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O Marquês (IV) PDF Imprimir E-mail
Manuscritos
Escrito por Rodrigo Monzani   
quarta, 28 de novembro de 2007
"Se Eva perdeu a humanidade comendo um fruto, a atitude inversa, o olhar um fruto sem comê-lo deve ser a que salva."
Simone Weil
Leçons de philosophie (1933-1934)

Na primeira inspiração de ar dentro do salão, Granier notou que algo não estava certo. A atmosfera não podia estar em ordem. Na indumentária de rostos, cadeiras, mesas, algumas venezianas puídas e antigas, esse véu tecido com milhares de fios, faltava o fio de ouro. Granier não sentia nada, nada do que fazia dele o maior farrista da Terra quando se retirava unicamente para as cartas em grutas afastadas da cidade; e durante seus últimos treinos esse fio ficara nele tão forte que Granier já percebia sua ausência quanto mais caminhava, passando pelas lojas arrastando os pés, vencendo a ladeira da Igreja e aquelas dos bairros vizinhos.

Muitas vezes ele ficou parado, apoiando-se na parede de uma casa ou comprimindo -se num canto escuro, com os olhos cerrados, a boca semi - aberta e as narinas infladas, quieto como um peixe em caça em águas rasas, escuras, a escorrer lentamente. E se, por ventura, uma lufada de ar lhe lançava novamente a lembrança do mundo, Willian Granier a trancafiava nos olhos e seguia através das hortas, plantações e antigas ruas a passos lentos, fazendo o possível para esquecer o medo que sentia das imagens de um salão de carteado.

Granier olhava para o mundo como um cego, não, não como um cego, pois estes ainda contam com olhos da mente e do cérebro, mas o cérebro de Will parecia ter se originado dos olhos, e não os olhos do cérebro, o que lhe garantia uma estranha opacidade dos corpos e a perda do olho da mente, obstáculo, agora percebia ele, para que pudesse se sentir liberto, oportuno e racional. Sem tal oportuna liberdade da razão, Granier não passava de um ser corpóreo, finito, perecível e medíocre; e sabia disso pela natureza febril, veloz com que o mundo se abria a sua frente, a luz desprendendo dos seres, de maneira tenuíssima, imagens tão sagradas que ele apenas as poderia temer. Por causa, ou talvez apesar de seu medo, Will tenha, passivamente e por prazer, se afastado em seu simulacro mentiroso e pessoal, criando para si uma imagem de si mesmo, para a qual ele poderia olhar com a mesma insatisfação que sentia pelo mundo, mas cuja aparição não lançava terror em seu espírito.

Willian Granier queria o pôquer de maneira aguda, intensa e ardente; seu olhar não poderia ser apenas clarividente, mas também desejoso, orgânico... essa foi a falta que sentiu ao, pela primeira vez, inspirar o ar dentro de um salão de carteado. Era, para ele, um universo onde as forças de atração e repulsão se anulavam, se contrapondo algumas vezes ao seu objetivo de estar ali: a paixão. Obviamente poderia aprender algo nestes salões, mas a paixão nutria sua genialidade, era sua linguagem da vontade e da força, antes de ser órgão do conhecimento. Pensou que, talvez, estivesse muito atento, pois a atenção tudo sacrifica para poder ver e saber, mas sem a luz desta atenção, sua vontade se esvaía em veleidade, submergindo-o num mar de ilusões excitadas por um ego só preenchido dele mesmo, Willian Granier, o maior jogador de pôquer da história, condenado à prisão dentro de si até a expiação.

Naquela noite escura de maio, aprendera que somente sua atenção o resgataria desse cativeiro. Por um instante sentiu-se um militante de si mesmo, disposto a libertar Willian Granier de Willian Granier, e o resultado seria o maior dos subprodutos de sua razão: um grande animal selvagem. A razão coisificava seus prazeres e paixões pelas cartas de baralho e lhe dava um sentido estético; mas ele apenas poderia admitir sentir tais prazeres e paixões admitindo antes suas instâncias próprias de um animal, pois ao negá-las Willian Granier se tornava incapaz de compreender a totalidade de sua arte, a totalidade da arte que somente é totalidade de corpo e alma.

Granier, consciente destes pensamentos, tremia. Assaltou-o o desejo de desistir dos seus projetos, perder-se na noite e afastar-se dali. Cruzaria montanhas nevadas sem descanso, correria entre as matas até a cidade vizinha, se arrastaria para alguma velha gruta abandonada, e lá dormiria, comeria corvos e morcegos congelados na neve, seria como lenta agonia tal asfixia interna, até que o anjo cego da morte levasse dele o medo.

Granier não seria, porém, Granier se a sensação fatalista o tivesse dominado e satisfeito por um longo tempo. Para isso ele possuía uma vontade de auto-afirmação demasiado persistente, sua animalidade, um modo de ser muito elaborado num espírito selvagem. Sem roubar-lhe o caráter, seria preciso controlar a fugacidade que existia na idéia de desistir, então contentou - o voltar ao seu amontoado de tábuas, caminhando rápido a passos largos seguindo os focos da luzes. Morava numa área alagadiça, mal cheirosa e convencida de seu fracasso nos subúrbios dos campos de Bradford A. Greenwood. Esse lugar, o ponto mais distante das pessoas na cidade, encontrava-se no maciço central de uma planície, cerca de cinco dias de viagens ao sul até a próxima cidade, perto do cume de um vulcão que se erguia crepuscularmente céu adentro. A área consistia num enorme cone de rocha cinzenta e estava rodeada por um antiplano infinito, parco de vegetação onde só crescia musgo cinza e capoeira cinzenta, da qual, aqui e acolá, afloravam pontas marrons de rochas como dentes podres e algumas árvores carbonizadas por incêndios. Mesmo à luz do dia essa região era tão irremediavelmente antieconômica que até o mais pobre pastor não teria conduzido até ela suas criações. E à noite, sob a pálida luz da lua, em seu ermo abandonado, o local parecia não mais pertencer a este mundo.

Ao chegar, Will depôs o corpo e, como que petrificado pelo sentimentalismo de seus pensamentos, ficou ainda acordado por algum tempo que lhe pareceu enorme, até que o último espúrio da razão parasse de espetar-lhe as retinas. Ficava olhando com os olhos arregalados a sua frente e via seu crânio no reflexo do espelho, tão vazio quanto ele mesmo. Então, caído de lado, de um momento para outro afundava num sono como que narcotizado. No mesmo momento, o próprio Granier interno adormecia e seu sono era tão profundo quanto o do Granier externo, pois os feitos hercúleos e os excessos de um esgotavam igualmente o outro.

No entanto, não acordava refeito de si ou do sono dos justos, mas tão somente no abrigo de tábuas e pedras ao final dos campos onde morava, sobre o solo duro, na escuridão. E sentia-se mal, com fome e sede, calafrios e mal - estar por sentir medo dos lugares onde residia sua ambição. Saía se arrastando até a porta.

Lá fora era uma hora qualquer do dia, em geral acordava à noite com a claridade da lua gotejando em algum local escorregadio de sua cabana. O ar lhe parecia poeirento e asfixiante, a paisagem dura, ele se machucava nas pedras. E mesmo as imagens mais suaves lhe atingiam com força os olhos, corrosivamente, desacostumado que estava ao mundo. Era como se andasse exposto e desnudo, indefeso.

Ia até o local da água, lambia a umidade da parede. Isso era uma tortura, o tempo não tinha mais significado, o tempo não tinha mais fim num mundo real que lhe queimava as retinas. Arrancava pedaços de musgos e líquens das pedras, engolia-os e corria ao redor da cabana como um urubu que voa em círculos ao redor da presa agonizante, sabendo que a satisfação, ainda que tardia, é ainda uma satisfação.

Deitava-se contra suas tábuas caídas, abria os braços e ficava esperando. Tinha agora de manter o corpo bem quieto, bem quieto como um tonel que, por excesso de movimento, ameaça transbordar o Granier interno para fora, se perdendo sem rastro, sem vestígio, num espiral ascendente dentro da noite, enquanto o Granier externo permaneceria aterrorizado no escuro.

Pouco a pouco conseguia controlar a respiração, seu agitado coração agora batia menos excitado. E de súbito a solidão caía sobre seu ânimo tal qual negra superfície de espelho, enquanto cerrava os olhos. Abriam-se os morosos portões de seu interior, e Granier entrava, reiniciava o mesmo espetáculo em seu teatro particular, tão bruscamente quanto luzes acesas no escuro e ele sentia esta simplicidade como uma salvação.

Assim passaram dias, semanas, meses e depois, um ano inteiro. Durante esse tempo, transcorria uma guerra no mundo exterior, uma grande guerra. Combatia-se na Silésia e na Saxônia, em Hannover e na Bélgica, na Boêmia e na Pomerânia. As tropas dos reis morriam em Hessen e na Westfália, nas Ilhas Baleares, na Índia, no Mississipi e no Canadá, isso se não tivessem sucumbido ao tifo durante o percurso. A guerra ia custando a vida de massas aos reis, seus reinados coloniais e tanta podridão aos países que, por fim, a lamentaram e a terminaram.

Foi quando Willian Granier desejou voltar a um salão de carteado.


Leia outros textos deste autor ou coluna:

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As invenções da imprensa (na Copa)
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O Marquês (IX)
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Comentários
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Virginia   |04-12-2007 20:32:31
Por uns momentos me senti o próprio Willian Granier tal a força descritiva do conto.
Remeteu-me aos grandes dramas psicológicos bem ao estilo de Poe. Gostei muito.

Abraço
Virginia
Rodrigo Monzani   |05-12-2007 17:07:54
Olá, Virginia.

Fico feliz que tenha gostado do texto. Talvez a melhor maneira de descrever a lucidez seja através de suas apreciações negativas.

Obrigado pela bondade de seu comentário. Essa é a quarta parte da história "O Marquês" e espero contar com sua atenção nos demais capítulos também.

Abraço,
Rodrigo.
Virginia  - O Marquês   |05-12-2007 18:42:52
Olá, Rodrigo

Vou procurar as as outras partes para ler e entender melhor a situação do pobre William Granier. Quanto ao comentário, não foi bondade, seu texto é que rico em detalhes ao mostrar o lado sombrio de uma batalha interior, já perdida desde o começo.

Uma dúvida curiosa: Será que Eva, no seu "ato insensato", ao cair em tentação, nos pôs mesmo a perder? ou ela, ao comer o fruto deu-nos apenas a chance de obtermos um conhecimento mais profundo?

Um abraço
Virgínia
Eduardo Hostyn Sabbi   |06-12-2007 03:23:09
avatar A figura dos mundos interno e o externo de Granier me reportou à minha comatosa passagem pela UTI. Acreditem, é mais ou menos assim ... Também fiquei com a vontade de ver os textos anteriores. Vou dar uma passada na sua coluna para lê-los.

Com relação à Eva, recomendo a leitura da fábula presente no primeiro capítulo do livro "A Assustadora História do Sexo", de Richard Gordon.

Um abraço.
Rodrigo Monzani  - Ato Insensato?   |06-12-2007 15:23:34
Virginia, penso que a fraqueza, antes de ser humana, seja um dilema vivido pelo próprio Criador. A reação de Eva ao comer o fruto foi perceber que, pela primeira vez, estava nua. Até o seu ato, foi-lhe impossível tal constatação, pois nada justifica seu estado, sua existência, sua condição por si só, para tanto há necessidade de antinomia (no caso de Eva, sua primeira percepção de existência é exatamente o que se designou \\\\\\\'pecado\ 2;\\\\\'). Eva se perceberia nua, ou ainda, seria capaz de constatar qualquer indício de realidade dentro e fora de seu corpo caso não comesse o fruto? Em caso negativo, existiria alguma realidade na existência de Eva? Por que não foi capaz de pensar sua existência, reconhecer sua nudez, antes de comê-lo? Se esta capacidade de perceber-se real, ou seja, a capacidade de existir (penso, logo existo) for reconhecida como conhecimento, então temos uma possível resposta para sua dúvida, Virginia.
Esse
contraponto (Existiria o Bem Sem o Mal?) norteia decisões, ações, pensamentos e veleidades humanas nas mais diversas formas; e penso ser através dessas ações e pensamentos que alcançamos um conhecimento mais profundo, não limitado às descrições, hipóteses, conceitos, teorias, princípios e procedimentos que são ou úteis ou verdadeiros, mas que nos permite conhecer a nós mesmos e aos outros. E existiria mais saborosa mentira que afirmar que conhecemos a nós mesmos?

Eduardo, não encontrarás os três primeiros capítulos de “O Marquês” na coluna Manuscritos, mas somente clicando no link do meu nome, em meus textos. Fico feliz por você também ter deixado aqui sua impressão.

Abraços!
Virginia     |06-12-2007 20:24:30
Rodrigo,

valeu pela resposta. Li os textos anteriores e já me sinto ansiosa pelos próximos. Will Granier, no final das contas, não é tão pobre coitado assim quanto eu imaginei... Adorei. Mas,'penso... logo existo"?

Eduardo.
vou procurar o livro e ler a fábula que recomendaste. (Ai, meu Deus, onde fui me meter... Eva e sua folha de parreira...)

Até mais aos dois
Virginia
Rodrigo Monzani  - E pensar que tudo começou numa mordida..   |07-12-2007 18:39:51
O interessante sobre essa expressão de Descartes, penso, logo existo, que serve para explicar a descoberta de sua humanidade por Eva, é que ela denota um profundo ceticismo, algo totalmente contrário à submissão a Deus, ou a dogmas, e serve para, ao seguirmos essa linha de filosofia, negar a existência/necessidade da religião. Não é de se espantar que a Igreja Inquisitiva tenha colocado as obras de Descartes em seu índice de livros proibidos.
Nada existe se, antes, não pode ser pensado. Essa é outra maneira de dizer a famosa expressão cartesiana. Sua intenção não é afirmar que somente entes capazes de gerir pensamentos é que existem, mas que a existência deve passar por uma condição primordial: ser pensada. Assim como a descoberta da nudez por Eva, é algo que somente se explica no plano subjetivo: eu não existiria para você, caso você não pensasse em mim, não fizesse considerações ou não ponderasse que, em algum lugar, eu existo. Descartes era também matemático, daí essa sua visão
analítica da existência, uma visão que certamente tem suas limitações.

O fato é que essas conversas filosóficas sempre me parecem tão ótimas que não percebo o quanto não o são para as outras pessoas. Desculpe a prolixidade, que é certamente um erro, mas é difícil para um filósofo não falar em filosofia quando o assunto é religião. Na verdade, já me peguei ‘filosofando’ até quando o assunto é futebol, mas essa é outra história...

Até mais.
Eduardo Hostyn Sabbi  - Filosofia   |07-12-2007 19:18:20
avatar Pôxa Rodrigo, esse teu comentário me dá a nítida impressão de que se eu tivesse tido um professor de filosofia como você no segundo grau eu teria aprendido muito mais! Show de bola - já que falaste em futebol :grin. Aliás, um de nossos melhores comentaristas esportivos é também filósofo: Ruy Carlos Ostermannn.
Virginia   |07-12-2007 20:07:43
Rodrigo,
tenho amigos "filosófos" e amigos formados com mestrado e doutorado em filosofia e sei bem como é... mas eu gosto dessas conversas e muito me animo com elas e costumo "encher" meus amigos, crivando-os de perguntas. Quero sempre ir mais fundo. Essa tua explicação da frase de Descartes, essa nossa conversa informal levou-me a ler mais sobre este matemático-filósofo. Em questões filósoficas é filosofia oriental, na verdade, a que mais me interessa (Rumi, Ibn Irabi, Al- Gazzali...)entretanto tenho compreendido minha necessidade de explorar mais os conceitos da matemática e da fisica, leiga e ignorante (burra mesmo) que sou nesses assuntos.
Obrigada por mais um esclarecimento interessante. Iria te perguntar mais, porém, sabes como é... uma pergunta leva a outra então, isso não teria fim... Eu também passo horas filosofando comigo mesma.

Virgínia
Virginia   |07-12-2007 20:26:52
Ó Rodrigo, não repara nos acentos que foram parar nos "ós" trocados. Vivo pedindo descculpas por esses escorregões ortográficos. Não deveria, posto que é comum cometer erros, seja na escrita ou na vida, mas, errar, vacilar, me incomoda... e muito.

Abraço
Virginia
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