Domingo, Maio 19, 2013
   
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Histórias pra boi dormir, se puder...

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São Paulo, 29 de agosto de 2005.

HISTÓRIAS PRA BOI DORMIR, SE PUDER...

Tinha treze anos de idade. Meus pais me apresentaram o Chico em casa, sorridentes, embora eu percebesse em minha mãe um certo ar de tristeza. Chico me levou embora, pra bem longe, e nunca mais vi meus pais. Chico não falou uma palavra, durante toda a viagem. Eu nunca tinha saído da vila, e não tinha a menor idéia de onde estava sendo levada.

Chico me acordou, e eu nem sabia se era o mesmo dia, ou se haviam se passado dois ou mais. Encontrei uma casa pequena, mal tratada. Chico me olhou, acariciou meu rosto, apertou meu pequeno seio esquerdo, sorriu, e abriu a porta da casinha. Fiquei sentada na sala minúscula, num banquinho de madeira, enquanto o Chico descarregava as tralhas da caminhonete. Arrumou minha cama, mandou-me ir deitar, levou-me um copo de leite e duas bolachas maizena numa ripa de pau, que usou de bandeja. Fechou a porta, e dormiu na sala, sobre uns pedaços de papelão.

Na manhã seguinte, mandou-me fazer a comida, e eu, com todo o conhecimento de minha idade, fiz o arroz mais empapado da história, fritei uns ovos que estorricaram, e fiz uma salada, sem lavar as folhas da alface. Chico comeu tudo, não disse nada, mandou-me lavar a louça, e saiu.

Chico chegou tarde, depois de anoitecer, levou-me pro quarto, e violentou-me. Acabou, colocou as calças, e saiu de novo. Durante bons meses foi a mesma coisa, mas agora eu já sabia o que ele queria, e facilitava as coisas, embora nunca tenha deixado de ser dolorido.

Comecei a ter enjôos, e Chico começou a chegar bêbado em casa. Sentava-se no banquinho da sala, arfando, olhando torto, falando umas palavras intraduzíveis, levava-me pro quarto, tentava possuir-me, mas dormia antes, muito fedorento. Eu tirava suas roupas, ajeitava a coberta, cuidava dele.

Chiquinho nasceu sem o pai saber. Chico sumiu por uns dois meses, e a vizinha parteira trouxe o Júnior ao mundo. Tive problemas, claro, e quase perdi todo o sangue do corpo. Quando Chico voltou, Júnior já tinha três meses. Chegou em casa, pegou o menino no colo e sumiu de novo. Voltou no dia seguinte, sem o Júnior, e violentou-me outra vez.

Quando Chico sumiu pela quarta vez com mais um filho meu, eu nada disse, como sempre. Esperei que ele chegasse bêbado, e dormisse. Quebrei seu crânio em três pedaços, com um pedaço de ferro que encontrei no quintal, e fui dormir na sala.

Hoje vivo com tranqüilidade. Minhas amigas na cadeia me ensinaram muita coisa, e eu aprendi a ser respeitada. Aprendi inclusive a ter prazer, pois minha namorada é bastante carinhosa. Às vezes penso no Chico, nos meninos, nos meus pais, mas não sinto nada. Nunca chorei por eles, nem por ninguém, mas sei que é porque eu morri aos treze anos de idade, e minha história se escreve em uma única folha de papel...




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Comentários (7)
  • IbbasFilho  - ibbasfilho@brturbo.com.br
    avatar
    Cruel estória com recheios de estapafúrdia realidade. Muito bem escrito meu amigo Marcos. Quanto a
    boi dormir com um barulho desses, nem no tempo do boi-da-cara-preta!!! :eek
  • claudino  - Valeu...
    avatar
    Ibbas, nem creio que queria aproximar-me da realidade... Ao final, até eu assustei-me com a sorte do
    bruto... hehehe...



    abração,



    Mc
  • Marcos Pedroso  - Meu chapa!?!
    avatar
    Que qué isso?



    Contas a história de uma tragédia de modo linear, como se não estivesse falando nada de mais,
    assim...! Gostei muito!



    Um abraço,

    M.
  • claudino  - Valeu II
    avatar
    Valeu Marcão, foi essa a sensação que eu quis passar...



    abrs,



    Mc
  • Beta
    avatar
    Muito bem escrito!

    Consegui apenas respirar enquanto lia e me indignava.

    E em nenhum momento passou pela minha mente o desfecho da história, aliás, a história que ao final
    nos parece semelhante, enquanto a lemos nos é nada previsível.

    Muito bom!
  • lisa  - Lívia
    avatar
    Marcos, adorei.



    Bem escrito, e tão forte quanto a porrada na cabeça do Chico.



    Tanto que publiquei aqui, ó:



    A Hora da Estrela



    Um abraço.



    Lívia.
  • claudino  - Beleza
    avatar
    Valeu Lívia. Entrei no seu sítio e gostei bastante. Quanto mais pessoas pudermos estar levando
    nossas idéias, gerando o debate, mais útil será nossa tarefa. também peguei uma das fotos, um luar
    lindíssimo, que já se transformou em meu papel de parede.



    Abração,



    Marcos Claudino
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(by Carla)

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