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Incongruências e Mazelas... PDF Imprimir E-mail
Paroles
Escrito por Luiz Emanuel Campos   
segunda, 11 de junho de 2007

Mais um relacionamento que se esvai pelos meus dedos. Não queria falar disso ainda. O relacionamento não terminou de se esvair e enquanto tiver um grão de areia na minha mão, lutarei por este grão. Não me entrego fácil, mas é só por que sou teimoso, quando o prêmio é bom. Mas eu desisti de não escrever sobre isso ouvindo casualmente no rádio a música Giz, do Legião Urbana e então eu desabei. Meu castelo de cartas desfez-se ruidosamente e tive até que encostar o carro.

A cada relacionamento que termina, ou que até sobrevive, mas com a eternidade nos lembrando que as coisas não serão mais as mesmas, morremos um pouco. Ficamos um pouco mais sem saber o que fazer com as mãos, como um fumante que largou o vício e não sabe o que fazer com tanta mão livre agora. Como naquele filme, Simplesmente Amor, onde após descobrir que o marido a traia, a irmã do primeiro ministro diz: "Como você se sentiria, sabendo que sua vida ficará a cada dia, um pouco pior?".

O motivo que a música da banda de brasília me fez desmoronar foi a lembrança de como cada relacionamento que vivemos nos deixa lacunas que serão eternas em nossas vidas. Eu tinha um single do Legião Urbana com esta música, Giz. Todos nós sabemos como funciona a política de Singles por bandas no nosso país: ela não funciona, simplesmente ninguém faz uso deste produto de divulgação fantástico, por inúmeras razões que não cabem explicar aqui, mas o fato é que eu, colecionador dos albuns orignais (não remasterizados) do Legião, tinha um orgulho ímpar de ter este album. E foi por isso que, ao fim de um relacionamento meu, eu o dei para a pessoa em questão, como parte material de valor que eu deixava para trás.

Em outro relacionamento eu deixei para trás um livro do Laerte, sobre Deus. O volume dois. Eu ganhei os três volumes de uma tacada só do meu irmãozão que a vida me deu, o Paulo, mas como eu e essa pessoa discutimos muito religião, achei que cabia abrir mão da coleção e deixar-lhe uma marca minha. Algo que tivesse um imenso valor para mim. Pensei em outra data comprar o volume ausente mas decidi por não fazê-lo, é a falta que ele me faz que me lembra do que vivi, é um elo, um vínculo com um tempo que já foi e não volta mais, mas também me lembra dos erros que cometi, par que não os cometa de novo. Não é esse afinal, o único valor do nosso aprendizado por cabeçada?

Hoje não tenho um item assim, com esse valor para deixar na mão da Pri, e acho que não teria mesmo que gastasse todo o dinheiro que não tenho. A razão simples de tudo isso é que não há nada que se equipare, não há nada que, depois de ir vendendo paulatinamente meus bens para cobrir contas aqui e ali, eu aprendi a desapegar das coisas que tenho, mas, como na música Giz, que me fez desmoronar por lembrar das coisas que não tenho, por mais que eu perca coisa de valor, "...é de tí, que não me esquecerei".

Essa coisa de brigarmos e sentirmos falta, de amarmos tanto de nos mordermos de ciúme, a ponto de terminar um amor, por que a dor do medo de perdê-lo é tão grande que é melhor terminar logo com isso, me lembra sempre das mazelas da vida humana e de nosso espírito, a eterna incongruência humana, que Machado de Assis tão bem retratou, respectivamente, no livro e conto: "O alienista" e "A igreja do diabo". O primeiro ficou célebre a frase: "Preso por ter cão, preso por não ter cão", sobre como os conceitos extremamente flexíveis do Alienista fizeram uma pessoa ser presa, solta e presa novamente pelo mesmo motivo.

Em a "A igreja do diabo", Machado fala de quando o tinhoso resolve, com muita inveja, que irá construir para sí uma igreja, já que inveja aquele ar eclesiástico e os rituais, a liturgia em geral, que os homens seguem em respeito à Deus, mas que os que o seguem nada disso fazem. Os únicos mandamentos seriam fazer tudo ao contrários dos dez mandamentos e pecados capitais: você ganhava pontos e moral, sendo egoísta, avarento, preguiçoso, esperto, roubando, enfim, sendo o diabo. Como o próprio coisa ruim previu, a associação à sua igreja foi imediata e em massa, mas algo o incomodava, pois ele observava que, quando ninguém estava olhando, o avarento dava régias esmolas aos necessitados, o preguiçoso numa só tocada limpava sua casa toda, após dois, três dias de preguiça, e assim vai.

Puto da vida o tinhoso vai tirar satisfação com Deus, querendo saber o que ele havia feito ou prometido para que as pessoas agissem assim às suas costas, ao que Deus, rindo falou: "Nada Fiz, é apenas a eterna incongruência da humanidade", e o tinhoso desistiu da sua igreja e nunca mais se falou nisso.

Somos todos incongruentes, kamikases do amor, loucos de ciúmes, nostálgicos, do contra, e tudo isso dói pra caralho.


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Comentários
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meninabeterraba   |09-07-2007 12:29:28
Gostei do seu escrito.....sobre a essência dele.....do amor.
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