ed Mort, que até virou filme, mas foi só um ensaio, então me senti
    à vontade...



    Abração!!



    Marcos
  • ibbasfilho  - Muito animal!!!
    avatar
    Concordo com o Eduardo, mas ter achado um rato vermelho e azul e deixar o Chiquinho sobre a mesa é
    de morte! :grin Aliás, tudo isso me lembrou mesmo o personagem do Luís Fernando Veríssimo, Mort, Ed
    Mort.



    Feliz Ano Novo!!! :)
  • Beta
    avatar
    Sim, o texto ficou muito bom. ;)
  • Marcos Pedroso  - Severino, o severo!
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    Você é um brincalhão xará!



    M.
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