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O mercado imobiliário de Lucia... PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Luiz Emanuel Campos   
segunda, 28 de maio de 2007

Ela não se importava de ser observada pelos adolescentes da janela do quarto ao lado, ela sabia que o faziam por que eram eles homens e ela, uma mulher se trocando, com suas peças íntimas à mostra, faz parte da natureza, pensava ela, que tal gesto não servia para alegrá-la, fazê-la sentir-se amada ou mais bonita que fosse. Ela meramente fechava as cortinas, depois de se deixar espiar um pouco, e o fazia fazendo um resignido por que fora ensinada a fazer assim. Só por isso.

Apesar de tanta meditação, Lúcia não tinha tempo para pensar nestas coisas de verdade, eram quase oito da noite e ela que só havia passado em casa para um banho rápido e uma troca de roupas, àfim de usar um vestido mais apropriado para a festa que se aproximava e se livrar também do suor do dia quente de trabalhos, em sua maioria, na rua. Lúcia era consultora de imóveis, uma profissão que ela rapidamente aprendeu igualmente todos os seus segredos, como aprendeu a odiá-la. Era e é um mercado de baixarias, de muita sujeira para se conseguir os negócios. Um concorrente ofendido poderia inventar mil histórias sobre a casa que você oferta, sabendo que depois nem ele venderia, mas ao menos ela também não o faria. Hoje não era diferente...

Lúcia passou o dia indo do Brookling ao Horto, na serra da Cantareira, para atender dois clientes, ambos alvos de mentiras de uma grande incorporadora do mercado, em uma casa, um laudo fajuto de edifício condenado devido, veja só, àquele buraco do metrô do ano passado ainda. Na segunda, mais triste, uma mãe e filha estavam escandalizadas com as histórias de assombração da casa, já um pouco retirada do barulho da cidade. A tranquilidade desejada poderia virar, para sempre, uma opressão silênciosa de medo do desconhecido.

Disposta à por fim a este monte de bobagens que estavam por arruinar seus bons negócios, Lúcia marcou longo um encontro com seus dois clientes, a mãe solteira da zona norte e um jovem e moderno arquiteto da zona sul, num dos muitos coquetéis que sua consultoria de imóveis organizava. Ela estava deslumbrante, com o delicado vestido que mescla seda e outros tecidos e estrass, a gargantilha sexy preta com a jóia em seu centro e o salto delicioso e provocante. Ela sabia que não poderia perder nenhuma chance de venda e que a imagem, sua imagem, fixa inexoravelmente atrelada ao imóvel.

Já na festa ela encontra com seus clientes e o jogo começa, para a mãe solteira, ela se faz de vítima deste mundo masculinizado que não aceita o sucesso de uma mulher, explica mil vezes que a casa não pode ser assombrada, que no terreno antigo havia uma pedreira, não um cemitério indígina, como enterrar alguém nas pedras??? Apenas agora que a exploração das pedras foi proibida na região é que a região virou condomínios. E que melhor base ela poderia esperar se não fazer sua casa na pedra? Tá até na bíblia, não é mesmo? Logo as duas riam como melhores amigas e, despedindo-se com um beijo rápido ela foi conversar com o arquiteto da zona sul.

Com o arquiteto a argumentação não parecia dar certo, ele estava cego ou não queria ver, talvez estivesse sem dinheiro e não queria dar o braço à torcer, pensou ela, por isso se agarra a este laudo falso. Mas ela não iria desistir, vender duas casas grandes, caras, numa única semana, ela não perderia isso por nada deste mundo Por fim, quando já estava quase desistindo, numa ação impensada ela pousou sua mão sobre a dele, no bar. Ele a olhou de um modo surpreso, mas excitado, e, sem pensar, talvez por efeito da bebida, disse: Se convencer aquela moça ali, com quem falava, a um menage-a-trois, eu compro a casa. Lucia ficou sem respostas, isto é, ele era um cara bonito, jovem, que parecia ter muito dinheiro, bom gosto. Se ela não se engana, ele tinha chegado numa BMW inclusive, mas isto? Isto para vender a casa?

Na manhã seguinte Lucia acorda na cama king size, pega o cheque, beija ao arquiteto e depois, demoradamente àquela mãe solteira, com quem prometeu dividir parte da comissão pela ajuda dela, mas que futuramente viveriam sob o mesmo teto, como uma família, e sai feliz da casa sem mobilia do Brookling que finalmente, conseguiu vender, ao custo de muito suor, literalmente, do seu corpo. O arquiteto depois que Lucia sai, nem se dá conta da jovem mãe solteira que sai logo atrás, sem se despedir mas sorri assim mesmo. Aquele laudo falso que ele aprontou deu certo, ele comprou uma mansão na zona sul, pagou um pouco abaixo da tabela e ainda teve sua noite de sevicias à três, como tanto sonhou. Este mercado imobiliário é mesmo uma baixaria, ele pensou rindo...


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