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O primeiro mate a gente nunca esquece PDF Imprimir E-mail
Parafernália de passagem
Escrito por Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho   
terça, 18 de dezembro de 2007
Tem dessas coisas que a gente não explica, simplesmente acontece, é assim. E o primeiro mate a gente nunca esquece. O meu lembro até hoje. Cuia, bomba e erva. Água chiando na chaleira. Como tem que ser. É isso, o primeiro mate a gente nunca esquece. Tudo bem que eu estava em boa companhia. Papo vai, papo vem, outras coisas foram e voltaram. E por debaixo do vestido da prenda, me deparei com aquele sutiã. Sim, bem lembrado, o primeiro sutiã a gente nunca esquece. Meu dedo prendeu no grampo e segurei o grito de dor com o mate quente. Ah, o primeiro mate a gente nunca esquece. Tudo como em aula inaugural. Aliás, aula inaugural a gente também nunca esquece. Mas também a gente se surpreende. Não é que o bicho resolveu não cooperar?! Ah meu amigo, a primeira brochada a gente nunca esquece. Engoli seco, digo, molhado, com aquele primeiro mate que fiz. Sim, o primeiro mate a gente nunca esquece. Deixei a chinoca em casa e fui para o barranco liberar a tensão. Ali estava minha ovelha querida, companheiraça da primeira viagem. E nem te conto, mas a primeira ovelha de barranqueio a gente nunca esquece. E tome mate. Água ainda quente na térmica. O primeiro mate que a gente nunca esquece. Mas dali segui o rumo, ainda irritado e sem entender como tudo aquilo se assucedeu. Coisa difícil de gaudério algum aceitar. Sai amolando a faca na rua quando cruzou por mim um vivente me olhando debochado. Estraguei o fio nas tripas dele. Foi uma sangueira de dar dó. Meu primeiro crime. E primeiro crime a gente nunca esquece. Guardei a faca na guaiaca e me detive ao meu mate. Sim, o primeiro mate, aquele que a gente nunca esquece. Agora eu tava tranquilo, de alma lavada, de vermelho forte. Foi quando chegaram os homens, de camburão e tudo. Se aproveitaram da minha energia gasta e foram logo me levando prá delegacia. Uma noite inteirinha trancafiado numa cela. A primeira prisão a gente nunca esquece. Era só eu, o colchão de mola e, obviamente, o meu mate. Porque o primeiro mate a gente nunca esquece. Mas explicar o quê quando chegar em casa? Fui logo dizendo: amnésia. Não recordo de nada, não aconteceu nada. Isso na minha mão? Ah sim, isso eu não esqueço (pausa para um mate). Porque o primeiro mate a gente nunca esquece ...


--
*Este conto gerou outro, “O primeiro mate a gente nunca esquece II”, de Afonso Santana.


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Comentários
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Betina Mariante  - Mate!   |19-12-2007 04:09:57
Eduardo!

Como fazemos na aula...
Gostei do texto, muito! Divertido, bom de ler, fluente. A linguagem boa, bem típica ("ovelha de barranqueio"...), lúdica. Muito bem escrito, dá vontade de ir seguindo adiante, não dá vontade de parar de ler, a cada frase se tem vontade de entrar mais no texto, a leitura prende até o final. E a frase refrão vai costurando o texto. Tem cenas muito boas, engraçadas, e está muito visual. Parabéns, ficou show! O enredo achei ótimo! Deu pra render o fato do primeiro mate de forma original e inusitada, muito bom!!

A caneta saiu voando dessa vez, hein!!!!!

Buenos Dias, tché!!!
Betina
Virginia   |19-12-2007 07:56:07
Eduardo,
impagave, otimo mesmo, como sempre, fico aqui,imaginando estas situaçoes... e rio, rio muito... e te agradeço por isso.

Um abraço, um não,dois...
Virginia
Eduardo Hostyn Sabbi   |19-12-2007 12:48:26
avatar Obrigado gurias (gíria gaudéria). Confesso que a repetição de "o primeiro a gente nunca esquece" me deu medo de tornar o texto cansativo. Mas parece ter funcionado bem.
Maria Sarti  - Mate   |20-12-2007 05:21:13
Mas bah! Agora entendo porque fiquei tão feliz quando me aceitaram no Simplicissimo. Ler seus escritos me é familiar o mesmo tom,enredo,discurso... Você é fantástico. Parabéns!
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